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Wednesday, 24 April 2024

Quartas aos Quadradinhos: 'Mickey 70 Anos' (1999) - Uma 'Correcção' de Luxo

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Em tempos considerado a personalidade mais conhecida em todo o Mundo (fosse fictícia ou de 'carne e osso') o Rato Mickey continua, até hoje, a ser um ícone verdadeiramente intemporal da cultura popular, presente no imaginário infanto-juvenil de todas as gerações surgidas desde a sua criação em finais dos anos 20, e sempre com o mesmo (alto) nível de popularidade. Assim, não é de surpreender que cada novo aniversário do roedor mais famoso do Mundo seja motivo para celebração, com um sem-número de eventos alusivos à data e transversais a todas as áreas culturais em que o rato de Walt Disney se inseriu; e, sendo a banda desenhada uma das principais de entre elas, tão-pouco é de espantar que se tenham verificado, ao longo dos anos, uma série de edições comemorativas, lançadas um pouco por todo o Mundo.


Enquanto mercado da 'linha da frente' no consumo de banda desenhada em finais do século XX, Portugal não podia, claro, ser excepção a esta regra, tendo visto serem lançadas uma série de especiais alusivos ao aniversário de Mickey, pela mão da Abril, então detentora dos direitos de edição das BD's Disney em Portugal. O primeiro destes, de 1988, era uma verdadeira edição histórica, com vários volumes que traçavam o percurso de Mickey através das décadas; já o segundo pouco passava de uma revista vulgar, com as únicas alusões à efeméride a terem lugar no desenho de capa – e, para cúmulo, lançada com atraso de quase um ano! Um deslize que, crédito lhe seja feito, a editora tentou corrigir com o lançamento seguinte, editado há vinte e cinco anos, por ocasião dos setenta anos de Mickey, que surgia em formato encadernado e dividida em dois volumes, num total de quase duzentas páginas de banda desenhada.


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Capas dos dois volumes do especial, cada um com cem páginas.


Felizmente, tal como acontecera com o especial de 1988, também aqui a qualidade do conteúdo se coadunava com a apresentação, surgindo cada um dos volumes dividido em secções temáticas, cada uma com um respectivo texto introdutório e explicativo. O primeiro volume trazia, assim, uma parte dedicada às tiras diárias de Floyd Gottfredson, outra ao detective Sir Lock e outra à 'Patrulha Estelar' que trazia Mickey e Pateta como astronautas e heróis futuristas; já o segundo tomo trazia secções alusivas aos principais coadjuvantes e personagens secundários do universo de Mickey, como o Capitão Plim, o extraterrestre Esquálidus e o inevitável Pateta – embora, estranhamente, deixando de fora nomes tão icónicos como João Bafo-de-Onça, Mancha Negra e, claro, a namorada do herói, Minnie. Deste volume faziam, ainda, parte um texto genérico sobre outros personagens, um 'cantinho do artista', onde eram publicados alguns desenhos enviados para a editora por fãs do rato e respectivos amigos, e uma história interactiva, em prosa, que convidava os leitores a resolverem o mistério de onde estaria o bolo de aniversário de Mickey.


No cômputo geral, portanto, uma edição que fazia por justificar o (sem dúvida exorbitante) preço de capa, e por 'emendar a mão' após a 'derrapagem' por altura dos sessenta e cinco anos do personagem – objectivos que atingiu com louvor, perfilando-se como uma homenagem tão adequada como justa e sentida a um dos maiores personagens de banda desenhada de sempre, que (aos quase cem anos de 'vida') continua tão relevante como sempre foi.

Thursday, 27 October 2022

Quintas de Quinquilharia: O Baralho de Cartas da Eurodisney

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Nos anos 90, como hoje em dia, os jogos de cartas eram uma excelente forma de passar uma tarde bem divertida na companhia da família ou amigos; e apesar de alguns jogos serem estritamente para adultos, ou pelo menos adolescentes – casos da sueca e do póquer, que se aprendiam e continuam a aprender na mesa do bar da faculdade – outros tantos havia que eram próprios para 'todas as idades', desde os clássicos 'bisca' e 'burro' até ao 'peixinho' ou ao sempre aliciante 'jogo do polícia e ladrão', entre outros. E se estes jogos já eram divertidos jogados com um baralho 'normal' – sem muito que ver além do desenho invariavelmente 'caprichado' dos dois Jokers – ainda muito melhores se tornavam quando o baralho em causa substituía o referido Joker, e ainda os habituais reis, rainhas e valetes, com personagens de uma propriedade intelectual daquelas que atravessam gerações, nunca deixando de ser relevantes para as crianças e jovens, independentemente da época em que vivam.


