Tuesday, 28 February 2023

Terças Tecnológicas: 30 Anos de 'Super Mario Land 2', a 'Jóia' Esquecida da Nintendo

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Os anos 90 foram, por excelência, a época das mascotes nos videojogos, uma tendência que perdeu 'gás' logo na década seguinte, mas que dominou o mercado durante os últimos anos do século XX, em que parecia que qualquer jogo de acção ou plataformas precisava de um 'bicharoco' engraçado como representante. Apesar do vasto número de criações deste tipo durante o referido período, no entanto, poucos destes personagens se destacaram, pertencendo a maioria deles às duas grandes fabricantes de consolas da época, a Sega e a Nintendo. Destas, destacavam-se, naturalmente, o representante da Sega, Sonic, e o porta-estandarte da Nintendo, Mario, ambos os quais atravessavam naqueles anos o seu período áureo, com excelentes séries de jogos (de alguns dos quais já aqui falámos anteriormente), enorme popularidade ao nível do 'merchandising' (algum dele bastante fora do comum) e até as inevitáveis séries de desenhos animados e tentativas de filmes de acção real a eles alusivas. Assim, não é de estranhar que qualquer das duas companhias tenha procurado explorar o mais possível o respectivo 'filão', associando as suas mascotes ao maior número de títulos possível.


Mario, em particular, era durante este período a 'estrela da companhia' da Nintendo, surgindo não só nos seus próprios títulos para as diversas consolas da fabricante, mas também em títulos totalmente aleatórios desenvolvidos pela mesma - a maioria dos quais no Game Boy, onde o canalizador vestido de vermelho tinha muito menor preponderância do que nas consolas 'a sério'. De facto, onde a NES tinha 'Super Mario Bros. 3' e a Super Nintendo tinha os excelentes 'Super Mario World' e 'Super Mario Kart', a portátil da Nintendo contava apenas com o jogo de Mario mais atípico de sempre (o desconcertante 'Super Mario Land') e com alguns títulos do estilo 'puzzle', como 'Mario & Yoshi' e 'Alleyway', um clone de Arkanoid onde o italiano pilotava uma nave espacial (!) Não foi, portanto, de estranhar que, em finais de 1992, a Nintendo tenha querido corrigir esse erro, e reforçar a presença da sua mascote principal na sua mega-popular consola portátil; e a verdade é que o jogo que criaram para esse efeito faz jus à máxima 'mais vale tarde do que nunca', afirmando-se como não só o melhor jogo de Mario no Game Boy original, mas um dos melhores da franquia como um todo.


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Falamos de 'Super Mario Land 2: Six Golden Coins', lançado na Europa há quase exactamente trinta anos (a 28 de Janeiro de 1993) e que fica na História do 'franchise' por ter apresentado ao Mundo Wario, o anafado e rezingão arqui-rival de Mario, de quem o mesmo tem que reconquistar o seu castelo na titular Mariolândia. No entanto, o jogo tem muitos, muitos outros atractivos, constituindo uma daquelas experiências de jogo que pura e simplesmente não envelhecem, continuando tão divertidas hoje em dia como na época em que foram criadas.


Grande parte dessa diversão deriva da jogabilidade clássica, que substitui os 'sprites' minúsculos, tartarugas explosivas (!), bolas saltitonas em vez de bolas de fogo (!!) temas egípcios e extraterrestes (!!!) e níveis de tiros e condução de naves (!!!!) por algo bem mais típico, e que fazia as delícias dos fãs dos restantes jogos do canalizador à época. Todos os elementos mais marcantes da franquia marcam presença, de inimigos como os Goombas ou as tartarugas Koopa Troopa até poderes como a estrela, a flor de fogo e, claro, os tradicionais cogumelos de 'crescimento' e vida extra. A estes, junta-se ainda um novo poder, infelizmente nunca reutilizado, sob a forma de orelhas de coelho que permitem a Mario voar, numa espécie de alternativa mais precisa ao clássico fato de guaxinim de 'Super Mario Bros 3.' Cada um destes poderes pode, também, ser 'comprado' utilizando moedas numa área específica, ou adquirido num 'jogo de sorte' no final de cada nível, permitindo ao jogador desenvolver uma estratégia e abordagem em função dos poderes que tenha adquirido.


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Mario atravessa um nível em vôo com as orelhas de coelho


Os níveis são igualmente criativos, indo desde os típicos níveis aquáticos ou no espaço até uma área industrial, o interior de uma árvore, uma zona com imagética de terror (e onde os Goombas usam máscaras de hóquei ao estilo de Jason de 'Sexta-Feira 13'!) ou um quintal onde tudo é gigante, ao estilo 'Querida, Encolhi os Miúdos' – e onde Mario se torna, temporariamente, minúsculo no mapa de selecção de níveis! Cada uma destas áreas tem entre dois a cinco níveis 'normais' a explorar, cada um deles repleto de segredos – incluindo novos níveis secretos para desbloquear – que apenas tornam a experiência ainda mais gratificante. Quem nunca amealhou mais de trinta vidas só a descobrir segredos nos níveis deste título, perdeu uma das experiências de jogo mais clássicas de uma época repleta delas.


Em suma, apesar de por muito tempo ter sido considerado 'à parte' da mitologia de Mario, bem como o seu antecessor (até por não ter tido o envolvimento do criador de Mario, Shigeru Miyamoto) 'Mario Land 2' acabou, paulatinamente, por conquistar o seu espaço não só no coração dos fãs, mas na biblioteca de títulos da Nintendo, que o 'canonizou' e relançou recentemente para Switch e 3DS, onde (espera-se) esteja de momento a conquistar toda uma nova legião de fãs – que, aliás, bem merece, já que, trinta anos após o seu lançamento, continua a constituir um dos melhores jogos protagonizados pelo carismático representante da companhia.


Monday, 27 February 2023

Segundas de Séries: 'Médico de Família' - Um Drama Médico 'À Portuguesa'

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Em meados dos anos 90, Portugal não era, ainda, conhecido pela sua ficção televisiva; pouco mais de meia década depois, a TVI viria a alterar completamente o paradigma com as suas famosas telenovelas, mas – nos anos antes de 'Anjo Selvagem' ou 'Morangos com Açúcar' – o nosso País era, sobretudo, produtor de programas humorísticos e infantis, ficando bastante aquém da vizinha Espanha e de países como a França ou a Alemanha no que tocava à produção de ficção mais 'séria'. À medida que a década se aproximava do fim, no entanto, começaram a surgir, paulatinamente, tentativas de criar uma série dramática viável totalmente 'made in Portugal': 'Riscos', da RTP, deu o mote, em 1997, e no ano seguinte, seria a vez de a SIC 'arriscar a mão' em conteúdo deste tipo, através da adaptação de um formato espanhol.


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Nascia assim, há pouco mais de vinte e cinco anos (a 27 de Janeiro de 1998) a versão portuguesa de 'Médico de Família', três anos após a estreia do original espanhol, no qual se inspirava directamente. Produzida pela Endemol, nome maior de muitas das produções da estação de Queluz durante este período, a série (que se manteria no ar por cerca de dois anos e meio, até Agosto de 2000, e repetiria mais tarde na SIC Mulher) trazia Fernando Luís no papel do profissional de saúde em causa, Diogo, que se vê obrigado a balançar a vida profissional e pessoal – que, no caso, consiste dos habituais 'dramas' infanto-juvenis e adolescentes, motivados pelos filhos de Diogo, um dos quais vivido por Sara Norte, filha de Vítor, o André da 'Rua Sésamo'.


No entanto, a série almejava a ser mais do que apenas um 'dramalhão' com cenário médico, ao estilo 'Grey's Anatomy', focando também alguns aspectos ligados à medicina e aos problemas de saúde, de forma realista e sem condescendências nem exageros; de facto, talvez residisse aqui a sua maior virtude, aproximando o resultado final mais de um 'ER' dos primórdios (série, aliás, então em alta) do que do referido 'Grey's'. Tal como sucedia com 'Riscos', no entanto, a 'escola de telenovela' da maioria dos actores faz-se sentir em diversos momentos, sendo que, apesar do altíssimo nivel de representação por parte de actores entre o bom e o lendário, as actuações não deixam ainda assim de ser extremamente 'portuguesas' – um termo que terá, decerto, deixado uma imagem específica na mente dos nossos leitores.



Um excerto exemplificativo das actuações da série


Ainda assim, apesar dos defeitos, 'Médico de Família' não deixa de ser uma tentativa corajosa de fazer algo, até então, muito pouco tentado, e de resultados bastante díspares – merecendo, por isso, ser celebrada quando se completa um quarto de século sobre a sua estreia...



