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Thursday, 26 June 2025

Quartas de Quase Tudo: As Rifas Escolares - Um Desafio Recompensante

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Quarta-feira, 25 de Junho de 2025.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Eram prática corrente sempre que era preciso auto-financiar uma viagem de finalistas ou visita de estudo, ou sempre que a escola, clube desportivo ou paróquia queria adicionar um incentivo extra para comparecer na sua festa de Natal ou em qualquer outro evento dessa índole. Ensinavam às crianças e jovens auto-confiança, ousadia, gestão de risco e o valor do trabalho, mas também a 'lei do menor esforço' e a arte de 'se safar', à boa maneira portuguesa. Eram, para uns, um frete e, para outros, um divertido desafio. E, como tantas outras coisas de que falamos nesta e noutras rubricas, caíram em desuso na era digital, a ponto de se encontrarem quase ausentes da sociedade actual - pelo menos da mais urbanizada – preteridas em favor dos mais simples e económicos sorteios digitais, por 'email', 'app' ou nas redes sociais. Falamos das rifas, aqueles pedacinhos de papel arrancados de um bloco, à maneira dos cheques ou bilhetes da altura, e que podiam deter em si o acesso a um prémio (mais ou menos) apelativo, ligado ao evento em causa e, mais que provavelmente, custeado pela própria organização.


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O desafio era sempre o mesmo: ser o primeiro a vender todas as rifas do seu bloco ou, pelo menos, conseguir vender mais do que os colegas. Em teoria, o cumprimento de tal objectivo passaria pela abordagem de estranhos que parecessem dispostos a investir no evento infanto-juvenil associado ao sorteio; para a grande maioria dos alunos portugueses da época, no entanto, tratava-se apenas de convencer os familiares (e, quiçá, um ou outro amigo mais próximo) a darem 'uma ajuda', já que poucos eram os que verdadeiramente tinham coragem de 'jogar' da forma correcta, ou seja, de falar a estranhos em plena rua ou mesmo nas lojas ou cafés do bairro. Fosse qual fosse a forma de chegar ao objectivo, no entanto, o que contava era mesmo a angariação de fundos, essencial para qualquer que fosse o objectivo da organização do sorteio propriamente dito, e que nunca deixava de ser substancial.


Conforme já referimos, no entanto, as rifas 'físicas' caíram um pouco em desuso com o avançar da era digital, tendo as Gerações Z e Alfa, presumivelmente, encontrado outra forma de ganhar carácter e auto-confiança. Para quem alguma vez levou para casa um 'caderninho' de rifas para o sorteio da escola, no entanto, aqueles 'bilhetinhos mágicos' ficarão, ainda e sempre, associados a tempos mais simples, em que tentar convencer o pai ou a mãe a contribuir para a causa em questão era a maior das suas preocupações nessa semana...

Saturday, 8 March 2025

Quintas de Quinquilharia: Os Blocos de Notas com Motivos - A Forma Mais 'Chique' de Escrever aos Amigos

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 6 de Março de 2025.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Faziam parte da colecção de quinquilharias de qualquer criança ou jovem de finais do século XX, embora muita vezes acabassem por raramente ser usados, e servissem sobretudo para ser admirados, enquanto esperavam 'aquela' ocasião especial. Falamos dos blocos de notas com desenhos como pano de fundo das páginas, sobre os quais nos debruçaremos nas linhas seguintes.


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Exemplo moderno do produto em causa.


Normalmente em formato 'de bolso', e destinados a servir como 'bloco de cabeceira' ao lado do telefone ou em cima da secretária, eram facilmente adquiríveis em qualquer boa papelaria ou tabacaria, com uma enorme variedade de motivos, desde padrões como flores ou espirais até bonecos 'genéricos', ou mesmo, em ocasiões mais raras, personagens licenciados, como Hello Kitty; por vezes, chegavam mesmo a ser levemente perfumados, o que ainda acrescia mais ao estatuto 'super-especial', e os tornava pouco adequados a anotar números de telefone ou moradas. Talvez por isso a maioria dos jovens os tirasse da gaveta apenas para mandar mensagens aos amigos ou 'paixonetas', para fazer listas de interesse pessoal, ou para admirar os motivos que adornavam as páginas, fazendo com que apenas um bloco chegasse a durar vários anos.


