Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.
Embora a geopolitica nacional dos anos 90 surja, na memória de quem viveu aquela época, quase monopolizada pela violenta guerra da independência de Timor-Leste, aquela ilha do Pacífico estava longe de ser o único território lusófono a enfrentar problemas internos; também Angola vivia, já desde a descolonização, um sangrento confronto entre o governo oficial do Movimento Popular Para a Libertação de Angola (MPLA) e as forças guerrilheiras da União Nacional para a Independência Total de Angola, ou UNITA (sigla que, aliás, ficaria para sempre gravada na mente de toda uma geração, talvez por fazer lembrar a de duas entidades diametralmente diferentes do partido guerrilheiro em todos os âmbitos, mas de acrónimos muito parecidos - a UNESCO e a UNICEF). Esta guerra civil, que se provara de difícil resolução durante a década anterior, chegaria, no entanto, a bom porto logo no início da década de 90 – concretamente, a 31 de Maio de 1991, quando representantes dos dois partidos angolanos assinavam, na Escola Superior de Hotelaria de Lisboa, na vila de Bicesse, perto do Estoril, os acordos com o mesmo nome, que oficializavam a paz em Angola.
Sob o olhar atento de testemunhas da Segunda Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola (UNAVEM II) e do então Secretário de Estado dos Assuntos Externos e Cooperação (e futuro Primeiro-Ministro) Durão Barroso, o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, e o líder rebelde Jonas Savimbi assinavam, um acordo qjue estipulava a realização das primeiras eleições multipartidárias da História daquele país lusófono, e integravam os exércitos guerrilheiros nas Forças Armadas oficiais angolanas, as quais receberiam formação das suas homólogas portuguesas. Estas directivas seriam, posteriormente, reforçadas por outro acordo, assinado em Angola – o Tratado de Lusaca.
Acabou, no entanto, por durar pouco este entendimento, que seria dissoluto unilateralmente pela UNITA pouco mais de um ano depois, quando o partido de Savimbi repudiou os resultados das eleições presidenciais estipuladas pelos Acordos, lançando Angola para uma nova guerra civil, a qual apenas viria a terminar com a morte de Savimbi, em 2002. O sucessor, Paulo Lukamba Gato, provou-se bastante mais moderado, e acabaria mesmo por ratificar a paz definitiva através do Memorando de Entendimento do Luena, ainda nesse mesmo ano. Ainda assim, e apesar de em última instância se terem revelado um fracasso, os Acordos de Bicesse não deixaram de ser um dos mais importantes marcos da política externa portuguesa de finais do século XXI, e o esforço de Durão Barroso, da ONU e dos governos americano e russo (num raro momento de cooperação) merecem ser recordados, a poucos dias de se assinalarem os trinta e cinco anos da reunião em 'território neutro' entre a UNITA e o MPLA, para discutir um plano bem-intencionado, mas que acabaria por não 'dar certo'.
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