Showing posts with label boss ac. Show all posts
Showing posts with label boss ac. Show all posts

Monday, 12 May 2025

Segundas de Sucessos: General D - Do Céu Ao Inferno, De Pés No Chão

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Qualquer melómano velho o suficiente para ter tido interesse em música em inícios dos anos 90 não hesitará em apontar essa época como a era do nascimento do 'rap' e 'hip-hop' em Portugal, pelo menos no que ao 'mainstream' diz respeito. De facto, a primeira metade da última década do século XX marcava o momento em que o estilo musical nascido e popularizado do outro lado do Oceano Atlântico na década anterior extravasava a presença maioritariamente 'clandestina' que marcava nos bairros periféricos das grandes cidades, e 'explodia' nos ouvidos de toda uma geração de jovens prontos a receberem e assimilarem aquelas palavras de ordem e crítica social em ritmo sincopado. O culminar desta ascensão do chamado 'hip-hop tuga' seria, claro, a colectânea 'Rapública', lançada em 1994 e que popularizaria nomes como Black Company ou o produtor, Boss AC; no entanto, logo nos primeiros meses da década, já um grupo de jovens da mesma zona na Margem Sul do rio Tejo se havia aventurado na organização do primeiro festival de 'rap' nacional. Entre eles, encontrava-se um MC em ascensão, e que em breve viria a deixar a sua marca no panorama do 'rap' nacional: o moçambicano Sergio Matsinhe, mais conhecido pelo 'nome de guerra' General D.


General_D_the_godfather_of_Portuguese_hip_hop_in_L


Membro fundador dos supracitados Black Company (embora já não fosse a tempo de desfrutar dos benefícios trazidos pelo mega-sucesso 'Nadar') e envolvido em inúmeros outros projectos da cena à época, General D destacava-se pela 'africanidade' que injectava no seu 'rap'/'hip-hop', fosse no aspecto musical, fosse na grafia das letras ou mesmo na forma como as interpretava. Esta vertente algo mais original do que a média, bem como mais flexível e versátil, não tardou a colocá-lo no 'radar' de artistas mais comerciais, tendo a primeira gravação do jovem MC sido como convidado num tema dos Pop Dell'Arte, em 1990. Ainda antes de qualquer registo próprio, D surge também como um dos compositores e intérpretes da banda sonora de 'Até Amanhã, Mário', de 1993, um dos poucos filmes portugueses da época a granjear atenção por parte do público.


download (2).jpeg


Com tal nível de exposição mediática, o surgimento de registos próprios era inevitável, e, em 1994, General D lança mesmo o seu primeiro EP, o provocatoriamente intitulado 'PortuKKKal É Um Erro'. Esta denominação, aliada às letras críticas do racismo vigente na sociedade portuguesa, caíram como uma 'pedrada no charco' da bem-comportada cena musical nacional, e valeram a D a presença em muitas plataformas de debate público, para discutir os problemas vividos por imigrantes, retornados e seus descendentes no Portugal daquela época.


download.jpeg


Longe de 'descansar sobre os louros', no entanto, General D voltava ao 'ataque' menos de um ano depois, desta vez com um longa-duração, em conjunto com o grupo Os Karapinhas. O título 'Pé Na Tchôn, Karapinha Na Céu' deixa desde logo bem evidente a filosofia e atitude perante a vida de General D, embora se afirme como algo introspectivo e humilde face à barragem de ácidos comentários tecidos pelo MC nas suas letras. Um registo cáustico, mesmo para os padrões do 'hip-hop', e que posicionava General D como um dos principais 'activistas' da cena nacional, bem mais engajado e combativo do que os muito mais explicitamente comerciais Da Weasel, ou mesmo do que a maioria dos nomes presentes em 'Rapública'. O vídeo de 'Black Magic Woman' (que, ao contrário do que se possa pensar, não constitui uma versão da música dos Fleetwood Mac) estava também em alta rotação nos programas de 'videoclips' nacionais, cimentando o estatuto de Boss AC como uma das grandes 'esperanças' do 'rap' nacional, uma reputação que apenas aumentaria com participações em temas de Cool Hipnoise e Ithaka.


download (1).jpeg


O passo final na evolução de D seria, no entanto, dado apenas dois anos depois, em 'Kanimambo', o segundo (e, até hoje, último) álbum do MC. Agora acompanhado por colaboradores de luxo, como António Chainho ou o congénere brasileiro Gabriel o Pensador, o General debitava mais uma série de temas cáusticos (embora também mais trabalhados) que lhe permitiam continuar a 'somar e seguir' na cena. Uma bem-sucedida 'tournée' por Portugal, Espanha e França parecia anunciar a 'explosão' definitiva de D, o qual, concluída a mesma, se deslocaria até à Jamaica para trabalhar com os renomados Sly and Robbie...


