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Tuesday, 22 September 2026

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o panorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos – Jorge Palma, vitimado por um ataque de coração na sua casa em Lisboa, pouco mais de dois meses após ter celebrado o seu septuagésimo-sexto aniversário.

Ainda que associado sobretudo à cena musical portuguesa dos anos 80, em que viveu o seu período de maior sucesso, o cantautor lisboeta (nasceu na Penha de França) teve, ainda assim, papel preponderante no 'boom' do pop-rock nacional que se prolongou até finais da época seguinte, na qual participou enquanto membro do super-grupo RioGrande e, mais tarde, da 'continuação', denominada Cabeças No Ar. Ainda antes, em inícios da década, foi peça fulcral na criação e abertura do Johnny Guitar, principal bar de 'rock' da Lisboa da época, no qual actuava frequentemente com o seu outro super-grupo, Palma's Gang, fundado juntamente com elementos dos Xutos e Pontapés e Rádio Macau. Pelo meio, logrou manter o ascendente na carreira a solo, tendo o seu trajecto nos anos 90 sido coroado com uma série de exibições no recinto da Expo '98, hoje Parque das Nações. O sucesso prolongar-se-ia, aliás, até aos dias que correm, datando o último álbum de 2023, e tendo Palma sempre sido merecedor do mesmo respeito que lhe vem sendo demonstrado nas horas desde a sua morte. Que descanse em paz.

Monday, 27 July 2026

Segundas de Sucessos: Em Memória de Luís Represas (1956-2026)

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Há pouco menos de uma semana, o panorama da música portuguesa viu-se, infelizmente, deprivado de mais um dos seus grandes nomes – um músico conhecido tanto da Geração X como dos 'millennials', embora por razões diferentes, e cujo contributo para o panorama musical nacional é absolutamente inegável. Falamos de Luís Represas, o cantautor de quem já aqui anteriormente falámos 'de passagem' mas a quem nunca prestámos verdadeiramente homenagem – algo que fazemos agora, como forma de assinalar o seu falecimento, aos apenas sessenta e nove anos de idade.

Membro da geração 'construtora' do pop-rock português moderno, e contemporâneo de nomes como Tim ou Jorge Palma, além de membro fundador dos seminais Trovante, Luís Represas deixaria a sua marca de forma algo mais abertamente 'comercial' que estes, sabendo sempre envolver as suas mensagens muitas vezes contestatárias em 'embalagens' musicais acessíveis e prontas para o 'airplay' radiofónico, sempre com a sua característica e distintiva voz como elemento principal. Tendo em conta este aspecto da sua música, não deixa de ser curioso que o seu segundo maior sucesso tenha surgido em forma de dueto, no caso com o congénere cubano Pablo Milanés, com quem grava a imortal e arrepiante 'Feiticeira', demonstração cabal do poder vocal de ambos os intérpretes, e que, juntamente com o hino de solidariedade com Timor-Leste, 'Ai Timor', constitui a música mais conhecida da carreira do arista.

Com nome estabelecido ainda antes da gravação do primeiro álbum a solo, não era difícil a Luís Represas notabilizar-se no meio musical português, tendo o cantautor rapidamente adquirido um estatuto que lhe permitia apresentar programas na RTP ('A Música DosOutros', do qual já aqui anteriormente falámos), ser convidado para interpretar missas em ambiente solene, gravar retrospectivas de carreira com orquestras sinfónicas, compôr 'jingles' para campanhas de solidariedade (a contagiante 'Quero Uma Casa Deste Tamanho', gravada para uma iniciativa da Swatch em 2002) ou mesmo escrever um livro infantil! Isto, claro, além dos nove álbuns de originais e inúmeras colaborações com músicos de relevo dos PALOPS que efectuou ao longo das suas três décadas de carreira a solo, que chegaram abruptamente ao fim no passado dia 22 de Julho, menos de dois anos após o lançamento daquele que acabaria por ser o seu registo de despedida, 'MIRAGEM'. Que descanse em paz.

Tuesday, 14 July 2026

Terças de TV: Os Trinta e Um Anos do Primeiro 'Reality Show' de Um Cantor

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

No início dos anos 90, quando os 'talk shows' eram um género ainda relativamente inexplorado na televisão portuguesa, não era de todo invulgar ou estranho ver ser dado a uma personalidade de outro campo do entretenimento o seu próprio 'tempo de antena' enquanto anfitrião de um programa de entrevistas e variedades; o próprio Herman José fazia, nesta altura, a transição para esse género, ao mesmo tempo que Fátima Lopes cimentava os trâmites do que viria a ser o padrão do mesmo para as três décadas seguintes. Em meio a tudo isto, e ainda antes de Marco Paulo se aventurar nesta área, um outro cantor popular tomava as rédeas da sua própria emissão homónima, cujo primeiro episódio estreava há quase exactos trinta e um anos (a 13 de Julho de 1995).


Falamos de Roberto Leal, o luso-brasileiro que fez carreira algures entre a música romântica e o género 'pimba', 'derretendo' os corações de boa parte de Portugal durante as décadas de 80 e 90, e que, em 1995, se encontrava ainda suficientemente 'em alta' para a proposta em causa não ser tão arriscada como se poderia esperar – até por o foco ser, naturalmente, colocado na música, com os convidados a inserirem-se quase totalmente nesse campo. O formato, esse, era o habitual, com entrevistas um-para-um e, em cada programa, até dois interlúdios musicais, a cargo de um dos três convidados – os quais, para crédito da RTP, não se inseriam todos no género popular comercial, havendo lugar a artistas de fado e grupos de música tradicional, entre outros.

A verdade, no entanto, é que, apesar do 'nome sonante' ao leme, e do gabarito dos convidados, 'Roberto Leal' (o programa) nunca conseguiu captar a sua audiência, talvez pela disparidade entre o meio musical do apresentador e o dos convidados, muitos deles surpreendentemente 'eruditos' para o tipo de emissão em causa, e quiçá desfasados do que o público fã de Leal procurava ver; ou talvez o interesse por este tipo de programa, simplesmente, não fosse muito. Fosse qual fosse o motivo, a verdade é que a experiência 'Roberto Leal' durou escassos três meses no ar, datando a última emissão de 19 de Outubro; não se pode, no entanto, culpar a RTP, que via num programa deste tipo todos os ingredientes para o sucesso, o qual, infelizmente, acabaria por nunca se materializar. Ainda assim, vale a pena recordar esta espécie de 'ensaio geral' para o posterior programa de Marco Paulo, menos de vinte e quatro horas após se terem assinalado os trinta e um anos da sua primeira emissão.

Tuesday, 30 June 2026

Segundas de Sucessos: Trinta Anos da Estreia de Uma Banda Tudo Menos 'Primitiva'

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 29 de Junho de 2026.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

A 'explosão' do pop-rock de atitude alternativa vivida em Portugal durante as décadas de 80 e 90 permitiu não só que bandas de teor mais radiofónico criassem 'hits' imortais que integrariam 'playlists' durante décadas, como também que propostas mais arrojadas e experimentais encontrassem o espaço de que necessitavam para explorar a sua sonoridade. Talvez o maior exemplo desta vertente – e uma das principais bandas experimentais da História da música portuguesa – fossem os Primitive Reason, banda multi-nacional da musicalmente fértil zona de Cascais, na Grande Lisboa, cuja ecléctica e assumida mistura de estilos fez com que causassem furor aquando do lançamento do seu álbum de estreia, que celebrou há cerca de seis semanas o seu trigésimo aniversário.

Formada em 1993 por três amigos de infância – um espanhol, um português e um britânico – e com a formação original composta também por um americano e um suíço, a banda destacou-se, desde logo, pela junção das várias influências dos seus membros num todo que poderia ser uma verdadeira 'salada de frutas' mas que, de algum modo, se afirmava coeso e apelativo. Partindo de uma base alicerçada no 'reggae' e 'ska', o quinteto adicionava-lhe doses substanciais de rock, punk e metal, bem como pitadas de 'jazz' e 'afro', criando um som distinto, inqualificável, e que não podia deixar de tornar o álbum de estreia, 'Alternative Prison' (lançado a 15 de Maio de 1996) num sucesso entre o público jovem consumidor de música, então composto sobretudo por membros da 'geração X', bem como junto da crítica, tendo mesmo sido premiado como Álbum do Ano pelo mítico jornal Blitz, então referência máxima da imprensa musical em Portugal. Temas como 'Seven-Fingered Friend' (o mais conhecido da banda, e muito lembrado também pelo seu 'videoclip') ajudavam a banda a estabelecer-se como uma das mais entusiasmantes da segunda vaga de 'pop rock' português moderno, e lançavam-nos para uma carreira que, apesar de alguns 'altos e baixos', lograria ultrapassar a marca das duas décadas.