Apesar deste uso 'religiosamente' regrado, no entanto – e apesar de raramente saírem da gaveta das quinquilharias – pelo menos um destes blocos fará, certamente, parte das memórias remotas de qualquer português das gerações 'X' e 'millennial', as últimas para quem este tipo de produto fez sentido, antes de tudo passar a poder ser guardado no telemóvel, relegando os blocos com motivos de fundo para a pilha de produtos obsoletos que as demografias mais novas dificilmente voltarão a usar...

Tuesday, 3 September 2024

Segundas de Sucesso: 'Top Star' (1990-2004) - A Resposta Nacional A 'Supermix'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 2 de Setembro de 2024.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Embora pareça obsoleto em plena era do 'streaming', o conceito de colectânea musical alimentou, durante décadas, o mercado fonográfico, com um número incontável de lançamentos anuais a caírem numa das suas duas sub-vertentes: por um lado, a compilação de 'artista único', que possibilitava a um fã mais casual ou simples 'curioso' ter um apanhado de toda uma carreira em duas dezenas de músicas, e, por outro, a reunião mais 'pura e dura' de temas de diversas bandas e artistas em um ou mais LPs, cassettes ou CDs.


Destas últimas, uma percentagem surpreendentemente significativa centrava-se sobre a música electrónica e de dança, um género que vivia, à época, uma época áurea, graças ao rápido crescimento e popularização, um pouco por todo o Mundo, da profissão de DJ. A Península Ibérica não era, de todo, excepção a esta regra, tendo a última década do século XX assistido ao lançamento de colectâneas electrónicas tanto no molde de compilação de canções no formato original (como a famosa série 'Electricidade', apadrinhada pela Rádio Cidade) como no de 'remixes' revistas, re-trabalhadas e alargadas para melhor se adaptarem às pistas de dança, como no caso da série anual espanhola 'Supermix' ou da 'resposta' lusitana à mesma, que analisamos neste 'post'.


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Capa do primeiro volume da série, lançado em 1990.


Surgida logo nos primeiros meses da década de 90, a série 'Top Star' lograria manter-se relevante através tanto da era do LP como do CD, vindo a extinguir-se apenas já no dealbar da era do mp3, quando as músicas passaram a estar disponíveis em formato digital e os próprios DJ's a ter acesso a novos recursos tecnológicos, tornando este tipo de lançamento redundante e até algo obsoleto. A premissa, essa, manteve-se coerente ao longo da quase década e meia que durou o ciclo de vida da série, propondo uma saudável mistura entre os temas de maior sucesso nas pistas de dança nacionais durante o ano em questão e remisturas dos mais populares temas radiofónicos do mesmo período, que ajudavam a atrair melómanos mais 'casuais' e menos versados nas lides da música electrónica. Ainda assim, o público-alvo destas colectâneas (elas próprias concebidas por DJ's de vulto da cena nacional) ficava bem evidente pelo foco dado, na capa, a nomes desconhecidos para a grande maioria dos fãs de música da época.


Uma premissa, pois, em tudo semelhante à da referida 'Supermix', com apenas uma diferença significativa, nomeadamente o facto de os temas serem apresentados, não numa 'super mistura' de várias dezenas de minutos, mas antes a título individual, com inícios e fins bem definidos – escolha que, curiosamente, aproximava a série dos volumes mais 'tardios' da concorrente. Recaísse a preferência em que série caísse, no entanto, o certo é que não faltavam aos aficionados nacionais de música electrónica opções de entre as quais escolher na hora de adicionar mais um disco à sua colecção.

Tuesday, 21 May 2024

Terças de TV: Trinta Anos de 'Perdoa-me' - Um Risco 'Perdoado'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Já aqui por várias vezes nos referimos ao início dos anos 90 como o período por excelência de experimentação televisiva em Portugal, com o aparecimento de dois canais independentes a permitir a aposta em programas inovadores, muitos deles adaptados de formatos estrangeiros de igual sucesso. De concursos a programas de auditório, passando por emissões sentimentais e até falsos casos de tribunal televisionados, foram muitos os formatos a correr riscos calculados em busca das sempre 'fugidias' audiências; a essa lista, há agora que juntar aquela que foi uma das grandes apostas da SIC para a temporada televisiva de 1994, e que introduzia mais um conceito pioneiro no contexto da televisão portuguesa – o 'Perdoa-me'.


