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Wednesday, 29 July 2026

Quartas aos Quadradinhos: Trinta Anos da Divulgação do Trabalho de Um Precursor

 A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

A vastidão de banda desenhada de qualidade presente no mercado português de finais do século XX e inícios do seguinte poderia levar qualquer jovem da altura a esquecer que, como qualquer movimento artístico, o florescimento dos 'quadradinhos' em Portugal teve, forçosamente, de ter um ponto de partida. Felizmente, em meados da década, várias editoras fizeram sua a missão de celebrar e divulgar estes pioneiros para uma nova geração, através de álbuns como 'O Mosquito – 60 Anos' (de que falámos na última Quarta aos Quadradinhos) e o tomo de que falamos esta semana, que resgata o trabalho do 'pai' da BD nacional, Rafael Bordalo Pinheiro.


Bem conhecido pelo seu trabalho como caricaturista, e como criador do Zé Povinho (o estereótipo do português de classe trabalhadora da época), Bordalo deixou também, no entanto, a sua marca na sociedade portuguesa de finais do século XIX como criador de banda desenhada, publicada em formato de 'tiras' no jornal 'O Comércio do Porto Illustrado' ao longo de mais de uma década, entre 1892 e 1904. Eram essas bandas desenhadas que o álbum publicado em 1996 pela editora Aventura Gráfica, e simplesmente intitulado 'Bandas Desenhadas de Rafael Bordalo Pinheiro', reunía e apresentava, um século depois, às novas gerações.

Embora o trabalho de recolha e divulgação fosse louvável, no entanto, o estilo de banda desenhada praticado na época de Bordalo era (e é) demasiado diferente para poder ser apreciado fora de contexto, podendo parecer estranhamente 'chato' para leitores modernos (ainda que a qualidade artística seja inegável). Talvez por isso não se tenha ouvido falar mais extensamente desta obra da Aventura Gráfica, quer à época da sua publicação, quer nas três décadas subsequentes. Ainda assim, e conforme acima mencionámos, trata-se de um esforço mais que louvável, e que bem merece esta nota por alturas do trigésimo aniversário da sua publicação.

Thursday, 16 July 2026

Quartas Aos Quadradinhos/Quintas no Quiosque: Os 30 Anos da Edição Comemorativa de 60 Anos de um Jornal com 90 Anos

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Quarta-feira, 16 de Julho de 2026.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Apesar de nesta rubrica nos focarmos no 'boom' da banda desenhada em Portugal em finais do século XX, a verdade é que o meio tinha já, à época, uma tradição secular no nosso País, tendo naturalmente 'descendido' das populares caricaturas de jornal ainda nos tempos da monarquia. A primeira grande 'expansão', no entanto, deu-se já no primeiro quarto do século passado, quando as 'histórias aos quadradinhos' verdadeiramente se popularizaram entre a juventude, dando azo a toda uma série de publicações especializadas, não só em Portugal como um pouco por todo o Mundo. E, de entre os periódicos nacionais deste campo, um deles ganhou destaque suficiente para motivar a publicação de um álbum comemorativo dos sessenta anos sobre o seu aparecimento: 'O Mosquito', jornal que – entre outros – acolheu trabalhos de Eduardo Teixeira Coelho (nome sinónimo com a publicação) e JoséRuy, que começou como leitor (com apenas cinco anos) e terminou como colaborador, naquele que talvez seja o melhor atestado à longevidade da revista.

Editado por Carlos Costa e publicado algures em 1996 pelas Edições Época de Ouro, responsáveis por uma série de outros álbuns no mesmo período, 'O Mosquito – 60º Aniversário' é precisamente aquilo que se poderia esperar de uma edição deste tipo – uma compilação de algumas das melhores BD's publicadas durante o tempo de vida do jornal, em luxuosa edição de 'capa dura', capaz de satisfazer não só os saudosos leitores do periódico durante o seu tempo de vida como também de captar o interesse da então nova geração, a fim de lhe apresentar heróis e autores de banda desenhada clássicos mas que lhe eram, até então, desconhecidos. Não admira, pois, que se trate hoje de uma edição rara, vendida por valores exorbitantes por alfarrabistas – e, como tal, bem merecedora de destaque nestas nossas páginas, no ano em que completa trinta anos de existência, e em que o periódico que a inspirou completaria noventa...

Thursday, 2 July 2026

Quartas Aos Quadradinhos: Trinta e Cinco Anos de Um Híbrido Curioso

 NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 01 de Julho de 2026.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Numa altura em que se disputa ainda um dos Mundiais de Futebol menos convencionais de sempre, nada melhor do que recordar uma edição subordinada ao desporto-rei, que celebra este ano um aniversário marcante (o dos trinta e cinco anos) e cujo conceito e formato a tornam 'exemplar único' entre os volumes de banda desenhada editados em Portugal: 'Manual do Futebol Moderno', uma obra originalmente assinada por dois italianos e que era lançada em solo nacional algures em 1991, pela mão da desconhecida Sport Publi. E a verdade é que basta ver um par de painéis desta obra para perceber que não se trata de um álbum de banda desenhada convencional, apostando, em vez disso, num formato híbrido entre 'livro aos quadradinhos' e verdadeiro manual instrutivo de como jogar futebol.



De facto, as duzentas e vinte páginas deste álbum apresentam, essencialmente, uma 'revisão' dos fundamentos do futebol, com ênfase nos aspectos técnicos (como postura para o remate ou posição dos dedos ao defender) servindo os desenhos como apoio visual ao que é dito no texto; no entanto, a presença de balões de fala (nos quais está inserido o referido texto) qualifica o álbum de Bruno Pizzul e Giuliano Giovetti como uma banda desenhada, e é nessa categoria que surge na maioria das (poucas) listagens disponíveis na Internet moderna. E apesar de ser duvidoso que este álbum tenha ensinado seja quem fôr a tornar-se melhor futebolista (pelo menos por si só, já que a base do futebol, como de qualquer desporto, é a prática) o mesmo não deixa de ser uma curiosidade interessante no panorama dos 'quadradinhos' nacionais de finais do século XX, cuja relevância temática o torna tema perfeito para estas breves linhas em tempo de Mundial.

Wednesday, 17 June 2026

Quartas Aos Quadradinhos: Trinta Anos de Um 'Fenómeno' Artístico no Entroncamento

 A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de, a nível nacional, ter pouca expressividade, a banda desenhada portuguesa gozava de diversos 'núcleos', em diferentes zonas do País, onde a criatividade fluía, e a concentração de artistas e argumentistas de BD emergentes era acima da média e fora do comum para a realidade nacional. Um desses núcleos, centrado numa localidade algo insólita, lograva mesmo, há exactos trinta anos, lançar uma compilação dos maiores talentos da sua área.