A banda não tardou, aliás, em dar seguimento a este sucesso, com o segundo álbum, 'Tips & Shortcuts', que expandia ainda mais o leque de influências da banda (incluindo mesmo secções 'rappeadas') e que contava com uma produção muito superior à do primeiro álbum, a cargo da 'lenda' da produção discográfica nacional Marsten Bailey. Por entre tributos a NOFX e músicas cantadas pelo baterista, os Primitive Reason davam um enorme passo em frente, o qual, apesar de causar menos 'furor' que o primeiro, se afirmava tão ou mais importante para a progressão da banda.

Quando tudo parecia correr bem, no entanto, dá-se a inevitável convulsão: com a banda já radicada nos EUA, país de origem do saxofonista Mark Cain, o mesmo e outros dois membros (incluindo o vocalista Brian Jackson) abandonam a banda, deixando ao baixista Guillermo de Lara e ao baterista Jorge Felizardo o ónus de completar o terceiro álbum. Para seu crédito, o duo não desiste e, com ajuda de conhecidos da cena nova-iorquina, apresenta, em Julho de 2001, 'One Of Us', um álbum que, naturalmente, apresenta maior ênfase na vertente rock e punk do que os seus antecessores. Nos anos subsequentes, os dois elementos restantes viriam a reformular a banda, e prosseguiriam carreira, ainda que de forma bastante mais discreta, durante cerca de uma década e meia, lançando nesse período três álbuns, quatro EP's e uma colectânea, além de verem reeditados os seus dois primeiros registos.

É, pois, apenas em 2015 que se verifica a dissolução total da banda, a qual permanece extinta durante mais de dez anos antes de – por ocasião do supramencionado aniversário de 'Alternative Prison' – o trio original se juntar mais uma vez em palco, pela primeira vez desde 1998, para dois concertos comemorativos no festival Lisboa ao Vivo e no mítico Hard Club, no Porto. Fica, assim, aberta a porta para uma potencial reunião (ou, pelo menos, um reatar de carreira) para aquela que foi uma das bandas mais personalizadas e instantaneamente reconhecíveis da cena portuguesa de finais do século XX.

Tuesday, 26 May 2026

Segundas de Sucessos/Terças de TV: Uma 'Selecção' Que Não Correspondeu Às 'Esperanças'...

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 25 de Maio de 2026.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Já aqui em ocasiões anteriores falámos dos vários programas de talentos surgidos na televisão portuguesa durante os anos 90 e 2000, e que ajudaram a criar o precedente para o posterior sucesso de conceitos como 'Ídolos' ou 'Factor X'; esta semana, em mais um 'post' duplo, recordamos outro dos pioneiros deste género de emissão, o qual, como muitos outros exemplos surgidos na 'senda' do sucesso de 'Chuva de Estrelas', nunca logrou ser tão conceituado ou recordado como este.



De facto, 'Selecção de Esperanças' (nome que 'brinca' com a designação dada à época à Selecção de futebol masculino sub-21) pode quase ser considerado como a resposta da RTP ao referido programa, já que – como aquele – se centra na demonstração de talentos vocais dos concorrentes de cada programa, cujas prestações são avaliadas por um júri especializado, num formato muito semelhante ao do programa da SIC. É, pois, incerto o motivo para a pouca projecção da 'Selecção' da RTP por oposição à 'Chuva' de audiências que a rival de Carnaxide conseguira com a sua versão do programa. Seja qual fôr o motivo, no entanto, a verdade é que 'Selecção de Esperanças' se encontra, hoje, algo 'Esquecido Pela Net', ainda que vários dos seus episódios constem ainda dos arquivos digitais da RTP, onde podem ser visualizados e recordados por quem, efectivamente, se recorde do breve período em que foram ao ar, a partir de Maio de 1995.

Talvez como consequência da falta de interesse do público em geral, a RTP não voltaria a produzir um programa deste tipo durante as décadas seguintes, deixando futuras tentativas para as concorrentes privadas, e re-entrando na 'arena' apenas já no Novo Milénio, desta vez com resultados bem mais satisfatórios. Quanto a 'Selecção de Esperanças', o seu principal legado é o de ter sido um dos pioneiros de um género então ainda embrionário na televisão portuguesa, o qual, tal como grande parte dos internacionais jovens de futebol, não logrou demonstrar o potencial que demonstrava aquando da sua estreia, há quase exactos trinta e seis anos...


Monday, 4 May 2026

Segundas de Sucessos/Terças de TV: Vinte e Cinco Anos de Um 'Teste' Relativamente Bem Sucedido

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 04 de Maio de 2026.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

De entre as muitas novas tendências que vieram alterar a forma de fazer televisão um pouco por todo o Mundo em inícios do Novo Milénio, os concursos de talentos estiveram entre as que maior impacto tiveram, com o sucesso imediato dos vários formatos regionais e nacionais a tornar este género ainda mais viável do que antes, e a motivar a criação de inúmeras variantes do mesmo conceito. Portugal não foi excepção a esta regra, com dois programas nacionais de inícios dos anos 2000 a procurarem recriar o sucesso do 'pioneiro' 'Chuva de Estrelas'; e se um deles fica já fora do âmbito deste nosso 'blog' (pelo menos por agora), o segundo merece algumas linhas, poucos dias após se ter celebrado o quarto de século sobre a sua transmissão, em Abril de 2001.

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Versão localizada mas absolutamente fiel do conceito padronizado e replicado em diversos países do Mundo, o 'PopStars' português visava criar um grupo 'pop' inteiramente feminino, o que, por um lado, limitava o seu espectro no tocante a audições de aspirantes a artistas sem, no entanto, deixar de gerar as emoções e drama que os mais 'leigos' esperariam de um formato deste tipo. Para o efeito, foram levadas a cabo audições em quatro das principais cidades portuguesas (as 'duas capitais' e ainda Leiria e Coimbra) tendo mais de doze mil jovens entre os dezoito e os vinte e cinco anos tido oportunidade de mostrar os seus dotes vocais, com vista a integrar o grupo idealizado pelo projecto- tarefa que se revelava quase impossível, dado que apenas estavam disponíveis cinco vagas.

Curiosamente, das cinco finalistas, uma esteve em riscos de não integrar o programa, dado ser ainda menor de idade; felizmente para Liliana Almeida, o último dia de audições (em Lisboa) coincidia com o seu décimo-oitavo aniversário, permitindo-lhe realizar o seu sonho (ainda que 'à rasquinha') e juntar-se a Andrea Soares, Ana Rita Reis, Fátima Sousa e Kátia Moreira para formar as NonStop, que viriam a ter 'a' música daquele Verão, 'Ao Limite Eu Vou', retirada do seu primeiro álbum, gravado em questão de meses. Era o primeiro passo da bem-sucedida carreira daquela que era, para todos os efeitos, a versão lusitana de grupos como Hear'Say ou Eden's Crush, vencedoras das versões britânica e americana do programa, respectivamente, bem como uma digna sucessora de grupos como Excesso, D'Arrasar e Santamaria.

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Apesar do relativo sucesso do formato e do 'produto' final, no entanto, a localização portuguesa de 'PopStars' não iria além dessa única temporada, por contraste aos supracitados países, onde teria ainda várias e bem-sucedidas sequelas; a SIC teria, assim, de esperar ainda um par de anos para descobrir a sua verdadeira 'galinha dos ovos de ouro' no campo dos 'reality shows' musicais, que se mantém no ar até aos dias de hoje, vinte e três anos após a sua primeira emissão. Quanto a 'PopStars', apesar da sua curta vida, continua ainda hoje a ser lembrado (seja com nostalgia, ironia, ou ambas) por quem era de uma certa idade nos anos de viragem do século e Milénio, tornando mais que óbvia a sua inclusão nas páginas deste nosso 'blog' nostálgico, um quarto de século após a sua breve mais memorável passagem pelas ondas aéreas portuguesas.