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Com uma premissa algures entre o 'Ponto de Encontro' e 'O Juiz Decide', com uma pitada de 'Jerry Springer' à mistura, o programa apresentado primeiro por Alexandra Lencastre (a Guiomar da 'Rua Sésamo', entretanto transformada em apresentadora de televisão credível) e depois por Fátima Lopes, mais tarde pioneira dos 'talk shows' nacionais, propunha-se, simplesmente, a resolver publicamente conflitos entre duas partes lesadas, numa tentativa de restabelecer as boas relações entre elas – um daqueles conceitos que apela ao 'voyeurismo' e partilha da desgraça alheia inerentes a grande parte da humanidade, e a que os portugueses não são excepção. Assim, não é de surpreender que o programa se tenha instantaneamente afirmado como um sucesso de audiências, atingindo um 'share' de 53.5%, um número histórico à época e que indicava que mais de metade dos lares portugueses tinham o programa sintonizado! Esta inaudita popularidade ajudou, aliás, a catapultar para o sucesso os programas que se sucediam ao 'Perdoa-me', em particular o 'All You Need Is Love', outro conceito pioneiro que aqui terá, em breve, o seu 'lugar ao Sol'.


Apesar deste sucesso quase absurdo, no entanto, 'Perdoa-me' é, trinta anos depois, lembrado sobretudo pelo episódio transmitido a 1 de Junho de 1994, em que Alexandra Lencastre se deixou enganar pelos próprios convidados, dois jovens estudantes de Agronomia cuja pretensa querela não passava de um artifício para conseguir aparecer no programa e, por consequência, na televisão; um momento algo embaraçoso, que fez parangonas na imprensa da época e que não deixou de ser recordado no 'Jornal da Noite' aquando dos vinte anos da efeméride. Um 'legado' algo inglório para um programa pleno de boas intenções, e que, à época, provou aos executivos televisivos que, por vezes, valia a pena arriscar, sem que posteriormente fosse necessário pedir perdão...




Excertos das duas 'eras' ou 'fases' do programa.


 

Tuesday, 23 April 2024

Terças de TV: 'Cenas de Um Casamento' (1994) - Entre os 'Reality Shows' e as Redes Sociais

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


A década de 90 foi, no que toca à televisão portuguesa, um período de experimentação por excelência. Antes do sucesso das telenovelas portuguesas e dos primeiros 'talk-shows' e 'reality shows' virem formatar irreversivelmente a oferta televisiva nacional para o Novo Milénio, o aparecimento de dois novos canais de índole independente, livres das restrições da emissora estatal e com grelhas inteiras para preencher, permitiu a aposta numa série de conceitos pioneiros (pelo menos no nosso País) e originais ao ponto de, até hoje, alguns ainda constituírem o único exemplo do género. Entre programas de reencontros, encenações de processos jurídicos em directo, emissões sensacionalistas sobre trabalho policial e outras que misturavam entretenimento juvenil com discussões sérias sobre os problemas dessa demografia, não era difícil até ao conceito mais 'estapafúrdio' encontrar o seu nicho dentro da programação da SIC e da TVI; como tal, não é surpreendente que um programa como 'Cenas de Um Casamento' tenha, também ele, conseguido gozar de uma temporada como parte da grelha da estação de Carnaxide.


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Estreado há exactos trinta anos, em Abril de 1994, e apresentado pelo sempre carismático Guilherme Leite, 'Cenas de Um Casamento' partia de uma premissa que quase se podia considerar predecessora dos 'reality shows' da década seguinte, embora sem o 'factor espectáculo' manufacturado destes últimos. O foco da emissão eram, não celebridades 'acabadas' ou anónimos em busca de fama e fortuna, mas casais normais, do dia-a-dia, em processo de planificação e preparação do seu casamento. Cada episódio do programa levava os telespectadores através de toda a História romântica do casal, do início de namoro à fase actual, permitindo-lhes 'viver' o evento ao lado do noivo e da noiva, ao mesmo tempo que proporcionava a estes últimos não só quinze minutos de fama como também uma plataforma para mostrarem ao Mundo (ou, pelo menos, ao País) a bela cerimónia de que haviam sido o centro. Um conceito tão picaresco quanto pitoresco (sobretudo na era das redes sociais) mas que não deixava de encontrar o seu público entre a vasta faixa de população que procurava 'perder-se' nos contos de fadas de estranhos como forma de trazer emoção à sua própria vida.


