Tuesday, 31 May 2022

Segundas de Sucesso: Laura Pausini, A Voz da 'Solidão'

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Na última edição desta rubrica, abordámos o Festival da Eurovisão, no qual Portugal teve diversas e honrosas participações; ora, neste ano de 2022, esse Festival tinha como país anfitrião a Itália, e como apresentadora uma cara que muitos ex-jovens portugueses dos anos 90 certamente terão, de imediato, reconhecido: Laura Pausini.


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A cantora, como muitos se recordam dela


De facto, no nosso país, a cantora e (hoje) apresentadora foi uma das duas 'caras' de uma mini-invasão italiana às nossas ondas radiofónicas no início da referida década, tendo como 'cúmplice' nessa 'missão' outro nome instantaneamente reconhecível, Eros Ramazotti (de quem chegou, aliás, a fazer versões em início de carreira). Juntos, os dois cantores – que quase poderiam passar por versões um do outro no sexo oposto, dadas as semelhanças estilísticas na música que praticavam – conseguiram, pelo menos durante um par de anos, interessar a juventude portuguesa na 'pop' romântica oriunda do país da 'bota'.


No caso de Pausini, o grande 'hit' que 'pegou' nas rádios portuguesas foi 'La Solitudine', música com a qual conquistou, ainda adolescente, a vitória na edição de 1993 do prestigiado Festival de San Remo. Daí ao primeiro lançamento profissional (nada mais nada menos do que pela multi-nacional Warner Music) foi questão de poucos meses, tendo o álbum homónimo da cantora – o seu segundo, após um primeiro lançamento informal com apenas treze anos – saído ainda nesse mesmo ano.


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Capa do primeiro álbum da cantora


O sucesso foi imediato, com três milhões de cópias do disco a circularem entre Itália e França, e a sequela, 'Laura', a surgir menos de um ano depois, em Fevereiro de 1994 – agora também com músicas em castelhano, para agradar ao respectivo mercado, onde a cantora fazia sucesso. Nesse mesmo ano, Laura perderia a nomeação de Revelação do Ano da prestigiada revista Bilboard para Mariah Carey, conquistando um ainda assim impressionante segundo lugar.


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O segundo álbum, 'Laura', saído em 1994


Por estranho que possa parecer, no entanto, todo este sucesso representava apenas o início para Laura Pausini, que passaria o resto da década a compôr, pela primeira vez, as suas próprias músicas (a maioria adaptada tanto para italiano como para castelhano), a traduzir para inglês o 'hit' 'La Solitudine', com a ajuda de Tim Rice, e a cantar em palco com Pavarotti, no espectáculo organizado pelo tenor em 1999. Em 2001, surge a primeira colectânea e, no ano seguinte, o primeiro álbum totalmente em inglês, produzido exclusivamente para os mercados anglófonos.


Seguir-se-iam mais álbuns (tanto de originais como ao vivo e de versões), dois Grammys (um Latino e um internacional) convites pessoais de Madonna para regravar músicas suas, o primeiro concerto dado por uma mulher no Estádio de San Siro, perante 75.000 pessoas, temas para telenovelas e, finalmente, a extensão dos seus talentos também ao mundo da televisão. Hoje em dia, Laura Pausini é recordista de vendas em Itália, onde continua a ser uma das principais personalidades musicais, numa carreira profissional prestes a completar trinta anos; para quem foi jovem e se interessou por música na década de 90, no entanto, continuará para sempre a ser a miúda gira e de sorriso maroto cujo vídeo passava no Top + e que fazia a capa de revistas como a Super Jovem...

Monday, 30 May 2022

Domingos Divertidos: Os 'Puzzles'

NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 29 de Maio de 2022.


Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


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Eram o presente ideal: grandes, vistosos, e capazes de manter uma ou mais crianças ocupadas de alguns minutos a várias horas ou mesmo dias, dependendo da dificuldade.


Falamos dos 'puzzles', um daqueles produtos que ninguém activamente PEDIA para ter, mas dos quais também ninguém desdenhava se recebidos como parte do espólio de Natal ou aniversário – até porque constituíam uma maneira bem divertida de passar uma tarde chuvosa em casa, fosse sozinho no quarto ou em cooperação conjunta com a família ou amigos, à volta da mesa da sala.


Comercializados, em Portugal, sobretudo pela Majora e Ravensburger – sendo a primeira associada aos mais simples, e a segunda aos maiores ou mais complexos – os 'puzzles' disponíveis nas prateleiras em finais do século XX surgiam em todas as formas e feitios, podendo o número de peças ir de dez a dez mil; já o tema da imagem que se procurava construir tendia a inserir-se, maioritariamente em duas categorias - imagens tipo 'stock' de animais, carros, cidades ou paisagens, ou propriedades intelectuais de activo interesse para o público-alvo, como desenhos animados ou personagens de banda desenhada, sobretudo da Disney. Havia, mesmo, 'puzzles' que, após construídos, assumiam funções duplas como auxiliar educativo ou jogo de tabuleiro, proporcionando assim a agradável surpresa de adquirir um produto 'dois-em-um'.


E apesar de poder parecer uma questão meramente de gosto, a verdade é que a escolha da imagem tinha influência directa sobre o grau de dificuldade do 'puzzle', sendo que imagens com largas áreas vazias de uma só cor – como o céu, ou o fundo branco de uma imagem de 'stock' – tendiam a requerer significativamente mais tentativa e erro do que aquelas em que se passava algo diferente em cada peça, tendendo estas últimas a ser mais apelativas a um público infanto-juvenil, e as primeiras a uma demografia mais velha.


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Este puzzle iria dar que fazer a muito boa gente...


Fosse qual fosse a sua natureza, no entanto, o certo é que os 'puzzles' foram mais um daqueles passatempos outrora tidos como intemporais, mas que (apesar de ainda hoje existirem e serem comercializados) acabaram mesmo por ser tornados obsoletos pela era das tecnologias digitais; hoje em dia, completar uma actividade deste tipo apenas requer uns poucos toques no ecrã de um qualquer dispositivo electrónico, tendo-se perdido a vertente de cooperação entre familiares ou amigos para a resolução de um quebra-cabeças, na maioria das vezes, verdadeiramente desafiante - ma experiência, decerto, saudosamente recordada pela geração que a viveu...

Sunday, 29 May 2022

Sábados aos Saltos: O Jogo do Bate-O-Pé

NOTA: Este post é respeitante a Sábado, 28 de Maio de 2022.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


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Poucos eram tão valentes quanto o Cebolinha está a ser neste desenho...


Os anos da pré-adolescência marcam o período em que a maioria das crianças tem, pela primeira vez, consciência da existência de sentimentos especiais e particulares em relação a outros indivíduos, na grande maioria das vezes do sexo oposto – os quais, uma vez apercebidos, são imediatamente processados e exteriorizados de uma variedade de maneiras.


Nos anos 90, uma das formas mais populares de lidar com estes novos e desconhecidos sentimentos – pelo menos dentro de certos grupos ou instituições de ensino – era o jogo conhecido como 'Bate-Pé' (ou 'Bate-O-Pé'), uma actividade que parecia propositalmente desenhada para testar não só as afinidades românticas, como também os limites da bravura e da vergonha dos jogadores. Senão veja-se; o conceito do jogo consistia na divisão dos jogadores conforme o sexo, cabendo à parcela masculina escolher de entre uma série de números de um a seis, cada um associado a uma determinada acção, estando as mesmas agrupadas em ordem crescente, do casto aperto de mão representado pelo 'um', até aos números que apenas os mais valentes escolhiam – 'cinco' para um beijo na boca, e o quase impensável 'seis', correspondente a um beijo com língua. Cada uma destas acções era, então, proposta à rapariga da escolha do jogador ('cinco à Marta', 'três à Inês', etc.) podendo a mesma aceitar a proposta, ou recusá-la, mediante o gesto que dava nome ao jogo.


Escusado será dizer que esta premissa resultava, inevitavelmente, numa panóplia de momentos e situações, de actos de inesperada bravura (por aqui, tentou-se uma vez pedir um 'cinco') a momentos de embaraço e humilhação quando a proposta era recusada pela rapariga escolhida; nada, no entanto, que desencorajasse as crianças daquele tempo – bem mais desprendidas em questões desse tipo do que as actuais – de levarem a cabo nova sessão do jogo no intervalo ou dia seguintes; afinal, quem sabe, talvez dessa vez a pessoa por quem se nutriam sentimentos se sentisse benevolente, e resolvesse aceitar a proposta que lhe era feita...

Saturday, 28 May 2022

Sessão de Sexta: 'Super Mário' (1993) Ou, Como Insultar Uma Base de Fãs

NOTA: Este post diz respeito a Sexta-feira, 27 de Maio de 2022.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Oa filmes baseados em videojogos têm, historicamente, estado entre as adaptações menos bem conseguidas da História do cinema moderno – um pódio que, em tempos, partilharam com as adaptações de banda desenhada. Mas enquanto que a reputação destas veio ser (muito) melhorada pelas produções multimilionárias dos estúdios da Marvel e DC Comics, o percurso dos videojogos no cinema continua a ser marcadamente errático, sendo cada tentativa razoavelmente conseguida (os três filmes de Tomb Raider ou o recente Uncharted) anulada pela existência de um desastre absoluto, que parece não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o seu público-alvo.