O genérico bem ao estilo 'sitcom dos anos 80' da série, que destoa um pouco do conteúdo sério da mesma.


 

Sunday, 26 February 2023

Domingos Desportivos: Caras (Des)Conhecidas - Pedro Mendes, de Guimarães Para o Mundo

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Apesar de não constar entre os principais campeonatos mundiais, sendo as suas competições tidas como decididamente de 'segunda linha', o futebol português sempre foi exímio em formar e exportar jogadores, fossem eles jovens com potencial ou (como sucede com o futebolista de hoje) nomes já com créditos firmados 'dentro de portas'. De igual modo, apesar de a esmagadora maioria desta formação se centrar nos chamados 'três grandes' (Benfica, Sporting e Porto) por vezes, surgem em clubes algo mais periféricos jogadores cujo talento não passa despercebido – inclusivamente ao triumvirato atrás mencionado.


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O jogador ao serviço do Porto.


Pedro Miguel da Silva Mendes, médio defensivo internacional pelas Quinas que completa hoje quarenta e quatro anos de idade, foi, na década de 90, um destes raros casos, tendo o seu despontar e afirmação sido feitos ao serviço de um dos 'históricos' do futebol português, e candidatos crónicos a 'quarto grande', no caso o Vitória de Guimarães. Foi ali que, nos primeiros anos da década de 90, um jovem de apenas onze anos vindo do 'vizinho' CD Aves começou a dar nas vistas, paradigma que se manteria durante os sete anos seguintes, com Mendes a ser, inevitavelmente, um dos jogadores de destaque em todas as equipas desde o nível de Infantis até à categoria de juniores.


Ainda assim, e apesar do talento inegável e inato, a entrada do médio na equipa principal do Guimarães não foi imediata, tendo o jogador de então dezanove anos sido enviado para 'rodar' no Felgueiras no início da época 1998/99. Previsivelmente, Mendes afirmou-se como um dos destaques da agremiação felgueirense naquela temporada, um daqueles jogadores 'de outro campeonato' claramente destinados a mais altos vôos. E esses viriam mesmo a chegar, logo na época seguinte, quando o médio defensivo é finalmente integrado no plantel vimaranense, ainda que apenas como apoio ao plantel prinipal; ainda assim, o jovem chegaria a efectuar quinze jogos pelo clube nessa primeira época, contribuindo com um golo.


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Mendes no Guimarães.


Seria apenas após o virar do Milénio, no entanto, que a carreira de Pedro Mendes começaria, verdadeiramente, a despontar, com o jogador a assumir cada vez maior preponderância no seio dos 'Conquistadores', afirmando-se mesmo, eventualmente, como titular indiscutível; no total, foram quatro as épocas e mais de noventa os jogos do médio pelo seu clube do coração, tendo a sua última temporada ficado marcada por um recorde de golos – seis, o dobro dos que havia marcado nas três épocas anteriores combinadas!


Como já seria de prever, o talento e consistência exibicional de Mendes não passaram despercebidos, tendo o médio sido alvo do interesse do FC Porto de Mourinho no início da época 2003/2004 – precisamente aquela em que o emblema portuense almejou o feito mais notável da sua História. Assim, em dez meses e pouco mais de quarenta jogos, a reputação do jogador projectava-se do nível local para um patamar internacional, e aquele que, um ano antes, havia sido 'apenas' um dos médios do Guimarães possuía, agora, honras de Campeão Europeu, bem como de internacional por uma das melhores equipas portuguesas de sempre.


Também previsivelmente, esta nova reputação suscitou interesse internacional pelos serviços do jogador, o qual, apenas um par de meses após vencer a Liga dos Campeões pelo Porto, embarcava em novos desafios em Inglaterra, no caso ao serviço do Tottenham, onde chegaria a fazer uma boa época – com trinta jogos e um golo – mas onde rapidamente perderia preponderância, sendo dispensado para o Portsmouth ainda no mercado de Janeiro da sua segunda época com os 'Spurs'.


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O médio no Portsmouth.


Ali, a vida correr-lhe-ia significativamente melhor, tendo o médio rapidamente assumido um papel preponderante na luta do clube por assegurar a manutenção, e contribuído com dois golos cruciais para esse objectivo, ambos conseguidos numa inesperada vitória por 2-1 frente ao Manchester City. As duas épocas seguintes seguiriam na mesma toada, tendo a estadia de Pedro Mendes sido coroada com a conquista da FA Cup, na época 2007/2008 – um objectivo bem menos sonante do que a Liga dos Campeões conquistada apenas quatro anos antes, mas nem por isso menos meritório.


Apesar da ligação ao Portsmouth – que, inclusivamente, o veria comprar acções do clube e juntar-se a um grupo organizado de adeptos que procuravam adquirir o mesmo de forma conjunta – a carreira de Mendes sofreria nova 'reviravolta' logo na época seguinte, que veria o médio rumar à Escócia para representar um dos seus históricos, o Rangers. Ali, o português teria novo início mais que auspicioso, tendo sido seleccionado como figura do jogo logo na sua partida de estreia, e como Jogador do Mês de Agosto, após apenas algumas semanas ao serviço do clube. Estava dado o mote para mais uma excelente época, com o jogador a afirmar-se como titular dos escoceses, a contribuir com quatro golos e a carimbar o seu regresso às convocatórias da Selecção Nacional, pela qual viria a disputar tanto a fase de qualificação quanto a fase final do Mundial de 2010.


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O jogador no Rangers.


Assim, foi de forma algo surpreendente que o mercado de Janeiro da época seguinte viu o médio regressar a Portugal, agora para representar um Sporting em fase complicada; e ainda que o jogador tenha desempenhado papel importante na segunda metade da campanha dos 'Leões', alinhando em dezasseis partidas e marcando um golo, a época seguinte vê-lo-ia perder preponderância, realizano em uma época inteira o mesmo número de partidas que fizera em seis meses do ano anterior.


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Mendes no Sporting.


Por consequência, o vínculo do médio com o clube lisboeta rescindido no final da época, a fim de possibilitar um regresso do jogador a 'casa'. A última época de Mendes como futebolista profissional seria, pois, passada no mesmo local onde a sua carreira havia começado quase uma década e meia antes: em Guimarães, onde o médio voltou a ser figura de proa, realizando vinte e dois jogos pelo seu clube formador antes de pendurar definitivamente as chuteiras – um ponto final condigno numa carreira repleta de honras e pontos altos, que inscrevia o jogador na lista de expoentes máximos da História do futebol português, e sobre a qual o mesmo quererá, certamente, reflectir no dia em que completa quarenta e quatro anos. Parabéns, Pedro Mendes – que conte muitos mais!

Saturday, 25 February 2023

Saídas ao Sábado: As Lojas dos 'Trezentos'

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Qualquer criança ou jovem dos anos 90 apreciava uma boa ida às compras, fosse com familiares ou, quando mais velho, com os amigos. O aparecimento, durante a referida década, de estruturas como os 'shoppings' e os hipermercados ajudava a tornar essa experiência ainda mais entusiasmante, oferecendo uma alternativa aos supermercados, drogarias, centros comerciais de bairro e lojas tradicionais de brinquedos, desporto, roupa ou discos e vídeos que formavam o 'itinerário' da maioria destes passeios. No entanto, qualquer que fosse o destino, havia sempre o problema de o dinheiro – da mesada, semanada, economias, ou simplesmente oferecido pelos pais no próprio dia – raramente chegar para o que se queria comprar; os mais pequenos, em especial, ficavam inevitavelmente 'reféns' das possibilidades e disposição dos pais no que tocava a levar para casa um 'presente' simbólico para recordar a viagem.


Ainda na primeira metade da década de 90, no entanto (bem antes do advento das grandes superfícies) um novo tipo de loja veio ajudar a resolver esse problema, oferecendo uma enorme variedade de produtos a um preço fixo e – mais importante – acessível aos bolsos e carteiras infantis – a princípio, cem ou duzentos escudos, que mais tarde viriam a subir para o valor que 'baptizou' oficialmente este tipo de estabelecimento, os famosos trezentos.


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Configuração típica de um estabelecimento deste tipo. (Crédito da foto: Ainda Sou do Tempo.)