Publicado e divulgado pelo Notícias do Entroncamento - principal jornal da vila ribatejana com o mesmo nome – e com o inspirado e 'bem apanhado' nome de 'Entroncamentos de BD', o álbum em causa, publicado em finais de Junho de 1996, agregava as contribuições dos seus diferentes colaboradores em torno de um tema central – os famosos 'fenónmenos do Entroncamento', o conjunto de lendas urbanas relativas a frutas, legumes e animais de dimensões, coloração ou comportamento insólitos que, desde os anos 50, dominam o folclore da região. A edição lograva, assim, manter próximas de 'casa' as raízes de um projecto cuja ambição derradeira era divulgar o 'viveiro' de talentos 'bedéfilos' que então despontava na região.

E ainda que o álbum em causa nunca lograsse o nível de visibilidade desejado – ficando-se pelo âmbito local, e encontrando-se hoje algo 'Esquecido Pela Net' – há, ainda assim, que louvar a ambição e determinação dos organizadores do projecto, M. A. L. S. (editor de banda desenhada do Notícias) e Geraldo Lino, que bem merecem que o seu esforço seja recordado e relembrado, exactos trinta anos após a edição daquele que é, ainda hoje, o principal tomo agregador da produção de banda desenhada na região.

Wednesday, 3 June 2026

Quartas Aos Quadradinhos/Quintas No Quiosque: 'Maria Jornalista', Um Conceito Tão Audaz Quanto Esquecido

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Quinta-Feira, 04 de Junho de 2026.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A existência de páginas de banda desenhada em jornais, ou nas respectivas revistas, não era, de todo, caso inédito na imprensa portuguesa dos anos 90, embora, na grande maioria destes casos, o material se resumisse a 'tirinhas' importadas da América do Norte - salvo, claro, algumas excepções, várias das quais já aqui abordadas. O que a Notícias Magazine fazia em 1994, no entanto, não tinha precedentes na História da banda desenhada em órgãos de imprensa escrita, e não deixa de ser surpreendente que, hoje em dia, a iniciativa se encontre algo esquecida, tanto pela Net como pelos próprios 'X' e 'millennials' nacionais.



As contribuições de Fernando Bento e José Ruy (crédito das fotos: Outras Leituras do Pedro)

Talvez esse reduzido impacto se deva ao curto espaço de tempo em que as aventuras de 'Maria Jornalista' surgiram nas páginas da revista de fim-de-semana do Diário e Jornal de Notícias – no total, a personagem teve direito a apenas uma dezena de pranchas, cada uma com duas páginas e desenhada por um autor diferente. No entanto, ao longo daquilo que, no fundo, era uma mini-série, o potencial do conceito era explorado ao máximo, com a rotação de criadores a permitir uma grande variedade de estilos e atmosferas, que iam da comédia à acção e aventura, e o apoio da Notícias Magazine a tornar possível a inserção, em cada história, de personagens e acontecimentos reais e relevantes à época de publicação. Uma empreitada verdadeiramente original e pioneira, portanto, que merecia ser melhor lembrada, mas que, surpreendentemente, nunca foi compilada em qualquer tipo de formato comercial – isto apesar de a própria Notícias ser, já à época, uma das principais casas editorias portuguesas!

Sem o apoio de um álbum, no entanto, era inevitável que 'Maria Jornalista' adquirisse, praticamente, contornos de 'audiovisual perdido', sendo as pranchas que ilustram esta edição o único vestígio existente na Web de que esta série efectivamente existiu – isto apesar da panóplia de nomes sonantes da BD portuguesa que davam vida às pranchas, entre os quais se incluíam Luís Louro, Luís Diferr, Baptista Mendes ou José Ruy. Cabe, pois, ao Anos 90 contribuir para a expansão do material digital sobre a mini-série da Notícias Magazine, para que a mesma não seja totalmente esquecida, e possa ser divulgada junto das novas gerações de 'bedéfilos' nacionais.

Wednesday, 13 May 2026

Quartas Aos Quadradinhos: O 'Mercado Alternativo' da BD Portuguesa Noventista

 A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Ao longo desta rubrica, temos vindo a falar de publicações oficiais que, de uma forma ou de outra e com maior ou menor impacto, ajudaram a fomentar a 'cena' portuguesa de banda desenhada no seu período áureo dos anos 80 e 90; no entanto, existia, durante o mesmo período, toda uma outra categoria de revistas tão ou mais seminais para o crescimento da BD portuguesa, mas que se movimentavam em meandros mais obscuros, sendo, via de regra, lançadas por amadores sem qualquer tipo de estrutura editorial e, como tal, com ciclos de vida normalmente curtos.



Capa da 'Mesinha de Cabeceira', uma das muitas fanzines da época em causa.

Falamos, claro está, das 'fanzines', tipo de publicação partilhado com o mundo da música, mas que, no caso da BD, funcionava de forma ligeiramente diferente e, discutivelmente, mais eficaz. Isto porque, enquanto que as 'fanzines' de música divulgavam indirectamente as bandas e artistas incluídos nas suas páginas – através de críticas ou entrevistas – revistas como a Boom!!!, Banda Desejada, Shock, Mesinha de Cabeceira e outras do mesmo género permitiam aos artistas 'apresentar-se' em primeira pessoa directamente ao público-alvo, através de páginas e histórias de sua autoria, eliminando assim o intermediário necessário no caso das fanzines musicais, ou dedicadas a outro tipo de criação artística ou cultural. E a verdade é que este método se afirmava mais do que benéfico para os artistas envolvidos (alguns, inclusivamente, internacionais) tendo o circuito de 'fanzines' de BD ajudado a lançar nomes tão sonantes da BD lusitana como José Carlos Fernandes, hoje o mais aclamado autor nacional de sempre.

Apesar das suas limitações, portanto, é fácil perceber o quão importante foi o papel das 'fanzines' de BD não só na divulgação de novos artistas do meio como também no colmatar de uma lacuna no então vibrante mercado nacional de periódicos; como tal, é também com naturalidade que esta categoria de publicação faz por merecer uma menção na rubrica dedicada aos 'quadradinhos' nacionais da época em que floresceram nos meandros limítrofes e marginais da criação artística portuguesa.

Wednesday, 29 April 2026

Quartas aos Quadradinhos: A Edição Portuguesa De Um 'Flop' Universal

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de relativamente próxima de dois grandes mercados exportadores de banda desenhada – o franco-belga e o espanhol – a Itália é mais conhecida entre os bedéfilos como o 'berço' da maioria das histórias da 'era moderna' das revistas Disney, sendo poucos os produtos verdadeiramente endémicos e locais a lograr extravasar os confins da 'bota do Atlântico'; Milo Manara é uma excepção óbvia, tal como o herói de 'western spaghetti' desenhados, Tex, mas após este início prometedor, a influência da Itália no mercado dos 'quadradinhos' esvai-se consideravelmente. Ainda assim, não é decerto à falta de tentativas que se deve este paradigma, já que o país em causa procura, periodicamente, lançar mais uma das suas séries 'clássicas' no mercado internacional, com resultados, invariavelmente, intermitentes; é de uma dessas tentativas que falamos neste 'post'. 

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As capas dos únicos álbuns planeados para edição em Portugal, dos quais o quinto nunca chegou a ver a luz do dia.