Serve este preâmbulo para apresentar, precisamente, um desses desastres absolutos que parecem não ter qualquer ideia do que torna o material original apelativo para o público-alvo – ou antes, aquele que talvez seja O exemplo-mor desta tendência: o filme de Super Mário.


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Estreado em Portugal em inícios de 1994, e produzido no ano anterior, 'Super Mário' (o filme) parece – ainda mais do que outros filmes deste tipo – fazer um esforço consciente para ignorar praticamente todos os elementos popularizados por jogos como 'Super Mario World', usando apenas os mais básicos e reconhecíveis (Mario, Luigi e Daisy são facilmente reconhecíveis, o vilão chama-se Rei Koopa, e há referências a cogumelos) e alterando rigorosamente TUDO o resto, por vezes de forma nada menos do que abstrusa; veja-se, por exemplo, o ambiente cyberpunk (!) do Reino dos Cogumelos, que apresenta os tradicionais Goombas (os atarracados e instantaneamente reconhecíveis cogumelos ambulantes que se popularizaram como o primeiríssimo inimigo do primeiríssimo jogo de Mario) como mutantes musculados e de feições deformadas (!!), o referido Koopa como um empresário (!!!) também ele mutante (!!!!) e com cabelo constituído por pequenos esporos de cogumelo (!!!!!), e Yoshi como um dinossauro semi-realista (!!!!!!).               smb-1280b-1623444752449.jpgsuper-mario-bros-movie-fans-restore-20-minutes-of-


No universo deste filme, ISTO é um Goomba (em cima) e ESTE é Koopa (em baixo)!!


Todo o filme toma esta toada, consistente com o credo, popular na Hollywood da época, de que para um filme de acção dirigido ao público jovem ser bem sucedido, tinha forçosamente de apresentar ambientes escuros e desolados - veja-se também, como exemplo deste fenómeno, o primeiro filme das Tartarugas Ninja. No entanto, onde essa obra apresentava cuidado, dedicação e sobretudo respeito pelo material de base, 'Super Mário' faz exactamente o contrário, quase parecendo um insulto propositado aos fãs do 'franchise' da Nintento por gostarem de algo tão tolo e colorido – o que torna ainda mais incongruentes os vários 'easter eggs' e referências aos jogos escondidos no cenário, prontos a serem encontrados por espectadores mais atentos.


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O universo do filme contém diversas referências a elementos dos jogos originais, apesar de pouco ou nada aproveitar dos mesmos.


Por este mesmo motivo, a primeira longa-metragem dos irmãos Mario (de quem ficamos, pelo menos, a saber ser esse o apelido) saldou-se como nada mais do que uma desilusão, que desperdiçava actores de confiança – Bob Hoskins e John Leguizamo vivem os personagens tanto ou mais do que 'Captain' Lou Albano e Danny Wells na versão televisiva do canalizador – num argumento pobre e sem qualquer tipo de relação com o universo estabelecido pelo franchise.


O resultado foi uma 'bomba' de proporções épicas, que merece plenamente o seu estatuto e reputação como um dos piores filmes, não só de videojogos, mas da década de 90 em geral – mas que muitos dos leitores deste blog terão, mesmo assim, ido ver ao cinema, dada a popularidade do material no qual (não) era baseado. Esperemos, pois, que a de há muito anunciada versão animada do canalizador italiano (a ser lançada pela francesa Illumination, de 'Gru, O Maldisposto' e 'Cantar!') consiga superar a sua antecessora 'de carne e osso' – embora, como este post terá demonstrado, tal não se afigure como uma missão particularmente espinhosa...

Friday, 27 May 2022

Quintas de Quinquilharia: As Pulseiras de Estalo

NOTA: Este post é respeitante a Quinta-feira, 27 de Maio de 2022.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


O 'instinto' para se adereçar tende, com cada geração que passa, a manifestar-se mais cedo, tendo a geração que cresceu durante os anos 80 e 90 sido a última a conseguir um desenvolvimento relativamente espaçado nesse sentido. Ainda assim, eram muitas as 'quinquilharias' e bugigangas destinadas a fazer as crianças sentirem-se bonitas e bem vestidas, e, dessas, uma tem, ainda hoje, preponderância sobre todas as outras; as pulseiras de estalo.


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Uma daquelas modas que ninguém tem muito bem a certeza de onde vieram, estas pulseiras serviam dupla função como quinquilharia de bolso e adereço de moda, podendo perfeitamente ter figurado numa qualquer Sexta com Style; no entanto, o facto de a maioria das crianças as encarar, acima de tudo, como um brinquedo – ou, pelo menos, um passatempo – justifica a sua presença nesta secção.


Em termos funcionais, estas pulseiras eram do mais simples que havia, consistindo meramente de uma tira de plástico ligeiramente magnetizada que, ao contactar com uma superfície adequada (normalmente, um pulso humano) se fechava sobre si mesma, ficando assim enrolada em torno da mesma; claro que, para muitas crianças e jovens, esta propriedade resultava em vários minutos de diversão, durante os quais se batia com a pulseira com o máximo de força possível no próprio pulso ou no de um colega, sob pretexto de ver se a mesma funcionava, mas por vezes com a segunda intenção de provocar um pouco de dor. Um mecanismo simples, mas que comprova a máxima – já muitas vezes aqui explanada – que diz que as diversões mais populares entre as crianças são, muitas vezes, as mais simples. É, certamente, esse o caso com estas pulseiras, que - tanto na sua versão mais cuidada como na mais 'manhosa', em plástico, e normalmente adquirida nos famosos 'ovos' das máquinas de brinde – conquistaram o coração das crianças daquela década a ponto de serem recordadas afectuosamente pelas mesmas mais de trinta anos depois.

Thursday, 26 May 2022

Quartas aos Quadradinhos: A Revista 'Selecções BD'

NOTA: Este post diz respeito a Quarta-feira, 25 de Maio de 2022.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


As revistas-compilação, que reuniam, em cada número, trechos de diversas obras distintas, foram, até há relativamente pouco tempo, presença comum no mercado tipográfico português, sendo o seu expoente máximo as Selecções do Reader's Digest, que além de trechos de obras publicavam também artigos sobre temas de interesse, bem como textos originais mais curtos.


Curiosamente, no mercado da banda desenhada, este tipo de revista viu-se representada, não por uma, mas por duas publicações distintas: primeiro, nos anos 60 e 70, a excelente revista 'Tintim', que conseguiu fazer vingar o formato por impressionantes quinze anos, e mais tarde, já nos anos 90, a revista 'Selecções BD', de expressão bem menor, mas que conseguiu, ainda assim, almejar duas séries.


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Capa do número 1 da primeira série da revista


Com periodicidade mensal, e da responsabilidade da editora Meribérica-Liber, o conceito da 'Selecções BD' estava descrito no próprio título, e era em tudo semelhante ao da sua antecessora; tal como 'Tintim', também a nova revista se propunha reunir em cada número trechos de obras de vários autores, publicados em ordem cronológica de modo a formar, a médio prazo, uma história completa. Também à semelhança da revista dos anos 60, cada número incluía autores tanto nacionais como internacionais, com particular ênfase no excelente e sempre prolífero mercado franco-belga, em que a editora tradicionalmente se especializou, ede onde eram provenientes nomes como Blake & Mortimer, Blueberry e Michel Vaillant, que 'ancoravam' a revista e lhe davam apelo extra entre os 'bedéfilos'.


Com esta fórmula, chegaram às bancas 36 números, entre 1988 e 1991, custando cada um uns exorbitantes 550$00, cerca de cinco vezes mais do que um adepto de BD poderia esperar pagar, à época por uma revista Disney ou de super-heróis; será caso para dizer que a qualidade se paga, já que tanto o conteúdo como o grafismo destas revistas eram de alta qualidade.


Apesar do preço proibitivo, essa primeira série das Selecções terá feito sucesso suficiente para justificar um regresso às bancas, sete anos depois da extinção da revista original, agora com um grafismo bem mais tradicional para uma publicação deste tipo, em linha com o que a Abril-Controljornal vinha fazendo com títulos como 'Heróis'.


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Capa do número 1 da segunda série da revista


O conceito e o material, esses, não se haviam alterado, embora o acervo de autores se apresentasse significativamente mais reduzido, tornando os astronómicos 900$00 pedidos pela Meribérica bem mais questionáveis do que os equivalentes 550$00 do início da década. Ainda assim, a segunda série conseguiu ser quase tão longeva quanto a original, vendo 31 números publicados entre 1998 e 2001.


Hoje em dia, a possibilidade de uma publicação deste tipo granjear sucesso é quase tão reduzida quanto a sua própria validade e viabilidade: num mundo em que tudo está ao alcance dos dedos, em formato digital, não faz qualquer sentido estar um mês à espera de mais uma tranche de uma história, pela qual se tem depois de pagar um preço exorbitante. Como tal, é provável que o mercado português – bem como o internacional – jamais tornem a ver outra publicação como esta 'Selecções BD', que constitui hoje, ainda assim, um excelente documento do que foi o 'boom' da banda desenhada franco-belga em Portugal durante os anos 80 e 90.