Escusado será dizer que este conceito, por essa altura já presente em países como os EUA ou o Reino Unido, se afirmou absolutamente revolucionário em Portugal, onde o consumidor médio – sobretudo jovem – estava pouco habituado a tal variedade de produtos por tão baixos preços. Isto porque as 'lojas dos trezentos' vendiam desde as previsíveis 'quinquilharias' sem grande serventia até utensílios de cozinha, artigos de casa, livros (normalmente os famosos volumes da editora Europa-América, praticamente monopolista neste sector) e até artigos de vestuário ou plantas decorativas! E se é evidente que a qualidade destes produtos deixava muito a desejar – inclusivé no que toca às traduções dos livros – também não deixa de ser verdade que poder entrar numa loja com a semanada no bolso e sair de lá com QUALQUER produto em exposição era (e provavelmente continua a ser) o sonho de qualquer menor de idade. Assim, não é de estranhar que estas lojas tenham tido enorme adesão aquando do seu aparecimento, multiplicando-se rapidamente e espalhando-se por todo o País no espaço de poucos anos.


Mas como cantava George Harrison, 'tudo deve terminar', e também o 'ciclo' das 'lojas dos trezentos' acabou, eventualmente, por chegar ao fim – embora de forma muito mais lenta do que outros estabelecimentos de que aqui falámos em rubricas passadas, tendo o formato sobrevivido durante tempo suficiente para o nome 'loja dos trezentos' se transformar em 'loja do Euro'. Por essa altura, no entanto, já este tipo de loja enfrentava o adversário que o viria a destronar – a famosa 'loja dos chineses', que 'tomou de assalto' o sector comercial das 'lojas dos trezentos' e, mesmo sem a vantagem do preço fixo, as conseguiu paulatinamente eliminar do léxico dos portugueses. De facto, hoje em dia vai-se 'aos chineses' da mesma forma que, dez ou vinte anos antes, se ia 'aos trezentos', tendo o novo tipo de loja conseguido suplantar o estigma que lhe foi inicialmente associado – exactamente como aconteceu com os 'trezentos' no seu tempo. Para quem viu nascer e florescer esse tipo de loja, no entanto, a memória de um local onde tudo custava pouco mais de uma semanada permanecerá, sem dúvida, bem viva até aos dias de hoje, e remeterá inevitavelmente àqueles anos em que o conceito veio 'agitar' o comércio quotidiano e de bairro em Portugal...

Friday, 24 February 2023

Sessão de Sexta: 'A Vida É Bela' - Na Tragédia, a Comédia

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Qualquer era do cinema vê serem produzidos filmes que, sem serem 'blockbusters' ou contarem com grandes orçamentos publicitários, conseguem ainda assim alguma 'tracção' junto dos cinéfilos, por conta – sobretudo – do passa-palavra e da boa recepção crítica, acabando por se afirmar como obras memoráveis para toda uma geração de entusiastas de cinema.


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Nos anos 90, um dos principais exemplos deste tipo de filme-fenómeno era uma comédia dramática sobre temas que pouco ou nada tinham de cómico, realizada por um actor italiano que assumia também o papel principal: 'A Vida É Bela' ('La Vitta É Bella', no original, e que não deve ser confundido com o filme nacional homónimo, com Nicolau Breyner), obra que celebrou a 20 de Dezembro passado os vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal; e porque, durante esse mês, preferimos dar foco a filmes verdadeiramente natalícios - acabando assim por não assinalar este marco relativo a um filme de algum impacto a nível nacional – vimos agora corrigir essa falha, e dedicar algumas linhas ao polarizante filme de Roberto Benigni.


E dizemos 'polarizante' porque 'A Vida É Bela' é daqueles filmes que não deixa ninguém indiferente, ou mesmo comedido – quem gosta, adora (citando a excelente cinematografia e interpretações, e o facto de este ser claramente um projecto 'de coração' de Benigni), e quem não gosta, odeia (apontando o facto de a Itália Fascista e os campos de concentração não serem, de todo, um pano de fundo adequado para o enredo excessivamente frívolo de Benigni, ou remetendo para os irritantes 'tiques' do personagem Guido, como o memético 'buongiorno, Principessa' dirigido ao interesse romântico, Dora.) Apesar de estas opiniões se terem, assumidamente, diluído à medida que o filme se vai tornando progressivamente menos falado e mediático, nos anos imediatamente após o seu lançamento (em que era difícil falar ou ler sobre cinema sem se deparar com menções a este trabalho, que ganhou três Óscares, entre uma série de outros prémios, e era, a dada altura, frequentemente exibido em escolas no contexto da disciplina de História) este era mesmo um dos filmes que mais dividia opiniões entre os cinéfilos portugueses, não só jovens, mas de todas as idades.


À distância de vinte e cinco anos, continua a ser difícil inserir esta obra perfeitamente delicodoce na mesma categoria de filmes como 'A Lista de Schindler' (que aqui terá, paulatinamente, o seu espaço) ou mesmo o posterior 'O Rapaz do Pijama Ás Riscas', que partilha muitos dos mesmos problemas da película de Benigni. No entanto, não deixa de ser encorajador constatar que a longevidade do filme como instrumento pseudo-Histórico e pseudo-educativo foi limitada, e que o mesmo tão-pouco parece ter entrado na 'eterna rotação' dos canais de filmes da TV Cabo; em suma, 'A Vida É Bela' parece ter, senão desaparecido, pelo menos esfumado-se da consciência cinematográfica nacional. Ainda assim, pela importância que esta obra teve para toda uma geração de jovens cinéfilos, e pelo marco que recentemente atingiu, não podíamos deixar de 'desenterrar' do baú aquele que, durante um período considerável em finais do século XX e inícios do seguinte, foi um dos filmes mais falados de sempre em território nacional.


Thursday, 23 February 2023

Quintas no Quiosque: Os Jornais Desaparecidos dos Anos 90

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Apesar de muito mais lenta do que se previa, a morte anunciada da imprensa escrita às mãos da Internet concretiza-se cada ve mais com cada ano que passa; de facto, basta olhar para a selecção de jornais e revistas expostos em qualquer quiosque ou tabacaria portuguesa para perceber que – não obstante a presença de alguns títulos clássicos e aparentemente perenes – a oferta, e sobretudo a variedade, deste sector decresceram dramaticamente nas últimas duas décadas. Enquanto que em inícios do século XX o mercado era, ainda, suficientemente significativo para justificar revistas para demografias específicas ou especializadas em áreas tão díspares quanto a música, os videojogos e até alguns desportos de nicho, hoje em dia, os poucos títulos que sobrevivem são, ou generalistas, ou de cariz informativo e educacional, ou ainda 'clássicos' moribundos e longe do brilho de outros tempos (qualquer criança dos anos 90 sentirá profunda tristeza ao ver no que se tornou a TV Guia, por exemplo...)


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Este fenómeno é ainda mais notório no campo da imprensa informativa, onde a 'postura Astérix' de 'clássicos dos clássicos' como o Diário e Jornal de Notícias, o Público, o Expresso ou o Correio da Manhã (que, tal como o pequeno guerreiro gaulês, vão resistindo ainda e sempre ao invasor) e a permanência de 'novatos' como o 'i' e o 'Sol' apenas serve para disfarçar parcialmente o desaparecimento de outros tantos títulos que qualquer cidadão português daquele tempo dava como dados adquiridos ao entrar numa banca de jornais ou tabacaria.


De facto, ainda que pouco notória (ou notável) no contexto quotidiano, a falta de periódicos como o 'Tal & Qual', 'A Capital', o 'Independente', o semanário 'Se7e', o 'pasquim' 'O Crime' (além do bombástico '24Horas', criado no decorrer dessa mesma década, e que por isso mesmo terá, em breve, direito a 'post' próprio nesta rubrica) faz-se sentir assim que se pára para pensar na variedade de títulos de distribuição nacional generalizada que o público português costumava ter à sua disposição - e isto ainda antes de falar de jornais regionais ou títulos especializados como o 'Ocasião' e o 'Blitz', ambos também entretanto extintos. Um reflexo dos tempos cada vez mais digitalizados que se vivem, não só em Portugal como um pouco por todo o Mundo, mas que não deixa de dar que pensar, e de ser até levemente deprimente para quem (como o autor deste blog) em tempos almejou fazer carreira no sector da imprensa escrita.


Por isso mesmo, e pelas memórias que proporcionaram a toda uma geração (mesmo quando não se concordava, necessariamente, com o seu conteúdo ou afiliações) fazemos questão de aqui deixar uma curta mas sentida homenagem aos jornais desaparecidos que marcaram a infância e juventude dos 'putos' de finais do século XX - quanto mais não fosse por os mesmos os verem quando iam comprar cromos, guloseimas ou bandas desenhadas...