 

Monday, 20 April 2026

Segundas de Sucessos: Vinte Anos de Uma Estreia 'Fadada' Ao Sucesso

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


O fado (esse estilo de música tão parecido com tantos outros 'lamentos' musicais ao redor do Mundo, mas ainda assim diferente de todos eles) tem sido, ao longo dos últimos séculos, um dos principais elementos da identidade nacional, a ponto de ser um dos identificadores imediatos da 'Portugalidade' junto dos turistas. E se Amália Rodrigues continua a ser a maior referência do estilo (sobretudo junto dos sobreditos turistas) as últimas décadas têm visto outros nomes almejar um lugar na lista de 'grandes' do fado, ao lado da eterna diva e de 'companheiros' como Carlos do Carmo, tendo mesmo alguns deles conseguido cruzar a 'fronteira' radiofónica, através do uso de elementos de fado em contextos mais comerciais, bastando neste caso recordar artistas como Madredeus, Dulce Pontes, ou a cantora que serve de tema a este 'post', Mariza.


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Capa do álbum de estreia da cantora.


Com a sua ascendência luso-africana (a mãe é moçambicana, e a própria artista é natural de Lourenço Marques) e mistura de fado com estilos mais modernos, Mariza posicionava-se, desde logo, como uma espécie de 'Sara Tavares do fado' – e, como esta, viria a gozar de uma longa e decorada carreira, ainda hoje vigente, e que tinha o seu início 'oficial' há exactos vinte anos (a 21 de Abril de 2001) com o lançamento de 'Fado Em Mim', o primeiro registo de originais da cantora. Surgido quase dois anos após a revelação de Mariza ao mundo musical português, ao cantar num tributo póstumo a Amália Rodrigues transmitido em directo, o disco (inicialmente rejeitado por várias editoras dado tratar-se de uma artista inexperiente e desconhecida) viria a pulverizar quase de imediato quaisquer recordes vigentes de vendas para discos de fado, movendo mais de cem mil cópias na sua primeira semana, e eventualmente chegando às cento e quarenta mil após o seu lançamento internacional. Com a sua mistura de fado e outras sonoridades que a haviam influenciado – como a soul ou o jazz – Mariza mudava assim indelevelmente o panorama 'fadístico' nacional, revitalizando o estilo e abrindo caminho a sucessoras como Carminho.



Tal era o sucesso do disco, de facto, que o mesmo seria relançado logo no ano seguinte, numa edição especial acrescida de um disco gravado ao vivo (e que causa alguma confusão nos meios cibernéticos quanto ao ano de lançamento do disco), voltando a almejar grande sucesso tanto junto do público nacional como internacional. Seria, pois, sem surpresas que a carreira de Mariza continuaria 'de vento em popa' ao longo das duas décadas seguintes, tendo-se a artista conseguido afirmar e posicionar como uma das 'porta-vozes' não só do fado como da 'Portugalidade' em geral (foi, aliás, dela um dos temas oficiais de apoio à Selecção Portuguesa aquando de uma competição internacional), posição que retém até hoje, quase exactas duas décadas após uma das estreias mais retumbantes da História da música portuguesa.

Monday, 1 December 2025

Segundas de Sucessos: Blind Zero - Três Décadas a Premir o 'Gatilho'

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


O já aqui muito discutido 'boom' do pop-rock nacional de meados dos anos 90 não teve nas sonoridades mais radiofónicas o seu único expoente; embora as mesmas tenham dominado a 'cena' à época, e sejam hoje associadas com a dita, houve também muitos artistas mais alternativos que souberam 'aproveitar a onda' para se mostrarem a um público mais vasto. Foi o caso, por exemplo, dos Mão Morta, Lulu Blind, e do colectivo que abordamos esta Segunda-feira, e que logrou ter uma das mais auspiciosas carreiras de entre as bandas desta vertente menos comercial.


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Formados em 1994 em torno do vocalista Miguel Guedes, os portuenses Blind Zero posicionavam-se, inicialmente, como o 'representante' português na cena 'grunge' que, então, ainda fazia sucesso um pouco por todo o Mundo. Com esta sonoridade mais pesada e intensa gravam um EP, que esgota em apenas nove dias, e a estreia 'Trigger', ambos há exactos trinta anos. E se o primeiro destes registos se tornou item de colecção, o segundo lançaria mesmo os Blind Zero para a fama nacional, muito graças ao tema 'Recognize', que levou a que o colectivo portuense passasse a fazer parte da colecção de muitos 'roqueiros' nacionais.


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Esses mesmos fãs terão, no entanto, tido um choque quando, logo no ano seguinte, Guedes e seus 'comparsas' surgem com uma sonoridade mais 'calcada' no 'hip-hop' do que propriamente na 'imitação' de Pearl Jam que apresentavam em 'Trigger'. O EP 'Flexogravity' era, inclusivamente, um esforço conjunto com os conterrâneos Mind Da Gap, numa 'jogada' que desassociava definitivamente os Blind Zero da cena 'rock' e 'grunge', gerando controvérsia entre os fãs mas também libertando a banda para fazer aquilo de que realmente gostava: um som de fusão, que marcaria o restante da sua carreira.


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O primeiro 'aperitivo' desse novo som surgiria, novamente, em rápida sequência com os lançamentos anteriores, tendo 1996 visto o grupo lançar um álbum ao vivo na Antena 3 (um 'marco' obrigatório para bandas 'mainstream' portuguesas da época) e articipar num concurso de jovens talentos de âmpbito europeu (que acaba mesmo por vencer com uma nova composição, 'My House') antes de, já em 1997, lançar então o sucessor 'oficial' de 'Trigger', 'Redcoast', que tem a particularidade de ter sido um dos primeiros 'CDs aumentados' ('enhanced CDs') da Europa, apresentando conteúdos multimédia quando inserido num leitor de CD-ROM. Além dessa peculiar distinção, o álbum contava ainda com a produção do famoso Mark Wilder, nos estúdios Sony de Nova Iorque, continuando o percurso declaradamente profissionalizante da banda.


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Após 'Redcoast', o alucinante ritmo de trabalho da banda abranda um pouco, tendo o grupo gravado apenas uma música em 1998, 'The Wire', e tirado os dois anos seguintes para trabalhar no seu próximo álbum, que viria a sair em 2000. Com o título 'One Silent Accident' e produção de mais um nome sonante, Don Fleming, este álbum ajudaria a 'dar o mote' para mais duas décadas de sucesso no Novo Milénio, com direito a mais oito lançamentos, concertos ao vivo na MTV (um dos quais em Milão, na festa de lançamento da MTV Portugal) e mesmo um Video Music Award para Melhor Banda Portuguesa em 2003 – uma distinção que terá, previsivelmente, deixado 'inchado' qualquer fã de 'rock' português, mesmo aqueles que só conheciam o grupo dos seus já distantes primórdios como 'grungers' 'à portuguesa'. E apesar de o último registo da banda datar já de 2017 (com um regresso a sonoridades mais 'rock', pela primeira vez em mais de duas décadas) os Blind Zero continuam 'por aí', a marcar presença e posição nos palcos nacionais, como vêem já fazendo, praticamente sem interrupções e a nível tanto nacional como internacional, há quase exactas três décadas...

Monday, 3 November 2025

Segundas de Sucessos: Camuta - Anatomia De Um Embuste

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Em 1989, o desconhecido grupo franco-brasileiro Kaoma inscrevia permanentemente o seu nome na lista de 'one-hit wonders' contemporâneos após o mega-sucesso da sua versão de uma música brasileira que, por sua vez, nada mais era que uma tradução ou localização (não autorizada!) de uma versão 'cover' da música 'Llorando Se Fue', do grupo boliviano Los Kjarkas. Ou seja, 'Lambada (Chorando Se Foi)' era, na sua base, uma versão de uma versão de uma versão do original de 1981! E porque poucas coisas com o nível de sucesso da referida música conseguem evitar o aparecimento de imitadores e 'cópias' fraudulentas, não tardou até que Portugal tivesse a sua própria versão do tema, a qual conseguia a proeza de ser uma 'cover' em quarto grau (!) da inspiração original dos Kaoma!


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Capa do primeiro álbum de 'Camuta'.


