Monday, 31 January 2022

Segundas de Séries: 'Heathcliff, Heathcliff, É Um Gaaaatoooo...'

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Quando aqui falámos do primeiro programa infantil de sempre da TVI, 'A Casa do Tio Carlos', referimos que o mesmo tinha, inicialmente, tido dificuldade em se estabelecer como alternativa aos super-populares Brinca Brincando (da RTP) e Buereré (da SIC), e que tal desiderato só havia sido atingido depois de o bloco ter adquirido aquela que viria a ser a sua série-estandarte.


Essa série era 'Heathcliff', um 'cartoon' de inspiração declarada no então super-popular 'Garfield', mas que demonstrava originalidade e competência de execução suficientes para levar o seu público-alvo a sintonizar a TVI às tardes de semana, e para assegurar três anos de transmissão contínua no canal de Queluz - um ciclo de vida quase exactamente coincidente com o do programa de que fazia parte - bem como um regresso, já no novo milénio e em versão dobrada em Espanhol (!) nos canais infantis da TV por cabo (a razão pela qual não voltou simplesmente a ser exibida a mesma dobragem já existente não é, infelizmente, clara.)


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Heathcliff, o personagem que dava nome à série, tinha iniciado a vida como protagonista de uma série de tirinhas de banda desenhada destinadas à inclusão nos suplementos de banda desenhada dos jornais de fim-de-semana norte-americanos (os chamados 'Sunday funnies') onde, ironicamente, partilhava do mesmo espaço com a sua principal inspiração, Garfield. Ao contrário daquele gato cor-de-laranja, listrado e gordo, no entanto, ESTE gato cor-de-laranja, listrado e gordo estava mais interessado em pregar partidas ao leiteiro, ao peixeiro e ao inevitável cão da vizinhança, ou em namoriscar a não menos inevitável gatinha bonita da casa ao lado, do que necessariamente em comer e dormir – embora também fossem numerosas as piadas em torno da sua preguiça – evitando assim o rótulo de plágio total e completo, e justificando a continuidade da sua publicação, que se estendeu por várias décadas, e ainda a proposta de adaptação para desenho animado, já na década de 80.


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Uma tirinha de Heathcliff


Esta última não vinha, no entanto, sem algumas complicações; especificamente, os responsáveis por avalizar e aprovar o projecto achavam que a base das aventuras de Heathcliff era algo redutora para uma série completa de episódios animados (um meio substancialmente diferente do das 'comic strips') e que não iria captar e cativar a atenção do público-alvo. Foi, pois, considerado necessário 'incrementar' a nova série com novos elementos – uma decisão que viria a alterar completamente o espectro, recepção e percepção da mesma.


Isto porque a solução encontrada passou pela criação de um grupo de personagens totalmente inédito - um bando de gatos de rua (que incluía uma fêmea de anatomia marcadamente humana, que terá decerto inspirado muitas fantasias 'furry'), residentes num velho carro Cadillac abandonado junto a um ferro velho, e liderados por Riff-Raff, um gato atarracado, de enorme boina de ardina e lenço ao pescoço, numa espécie de cruzamento entre Scrappy-Doo (o sobrinho de Scooby) e Manda-Chuva. Este novo grupo (conhecido, na versão original, como Catillac Cats) não tardaria a roubar protagonismo ao personagem que dava nome ao programa, tornando-se, para muitos dos pequenos espectadores, o principal motivo de interesse do mesmo.


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Os novos personagens criados em exclusivo para a série


Isto porque, enquanto os episódios centrados em Heathcliff seguiam uma vertente mais próxima dos 'comics' originais, baseada em humor pastelão e frenético de moldes clássicos, Riff-Raff e o seu bando tendiam a protagonizar histórias de cariz mais voltado à aventura, e com maior ênfase na história, num estilo mais próximos dos programas que faziam sucesso à época. No entanto, tal como havia fãs de Riff-Raff e do seu bando, também havia quem apenas quisesse acompanhar as aventuras cómicas do 'gato bem disposto e educado', considerando as segundas partes de cada episódio da série apenas como um 'mal necessário'.


No cômputo geral, no entanto – e apesar das histórias algo simplistas e da animação notoriamente barata e pouco cuidada – 'Heathcliff' conseguia oferecer um pouco de tudo, aliando (ainda que nem sempre com grande fluidez) a vertente de animação mais clássica com as características necessárias a uma série dos anos 80 e 90. Sem ser um programa histórico ou até digno de especial relevo (o seu aspecto mais memorável será mesmo o irresistível genérico, interpretado por Paulo Brissos), a série representava uma forma perfeitamente válida (e não-violenta) de passar meia-hora depois da escola, e certamente despertará memórias nostálgicas, ainda que vagas, em alguns dos leitores deste blog. E para quem não se lembra, deixamos abaixo um pequeno 'activador' de memória...


Sunday, 30 January 2022

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - Nuno Valente

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Ao folhear a caderneta de cromos oficial do Sporting Clube de Portugal, lançada  a tempo do início da época 1994-95, lá estava ele; um jovem lateral-esquerdo de 19 anos, de sorriso tímido e cabelo até por baixo das orelhas, no então típico penteado 'à jogador da bola'. No topo da página, o nome - Nuno Valente.


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A página de cromos que deu a conhecer Nuno Valente (crédito da imagem: Armazém Leonino)


Foi desta forma inusitada – através de uma não menos inusitada, e nunca mais repetida, caderneta de cromos – que os pequenos 'leões' dos anos 90 tiveram o primeiro contacto com aquele que se viria a tornar um dos maiores laterais-esquerdos portugueses de sempre...ao serviço de um dos clubes rivais daquele que o viu 'nascer' para a bola.


Natural de Lisboa, seria no Norte que Nuno Jorge Pereira da Silva Valente viria a conhecer o sabor do sucesso, já no novo milénio, depois de nos anos 90 ter feito o habitual 'périplo' dos empréstimos comum a tantos jovens futebolistas, ao fim do qual foi dispensado pelo clube onde fizera (quase) toda a sua formação. Em seis anos, foram dois empréstimos – a Portimonense e Marítimo, tendo conseguido estabelecer-se em ambos – e menos de quarenta participações com a camisola do Sporting, nunca tendo, claramente, representado uma opção para qualquer dos diferentes treinadores dos 'leões', apesar da sua valorosa participação na campanha que culminou com a conquista da Taça de Portugal 1994-95.


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Valente passou quase despercebido nas suas seis épocas no Sporting


Assim, foi com naturalidade que, em 1999, os adeptos 'verdes e brancos' o viram sair, em final de contrato, para o União de Leiria - outra presença constante no meio da tabela do campeonato português dos anos 90, à época orientado por um jovem treinador de enorme valor chamado...José Mourinho – e continuar uma carreira que se previa do tipo 'honroso, mas sem brilho'.


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Cromo que mostra Nuno Valente enquanto jogador do Leiria


As coisas não viriam, no entanto, a revelar-se tão previsíveis quanto isso para Nuno Valente; as boas exibições ao serviço do Leiria, onde mais uma vez 'pegou de estaca', permitiram-lhe seguir Mourinho e o colega de equipa Derlei do clube do Lis para o Futebol Clube do Porto, ao qual chegava em 2003 com a chancela de um dos melhores laterais do campeonato.


O resto da história é bem conhecido: participação activa no período hegemónico e imperial do FC Porto na Europa, pedra basilar da Selecção Nacional do período pós-Geração de Ouro, transferência para o Everton, onde continuou a brilhar, e, finalmente, a retirada em alta do futebol profissional, aos 35 anos e com um palmarés invejável, para se tornar olheiro do Everton em Portugal e, mais tarde, treinador. E ainda que essa experiência não tenha corrido tão bem como seria desejável – foram apenas seis meses ao comando do Trofense antes de ser substituído – terá, certamente, sido mais do que aquele jovem de penteado questionável que lutava para se afirmar na equipa do Sporting alguma vez terá sonhado...

Saturday, 29 January 2022

Saídas ao Sábado: Os Salões de Jogos

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


De entre todos os possíveis 'hobbies' de uma criança dos anos 80 e 90, os videojogos ocupavam muitas vezes lugar de destaque, especialmente entre o sexo masculino; e com bom motivo – estas duas décadas (e, em menor escala, também a primeira do século XXI) viram esta indústria nascer e desenvolver-se a passos largos. Os anos 90, em particular, são muitas vezes tidos como o apogeu da primeira fase da indústria, tendo sido berço daqueles que são, ainda hoje, considerados alguns dos melhores títulos e personagens da História dos 'games'.


E embora a década fosse também pródiga em consolas de qualidade – da Mega Drive à PlayStation – muitos desses jogos surgiam, primeiro e muitas vezes em exclusivo, nas máquinas de jogos operadas por moeda, vulgo 'arcades', tornando os locais que vulgarmente as alojavam, os salões de jogos, num local de peregrinação para os jovens fãs de videojogos...


...pelo menos nos Estados Unidos, já que em Portugal a história era significativamente diferente.


Sim, enquanto que do outro lado do Atlântico – e mesmo na América do Sul – os salões de jogos eram locais de reunião de crianças e jovens por excelência, por terras lusitanas, passava-se precisamente o oposto – estes espaços destinavam-se, exclusivamente, a adultos, estando os jovens abaixo de uma certa idade proibidos de os frequentar, pelo menos sem supervisão adulta. E com bom motivo, como quem alguma vez entrou num destes espaços durante aquela década certamente atestará; não era à toa que os salões de jogos tinham uma reputação sensivelmente equivalente à dos 'pubs', o outro grande tipo de 'local misterioso só para adultos' da época.