Wednesday, 22 February 2023

Quartas aos Quadradinhos: 'SOS Titanic' - A Jogada de Marketing da Abril

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


As revistas aos quadradinhos Disney viviam, durante os anos 90, um dos seus melhores momentos no mercado português, tanto no que tocava a níveis de vendas quanto de popularidade; assim, não era de todo de estranhar que a Abril/Controljornal (responsável pela edição dos títulos nacionais) procurasse não só diversificar cada vez mais a sua oferta, mas também tirar proveito de momentos culturais relevantes entre a demografia que as suas revistas visavam. E, no Portugal de inícios de 1998, um momento cultural sobrepunha-se a todos os outros junto do público mais jovem: a estreia do filme 'Titanic', quase imediatamente transformado num daqueles sucessos de bilheteira 'geracionais', e ainda hoje recordado por quem cresceu naqueles tempos pelo seu carácter polarizante. Assim, foi sem surpresas que a 'miudagem' lusitana de finais do século XX viu chegar às bancas, mais ou menos ao mesmo tempo que o filme com DiCaprio e Winslet, uma edição especial temática alusiva ao famoso navio, em cuja capa Mickey e Minnie replicavam a famosa pose do par romântico na proa do mesmo.


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Apesar do título e da capa algo 'enganosa', no entanto, 'SOS Titanic' não consiste, exactamente, de uma adaptação humorística e ajustada à realidade Disney do argumento do filme; ainda que a companhia (e, em especial, os estúdios italianos responsáveis pela maioria das BDs Disney saídas em território nacional à época) não fosse, de todo, estranha a este tipo de prática, desta feita, o caminho seguido foi um pouco diferente; a saber, ainda que a história única contida no volume estivesse directamente relacionada com o famoso navio, a mesma não tinha qualquer ligação à obra de James Cameron – talvez como forma de evitar dissabores ou encargos adicionais por parte dos criadores. De facto, apesar da alusão directa feita pelo desenho de capa e da utilização deliberada de Mickey e Minnie no lugar do icónico par romântico, o casal mais famoso da Disney nem sequer figura na trama, já que 'SOS Titanic' é uma história de Tio Patinhas, Donald e sobrinhos!


Desonestidades à parte, no entanto – até porque tais práticas não eram, de todo, incomuns no contexto do 'marketing' da época – a história homónima da publicação até se revela bastante interessante, com os eternos rivais Patinhas e Patacôncio a competir, primeiro para ver quem constrói mais rápido um navio de luxo, e depois quem consegue resgatar do fundo do Mar o verdadeiro Titanic. Uma trama que, curiosamente, mistura elementos reais ao universo de Patópolis, algo que as histórias da Disney faziam a espaços, utilizando a subsequente dissolução da fronteira entre o real e os 'quadradinhos' em favor do enredo imaginado. Uma estratégia inteligente, que tornava histórias como esta apelativas mesmo para quem não era fã do filme (que, conforme referimos mais acima, ainda era muita 'malta nova') e evitando a segmentização da demografia-alvo do lançamento.


Assim, não seria de estranhar que, à época, 'SOS Titanic' tivesse adqurido contornos de 'edição de coleccionador'; apesar de qualquer 'puto' daquele tempo saber que a esmagadora maioria das revistas Disney (bem como as da Marvel e DC, também da Abril) não tinham qualquer valor como objecto de colecção, volumes como este conseguiam, ainda assim, transmitir essa impressão, graças ao grafismo mais cuidado, maior número de páginas e carácter de 'número único'. E apesar desta, como a maioria das suas congéneres, ter entretanto caído no esquecimento, a data de lançamento e a ligação a 'Titanic' tornavam inevitável que a recordássemos nestas páginas nostálgicas, pouco mais de uma semana depois de termos falado do filme que a inspirou...

Tuesday, 21 February 2023

Terças de TV: 30 Anos de TVI

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Apesar de os anos 80 e 90 serem, normalmente, tidos como a era, sobretudo, dos avanços tecnológicos, este esteve longe de ser o único campo a sofrer evoluções; pelo contrário, foram vários os sectores a evidenciar progressos durante esta época da História, ainda que nem todos de forma tão 'declarada' ou evidente como o da tecnologia. A área do audio-visual, por exemplo, evoluiu também bastante durante estes anos – um fenómeno que, em Portugal, se fez verificar principalmente através da duplicação, num período de apenas quatro meses em inícios da década de 90, do número de canais televisivos em Portugal.


De facto, se à entrada para o segundo semestre do ano de 1992, Portugal tinha apenas os mesmos dois canais de que sempre dispusera – mais as respectivas 'filiais' regionais disponíveis por satélite – em inícios do ano seguinte, a situação era já significativamente diferente: em Outubro de 1992, a oferta aumentara para três canais, com o aparecimento da primeira emissora privada em território nacional, a SIC, e logo em Fevereiro de 1993, verificar-se-ia o aparecimento de uma segunda estação privada – uma estação com imagética alusiva aos Descobrimentos nos seus separadores e até no símbolo (que fazia lembrar a vela de uma caravela), informalmente conhecida nos seus primórdios como 'a Quatro', e cujo nome oficial viria, anos mais tarde, a polarizar todo um País.


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Falamos, claro está, da TVI, a qual celebrou ontem, 20 de Fevereiro de 2023, os exactos trinta anos da sua primeira emissão – oportunidade perfeita, pois, para fazermos uma breve retrospectiva dos seus inícios, à semelhança da que dedicámos à SIC aquando dessa mesma marca.


Corria a última semana de Janeiro de 1993 quando uma nova emissora, então ainda sedeada em Cabo Ruivo, e que mais tarde se mudaria para Queluz, levava a cabo a sua primeira emissão experimental: duas horas de 'ensaio', com transmissão de filmes e séries, que tinham honras de notícia no Telejornal da concorrente RTP (algo impensável hoje em dia), onde José Nuno Martins, director do novo canal, compreensivelmente se 'fechava em copas' e 'fazia questão de não dizer' nada sobre a nova estação, baptizada TVI – oficialmente 'Televisão Independente', mas também, para alguns, 'Televisão da Igreja', face à sua principal 'financiadora'.


De facto, a 'Quatro' era, aberta e declaradamente, um projecto da Igreja Católica, um facto que chegaria a influenciar certos aspectos da sua programação dos 'primórdios'; no entanto, o principal foco não eram tanto os conteúdos religiosos, mas sim as séries estrangeiras, que a emissora importava em exclusivo (como foi, fmaosamente, o caso com 'Ficheiros Secretos') ou 'recauchutava' dos arquivos da televisão estatal, como era o caso com 'Marés Vivas', 'MacGyver', 'O Justiceiro' ou 'Esquadrão Classe A', estes últimos na icónica dobragem brasileira. Os filmes eram outro dos principais 'pontos de venda' do novo canal, que se esforçava por exibir obras ainda inéditas em Portugal. Esta estratégia viria, rapidamente, a render dividendos para a TVI, que cresceria a olhos vistos durante os dois anos seguintes, integrando-se na rede satélite (que lhe permitia chegar às ilhas) e arriscando mesmo novas experiências, como o falhado formato 16:9. Programas marcantes, esses, também não faltavam, com 'A Amiga Olga', o 'Jogo do Ganso''A Casa do Tio Carlos' ou 'Circo Alegria'/'Vamos ao Circo' a ficarem, particularmente, na memória de quem crescia durante aqueles anos.


O verdadeiro 'salto', no entanto, dar-se-ia em 1997, quando a poderosa Media Capital adquire capital social na estação de Queluz, e dá início à mudança de paradigma que, a longo prazo, resultaria no canal que os Portugueses conhecem hoje, de cariz assumidamente popular e até um pouco sensacionalista, e com forte aposta na ficção nacional, em particular nas telenovelas, em que foi pioneira. De facto, por alturas da viragem do Milénio, a emissora era, já, praticamente irreconhecível, fazendo de programas como o 'Batatoon' e 'Mix Max', 'sitcoms' como 'Bora Lá Marina' (com a icónica Marina Mota) ou séries como 'Super Pai' os principais esteios da sua programação, e relegando para segundo plano as séries estrangeiras que a haviam alicerçado nos seus inícios (embora ainda houvesse espaço para 'Seinfeld' ou 'Profiler', e mais tarde 'CSI'.) Uma transformação que não deixaria indiferente quem, poucos anos antes, vira em directo os primeiros passos daquele canal tímido, até introvertido, que emitia em horário limitado e parecia perfeitamente contente em transmitir séries estrangeiras, e que agora se assumia como concorrente extrovertido e confiante ás mesmas emissoras que, naqueles primórdios, lhes concediam tempo de antena durante o Telejornal. Feliz aniversário TVI – e que continues a afirmar-te como uma alternativa durante muitos mais.


 

Monday, 20 February 2023

Segundas de Sucessos (de Carnaval): O Primeiro CD do Batatoon

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


E em pleno período de Carnaval, nada melhor do que recordar aquele que foi um dos discos de maior sucesso entre a 'criançada' portuguesa noventista, e que tinha como intérpretes uma dupla de palhaços, um dos símbolos máximos desta época do ano.