Tal facto está, no entanto, longe de ser a parte mais mirabolante da história de Camuta, que conseguiu a proeza de lançar três álbuns em inícios dos anos 90...sem nunca ter chegado a existir. Isto porque, por detrás do nome em causa escondia-se apenas um homem: Toy, figura mítica da música popular e 'pimba' portuguesa, recrutado pela Discossete para gravar 'às pressas' várias lambadas, com a voz disfarçada e cantando em 'brazuquês', como forma de capitalizar sobre o sucesso do original. E embora Toy surgisse ainda creditado, no interior do álbum, como autor de vários dos temas, a interpretação dos mesmos era atribuída ao fictício 'Camuta', uma designação sob a qual o cantor viria a lançar não só esse primeiro álbum, de 1989, mas um segundo (criativamente intitulado 'Lambada 2') no ano seguinte, e, em 1992, também um álbum de versões de músicas de telenovelas (como 'Tieta' ou 'Rainha da Sucata', que dava título ao disco) desta vez emulando a voz da lendária Fafá de Belém!


Um 'embuste' que, obviamente, apenas seria possível numa época da História bastante mais crédula e inocente, mas que, de algum modo, conseguiu permanecer intocado mesmo após o início da 'era da Internet', tendo sido o próprio Toy a assumir a farsa, primeiro em entrevista à revista VIP e, mais tarde, no fascinante documentário sobre o movimento 'pimba' produzido e exibido pela RTP. Só então quem, à época, tinha adquirido este álbum (provavelmente em 'cassette', num daqueles icónicos expositores existentes nas tabacarias, bombas de gasolina ou estações de serviço do Portugal dos anos 80 a 2000) ficou a saber ter em sua posse o equivalente a um disco 'pirata', (uma espécie de versão portuguesa dos grupos de Frank Farian ou Jonathan King) naquele que ainda hoje se afirma como um dos mais fascinantes 'truques' de 'marketing' da História da música portuguesa.


Monday, 6 October 2025

Segundas de Sucessos: Kussondulola - Trinta Anos de 'Danças'

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


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Antes do kuduro, kizomba e outros géneros musicais afins, havia 'Danças no Huambo' – uma música que misturava 'reggae' aos referidos ritmos africanos, com letra contestatária e anti-colonial, mas que – numa daquelas ironias próprias do mundo das Artes – conseguiu pôr o povo colonizador criticado na música a dançar ao som dela ao longo de largos meses, e catapultar os seus autores (um trio angolano de nome impronunciável e ainda mais insoletrável) para um breve mas memorável período de mega-estrelato.



De facto, em conjunto com a sucessora 'Perigosa' (um tema bem mais de festa, cujo refrão pedia canto em uníssono e de mãos no ar, e que mostrava outra vertente da música do grupo) 'Danças no Huambo' foi o grande responsável pela disseminação, naquele Verão de 1995, do nome Kussondulola, o qual é, ainda hoje, associado quase exclusivamente a essas duas músicas. Isto porque, apesar dos largos anos de carreira (ainda hoje se encontram no activo) o trio centrado em torno do ex-futebolista Janelo da Costa não mais voltaria a almejar o sucesso que ambos os temas granjeavam ao seu álbum de estreia, o excelentemente intitulado ´Tá-se Bem´. Às 'costas' de 'Danças no Huambo' e 'Perigosa', Janelo e seus comparsas almejariam tocar em Vilar de Mouros, veriam o seu disco ser lançado também em Espanha, e saíriam os grandes vencedores do Prémio Revelação do mítico jornal 'Blitz' para aquele ano, distinção que lhes permitiria também figurar no CD 'Portugal ao Vivo', patrocinado e divulgado por essa mesma publicação.



O grande problema de ter um 'ano de estreia' repleto de conquistas, no entanto, é que é tão necessário quanto difícil ir de encontro às expectativas dos novos fãs angariados. E a verdade é que, para os Kussondolola, esse desiderato nunca foi totalmente conseguido, pesem embora os quatro álbuns (mais um 'boxset') que lançariam após 'Tá-se Bem' – o primeiro destes ainda na década de 90, em 1998, e com um título tão genial quanto o do seu antecessor. Apesar da fantástica designação, no entanto, 'Baza Não Baza' não lograria catapultar qualquer dos seus dois 'singles' para o nível estratosférico do seu antecessor, nem manter os Kussondolola como nome relevante no panorama musical português.


A partir desse ponto, o trajecto do grupo far-se-ia estritamente para uma base de fãs leal, mas significativamente menor do que três anos antes – a mesma que acolheria de braços abertos 'O Amor É...Bué', de 2001 (que continuava a comprovar o 'jeito' do grupo para nomear os seus álbuns), o 'ao vivo' 'Vive! Tens De Viver', no ano seguinte, a colectânea 'Cumué?', em 2004, e 'Survivor', de 2005, disco que contava com colaborações do calibre de Vitorino, Kalú, os 'dois Ruis' - Reininho e Veloso - Miguel Ângelo ou Sara Tavares, entre outros. Esta panóplia de convidados não foi, ainda assim, suficiente para voltar a pôr o trio no 'mapa' melómano português, e Janelo e seus colegas vir-se-iam a despedir das lides discográficas com um último álbum, 'Guerrilheiro', de 2006, seguido de um 'boxset' com músicas inéditar e ao vivo, em jeito de resumo de carreira, lançado em 2007.


Desde então, o grupo tem feito parte do circuito de música ao vivo português, 'animando' palcos de Norte a Sul do País com a sua sonoridade 'afro-reggae' bem contagiante e apelativa – não podendo, claro, faltar em cada concerto qualquer dos dois grandes sucessos que puseram Portugal a 'desbundar' há já trinta anos atrás...

Tuesday, 22 July 2025

Segundas de Sucessos / Terças de TV: 'Pop-Off', O 'Top +'' do Pop-Rock Nacional

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 30 de Março de 2024.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


No tocante a programas de música e telediscos no Portugal dos anos 90, a referência imediata (e praticamente única) para a maioria dos 'millennials' nacionais será o icónico 'Top +', o mais próximo a que a televisão lusa da altura chegava do estilo de programação de uma MTV, cuja reputação atravessava, à época, o oceano, fazendo muitos jovens sonhar com algo equivalente mas falado e criado em Português. No entanto, nessa mesma época, a própria RTP veiculava um segundo magazine sobre música, hoje mais esquecido, mas que, à época, representou uma importante mudança de paradigma na grelha audiovisual do Portugal pré-SIC e TVI.


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Tratava-se do 'Pop-Off', da autoria de José de Freitas, à época figura de proa nos esforços de representação do 'pop-rock' português nos 'media', e que decidia, com este formato, deitar ele próprio 'mãos à obra'. Não é, pois, de estranhar que este programa se destaque do 'irmão' do 'Canal 1' pelo seu foco exclusivo na cena portuguesa, à época num dos seus muitos períodos de florescimento. As habituais bandas internacionais que dominavam os 'tops' (incluindo o '+') eram, assim, substituídas tanto por 'suspeitos do costume' como Xutos & Pontapés, Delfins, GNR, Resistência ou Madredeus como por novas sensações do movimento, como LX-90 ou Sitiados. Eram, no total, cerca de vinte e cinco minutos diários dedicados a telediscos, reportagens e notícias sobre música portuguesa, com a apresentadora Sofia Morais a servir de elo de ligação entre os diferentes segmentos que perfaziam o programa.


Um formato que tinha tudo para agradar ao público-alvo e que, sem surpresas, viria a reter um lugar na grelha de programação do 'Canal Dois' durante dois anos - período que até parece pouco, tendo em conta a relevância da temática e a excelente execução técnica do programa, sobretudo se se tiver em conta a duração substancialmente mais considerável do contemporâneo dedicado aos 'tops' internacionais. O curto ciclo de vida não impediu, no entanto, que 'Pop-Off' conquistasse um lugar tanto no coração dos melómanos da época como na própria história dos programas musicais na televisão portuguesa, tornando praticamente obrigatórias estas poucas linhas a ele dedicadas neste nosso 'blog' dedicado, precisamente, a recordar esses e outros aspectos da sociedade portuguesa de outros tempos.