Conforme mencionámos acima, este conceito dificilmente resultaria como emissão em horário nobre numa era em que o efeito proposto pelo programa é facilmente realizável no espaço de uns poucos 'cliques' numa qualquer rede social gratuita, com a vantagem adicional de não ser necessário esperar pela semana seguinte para acompanhar outra história; na sua época, no entanto, a proposta de 'Cenas de Um Casamento' não só fazia sentido como era pioneira, justificando tanto a presença na grelha da SIC para a Primavera de 1994 como a recordação neste nosso 'blog' nostálgico, por alturas do trigésimo aniversário da sua estreia.

Sunday, 14 April 2024

Domingos Divertidos: Os Cavalos de Baloiço - Relíquias de Tempos Mais Simples

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


A imagem do cavalinho de baloiço em madeira sempre foi um dos mais tradicionais elementos significantes da fase mais inocente da infância. Um daqueles brinquedos verdadeiramente intemporais, presentes em quartos de criança desde há séculos, este tipo de produto não deixa de marcar presença em todo e qualquer quarto de brinquedos de criança visto num filme ou série de televisão, ou mesmo descrito nas páginas de um livro; e se, hoje em dia, o mesmo é utilizado quase exclusivamente como parte de uma estética propositalmente 'retro' e nostálgica, em finais do século XX, os cavalinhos de baloiço surgiam ainda como parte integrante da selecção de brinquedos de muitas crianças portuguesas, normalmente num modelo muito específico e extremamente popular à época, cuja fotografia ilustra este 'post'.


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O modelo cujas diversas variações deliciaram as crianças portuguesas de finais do século XX. (Crédito da foto: OLX)


Para quem cresceu na época em que nem tudo tinha, ainda, de dispôr de um ecrã com imagens e sons berrantes, o apelo de um destes brinquedos é fácil de perceber e explicar, sendo que o mesmo constituía uma espécie de versão gratuita e sem limite de tempo dos populares brinquedos 'de moeda' tão frequentemente encontrados, à época, em centros comerciais e à porta de cafés. E apesar de os cavalinhos de baloiço se tornarem desajustados a partir de uma idade muito mais precoce que os referidos brinquedos electrónicos, as crianças mais pequenas não deixavam, ainda assim, de conseguir derivar considerável diversão dos mesmos antes de 'evoluírem' para os cavalos de pau ou veículos electrónicos, e daí para as bicicletas, patins em linha, skates, 'karts' e outros meios de locomoção mais avançados.


Hoje em dia, um brinquedo deste tipo pode parecer (e é) quase picaresco na sua simplicidade, uma relíquia de uma era que, apesar de ainda não muito distante, já ficou, definitivamente, 'para trás', sendo impossível a um jovem actual vislumbrar que interesse poderiam ter grande parte dos elementos que a marcaram – sendo os cavalinhos de baloiço um exemplo perfeito disso mesmo. Para quem teve, ou teve oportunidade de usar, um dos tradicionais equídeos em madeira pintados de vermelho e branco, no entanto, o 'post' que agora se conclui terá (espera-se) ajudado a remeter a mente a um tempo mais inocente, em que alguns minutos a 'cavalgar' nos mesmos constituíam uma excelente maneira de passar um 'bom bocado'...

Wednesday, 6 March 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Cheques

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


No passar do dia-a-dia pode, por vezes, ser difícil discernir o quanto tomamos por garantido na sociedade actual. De facto, é frequentemente necessário 'retroceder' no tempo para reparar na quantidade de pequenos elementos do quotidiano que caíram, quase sem se dar por isso, no desuso ou obsolescência, e que se foram, aos poucos, 'extinguindo' da vida do cidadão urbano ou suburbano comum. Dos cartões de impulsos, cabines e listas telefónicas aos calendários, catálogos (de Natal e não só) e até 'guias oficiais' e livros de 'truques e dicas' para jogos de computador, são inúmeros os objectos e serviços em tempos considerados indispensáveis que, hoje, mal se vislumbram no quotidiano ocidental. Desse grupo faz, também, parte o conceito que abordamos esta Quarta-feira, e que apenas constituirá memória para a faixa de leitores deste blog de maior idade: o cheque.