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Capa e alinhamento do álbum.


Falamos do primeiro dos quatro (!) álbuns alusivos ao programa infantil Batatoon, lançado em 1999, e que foi talvez o expoente máximo do 'império' comercial derivado daquele que foi, também, um dos maiores sucessos da década junto do público-alvo, cuja licença se estendia ainda a uma revista e a um sem-número de produtos com as caras dos apresentadores Batatinha e Companhia; no entanto, era mesmo o CD ou cassette que os pequenos fãs do programa mais procuravam, tendo-se este álbum rapidamente tornado um êxito, não só em termos de vendas, mas também de popularidade entre a demografia em causa.


As razões para tal estatuto eram simples, e estavam ligadas ao facto de, ao contrário de outros álbuns infantis licenciados do mesmo período, como o d''Os Patinhos', este lançamento consistir, não apenas de duas ou três faixas 'licenciadas' – neste caso, os dois temas-título e a música dos 'Parabéns', as músicas mais populares do programa - rodeadas de versões de cantigas do domínio público; em vez disso, o restante alinhamento consistia de músicas verdadeiramente ouvidas no contexto do programa da TVI, aproximando assim o disco de algo como 'As Canções do Lecas' ou dos álbuns do Buereré ou da Arca de Noé, que se podem considerar seus precursores directos


O que muitas das crianças que vibravam ao som de 'Croc Croc' ou 'O Cãozinho Entra na Roda' certamente não saberiam à época era que estas mesmas músicas eram adaptações quase directas do repertório da famosa Xuxa, lenda viva dos programas infantis brasileiros, ou de outros conjuntos infantis daquele país, como o Trem da Alegria, com apenas muito ligeiros ajustes de linguagem para os trazer do Português do Brasil para o europeu, reduzindo assim a necessidade de compôr e gravar temas originais...




Comparação entre a versão original brasileira de 'Croc Croc' e a adaptação portuguesa incluída no álbum.


Mérito, ainda assim, para os dois intérpretes, que conseguiram não só 'trazer' estas músicas para o outro lado do Oceano Atlântico, mas também torná-las sucessos junto de um público infantil algo diferente do do brasileiro – até porque muitos destes temas tinham já mais de uma década de existência quando 'aterraram' na Península Ibérica pela mão dos dois palhaços. E apesar de muitas das crianças que corriam às prateleiras das lojas de discos ou supermercados para adquirir o CD só quererem ouvir o 'Ba Bata Batatoon' ou o tema de abertura, a verdade é que Batatinha e Companhia (ou os seus produtores) ofereciam um produto mais cuidado e completo do que a média, fazendo com que o dinheiro investido neste álbum ou nos seus sucessores directos se pudesse considerar bem gasto.


 

Sunday, 19 February 2023

Domingos Divertidos: Tragabolas

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Os jogos de mesa – fossem de tabuleiro ou de qualquer outro tipo – estavam entre as melhores e mais populares diversões para um Domingo Divertido em casa, tendo a década de 90 assistido ao surgimento de vários clássicos nesta categoria, como o Mauzão, Crocodilo no Dentista, Quem é Quem ou o Salta o Pirata, além da consolidação de clássicos como o Monopólio ou o Sabichão. A juntar a esta lista há, ainda, um jogo chegado a Portugal ainda em finais da década de 80: o icónico Tragabolas.


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Lembrado hoje em dia sobretudo pelo seu lendário anúncio televisivo, este jogo da MB, distribuído pela Concentra (quem mais?) tinha por base o não menos icónico original norte-americano, Hungry Hungry Hippos, que vinha já fazendo sucesso entre a juventude daquele país desde a sua implementação, vinte anos antes, e suscitara já um sem-número de imitadores por aquelas paragens (alguns dos quais chegariam, aliás, a surgir em Portugal).


As razões para este sucesso são evidentes, sendo Tragabolas um daqueles jogos de conceito extremadamente simples, mas capaz de suscitar inúmeros momentos de diversão. Essencialmente, cada jogador (até um máximo de quatro) tomava controlo de um dos hipopótamos posicionados em disposição de cruz em torno do tabuleiro, e tentava recolher na boca do mesmo tantas das bolas colocadas ao centro quantas possível (daí o nome em Português e Espanhol), podendo para esse feito 'esticar' o pescoço do seu hipopótamo mediante pressão no respectivo mecanismo; escusado será dizer que ganhava quem tivessse 'tragado' mais bolas, o que levava, invariavelmente, a acirradas disputas, com hipopótamos a 'entrar' e 'sair' rapidamente da zona central do tabuleiro, por forma a antecipar-se aos outros jogadores. Um daqueles conceitos que apelam a todos os instintos-base da criança ou jovem comum, da competitividade à destreza e até ao gosto pela acção frenética e ligeiramente violenta, pelo que o seu enorme sucesso também em Portugal se afirma como nada menos do que natural.


Conforme acima indicámos, uma série de variantes não-oficiais deste jogo chegariam a Portugal ao longo dos anos, incluindo versões 'de viagem' para apenas dois jogadores (ainda que o Tragabolas oficial não tenha sido incluído na linha de jogos de viagem oficial da MB) e outros em que os icónicos hipopótamos eram substituídos por outras criaturas (lá por casa, além de uma versão reduzida com cães em vez de paquidermes, havia ainda uma 'variante' importada em que o jogador controlava um dinossauro que agarrava na mão, podendo assim 'pescar' as bolas do tabuleiro com total liberdade de movimentos – uma mudança que tornava o jogo ainda melhor e mais divertido.)


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Um dos muitos clones do jogo saídos desde o seu período áureo.


Ainda assim, é sem dúvida o original que fica na memória da ex-juventude noventista, quanto mais não seja pelo seu anúncio, um dos mais icónicos da época e que, só por si, já justificaria a publicação deste post; o facto de o jogo que lhe está associado não ser menos memorável nem bem-sucedido é, portanto, apenas a cereja no topo de mais um dos muitos 'bolos' que deliciavam a juventude de finais do século XX.




Anúncios televisivos do Tragabolas de início e finais da década de 90, respectivamente.

Saturday, 18 February 2023

Sábados aos Saltos: As Cinco Melhores Diversões de Carnaval dos Anos 90

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


O terceiro fim-de-semana de Fevereiro fica, no calendário lusitano, normalmente marcado pela festividade conhecida como Carnaval, a qual, por sua vez, acarreta consigo uma série de acções e tradições próprias e características, sem as quais a festa não tem o mesmo colorido. E por o Carnaval ser, historicamente, uma festa ligada à diversão (mais ou menos) sem regras, várias destas tradições tem um pendor algo 'maroto', procurando incomodar ou inconvenienciar o próximo – embora, claro, também haja algumas mais 'inocentes' e cujo espírito é meramente de festa. Este Sábado, elencamos cinco das principais diversões que punham os 'putos' noventistas aos Saltos a cada fim-de-semana de Carnaval.




  1. Serpentinas


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A menos lesante das divesões contidas nesta lista, o lançamento das tradicionais fitas em papel colorido tinha (e tem) a desvantagem de poluir bastante as ruas. Ainda assim, a sensação de ver aquela 'cobra' de papel desenrolar-se a um toque de pulso nunca deixará de ser gratificante, especialmente para uma criança ou jovem – à qual acresce, ainda, a possibilidade de ver o rolo embater numa qualquer cabeça mais desprevenida, juntando uma vertente cómico-maliciosa a todo o processo. Ainda assim, as serpentinas ficam mesmo pelos lugares inferiores da lista, por serem menos populares e versáteis do que os restantes divertimentos nela contidos.




  1. Martelinhos


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'Reciclados' das festas do São João, no Porto, os martelinhos têm a dupla aliciante de 'chatear' sem magoar, já que as suas superfícies são, regra geral, plastificadas e maleáveis, expressamente para permitirem bater nos mais diversos 'alvos', gerando a cada vez o tradicional 'pio', quase tão irritante quanto o próprio acto de levar com eles. Um 'clássico' do Carnaval, ainda hoje, que só fica a perder em relação aos três outros produtos ainda por citar no campo da versatilidade e potencial destrutivo.




  1. Balões de Água




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Já aqui lhes dedicámos um post completo – no qual, aliás, referimos o perigo de passar desprevenido debaixo de prédios de apartamentos na altura do Carnaval, tornando-se assim o alvo perfeito para um balão de água em queda livre em direcção ao alto da cabeça. Além desta vertente, os balões de água podiam ainda ser atirados a veículos – embora poucos fossem os que se atreviam, pelo alto potencial de acidentes que tal acto causava – ou usados em 'guerras' entre amigos ou rivais, razão que os via ser banidos da maioria das escolas do País nesta época do ano.