 


 


 


 


 

Tuesday, 24 June 2025

Segundas de Sucessos: Um Duo de Vozes 'Angelicais'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-Feira, 23 de Junho de 2025.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Já aqui, anteriormente, falámos dos Excesso e D'Arrasar, duas das principais 'boy bands' portuguesas; no entanto, aquando desse 'post', deixámos de fora outros dois grandes nomes da música popular vocal da altura – os Millennium (a terceira grande 'boy band' nacional) e a dupla constituída pelos irmãos Rosado (Nélson e Sérgio) sob a denominação Anjos. Numa altura em que estes últimos voltam a estar na ribalta, devido a um processo jurídico movido contra a humorista Joana Marques, nada melhor do que dedicar algumas linhas àquela que continua a ser uma das grandes referências do seu nicho no nosso País.


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Nascidos na Margem Sul do Tejo mas com raízes alentejanas, os irmãos Rosado desde cedo principiaram a seguir o seu sonho, tendo ingressado na Academia de Música ao completarem sete anos, e dado o seu primeiro espectáculo pago quando o mais velho dos dois, Nélson, contava apenas doze anos, e o irmão apenas oito. Por essa actuação – a primeira de muitas – receberam quinze mil escudos, uma autêntica 'fortuna' para 'putos' dos anos 80, e que servia como uma espécie de antevisão do que o futuro reservava aos dois.


Ainda assim, os futuros Anjos não 'embandeiravam em arco', e continuavam a conciliar a música com a escola e o futebol, sem, no entanto, deixarem de 'agarrar' qualquer oportunidade que surgisse para mostrarem o seu talento. Foi esta abordagem que lhes permitiu, já no final da adolescência, em 1996, participar no programa 'Lugar Aos Mais Novos', da Rádio Renascença e, no ano seguinte, na 'Casa dos Artistas' da RTP, saindo vencedores de ambos – mais um augúrio auspicioso para o que esperava os irmãos a breve trecho.



Após este sucesso enquanto dupla, Nélson e Sérgio ingressaram nos Sétimo Céu, uma tentativa de 'concorrente' a Excesso e D'Arrasar que não deu certo, durando menos de um ano. Longe de se deixarem desanimar, os dois irmãos viram este percalço como uma oportunidade para, mais uma vez, trabalharem como dupla, dando oficialmente e definitivamente início ao percurso dos Anjos no panorama musical português, corriam os últimos meses do Segundo Milénio. Era a convite de uma produtora nacional que a nova dupla – cujo nome remetia a uma 'alcunha' dada aos jovens pela sua avó – surgia na 'cena' popular nacional, e seria também, quiçá, essa ligação a permitir aos irmãos gravar o primeiro álbum, 'Ficarei', logo nesse ano de 1999, estabelecendo desde logo a sua fórmula assente na 'pop' romântica, com ênfase nas vozes dos dois integrantes. Ainda antes do final do Milénio (embora já nas últimas semanas do mesmo) o álbum viria a ser relançado com uma música adicional – o mega-sucesso de Natal 'Noite Branca', em que Sérgio e Nélson Rosado surgiam em dueto com a cantora Susana.


Estava dado o mote para (à data deste 'post') duas décadas e meia de carreira, nem sempre com tanto sucesso como naqueles primórdios, mas sempre com uma audiência cativa e pronta a 'apadrinhar' cada novo lançamento da dupla, o último dos quais remete já a 2022. Ainda assim, os Anjos continuam a usufruir de fama suficiente para serem convidados a cantar o hino nacional no início de eventos – privilégio que está na base do actual processo movido a Joana Marques, e que se vai, desde Julho de 2024, 'arrastando' em tribunal. Qualquer que seja o resultado do mesmo, no entanto, o impacto dos Anjos no panorama da música romântica em português está estabelecido, e dificilmente poderá ser negado, merecendo-lhes o destaque nesta nossa rubrica dedicada a artistas musicais nostálgicos.

Monday, 12 May 2025

Segundas de Sucessos: General D - Do Céu Ao Inferno, De Pés No Chão

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Qualquer melómano velho o suficiente para ter tido interesse em música em inícios dos anos 90 não hesitará em apontar essa época como a era do nascimento do 'rap' e 'hip-hop' em Portugal, pelo menos no que ao 'mainstream' diz respeito. De facto, a primeira metade da última década do século XX marcava o momento em que o estilo musical nascido e popularizado do outro lado do Oceano Atlântico na década anterior extravasava a presença maioritariamente 'clandestina' que marcava nos bairros periféricos das grandes cidades, e 'explodia' nos ouvidos de toda uma geração de jovens prontos a receberem e assimilarem aquelas palavras de ordem e crítica social em ritmo sincopado. O culminar desta ascensão do chamado 'hip-hop tuga' seria, claro, a colectânea 'Rapública', lançada em 1994 e que popularizaria nomes como Black Company ou o produtor, Boss AC; no entanto, logo nos primeiros meses da década, já um grupo de jovens da mesma zona na Margem Sul do rio Tejo se havia aventurado na organização do primeiro festival de 'rap' nacional. Entre eles, encontrava-se um MC em ascensão, e que em breve viria a deixar a sua marca no panorama do 'rap' nacional: o moçambicano Sergio Matsinhe, mais conhecido pelo 'nome de guerra' General D.


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Membro fundador dos supracitados Black Company (embora já não fosse a tempo de desfrutar dos benefícios trazidos pelo mega-sucesso 'Nadar') e envolvido em inúmeros outros projectos da cena à época, General D destacava-se pela 'africanidade' que injectava no seu 'rap'/'hip-hop', fosse no aspecto musical, fosse na grafia das letras ou mesmo na forma como as interpretava. Esta vertente algo mais original do que a média, bem como mais flexível e versátil, não tardou a colocá-lo no 'radar' de artistas mais comerciais, tendo a primeira gravação do jovem MC sido como convidado num tema dos Pop Dell'Arte, em 1990. Ainda antes de qualquer registo próprio, D surge também como um dos compositores e intérpretes da banda sonora de 'Até Amanhã, Mário', de 1993, um dos poucos filmes portugueses da época a granjear atenção por parte do público.


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Com tal nível de exposição mediática, o surgimento de registos próprios era inevitável, e, em 1994, General D lança mesmo o seu primeiro EP, o provocatoriamente intitulado 'PortuKKKal É Um Erro'. Esta denominação, aliada às letras críticas do racismo vigente na sociedade portuguesa, caíram como uma 'pedrada no charco' da bem-comportada cena musical nacional, e valeram a D a presença em muitas plataformas de debate público, para discutir os problemas vividos por imigrantes, retornados e seus descendentes no Portugal daquela época.


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Longe de 'descansar sobre os louros', no entanto, General D voltava ao 'ataque' menos de um ano depois, desta vez com um longa-duração, em conjunto com o grupo Os Karapinhas. O título 'Pé Na Tchôn, Karapinha Na Céu' deixa desde logo bem evidente a filosofia e atitude perante a vida de General D, embora se afirme como algo introspectivo e humilde face à barragem de ácidos comentários tecidos pelo MC nas suas letras. Um registo cáustico, mesmo para os padrões do 'hip-hop', e que posicionava General D como um dos principais 'activistas' da cena nacional, bem mais engajado e combativo do que os muito mais explicitamente comerciais Da Weasel, ou mesmo do que a maioria dos nomes presentes em 'Rapública'. O vídeo de 'Black Magic Woman' (que, ao contrário do que se possa pensar, não constitui uma versão da música dos Fleetwood Mac) estava também em alta rotação nos programas de 'videoclips' nacionais, cimentando o estatuto de Boss AC como uma das grandes 'esperanças' do 'rap' nacional, uma reputação que apenas aumentaria com participações em temas de Cool Hipnoise e Ithaka.


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O passo final na evolução de D seria, no entanto, dado apenas dois anos depois, em 'Kanimambo', o segundo (e, até hoje, último) álbum do MC. Agora acompanhado por colaboradores de luxo, como António Chainho ou o congénere brasileiro Gabriel o Pensador, o General debitava mais uma série de temas cáusticos (embora também mais trabalhados) que lhe permitiam continuar a 'somar e seguir' na cena. Uma bem-sucedida 'tournée' por Portugal, Espanha e França parecia anunciar a 'explosão' definitiva de D, o qual, concluída a mesma, se deslocaria até à Jamaica para trabalhar com os renomados Sly and Robbie...