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(Crédito da foto: OLX)


Numa era em que basta segurar o telemóvel em frente a um terminal de pagamento, ou pressionar meia dúzia de vezes o ecrã, para pagar quase todas as despesas diárias, a ideia de ter de preencher meticulosamente um pedaço de papel, escrevendo por extenso (!) a quantia pretendida, apenas para poder obter dinheiro ou efectuar uma transacção pode parecer absurdamente obsoleta; e, no entanto, quem alguma vez acompanhou os 'mais velhos' ao banco terá bem presente todos os elementos do processo: o 'molho' de folhas unidas, quase como se fossem rifas, a bonita carteira ou estojo onde as mesmas eram, invariavelmente, guardadas, as diferentes secções preenchidas com 'letra bonita', para que fossem perceptíveis, e o fascínio de ver uma dessas folhinhas transformar-se em notas e moedas, ou numa forma de pagamento. Terá mesmo havido, certamente, quem pedisse aos referidos adultos que os deixassem ajudar a preencher o referido documento, embora este fosse um risco que a maioria das pessoas responsáveis não estavam dispostos a correr...


Tal como muitos dos elementos acima mencionados – e outros de que vimos falando nestas páginas – o uso de cheques é uma experiência com que a Geração Z jamais terá contacto, e que poderá até ter dificuldade em perceber; para quem com eles conviveu, no entanto, a ideia de que aqueles 'papelinhos' com o logotipo e timbre do banco puderam, em tempos, ser utilizados como moeda-corrente não pode deixar de constituir um exemplo 'acabado' do quanto a sociedade ocidental evoluiu nos últimos trinta anos.

Tuesday, 25 July 2023

Terças de TV: Os Anúncios a Chamadas de Valor Acrescentado

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Era inevitável: durante um qualquer intervalo para publicidade, surgia nos ecrãs da juventude portuguesa um anúncio a um concurso de termos e prémios irrecusáveis, ou de um serviço absolutamente irresistível para a demografia em causa, e, na parte inferior do ecrã, lá estava o fatídico indicativo – 0641 (mais tarde 0670 ou apenas 760) – e, em letras microscópicas, o aviso legal sobre os custos (geralmente astronómicos) de efectuar tais chamadas.



Exemplo típico do formato, com uma pergunta ridiculamente fácil destinada a atrair o público-alvo.


Sim, no tempo em que ainda não existiam redes sociais nem 'sorteios' de YouTubers, as chamadas de valor acrescentado representavam um dos principais meios de 'extorquir' dinheiro aos mais novos – ou antes, aos seus pais – criando conjunturas de probabilidades imensamente reduzidas, mas que apelavam maravilhosamente àquele instinto de 'e se for eu?', ou ainda serviços legítimos (como truques e dicas para jogos de PC e consola, anedotas ou chamadas com 'celebridades' como o Pai Natal), mas oferecidos a taxas altamente inflacionadas, e 'debitados' a um ritmo o mais lento possível, de forma a obrigar os jovens a ficar em linha vários minutos. Era um negócio, ao mesmo tempo, legal e completamente desonesto, magnificamente capaz de explorar a 'zona cinzenta' em que se encontrava, e que apenas o advento da Internet – não a dos anos 90, mas aquela que conhecemos hoje em dia, em que tudo é possível com um ou dois cliques – conseguiu erradicar.


De facto, quando os serviços oferecidos por estas linhas passaram a estar disponíveis, sem custos, nos mais variados 'websites', e os concursos passaram a envolver o preenchimento de um formulário em vez de repetidas tentativas de ligar para um determinado número, as chamadas de valor acrescentado deixaram de fazer sentido, e acabaram por desaparecer do 'mainstream' televisivo - embora sobrevivessem, ainda e sempre, nas emissões 'fora de horas' de certos canais privados.



Linhas como esta, destinada a informações sobre a programação dos canais da RTP - sim, a sério! - tornar-se-iam completamente obsoletas após a massificação da Internet.


O conceito em si, no entanto, não se extinguiria completamente – apenas se transmutaria, com as chamadas telefónicas a serem substituídas por SMS (também de valor altamente inflacionado, claro) utilizados para fins tão diversos como obter a música 'da moda' no famoso formato de 'toque polifónico', falar com aquilo a que se viriam a chamar 'chatbots', ou até algo tão simples como ter uma anedota enviada para o telemóvel. Sob esta nova forma, este tipo de serviço sobreviveria ainda cerca de uma década, até o advento dos 'smartphones' vir tornar obsoleta a necessidade de 'sacar' toques oferecidos por serviços mais do que manhosos, e pagos a peso de ouro.