  1. Estalinhos




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Também já aqui falámos destes pequenos mas ruidosos apetrechos, ideais para assustar os mais distraídos, normalmente fazendo-os estalar mesmo nas suas costas – uma prática a que poucos conseguiam resistir durante este período...




  1. Ovos




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Um dos muitos resultados do lançamento de ovos durante o Carnaval.


A mais perigosa das diversões aqui citadas, mas também a que oferecia maior potencial destrutivo – e, por isso mesmo, a mais apreciada por quem via no Carnaval uma oportunidade de 'pregar partidas' e se portar mal sem consequências. Também, naturalmente, banido da maioria dos estabelecimentos escolares, este produto alimentar acabava ainda assim, inevitavelmente, espalhado nas roupas e cabelos dos jovens mais incautos, num efeito semelhante ao dos balões de água, mas ainda mais destrutivo – valendo-lhes, assim, a vantagem sobre os mesmos, e o primeiro lugar nesta nossa lista.


O que acharam deste Top 5? Concordam? Discordam? Esquecemo-nos de alguma 'partida'? Façam-se ouvir nos comentários!

Friday, 17 February 2023

Sextas com Style: Os Fatos de Carnaval Feitos em Casa

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


Fevereiro é, tradicionalmente, o mês do Carnaval em Portugal – e, para a maioria das crianças (e também muitos adultos) esta festividade continua a ser associada, acima de tudo, com as máscaras e disfarces. De facto, o Carnaval suscita nos portugueses de uma certa idade o mesmo entusiasmo que o Halloween causa às crianças americanas, mau-grado a ausência de doces e guloseimas, sendo que qualquer 'puto' português que se preze tem a 'máscara' de Carnaval escolhida e planeada semanas antes do acontecimento. Mas se, na maioria dos casos, estes disfarces se limitam a 'fatiotas' compradas no hipermercado, supermercado ou drogaria do bairro, há pais (e miúdos) que vão um pouco mais adiante na sua dedicação ao disfarce de Carnaval (ou MENOS adiante, dependendo do ponto de vista) e acabam por criar os seus fatos de forma inteiramente caseira – não no sentido de os costurarem de raiz (embora isso também aconteça) mas simplesmente na óptica de os criarem utilizando uma mistura de artigos já pré-existentes e de fácil acesso.


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Assim, uma camisa de flanela, 'jeans' e um colete – mais umas pinturas a marcador e um chapéu de xerife ou semelhante – traduzem-se num 'fato' de 'cowboy' perfeitamente respeitável, enquanto que roupa totalmente preta, combinada com um qualquer tipo de máscara de cara inteira e uma espada de brincar, cria um fantástico disfarce de ninja; para as meninas, roupas de cores ou padrões mais garridos, juntamente com uma peruca e pinturas, também dão azo a 'fatiotas' originais, e que nada ficarão a perder ao lado das princesas e fadas 'de loja'. As famílias mais criativas, ou com mais tempo, chega(va)m mesmo a construir 'fatos' em cartão no formato daquilo que a criança queria ser – foguetão, unicórnio, sinal de trãnsito ou semelhante – enquanto que aqueles com maior acesso a tintas e pinturas podiam facilmente transformar o seu filho ou filha num animal selvagem ou personagem de filme de terror, criando um disfarce original e cujo principal dispêndio era de tempo, mais do que de dinheiro.


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Até um disfarce de Tartaruga Ninja pode ser feito em casa.


Com os fatos de Carnaval cada vez mais amplamente disponíveis e acessíveis no preço – tanto assim que os serviços de aluguer, populares nos anos 90, perderam preponderância – a prática de criar 'variantes' de disfarces de Carnaval 'feitas em casa' é cada vez menos necessária ou relevante; não há porque não acreditar, no entanto, que continuem a haver no nosso País famílias que – por terem menos recursos, ou simplesmente pela vontade de serem originais – continuem a 'engendrar' 'fatiotas' únicas a partir de objectos e peças de roupa caseiras, para que os seus filhos possam fazer um 'brilharete' na festa de Carnaval da escola...

Thursday, 16 February 2023

Quintas de Quinquiharia: Os Estalinhos de Carnaval

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Nesta altura do ano, não havia criança que não os tivesse na mochila ou no bolso, ou que pelo menos convivesse com alguém que os tinha. Falamos dos famosos estalinhos, uma das 'quinquilharias' que literalmente 'estouravam' nos pátios das escolas (e, por vezes, também em plena rua) durante duas semanas em cada ano, antes de serem relegados ao esquecimento durante mais doze meses; uma espécie de versão mais barulhenta e perigosa dos enfeites de Natal, portanto, ou, se preferirmos, uma versão 'micro-mini' dos foguetes de Ano Novo.


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Qualquer que seja a comparação utilizada, no entanto, a conclusão é a mesma - nomeadamente, que estas pequenas bombinhas de papel multicolorido, perfeitamente inofensivas até ao momento do lançamento, eram um dos 'apetrechos' obrigatórios para os festejos carnavalescos infanto-juvenis no Portugal dos 90, quase tanto (ou mais) do que os espiritualmente semelhantes balões de água ou do que as mais inofensivas serpentinas ou martelinhos. Quem os tinha, deliciava-se em descobrir o momento certo para os lançar, de forma a surtir o máximo efeito; quem não tinha, via-se obrigado a redobrar a atenção, não fosse um dos colegas decidir 'mandar' um directamente nas suas costas para os fazer dar um 'salto' – uma prática que, aliás, estava longe de ser incomum nesta época do ano. Apesar da tentação (e aparente facilidade) em criar um 'mega-estalinho' feito de vários outros, no entanto, tal experiência era desencorajada pela existência de 'mitos urbanos' sobre a perda de dedos derivada, precisamente, da execução dessa ideia – num exemplo perfeito do modo como a população infantil garante a sua auto-sobrevivência e estabelece limites para a sua audácia, ainda que de forma ingénua e quase inconsciente.


Nestes tempos em que a sociedade ocidental está mais ciente dos perigos e questões de segurança em torno de várias práticas anteriormente comuns, é com naturalidade que vemos os 'estalinhos' perderem preponderância no contexto das celebrações de Carnaval; quem cresceu ainda no século XX, no entanto, certamente terá recordado a sua ubiquidade nos Fevereiros daqueles tempos, e quiçá até 'ouvido' mentalmente o característico estampido assim que leu o título deste post...

Wednesday, 15 February 2023

Quartas de Quase Tudo: Os Diários

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Em plena era do Facebook, Twitter, TikTok e Instagram – em que um dos principais objectivos da maioria dos jovens passa por colocar tantos aspectos da sua vida quanto possível em 'hasta pública', para o resto da sua geração ver e comentar – a ideia de manter pensamentos, planos e até sentimentos só para si mesmo, num livrinho ou caderno que mais ninguém estava autorizado a consultar, parece, no mínimo, caricata; e, no entanto, os referidos volumes fizeram parte integrante da infãncia de muitas crianças do século XX e inícios do XXI.


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Um exemplo bem típico do produto em causa.


Falamos, claro está, dos diários, um conceito que reúne vários elementos, hoje em dia, perfeitamente desactualizados e até obsoletos. Senão veja-se: eram volumes físicos, em papel, nos quais se escrevia à mão, e que não eram mostrados a ninguém – ou seja, o total oposto do paradigma actual nas redes sociais. De facto, aqueles caderninhos de papel liso ou pautado, muitos deles, inclusivamente, com cadeado (!!!) para assegurar que ninguém 'bisbilhotava', servem como ilustração perfeita das profundas diferenças entre a Geração Z e as que lhe sucederam, já que um jovem da sociedade ocidental actual procuraria veicular os conteúdos do seu diário, muito mais do que mantê-los secretos!


Para as gerações pré-Internet, no entanto – bem mais 'reprimidas' e contidas nas suas acções do que a actual – era impensável confessar os sentimentos à pessoa de quem se gostava, ou confrontar verbalmente os maiores de idade, pelo que todas essas sensações reprimidas acabavam naquelas páginas, por vezes com 'letra bonita', espacejamento e muitos desenhos à volta, outras sob a forma de enorme parágrafos agressivamente escrevinhados em meio a logotipos de bandas de metal e garatujas de caveiras. O denominador comum passava, apenas, pelo carácter pessoal e confidencial da informação, servindo o diário como uma espécie de instrumento de catarse – finalidade, aliás, para a qual ainda hoje é usado no contexto da terapia psicológica e emocional.