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Um salão de jogos ao estilo clássico dos anos 90...


De facto, os salões de jogos dos anos 90 tendiam a ser locais esconsos e escuros, vagamente amedrontadores, frequentados por indivíduos algo menos que recomendáveis e impregnados de cheiro a fumo de cigarro, antes de estes serem banidos dos espaços interiores. Qualquer criança ou até adolescente que lá entrasse era alvo de olhares não muito convidativos, e até algo suspeitos, fazendo com que o mesmo rapidamente tivesse vontade de se ir embora – antes mesmo de ser convidado a sair pelo dono do salão.


Mesmo tendo tudo isto em mente – ou talvez precisamente pela 'aura' que estes locais possuíam – muitas crianças portuguesas fãs de jogos de vídeo sonhavam em ter idade suficiente para frequentar um destes espaços, não só pela oportunidade de jogar todos os seus títulos favoritos e exclusivos das máquinas de arcada, como também pelo 'atestado de adultidade' que tal acção representava nas suas mentes. E escusado será dizer que quem tivesse um adulto disposto a levá-lo a um salão de jogos podia considerar-se quase tão sortudo como se lhe tivesse saído a lotaria...


Havia, é claro, opções mais 'kid-friendly' para quem quisesse jogar uns joguitos na máquina; em Lisboa, por exemplo, a Feira Popular oferecia uma variedade de espaços para esse propósito, enquanto o CascaiShopping albergava o primeiro espaço totalmente dedicado a videojogos no interior de um 'shopping'. O advento de outros locais deste tipo, como o Colombo em Lisboa ou o NorteShopping no Porto, ajudou também a popularizar o conceito de 'PlayCenters', os quais incluíam zonas de máquinas de arcada, aproximando assim a experiência dos jovens portugueses daquela de que já gozavam os seus congéneres brasileiros, por exemplo.


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...e outro mais moderno, espaçoso, iluminado e convidativo


Esta democratização da experiência de 'arcade' levou, por sua vez, a que os salões de jogos tradicionais – aqueles antros de vício fumarentos, sempre a debitar para a rua sons de máuinas diversas – fossem, progressivamente, caindo em desuso, e principiando a desaparecer; ainda assim, a sua morte foi tão ou mais lenta que a de outros espaços em processo de obsolescência, como os clubes de vídeo, sendo que na segunda década do século XXI ainda se podia encontrar, por esse país fora, um ou outro exemplo de salão de jogos 'clássico'.


Na sua grande maioria, no entanto, estes espaços foram mesmo substituídos por versões mais 'assépticas', para toda a família – o que mostra, cabalmente, a mudança de paradigma a este respeito em território nacional, já que, conforme referido, os salões de jogos clássicos tudo faziam para impedir a família de entrar...


Hoje em dia, é já raro ver um jogo aparecer nas arcadas, sendo a esmagadora maioria dos novos títulos lançado directamente para o mercado caseiro, e a maioria das máquinas vistas 'no seu ambiente natural' relativas a jogos da 'era clássica' dos 'arcades', sobre a qual este post versou. Ainda assim, quem viveu aquela época não pode deixar de se lembrar da sensação de querer rapidamente ter idade suficiente para entrar num daqueles salões de jogos 'à moda antiga', e desfrutar de umas 'jogatanas' de Street Fighter ou Mortal Kombat...

Friday, 28 January 2022

Sessão de Sexta: 'Papá Para Sempre'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


A habilidade para interpretar, convincentemente, elementos do sexo oposto sempre foi, e continua a ser, uma das marcas de um cómico acima da média. Do teatro de revista a conjntos como os Monty Python ou actores como Dustin Hoffman, são inúmeros os exemplos de actores e artistas que souberam explorar esta vertente humorística com arte e categoria, demonstrando assim a sua versatilidade.


A estes nomes, há que juntar outro, já conhecido pela sua capacidade de encarnar qualquer personagem, mas que teve na comédia 'travesti' a sua última prova de fogo; falamos, é claro, de Robin Williams, que, em 1993, envergou uma peruca, vestido e peitos de silicone para ajudar a criar um clássico do cinema familiar dos anos 90 – o inesquecível 'Papá Para Sempre'.


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Estreado em Portugal há quase exactamente 28 anos (a 4 de Fevereiro de 1994), 'Mrs. Doubtfire' oferecia, desde logo, um motivo de enorme interesse para o público-alvo, por trazer a chancela de Chris Columbus (futuro responsável por trazer a saga 'Harry Potter' para o grande ecrã), que fizera nome no início da década com o mega-clássico de Natal 'Sozinho em Casa', e fora também responsável pela sua (muito inferior) sequela, dois anos depois. O nome do realizador, juntamente com o de Robin Williams – favorito do público jovem após a participação em 'Hook', de Steven Spielberg, dois anos antes – terão sido, por si só, motivos mais que suficientes para atrair a demografia infanto-juvenil; o facto de o filme ser marcante e memorável terá constituído, tão-sómente, um bónus acrescido.


E a verdade é que é mesmo a mestria de Columbus e Williams que eleva 'Papá Para Sempre´acima daquilo que parece ser – um filme parvo de comédia para crianças – e o torna num clássico nostálgico ainda hoje lembrado e acarinhado por quem o viu em pequeno. O realizador faz uso de toda a sua experiência como director de filmes infantis – e reúne em seu redor uma equipa de efeitos práticos e maquiagem de topo, responsável pela transformação justamente premiada do actor principal em 'velhota' de carrapito - enquanto que o actor surge em magnífica forma, 'desaparecendo' na personagem da velha ama Euphegenia Doubtfire, num desempenho ora caracteristicamente caricatural e exagerado, ora mais vulnerável e subtil, à semelhança do que Williams apresentara em filmes como 'O Clube dos Poetas Mortos'. Nenhum dos dois intervenientes precisava de ter dado o seu melhor num filme tão aparentemente banal, mas foi exactamente isso que aconteceu – e é precisamente graças a esse esforço extra que 'Papá Para Sempre' NÃO se salda como apenas 'mais um' filme para crianças, tendo mesmo sido premiado com um Oscar (para melhor maquiagem, naturalmente) na cerimónia de 1994, algo que normalmente se afiguraria praticamente impensável para um filme deste tipo.


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A espantosa transformação de Robin Williams é um dos grandes trunfos (e triunfos) do filme.


Seria injusto, no entanto, destacar a prestação de Williams sem falar dos seus coadjuvantes (entre os quais se destacam Sally Fields, o futuro 007 Pierce Brosnan, e Mara Wilson, que até ao final da década voltaria a brilhar nos papéis principais de 'Milagre em Manhattan' e 'Matilda') que – embora nunca se desviem muito dos protótipos dos seus respectivos papéis – ajudam também a manter o nível técnico e artístico do filme acima da média, e a justificar, assim, o sucesso do mesmo entre as crianças de todo o Mundo.


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O excelente elenco do filme


De facto, 'Papá Para Sempre' é daqueles filmes – a exemplo de 'Sozinho em Casa', ou dos filmes da era de ouro da Disney – que continua a ser descoberto por cada nova geração de crianças, seja em DVD ou nas plataformas digitais, seja através da exibição na televisão - e numa altura em que quem viu o filme no cinema se começa a tornar pai de filhos em idade apropriada para serem apresentados ao filme, não se prevê que essa tendência se venha a alterar, ou sequer a abrandar. Não, o 'Papá' de Robin Williams faz jus ao nome escolhido para exibição em Portugal, já que promete mesmo permanecer na vida das crianças e jovens portugueses 'Para Sempre'....

Thursday, 27 January 2022

Quintas no Quiosque: A Revista 'Promúsica'

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Numa altura em que a música portuguesa viva um dos seus mais notáveis 'estados de graça' desde o tempo da ditadura – com um número impressionante de novos grupos e artistas a surgir ou a estabelecerem-se em todos os estilos – não é, de todo, de espantar que uma grande parte da população jovem nacional tenha desenvolvido ambições e sonhos de grandeza musical no instrumento da sua preferência. A educação musical básica adquirida na escola passava a ser manifestamente insuficiente – afinal de contas, Ian Anderson, dos Jethro Tull, continua ainda hoje a ser o único roqueiro a ficar famoso pela prática da flauta – e as escolas de música enchiam-se de jovens aspirantes a Joe Satriani, Steve Harris ou Dave Lombardo, ansiosos por aperfeiçoar a sua técnica para emular os seus ídolos e, com sorte, fazer carreira em nome próprio.


Sendo este o paradigma vigente, não foi de todo surpreendente que, já na recta final do século XX e do segundo milénio (mais concretamente, no dealbar do ano de 1997), tenha surgido nas bancas nacionais uma revista especificamente dedicada a estes aspirantes a músicos – nem tão-pouco que a mesma tenha conseguido durar uns honrosos quatro anos, e divulgar os seus artigos tanto técnicos como generalistas também junto dos profissionais e amadores de música do novo milénio.