 

Tuesday, 24 May 2022

Terças Tecnológicas: 'Super Mario World'

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


No nosso 'post' mais recente, falámos de como a guerra entre a Sega e a Nintendo tinha constituído um dos despiques comerciais mais acirrados das décadas de 80 e 90; de facto, à entrada para a última década do século XX, as duas companhias continuavam tão 'taco-a-taco' como sempre, com a Sega a responder à vitória da NES sobre a Master System com o lançamento da todo-poderosa Mega Drive, e a Nintendo a retaliar estabelecendo o seu Game Boy como 'A' consola portátil por excelência, não dando quaisquer hipóteses à tentativa da Sega de inovar o mercado com a Game Gear, uma consola mais poderosa (tinha ecrã a cores) mas cujo número, disponibilidade e até preço dos jogos ficavam muito atrás dos do concorrente.


Era esta a situação vigente quando, nos primeiros anos da nova década, a Nintendo revela novo 'trunfo' tirado da manga – não só uma nova consola, pomposamente intitulada de SUPER Nintendo, como também um dos melhores e (ainda hoje) mais emblemáticos títulos dos anos 90 como seu jogo de lançamento.


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Falamos, como é óbvio, de 'Super Mario World', título que celebrou recentemente o trigésimo aniversário sobre o seu lançamento na Europa , a 11 de Abril de 1992 (curiosamente, numa semana em que abordávamos a principal oferta da concorrente nesse ano, 'Sonic 2') e que continua, todos esses anos depois, a viver nas memórias (e aparelhos de emulação) de toda uma geração de adeptos dos videojogos.


As razões para tal longevidade são imediatamente aparentes e óbvias para qualquer ser humano que passe sequer cinco minutos com o jogo; 'Mario World' é, simplesmente, um dos melhores jogos de sempre, não só do seu género, como no cômputo geral. Dos gráficos vivos e coloridos à jogabilidade fluida e intuitiva, passando pela série de memoráveis temas que constituem a banda-sonora, este jogo demonstra argumentos suficientes para atrair 'gamers' tanto casuais como mais empedernidos, os quais rapidamente darão por si a usar uma carapaça de um inimigo para matar cinco ou seis outros (ganhando assim uma vida extra) ou a correr freneticamente atrás de Yoshi para evitar que este caia num buraco sem fundo, tornando assim o jogo mais difícil.


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Quem nunca fez isto, não sabe o quão satisfatório é...


E por falar em Yoshi, o simpático dinossauro, hoje personagem de destaque do acervo da Nintendo, era precisamente um dos pontos fortes do 'marketing' de 'Mario World', visto adicionar uma nova dimensão à experiência de jogar um dos títulos do canalizador; em 1992, os fãs da companhia já haviam visto a sua mascote ganhar uma série de poderes, e até tido a possibilidade de controlar os seus principais aliados, mas nunca o tinham visto montado naquilo que era, para todos os efeitos, um segundo personagem, com toda uma nova gama de poderes. E a verdade é que a medida foi de tal modo popular que catapultaria Yoshi para a fama, e lhe granjearia lugar de destaque em títulos futuros, como a série 'Smash Brothers' ou 'Super Mario Galaxy 2', para a Nintendo Wii.


A 'montada' de Mario estava, no entanto, longe de ser o único atractivo do jogo, que apresentava um mapa vasto, com muitos e variados níveis para enfrentar, caminhos alternativos até ao castelo do vilão Bowser (ou Koopa, como é aqui conhecido) e segredos para activar, escondidos dentro de certos níveis; entretenimento suficiente para muitas horas de diversão, e que terá resultado em retinas 'queimadas' para muito boa gente que teve uma Super Nintendo naqueles anos de inícios de 90.


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O mapa do jogo oferecia caminhos alternativos para completar cada área


De facto, 'World' foi de tal modo bem-sucedido que seria eleito, já no novo milénio, como o segundo título a ser convertido para Game Boy Advance como parte da série 'Super Mario Advance' (o primeiro foi o anómalo, mas ainda assim divertido, 'Super Mario Bros. 2', originalmente lançado em 1988 para NES), voltando a atingir retumbante sucesso, e cativando toda uma nova geração para os seus encantos. Hoje, o título figura como um dos jogos de proa da Mini SNES, uma consola-emulador licenciada lançada em finais da década passada, continua a estar entre os títulos mais 'baixados' entre a comunidade emuladora, a par de outras séries-estandarte como Pokémon, e pode até ser jogado em qualquer 'browser', numa versão 'online'; prova de que, nos anos 90, a Nintendo pode não ter ganho a 'guerra' das consolas, mas não deixou ainda assim de atingir algumas, bastante significativas, vitórias...

Monday, 23 May 2022

Segundas de Séries: 'Super Mario Brothers Super Show'

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


A década de noventa ficou – em Portugal como no resto do Mundo - marcada por muitas e muito mediatizadas rivalidades comerciais: da Pepsi com a Coca-Cola, dos Blur com os Oasis (que aqui paulatinamente abordaremos) da WWF com a WCW e, claro, da Sega com a Nintendo, sendo que esta última se destacava das restantes por se dar em duas frentes, com as rivais japonesas a competirem directamente não só através dos produtos que lançavam, mas também das suas mascotes.


Efectivamente, a 'luta' entre Sonic e Super Mario pelo coração das crianças e jovens noventistas traduziu-se em muitas e boas horas de entretenimento, quer através de alguns dos melhores jogos da década (um dos quais aqui recentemente abordámos) quer através das inevitáveis séries de desenhos animados que eram praticamente um pré-requisito de qualquer propriedade comercial infanto-juvenil bem sucedida; e porque, recentemente, aqui falámos de uma das três séries de animação dedicadas ao porco-espinho da Sega (a única a chegar a Portugal) nada mais justo do que nos debruçarmos, hoje, sobre o principal veículo animado do rival, o famoso 'Super Mario Brothers Super Show.'


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Estreada na RTP1 em 1993, numa altura em que ainda não havia a preocupação de dobrar todo e qualquer conteúdo dirigido ao público infantil (situação que se alteraria a partir de meados da década), o desenho animado de Mario não teve sequer direito a nome traduzido em português, sendo que até mesmo as cassettes VHS com episódios da série entretanto lançadas em Portugal traziam a dobragem brasileira; é, pois, de crer que muitas crianças e jovens da época conhecessem a série apenas pelo nome do protagonista. Quanto à não dobragem dos conteúdos propriamente ditos, esta constitui, neste caso específico, um ponto a favor, já que os diálogos da parte em 'acção real' de cada episódio são, sem dúvida, um dos elementos mais fortes da série 


Sim, dissemos mesmo 'acção real' – isto porque, ao contrário da série do rival, cada episódio do 'Super Show' estava dividido entre segmentos com actores verdadeiros a interpretar Mario e Luigi – um deles o lutador da WWF, 'Captain' Lou Albano – e outros em desenho animado, que se dividiam entre episódios das aventuras dos dois irmãos canalizadores e das de Link, o protagonista da série 'A Lenda de Zelda'. E se os primeiros eram fiéis quanto-baste ao material de base – estavam presentes a Princesa Peach, o cogumelo vivo Toad, o vilão Rei Koopa (ou Bowser), e os inimigos e poderes do jogo – o segundo tomava bastante mais liberdades com o mesmo, incluindo mudar a cor de cabelo e personalidade de Link (o qual repetia frequentemente uma frase-feita hoje tornada 'memética') e dar um papel mais proeminente a Zelda, que nos jogos não passa da princesa a ser resgatada.



Sabemos que algo se tornou um 'meme' quando tem direito a uma montagem de dez horas no YouTube


Em ambos os casos, a qualidade da animação, do trabalho de vozes e das histórias é perfeitamente típica da época em que a série foi produzida, o mesmo podendo dizer-se dos cenários, situações, diálogos e piadas dos segmentos em acção real, que não surpreenderão qualquer espectador que tenha visto sequer um episódio de uma qualquer 'sitcom' de inícios dos anos 90. O resultado é um produto extremamente 'de época', que se apoia declaradamente no interesse e procura por materiais relacionados com os personagens que o integram, mas que consegue, ainda assim, nunca descer abaixo de um nível aceitável e perfeitamente tolerável.


Não há dúvida, no entanto, de que 'Super Mario Bros. Super Show' deixou, pelo menos, um legado à cultura popular contemporânea, também ele transformado, hoje em dia, em 'meme': os seus genéricos de abertura e encerramento, que apropriam desavergonhadamente ainda mais um elemento de enorme sucesso entre os jovens – o nascente movimento 'rap'/'hip-hop', especificamente a vertente mais virada para a dança – e o misturam com efeitos sonoros retirados do jogo com resultados decididamente 'tão maus que são bons'; ver 'Captain' Lou Albano (ao que consta, alcoolizado em todo e qualquer segmento em que surge) a tentar infrutiferamente adoptar uma cadência 'rap' por cima do famoso tema do primeiro  'Super Mario Bros', enquanto executa algo que vagamente se assemelha a uma dança é tão deprimente quanto hilariante.