Criada ainda em finais dos anos 60 e imediatamente popular no seu país de origem, foi com naturalidade que a série 'Alan Ford', da autoria de Luciano Secchi e Rodrigo Raviola (que, como é apanágio dos artistas italianos, adoptavam pseudónimos 'anglicizados', respectivamente Max Bunker e Magnus) rapidamente se expandiu a alguns dos mercados adjacentes, incluindo o português; no entanto, a lentidão do processo de exportação que caracterizava o período em causa faria com que as aventuras do titular espião demorassem quase um quarto de século (!) a chegar a Portugal, onde apenas viriam a ser editadas em inícios de 1993, pela modesta Editorial Palmeira. E a verdade é que – talvez por causa desta demora, ou talvez por qualquer outro motivo – a série viria a falhar no mercado luso como falhara em todos os restantes, com excepção do jugoslavo, onde atingiu um nível de popularidade igual ou maior do que aquele de que gozava em Itália.

As margens do Mediterrâneo e do Atlântico eram, no entanto, bastante mais inclementes para 'Alan Ford' que as do Mar Báltico, sendo que a tentativa portuguesa de publicar a série se ficou pelos quatro volumes, com um quinto a não passar da fase de planeamento. Assim, os (poucos) leitores portugueses que tomariam contacto com a série apenas poderiam desfrutar das aventuras 'O Naufrágio do Daisy Lou', 'Terrorismo', 'O Menino Prodígio' e 'O Código Graffitt', uma minúscula amostra de uma banda desenhada que ainda hoje continua a ser editada em Itália, mais de sessenta e cinco anos após a sua criação - como termo de referência, seria como se em Portugal apenas tivessem sido editados os primeiros quatro álbuns de Astérix!

Os motivos para este total falhanço de Alan Ford em mercados estrangeiros (também durou pouco por terras francesas, brasileiras, dinamarquesas e sérvias, por exemplo) não são totalmente claros, já que a premissa da série é relativamente universal, e normalmente apreciada (uma sátira ao género da espionagem, semelhante ao que Mike Myers fez em 'Austin Powers', embora menos abertamente paródica); seja qual for a razão, no entanto, a verdade é que também em Portugal esta colecção não logrou singrar, sendo o único vestígio da sua existência uma ficha no essencial 'site' Bazar0. Jóia a descobrir ou mediocridade digna de esquecimento? Cabe a cada leitor decidir...

Thursday, 26 March 2026

Quartas aos Quadradinhos: A Carreira de Luís Diferr, Nome 'de Culto' da BD Nacional

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 25 de Março de 2026.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Como deverá ter ficado bem patente no 'post' sobre as aventuras de Jim Del Monaco, a BD franco-belga dos anos 50 a 80 era fonte de inspiração para a maioria dos ilustradores e criadores de BD nacionais. No entanto, apesar de fortemente influenciados pelo estilo, poucos há que possam, efectivamente, reclamar um papel colaborativo com uma das suas inspirações; uma dessas (poucas) excepções é Luís Diferr, o recém-malogrado desenhista que, durante a última década do século XX, chegou a colaborar com o editor dos álbuns póstumos do popular herói franco-belga Alix, para além de ter lançado duas séries (num total de quatro álbuns) em nome próprio, e tido direito a extensa exposição no icónico Festival de Banda Desenhada da Amadora, em 1992.


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Nascido em Angola em 1956, Diferr licenciou-se em Arquitectura, tendo chegado a exercer funções como professor de Geometria Descritiva, mas era na BD que residia a sua verdadeira paixão, a qual se ia traduzindo numa enorme diversidade de ilustrações, 'tirinhas' e pranchas 'espalhadas' por um sem-número de fanzines e outras publicações de finais dos anos 80 e inícios de 90. Seria, no entanto, apenas em Março de 1991 (há exactos trinta anos) que o sonho se tornaria realidade, com a edição do primeiro volume completo da autoria de Diferr, no caso a primeira de duas aventuras do cosmopolita Herb Krox, 'O Homem de Neanderthal', cuja continuação, 'Os Deuses de Altair - I', sairia apenas sete anos depois, já depois do lançamento de 'O Lago Iluminado', primeira e única aventura de Drakar, o Minossauro, criada em parceria com o argumentista José Abrantes.


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As duas aventuras de Herb Krox, editadas em extremos opostos dos anos 90.


Após este ponto, a carreira de Diferr entraria em ciclo descendente, não obstante o aparecimento, em 2002, de dois novos personagens, no contexto de um volume de homenagem a Vasco Granja, e o lançamento do mais importante projecto do autor, um volume sobre Portugal inserido na colecção 'As Viagens de Lois', idealizada por Jacques Martin (criador de Alix) nos anos anteriores ao seu falecimento, em 2011. O próprio Diferr viria a deixar-nos em 2025, sem nunca ter atingido grande notoriedade no contexto da BD nacional ou internacional, mas tendo almejado um merecido estatuto de culto, conseguido também, em parte, pela sua actividade enquanto 'blogger', que manteria até 2016; já a este 'blog' (que não é seu) interessa, sobretudo, assinalar os trinta e cinco anos da publicação do álbum que daria início a esse percurso, e o colocaria pela primeira vez no 'radar' dos bedéfilos portugueses, e que serve como 'desculpa' para a breve retrospectiva de carreira levada a cabo nestas linhas.

Wednesday, 26 November 2025

Quartas aos Quadradinhos: Quando José Ruy 'Encontrou' Rudyard Kipling

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui em ocasiões anteriores falámos da obra de José Ruy, talvez o mais solicitado ilustrador português das décadas de 80 e 90, sendo invariavelmente o escolhido para dar vida aos personagens de álbuns de banda desenhada ligados à História de Portugal, biografias, relatos de época ou representações visuais de contos e lendas tradicionais, nos quais a sua bibliografia é fértil. Em 1986, no entanto, Ruy embarcaria num projecto diferente do seu habitual – a passagem de várias das histórias dos dois 'Livros da Selva', de Rudyard Kipling, para um formato de banda desenhada. O resultado foi 'Como Apareceu o Medo', editado quatro anos depois (em Abril de 1990) pela Editorial Notícias, e sobre o qual nos debruçamos esta Quarta-feira.


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Com trinta e duas páginas originalmente contidas num volume de capa mole (mais tarde, seria reeditado com capa dura) 'Como Apareceu o Medo' é exactamente aquilo que a capa apregoa – uma colectânea de várias das muitas histórias de animais escritas por Kipling, com o 'famoso' conto-título à cabeça, com desenhos e ilustrações da autoria de José Ruy a acompanhar a prosa original do autor indo-britânico, que recebe um crédito como co-autor. Infelizmente, embora a capa e os detalhes da publicação sejam fáceis de encontrar com um bom motor de pesquisa, das páginas interiores não restam quaisquer vestígios digitalizados, tornando impossível mostrar o estilo gráfico do livro, para lá da visualmente impactante capa; é de crer, no entanto, que os desenhos seguissem o estilo habitual de Ruy, que fica desde logo bem patente na magnífica ilustração de Shere Khan, o famoso tigre assassino d''O Livro da Selva', que domina o referido frontispício.