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A variante aqui mostrada é a de fundo vermelho, sendo que havia também uma variante que trocava a colocação das cores vermelha e verde na imagem de 'capa'. (Crédito da foto: Etsy)


Era, precisamente, esse o caso com o baralho de cartas da Eurodisney, lançado para coincidir com a abertura daquele espaço mítico para as crianças da época (em 1992) e que, além de trazer o Rato Mickey no verso de todas as cartas, onde normalmente estaria um desenho tipo 'mandala' ou um padrão de losangos, o colocava ainda no papel de rei do baralho, com a namorada Minnie, inevitavelmente, como rainha, e o 'melhor inimigo' Pato Donald a fazer as vezes de valete, dando aos jovens jogadores algo mais interessante do que as habituais figuras para que olhar enquanto esperavam a sua vez – algo que nem mesmo os também populares baralhos promocionais (com uma qualquer marca no verso das cartas) logravam fazer.


Escusado será dizer que este pequeno toque, e a associação a alguns dos mais populares personagens de BD da Disney e ao seu ultra-popular parque de diversões em França, foi suficiente para tornar este baralho num retumbante sucesso, daqueles que se levavam dentro do estojo ou da pasta para a escola, a fim de mostrar aos amigos e de ensaiar umas 'jogatanas' no recreio. Infelizmente, a sua ligação à Eurodisney relegou, também, este baralho à condição de 'produto de época', cujo interesse se esbateu um pouco à medida que o parque foi perdendo a sua popularidade inicial (para além de ter sido, ao longo dos tempos, substituído por outras versões, de grafismo mais actualizado); ainda assim, quem, à época, teve este primeiro baralho com Mickey e companhia – quer na sua versão de fundo verde, quer na variante com fundo vermelho - certamente ainda hoje o recorda, e - quem sabe - talvez até o continue a escolher sobre todos os outros baralhos na altura de organizar umas partidas com a família...

Wednesday, 13 April 2022

Quartas aos Quadradinhos: Álbum Disney - Mickey

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


De inícios da década de 80 ao dealbar do novo milénio, a editora Abril Morumbi (mais tarde apenas Abril) foi sinónima com a publicação de banda desenhada Disney nas bancas portuguesas, sendo praticamente impossível encontrar um produto literário da companhia americana que não tivesse a chancela da casa luso-brasileira; mas enquanto que a maioria dos títulos lançados pela editora eram e continuam a ser fáceis de encontrar, um ou outro conseguiu, ainda assim, reter um estatuto obscuro o suficiente para, à entrada para a terceira década do século XX, poder ser considerado Esquecido Pela Net.


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Frente e verso da capa do álbum


É o caso do volume que hoje apresentamos, uma publicação de 1990 que leva o tão descritivo quanto anónimo título de 'Álbum Disney - Mickey' - uma designação genérica o suficiente para dificultar (e muito!) a procura de informação sobre ele na Internet, especialmente dada a quantidade de colecções diferentes lançadas ao longo dos anos, precisamente com o mesmo título, algumas das quais já aqui abordadas. Este 'Álbum Disney´ nada tem a ver com qualquer delas, sendo (tanto quanto podemos aferir) uma entidade única, e uma experiência nunca repetida pela Abril - o que talvez ajude a explicar o seu estatuto obscuro no panorama da banda desenhada nacional.


Seja qual for o motivo para a sua situação actual, o certo é que este álbum não merecia tal fado, dado tratar-se não só de uma experiência válida, mas também de uma aquisição indispensável para qualquer interessado na História da banda desenhada, tanto da Disney quanto em geral. Isto porque, ao contrário de outras edições especiais da Abril (como os álbuns criados em exclusivo para uma promoção da Nestlé) o livro não apresenta qualquer história (à época) contemporãnea do protagonista, assumindo, logo desde a capa, a sua intenção de servir como veiculo para a publicação em Portugal de histórias clássicas de Mickey e companhia - no verdadeiro sentido da palavra, já que a totalidade do material contido nas suas páginas foi publicado quase sessenta anos antes da edição do próprio álbum, na década de 1930!