...palavras para quê?


De resto, tal como as tentativas de transpôr o rival Sonic para um papel menos interactivo, 'Super Mario Bros. Super Show' merece permanecer nos anos 90, sendo trazido à baila apenas ocasionalmente, no contexto de um 'post' como este – ainda que, mesmo assim, consiga ser melhor que as versões posteriores da série, já para não falar da longa-metragem de acção real, estreada no mesmo ano...

Sunday, 22 May 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - Eric Tinkler

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Na generalidade, a carreira de um jogador de futebol profissional desenvolve-se segundo certos trâmites, e segue uma estrutura definida: formação num determinado clube (com ou sem passagem para um clube maior durante esse período formativo), afirmação nesse mesmo clube ou em outro do mesmo país e, finalmente, a quase inevitável saída para o estrangeiro. Grosso modo, é esta a fórmula do futebol moderno, e a forma mais expectável de a carreira de qualquer futebolista se desenvolver.


Como em tudo, no entanto, existem excepções a esta regra – jogadores cuja carreira evolui de forma anómala e algo peculiar relativamente ao esperado. É, precisamente, de um caso desses que trata esta edição do Domingo Desportivo, em que nos debruçamos mais a fundo sobre uma carreira, no mínimo, estranha, e, precisamente por isso, interessante: a do sul-africano Eric Tinkler, um daqueles 'grandes dos pequenos' que se notabilizou em equipas menores do nosso campeonato, sem nunca ter dado o 'salto' para um dos três grandes.


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O jogador ao serviço do Vitória de Setúbal


Iniciada em finais da década de 80, a carreira de Tinkler parecia, numa primeira fase, desenrolar-se de forma vulgar: formado no modesto Wits University, da sua região natal, o jogador conseguiu naturalmente o seu lugar na primeira equipa, tendo realizado 18 jogos durante a sua única temporada como sénior, em que mostrou o suficiente para despoletar o interesse de um clube estrangeiro, no caso, português.


É aqui que se dá a grande surpresa da carreira do sul-africano, já que o emblema em causa não era qualquer dos três 'grandes', nem tão-pouco um dos muitos 'históricos' que povoavam e continuam a povoar as duas primeiras divisões do futebol português; antes, o clube que descobrira Eric Tinkler algures no campeonato sul-africano e se propunha trazê-lo para terras lusas era...o União de Tomar! Sim, um clube regional a militar na II Divisão B conseguia, do nada, contratar uma promessa sul-africana, que, no início da época 1991-92, viajava até à Região Centro do país para alinhar pela modesta agremiação!


Escusado será dizer que, na sua única época ao serviço do União, Tinkler se afirmou como uma das figuras da equipa, com 34 jogos e 5 golos; naturalmente, este tipo de registo rapidamente lhe valeu o interesse de um clube bastante maior, no caso o histórico Vitória de Setúbal, da Primeira Divisão. Foi, portanto, com igual naturalidade que Tinkler empreendeu a viagem para o Sul do Tejo, para integrar 'aquela' equipa com Chiquinho Conde na frente (sobre a qual, aliás, nos teremos paulatinamente de debruçar); no total, seriam quatro as temporadas do sul-africano no emblema sadino, no decurso das quais realizou um total de 84 jogos, marcando 2 golos.


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O cromo de Tinkler numa das cadernetas de cromos de futebol da Panini


Apesar das boas prestações ao serviço dos sadinos, no entanto, Tinkler nunca chegaria a mais 'altos vôos' no futebol português; em vez disso, o próximo passo da sua carreira passaria pela passagem directa para o estrangeiro, no caso para o 'Calcio', para representar o Cagliari, por quem realizaria apenas 20 jogos antes de atravessar a Europa para alinhar pelo Barnsley, de Inglaterra, onde voltou a ser nome maior, realizando perto de cem jogos nas cinco temporadas que ali realizou, e contribuindo com nove golos.


É, portanto, com um misto de espanto e incredulidade que vemos o passo seguinte da carreira do jogador (à época, recorde-se, ainda internacional pelo seu país, com 45 jogos e um golo ao serviço dos Bafana Bafana) passar por um regresso à Região Centro portuguesa, para representar mais um clube de pouca ou nenhuma expressão, o Caldas SC, das Caldas da Rainha. Este regresso à Península Ibérica dura três temporadas, durante as quais Tinkler realiza 54 jogos e contribui com 15 golos; as saudades de casa falaram, no entanto, mais alto, e a época 2005-2006 vê o sul-africano regressar à sua terra natal, para terminar a carreira com duas épocas ao serviço do Bidvest Wits, por quem realiza 29 partidas e marca 3 golos.


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Tinkler como treinador


Penduradas as chuteiras, Tinkler dedica-se a tempo inteiro ao 'outro lado' do jogo, tornando-se um dos mais proeminentes treinadores do campeonato sul-africano, onde orienta equipas como o Orlando Pirates ou SuperSport United; para trás fica um percurso como jogador quase inacreditável de tão peculiar, que vê o jogador passar da II Divisão B portuguesa para os campeonatos principais de Portugal, Itália e Inglaterra e, daí, regressar directamente às divisões inferiores nacionais, como se tal escolha representasse uma progressão natural de carreira! Só por isso, o sul-africano já merece o rótulo de 'grande dos pequenos' (afinal, conseguiu ser titular da Selecção do seu país enquanto militava no Vitória de Setúbal) e lugar de destaque como caso de estudo de uma carreira totalmente atípica para um futebolista profissional...

Saturday, 21 May 2022

Saídas ao Sábado: Os 24 Anos da Expo '98

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


Quando se fala em marcos da História de Portugal na década de 90, há um evento que, de imediato, se sobrepõe à maioria dos acontecimentos concorrentes: a Expo '98. Aquele que foi, até pouco antes da inauguração, considerado um projecto megalómano e pouco exequível (e transformou o nome de António Mega Ferreira num remate de anedota) acabou por se traduzir numa Feira Mundial notavelmente bem sucedida, tendo inclusivamente superado a antecessora Expo '92, organizada pela vizinha Espanha.


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Subordinada ao tema 'Oceanos: Uma Herança Para o Futuro', a Feira Mundial portuguesa abriu há exactos 24 anos – a 21 de Maio de 1998 – no antigo hidroporto hoje conhecido como Parque das Nações, em Lisboa, tendo-se de imediato afirmado como um estrondoso sucesso junto do público jovem, por razões mais do que evidentes; a Expo oferecia muitos e variados pontos de interesse para os jovens, fossem eles o espectáculo audio-visual do Pavilhão do Conhecimento, o Pavilhão da Realidade Virtual (consistentemente 'dono' de uma das maiores filas do certame), o muito badalado Pavilhão de Macau, também alvo de filas constantes para ver a sua réplica de um jardim chinês, ou simplesmente as fatias de pizza ao estilo americano, cada uma do tamanho de meia pizza 'normal' portuguesa. As próprias mascotes – Gil e Docas, duas ondas do mar antropomorfizadas – estavam desenhadas à medida para agradar a esta demografia, a quem o 'merchandising' alusivo às mesmas muito agradava; isto para não falar do desafio de 'preencher' o passaporte com carimbos do máximo de países possível, uma tentativa declarada (e relativamente bem sucedida) por parte da organização para assegurar que os países com menor expressão ou menos 'truques na manga' de entre os 143 presentes não ficavam esquecidos.


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Gil e Docas, as memoráveis mascotes do evento.


Não se ficavam por aí os atractivos da Expo, no entanto; a Feira dispunha, ainda, de um ecrã gigante, onde muita gente viu os jogos do não menos lendário Mundial de futebol de França, de um aquário de vida marinha (o famoso Oceanário) e de um espaço comercial adjacente, o famoso 'shopping' Vasco da Gama, ainda hoje existente e em franca concorrência com o pioneiro Colombo, situado no outro extremo da cidade.


De facto, são ainda hoje várias e de significativa monta as alterações trazidas pelo evento à cidade de Lisboa, a começar pelo espaço: ao contrário do que acontecera com a referida Expo '92, cujo terreno ainda hoje se encontra vago e sem utilização todos os edifícios e estruturas construídos para a exposição mundial portuguesa eram alvo de um pré-acordo de reaproveitamento no final da exposição, precisamente para evitar uma situação semelhante à do certame espanhol. O resultado foi o referido Parque das Nações, hoje a área escolhido por várias companhias para instalação das respectivas sedes (todas as operadoras móveis, por exemplo, lá 'residem') bem como a localização de infra-estruturas como a Gare do Oriente, importante pólo de transportes da zona, a Altice Arena (antes MEO Arena, antes ainda Pavilhão Atlântico e, durante a exposição, Pavilhão da Utopia), a 'realojada' Feira Internacional de Lisboa (vulgo FIL) ou os referidos Oceanário e Shopping Vasco da Gama; Vasco da Gama foi, também, o nome da nova ponte construída sobre o Tejo, entre a zona Oriente de Lisboa e o Montijo, e inaugurada com uma feijoada comunitária da qual algum dia aqui falaremos.