Ainda assim, uma década após a sua extinção derradeira, e trinta anos após o seu auge, este tipo de serviços continua a ser recordado por toda uma geração de portugueses como uma das maneiras mais certas de levarem uma 'bronca' dos pais no fim do mês; já para a Geração Z, esta será mais uma das muitas experiências que nunca chegarão a viver pessoalmente – embora, neste caso, isso talvez não seja necessariamente algo de negativo...

Wednesday, 5 July 2023

Quartas de Quase Tudo: As Provas Globais nos Anos 90

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Os últimos dias do mês de Junho e inícios do seguinte representavam um período agridoce para a maioria dos estudantes do terceiro ciclo e ensino secundário de finais do século XX e inícios do Novo Milénio. Isto porque se, por um lado, as férias de Verão estavam à porta (e, muitas vezes, também as respectivas viagens de finalistas) por outro, havia ainda um enorme obstáculo a ultrapassar – nomeadamente, os exames que tendiam a ser marcados para esta época do ano. E se no caso dos finalistas do secundário os mesmos eram de âmbito nacional, já os mais novos eram sujeitos a uma espécie de 'versão de treino', normalmente de âmbito intra-escolar, mas de igual relevância para a sua média final do ano: as chamadas provas globais.


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De conceito exactamente igual ao dos exames nacionais – ou seja, um único teste que compreendia toda a matéria leccionada durante o ano escolar no âmbito daquela disciplina – as provas globais tinham, no entanto, algumas diferenças-chave de significativa relevância: por um lado, não eram criadas pelo Estado, mas sim pelo próprio departamento de professores daquela disciplina pertencentes à escola e, por outro, também não eram revistas por juízes neutros aleatoriamente escolhidos, mas sim pelos colegas do docente que havia criado o teste. Por outras palavras, cada prova global era criada pelo departamento de forma conjunta, e os testes de cada turma eram revistos por um professor que não o habitual daquela turma, de forma a obter uma opinião imparcial e sem 'conhecimento de causa' do contexto de cada aluno dentro da turma em questão. E a verdade é que, tirando ocasionais polémicas (numa das quais o próprio autor deste blog se viu envolvido, durante as provas globais do décimo-primeiro ano) este sistema funcionava de forma bastante eficiente, tendo sido mantido pelo menos durante as décadas de 90 e 2000.


Famosamente, no entanto, a época em causa assinalaria o 'início do fim' das provas globais, já que a eliminação dos 'chumbos' no ensino básico e secundário veio tornar as médias finais de ano praticamente irrelevantes, e o próprio objectivo destas provas obsoleto. De facto, enquanto que um aluno finalista do secundário em 2023 será sujeito sensivelmente à mesma experiência que os seus congéneres da geração anterior, os alunos mais novos (filhos da geração em causa) jamais saberão o que é (era)(foi) uma prova global no final do ano lectivo – pelo menos, não nos mesmos moldes em que os seus progenitores as experienciaram, em que a própria vida parecia depender de um bom resultado. Para estes, no entanto, a simples menção deste termo poderá ser suficiente para trazer à tona uma verdadeira 'enxurrada' de memórias, tanto positivas como negativas, sobre aqueles testes de 'toda a matéria' que tornavam a chegada do Verão algo mais deprimente do que o necessário...

Wednesday, 15 February 2023

Quartas de Quase Tudo: Os Diários

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Em plena era do Facebook, Twitter, TikTok e Instagram – em que um dos principais objectivos da maioria dos jovens passa por colocar tantos aspectos da sua vida quanto possível em 'hasta pública', para o resto da sua geração ver e comentar – a ideia de manter pensamentos, planos e até sentimentos só para si mesmo, num livrinho ou caderno que mais ninguém estava autorizado a consultar, parece, no mínimo, caricata; e, no entanto, os referidos volumes fizeram parte integrante da infãncia de muitas crianças do século XX e inícios do XXI.


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Um exemplo bem típico do produto em causa.


Falamos, claro está, dos diários, um conceito que reúne vários elementos, hoje em dia, perfeitamente desactualizados e até obsoletos. Senão veja-se: eram volumes físicos, em papel, nos quais se escrevia à mão, e que não eram mostrados a ninguém – ou seja, o total oposto do paradigma actual nas redes sociais. De facto, aqueles caderninhos de papel liso ou pautado, muitos deles, inclusivamente, com cadeado (!!!) para assegurar que ninguém 'bisbilhotava', servem como ilustração perfeita das profundas diferenças entre a Geração Z e as que lhe sucederam, já que um jovem da sociedade ocidental actual procuraria veicular os conteúdos do seu diário, muito mais do que mantê-los secretos!