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Exemplos de capas da revista


E a verdade é que, à época, não existia em Portugal nenhuma revista como a Promúsica. A grande referência do jornalismo musical nacional – o jornal Blitz – tinha um carácter exclusivamente generalista, e as revistas que propunham um tipo de conteúdo mais técnico eram, invariavelmente, importadas – e, como tal, mais caras e de distribuição muito mais limitada. A criação de uma publicação deste tipo totalmente produzida dentro de portas permitia a músicos fora dos centros urbanos conseguir uma revista à sua medida, todos os meses, e sem ter que 'abrir os cordões à bolsa'. A revista, bem ciente desta exclusividade de mercado, apostava assim, quase exclusivamente, na vertente técnica e profissionalizante do universo da música, deixando em segundo plano as habituais entrevistas e perfis de bandas (embora essas também fizessem parte, bem entendido) em favor de testes e análises técnicas a instrumentos musicais, divulgação de fabricantes nacionais dos mesmos, notícias com foco nos 'bastidores' do ramo, e outros conteúdos destnados a fornecer informação directa sobre o mundo da música a quem ela mais interessava.


Este foco na vertente técnica e na divulgação de novos artistas não se ficava, tão-pouco, pelas páginas da revista em si, antes pelo contrário – um dos maiores atractivos da Promúsica eram precisamente as colectâneas em CD que oferecia com cada número, e através das quais divulgava alguns dos mais promissores artistas contemporâneos nacionais, ao mesmo tempo que oferecia exemplos 'auditivos' ou interactivos de alguns dos instrumentos, equipamentos e programas testados no interior da publicação. Um acrescento de cariz dois-em-um portanto, e que tornava a revista atractiva tanto para os músicos a quem se destinava como, simplesmente, para os entusiastas da boa música portuguesa, para quem estes CD's justificavam, só por si, o preço de venda.


Em suma, embora sem a longevidade de algumas das suas congéneres internacionais, a Promúsica marcou época entre um determinado segmento da população jovem portuguesa de finais do século XX e inícios do seguinte; e ainda que menos abrangente, em termos de público, do que outras publicações especializadas (como a Mega Score ou o próprio Blitz) terá, ainda assim, deixado saudades dentro dessa mesma demografia, a quem certamente agradará recordar a publicação que os acompanhou no seu percurso musical à época. Aqui fica, pois, essa homenagem a um tipo de publicação que, nesta era digital em que tudo é acessível, deixou totalmente de fazer sentido, mas que em tempos representou praticamente a única fonte de acesso a informação verdadeiramente interessante e relevante em relação ao mundo da música em Portugal...

Wednesday, 26 January 2022

Quartas de Quase Tudo: As Máquinas de Bolinhas de Brinde

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


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Quem passeou num centro comercial de bairro durante os anos 80 e 90, certamente não só as viu, como as usou – ou, pelo menos, tentou pedir a quem quer que o acompanhasse autorização para as usar. As máquinas de brindes (também chamadas de 'ovos' ou de 'bolas'; não confundir com as de 'garra', nem com as que dispensavam bolas de pastilha elástica, pistachios e amendoins ou  bolinhas saltitonas) eram presença comum, não só em qualquer espaço comercial que compreendesse uma área determinada na qual se aglomerassem várias lojas e serviços de restauração, como, por vezes, até em espaços individuais, como cafés, cervejarias ou até minimercados ou supermercados de bairro.


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Exemplos dos dois modelos mais comuns de máquinas deste tipo


Compreendendo uma vasta gama de tamanhos e formatos (das mais pequenas e arrendondadas às mais comuns, altas e rectangulares, semelhantes às de 'garra') estas máquinas seguiam, no entanto, invariavelmente o mesmo princípio: o utilizador introduzia uma moeda (nos anos 90, normalmente, de cem ou até duzentos escudos, mais raramente de cinquenta) e rodava o manípulo situado ao nível da sua cintura, libertando assim umas das inúmeras bolas de plástico colorido alojadas no interior, cada uma das quais continha um pequeno brinde ou bugiganga digno da nossa secção Quintas de Quinquilharia. Invariavelmente em plástico barato e com um valor de produção quase nulo, estes brindes podiam ir de borrachas e pequenas figuras para pôr no topo dos lápis, a joalharia de pechisbeque (em tamanhos inutilizáveis por qualquer pessoa com idade suficiente para o brinde lhe interessar), passando por alguns brindes ligeiramente mais aceitáveis, como era o caso dos insectos de plástico, mini-carrinhos, porta-chaves, e outros produtos ao estilo 'ovo Kinder', e aproximadamente ao mesmo nível em termos de qualidade.


É claro que esta não era, necessariamente, a realidade 'vendida' por estas máquinas; mesmo os mais 'traquejados' utilizadores destes aparelhos, aqueles que SABIAM que o brinde ia, mais que provavelmente, ser uma qualquer bugiganga completamente inútil, se deixavam repetidamente enganar pelas promessas feitas pelos responsáveis por encher a máquina após esgotadas as bolinhas, ou antes do primeiro uso. Porque a verdade é que estes profissionais – que eram, verdadeiramente, dignos desse nome – não davam 'ponto sem nó', e tratavam de pôr no topo da pilha, bem à vista de quem se aproximava, os poucos prémios verdadeiramente apetecíveis que haviam sido fornecidos. Não era, de todo, incomum, ver bolinhas que continham no interior relógios, ou outros artigos que pudessem, verdadeiramente, interessar a alguém com idade superior a dez anos – o que, naturalmente, criava um conflito de 'expectativa vs realidade' que induzia ao gasto da tal moeda, e resultava, invariavelmente, na posse de mais um brinde com valor total de aproximadamente cinco escudos, de que até o mais novo dos utilizadores destas máquinas provavelmente desdenharia.


Ainda assim, a possibilidade de receber algo, pelo menos, aceitável a troco daqueles cem ou duzentos escudos era suficiente para manter grande parte do público a jogar, e este tipo de máquinas em circulação até à entrada do novo milénio, altura em que foram sendo, gradualmente, substituídas por modelos de conceito semelhante, mas mais avançados - normalmente com recurso a métodos digitais e alguma habilidade, por oposição a apenas sorte. No entanto, quem procurar bem nos cafés de bairro por esse Portugal afora, talvez ainda encontre, num canto, uma qualquer maquineta que lhe permita rodar um manípulo e gastar um euro num qualquer objecto com um décimo desse valor...

Tuesday, 25 January 2022

Terças de TV: 'A Hora do Lecas'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Desde o início deste blog, já várias vezes aqui falámos da importância dos apresentadores no sucesso (ou falta dele) de um programa dirigido ao público infantil ou jovem. Sem ter sido, de todo, exclusivo desta era da cultura ocidental moderna, este fenómeno teve, no entanto, no final do século XX a sua época áurea, deixando para a posteridade um rol de nomes ainda hoje reconhecíveis, quer no estrangeiro (em que a brasileira Xuxa ou o americano Mr. Rogers vêm imediatamente à memória) quer em Portugal, onde as crianças e jovens das décadas de 80 e 90 tiveram o prazer de conhecer e conviver com personalidades tão carismáticas como Júlio Isidro, José Figueiras, Ana Malhoa, Rita Mendes, Batatinha, ou o nome a que dedicamos o 'post' de hoje, José Jorge Duarte.


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O actor e apresentador, na pele do personagem que o popularizou


'Nascido' para a televisão aos 16 anos, quando foi finalista do concurso Écran Mágico, promovido pela RTP 2, José Jorge Marques Duarte de Jesus viria, nas décadas seguintes, a cimentar a sua posição como uma das personalidades mais populares entre o público mais jovem, primeiro pela sua presença 'em carne e osso' em vários concursos e séries populares e, mais tarde, através da sua voz, que fez parte do elenco de dobragens tão icónicas como a da Rua Sésamo original (onde foi responsável pela icónica e inesquecível voz do permanentemente nervoso Gualter) ou a do filme 'Shrek', de 2001, em que teve a árdua tarefa de replicar a memorável prestação de Mike Myers no papel principal. Para uma certa e determinada fatia da população, no entanto – a mesma que, à época, terá rido com o Gualter, sem saber nem se importar com quem o dobrava – o actor, apresentador e humorista ficará, para sempre, associado com uma só personagem: o Lecas, apresentador da 'Hora' com o mesmo nome.


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Estreada em 1989, 'A Hora do Lecas' - programa substituto do anterior bloco de programação infanto-juvenil da RTP, 'Juventude e Família', mas agora às tardes de semana, por oposição às manhãs de Sábado e Domingo - gozou de popularidade imediata entre o público alvo, não só pela excelente selecção de desenhos animados que o programa propunha, como também pela personalidade castiça, desbocada e algo hiperactiva do apresentador, que recuperava para esse efeito um personagem criado ainda no âmbito do bloco familiar anterior. A típica 'criança grande' em corpo de homem crescido, o Lecas era um daqueles apresentadores que nunca 'parava quieto', não se limitando a servir de mero interstício entre duas séries animadas, mas antes dinamizando (por vezes até demais...) os segmentos que permeavam essas mesmas séries, e que incluíam os habituais jogos, momentos didácticos, interacções com o público e prestações de artistas musicais convidados – alguns, como também era apanágio da época, bem inesperados, como foi o caso dos Censurados, que promoveram no programa o seu álbum homónimo, de 1990.