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O Parque das Nações, ainda hoje um dos principais pólos da cidade de Lisboa, foi um dos vários legados deixados pela Expo '98 na capital portuguesa.


Por fim, o simpático Gil continua 'vivo' na imaginação dos lisboetas como embaixador da Fundação com o seu nome, que apoia crianças em risco, encontrando-se a última das suas estátuas situada à entrada da respectiva Casa, situada no bairro de Alvalade, no centro de Lisboa. Uma influência, portanto, que transcendeu o próprio evento, mudando indelevelmente a 'face' e estrutura da capital portuguesa muito para lá do apoteótico e recordista espectáculo de fogo de artifício de 30 de Setembro de 1998 – o que é mais do que se pode dizer sobre o impacto da exposição de 1992 sobre a cidade de Sevilha.


A Expo '98 foi, pois – ou, pelo menos, pareceu a quem a visitou em idade mais 'influenciável', individualmente ou com a escola – um retumbante sucesso a todos os níveis, com tanto para ver e fazer que um só dia nunca chegava; de facto, o jovem médio português da época terá visitado a feira pelo menos duas a três vezes, por forma a experienciar tudo o que a mesma oferecia. As memórias, essas, perduram quase um quarto de século depois, não sendo de prever que este evento verdadeiramente único se venha, tão depressa, a apagar da memória colectiva nacional, para a qual ainda é (ou deveria ser) motivo de enorme orgulho.

Friday, 20 May 2022

Sextas com Style: As Camisolas de Dupla Manga

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


Como já por várias vezes referimos nestas mesmas páginas, os anos 90 foram uma das décadas por excelência para modas estranhas e algo incompreensíveis. Por muito que sejam os anos 80 quem detém essa fama no imaginário popular (e com alguma razão, diga-se de passagem), as modas mais extravagantes dessa década eram, sobretudo, as dos jovens adultos; já nos anos 90, eram as crianças e adolescentes quem incorria num 'crime de moda' atrás de outro, dos famosos fatos-de-treino estilo colete de visibilidade às não menos inexplicáveis meias de raquetes, chinelos de piscina de sola preta ou bolsinhas de trocos – isto sem sequer falar nos penteados. E, apesar de a maioria destas modas mais questionáveis se centrarem nos primeiros anos da década, o final dos 'noventas' também não ficaram imunes a tendências bizarras, das calças largas (com t-shirts a condizer) aos artigos de que falamos hoje, as camisolas com mangas falsas, ou duplas.


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Os penteados são tão anos 90 como as próprias camisolas...


Populares nos últimos anos da década, e inícios da seguinte, estas camisolas não têm, ao contrário de muitas das roupas de que aqui falamos, uma origem identificada, sendo daqueles fenómenos surgidos de um dia para o outro, e rapidamente adoptada por toda uma demografia. O objectivo era, claro, fazer parecer que se tinha uma t-shirt por cima de uma camisola fina de mangas compridas – um efeito que era, inclusivamente, reproduzido de forma literal por quem não tinha no armário uma destas peças: e ainda que o efeito visual não fosse tão espalhafatoso como o da maioria das outras tendências atrás referidas, ficava (e fica) ainda assim a pergunta: porquê?


De facto, ao contrário do que acontece com a maioria das outras modas juvenis, tornava-se difícil discernir o objectivo por detrás desta tendência em particular, o que pode explicar a longevidade relativamente curta da mesma, por oposição às suas contemporâneas; sem grande razão de ser, e sem celebridades mediáticas a servirem de porta-voz do estilo, as camisolas de dupla manga não tardaram a dar lugar a outros tipos de artigo, alguns tão ou mais peculiares do que elas. Talvez por isso, hoje em dia, estas camisolas mais não sejam do que uma vaga recordação para a maioria dos ex-jovens dos anos 90 – muitos deles os mesmos que, na altura, desejavam ardentemente ter um artigo deste tipo...

Thursday, 19 May 2022

Quintas ao Quilo: As Pintarolas

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Na última edição desta rubrica, recordámos as mini-caixas de Smarties, presença habitual nos saquinhos de lembranças distribuídos em certas festas de anos: hoje, chega a altura de falarmos de um produto adjacente – de facto, quase idêntico – mas cujo mercado era bem menos alargado, e a marca bem menos conhecida, ainda que reconhecível pela geração que com ela conviveu.


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Falamos das Pintarolas, nada mais nada menos do que os 'Smarties ibéricos'. Em tudo semelhantes aos discos redondos de puro açúcar comercializados pela Nestlé, o mais surpreendente em relação às variantes da Imperial (à época, um sério competidor no panorama ibérico dos doces e guloseimas) foi o facto de terem, apesar da óbvia concorrência, conseguido arranjar o seu 'nicho' em tão concorrido mercado; porque a verdade é que – fosse por que motivo fosse – havia pouco quem, à época, não tivesse pelo menos noção da existência destas 'imitações' dos Smarties (bem como dos seus 'primos' ligeiramente maiores, os Lacasitos, da espanhola Lacasa, versão 'alternativa' dos ainda mais populares M&M's). De facto, a marca Pintarolas era tão popular que chegou mesmo, em finais dos anos 80, a dar azo a calendários de parede próprios, algo de que poucos outros produtos do seu tipo e posicionamento de mercado se podiam gabar.


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Um dos calendários das Pintarolas (crédito da imagem: Enciclopédia de Cromos)


Mais - ao contrário de muitos dos produtos abordados nestas páginas, tanto as Pintarolas como os Lacasitos não só continuam a ser comercializados, como se souberam adaptar às sucessivas 'modas' infantis, apresentando hoje associações a propriedades como os Mínimos (de 'Gru, o Maldisposto') ou a Porquinha Peppa; um percurso de sucesso nada menos que impressionante, para um produto que nunca foi (ou quis ser) mais do que uma 'alternativa regional' a uma marca conhecida...

Wednesday, 18 May 2022

Quartas de Quase Tudo: O Pirilampo Mágico

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


O mês de Maio tem tido, para as crianças e jovens portugueses das últimas décadas, um significado muito especial; isto porque – à excepção do atípico 'ano pandémico' de 2021, em que o mês escolhido foi Outubro - é neste mês que chegam às superfícies comerciais (e, por vezes, companhias privadas) uns simpáticos bicharocos arredondados, de antenas e olhos esbugalhados, prontos a serem levados para casa e a morarem na prateleira.


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Sim, falamos do Pirilampo Mágico, a mascote introduzida pelo grupo de instituições de caridade CERCI (sigla para Cooperativas de Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas), em 1987, e cuja venda contribui directamente para ajudar as crianças com deficiências mentais. Originalmente revestido de peluche, e mais recentemente em borracha, o Pirilampo atravessa décadas, séculos, milénios e gerações relativamente imutável – para além do material de revestimento, a maior inovação registada foi mesmo o uso de duas cores, também em anos recentes – e sempre com um público cativo, pronto a adicionar mais um dos bicharocos à sua colecção.


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A versão mais recente do Pirilampo, com o corpo em borracha


Apesar deste carácter mais ou menos 'eterno', no entanto, não há dúvida de que foi na primeira década da sua existência que o Pirilampo teve a sua fase áurea, sendo provável que provenham dese período a maioria das memórias nostálgicas associadas à mascote das CERCI. Quem era de uma certa idade naqueles finais dos anos 80 e início ou meados dos 90 certamente se recordará de, anos depois, abrir uma gaveta e de lá de dentro 'saltar' um Pirilampo, pensado perdido após substituição pelo 'irmão' mais novo; ou talvez a memória seja de uma fila de Pirilampos de diferentes cores alinhados na prateleira, cada um com a característica fita branca com o logo das CERCI a servir-lhe de cauda. Seja qual fôr a lembrança, é quase certo que esta existe, pois havia pouco quem, à época, não adquirisse o bicharoco, senão anualmente, pelo menos com alguma regularidade.


Prova do 'estado de graça' do Pirilampo durante aqueles primeiros dez ou quinze anos era, também, a existência de diversos temas oficiais da campanha, sempre cantados por algumas das principais celebridades nacionais do respectivo ano. Estes temas chegaram, aliás, a sair em disco, primeiro em 1993 (disco que reúne a 'nata' dos grupos vocais infantis portugueses da época, com Ministars, Onda Choc e Popeline a marcarem presença nos três temas da 'cassette', ao lado de nomes como Toy, Paco Bandeira, Dulce Pontes, Marco Paulo ou Carlos Alberto Moniz) depois em 1999 (em que o CD-Single continha, como 'lado B', uma versão em 'rap' do tema, intitulada 'Pirilampo Rap'!) e, finalmente, em 2006, em comemoração antecipada dos vinte anos da campanha; resta saber se, numa altura em que se celebram exactos vinte e cinco anos sobre o nascimento da mascote, voltará a ser distribuído (agora, provavelmente, em 'streaming') alguma nova versão da música oficial da mesma...



Medley de todas as músicas do Pirilampo Mágico, da sua criação até ao ano 2000.