Em suma, e apesar de se tratar de uma proposta arriscada (tanto pelo número de admiradores do texto original como por ser difícil interessar crianças em textos clássicos) a adaptação em BD de 'Como Apareceu o Medo' parece ter tido algum grau de sucesso, senão em termos de vendas, pelo menos de execução. Pena é, portanto, que seja impossível encontrar exemplos da arte deste livro na Internet actual – embora os interessados tenham bom remédio, já que o livro ainda hoje continua a ser reeditado, e se encontra disponível nas boas livrarias, pronto a dar azo a mais uma geração de fãs do 'imortal' José Ruy...

Friday, 14 November 2025

Quartas aos Quadradinhos: Vinte e Cinco Anos de Bandas Desenhadas de 'Guerra das Estrelas' em Portugal

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 12 de Novembro de 2025.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


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Os três primeiros volumes publicados pela Planeta DeAgostini, no ano 2000.


À entrada para o Terceiro Milénio, a 'marca' 'Guerra das Estrelas' encontrava-se revitalizada, graças à estreia, no ano anterior, do primeiro filme original da série em mais de uma década e meia. De facto, apesar de 'Episódio I – A Ameaça Fantasma' ter dividido opiniões, a nova aventura da Ordem dos Jedi serviu, ainda assim, para apresentar 'Star Wars' a toda uma nova geração, e serviu como 'desculpa perfeita' para relançar a trilogia original de filmes em VHS e DVD, bem como para a criação de toda uma nova linha de 'merchandising', brindes e promoções alusiva à 'ópera espacial' de George Lucas, destinada não só ao comércio puro e duro, como também à expansão do 'universo alargado' da saga, um dos mais tradicionais aspectos ligados à mitologia da mesma.


Assim, foi sem surpresa que os mercados internacionais – incluindo o português – viram surgir um sem-número de novos produtos com a licença 'Guerra das Estrelas', e tão-pouco foi de espantar que, entre eles, se contasse uma grande variedade de livros e álbuns de banda desenhada. E se os romances, muito apreciados nos Estados Unidos, nunca chegariam a ser traduzidos (ao contrário do que se passara com outra grande propriedade intelectual de Lucas) as diversas histórias de banda desenhada da saga começariam a ser publicadas na Península Ibérica logo a partir desse ano de 2000, não pela então ainda ubíqua 'rainha dos quadradinhos' Abril-Controljornal (que publicara a primeira BD da franquia a surgir em Portugal, três anos antes), mas pela editora conhecida, sobretudo, pelas suas colecções em fascículos – a Planeta DeAgostini.


De facto, era a companhia espanhola quem se encarregava de colocar nas bancas ibéricas as 'novelas gráficas' do universo alargado de 'Star Wars', tendo, logo nesse ano, editado duas 'duplas' de livros, relativos às histórias 'O Fim do Infinito e 'Conselho Jedi', e uma aventura em volume único, 'Qui-Gon e Obi-Wan', todas as quais surgiam num formato que, então, apenas principiava a surgir em Portugal - em tamanho A4 e com capa plastificada e lombada, algures entre o 'livro aos quadradinhos' normal e os mais luxuosos álbuns a que tinha direito, por exemplo, a BD franco-belga. Esta dicotomia entre a edição 'popular' e algo mais sofisticado estendia-se, aliás, também ao interior, onde o papel e trabalho de impressão de grande qualidade eram algo 'prejudicados' por traduções ainda mais dúbias que as da Abril, por vezes quase como que adaptações directas do diálogo em Espanhol, com direito à pontuação característica daquela língua em certos balões!


Este aspecto menos cuidado contribuía, infelizmente, para prejudicar a qualidade global do produto, diminuindo o impacto daquelas que eram excelentes histórias de banda desenhada, sobretudo a nível do grafismo, e capazes de interessar e cativar não só os fãs existentes da saga, como também aqueles que começavam a dar os primeiros passos na descoberta da mesma. Nada, no entanto, que fizesse a Agostini mudar a sua estratégia, já que todos os álbuns subsequentemente publicados (e foram muitos!) apresentariam esse mesmo problema de tradução, ainda que o mesmo se tenha atenuado ao longo dos anos. Ainda assim, e apesar desse claro defeito, qualquer destas histórias de 'Star Wars' lançadas pela editora espanhola vale bem a descoberta, sobretudo no ano em que se completa um quarto de século desde o seu lançamento no mercado nacional. Fica a dica, tanto para os fãs de 'Star Wars' em específico, como de boa BD em geral.

Wednesday, 29 October 2025

Quartas aos Quadradinhos: Os 'Primórdios' dos 'Comics' e 'Manga' Importados em Portugal

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


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Hoje em dia, o acto de comprar banda desenhada importada encontra-se, como tantos outros, trivializado, bastando encomendar os volumes desejados pela Internet, numa loja especializada ou até mesmo numa boa livraria – isto, claro está, para quem não queira partir 'à aventura' no quiosque de alfarrabista mais próximo. Tal facilidade e conforto pode, no entanto, fazer esquecer que, há um mero quarto de século, quem quisesse ler 'comics' americanos (ou, horror dos horrores, 'manga') estava à mercê do que conseguisse encontrar no quiosque ou tabacaria local, ou, quando muito, de uma tradução em francês, espanhol ou brasileiro de um qualquer volume japonês, tipicamente a preços exorbitantes.


De facto, apesar de álbuns de BD franco-belga serem relativamente fácil de adquirir em Portugal nas suas versões originais desde pelo menos os anos 70, para as bandas desenhadas americanas e japonesas de carácter serializado, esse processo apenas se deu já nos anos de viragem do Milénio, com a abertura das primeiras lojas especializadas e dedicadas à venda de BD em Portugal. Antes disso, era necessário possuir nas redondezas uma tabacaria com excelentes contactos entre os importadores, e mesmo essa apenas possuiria uma mão-cheia de titulos da Marvel, DC ou, com alguma sorte, da Image ou Archie Comics.


Os bedéfilos lusitanos que devoravam mensalmente a 'Wizard' brasileira (ou a 'sucedânea' nacional 'Heróis') ficavam, assim, em larga medida restritos à sua imaginação no que tocava aos potenciais conteúdos dos volumes ali abordados - até porque mesmo os poucos números que logravam transpôr o oceano o faziam a preços acima da média para a 'carteira' de um jovem português médio. Um paradigma que, partindo de algo específico e quase insignificante, serve como reflexo da enorme progressão vivida pela sociedade portuguesa no primeiro quarto do século XXI, não apenas a nível de periódicos ou lojas especializadas, mas da própria abertura ao restante Mundo ocidental e respectiva cultura – a qual, por vezes, pode ser transmitida por meio de algo tão singelo como um simples 'livro aos quadradinhos'.