Um formato, portanto, quase idêntico ao de outros espaços infantis do mesmo período, como o 'Clube Disney', e que, como tal, não podia deixar de agradar aos mais novos. De facto, foi tal a popularidade do Lecas – em grande medida auxiliada pelo horário de transmissão do programa, que punha o apresentador nas televisões infantis quatro dias por semana, mesmo à hora de chegada do público-alvo da escola – que o mesmo foi, em Outubro de 1990, 'promovido' a uma nova posição. 'Lecas, Mais Certo Que Sem Dúvida' (nome algo infeliz no que toca à memorização futura) via o personagem regressar ao espaço que o vira, literalmente, nascer – as manhãs de fim-de-semana – embora agora com um contexto bem mais sóbrio, em que Lecas se limitava a apresentar cada nova série, ao mesmo tempo que mostrava desenhos enviados pelas crianças.


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Um formato completamente errado, tanto para a personalidade que Duarte desenvolvera para o personagem como para o público-alvo, que não queria uma imitação infanto-juvenil do Agora Escolha (nem precisava, já que o original primava pela popularidade entre o mesmo segmento.) Saldou-se, assim, em pouco mais do que seis meses a duração da experiência – tempo, ainda assim, suficiente para Lecas conseguir um último êxito junto do 'seu' público, através do lançamento do disco 'As Canções do Lecas', composto por uma dúzia de temas de 'pop rock' infantil, interpretados 'in character', e do qual aqui falámos no nosso último post.


Poucos meses depois, o Lecas – tal como as crianças da 'viragem' da década de 80 para a de 90 o haviam conhecido – desaparecia para sempre das televisões portuguesas, ao mesmo tempo que o seu criador progredia para programas mais 'adultos', e explorava outras vertentes, como o teatro. E apesar de hoje pouco lembrado – mesmo no contexto da carreira de José Jorge Duarte - quem teve o privilégio de com ele conviver nas tardes depois da escola sabe que o divertido e carismático personagem nada deixava a desejar a qualquer dos seus contemporâneos, merecendo destino melhor do que cair no (quase) esquecimento no contexto da cultura popular portuguesa...

Monday, 24 January 2022

Segundas de Sucesso: 'As Canções do Lecas'

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Na década de 90, ser apresentador de programas infantis equivalia, praticamente, a ter o estatuto de celebridade entre a faixa mais nova da população. Dos apresentadores do Clube Disney a nomes icónicos como Ana Malhoa ou Carlos Alberto Moniz, passando pelo elenco da Rua Sésamo ou (mais tarde) pelo palhaço Batatinha, os anfitriões das horas dedicadas à criançada atraíam, muitas vezes, audiências por si só, com o seu carisma e entusiasmo quanto à tarefa de apresentar desenhos animados ou convidados musicais, ou servir de árbitro a jogos.


Este estatuto fazia, naturalmente, com que o referido público se mostrasse, à partida, predisposto a adquirir todo e qualquer produto directamente relacionado com os referidos nomes – em particular, no tocante a registos fonográficos. Das 'Canções da Rua Sésamo' ao disco de Ana Malhoa e Hadrianno ou o primeiro CD de músicas do Batatoon, são inúmeros os exemplos de lançamentos que não deveriam ter resultado, mas que acabaram por se revelar sucessos de vendas.


A esta lista, há que adicionar uma obra menos 'mediática', mas não menos recordada por quem era da idade certa em inícios de 90: 'As Canções do Lecas', o primeiro e único registo discográfico do então mega-popular personagem infantil criado e interpretado por José Jorge Duarte.


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À semelhança dos registos anteriormente mencionados, 'As Canções do Lecas' consiste de doze canções (seis por lado do disco de vinil) de pop-rock dançável, típico da época, com temas relevantes para a faixa etária a que se destinava (como os factos sobre animais, a segurança rodoviária, ou simplesmente uma lista-rol de referências aos mais populares heróis de ficção e banda desenhada da época) e refrões orelhudos trauteados por Lecas na sua voz nasalada, com a ajuda de um coro infantil.


E aqui, há que ressalvar que – ao contrário da maioria dos registos contemporâneos do estilo – quem canta aqui é mesmo Lecas (o personagem de mentalidade infantil que apresentava a popular 'Hora do Lecas' na RTP) e não o seu criador; à semelhança da dupla Batatinha e Companhia alguns anos mais tarde, José Jorge Duarte veste o personagem durante toda a duração do álbum, tanto nas letras como na própria interpretação dos temas. A diferença é que, ao contrário do que acontecia com o CD do Batatoon, estes temas são todos originais, não havendo lugar a quaisquer adaptações de temas 'sacados' a programas infantis de outros países.


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O alinhamento de músicas do álbum


O resultado, diga-se de passagem, salda-se por extremamente positivo, mesmo de uma perspectiva adulta; este é daqueles discos que leva a sério e trata com respeito o seu público-alvo, e como tal, pode ser apreciado como obra musical por direito próprio, ao invés de mero artigo de 'marketing' ligado a uma propriedade intelectual popular.


Infelizmente, e apesar da sua qualidade, este registo não goza, hoje em dia, da popularidade ou volume nostálgico de qualquer dos discos citados acima, tendo um estatuto mais 'de culto' entre quem era fã do programa e da idade certa para o apreciar; uma pena, visto tratar-se de um registo que, como o grupo atrás mencionado certamente atestará, era merecedor de bem maia reconhecimento...


 


 


Sunday, 23 January 2022

Domingos Divertidos: Os Pinypons

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Os anos 90 (tal como a década anterior) são, hoje em dia, justamente lembrados como uma era em que a indústria de fabrico e comercialização de brinquedos obedecia a certos padrões em termos do que era ou não popular. Os rapazes da época, por exemplo, privilegiavam brinquedos ligados à banda desenhada ou aos desenhos animados, ou simplesmente que tivessem um aspecto atractivo, como no caso dos carros telecomandados; já as raparigas procuravam linhas de brinquedos que reflectissem aspectos do quotidiano, fossem eles o dia-a-dia das mães de bebés recém-nascidos, das donas de casa, ou até de uma super-modelo com mansão, carro descapotável e namorado igualmente atraente. Havia, claro, brinquedos que desafiavam esta 'regra', mas até mesmo esses sucumbiam, aqui e ali, aos estereótipos sobre aquilo que as crianças verdadeiramente procuravam – basta atentar nas linhas marcadamente 'sexuadas' oferecidas pela LEGO na época, por exemplo.


Foi com panorama vigente que, ainda nos anos 80, a espanhola Famosa – também responsável pelo Nenuco, pelas Barriguitas e por vários outros dos brinquedos favoritos das meninas da época – decidiu lançar internacionalmente os bonecos e cenários que criara ainda na década anterior, e a que chamara Pin Y Pon (conhecido em Portugal, devido à sua grafia estilizada, como Pinypon.) E como seria de esperar, um dos primeiros mercados abrangidos por esta expansão foi, precisamente, o do país vizinho, onde estes bonecos aterraram algures nos anos 80, prontos para mais de duas décadas de sucesso entre a criançada.


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Com um design estilizado e 'fofinho' (muito semelhante ao que hoje inspira os popularíssimos Funko Pops) e dimensões reduzidas – maiores que uma figura da Lego, mas menores que uma da Playmobil – Pin (o rapaz) e Pon (a rapariga) eram dirigidos a um público mais jovem do que qualquer das suas concorrentes (sensivelmente o mesmo a que se destinava a linha Duplo da LEGO) e traziam como principal atractivo o facto de os seus cabelos serem totalmente removíveis, podendo assim qualquer figura usar o 'penteado' de qualquer outra - uma característica que era acentuada pelo facto de, na maioria das vezes, os bonecos usarem apenas pijamas estilo 'onesie' de cor uniforme, impedindo assim, propositadamente, a distinção entre sexos. Também à semelhança do que sucedia com as mini-figuras da LEGO, certos conjuntos de Pinypon traziam, além do cabelo, alguns acessórios extra, como chapéus, que eram também intercambiáveis, oferecendo assim ainda mais possibilidades a cada brincadeira.


É claro que, para além dos bonecos em si, esta linha oferecia também alguns cenários onde os colocar, a maioria baseada em locais corriqueiros, onde crianças da idade dos dois bonecos se poderiam realisticamente encontrar; no entanto, como seria de esperar numa linha deste tipo, certos destes cenários pendiam mais para a vertente da realização de algumas das mais frequentes fantasias infantis, apresentando locais como circos ou marchas, em que o casalinho de bonecos era protagonista principal.


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Exemplo de um cenário da linha


No cômputo geral, esta era uma linha bastante sólida do ponto de vista conceptual, mas que – como tantas vezes sucede – não tardou a sofrer alterações, em parte impostas pelas alterações no mercado de brinquedos, e pela necessidade de se manter relevante e continuar a vender. Primeiro, os bonecos passaram a ter caras detalhadas, em substituição dos olhos negros e sem pupilas de anteriormente; depois, ganharam articulações; e por fim (já no século XX, e após um hiato de três anos na produção da linha) reinventaram-se com um 'design' estilo 'anime', que os torna praticamente irreconhecíveis para quem com eles brincou nos simples e honestos primórdios dos anos 80 e 90.


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As três gerações de Pinypon


Ainda assim, há que dar mérito a esta linha da Famosa por se ter conseguido 'aguentar' nas prateleiras de brinquedos durante cinco décadas, mesmo depois de a maioria dos brinquedos deste tipo terem perdido totalmente a atenção do público alvo; nesse capítulo, os Pinypons rivalizam apenas com linhas e marcas do calibre da LEGO (que também se viu obrigada a mudar com os tempos), a Barbie, a Polly Pocket ou os referidos Nenucos. Pena que, ao contrário da maioria destas, o tenham feito à custa de uma identidade própria que, no início da sua trajectória, era precisamente o que os distinguia da concorrência...