Seja qual fôr o caso, no entanto, é inegável que o Pirilampo Mágico constitui já parte indelével não só da cultura e calendário portugueses, como das memórias de infância de, pelo menos, duas gerações - e, tendo em conta a colaboração com a Microsoft e o Banco Montepio na campanha Building the Future, em 2021, esse paradigma não parece vir a alterar-se nos próximos anos; aos 35 anos, o Pirilampo está vivo, recomenda-se, e continua tão Mágico como sempre...


 

Tuesday, 17 May 2022

Terças de TV: 'Chuva de Estrelas' - O 'Ídolos' dos Anos 90

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Numa semana em que se vive o rescaldo de mais um Festival Eurovisão, e depois de termos aqui recordado os mais emblemáticos participantes portugueses no mesmo durante a década de 90, nada melhor do que nos debruçarmos um pouco mais a fundo sobre o programa que revelou ao Mundo um dos nomes mais memoráveis dessa lista, Sara Tavares.


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Falamos, claro, de 'Chuva de Estrelas', o mega-popular concurso de talentos musicais que foi pedra basilar da programação da SIC desde a sua criação até ao virar do milénio. E a verdade é que se, à distância de trinta anos, o conceito do concurso (adaptado, como era habitual neste tipo de programas, de um formato estrangeiro, no caso holandês) parece tudo menos original, a verdade é que, à época, tratava-se mesmo de um programa inovador, um dos primeiros, senão mesmo o primeiro, do seu género em Portugal.


De facto, se para um público do século XXI, habituado a programas como 'Ídolos' e 'The Voice Portugal', 'Chuva de Estrelas' é extremamente fácil de definir – trata-se, pura e simplesmente, de uma versão embrionária de um concurso desse tipo – no contexto português de inícios da década de 90, o termo de comparação mais próximo para o que propunha Ediberto Lima talvez fosse mesmo o Festival da Canção, o evento anual que apurava, precisamente, o representante de Portugal no Festival Eurovisão daquele ano; as únicas (mas significativas) diferenças residiam no facto de os concorrentes de 'Chuva' interpretarem, quase exclusivamente, versões de músicas de outros artistas, muitos deles internacionais – um conceito que, décadas mais tarde, serviria de base aos referidos concursos de talentos adaptados de formatos de Simon Cowell.


Ao contrário de 'Ídolos', no entanto, 'Chuva de Estrelas' nunca esteve ciente do valor de uma audição propositadamente irónica ou embaraçosa – todos os concorrentes em destaque no programa eram escolhidos, unicamente, na base do seu talento, e correspondiam com interpretações à altura, emotivas e vigorosas - a carreira musical de Sara Tavares, por exemplo, teve início após a cantora ter 'canalizado' Whitney Houston, numa actuação que lhe valeu a vitória na primeira das seis edições do concurso, em 1993. Esta abordagem viria, mais tarde, a beneficiar também nomes como João Pedro Pais, João Portugal, Carlos Coincas (dos Excesso e D'Arrasar, respectivamente) e Célia Lawson, a responsável pelo primeiro 'nul points' de Portugal na Eurovisão em mais de trinta anos.


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A apresentadora e vencedora da primeira série do programa, Catarina Furtado e Sara Tavares


O facto de este concurso ter, ao longo dos anos, sido entregue à 'nata' dos apresentadores da SIC – primeiro a Catarina Furtado, depois a José Nuno Martins e, por fim, a Bárbara Guimarães – diz muito sobre a importância que lhe era atribuída no contexto geral da grelha de programação da SIC; e a verdade é que essa confiança não foi, de todo, infundada - o programa não só foi um sucesso (dando, até, azo a uma versão 'Mini', com cantores infantis, da qual paulatinamente aqui falaremos) como é, ainda hoje, um dos mais recordados de entre os transmitidos pela estação naquela época, ao lado de outras 'pérolas' como o Ponto de Encontro, o Templo dos Jogos, o Portugal Radical ou o Buereré. E apesar de, tal como alguns destes, a 'mise en scène' do concurso ter envelhecido particularmente mal – 'Chuva' já era 'piroso' na altura, e é ainda mais 'piroso' agora – o seu estatuto como precursos dos concursos de talentos que todos conhecemos (e de que todos já nos fartámos) hoje em dia continua a merecer-lhe lugar de destaque na 'revolução televisiva' do Portugal noventista.

Monday, 16 May 2022

Segundas de Sucesso: Portugal na Eurovisão

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


O festival Eurovisão é um daqueles programas de que ninguém admite gostar, mas que quase toda a gente vê, ou de que pelo menos se mantém a par. Apesar do carácter abertamente 'popularucho' da maioria das músicas (é de espantar que Portugal ainda não tenha concorrido com um qualquer artista 'pimba', pois não destoaria muito do teor geral das composições) o carácter competitivo da 'coisa' faz sempre saltar de dentro de cada espectador aquela costela de orgulho patriótico, que serve nem que seja para gritar contra a Espanha por não nos terem dado quaisquer pontos. Assim, e numa semana em que se vive, precisamente, o rescaldo da edição 2022 do festival, nada melhor do que recordar alguns dos mais emblemáticos representantes nacionais durante a época a que este blog diz respeito.


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Isto porque, apesar de a maioria das crianças e jovens da época recordar, hoje, sobretudo duas das dez músicas que Portugal levou à Eurovisão durante os anos 90, há mais algumas particularidades interessantes ligadas à participação do nosso País no referido festival no decurso daquela década – como, por exemplo, a particularidade de as cinco primeiras representantes terem sido do sexo feminino (aliás, sete dos dez artistas portugueses entre 1990 e 1999 eram mulheres), e as primeiras quatro, conhecidas apenas pelo primeiro nome; Nucha em 1990, Dulce em 1991, Dina em 1992 (esta, aparentemente, a favorita de J. K. Rowling) e a lendária Anabela em 1993.



...e agora também está nas vossas cabeças. De nada.


E já que falamos em Anabela, cabe mencionar que esta é uma das duas artistas anteriormente mencionadas, de que qualquer jovem da época se recorda, já que o seu 'A Cidade (Até Ser Dia)' (mais conhecido dentro de portas como 'Quando Cai A Noite Na Cidade') tornou-se um daqueles 'memes' musicais da era pré-'memes', entoados de forma exagerada em pátios de escolas e utilizados como 'punchline' de anedotas mais ou menos politicamente correctas.



O outro nome memorável é, claro, o de Sara Tavares, cuja interpretação de Whitney Houston no concurso Chuva de Estrelas (que paulatinamente aqui abordaremos) lhe valera a entrada no Festival da Canção português, competição que também viria a vencer com o seu 'Chamar a Música', mesmo tema apresentado na Europa, e que atingiria um honroso oitavo lugar, igualando a marca de Dulce e tornando-a a segunda melhor classificada portuguesa da década – melhor, só mesmo Lúcia Moniz (filha do lendário apresentador e músico Carlos Alberto Moniz, de 'A Casa do Tio Carlos' e 'Arca de Noé') que, em 1996, aos 19 anos, faria História ao conseguir a melhor classificação de sempre para Portugal até então (o sexto lugar, ainda hoje apenas superado pela vitória de Salvador Sobral, em 2017) e colocar o País na primeira meia-final da História da Eurovisão, onde se classificaria em 18º.



Aquele talento muito especial do nosso povo para passar do sublime ao ridículo manifestar-se-ia, no entanto, logo no ano seguinte, quando Célia Lawson e o seu 'Antes do Adeus' conseguiam a 'proeza' de granjear a Portugal o segundo (e, até hoje, último) 'nulle points' da sua História – uma humilhação que o País não sofria desde a 'Oração', de António Calvário, na primeiríssima edição do festival, trinta e três anos antes!



'Portugal...nul points!' GG, Célia...


Felizmente, as coisas não mais voltariam a correr tão mal a Portugal durante aquela década, mesmo que a 'façanha' de Lawson tenha lançado a piada recorrente de que Portugal fica sempre em último na Eurovisão – estereótipo a que nada ajudaram os dois períodos de quatro anos cada em que o País não conseguia a qualificação para o Festival, graças a apresentar representantes da categoria de Nonstop ou Homens da Luta (só mesmo Portugal para enviar uma banda abertamente de comédia como seu representante num festival internacional...) Felizmente, Salvador Sobral viria a salvar a 'honra do convento' em 2017 com a excelente 'Amar Pelos Dois' (uma música séria que, choque dos choques, foi levada a sério!), tornando-se o 'Éder da Eurovisão' e, como este, vendo o seu esforço ser tornado inglório por 'coisas' como 'Telemóveis' de Conan Osíris, porque claramente o nosso País dificilmente aprende...


Seja qual fôr o futuro de Portugal na Eurovisão, no entanto (e a música deste ano, posicionada dentro da média portuguesa no Festival, em 9º, leva a crer que o mesmo seja, no mínimo, honroso) para uma determinada geração de ex-crianças e jovens, esta competição estará, para sempre, associada a duas ou três músicas que, num tempo mais simples e inocente, chegaram a ser verdadeiros sucessos de Verão, e cujos refrões permanecem, ainda hoje, indelevelmente gravados na sua memória colectiva...