Saturday, 20 September 2025

Sessão de Sexta: Trinta e Cinco Anos de 'Dick Tracy', O 'Blockbuster' Esquecido de Inícios dos 90

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 18 de Setembro de 2025.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Qualquer membro da geração 'millennial' tem bem presente que os filmes baseados em bandas desenhadas apenas começaram a ser sucessos garantidos a partir do dealbar do Novo Milénio, quando os 'X-Men' de Bryan Singer revolucionaram o paradigma em termos de qualidade, e 'abriram a porta' àquele que, hoje em dia, talvez seja o género cinematográfico mais lucrativo e bem-sucedido. Para que se chegasse a esse ponto, no entanto, foi necessário passar por consideráveis 'dores de crescimento', sendo que, durante décadas, os fãs de 'comics' americanos nunca podiam saber o que esperar de cada nova adaptação cinematográfica, já que para cada mega-sucesso como o 'Batman' de Tim Burton havia outros quatro filmes que passavam despercebidamente para o mercado do vídeo, incapazes de concorrer com as mega-produções Hollywoodescas. O filme sobre o qual nos debruçamos nesta Sessão de Sexta (poucos dias após se terem completado trinta e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, a 14 de Setembro de 1990) fica a meio-caminho entre estas duas vertentes, tendo logrado ser um sucesso à época do seu lançamento, mas tendo caído no esquecimento quase generalizado nas três décadas e meia subsequentes.


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Falamos de 'Dick Tracy', adaptação da banda desenhada do mesmo nome, presença assídua nas páginas de BD dos jornais americanos, e que narra as desventuras do detective homónimo, reconhecível pela icónica gabardine amarela, na sua luta contra os mafiosos que regem a típica cidade dos anos 30 ou 40 onde vive. Um conceito mais na linha dos velhos livros de ficção barata do que propriamente dos super-heróis da Marvel e DC, mas que, ainda assim, apresenta semelhanças com séries como 'Batman', 'Sin City' ou 'Spirit', cujos filmes empregariam elementos estéticos a fazer lembrar os do filme em causa - o qual, no entanto, ficaria bastante aquém de qualquer deles em termos de impacto duradouro no Mundo cinematográfico.


Para os jovens cinéfilos daquele ano de 1990, no entanto, o filme trazia bastantes atractivos, da gama de cores da roupa dos personagens (a remeter intencionalmente aos tons vivos do Technicolor) até à presença de Madonna, então em alta, como interesse romântico do Tracy vivido pelo também realizador Warren Beatty, a participação de nomes como Al Pacino, Dustin Hoffman, James Caan ou Dick Van Dyke, ou mesmo apenas o apelo estético do icónico logotipo do personagem, que gerou alguma procura a nível de 'merchandise' alusivo ao filme imediatamente após a sua estreia.


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O elenco recheado de estrelas do filme.


Infelizmente, ao contrário de outros exemplos de que já aqui falámos, e apesar da 'parada de estrelas' que constituía o seu elenco a adaptação em 'carne e osso' de 'Dick Tracy' não logrou suster esse nível de interesse a longo-prazo, tendo-se rapidamente tornado 'apenas' mais um filme, mesmo enquanto a BD original continuasse de 'pedra e cal' nas páginas dos jornais. Ainda assim, numa altura em que se assinala um 'aniversário' marcante para o filme de Beatty, é justo homenageá-lo com estas singelas linhas, as quais (quem sabe?) talvez motivem quem ainda não conhece o filme – ou mesmo quem já o tenha visto – a procurar forma de o (re)ver nos tempos modernos...

Saturday, 6 September 2025

Quartas aos Quadradinhos: 'Zero Hora - Crise No Tempo' - Correcção Pela Destruição

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 3 de Setembro de 2015.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Na última edição desta rubrica, falámos de um dos grandes eventos da banda desenhada dos anos 90, e que viria a ter repercussões em toda a linha editorial do seu respectivo título tanto no imediato como a médio prazo; nada mais justo, portanto, do que falarmos agora de outro, com ligação directa ao mesmo – e, curiosamente, criado pela mesma editora, a qual, à época, procurava a todo o custo 'limpar' e simplificar a cronologia dos seus títulos.


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Os cinco números da mini-série. (Crédito da foto: OLX)


Falamos de 'Zero Hora – Crise No Tempo', mini-série em cinco edições cujo principal intuito era 'consertar' a cronologia do universo principal da DC, tornada bastante confusa pela não menos notável saga 'Crise Nas Infinitas Terras' ('Crisis On Infinite Earths'), publicada na década de 80. A solução encontrada para resolver os problemas criados pela introdução de um multiverso foi um evento de extinção em massa, engendrado pelo vilão Parallax (que anteriormente defendia o bem como parte dos Lanternas Verdes) após a sua cidade ter sido destruída pela luta entre Super-Homem e Apocalipse horas antes do sacrifício do primeiro para travar o monstro, relatada no especial 'A Morte do Super-Homem'. Como forma de eliminar os diversos multiversos e respectivos heróis, o ser em tempos conhecido como Hal Jordan cria uma entropia, dando origem a uma compressão temporal que envia heróis de universos alternativos para outras linhas temporais, criando uma situação caótica que cabe a um grupo restrito de heróis resolver.


Publicada em ordem descendente (ou inversa), começando no número 4 e acabando no 0, a série levou, também, a uma renumeração e recomeço das séries da maioria dos heróis envolvidos – pelo menos nos seus EUA natais, já que em Portugal, esse 'reinício' tinha sido feito aquando do final da saga da morte e renascer do Super-Homem, pouco tempo antes. Infelizmente, apesar desta oportunidade, a 'Crise No Tempo' acabou por criar ainda mais problemas, os quais só viriam a ser resolvidos literais décadas após a publicação da série, tanto nos EUA como em Portugal, onde chegou em 1996, ao mesmo tempo do que ao Brasil, e pela mão da mesma editora, a inevitável Abril.


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Exemplo dos desenhos da série. (Crédito da foto: OLX)


Caso raro para os lançamentos da referida editora, no entanto, 'Zero Hora' chegava às bancas lusas em formato americano, ou seja, A5, e com menos páginas do que uma revista normal. O 'luxo' continuava no interior, em papel ensebado e brilhante, que fazia ressaltar os excelentes desenhos, em claro contraste com o habitual 'papel higiénico de jornal' característico dos títulos 'normais' (e até, por vezes, especiais) da Abril. O resultado era uma edição apelativa e 'vistosa', que não deixou de atrair a atenção dos jovens fãs de super-heróis da época, o que terá ajudado a garantir volumes de vendas diferenciados, e apelado ao instinto 'coleccionista' dos mesmos. De facto, é bem possível que a série marque, ainda hoje, presença na colecção de alguns 'bedéfilos' nacionais, o que ainda cimenta mais o seu direito à presença nestas nossas páginas, quase três décadas após a sua publicação em Portugal.

Wednesday, 18 June 2025

Terças Tecnológicas / Quartas aos Quadradinhos: Os Primórdios dos 'Webcomics' - O Início de Algo Maior

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Terça-feira, 17 de Junho de 2025.


A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


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O lendário 'Penny Arcade', ainda hoje actualizado.