Saturday, 22 January 2022

Sábados aos Saltos: As Rodas de Empurrar

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


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Lá por casa houve duas praticamente iguais a esta, mas em cores diferentes


Numa era em que a esmagadora maioria dos produtos disponíveis para qualquer faixa etária tem funções de conectividade, ecrãs integrados, 'apps' associadas e toda a espécie de outras inovações electrónicas, vale sempre a pena lembrar que nem sempre é necessária tecnologia topo-de-gama e funcionalidades sofisticadas para proporcionar momentos de deleite e lazer a uma criança; por vezes, basta uma roda de plástico, em cores berrantes, acoplada a um pau, e contendo no interior uma esfera que se mexe em sintonia com a roda, gerando um efeito visual e sonoro.


Ou, pelo menos, tal era verdade nos anos 90, quando estes brinquedos estavam entre os mais populares brindes 'baratos' comprados num qualquer parque ou loja de esquina durante uma Saída ao Sábado. Embora não fizessem parte do 'topo de gama' dos brinquedos de exterior – estavam muito, muito longe das bicicletas, skates, patins em linha, ou até do patamar dos aviões com fios – não deixavam, no entanto, de ser uma adição bem-vinda a uma manhã de passeio, ou simplesmente de brincadeira no jardim ou parque infantil, especialmente para as crianças mais novas, para quem o estímulo audio-visual representado pelo movimento e som da pequena roda colorida nunca deixava de causar gáudio.


Infelizmente, e como já vem sendo hábito constatar nestas páginas, este é mais um entre muitos exemplos de brinquedos que caíram completamente em desuso desde a época a que este blog diz respeito. Embora ainda continuem a ser fabricadas – e iguaizinhas às daquele tempo, como se pode ver na imagem que ilustra este post – as mesmas encontram-se praticamente 'extintas' na 'vida real', tendo-se, como tantos outros brinquedos que aqui abordamos, tornado domínio quase exclusivo dos 'sites' de venda grossista de brinquedos, onde ainda é possível encontrar absolutamente tudo. Ainda assim, quem no seu tempo teve o prazer de passar alguns minutos a empurrar uma e a ouvi-la fazer o seu característico 'estralejar', certamente não obstará à sua presença nesta secção do nosso blog...

Friday, 21 January 2022

Sextas com Style: As Marcas 'Desaparecidas'

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


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A Pony é apenas uma das muitas marcas de roupa desportiva dos anos 90 que se encontram, hoje em dia, 'desaparecidas' da cultura popular


Sanjo. Pony. Fila. Le Coq Sportif. Kappa. Todos as conhecemos. Todos as vestimos. Marcas que, não sendo 'topo de gama' do vestuário casual-desportivo dos anos 90, não ficavam ainda assim mal vistas junto das mais conhecidas Adidas, Reebok, Nike ou Puma. Marcas que, infelizmente, se encontram hoje em dia extintas ou em extinção (pelo menos de uma perspectiva sócio-cultural), vivendo portanto, sobretudo, na memória de quem era menos 'mainstream' (ou tinha menos dinheiro) no tocante a comprar roupa de desporto em finais do século XX.


Numa altura em que a variedade dentro do mercado de vestuário pseudo-desportivo é tão pouca que se torna quase aborrecido entrar numa loja do género – porque sabemos que vamos ver Adidas, Nike, New Balance, com sorte ou um outro Converse, e pouco mais – pode parecer difícil acreditar que, há menos de uma geração atrás, as crianças e jovens (em Portugal e não só) tinham uma enorme gama de marcas por onde escolher no momento de adquirir ténis, t-shirts, bonés e outros artigos indispensáveis ao estilo casual-juvenil; e embora, como mencionámos anteriormente, nem todos estes nomes tivessem o mesmo peso, o mais importante era mesmo a marca ser reconhecível, e o artigo ser (ou, pelo menos, passar por) genuíno - ou não fossem os anos 90 a era de ouro do vestuário de contrafacção; reunidas estas condições, e salvo raras e honrosas excepções, a maioria das marcas seria bem aceite junto de um grupo de determinada idade.


No entanto, à medida que os anos avançavam, e o segundo milénio dava lugar ao terceiro, a maioria destas marcas foram, lentamente, desaparecendo da consciência popular, juntando-se a nomes de outros quadrantes, como a No Fear e a Quebramar, no grande e constantemente renovado cemitério das 'cenas da infância' - mesmo quando, como no caso da Pony, continuavam a constituir uma referência dentro de um determinado nicho (no caso, o basquetebol profissional.) Cabe, portanto, hoje a blogs como o nosso a missão de manter viva a memória destas marcas 'menores', mas que todos tínhamos no armário naqueles tempos já distantes...

Thursday, 20 January 2022

Quintas de Quinquilharia: O Coleccionismo nos Anos 90

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Uma das principais características da maioria das crianças e jovens – seja qual for a época em que nascem e crescem – é o gosto pelo coleccionismo. Há algo na perspectiva de acumular todas as variantes disponíveis de alguma coisa que desperta o interesse inato do ser humano em fase formativa, sendo essa predisposição intangível o principal factor por detrás do sucesso de fenómenos como as colecções de cromos, jogos como os Tazos, o Magic the Gathering e conceitos como o do 'franchise' Pokémon.


No entanto, e ainda que todos os produtos atrás enumerados convidem ao coleccionismo parametrizado (no caso, pelo número de cromos, Tazos, cartas ou até monstrinhos virtuais à disposição do utilizador) existe – ou pelo menos existiu – uma vertente bem mais espontânea e anárquica deste passatempo, traduzida no coleccionismo de um determinado tipo de produto ou objecto, independentemente da sua proveniência e sem estar restrito aos moldes artificialmente criados por uma determinada empresa.


Esta vertente do 'hobby' de coleccionar, que encontra raízes em décadas mais ou menos remotas da sociedade ocidental, estava ainda bem viva nos anos 90, sendo que muitas crianças e jovens desse tempo tinham, ainda, o hábito de coleccionar 'quinquilharias', fossem elas selos, autocolantes, seixos da praia, postais, caricas, fotografias de artistas, ou até algo mais inusitado, como Credifones.


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Os porta-chaves eram apenas um dos muitos objectos quotidianos potencialmente coleccionáveis para um jovem dos anos 90


Dependendo da seriedade de cada indivíduo, estas colecções podiam chegar a durar anos, e – pela sua organização e armazenamento tão anárquicos quanto o próprio método de colecção – corriam sério risco de serem deitadas fora, oferecidas a terceiros ou (na melhor das hipóteses) vendidas quando se tornasse necessário desocupar espaço nos armários, juntar dinheiro, ou proceder a uma alteração no estilo de vida. Melhor sorte tinham as que ficavam guardadas na garagem depois de o seu dono perder o interesse, à espera de serem encontradas e nostalgicamente recordadas algumas décadas depois.


Fosse qual fosse o seu fado, no entanto, a verdade é que as colecções eram, nos anos 90, levadas muito a sério pela faixa mais jovem da população – ao ponto de, nas habituais secções de correspondência que eram parte integrante de qualquer revista para jovens da época, aparecerem muitas vezes anúncios relativos à troca de elementos de colecção, fossem essas trocas directas – selos por selos, por exemplo – ou entre elementos de dois tipos distintos (como um coleccionador de caricas que trocasse tampas raras por postais ou autocolantes potencialmente interessantes, por exemplo.) A natureza necessariamente postal destas interacções fazia ainda com que, muitas vezes, aquilo que começava como um 'negócio' de interesse puro e duro se transformasse em algo mais, por força do volume de cartas e encomendas trocadas entre ambas as partes – decerto terá havido muitas amizades a ter início na secção de Trocas do Correio do Leitor de uma qualquer revista dirigida ao público juvenil...


Tal como muitos outros fenómenos de que falamos nestas páginas, no entanto, também o coleccionismo acabou por cair em desuso. Embora o sucesso da série de jogos de 'Pokémon' demonstre que a atracção quase obsessiva pelo coleccionismo não desapareceu por completo entre a demografia mais jovem, os membros da mesma parecem mais interessados em coleccionar seguidores no YouTube ou Instagram do que em juntar paciente e dedicadamente produtos físicos semelhantes ao longo de vários anos; uma pena, pois – além de divertido – o coleccionismo fomenta conceitos tão valiosos quanto as supracitadas dedicação e paciência, a perserverança, o desenvolver de interesses próprios ou o sentido de organização e responsabilidade. Ainda não é, no entanto, demasiado tarde – talvez a última geração a ter crescido a coleccionar 'bricabraques' em caixas e frascos mantidos na prateleira do quarto ainda consiga mostrar à que lhes sucedeu o porquê de este passatempo ter sido, em tempos, a tal ponto popular...

Wednesday, 19 January 2022

Quartas aos Quadradinhos: 'Lisboa Às Cores'

NOTA: As imagens deste post foram retiradas do 'site' pessoal de António Jorge Gonçalves, em http://www.antoniojorgegoncalves.com/livros-books.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Hoje em dia, há pouco quem duvide de que um meio como a banda desenhada também pode representar arte e cultura; de facto, são cada vez mais numerosos os volumes de banda desenhada dirigidos a um público jovem-adulto, à semelhança do sucedido nos anos 60 e 70 no seio do movimento franco-belga, e mais tarde no Japão, com as tradicionais 'mangas'.