Sunday, 15 May 2022

Domingos Divertidos: Os Bonecos de Vinil

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Em edições passadas desta rubrica, falámos aqui de algumas das mais emblemáticas linhas de 'bonecos' dos anos 90, dos LEGOs aos Pinypons, passando pelos Playmobil e, já um pouco 'fora' desse espectro, os bonecos de borracha para bebés e as figuras de acção articuladas; no entanto, havia à época um outro tipo de figurino que, embora ocasionalmente abordado em outros 'posts' nas nossas páginas, ainda não tinha sido devidamente explorado – situação que, hoje, aqui corrigimos.


Falamos dos bonecos em vinil, um brinquedo extremamente popular e fácil de adquirir nos anos 90, mas que – como aconteceu com tantos outros produtos já abordados nestas páginas – foi perdendo relevância com o passar das décadas; hoje em dia, embora ainda se vão encontrando (sobretudo nos chamados 'mystery bags' ou 'blind bags') este tipo de figuras já não tem a relevância que outrora teve, tendo o seu título sido transferido para os a dada altura mega-populares Funko Pops, as estátuas 'cabeçudas' e de olhos inexpressivos que, hoje em dia, se encontram também eles em declínio.


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Boneco em vinil do Luzinha, mascote de uma campanha da EDP nos anos 90, e um bom exemplo-padrão deste tipo de brinquedo


O conceito das figuras de vinil dos anos 90 era, aliás, precisamente oposto ao dos Funkos: onde estes consistem de um modelo homogéneo, de proporções exageradas, e que é customizado e adaptado consoante quem se deseje representar, os bonecos dos anos 90 procuravam ser o mais fiéis possível à personagem que procuravam representar, de modo a ser imediatamente possível discernir de quem se tratava.


De igual modo, enquanto os Funkos ficam mais próximos do tamanho de estatuetas, os bonecos dos anos 90 eram feitos para serem seguros na palma da mão e transportados no bolso, não passando normalmente de um tamanho equivalente ao de um Pinypon, por exemplo. Isto permitia que, não obstante a sua postura estática e falta de articulação, estes bonecos fossem incluídos em brincadeiras ao lado de qualquer dos tipos de figura mencionados no início deste texto, sem que parecessem fora do lugar ou descabidos no contexto da mesma, como aconteceria com um Funko na mesma situação.


Não nos equivoquemos, no entanto – a principal função destas figuras, tal como dos seus 'primos' actuais, era decorativa; pura e simplesmente, os bonecos 'ficavam bem' numa prateleira, e era mesmo nesse tipo de ambiente que passavam a maior parte do seu tempo. Ainda assim, quando tocava a integrá-los numa brincadeira, eram poucas as crianças (independentemente do sexo) que hesitavam em os ir buscar à referida prateleira, para ajudar em fosse qual fosse a guerra, missão ou aventura em que os outros brinquedos estavam prestes a embarcar; no fundo, apesar das suas limitações, estes brinquedos eram tratados como quaisquer outros, o que não se pode dizer em relação aos Funko Pops.


Pode considerar-se que talvez o conceito destes pequenos figurinos seja demasiado 'básico' para as crianças de hoje, com a possível excepção das mais pequenas; no entanto, se o sucesso dos referidos 'saquinhos mistério' fôr indicação, é de prever que este tipo de brinquedo continue, em maior ou menor grau, a existir na esfera social infantil durante ainda algumas décadas...

Saturday, 14 May 2022

Sábados aos Saltos: O Jogo da Parede

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


Como já ficou demonstrado em edições anteriores desta rubrica, os jogos de rua e de recreio constituíam uma das mais populares distracções para as crianças de uma certa idade durante os últimos anos do século XX e primeiros do seguinte, rivalizando com a bicicleta, o skate ou os patins em linha, e tendo sobre estes a vantagem de não requererem a compra de equipamentos caros para serem desfrutados; pelo contrário, a maioria era perfeitamente executável sem recurso a qualquer apetrecho, e mesmo os restantes não requeriam mais do que uma bola ou um pedaço de corda ou elástico.


Não eram, no entanto, apenas os equipamentos necessários que eram simples; a maioria destes jogos partia de uma premissa básica, e adicionava-lhe apenas o número suficiente de regras para que se tornasse divertido e funcional. Um dos melhores exemplos disto mesmo é um dos jogos mais populares entre os rapazes da época, que misturava a habitual demonstração de habilidade a um enorme potencial para a 'violência regrada' que tanto agrada a essa demografia.


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Falamos do vulgarmente chamado 'jogo da parede', uma competição com que qualquer grupo de jovens com uma bola podia ocupar um intervalo, ou até parte de uma tarde. As regras, conforme referido acima, eram da mais pura simplicidade: na referida parede, demarcavam-se linhas imaginárias, que constituíam uma espécie de baliza, tendo os jogadores de, à vez, pontapear a bola contra a parede de modo a que a mesma acerte dentro das linhas estabelecidas. Um jogador cujo 'tiro' saisse ao lado, ou por cima, da zona demarcada era obrigado a ir para a parede, passando ele próprio a ser o alvo dos 'chutos' dos colegas. Este processo era, naturalmente, repetido até restar apenas um jogador do lado 'de cá' da parede, o qual era declarado vencedor.


Um jogo com tudo para agradar à demografia masculina, portanto, visto apresentar uma mistura entre futebol e tiro ao alvo (ou o também muito popular 'jogo do mata') que apelava tanto à veia competitiva como à mais sádica, até porque a bola não precisava necessariamente de ser de futebol (quem não participou num jogo da parede em que era usada uma bola de basquetebol ou voleibol não sabe a sorte que teve); menos previsível era o facto de este jogo agradar também, muitas vezes, a raparigas, que se mostravam jogadoras tão ou mais letais do que os seus pares do sexo oposto!


Ao contrário de muitos dos jogos aqui abordados, é pouco provável que o jogo da parede tenha passado de moda; embora não possamos confirmar a cem por cento, é de crer que esta simples mas eficaz diversão continue a ter lugar nos recreios portugueses da década de 2020, e que ainda hoje haja que se reveja na experiência de ser enviado para a parede, e se depara com os colegas, com um brilhozinho maldoso nos olhos, a tirarem-lhe as medidas no momento de chutar...

Friday, 13 May 2022

Sessão de Sexta: 'O Mentiroso Compulsivo' (1997)

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O cinema dos anos 90 foi frutíferos, acima de tudo, para actores de três géneros específicos: o romance, a acção e a comédia. E enquanto que Richard Gere, Brad Pitt, Johnny Depp e Leo DiCaprio arrasavam corações, e Bruce Willis, Stallone, Schwarzenegger e Van Damme arrasavam 'mauzões', no campo da comédia, agigantavam-se dois nomes: Robin Williams e Jim Carrey.


Em lados opostos do espectro de carreira – um já veterano de duas décadas, o outro ainda a lançar carreira – estes dois homens travaram, ao longo da década, uma fascinante batalha pela supremacia no campo da comédia 'mainstream' juvenil, a qual rendeu ao mundo do cinema alguns dos melhores exemplos de sempre do género; e enquanto Robin conquistava o público alvo com o seu trabalho de voz em 'Aladdin' e 'Ferngully', além de filmes como 'Papá Para Sempre', 'O Fabricante de Sonhos' ou 'Flubber - O Professor Distraído', Carrey utilizava da melhor maneira a sua impressionante elasticidade facial para dar vida a desenhos animados 'de carne e osso', em filmes como 'Doidos Á Solta', 'A Máscara', 'Batman Para Sempre' ou o binómio de filmes de Ace Ventura.


Desenrolava-se, assim, uma batalha fascinantemente 'taco a taco', que coincidiu até mesmo nos seus pontos mais fracos, tendo ambos os actores visto os seus filmes menos memoráveis serem lançados no mesmo ano, 1997. Mas se o referido 'Flubber', de Robin Williams, rapidamente cairia no esquecimento, a contribuição de Jim Carrey afirmar-se-ia, ainda assim, como um pouco mais memorável.


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Não, não existe imagem melhor do cartaz português do filme (crédito da imagem: Wook)


Prestes a completar vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal (a 16 de Maio de 1997), 'O Mentiroso Compulsivo' destaca-se hoje em dia, sobretudo, por ter marcado o final da 'fase cómica' da carreira de Carrey, tendo o actor procurado, em filmes subsequentes, diversificar o seu leque de géneros, com resultados surpreendentemente favoráveis; aqui, no entanto, o comediante surge ainda firmemente apoiado nas bocas, expressões e caretas que o haviam tornado conhecido, e que faziam, à época, o gáudio do público-alvo. No papel do titular mentiroso compulsivo – um advogado a quem um desejo de aniversário do filho obriga a apenas dizer a verdade durante 24 horas – Carrey tem inúmeras oportunidades para utilizar todo o seu repertório de expressões faciais, bem como os restantes truques no seu arsenal, das vozes aos gestos exagerados; pena é que o filme não seja suficientemente bom para dissipar a sensação de que a performance de Carrey nada mais é do que 'mais do mesmo', e que mais valia estar a ver novamente qualquer dos outros filmes do actor lançados até essa altura da década.