Hoje em dia, a criação artística com recurso a meios digitais é comum e normalizada ao ponto de quase ser expectável, em grande parte devido aos avanços tecnológicos e subsequente aumento na variedade e acessibilidade dos produtos e materiais necessários. Em finais do século XX, no entanto, a situação era diametralmente oposta, com os equipamentos disponíveis a serem tão caros quanto rudimentares e, como tal, utilizados sobretudo por aqueles que não tinham qualquer outra forma de atingir o seu objectivo, eram 'tecnocráticos' o suficiente para saber o que fazer com eles, ou reuniam ambas as condições.


Não foi, pois, sem uma certa admiração e surpresa – misturada com prazer – que os fãs de banda desenhada com acesso à Internet em finais dos anos 90 se depararam com todo um novo leque de opções de leitura em formato digital, antes acessível apenas a quem se movimentasse em meios informáticos, fizesse parte dos velhos 'fóruns', ou soubesse utilisar serviços como a Usenet. Por comparação, estas novas criações (no bom e velho formato HTML) apenas requeriam conhecimento do endereço em que se encontravam para poderem ser apreciadas, garantindo assim, desde logo, um público muito maior e mais global - ainda que a língua inglesa exclusivamente utilizada nestas obras continuasse a constituir um entrave e a restringir a verdadeira globalização.


Quem percebia inglês a um nível satisfatório, no entanto – e tinha um sentido de humor voltado para o sarcasmo e para o humor referencial, base de muitos destes chamados 'webcomics' – não podia deixar de se deliciar com criações como 'Aaron A. Ardvark', 'Captain Jim' ou o lendário 'Penny Arcade' (precursor da tematização em torno dos videojogos, hoje tão popular) e com paródias como 'Dysfunctional Family Circus' e 'Neglected Mario Characters', entre outros. E se algumas destas obras podem, à luz dos dias de hoje, parecer algo primitivas, rudimentares e até imaturas, outras há que logram subsistir ao longo das décadas e manter-se relevantes, quais 'South Park' da banda desenhada digital, como é o caso do referido 'Penny Arcade'. Quem presenciou o início do meio, no entanto, sabe que a produção e oferta de hoje pouco tem da magia inovadora e verdadeiramente entusiasmante daquelas primeiras criações, a cujo impacto e influência vários criadores modernos devem uma carreira, e que, por isso, bem merece ver-lhe dedicado mais um 'post' duplo neste nosso 'blog' nostálgico.

Wednesday, 4 June 2025

Quartas aos Quadradinhos: A Re-Edição Noventista dos Álbuns de 'Petzi'

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


No que toca à cultura, Portugal é, tradicionalmente, um país mais importador do que produtor. Apesar de o talento português nas artes escritas e visuais nada deixar a desejar ao de outros países, a falta de recursos e meios condena, muitas vezes, os criadores lusitanos a uma carreira discreta, 'à sombra' de criações estrangeiras. A banda desenhada não é, de todo, excepção a essa regra, não querendo isso dizer, no entanto, que o nosso País não importe produtos culturais de qualidade, bastando lembrar o influxo de revistas aos quadradinhos brasileiras e norte-americanas ou de álbuns franco-belgas que se continua, em maior ou menor grau, a fazer sentir até hoje. E ainda que a Dinamarca esteja neste campo, como noutros, a um nível muito semelhante ao Português, a verdade é que essa nação escandinava logrou 'enviar' para Portugal, em finais do século XX, pelo menos um exemplo do melhor que tinha para oferecer em termos de 'quadradinhos', o qual chegou a 'marcar época' e a ter algum impacto e expressão entre as gerações 'X' e 'millennial' portuguesas, ainda que longe dos níveis atingidos pelos 'gibis' da Disney ou Turma da Mônica ou por clássicos como Tintim ou Astérix.


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Capa do primeiro volume da segunda colecção.


Falamos de 'Petzi', série criada pelo casal Hansen (Carla, responsável pelos argumentos e Vilhelm, que se encarregava dos desenhos) e cujo sucesso em Portugal fomentou a edição das aventuras do ursinho marinheiro (originalmente chamado Rasmus Klump) não apenas uma, mas duas vezes, a primeira ao longo de quase uma década (de 1978 a 1987), com os livros a saírem paulatinamente, um de cada vez, e a segunda de forma mais 'condensada', ao longo do ano de 1992. É a esta última que dedicaremos as próximas linhas.


Composta por vinte das trinta e seis aventuras de Petzi e seus amigos – outras criaturas marinhas semi-antropomórficas, além de um papagaio que lhes serve de mascote – esta segunda re-edição da Difusão Verbo tinha como diferencial, desde logo, o formato. Isto porque as histórias de Carla e Vilhelm Hansen surgiam, agora, em álbuns A4, por oposição ao A5 da série original dos anos 80, e com capas de fundo predominantemente branco, em substituição dos tons de azul das primeiras edições. Os conteúdos, esses, mantinham-se inalterados, ou não fosse a mesma editora responsável pelas duas colecções.


E já que falamos dos conteúdos, há que abordar, desde logo, o 'elefante na sala' – nomeadamente, o facto de 'Petzi' recorrer exclusivamente a legendas como complemento aos seus painéis desenhados, não existindo nos álbuns do casal Hansen qualquer balão de fala, o que faz com que as aventuras dos animais marinheiros acabem por ocupar um espaço tecnicamente híbrido, embora sejam ainda claramente reconhecíveis como obras de banda desenhada. Qualquer que seja o formato em que se pretenda inseri-las, no entanto, é inegável a qualidade e atractividade das criações dos dois artistas dinamarqueses, perfeitas para a faixa etária a que apontam (crianças já com alguma literacia, mas ainda em idade de instrução primária) e que provam ser possível criar personagens e enredos apelativos sem recorrer às habituais 'muletas' da violência ou dos super-poderes. A tripulação do barco 'Mary' (construído pela mesma no primeiro volume da série) é constituída, de uma ponta a outra, por personalidades vincadas e memoráveis, e o cenário marítimo presta-se a aventuras excitantes, sem que seja necessário enveredar por caminhos de acção pura e dura.


Não admira, pois, que 'Petzi' tenha feito, na sua época, sucesso entre as crianças um pouco por todo o Mundo, com Portugal e a vizinha Espanha a não serem, de todo, excepção. E ainda que, nas décadas subsequentes, a presença do urso de gorro azul e calças às bolinhas se tenha esbatido fora da sua Dinamarca natal, a marca cultural que deixou nas gerações de crianças portuguesas dos anos 80 e 90 foi, ainda assim, suficiente para mais do que justificar esta pequena homenagem, sob pretexto de recordar a re-edição noventista das suas aventuras.