Nos anos 90, no entanto, vivia-se o auge da era oposta – a era em que a banda desenhada (a par de meios audio-visuais análogos, como os jogos de vídeo) eram considerados estritamente para crianças, e tidos como a forma de leitura menos inteligente disponível no mercado – isto apesar de mesmo as BD's declaradamente para crianças terem laivos de sarcasmo e humor mais sofisticado por entre todo o 'nonsense' e animação. A tal não ajudava o facto de algumas destas publicações nada mais serem do que uma tentativa declarada de amealhar mais uns 'cobres' às 'costas' de um produto mediático da moda, com um ciclo de vida propositalmente curto e, portanto, sem grandes preocupações com a qualidade do material.


Terá, talvez, sido com o intuito de alterar esta situação, e a percepção que tanto graúdos como miudos tinham da banda desenhada, que, em 1993, o pelouro da Cultura da Câmara Municipal idealizou e distribuiu gratuitamente nas escolas do Primeiro Ciclo do concelho, uma publicação que, embora não se tratando de uma BD no sentido lato da palavra, se pode ainda assim inserir nesta categoria.


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Falamos de 'Lisboa Às Cores', um projecto que juntava desenhos do aclamado ilustrador António Jorge Gonçalves (então no auge de carreira, vindo a ser vencedor do prémio de Melhor Álbum Português no Festival de BD da Amadora desse mesmo ano, com a obra 'ANA') com textos de Nuno Júdice, num conceito que ficava ali a meio caminho entre a banda desenhada de cariz mais abstracto e artístico e os livros ilustrados tipicamente lidos pelas crianças daquela faixa etária, dando sempre maior primazia aos desenhos do que ao texto. No fundo, o livro servia quase como uma daquelas colecções de arte que normalmente se põem na mesa da sala de estar, sendo o tema, neste caso, a cidade de Lisboa, e as emoções e sentimentos que a mesma inspira – um conceito, talvez, um pouco 'adulto' demais para o público a que se destinava, mas cuja execução, de uma perspectiva adulta, não pode ser considerada menos do que excelente.


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Exemplo da arte do livro


De facto, basta olhar de relance para os desenhos de Gonçalves para perceber a razão de o mesmo ser um praticante aclamado da arte da ilustração, enquanto a prosa vagamente poética de Júdice encaixa bem no que o seu 'parceiro de crime' vai criando, resultando numa leitura agradável para entusiastas de BD de todas as idades. O facto de um livro com este grau de detalhe e cuidado ter sido distribuído gratuitamente é motivo para elogios ao pelouro da Cultura da CML em 1993, pois haveria muito boa gente (embora não necessariamente entre os 5 e os 10 anos de idade...) que pagaria de bom grado para poder ler este livro.


Hoje em dia, como tantos outros tópicos de que aqui falamos, 'Lisboa Às Cores' encontra-se um pouco Esquecido Pela Net – excepção feita, claro está, ao seu próprio criador. No entanto, para uma criança em 1993 (especialmente uma que já gostasse de livros, e de ler) este álbum terá constituído uma oferta plena de acerto – ainda que talvez tenha demorado alguns anos até as mesmas se aperceberem disso...


 

Tuesday, 18 January 2022

Terças Tecnológicas: A TV Cabo em Portugal

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


No início da década de 90, o termo 'televisão' em Portugal designava, quase exclusivamente, os dois canais estatais, as RTP 1 e 2, que se veriam acrescidos, alguns anos mais tarde, dos dois canais privados, a SIC (surgida em 1992) e a TVI (que aparecia no ano seguinte); quem quisesse ter mais canais, poderia recorrer à futurística tecnologia da TV por satélite, que permitia captar emissões tão excitantes como as da RTP Madeira, TVE, e – com sorte – um Eurosport desta vida, provavelmente com imagem tremida (ou com a famosa 'areia') e som a condizer. Pouca gente imaginava que o conceito de 'TV por cabo' pudesse, no contexto português, alguma vez vir a ser mais do que uma daquelas coisas que aparecem nos filmes e séries norte-americanos, e que estão tão longe da realidade lusitana que se tornam de difícil compreensão.


A verdade, no entanto, é que esta tecnologia estava mais próxima do que se pensava – no cômputo geral, não se passaria mais do que meia década até a TV Cabo se encontrar implementada em Portugal, com várias operadoras a oferecer serviços de fibra óptica de Norte a Sul do País. Corria ainda o ano de 1994 quando a Portugal Telecom, através da subdivisão PT Multimédia, introduzia o serviço em Portugal Continental, mudando para sempre as vidas de milhões de cidadãos, entre eles muitas crianças e jovens.


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Logotipo original do serviço


Curiosamente, no entanto, a TV Cabo perfila-se como um exemplo de uma tecnologia que não entrou em Portugal por via da capital, ou mesmo da outra grande cidade, o Porto; numa inversão do habitual fluxo dos acontecimentos, o primeiro território a adoptar os novos cabos de fibra óptica seria a Região Autónoma da Madeira, que iniciaria a transmissão de programas por cabo ainda em 1993, largos meses antes de esta inovação chegar ao espaço continental, em Maio de 1994, já acompanhada de uma mascote, a toupeira Fibras.


Uma vez apresentado ao grande público, no entanto, este serviço gozou de uma adesão sempre crescente, muito graças ao número perfeitamente alucinante de canais que oferecia. Espectadores habituados a quatro canais, com – quanto muito – mais um punhado obtido via satélite, tinham agora a oportunidade de escolher de entre uma variedade de canais generalistas e especializados, tanto nacionais como estrangeiros – ainda que, no caso da maioria destes últimos, sem recurso a legendas. Para as crianças e jovens, em particular – habituados a que a proposta para a sua faixa etária se resumisse a blocos específicos – a ideia de ter não um, mas DOIS canais totalmente dedicados à programação infantil (um dos quais, o Canal Panda, com conteúdos dobrados e legendados em português) era nada menos do que entusiasmante, sendo que o acesso a esses canais viria a moldar as memórias televisivas de infância de toda uma geração – basta referir que, sem a existência do Canal Panda e do Cartoon Network, nunca teríamos podido ver as icónicas dobragens espanholas de Doraemon e Captain Tsubasa, nem tão-pouco criações originais do canal norte-americano, como Johnny Bravo, Dexter's Laboratory, Cow and Chicken ou as Powerpuff Girls.


Mais – desses inícios já de si auspiciosos, a TV Cabo apenas viria a consolidar o seu crescimento, aumentando e ampliando cada vez mais a sua oferta, e adicionando canais 'premium' apenas acessíveis mediante subscrição, como era o caso da Sport TV ou dos famosos 'Telecines', que ofereciam ainda mais opções e escolha a quem estivesse disposto a pagar por eles; e mesmo quem não queria incorrer em custos extra continuava a ter muito que ver, sendo que o serviço oferecido pela TV Cabo nesses primeiros anos não só justificava o preço mensal de adesão ao serviço como contribuía para o volume crescente fidelização entre os clientes, que, ao longo dos anos, foram abandonando progressivamente a TV por satélite para se mudarem de 'armas e bagagens' para o novo serviço.


O resto da história é por demais conhecido: a longo prazo, a TV por cabo tornar-se-ia o 'standard' dos lares portugueses, sendo cada vez mais raros aqueles que continuavam apenas com os 'velhos' quatro canais – uma situação que se exacerbou já no final da década, quando os pacotes de Cabo passaram, também, a incluir Internet sem fios. Estava eliminada a última desculpa para não ter o serviço, e quebrada a resistência da maioria dos portugueses, permitindo à PT (hoje NOS) assumir a hegemonia de mercado e implementar nos lares portugueses aquilo com que, menos de dez anos antes, a maioria deles apenas sonhava: a televisão por cabo, tal como esta era entendida em países como os Estados Unidos. Lá diz o velho ditado, 'mais vale tarde do que nunca'.


Monday, 17 January 2022

Segundas de Séries: 'As Lições do Tonecas'

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Grande parte do humor é intemporal. Apesar de a definição do que tem ou não piada tender a divergir de geração para geração e de cultura para cultura, há coisas que nunca deixam de ter graça – um jovem dos dias de hoje pode, por exemplo, derivar tanto prazer de um episódio de Mr. Bean ou Tom e Jerry como os seus pais ou avós quando eram da mesma idade. Assim, não é de estranhar que, de quando em vez, alguém decida recuperar um destes conceitos perpetuamente divertidos e apresentá-lo a todo um novo público, na esperança de que o legado desse material se perpetue ainda por mais uma geração.


Foi precisamente isso que a RTP fez quando, há pouco mais de um quarto de século, no Verão de 1996, decidiu recuperar a obra humorística de José de Oliveira Cosme, criada e transmitida na rádio sessenta anos antes, e adaptá-la para a televisão estatal de meados da década de 90. O resultado foi uma série que ainda hoje faz sorrir quem era da idade certa para lhe achar piada na altura, e que merece certamente ombrear com a obra de Herman José no panteão de séries humorísticas nacionais de finais do século XX.


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De facto, e apesar de expandir consideravelmente sobre o conceito original, a versão 'anos 90' de 'As Lições do Tonecas' não perde a sua essência, continuando a centrar-se na relação entre um aluno da instrução primária cábula, gozão e de 'inteligência saloia', embora de bom coração – o titular Tonecas – e o seu agastado professor, a quem a simples missão de leccionar uma aula com Tonecas na sala deixa sempre à beira de um ataque de nervos. Uma premissa simples, mas que já rendeu dividendos em obras como 'O Menino Nicolau', de Sempé e Goscinny, e que o torna a fazer aqui – mesmo que, na adaptação para televisão, o aluno tenha uma idade algo avançada (em várias décadas...) para ainda andar na instrução primária (se bem que, tratando-se de Tonecas, é perfeitamente possível que tenha simplesmente reprovado uma quantidade infinita de vezes...)