Àparte esse uso muito específico, no entanto, o próprio conceito de um diário é, hoje em dia, completamente contrário a toda e qualquer tendência social infanto-juvenil, pelo que não surpreende minimamente vê-los quase desaparecidos do referido panorama; no entanto, com o pendor cada vez maior para reviver conceitos e produtos nostálgicos, também não seria de admirar que, dentro de bem pouco tempo, se visse um regresso dos clássicos livrinhos às prateleiras de drogarias, tabacarias, supermercados e grandes superfícies, prontos a re-ensinar o conceito de privacidade a uma geração aparentemente determinada a pôr toda a sua vida 'a nu' ...

Tuesday, 14 February 2023

Terças Tecnológicas: Trinta Anos de 'Super Mario Kart'

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Numa era de recursos tecnológicos praticamente ilimitados e experiências interactivas hiper-realistas, pode ser difícil recordar que, em tempos, foi necessário adoptar certas abordagens e tácticas para colmatar as limitações técnicas dos aparelhos existentes no mercado. O melhor exemplo disso mesmo eram os videojogos, que – ainda incapazes de recriar experiências realistas – optavam muitas vezes pela abordagem contrária, especialmente em tratando-se de títulos que lidavam com actividades relativamente corriqueiras e triviais, como o desporto ou as corridas.


No caso da Nintendo, essa tarefa ficava, à partida, facilitada pela reputação da companhia como criadora de jogos com estética exacerbadamente 'cartoonesca', a qual permeava a grande maioria dos seus maiores sucessos e se reflectia nas suas mais famosas personagens, da mascote Super Mario a Zelda ou Kirby, assim, ao pretender lançar um título de corridas para a sua consola de 16-bit, a Super Nintendo, nada se afigurava mais natural para a companhia japonesa do que adoptar (e adaptar) essas mesmas características, aproveitando o 'factor reconhecimento' gozado pelas suas personagens como 'alavanca de vendas'. O resultado foi um titulo que – deliberadamente ou não – se tornou um dos 'históricos' não só da consola, mas de todo o percurso da Nintendo: 'Super Mario Kart', lançado na Europa há quase exactamente trinta anos (a 21 de Janeiro de 1993) e que colocava pela primeira vez os populares personagens da respectiva franquia ao volante de pequenos veículos, em pistas (ainda) relativamente curtas e cheias de curvas apertadas e 'poderes' para cada personagem utilizar em seu benefício contra os outros jogadores.


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Um conceito que em breve viria a atingir o ponto de saturação (muito por culpa deste jogo) mas que, aqui, surgia ainda 'fresco' e entusiasmante, oferecendo aos adoptantes da consola da Nintendo uma experiência diferente da dos habituais jogos de corridas mais 'realistas', como 'Super Hang-On', da SEGA, ou até mesmo de algo como 'Outrun' (que, apesar dos gráficos estilo 'anime', nunca se rendia totalmente a essa vertente.) O impacto das características físicas de cada personagem na sua forma de correr e nas consequências de choques e impactos (com Donkey Kong ou Bowser a serem mais resistentes do que a Princesa, o cogumelo Toad ou Yoshi, por exemplo) trazia um rasgo inovador à jogabilidade, enquanto o uso de poderes e itens de bónus motivava o confronto 'a dois', proporcionando muitas e boas horas de competição, frustração e divertimento, que cedo se tornariam característica principal e marcante da série.


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O modo para dois jogadores, uma das características mais marcantes não só deste título como da série em geral.


E dizemos 'série' porque a experiência automobilística de Mario e companhia não se ficaria por aqui, antes pelo contrário – passar-se-iam menos de três anos até o canalizador de roupa vermelha voltar a ser mordido pelo 'bichinho' das corridas, num título que fazia uso total do potencial técnico da nova geração de consolas para renovar e aprimorar a fórmula estabelecida pelo jogo para Super Nintendo.


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Falamos, claro está, do ainda hoje excelente 'Super Mario Kart 64', título de lançamento da desafortunada Nintendo 64, e que tanto impressionava pela demonstração da proeza técnica da mesma como pela própria experiência que proporcionava, com destaque total para o modo multi-jogadores, ainda hoje um dos melhores de toda a História dos jogos de consola, senão mesmo dos videojogos em geral. Aliás, este jogo estava tão 'à frente do seu tempo' que continua, ainda hoje, a 'aguentar-se' bem, mesmo contra os 'irmãos mais velhos' e mais evoluídos.


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Uma das melhores experiências multi-jogador de sempre.


O impacto destes dois títulos no mercado dos jogos de corridas foi instantâneo, com tanto um como o outro a darem azo a dezenas de 'imitadores' mais ou menos competentes e divertidos, e a lançar, por si só, a 'febre' dos jogos de corridas de 'karts' entre personagens animados licenciados. Na senda do primeiro 'Super Mario Kart', por exemplo, foram lançados títulos como 'Skunny Kart' ou o famoso 'Wacky Wheels' (ambos para PC) ou ainda 'Street Racer', para as consolas da época (incluindo a própria Super Nintendo), enquanto 'Mario Kart 64' deu azo a mais jogos do que é possível listar em apenas um parágrafo, protagonizados por personagens tão díspares quanto Pac-Man, os Looney Tunes, os personagens de BD da Disney, o elenco do filme Toy Story, as mascotes da Sony ou da SEGA, ou até o pinguim Tux, mascote do sistema operativo Linux! 


E embora muito poucos de entre estes jogos chegassem a atingir o padrão de qualidade do título da Nintendo (destacando-se, nesse aspecto, 'Crash Team Racing', com os personagens da franquia Crash Bandicoot, e 'Speed Freaks', ambos para PlayStation) muitos deles renderam dividendos, fazendo com que a tendência para colocar QUALQUER grupo de personagens licenciados ao volante de 'karts' num jogo estilo 'linha de montagem' desenvolvido sem grande cuidado se mantenha até aos dias de hoje – desde a época a que aludimos neste artigo, a 'moda' já foi seguida (entre muitos, MUITOS outros) pelos personagens da Konami (no também excelente 'Konami Krazy Racers', para Game Boy Advance) por Shrek, pela mascote musical Crazy Frog, por 'Garfield e Amigos', e até pelo ursinho Teddy, personagem infantil polaca que muitos portugueses da geração 'Millennial' chegaram a ver nas suas televisões em finais dos anos 80 e inícios da década seguinte, e da qual paulatinamente aqui falaremos. Uma verdadeira 'febre', portanto, que (ao contrário de tantas outras) não dá sinais de abrandar.


O próprio Mario continuou a disputar periódicas séries de corridas com os amigos ao longo dos anos, tendo 'Mario Kart' marcado presença em todas as consolas da Nintendo desde 1993 até hoje, (com excepção dos tecnicamente limitados Game Boy original e Game Boy Color) e até em plataformas móveis, e conseguido enorme sucesso em todas elas - uma tendência que tudo indica se vá continuar a manter nas 'gerações' electrónicas futuras da companhia, e que prova que há certos conceitos que, por mais anos e décadas que passem, não perdem a sua relevância ou o interesse, afirmando-se como verdadeiramente intemporais.

Monday, 13 February 2023

Segundas de Séries: 'Riscos' - Um '90210' À Portuguesa

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Hoje em dia, a chamada 'ficção nacional' é parte integrante da grelha televisiva dos canais portugueses, seja sob a forma das famosas telenovelas ou no registo mais sério e dramático de séries como 'Conta-me Como Foi'; até inícios do Novo Milénio, no entanto, a situação era diametralmente oposta, centrando-se a maioria da ficção televisiva portuguesa no géneros do humor em 'sketch', com digressões infrequentes para os campos da reconstituição histórica ou para conteúdos infanto-juvenis. Há pouco mais de vinte e cinco anos (em Outubro de 1997) a RTP quis, no entanto, mudar esse paradigma, através de uma série que, ainda que pouco lembrada hoje em dia, acabou por dar o mote para várias tendências durante as mais de duas décadas de televisão nacional que se seguiram.


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Falamos de 'Riscos', um programa que, à época, se destacou por ser pioneira no ramo da ficção serializada nacional dirigida especificamente a um público jovem – um 'nicho' que, nos Estados Unidos, era já uma forma de arte, e que já havia rendido um mega-sucesso 'falado em português', no caso a telenovela brasileira 'Malhação'. A 'versão portuguesa' deste conceito inseria-se, precisamente, entre as da América do Norte e do Sul, apresentando uma espécie de cruzamento entre a referida 'Malhação' e algo como 'Beverly Hills 90210', com as devidas adaptações à realidade portuguesa.