Thursday, 10 April 2025

Quartas aos Quadradinhos: A Revista 'Crash', Uma Experiência Louvável Mas Falhada

NOTA: Este 'post' é correspondente a Quarta-feira, 9 de Abril de 2025.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Nas últimas duas décadas do século XX, o mercado da banda desenhada em Portugal dividia-se em duas grandes categorias: por um lado, os 'quadradinhos' de quiosque da Disney, Marvel, Turma da Mônica e afins e, por outro, os álbuns encadernados, domínio quase exclusivo dos autores franco-belgas clássicos. De quando em vez, no entanto, um ou outro trabalho mais independente procurava 'furar' esta duologia, fosse ele um álbum ou série de álbuns assinados por um autor emergente ou, como no caso de que aqui falaremos, uma revista destinada a pôr em relevo múltiplos nomes da cena. Era, exactamente, essa a proposta da Crash, um periódico totalmente independente lançado pelas Publicações Totais que, apesar do nome algo 'duvidoso', conseguiram levar às bancas um produto com alguma qualidade, cujo primeiro número celebra este mês trinta anos de vida.


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Com foco particular na fantasia e ficção científica (géneros com larga e colorida história em países como os EUA e o Reino Unido, mas pouquíssima expressão em Portugal) a Crash era um projecto de Miguel Jorge, nome já com algum percurso no Mundo das artes gráficas nacionais, após ter colaborado com a revista especializada Art Nove. Apesar do envolvimento deste nome de relevo, no entanto, esta nova publicação – com periodicidade mensal e um custo de capa de trezentos escudos, a média para a época – situava-se no limiar entre revista profissional e 'fanzine' (como é classificada nos poucos 'sites' que a relembram), sendo a sua ética e missão editorias derivadas destas últimas.


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De facto, mais do que fazer dinheiro, Miguel Jorge e companhia procuravam dar a conhecer arte – o que pode explicar a pouca expressão que a revista teve, sendo mesmo incerto se terá passado do primeiro número, o único sobre o qual se conseguem ainda encontrar informações. Um caso, talvez, de, como se diz, de boas intenções estar o Inferno cheio – o que não deixa de ser uma pena, já que o objectivo dos editores tinha mérito evidente, e, caso tivesse resultado, a revista em causa poderia ter servido como muito necessária plataforma de lançamento para uma série de artistas gráficos de nicho que haviam tido o 'azar' de nascer e viver em Portugal. Sobram, pois, as referidas intenções, que poderão não ter sido suficientes para 'salvar' a 'Crash', mas a tornam digna de menção por ocasião dos trinta anos do seu primeiro (e talvez único) número.

Thursday, 27 February 2025

Quartas aos Quadradinhos: 'Especial Pateta' (1995) - Apenas Mais Uma Série da Disney da Abril-Controljornal...

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2025.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui por diversas vezes falámos da enorme latitude que a hegemonia da Abril-Controljornal sobre o mercado da banda desenhada 'de quiosque' em Portugal lhe permitia. Com a sua principal competição a vir do estrangeiro – nomeadamente do Brasil – a editora responsável pelas revistas Disney e Marvel tinha amplas oportunidades para experimentar os mais diversos conceitos sem, com isso, arriscar perder o seu espaço dentro do referido mercado. A série de que falamos hoje é apenas mais uma dessas tentativas, desta feita tematizada e coerente, mas com uma designação tão genérica quanto confusa, e abertamente baseada em OUTRA série de publicações Disney da mesma editora.


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Os três únicos vestígios da revista restantes na Internet.


De facto, a colecção de volumes conhecida como 'Especial Pateta' é totalmente separada do icónico 'Disney Especial', surgindo, em vez disso, sob a designação 'Hiper Disney', talvez pelo número avultado de páginas. No entanto, os números desta série estão longe de ser apenas variantes do normal Hiper Disney, centrando-se em vez disso em torno de um personagem específico – o eterno coadjuvante de Mickey nas páginas da Abril – o que os aproxima mais de um...Disney Especial!


Confusões à parte, no entanto, o que a (pelo menos) dúzia de títulos publicados há cerca de trinta anos oferece é, precisamente, aquilo que promete: uma selecção de alguns dos melhores momentos de Pateta enquanto personagem principal ou de relevo, divididas entre as habituais histórias mais clássicas e a vertente mais moderna, representada por tramas criadas no Brasil ou em Itália. Para além do generoso tamanho do volume – perfeito para ser lido numa viagem mais longa ou numa tranquila tarde de fim-de-semana – pouco mais há a dizer sobre aquela que é, para todos os efeitos, apenas 'mais uma' das muitas colecções lançadas pela Abril nesta época, mas que decerto não terá deixado de agradar aos fãs da personagem em foco (entre os quais se contava, na altura, o autor deste 'blog', que teria decerto apreciado esta colecção). Nada de essencial ou revolucionário, mas ainda assim uma colecção de revistas de BD bem conseguida, que, três décadas após o seu último volume, merecia ser mais lembrada pelos fãs dos 'quadradinhos' Disney em Portugal.

Wednesday, 25 September 2024

Quartas aos Quadradinhos: 'Transformers' - Robôs em Quadradinhos

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


As revistas licenciadas têm, desde os primórdios da banda desenhada 'moderna', feito parte integrante do panorama dos 'quadradinhos' mais comerciais, um paradigma que, vistas bem as coisas, acaba por fazer todo o sentido; afinal, estas revistas têm vendas praticamente garantidas junto dos fãs da licença em causa e, no caso de uma propriedade particularmente popular, poderão também atrair novos aficionados ou até leitores mais 'casuais', justificando assim o investimento, mesmo que muitos dos seus ciclos de vida acabem por primar pela brevidade. Os anos 80 e 90, em particular, conhecidos como a época áurea das propriedades ditas 'brinquedéticas' (em Inglês, 'toyetic', ou propício à criação de brinquedos) não poderiam ficar imunes a este fenómeno, tendo sido inúmeros os títulos licenciados a 'tomar de assalto' as bancas americanas durante esse período; e ainda que a maioria delas não tenha transposto o Oceano Atlântico, algumas lograram, ainda assim, chegar às praias lusas, quer na sua edição brasileira (como 'Ewoks', um dos 'comics' de 'Guerra das Estrelas' publicados na linha infantil da Marvel, a Star Comics) quer em formato 'made in Portugal', como com as bandas desenhadas de Indiana Jones, 'Parque Jurássico', 'Guerra das Estrelas' ou – alguns anos antes destas – 'Transformers'.


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Capa do primeiro número da série editado em Portugal.


Editada logo nos primeiros meses dos anos 90, no auge da popularidade dos veículos-robôs em Portugal, a série originalmente concebida e publicada pela Marvel surgia no nosso País não pela mão da Abril (a qual, na altura, ainda não detinha necessariamente a exclusividade nacional de publicação deste tipo de material), mas da Meribérica-Liber, para a qual os 'comics' de acção americanos representavam um desvio considerável do habitual foco na BD franco-belga. Fosse como fosse, Optimus Prime e os seus companheiros passariam mesmo cerca de oito meses na companhia de Lucky Luke, Tintin e Astérix – e se estes heróis apenas esporadicamente viam serem editados álbuns das suas aventuras, os 'robôs disfarçados' tiveram honras de edição quinzenal, como era 'da praxe' para 'quadradinhos' da sua índole.