...e não voltaria a ser visto durante quase duas décadas.


De facto, seria apenas em 2014 que um jornalista seguiria o 'rasto' de Sergio Matsinhe, vindo a encontrá-lo em Londres. Em entrevista exclusiva, o MC revelava ter passado maus momentos tanto na capital britânica como nas ruas de Nova Iorque, vivendo uma existência muito distante dos dias de glória nos palcos nacionais. A entrevista, e respectiva capa, ajudavam o General a regressar à consciência popular dos melómanos nacionais, mesmo a tempo da reedição dos seus dois registos, em 2015. O regresso aos palcos, no entanto, dar-se-ia apenas quatro anos depois, num evento na Altice Arena que reunía muitos dos 'pais fundadores' do 'hip-hop tuga' – não só General D, como também Boss AC, Black Company ou Chullage, entre outros. Um final merecidamente apoteótico para uma carreira (e vida) que foi do Céu ao Inferno, sempre de pés no chão e carapinha no ar, e que continua, até hoje, a deixar a sua marca em todo um movimento musical.

Friday, 10 January 2025

Quintas no Quiosque: Trinta Anos Sem O 'Se7e', O Pioneiro da Imprensa Cultural em Portugal

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


A cultura tem, tradicionalmente, sido um dos aspectos mais negligenciados na, e pela, sociedade portuguesa, que mostra normalmente apetência por formas de entretenimento menos substanciais e mais populistas; e apesar de este fenómeno se ter exacerbado no primeiro quarto do século XXI, a tendência em si vem sendo verificada pelo menos desde as últimas décadas do Segundo Milénio. Não é, pois, de surpreender que uma publicação explícita e expressamente dedicada a divulgar cultura tenha tido um ciclo de vida total de apenas pouco mais de uma década e meia, tendo o último número sido lançado há quase exactos trinta anos, a 28 de Dezembro de 1994. E porque a Quinta no Quiosque dessa semana foi, acidentalmente, dedicada a outro tema, nada melhor do que prestar agora uma homenagem póstuma (por cerca de duas semanas) a um dos mais importantes periódicos desaparecidos da imprensa portuguesa.


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(Crédito da foto: OLX)


Gerido e redigido por grandes nomes da literatura e do jornalismo português – Mário Zambujal e João Gobern contaram-se entre os seus editores, e Margarida Rebelo Pinto, Pedro Rolo Duarte, Luís de Sttau Monteiro e mesmo Herman José entre os redactores – o semanário Sete (estilizado como Se7e) nascera em 1977, com a proposta de divulgar espectáculos culturais de Norte a Sul do País, bem como transmitidos pela televisão, numa abordagem que se afirmava, declaradamente, como uma espécie de versão orientada para a cultura do tipo de jornalismo practicado pelos jornais desportivos. O objectivo, como naqueles casos, era dar visibilidade, espaço e projecção a temas tradicionalmente negligenciados pela imprensa tradicional, criando assim uma publicação 'de nicho' num mercado ainda receptivo às mesmas.


E a verdade é que, numa fase inicial, a ideia correu bem; tão bem, de facto, que o Se7e se tornaria o seu próprio 'carrasco', motivando a abertura de espaço para a cultura nos jornais tradicionais e inspirando o surgimento de concorrentes 'de peso', como a 'TV Guia' e as suas congéneres. Ainda assim, o jornal 'fazia pela vida', tendo conseguido resistir à década de 80 e aos primeiros anos da seguinte; em 1994, no entanto, o 'sonho' viria mesmo a terminar, com a passagem para o formato de magazine a não resultar – ao contrário do que aconteceria, anos mais tarde, com o 'resistente' e semi-competidor Blitz – e o periódico a ser mesmo forçado a encerrar actividades, já nos últimos dias do ano.


Ainda assim, apesar de desaparecido, o 'Se7e' deixou uma marca considerável o suficiente no panorama cultural nacional para, trinta anos após a sua extinção definitiva, ser ainda lembrado e homenageado como um conceito verdadeiramente novo e inovador, e uma autêntica 'pedrada no charco' da imprensa portuguesa, que daria o mote para o aumento de publicações periódicas especializadas no mercado português e daria espaço à cultura num País que tantas vezes a negligencia. Razões mais que suficientes, portanto, para lhe prestarmos homenagem (ainda que atrasada) nesta nossa rubrica dedicada às revistas e jornais das bancas lusitanas do século XX.

Monday, 11 November 2024

Segundas de Sucessos: Os 25 Anos de Carreira de David Fonseca

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Um dos primeiros 'posts' musicais deste nosso blog versava sobre os Silence 4, ainda hoje quiçá o maior e mais reconhecível 'one-hit wonder' da História da música portuguesa – pelo menos, se descontarmos certos artistas 'pimba'. Nada mais justo, portanto, do que celebrar, esta Segunda-feira, o seu vocalista, David Fonseca, que comemora por estes dias os seus vinte e cinco anos de carreira a solo, numa iniciativa que dura já desde o ano passado.


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Originalmente conhecido como membro dos Silence 4, que 'estouravam' no Verão de 1998 com o lendário 'Silence Becomes It', David já nessa altura se destacava pelo seu timbre original e único, algures entre um Rui Reininho com menos arroubos e trejeitos e algum vocalista do movimento 'new wave' e gótico da década anterior. Foi, portanto, com naturalidade que, após o fim do grupo em causa (em 2001, quando já pouco mais eram do que uma memória distante na consciência popular portuguesa) o vocalista tenha mesmo decidido seguir carreira a solo, a qual se iniciava dois anos depois com 'Sing Me Something New'. Seguir-se-iam um EP, um álbum de 'sobras', oito álbuns 'normais' e outros tantos de Natal, estes últimos lançados anualmente entre 2009 e 2016, com direito a 'dose dupla' em 2015.


A sonoridade desta nova fase alicerçava-se numa base ainda mais 'pop' que os Silence 4, ainda que numa vertente mais de 'cantautor', aproveitando o multi-instrumentalismo do músico. Não é, pois, de surpreender que as suas canções melodiosas e agradáveis tenham 'caído no gosto' do grande público ao longo dos últimos vinte anos, como já o haviam feito as do seu grupo original, ainda no Segundo Milénio. Parabéns pelo marco, David, e que venham mais vinte e cinco!

Tuesday, 1 October 2024

Segundas de Sucesso: Trinta Anos de 'Rapública', a 'Mãe' do Movimento Hip-Hop Português

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 30 de Setembro de 2024.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Há quase exactos trinta anos, no Verão de 1994, ao aparecimento e rápida popularização de um novo género musical em Portugal: o rap/hip-hop cantado em Português. Até então confinado a 'rodas' e batalhas 'freestyle' nas ruas dos bairros pobres das duas grandes Áreas Metropolitanas, o estilo almejava, nesse ano, conquistar finalmente as ondas radiofónicas, muito por conta da compilação 'Rapública', e do mirabolante sucesso obtido pelo 'single' 'Nadar', dos Black Company, cujo refrão se tornou ubíquo nos recreios portugueses durante o ano lectivo seguinte. Mais do que veículo para um dos mais famosos e icónicos 'one-hit wonders' portugueses, no entanto, a referida colectânea serviu como instrumento de divulgação do estilo às massas, e subsequente criação de oportunidades para novos e desconhecidos artistas dentro do género.


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Inicialmente concebida como mostruário do vibrante movimento hip-hop que vinha nascendo na Margem Sul do Rio Tejo, em localidades como o Barreiro, Almada, Amora ou Seixal, 'Rapública' era uma ideia do MC e produtor luso-caboverdiano Ângelo César Firmino – mais conhecido pelo 'nome de guerra' Boss AC – que estenderia convites aos grupos do seu 'círculo', mostrando-se mesmo disposto a alargar o espectro geográfico da colectânea com um convite aos Mind Da Gap, pioneiros da cena portuense que viria, anos depois, a 'eclipsar' a lisboeta. Face à recusa de Ace, Presto e Serial, no entanto, AC avançaria com um alinhamento de apenas cinco artistas (incluindo o próprio), cada um com uma 'amostra' de dois temas.