De facto, o conceito-base da série era praticamente idêntico ao dos exemplos supracitados - bem como de outras séries internacionais, como a britãnica 'Grange Hill' - propondo ao espectador 'entrar' na vida quotidiana de um grupo de estudantes do ensino secundário, no caso de um colégio privado, e acompanhar em 'tempo real' os seus variados dramas, que iam das habituais complicações amorosas (aqui, do casal Bruno e Mariana) a temas mais sérios, como as drogas. E se este parece um conceito familiar, é porque o é: a proposta de 'Riscos' é exactamente a mesma que, poucos anos mais tarde, granjearia mais de uma década de sucesso a uma aposta da 'concorrente' TVI – uma pequena produção independente, de que talvez já tenham ouvido falar, chamada 'Morangos com Açúcar'...


(Sim, quando dissemos no início deste 'post' que 'Riscos' abrira um precedente importante na produção televisiva nacional, tratava-se de mais do que uma força de expressão...)


A diferença entre a série da RTP e a perene telenovela juvenil da TVI (esta, sim, uma localização directa de 'Malhação') é, sobretudo, o menor enfoque no dramatismo barato, em favor de uma abordagem mais séria a assuntos relevantes para a vida dos jovens, não só do Portugal daquela época, mas da sociedade ocidental em geral, os quais eram tratados de forma directa, frontal e sem grandes 'mariquices', com a preciosa ajuda de um elenco que misturava 'veteranos' como Alexandra Lencastre e Diogo Infante com jovens actores da idade dos seus personagens, entre os quais se destacava Paula Neves, também ela a poucos anos de atingir a imortalidade 'noveleira' do 'outro lado da estrada', em Queluz.


Assim, e embora não tenha passado de uma única temporada (ao contrário do que sucedeu com os seus sucessores directos) é fácil perceber porque é que 'Riscos' é, hoje em dia, considerado um marco na História da televisão portuguesa, e da ficção nacional em particular – e porque era premente que corrigíssemos a nossa desatenção de Outubro passado, e celebrássemos devidamente os vinte e cinco anos da sua estreia.




Genérico e excerto da série.

Sunday, 12 February 2023

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Mladen Karoglan

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Numa semana em que o Sporting Clube de Braga está nas 'bocas do Mundo' por ter eliminado o Benfica da Taça de Portugal, nada melhor do que recordar um dos jogadores históricos da fase 'noventista' do clube nortenho. Não, não se trata da escolha óbvia, já que esse foi fazer História também no Benfica, na década seguinte, desqualificando-o da selecção para esta rubrica; falamos, antes, de um jogador que passou oito épocas em Portugal (seis delas em Braga) sem nunca ter querido 'dar o salto' para mais altos vôos – o ponta-de-lança Mladen Karoglan.


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O avançado com a camisola que o notabilizou.


Nome clássico dos Elifoots daqueles tempos (em que acabava, muitas vezes, a carimbar por si mesmo a subida de um clube da Quarta Divisão), Karoglan passou grande parte da sua carreira na sua Croácia natal, tendo a sua estreia como sénior tido lugar ainda no início da década de 80, pelo Hadjuk Split, onde havia feito a sua formação; sem espaço no 'grande' croata, no entanto, o jovem Karoglan teria uma única presença pelo clube, transferindo-se, logo na época seguinte, para o modesto Iskra Bugojno, onde passaria cinco épocas, com utilização apenas esporádica.


A paragem seguinte seria o também inexpressivo Dínamo Vinkovci, onde se estabeleceria finalmente como parte importante da equipa titular, justificando a transferência, logo no início da década de 90, para o NK Zagreb, onde passaria uma época, participando em quase todos os jogos e contribuindo com um golo. Uma marca escassa para um ponta-de-lança, mas que seria, ainda assim, suficiente para assegurar a Karoglan, então com 26 anos, a primeira (e única) aventura internacional - motivada, em grande parte, pela guerra então vivida na ex-Jugoslávia, conforme o avançado revelou numa entrevista anos depois.


O destino era Portugal, nomeadamente Chaves, onde o croata rapidamente se destacou pela boa química com o parceiro de ataque, o finlandês Kimmo Tarkkio, que lhe valeu a condição de titular quase indiscutível; no total, em duas épocas, o avançado realizou sessenta e duas partidas, contribuindo com dezassete golos, e deixando indicações suficientemente boas para suscitar um suposto interesse do FC Porto (que nunca se chegaria, no entanto, a concretizar) e lhe garantir a transferência para um clube do nível seguinte – no caso, o emblema onde se viria a tornar 'herói', e a terminar a carreira profissional.


Chegado a Braga no início da época 1993/94, Karoglan rapidamente se estabeleceria como pedra basilar da equipa principal, tal como já acontecera em Chaves, tornando-se muito acarinhado pelos adeptos locais ao longo das seis épocas que passou no emblema arsenalista, durante as quais partilhou o balneário com outros 'Grandes dos Pequenos', como Gamboa, bem como com futuros 'famosos' como Quim (o outro grande nome da História do clube) e Elpídio Silva. Partidas, essas, foram mais de duzentas, com cerca de sessenta e cinco golos apontados, tornando o avançado num dos melhores da História dos arsenalistas, e deixando-o com um total de oitenta e dois golos marcados em oito temporadas passadas nos campeonatos nacionais, dos quais apenas dez não foram obtidos em jogos da Primeira Divisão; uma marca que, mais uma vez, pode parecer escassa para um 'ponta-de-lança', mas que foi ainda assim suficiente – em conjunto com os restantes atributos técnicos do futebolista – para render a Karoglan o estatuto de nome lendário da Primeira Divisão nacional, e de 'grande' de um 'pequeno' que nem o era assim tanto, conforme viria a provar em anos subsequentes...



Karoglan em acção.

Saturday, 11 February 2023

Saídas ao Sábado: Os Centros Comerciais de Bairro

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Já aqui por várias vezes fizemos referência aos centros comerciais tradicionais, 'residência' habitual de espaços hoje tão ultrapassados como videoclubes, lojas de discos independentes ou pequenas discotecas; estava, no entanto, ainda a faltar um artigo sobre estes espaços em si – falha que procuraremos, hoje, corrigir dedicando algumas linhas àquilo que passava por uma 'grande superfície' antes do advento dos 'shoppings' e hipermercados.


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O Apolo 70, em Lisboa, um dos mais icónicos estabelecimentos deste tipo


Presentes em quase todas as localidades ou povoações de algum tamanho em Portugal (e, ainda hoje, existentes em algumas delas, embora sob uma forma marcadamente mais 'esquelética' do que naqueles tempos) os centros comerciais tradicionais dividiam-se, grosso modo, em dois tipos: as chamadas galerias, que reuniam num mesmo espaço vários tipos de pequenos retalhistas, e aqueles que serviam, principalmente, de apoio a um supermercado. Ambos os tipos eram bastante comuns, não se podendo dizer que qualquer deles se superiorizasse ao outro, e ambos tendiam a oferecer algumas das 'necessidades básicas' do consumidor de bairro: boutiques, tabacarias, pequenos snack-bars, livrarias ou lojas de impressão, brinquedos ou informática (além dos espaços supramencionados) eram apenas alguns dos tipos de estabelecimento mais comummente encontrados em espaços deste tipo.


A ideia era, portanto, que um consumidor conseguisse encontrar num só edifício tudo aquilo de que necessitava, independentemente da sua natureza – daí o nome 'centro comercial'. Um conceito que, mais tarde, seria 'apropriado' e expandido pelas grandes superfícies, fazendo, ironicamente, com que os inovadores originais parecessem ultrapassados e pitorescos por comparação aos novos mega-espaços.


Ainda assim, a persistência do 'comércio de bairro' em muitas localidades portuguesas permitiu à maioria dos centros comerciais 'clássicos' protelar a sua extinção – ainda que, muitas vezes, a mesma se tenha apenas traduzido num modelo de 'morte lenta' tão deprimente quanto prejudicial às companhias que ocupavam o espaço. Na maioria dos casos, era o fecho do supermercado ou de uma das lojas principais (ou ainda a extinção da sala de cinema, outro apanágio deste tipo de espaços) que ditava o fim da galeria, sendo que muitas arriscavam, ainda, numa tentativa de renovação, invariavelmente (e infelizmente) malograda.


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O estado e aparência actual da maioria dos centros comerciais tradicionais portugueses.


Ainda assim, os habitantes das principais cidades do País (bem como de muitas vilas mais pequenas) terão ainda, potencialmente, contacto diário com este tipo de espaço, quanto mais não seja por lhes passarem à porta a caminho de casa, do emprego ou de qualquer outra actividade; e, nessas alturas, é de crer que a mente lhes 'voe' para outros tempos, em que percorriam com regularidade aqueles mesmos corredores, em busca das lojas favoritas e dos 'tesouros' que as mesmas escondiam.

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...