E por falar no aluno, é na interpretação de Luís Aleluia – e, diga-se de passagem, do seu coadjuvante, o 'professor' Morais e Castro – que está um dos grandes trunfos do 'Tonecas' televisivo. O comediante está em grande forma, soltando com gosto as suas piadas de humor brejeiro e, por vees, físico (muitas delas tiradas dos textos originais de Cosme, embora obviamente não todas), e exibindo grande química com o seu parceiro 'straight-man', que leva a muitos momentos divertidos; e, quanto mais não seja, Aleluia tem mérito por conseguir que o seu Tonecas obviamente adulto (mas sempre vestido como um típico 'puto' da escola) não seja, em nenhum momento, estranho ou perturbante – como o Chaves sul-americano, este era um 'miúdo graúdo' que a própria faixa etária alvo aceitava sem reservas, facto que ajuda, em parte, a explicar o enorme sucesso do programa.


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As interacções entre o Tonecas de Luís Aleluia e o professor de Morais e Castro estavam na base do sucesso da série


É claro que, sendo uma produção da RTP na década áurea da publicidade e 'marketing', o 'Tonecas' moderno não se mostra averso à expansão para lá do material original, nomeadamente no que toca a conceitos como os convidados especiais. De facto, embora a maioria dos episódios se desenrolassem apenas com os personagens principais e alguns alunos coadjuvantes (estes, verdadeiramente com idade para ainda andarem no ensino básico) surgiam de vez em quando algumas presenças externas para perturbar ainda mais as aulas; alguns destes eram apenas novos personagens representados por actores convidados (como a 'tia' Pureza Bucelas, de Ana Bola), mas outros apareciam a interpretar-se a si mesmos, como naquele episódio em que, sem razão aparente e sem qualquer pré-aviso ou antecipação, os Excesso entram pela sala de Tonecas adentro e se preparam para assistir à aula!



Um daqueles segmentos que definem a expressão 'ver para crer'


É claro que estes 'crossovers' se destinavam, pura e simplesmente, a publicitar os artistas e convidados em causa – não fossem os Excesso a sensação do momento da música portuguesa em 1997-98 – mas o facto é que a ousadia em arriscar este tipo de manobras, numa série que se pretendia fiel à obra de humor clássico que lhe estava na base, pode também ter tido um papel importante na longevidade de 'Tonecas', que se manteria no ar até praticamente ao fim do milénio, tornando-se presença assídua e constante nos televisores das crianças e jovens portuguesas da época.


Todos os truques publicitários do Mundo são em vão, no entanto, se o produto que tentam promover não tiver qualidade; felizmente, mesmo sem estas 'artimanhas', 'Tonecas' revelava-se uma série bem escrita – dentro dos seus parâmetros de humor simples e directo – magnificamente interpretada, e que, no cômputo geral, ainda se aguenta bem nos dias de hoje, mesmo depois das significativas mudanças sociais e culturais que um período de um quarto de século inevitavelmente acarreta. Um bom exemplo, pois, do tal humor intemporal de que se falava no início deste texto, e que tende a ser tão difícil de executar...


Sunday, 16 January 2022

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - Rui Costa no Fafe

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Um dos maiores paradoxos do futebol, quer actualmente quer em décadas transactas, prende-se com o facto de, por vezes, jogadores que se revelam como talentos invulgares terem de passar incontáveis temporadas em situação de empréstimo durante os seus anos formativos. É claro que, por vezes, existem nomes que contrariam esta tendência, principalmente desde o dealbar do futebol moderno – basta lembrarmo-nos de Luís Figo, João Moutinho, Renato Sanches, Francisco Conceição ou, claro, Cristiano Ronaldo – mas, para cada um destes exemplos, continua a haver um sem-fim de nomes que deixam os adeptos a pensar em como é possível que os clubes não tenham visto, de imediato, o potencial dos jogadores – nomes como Deco, Miguel Veloso, João Palhinha, ou o homem de que falamos hoje, Rui Costa.


Produto das escolinhas do Benfica, e considerado pela lenda Eusébio como grande promessa para o futuro, Rui Manuel César Costa parecia, à entrada para a sua primeira época como sénior, no dealbar da década de 90, uma escolha natural para a promoção ao plantel principal do clube onde crescera para o futebol – especialmente tendo em conta que o médio tinha feito parte da Selecção portuguesa que havia conquistado o título de campeão mundial de sub-20, em Riade, no ano transacto. Terá, portanto, sido com alguma surpresa que os adeptos benfiquistas viram a jovem promessa de 18 anos rumar ao Grupo Desportivo de Fafe, num dos tais empréstimos por uma época que indicam que, apesar de o clube principal ainda contar com o jogador para o futuro, existem primeiro algumas arestas a lapidar.


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Foto de arquivo que mostra Rui Costa integrado no plantel do Fafe, aqui em treino (Crédito da foto: MaisFutebol)


E o mínimo que se pode dizer é que Rui Costa alisou definitivamente quaisquer 'cantos' pontiagudos que ainda pudessem existir durante a sua temporada na equipa nortenha em 1990-91, tendo-se afirmado como parte indiscutível da equipa (entre aulas de código e visitar ao clube de vídeo, foram 38 jogos, tendo o médio ainda contribuído com seis golos) e crescido o suficiente como futebolista para, aquando do seu regresso à casa-mãe (já com o título de Campeão Mundial de Sub-21, obtido novamente em Riade e no qual Rui Costa teve papel decisivo, ao marcar o 'penalty' que decidiu a final) ser integrado nos trabalhos da equipa principal, da qual apenas sairia para protagonizar uma das primeiras grandes transferências do futebol português moderno, ao rumar à Fiorentina, de Itália, em contra de 1 milhão e 200 mil escudos, o equivalente actual a seis milhões de euros. Pelo caminho ficavam uma Taça de Portugal, ganha ao Boavista por 5-2 em 1992/93, o título máximo de campeão nacional, obtido na época seguinte, sob o comando do não menos lendário Toni, e uma dupla de meio-campo ainda hoje tida pelos adeptos benfiquistas como uma das melhores de sempre, ao lado de João Vieira Pinto.


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De Fafe, Rui Costa 'voaria' para a ribalta do futebol mundial (Crédito da foto: FotoArte/MaisFutebol)


No futuro estava, claro, mais de uma década em Itália, ao serviço da Fiorentina e AC Milão, que lhe valeria a alcunha de 'Il Maestro', outros tantos anos como 'motor' de uma Selecção Portuguesa 'movida' a Geração de Ouro, e, finalmente, um regresso ao Benfica, que acolheu de braços abertos o seu filho pródigo e, após o término natural da carreira deste, o integrou nos quadros do clube que o formara para o futebol, onde ainda hoje milita. Prova concreta de que a previsão de Eusébio, quase quatro décadas antes, estava correcta, e de que Rui Costa era mesmo um dos 'especiais' do futebol moderno – mesmo que esse talento tenha, por uma época pelo menos, andado perdido nos 'batatais' da Segunda Divisão nacional de inícios dos anos 90...

Saturday, 15 January 2022

Saídas ao Sábado: Os Videoclubes

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


Os anos 80 viram nascer aquele que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos e revolucionários aparelhos tecnológicos da História, o leitor de videocassettes. Ao contrário do que se passava até então – em que um qualquer filme tinha de ser visto enquanto estivesse em cena, caso contrário havia que esperar por uma eventual repetição – graças ao leitor de vídeo, qualquer cinéfilo podia, agora, ver o seu filme preferido no conforto da sua casa, quantas vezes quisesse e sempre que quisesse.


Esta premissa apenas tinha um problema – nomeadamente que, como qualquer tecnologia recém-criada, tanto os próprios leitores de VHS e Betamax como as cassettes com eles compatíveis eram proibitivamente caros para a carteira média da época; mesmo dez anos mais tarde, já depois de a tecnologia se ter popularizado, e de o VHS ter ganho a batalha dos formatos e tornado obsoleto o seu 'irmão mais velho', continuava a não ser barato alimentar o 'vício' por filmes em casa. Não foi, pois, de surpreender que o sempre oportunista mundo dos negócios tenha 'inventado' toda uma nova forma de lucrar com este paradigma e, ao mesmo tempo, permitir ao cidadão médio ver filmes em videocassette sem ter que abrir os cordões à bolsa.


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Surgidos ainda nos anos 80, precisamente como resposta ao problema acima delineado, os videoclubes não tardaram a popularizar-se, primeiro nos dois extremos do continente americano, e mais tarde um pouco por todo o Mundo – incluindo Portugal. O seu conceito era simples: a inscrição como sócio de um destes serviços permitia a qualquer pessoa alugar filmes por um período de uma a cinco noites, tendo cada modalidade um preço fixo – uma solução que, apesar de temporária, caiu no gosto da tal percentagem da sociedade ocidental que não tinha meios para comprar vídeos de forma permanente. Graças aos clubes de vídeo, a prática de juntar toda a família frente a um filme numa Sexta ou Sábado à noite tornou-se prática corrente, e muita gente deixou de ter desculpa para ainda não ter visto tal ou tal filme.