Para as gerações pré-Internet, no entanto – bem mais 'reprimidas' e contidas nas suas acções do que a actual – era impensável confessar os sentimentos à pessoa de quem se gostava, ou confrontar verbalmente os maiores de idade, pelo que todas essas sensações reprimidas acabavam naquelas páginas, por vezes com 'letra bonita', espacejamento e muitos desenhos à volta, outras sob a forma de enorme parágrafos agressivamente escrevinhados em meio a logotipos de bandas de metal e garatujas de caveiras. O denominador comum passava, apenas, pelo carácter pessoal e confidencial da informação, servindo o diário como uma espécie de instrumento de catarse – finalidade, aliás, para a qual ainda hoje é usado no contexto da terapia psicológica e emocional.


Àparte esse uso muito específico, no entanto, o próprio conceito de um diário é, hoje em dia, completamente contrário a toda e qualquer tendência social infanto-juvenil, pelo que não surpreende minimamente vê-los quase desaparecidos do referido panorama; no entanto, com o pendor cada vez maior para reviver conceitos e produtos nostálgicos, também não seria de admirar que, dentro de bem pouco tempo, se visse um regresso dos clássicos livrinhos às prateleiras de drogarias, tabacarias, supermercados e grandes superfícies, prontos a re-ensinar o conceito de privacidade a uma geração aparentemente determinada a pôr toda a sua vida 'a nu' ...

Thursday, 20 October 2022

Quintas no Quiosque: Os Classificados

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Apesar de os jornais não fazerem, regra geral, parte do lote de preferências dos jovens no respeitante a periódicos – surgindo bem atrás das revistas aos quadradinhos e das publicações especializadas nos campos da música, dos videojogos, da moda, das celebridades ou do desporto – esta demografia não deixava, ainda assim, de ter contacto com este meio de comunicação, noemalmente por intermédio dos adultos, que o compravam; mas se o suplemento de BD era, normalmente a secção para a qual os mais novos gravitavam, a verdade é que havia outra parte do jornal que não deixava de causar algum fascínio junto dos mesmos: a secção de classificados.


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Conceito cada vez menos imaginável na era do OLX e Facebook Market, as páginas de classificados formaram parte integrante de muitas publicações até às primeiras décadas do Terceiro Milénio, servindo como alternativa mais abrangente aos tradicionais anúncios em montras de lojas ou quadros de associações, bem como a publicações como as Páginas Amarelas. O fascínio, aliás, residia justamente no facto de, ao folhear uma destas secções, se poder encontrar absolutamente de tudo, desde produtos para compra, venda e troca (de pequenos electrodomésticos e artigos de colecção até casas ou carros) até ofertas de emprego, anúncios de serviços ao estilo das referidas Páginas Amarelas, pedidos de correspondência, e, claro 'gatinhas peitudas solitárias, sozinhas em casa, Alameda'; um verdadeiro microcosmos social, portanto, que não podia deixar de cativar a imaginação de qualquer criança ou jovem.


Assim, embora as secções correspondentes nas referidas revistas especializadas serem mais interessantes do ponto de vista prático (nomeadamente, por os produtos à venda e pedidos de correspondência serem menos generalistas e mais focados numa área de interesse específica) os classificados de jornais generalistas eram bastante mais apelativos do ponto de vista sociológico – conceito que a maioria da demografia em causa nem sequer conhecia, mas que activamente praticava. Infelizmente, conforme acima referido, é altamente improvável que uma secção deste tipo volte a gozar do mesmo sucesso das suas congéneres dos anos 90, ou sequer a figurar numa publicação periódica – uma categoria, ela mesma, em vias de extinção. Embora a existência de fóruns e 'sites' como o OLX seja extremamente conveniente, no entanto (evitando estar a 'esquadrinhar' a tipografia frequentemente microscópica destas páginas) os classificados são daqueles conceitos que, certamente, a geração que cresceu naquele tempo terá alguma pena de não poder partilhar com os jovens de hoje, para que também eles possam experienciar o poder transformativo de encontrar, pela primeira vez, nas páginas do jornal uma 'loirinha peituda carente e discreta' residente no Parque das Nações...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...