De facto, embora ainda hoje seja frequentemente exibido na televisão portuguesa, e esteja disponivel no Netflix europeu, 'Liar Liar' (o título original do filme) não é particularmente memorável, sendo até um pouco 'piroso' e sentimental, como só os filmes de família dos anos 90 o sabiam ser; comparado com a restante obra de Carrey, fica a faltar à obra de Tom Shadyac aquela sensação de anarquia e imprevisibilidade que o actor sempre trazia a qualquer um dos seus papéis. Como despedida do actor do mundo da comédia familiar, é, certamente, bem menos do que o mesmo merecia, e dá até algumas indicações sobre as razões que o levaram a afastar-se deste género – por sinal, no momento certo, justamente quando se arriscava a ficar, para sempre, 'preso' a um tipo de papel.


Em suma, na filmografia de Jim Carrey, 'O Mentiroso Compulsivo' perde-se entre as referidas obras-primas da comédia noventista e os não menos bem-conseguidos dramas que se lhes seguiram (e dos quais aqui paulatinamente falaremos), e só mesmo a efeméride do aniversário da estreia justifica que lhe sejam dedicadas estas linhas - isso e o facto de, à época, o filme ter (por qualquer razão inescrutável) sido pretexto para a oferta de um calendário de bolso na revista 'Super Jovem', que, ainda hoje, talvez seja a melhor coisinha associada a esta descartável comédia...



O YouTube não tem o 'trailer' em português, mas pelo menos tem os 'bloopers'...

Thursday, 12 May 2022

Quintas no Quiosque: Os Cursos de Línguas da Planeta deAgostini, Parte II - 'Magic English, Magic English, Have Fun With Disney Every Day!'

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Depois de na última visita ao Quiosque termos falado da primeira tentativa da Planeta deAgostini de lançar cursos de línguas em fascículos, chega hoje a altura de completarmos a nossa análise das publicações deste tipo veiculadas pela editora durante os anos 90, com a segunda e mais frequentemente recordada série de aprendizagem de línguas disponibilizada pela Agostini durante esse período, o bem-sucedido Disney Magic English.


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Lançada em Portugal em 1997 e dirigida, ao contrário do seu antecessor, a um público explicitamente infantil, para o qual tinha atractivos claros em relação à tentativa anterior (basta atentar na licença), a série Magic English propunha-se ensinar os rudimentos da língua inglesa através de um formato baseado em exemplos tanto escritos como audio-visuais. Assim, cada nova entrega da colecção era composta tanto pelo habitual fascículo, com a explicação do tema abordado em cada número e alguns exercícios práticos em formato escrito, como por uma cassette VHS (substituída, em reedições subsequentes, por um DVD) onde excertos de desenhos animados e filmes da Disney ajudavam a cimentar os conceitos expostos na parte escrita; a esperança era de que a combinação dos exercícios do fascículo e dos exemplos práticos incluídos no vídeo ajudasse o aluno a assimilar o vocabulário necessário, tornando-o assim auto-didacta do novo idioma.



O primeiro vídeo da série; os restantes estão disponíveis aqui mesmo, no 'nosso' Sapo


Para além dos fascículos, a série incluía ainda o habitual meio para arrumação dos mesmos (neste caso, uma caixa) e ainda um dicionário de termos em Inglês, para ajudar a cimentar a aprendizagem.


Apesar do objectivo do projecto ser por demais optimista, sobretudo quando aplicado a uma demografia conhecida pela sua reduzida capacidade de atenção e concentração, a verdade é que a colecção Magic English era bem estruturada e pensada, afirmando-se, mais do que como um produto feito 'às três pancadas' para aproveitar a licença milionária, como um excelente auxiliar de estudo para pais e professores que pretendessem iniciar as crianças no estudo da língua inglesa; os excertos utilizados em cada vídeo eram cuidadosamente escolhidos e enquadrados para serem sempre relevantes ao tema em causa, e era mesmo possível aprender algum vocabulário simples em cada cassette ou DVD da série – cujos atractivos começavam, aliás, desde logo no contagiante estribilho do genérico de abertura, que alguns dos leitores deste 'post' estarão, possivelmente, a entoar mentalmente neste preciso momento.



'Have fun with Disney, every day! Have fun with Disney, every day! Have fun with Disney, e-ve-ry DAY!'


Assim, não é de estranhar que a série Magic English tenha feito tanto ou mais sucesso em Portugal do que em qualquer dos outros países onde foi lançada, e seja ainda hoje recordada com carinho pela geração à qual ajudou a ensinar Inglês; e apesar de muito deste sucesso se dever à presença de personagens Disney (as quais ajudavam a mitigar a vertente educativa do projecto) uma parte significativa do mérito deve mesmo ser atribuído aos criadores da série, por terem conseguido criar um produto educativo capaz de agradar e interessar genuinamente ao sempre difícil público a que se destinava - um privilégio normalmente reservado para propriedades como 'Rua Sésamo' e 'Artur'. Só por isso, Magic English já mereceria esta homenagem; o facto de se tratar de um lançamento genuinamente nostálgico apenas a torna duplamente merecedora.

Wednesday, 11 May 2022

Quartas aos Quadradinhos: Os Álbuns de Garfield dos Anos 90

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Como já aqui mencionámos aquando dos nossos posts sobre os álbuns de tirinhas de banda desenhada dos anos 90 e sobre a sua série animada, o gato Garfield era e continua a ser um dos mais populares personagens de banda desenhada de sempre, e um dos únicos capaz de atravessar e unir gerações, estando as crianças de hoje em dia tão familiarizadas com o personagem como a geração dos seus pais. Mesmo em plena era digital, o gato listrado cor de laranja continua a motivar a criação e edição de desenhos animados, filmes, jogos de computador, e outros items de merchandising das mais variadas índoles; curiosamente, a única coisa que Garfield não tem visto ser lançado no mercado nacional com a sua cara são, curiosamente, álbuns de banda desenhada.


Nos anos 90, no entanto, passava-se precisamente o oposto – o produto alusivo a Garfield que mais facilmente se encontraria numa loja portuguesa era, precisamente, um dos muitos volumes de BD publicados ao longo da década por nada menos do que três editoras diferentes.


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Um dos muitos volumes em formato comprido editados pela Meribérica-Liber


A primeira a adentrar-se pelo mundo do gato de Jon Arbuckle foi a Meribérica-Liber, ainda nos anos 80, com uma série de volumes em formato 'comprido' que reuniam algumas das primeiras tiras do personagem, quando os seus traços eram, ainda, significativamente diferentes. Esta série seria, a breve trecho, interrompida, mas (curiosamente) retornaria às livrarias portuguesas quase uma década depois de ter sido descontinuada, resumindo-se, até ao dealbar do novo milénio, a publicação de novos álbuns, como se nada tivesse, entretanto, acontecido.


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'O Álbum do Garfield', o único volume do personagem editado pela Bertrand (1990)


A verdade, no entanto, passa precisamente pelo oposto, sendo que, durante o interregno em causa, a edição das tirinhas de Garfield foi assumida por duas outras lendárias casas literária portuguesas, a Bertrand e a Dom Quixote. A participação da primeira resumiu-se a um livro, 'O Álbum do Garfield', que reunia tiras clássicas em formato A4 de capa mole; a segunda, no entanto, lançaria seis álbuns alusivos ao personagem no início dos anos 90, que ainda hoje permanecem os melhores volumes de tirinhas de Garfield alguma vez editados em Portugal. Num mais tradicional formato A4 de capa dura, estes seis volumes conseguiam a proeza de incluir tiras mais ou menos contemporâneas com o que vinha sendo publicado nos EUA na mesma altura, o que, à época, era nada menos do que um feito. Infelizmente, a participação da Dom Quixote na 'saga' do gato mais preguiçoso do Mundo ficou-se por aí, sendo que a qualidade destes álbuns merecia definitivamente edição continuada.


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O primeiro álbum da excelente série de seis publicada pela Dom Quixote a partir de 1992


O novo milénio não veio esmorecer o entusiasmo pelo material alusivo ao gato alaranjado; antes pelo contrário, já no novo milénio, o mesmo regressaria ainda mais uma vez às bancas e livrarias portuguesas, desta vez por mão da Book Tree e em álbuns cujo formato ficava a 'meio caminho' entre as duas tentativas anteriores, com capa mole e uma configuração 'quadrada', algures nas proximidades do A5, mas sem o ser.


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Exemplo da série de livros de Garfield lançada pela Book Tree, já nos anos 2000


Desde então, a publicação de álbuns de Garfield não dá sinais de abrandar, apesar de, hoje em dia, o gato ser, sobretudo, estrela da televisão e Netflix (pelo menos em Portugal; no Brasil, contracena actualmente, numa aventura multi-volumes, com a Turma da Mônica, um estatuto reservado, naquele país, apenas a mega-estrelas da BD, como os principais personagens da Disney.) Quem chegou a ler estes álbuns publicados naqueles finais do século XX, no entanto, certamente terá boas memórias de muitas gargalhadas dadas à custa daquelas inspiradas tirinhas, das quais deixamos abaixo uma das nossas favoritas.


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Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...