Com o seu aspecto e atmosfera característicos – em Portugal, a maioria eram pequenas 'lojecas' de bairro, longe do 'glamour' de uma Blockbuster – e o óbvio atractivo de oferecer filmes de todos os tipos, desde os maiores 'blockbusters' aos filmes de série B mais 'chungas' – os clubes de vídeo tinham, para as crianças dos anos 80, 90 e 2000, uma atracção muito especial, que apenas aumentava no caso dos videoclubes que permitiam alugar jogos de vídeo. Ir ao clube de vídeo alugar um filme, ou até devolvê-lo, era uma parte marcante da semana de qualquer criança ou jovem da época, e terá sido nestes espaços que muitos deles terão descoberto alguns dos seus filmes favoritos - uma situação que não se alteraria durante as duas décadas seguintes, mesmo depois de o VHS sofrer o mesmo destino que inflingira ao Betamax, e ser tornado obsoleto pelo formato DVD.


Não, a 'morte' dos clubes de vídeo viria a dar-se, como é tantas vezes o caso com os produtos e conceitos que abordamos neste blog, com o dealbar da era digital 2.0, com as suas plataformas de vídeo e streaming, que tornariam obsoletos não só este tipo de estabelecimentos, como o próprio conceito de formatos físicos para gravação e reprodução de filmes. Após o aparecimento de serviços como o YouTube, não tardaria muito até aqueles carismáticos 'buracos' escuros e esconsos, cheios de uma ponta à outra com estantes repletas de filmes de todos os tipos, estilos e géneros, fecharem portas para sempre, e para o próprio conceito que representavam desaparecer da consciência popular da sociedade ocidental. Os mais velhos, no entanto – aqueles que se lembram da sensação de ir, sozinho ou acompanhado, buscar os 'filmes da semana' ao videoclube mais próximo – não deixarão morrer a memória destes espaços, tão icónicos e indissociáveis da cultura jovem da época como as lojas de discos, os cinemas de bairro, os salões de jogos 'manhosos' ou as discotecas de cave de centro comercial.

Friday, 14 January 2022

Sessão de Sexta: 'O Exterminador Implacável 2'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Na última edição desta rubrica, em relação a 'O Projecto Blair Witch', observámos como cada década cinematográfica apenas tem uma mão-cheia de filmes que verdadeiramente transcendem o seu estatuto como obras de entretenimento e se tornam parte da cultura popular: e se aquele filme tinha definitivamente lugar em qualquer lista deste tipo criada para os anos 2000 (dado ter estreado precisamente no último dia da década, século e milénio) o filme de que hoje falamos é um sólido candidato ao primeiro lugar da lista equivalente para os anos 90, visto que até o cinéfilo mais distraído ou o mais veemente opositor de filmes de acção violentos saberá o que é, e do que trata.


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À época a produção mais cara da História de Hollywood, com um orçamento em torno dos cem milhões de dólares, 'O Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento' foi o maior sucesso de bilheteira de 1991 e é, ainda hoje, considerado homónimo com a série 'Exterminador' como um todo (praticamente eclipsando o seu já bem-sucedido antecessor, de 1984) além de elogiado como um dos melhores filmes de ficção científica de sempre, e como um prodígio técnico para a época; nada, aliás, a que o realizador James Cameron fosse alheio, ele que já havia realizado o igualmente inovador 'Aliens' alguns anos antes, e que viria a bater o seu próprio recorde de custos não uma, mas duas vezes em anos subsequentes – primeiro com 'Titanic' (um dos principais concorrentes de 'Exterminador 2' ao trono cultural dos anos 90, a par de 'Matrix') e, mais tarde, com outro espectáculo audio-visual topo de gama, com o nome de 'Avatar'.


Mais ainda do que Cameron, no entanto, 'Exterminador 2' é sinónimo, na consciência popular, de dois nomes, ambos de actores que ocupavam papéis principais: por um lado, o jovem Edward Furlong, que viria a evoluir do seu papel como John Connor para outros papéis marcantes em filmes como 'América Proibida', e por outro, o de Arnold Schwarzenegger, para quem este filme cimentou o estatuto como principal herói de acção da década, e aniquilou de vez a possibilidade de o voltar a ver em filmes do calibre de 'Hércules em Nova Iorque'. Juntamente com o aterrorizante T-1000 de Robert Patrick (de quem o agora heróico T-101 tem de proteger John e a mãe, Sarah) os dois são responsáveis pela maioria dos elementos mais memoráveis do filme, com Arnie, em particular, a adicionar mais alguns exemplos à sua longa lista de 'frases feitas', prontos a serem referenciados e parodiados até à exaustão nas três décadas seguintes.


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Uma imagem icónica dos dois não menos icónicos protagonistas do filme


De facto, 'Exterminador 2' está tão indelevelmente enraizado na cultura popular que se torna quase redundante explanar sobre o seu sucesso, o seu impacto cultural, ou a sua importância para o género da ficção científica nas três décadas subsequentes; basta referir que, além das honras já mencionadas no início deste texto, o filme é, ainda hoje, o mais bem-sucedido da carreira de Arnold Schwarzenegger, e parcialmente responsável por iniciar o 'franchise' Terminator, que nas décadas seguintes veria surgirem novas séries de televisão, jogos de computador, e toda uma nova série de filmes centrados em torno do universo aqui retratado. E se esses mesmos filmes não são de forma alguma obras-primas do cinema, sendo controversos até mesmo entre os fãs do 'franchise', já 'Exterminador 2' é indiscutível como um dos maiores filmes dos anos 90, uma das maiores obras de ficção científica de sempre, e um marco cultural bem digno de ser celebrado – até porque, poucos meses depois de se ter celebrado a preceito o seu trigésimo aniversário, com um relançamento em 3D, continua a ser um filme tão impressionante, relevante e importante como sempre.


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Cartaz promocional da edição especial em 3D, recentemente lançada

Thursday, 13 January 2022

Quintas ao Quilo: Croustibat, os Douradinhos da Findus

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Para as crianças dos anos 90, o conceito de 'douradinhos' estava indelevelmente associado, ao ponto de ser quase sinónimo, com uma só marca – a Iglo, vertente europeia da anglófona Bird´s Eye – e respectiva mascote homónima – o Capitão Iglo (originalmente Captain Bird's Eye), um 'lobo do mar' da velha guarda cuja principal preocupação era garantir que, durante as suas expedições de pesca nos mares do Norte, os seus marujos apanhavam sempre o peixe mais fresco com o qual produzir os palitos de peixe panado ultra-congelados que tanto sucesso faziam entre a miudagem.


Este monopólio de mercado não impediu, no entanto, uma das principais rivais da Iglo de, em meados da década, tentar a sua sorte na comercialização deste tipo de produtos, sob a denominação Croustibat.


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Embalagem francesa do produto, que continua a ser comercializado no seu país natal


Originalmente idealizado em França (o próprio nome do produto parece, aliás, ser um 'portmanteau' de 'croustillants batôns', ou 'pauzinhos crocantes', o que acaba por ser uma descrição praticamente literal do que é um douradinho) e trazido para Portugal pela mão da Findus o conceito Croustibat 'amarava' em terras lusas pronto a comercializar, com grafismo, campanhas de marketing e até mascote própria, um peixe de chapéu de marinheiro e músculos à Popeye, pronto a enfrentar cara-a-cara o Capitão Iglo e acabar com a sua hegemonia. O investimento na penetração de mercado desta marca foi tal que chegou a ser feito um jogo de computador - uma adaptação gráfica de um dos jogos da série 'Gobliiiins!' com a mascote da gama como protagonista, que é hoje mais lembrado do que o próprio produto em si - uma honra a que, em Portugal, apenas o bem mais reconhecível Coelho Quicky havia, até então, almejado.


 


Vídeo integral do jogo de Croustibat, com direito até ao memorável anúncio da marca no início


Infelizmente, todos estes esforços se provaram ser em vão, já que os douradinhos Croustibat não duraram mais do que um par de anos nas prateleiras portuguesas, acabando por desaparecer das prateleiras de forma discreta, e sem nunca terem representado real ameaça ao domínio absoluto do Capitão Iglo sobre a arca dos congelados de peixe – o exacto oposto, certamente, do que a Pescanova pretendia ao importar para Portugal o conceito.


Quanto mais não seja, no entanto, a experiência Croustibat terá servido como caso de estudo, já que, nas três décadas subsequentes, nenhuma marca se atreveu a repetir a 'gracinha' de tentar fazer frente à Iglo no tocante a douradinhos, sendo que a única concorrência aos mesmos existente nos dias de hoje continua a vir das 'barrinhas de pescada' da Pescanova (que não quer, concerteza, incorrer em violação de uma marca e nome registados...) edos também já clássicos Peskitos, a alternativa aos douradinhos da Pescanova que ganha pontos por moldar os seus fritos em forma de peixe, mas perde por não te um nome ou mascote reconhecíveis -que ocupam um confortável segundo lugar como alternativa ao mais conhecido produto da Iglo. Quanto ao nome Croustibat em si, o mesmo acabou por ficar imortalizado, já no novo milénio, como denominação de uma banda integrante do movimento punk/hardcore português – mas isso seria já assunto para outra secção deste blog; para já, fica aqui a recordação desta história de David e Golias que, ao contrário da tradicional fábula, não se traduziu num triunfo do mais fraco, antes pelo contrário...


 

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...