De facto - de acordo com as curtas mas informativas notas presentes no início e a meio do livro - as quatro histórias (mais uma mão-cheia de 'tiras') que perfazem esta obscura publicação começaram por surgir, em formato serializado, nos jornais em que as histórias de Mickey eram publicadas, entre 1932 e 1938; e apesar de, aqui, surgirem em formato 'corrido', é ainda bastante evidente onde cada porção originalmente acabava.


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Uma página de 'O Covil de Wolf Barker', demonstrativa do estilo de Floyd Gottfredson (esquerda) e o frontispício e página de notas de 'Hoppy, o Canguru' (centro e direita).


Nada, no entanto, que diminua a experiência de ler estas 'pérolas', a maioria da autoria de Floyd Gottfredson, um dos mais lendários artistas dos primeiros tempos do estúdio, Da pura aventura de 'O Covil de Wolf Barker' (cujo enredo caberia perfeitamente numa revista Mickey dos anos 80 ou 90) à comédia de 'Os Sobrinhos do Mickey' e 'Hoppy, o Canguru' (ambos também adaptados para desenho animado) há neste livro material para satisfazer todos os gostos, sempre com o atractivo extra do contexto histórico, que torna a leitura ainda mais prazerosa para qualquer conhecedor de BD.


Fica, pois, claro, que este 'Álbum Disney' não merece, de todo, o esquecimento a que foi (seja pela sua raridade, pelo título excessivamente genérico, ou por qualquer outro motivo) vetado; e embora se afigure praticamente impossível encontrá-lo à venda hoje em dia, vale bem a pena a qualquer apreciador da era de ouro da banda desenhada Disney o esforço extra para tentar adquiri-lo - quanto mais não seja, pelo valor histórico que apresenta...

Wednesday, 16 February 2022

Quartas aos Quadradinhos: Os Álbuns de Capa Dura da Disney e Nestlé

NOTA: Esta é a versão expandida deste post, que foi inicialmente publicado com bastante menos dados, e um texto mais vago. 


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Às vezes, há coisas assim. Uma editora quase monopolista de um determinado sector decide editar algo um pouco mais elaborado e sofisticado, de modo a assinalar um marco, e essa obra, em vez de se tornar um estandarte do seu catálogo, cai quase totalmente no esquecimento, largamente ofuscada na memória colectiva por edições bem mais corriqueiras e banais.


É, precisamente, essa a situação em que se encontram dois livros de capa dura lançados pela Editora Abril em 1992, em exclusivo para a Nestlé, presume-se como parte de uma qualquer promoção.


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E dizemos 'presume-se' porque, à parte UMA ÚNICA fotografia oriunda de um leilão actualmente activo no OLX, não existem quaisquer informações sobre estes dois livros na Net. Rigorosamente NADA. Se o volume centrado no Rato Mickey não sobrevivesse, ainda hoje, na estante lá de casa, não teríamos ficado a saber da sua existência, nem do contexto em que foi publicado. Assim sendo, podemos, pelo menos, falar – ainda que MUITO brevemente – sobre esse volume e o seu congénere, respeitante ao outro personagem principal das BD's Disney da época, o Pato Donald.


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As únicas informações sobre os volumes encontram-se na secção de detalhes técnicos no interior da primeira página


Tendo como título, tão-somente, o nome do personagem que focam (o que, convenhamos, também não ajuda à pesquisa) os mesmos apresentam capas que sugerem um clima de festa, com Donald e Mickey vestidos com roupas 'radicais', bem na moda para o período em causa, sobre um fundo de serpentinas. A apresentação é, aliás, toda ela luxuosa: tratam-se de álbuns de capa dura e lombada grossa, que, caso tivessem estado disponíveis nas bancas, teriam sem dúvida tido um preço de revenda elevado.