A acompanhar Boss nesta pioneira empreitada estariam Family, Zona Dread, Líderes da Nova Mensagem e, claro, Black Company, que em breve mostrariam o 'poderio' do hip-hop nacional a uma faixa alargada de ouvintes; em comum, os cinco artistas tinham a escolha do português para as letras (embora três temas surgissem em língua inglesa, e um em crioulo cabo-verdiano), e o carácter contestário e crítico das mesmas, como era apanágio da primeira vaga do género. Para 'single', era escolhido 'Nadar', um tema de letra menos 'dura' e refrão contagiante, cujo sucesso ultrapassaria quaisquer expectativas que os músicos pudessem ter alimentado, tornando-se o tema por excelência do Verão de 1995 em Portugal e ajudando a colectânea a vender umas impressionantes quinze mil cópias no primeiro ano, número que faz dela, ainda hoje, um dos discos do género mais vendidos em Portugal.



A principal consequência deste impacto inicial seria, no entanto, a demonstração de viabilidade do hip-hop enquanto género 'mainstream' em Portugal, que levaria, nos anos segiintes, à formação de uma cena pujante, bi-partida entre Lisboa e o Porto, e que revelaria bandas e artistas como Da Weasel, General D ou o próprio Boss AC, além de Mind Da Gap e Deallema, mais a Norte. Em suma, o movimento hip-hop português talvez não tivesse sido possível nem viável sem a coragem de Boss AC em lançar esta histórica colectânea, e as capacidades compositivas dos Black Company, que conseguiram pôr Portugal a cantar sobre os problemas de jovens pobres de bairros suburbanos durante um Verão inteiro. Razões mais que suficientes para darmos algum espaço à 'mãe' do chamado TugaHop, no ano em que se celebram exactos trinta anos sobre o 'nascimento' oficial do género.

Monday, 12 February 2024

Segundas de Sucesso: Pólo Norte - Lições de Felicidade Musical

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Já aqui por várias vezes aludimos à fase áurea atravessada pelo 'pop-rock' nacional durante a década de 90. De facto, o referido movimento visivelmente 'transpirava' saúde, representada tanto por lançamentos marcantes por parte de artistas já veteranos, como Rui Veloso, GNR, Delfins, Resistência, Entre Aspas ou Xutos & Pontapés, como de novas e promissoras adições à cena, como Sitiados, Quinta do Bill, Silence 4, Ornatos Violeta, Pedro Abrunhosa, Hands on Approach ou a banda de que falaremos no 'post' de hoje, e que foi uma das muitas revelações apontadas como a 'próxima grande sensação' durante a referida década: os Pólo Norte.


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A formação clássica do grupo.


Formados em Belas, na região de Sintra, em 1992, das cinzas dos Honoris Causae, seria, no entanto, há coisa de trinta anos que a banda em causa verdadeiramente penetraria no imaginário popular, com o lançamento do seu primeiro disco, 'Expedição', e subsequente sucesso da faixa 'Lisboa', uma das músicas-estandarte do colectivo liderado pelo vocalista Miguel Gameiro. Também incluído neste registo de estreia está 'Grito', outro tema emblemático para o grupo e muito querido pelos seus fãs.



O primeiro sucesso do grupo...


Por muito auspiciosa que tivesse sido a estreia dos Pólo Norte, no entanto, nada fazia prever o que se seguiria com o seu segundo disco. 'Aprender a Ser Feliz', de 1996, dava ao mundo da música portuguesa o tema-título – que se tornaria ainda mais sinónimo com a banda do que 'Lisboa' - e ajudava a aumentar a base de fãs dos Pólo Norte de uma ponta à outra do País, muito por conta da grande rotação radiofónica da referida faixa homónima. Antes, a banda havia já conseguido destacar-se dos seus contemporâneos através de 'Amor É', uma versão musicada de um poema de Luís Vaz de Camões incluída na histórica colectânea 'Portugal ao Vivo II', veiculada com o jornal Blitz em 1995.



...e o seu verdadeiro tema-estandarte


Com a frequência e número dos concertos a aumentar, não é de estranhar que o terceiro álbum tenha demorado três anos a ser editado, por oposição aos menos de dois que mediaram entre 'Expedição' e 'Aprender a Ser Feliz'. Ainda assim, e apesar da demora, 'Longe' voltou a gozar de relativo sucesso, servindo mesmo de mote ao primeiro registo ao vivo do grupo, singelamente intitulado 'Pólo Norte ao Vivo' e lançado no dealbar do Novo Milénio. Em 2002, saía um novo registo de originais, 'Jogo da Vida', o quarto de uma carreira cada vez mais consolidada dentro do movimento 'pop-rock' nacional. Tudo parecia indicar a continuação de uma boa fase do grupo...não fora o hiato imposto por Miguel Gameiro, que procurava concentrar-se no projecto paralelo Portugal a Cantar.


Assim, passar-se-iam longos cinco anos até ser editado novo registo sob a denominação Pólo Norte – mas, como diz o ditado, 'mais vale tarde que nunca', já que 'Deixa o Mundo Girar', produzido pelo britânico Steve Lyons e de sonoridade mais 'rock' do que os seus antecessores, devolveu ao grupo o nível de fama e exposição dos tempos de 'Aprender a Ser Feliz', com diversos temas do álbum a figurarem em telenovelas e outras produções nacionais. Apesar deste sucesso, no entanto, o referido lançamento (reeditado dois anos depois com um segundo CD de bónus, composto por músicas ao vivo) saldar-se-ia, mesmo, como o último de originais do grupo, cujos registos subsequentes tomariam a forma de colectâneas, a primeira editada aquando da celebração de quinze anos de carreira do grupo, em 2008, e a segunda – intitulada 'Miguel Gameiro e Pólo Norte', lançada em 2014. De salientar que '15 Anos' trazia dois temas inéditos, até hoje os últimos alguma vez gravados pelos Pólo Norte.


Apesar de se assinalar nesse ponto o fim do grupo, no entanto, não era ainda a despedida de Miguel Gameiro, que lançaria um último CD a solo, 'A Porta Ao Lado' - que chegou a ser Top 10 de vendas em Portugal em 2010 – antes de se dedicar à sua outra paixão, a culinária. A carreira de 'chef' em estabelecimentos como o Casino Estoril e Quinta da Beloura foi, no entanto, mais uma vez posta em hiato em 2021, quando a banda se reuniu para uma celebração dos vinte e cinco anos de carreira, a qual, por sua vez, motivaria planos para uma 'turnê' completa, sob a designação Miguel Gameiro & Pólo Norte, a ter início no ano transacto. E apesar de tal desiderato ainda não se ter materializado, é bem possível que estejamos perante o início de uma 'segunda vida' para mais uma banda emblemática do 'pop-rock' nacional de finais do século XX. Resta aguardar para ver...

Monday, 1 May 2023

Segundas de Sucessos: Entre Aspas - Solidez Discreta

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Já aqui anteriormente falámos de algumas das principais bandas do 'boom' de pop-rock nacional vivido entre inícios da década de 80 e finais da seguinte, e que daria ao movimento musical 'mainstream' nacional uma panóplia de nomes que vai dos inevitáveis Xutos & Pontapés, UHF. Delfins e GNR a bandas como Resistência, Rio Grande, Rádio Macau, Clã, Santos & Pecadores, Ornatos Violeta, Blind Zero, Quinta do Bill, Sitiados, Três Tristes Tigres, Fúria do Açúcar, Silence 4 ou a banda de que falamos esta semana, e que celebra este ano o trigésimo aniversário do lançamento do seu álbum de estreia - os Entre Aspas.


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Formados logo no início da década como um duo constituído pela vocalista Viviane (grande 'cartão de visita' do grupo) e pelo seu marido, o guitarrista Tó Viegas, o projecto foi inicialmente concebido apenas com o intuito de preencher um convite para tocar no bar Morbidus, em Faro, tendo a própria designação da banda surgido da forma como assinalaram a data do concerto na sua agenda pessoal, com um sinal de 'aspas'. No entanto, esse primeiro espectáculo rapidamente se desdobrou numa carreira a tempo inteiro, tendo o casal preenchido o alinhamento com uma secção rítmica – constituída pelo baixista Luís Fialho e pelo baterista João Vieira – a tempo de conquistar o terceiro lugar no primeiro Concurso de Música Moderna da Câmara Municipal de Lisboa, realizado em 1991. Um início honroso para um percurso que teria o seu verdadeiro início no ano seguinte, quando a banda assina contracto com a multi-nacional BMG e inicia o processo de composição do seu primeiro álbum, já com Nuno Filhó no lugar do demissionário Luís Fialho.