E a verdade é que a periodicidade não era o único elemento típico da BD de 'Transformers', cujos argumentos e desenhos eram tão típicos da Marvel que não destoariam entre o catálogo da Abril de meados da década de 90; de especial e 'vendável', portanto, apenas a presença dos robôs protagonistas, os quais, à época, eram bem capazes de 'vender' revistas por si só...pelo menos nos Estados Unidos. Em Portugal, onde a série animada teve bastante menos expressão (apesar de os brinquedos serem fáceis de encontrar em qualquer loja especializada) os cerca de setenta números lançados nos EUA desde o aparecimento da série, em 1984, viram-se reduzidos a apenas dezoito, sem que a mitologia criada pelos argumentistas e artistas tivesse deixado entre a juventude portuguesa o mesmo tipo de impacto que teve sobre a americana, onde a série animada original de 'Transformers' continua, até hoje, a ser tida em grande conta, e a contar com fãs de todas as idades. Ainda assim, durante a sua breve estadia nas bancas nacionais, 'Transformers' terá sido capaz de entreter o seu público-alvo pelo menos tanto quanto a congénere alusiva às Tartarugas Ninja – ainda que, como esta, a sua natureza dificilmente conduziria ao estatuto de clássico intemporal almejado por outras publicações da Marvel da mesma altura...

Thursday, 19 September 2024

Quartas aos Quadradinhos: O 'Outro' Corvo da Banda Desenhada

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 18 de Setembro de 2024.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui anteriormente dedicámos algum espaço à carreira e obra de Luís Louro, um dos principais nomes da BD nacional contemporânea; e visto que uma das suas obras mais conhecidas completa este ano três décadas sobre o seu lançamento (além de ter temática e nome semelhantes à do filme abordado na nossa última Sessão de Sexta) nada melhor do que gastar agora algumas linhas a falar da mesma.


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Lançado algures em 1994 (a data de 1 de Janeiro veiculada pelo Goodreads não é, necessariamente, fidedigna), 'O Corvo' quase parece uma paródia da BD americana do mesmo nome que viria a inspirar uma série de filmes de acção com clima gótico. Isto porque, em comum com os heróis torturados mas 'durões' d''O Corvo' americano, o protagonista de Luís Louro – carteiro de profissão, introvertido e meio 'xoninhas' – só tem mesmo o nome de código e o estatuto de vigilante mascarado, no caso das ruas de Lisboa. Em tudo o restante, o Corvo português falha em toda a linha, muitas vezes causando problemas e situações mais graves do que aquelas que tentava, à partida, resolver, nas quais se vê, ele próprio, frequentemente envolvido. Uma abordagem puramente cómica, portanto, sem quaisquer pretensões a tornar Vicente num herói 'sério', ficando o mesmo mais próximo do Pato da Capa Preta do que do 'outro' Corvo ou de Batman, inspiração inevitável para qualquer história deste tipo.


É possível que quem não souber à partida que se trata de uma paródia se deixe 'enganar', no entanto, já que as ilustrações dos já sete tomos desta colecção (o último dos quais lançado já este ano) poderiam perfeitamente fazer parte de um 'comic' independente americano, ou de um álbum de BD franco-belga dos mais 'sérios', em nenhum momento dando a entender que tanto o herói como as suas aventuras têm teor cómico. Talvez por isso o produto final resulte tão bem, extraindo o habitual humor inerente a dicotomias deste tipo, e criando um super-herói 'à portuguesa' - com tudo o que isso acarreta – que, apesar da pouca sorte e ainda menor aptidão, se tem conseguido manter no activo há já três décadas, motivo mais que suficiente para que celebremos as suas origens nas páginas deste nosso blog nostálgico.

Wednesday, 24 April 2024

Quartas aos Quadradinhos: 'Mickey 70 Anos' (1999) - Uma 'Correcção' de Luxo

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Em tempos considerado a personalidade mais conhecida em todo o Mundo (fosse fictícia ou de 'carne e osso') o Rato Mickey continua, até hoje, a ser um ícone verdadeiramente intemporal da cultura popular, presente no imaginário infanto-juvenil de todas as gerações surgidas desde a sua criação em finais dos anos 20, e sempre com o mesmo (alto) nível de popularidade. Assim, não é de surpreender que cada novo aniversário do roedor mais famoso do Mundo seja motivo para celebração, com um sem-número de eventos alusivos à data e transversais a todas as áreas culturais em que o rato de Walt Disney se inseriu; e, sendo a banda desenhada uma das principais de entre elas, tão-pouco é de espantar que se tenham verificado, ao longo dos anos, uma série de edições comemorativas, lançadas um pouco por todo o Mundo.


Enquanto mercado da 'linha da frente' no consumo de banda desenhada em finais do século XX, Portugal não podia, claro, ser excepção a esta regra, tendo visto serem lançadas uma série de especiais alusivos ao aniversário de Mickey, pela mão da Abril, então detentora dos direitos de edição das BD's Disney em Portugal. O primeiro destes, de 1988, era uma verdadeira edição histórica, com vários volumes que traçavam o percurso de Mickey através das décadas; já o segundo pouco passava de uma revista vulgar, com as únicas alusões à efeméride a terem lugar no desenho de capa – e, para cúmulo, lançada com atraso de quase um ano! Um deslize que, crédito lhe seja feito, a editora tentou corrigir com o lançamento seguinte, editado há vinte e cinco anos, por ocasião dos setenta anos de Mickey, que surgia em formato encadernado e dividida em dois volumes, num total de quase duzentas páginas de banda desenhada.


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Capas dos dois volumes do especial, cada um com cem páginas.


Felizmente, tal como acontecera com o especial de 1988, também aqui a qualidade do conteúdo se coadunava com a apresentação, surgindo cada um dos volumes dividido em secções temáticas, cada uma com um respectivo texto introdutório e explicativo. O primeiro volume trazia, assim, uma parte dedicada às tiras diárias de Floyd Gottfredson, outra ao detective Sir Lock e outra à 'Patrulha Estelar' que trazia Mickey e Pateta como astronautas e heróis futuristas; já o segundo tomo trazia secções alusivas aos principais coadjuvantes e personagens secundários do universo de Mickey, como o Capitão Plim, o extraterrestre Esquálidus e o inevitável Pateta – embora, estranhamente, deixando de fora nomes tão icónicos como João Bafo-de-Onça, Mancha Negra e, claro, a namorada do herói, Minnie. Deste volume faziam, ainda, parte um texto genérico sobre outros personagens, um 'cantinho do artista', onde eram publicados alguns desenhos enviados para a editora por fãs do rato e respectivos amigos, e uma história interactiva, em prosa, que convidava os leitores a resolverem o mistério de onde estaria o bolo de aniversário de Mickey.


No cômputo geral, portanto, uma edição que fazia por justificar o (sem dúvida exorbitante) preço de capa, e por 'emendar a mão' após a 'derrapagem' por altura dos sessenta e cinco anos do personagem – objectivos que atingiu com louvor, perfilando-se como uma homenagem tão adequada como justa e sentida a um dos maiores personagens de banda desenhada de sempre, que (aos quase cem anos de 'vida') continua tão relevante como sempre foi.

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...