Os conteúdos, esses – pelo menos no respeitante ao volume constante da nossa colecção –pouco têm, infelizmente, de especial. Àparte a apresentação cuidada e o formato cartonado, de livro 'a sério', estas duas obras em nada diferem da comum revista de BD Disney comercializada pela própria Abril à época, podendo perfeitamente ter sido comercializados como um dos volumes do Hiper Disney ou Show Disney sem que se tivesse notado grande diferença. Isto porque nem as habituais secções inerentes a livros deste tipo – como resumos da história dos personagens, cronologias, etc. - se encontram presentes em qualquer dos dois tomos, que apresentam a primeira história logo a seguir à folha de capa, e a última logo antes da habitual folha em branco das costas – exactamente como se de uma publicação semanal normal se tratasse. O aspecto exterior tem, pois, uma função puramente estética, fazendo com que estes livros pareçam algo especial e exclusivo, e que valha a pena porfiar para conseguir no contexto desta promoção; e, nesse aspecto, há que admitir que os mesmos são bem sucedidos.


Quanto à raridade (ou não) das histórias incluídas em cada volume, não nos podemos, infelizmente, pronunciar – para nós, em criança, tratavam-se de escolhas perfeitamente vulgares, mas é bem possível que tal não seja, necessariamente, o caso, ganhando assim estes livos um atractivo adicional à aquisição. Sem esse chamariz, no entanto, a mesma apenas é justificada pelas capas muito bem conseguidas, e que sem dúvida se integram muito bem na colecção de qualquer aficionado de banda desenhada; de resto, não é difícil perceber porque, num Portugal que ainda compra, vende e troca em larga escala as revistas Disney publicadas pela Abril - especialmente as mais raras, como é o caso - estes dois volumes constituam, até agora, o melhor exemplo de um produto verdadeiramente Esquecido pela Net...


 

Wednesday, 14 July 2021

Quartas aos Quadradinhos: O Suplemento de Banda Desenhada Disney do Jornal Expresso

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Depois de termos feito das revistas Disney da Abril Morumbi o tema de uma das primeiras edições das Quartas aos Quadradinhos, voltamos hoje a falar dos mais famosos personagens de banda desenhada de sempre, desta vez para abordar um tema que, na altura, abordámos mas não aprofundámos: a presença dos mesmos em contextos externos ao das revistas que periodicamente chegavam às bancas.


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O primeiro fascículo do suplemento, datado de 1991


Especificamente, vamos hoje falar do singelamente chamado ‘suplemento Expresso Abril Jovem’, uma adição auto-explicativa ao popular semanário durante a primeira metade dos anos 90, e que, como o nome indica, almejava trazer a banda desenhada da Disney a um público (ainda) mais alargado, que talvez não prestasse atenção à secção de BD do quiosque ou papelaria local, mas que potencialmente se interessaria se as histórias viessem inseridas no seu jornal do costume.


A verdade é que, qualquer que fosse a motivação por trás desta iniciativa, a mesma resultou em cheio; a inserção destes fascículos no semanário de referência em Portugal não só dava aos mais jovens algo para ler enquanto os pais assimilavam o jornal em si, mas também lhes dava uma razão para convencerem os pais a tornar a compra do mesmo regular, caso ainda não o fosse – afinal, uma iniciativa deste tipo não pode deixar de apelar à vertente ‘coleccionista’ inata a todas as crianças.


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Uma edição comemorativa do aniversário da Gibiteca, com o popular personagem Biquinho


Quanto às histórias incluídas nestes fascículos, em nada diferiam das que se podiam encontrar, semanal ou quinzenalmente, nas revistas publicadas nas bancas. Não havia, aqui, lugar à publicação de histórias mais clássicas ou raras – eram, pura e simplesmente, as típicas histórias Disney que todos conheciam e de que todos gostavam. E se, de uma perspectiva adulta, esta característica pode parecer algo desapontante, a verdade é que as crianças da época não lhe atribuíram tanta importância; afinal, o que interessava era ter que ler, e que de preferência não fosse repetido…


Com ou sem novidades, no entanto, a verdade é que este suplemento foi popular o suficiente para continuar a formar parte integrante do semanário durante vários anos; no entanto, a sua natureza algo simplista fez, também, com que acabasse por desaparecer sem grande alarido, e sem que muita gente se desse conta. Ainda assim, uma iniciativa louvável, e que abriu caminho a outras (e ainda melhores) iniciativas conjuntas entre jornais e editoras de banda desenhada, nas décadas seguintes. Só isso já justificaria a existência deste suplemento – isto, claro, se mais justificações fossem necessárias…

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...