O referido álbum, intitulado 'Entre SFF', veria a luz no ano seguinte (há quase exactos trinta anos) e contaria com a produção de Manuel Faria, ex-Trovante, que voltaria a colaborar com o grupo na versão de 'Traz Outro Amigo Também' incluída num álbum de tributo a Zeca Afonso, no ano seguinte. A par de temas próprios como 'Criaturas da Noite' e 'Voltas', este tema ajudou a cimentar a reputação da banda como um dos grandes nomes da nova vaga de pop-rock português.



A releitura de um dos mais famosos temas de Zeca Afonso feita pelo grupo em 1994.


Reputação essa, aliás, que seria cimentada pelo segundo álbum do grupo, 'Lollipop', lançado em 1995 e que contou com a produção daquele que era, à época, o nome de referência para trabalhos de pop-rock nacionais, Marsten Bailey, bem como com o contributo de dois novos integrantes, ambos de créditos firmados na cena – Filipe Valentim, ex-Rádio Macau, e Luís San Payo, ex-Pop Dell'Arte; antes da gravação do terceiro álbum ('Edelweiss', de 1997) verificar-se-ia ainda mais uma mudança, com a entrada do baterista Rui Freire a compôr aquele que seria o alinhamento dos Entre Aspas até ao final da carreira.


O dito final estava, no entanto, ainda a largos anos de distância, sendo que o grupo seguia de vento em popa, participando com dois temas na icónica colectânea 'Ao Vivo na Antena 3', em 1998 (mesmo ano em que Viviane é escolhida para dar voz a um dos temas do mega-projecto natalício 'Espanta Espíritos') e com uma versão de 'Doçuras' no não menos icónico tributo aos vinte anos de carreira dos lendários Xutos e Pontapés, lançado em 1999. Também nesse mesmo ano, é lançado o quarto álbum do grupo, 'Loja de Sonhos' produzido com a ajuda de Flak e com mistura de Joe Fossard.



A contribuição do grupo para a colectânea 'XX Anos, XX Bandas', dedicada aos vinte anos de carreira dos Xutos & Pontapés.


Infelizmente, o 'impulso' vivido pela carreira dos Entre Aspas durante a última década do século XX não sobreviveria aos primeiros anos do Novo Milénio, sendo o álbum ao vivo 'www.entreaspasaovivo.com' (lançado há quase exactos vinte e dois anos, em finais de Abril de 2001, e homónimo do hoje defunto 'site' do grupo) o último registo da banda antes da dissolução em 2005, e subsequente início da carreira a solo de Viviane. Os fãs do grupo teriam, no entanto, uma grata surpresa nove anos depois, quando, a pretexto daqueles que seriam os vinte anos de carreira do grupo, a BMG lança uma colectânea de êxitos – esta, sim, o último registo oficial de uma banda que, sem ter quaisquer daqueles 'hits' instantaneamente reconhecíveis tão típicos do pop-rock nacional de finais do século passado, conseguiu ainda assim estabelecer-se como um dos nomes na 'linha da frente' do movimento durante mais de uma década.


Mesmo após o término do grupo, no entanto, a carreira de Tó Viegas e Viviane seguiu tão firme como o seu casamento, tendo a dupla sido responsável, entre outros projectos, pelo tema 'Com Um Abraço', semi-finalista do Festival da Canção 2021 na voz de Ana Teresa – apenas uma das muitas provas de que o fim da banda que os notabilizou não correspondeu, de todo, à extinção da criatividade musical do casal, que continua a ter papel de destaque na cena 'pop' nacional moderna, mesmo que agora a partir dos 'bastidores'. Quanto aos Entre Aspas, o ano em que completariam trinta anos de carreira serviu mesmo de pretexto para uma reunião dos membros da formação clássica, e subsequente regravação do tema-estandarte do grupo, 'Criaturas da Noite'; resta esperar para ver se se trata de um regresso esporádico, ou se a carreira da banda virá, mesmo, a ganhar um 'segundo fôlego'...



A nova versão de 'Criaturas da Noite', gravada já este ano.

Monday, 20 March 2023

Segundas de Sucessos: Madredeus - O Fado Tornado Pop

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Regra geral, a maioria das bandas é fácil de catalogar dentro de um estilo definido, seja ele o rock, o heavy metal, o pop, a música étnica, a música clássica, ou qualquer outra das dezenas de denominações que compõem o Mundo da música moderna. Por vezes, no entanto, surge um colectivo que verdadeiramente desafia as convenções estabelecidas, ousando mesclar estilos numa mistura ecléctica que os ajuda a destacar da 'maralha' e a atrair a atenção de toda uma base de fãs. Nos anos 90, existiu em Portugal um grupo assim, cuja proposta passou por misturar o canto tradicional do nosso País, o fado, com elementos de música pop e gótica – proposta essa que os ajudou a catapultar para os mais altos vôos a que uma banda nacional pode aspirar. Falamos, é claro, dos Madredeus, o colectivo centrado em torno do guitarrista clássico Pedro Ayres de Magalhães, e cujo elemento mais distintivo, na sua fase clássica, foi a inimitável voz de Teresa Salgueiro, a qual, durante a sua permanência no grupo, se faria ouvir ao lado de artistas tão díspares quanto José Carreras e Moonspell.


MADREDEUS-Foto-do-grupo-por-TV124.jpg


Formados ainda nos anos 80, datando o primeiro disco de 1987, seria, no entanto, na década seguinte que o colectivo baptizado com o nome de um bairro lisboeta atingiria a proeminência que se lhe conhece hoje em dia. O lançamento do segundo álbum, logo em 1990, e 'aventuras' internacionais como o concerto na exposição Europália '91 (dedicada à cultura portuguesa) ou a participação em bandas sonoras de filmes estrangeiros ajudaram a consolidar o nome do grupo não só dentro de portas como também 'lá fora', dando início à trajectória de sucesso que caracterizaria a carreira do grupo. O terceiro álbum, de 1994, já tem honras de digressão internacional e, no ano seguinte, a banda é convidada a colaborar com o cineasta Wim Wenders, que inclui temas dos Madredeus no seu 'Viagem a Lisboa', ajudando a elevar ainda mais o perfil internacional do colectivo. Já 'cá dentro', o mérito da banda era bem reconhecido, tornando-os figura de proa da cena musical nacional e motivando convites de índole tanto musical como cultural, como aquele que os levou a participar no espectáculo de abertura da Expo '98, ao lado de José Carreras, já depois de algumas alterações de formação e do lançamento de um quarto álbum, em 1997.


A ascensão do grupo não abrandaria, aliás, no Novo Milénio, que abriria com o lançamento de uma 'Antologia' e uma participação no filme 'Capitães de Abril', cada uma das quais com dois temas inéditos, e veria serem lançados, no espaço de apenas três anos, mais dois álbuns de originais, uma colectânea para o mercado brasileiro, um disco ao vivo e um de 'remixes' electrónicas – mais uma prova, caso as mesmas ainda fossem necessárias, de que o grupo havia atingido o patamar da fama e relevância. Seria, portanto, com alguma surpresa que os fãs do grupo receberiam a notícia de um 'ano sabático', em 2007, e, mais tarde, o êxodo da maioria dos membros, deixando o fundador Ayres de Magalhães e o teclista Carlos Maria Trindade como únicos representantes do nome.


Não querendo desvirtuar o mesmo com novos músicos, os dois decidem fundar um novo projecto, a Banda Cósmica, com o qual lançam três álbuns antes de decidirem mesmo 'ressuscitar' o seu grupo anterior, agora com novos músicos e a vocalista Beatriz Nunes no lugar que ficará para sempre associado a Teresa Salgueiro. Com esta nova formação, são lançados mais dois álbuns, o segundo dos quais, 'Capricho Sentimental', de 2015, é até hoje o último lançamento dos Madredeus. Qualquer que seja o futuro do grupo, no entanto, o colectivo de Pedro Ayres de Magalhães já inscreveu indelevelmente o seu nome na História da música portuguesa, e pode orgulhar-se de ser, até hoje, um dos principais nomes da mesma, tanto a nível nacional como internacional.


Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...