...e não voltaria a ser visto durante quase duas décadas.


De facto, seria apenas em 2014 que um jornalista seguiria o 'rasto' de Sergio Matsinhe, vindo a encontrá-lo em Londres. Em entrevista exclusiva, o MC revelava ter passado maus momentos tanto na capital britânica como nas ruas de Nova Iorque, vivendo uma existência muito distante dos dias de glória nos palcos nacionais. A entrevista, e respectiva capa, ajudavam o General a regressar à consciência popular dos melómanos nacionais, mesmo a tempo da reedição dos seus dois registos, em 2015. O regresso aos palcos, no entanto, dar-se-ia apenas quatro anos depois, num evento na Altice Arena que reunía muitos dos 'pais fundadores' do 'hip-hop tuga' – não só General D, como também Boss AC, Black Company ou Chullage, entre outros. Um final merecidamente apoteótico para uma carreira (e vida) que foi do Céu ao Inferno, sempre de pés no chão e carapinha no ar, e que continua, até hoje, a deixar a sua marca em todo um movimento musical.

Tuesday, 1 October 2024

Segundas de Sucesso: Trinta Anos de 'Rapública', a 'Mãe' do Movimento Hip-Hop Português

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 30 de Setembro de 2024.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Há quase exactos trinta anos, no Verão de 1994, ao aparecimento e rápida popularização de um novo género musical em Portugal: o rap/hip-hop cantado em Português. Até então confinado a 'rodas' e batalhas 'freestyle' nas ruas dos bairros pobres das duas grandes Áreas Metropolitanas, o estilo almejava, nesse ano, conquistar finalmente as ondas radiofónicas, muito por conta da compilação 'Rapública', e do mirabolante sucesso obtido pelo 'single' 'Nadar', dos Black Company, cujo refrão se tornou ubíquo nos recreios portugueses durante o ano lectivo seguinte. Mais do que veículo para um dos mais famosos e icónicos 'one-hit wonders' portugueses, no entanto, a referida colectânea serviu como instrumento de divulgação do estilo às massas, e subsequente criação de oportunidades para novos e desconhecidos artistas dentro do género.


Rapública.jpg


Inicialmente concebida como mostruário do vibrante movimento hip-hop que vinha nascendo na Margem Sul do Rio Tejo, em localidades como o Barreiro, Almada, Amora ou Seixal, 'Rapública' era uma ideia do MC e produtor luso-caboverdiano Ângelo César Firmino – mais conhecido pelo 'nome de guerra' Boss AC – que estenderia convites aos grupos do seu 'círculo', mostrando-se mesmo disposto a alargar o espectro geográfico da colectânea com um convite aos Mind Da Gap, pioneiros da cena portuense que viria, anos depois, a 'eclipsar' a lisboeta. Face à recusa de Ace, Presto e Serial, no entanto, AC avançaria com um alinhamento de apenas cinco artistas (incluindo o próprio), cada um com uma 'amostra' de dois temas.


A acompanhar Boss nesta pioneira empreitada estariam Family, Zona Dread, Líderes da Nova Mensagem e, claro, Black Company, que em breve mostrariam o 'poderio' do hip-hop nacional a uma faixa alargada de ouvintes; em comum, os cinco artistas tinham a escolha do português para as letras (embora três temas surgissem em língua inglesa, e um em crioulo cabo-verdiano), e o carácter contestário e crítico das mesmas, como era apanágio da primeira vaga do género. Para 'single', era escolhido 'Nadar', um tema de letra menos 'dura' e refrão contagiante, cujo sucesso ultrapassaria quaisquer expectativas que os músicos pudessem ter alimentado, tornando-se o tema por excelência do Verão de 1995 em Portugal e ajudando a colectânea a vender umas impressionantes quinze mil cópias no primeiro ano, número que faz dela, ainda hoje, um dos discos do género mais vendidos em Portugal.



A principal consequência deste impacto inicial seria, no entanto, a demonstração de viabilidade do hip-hop enquanto género 'mainstream' em Portugal, que levaria, nos anos segiintes, à formação de uma cena pujante, bi-partida entre Lisboa e o Porto, e que revelaria bandas e artistas como Da Weasel, General D ou o próprio Boss AC, além de Mind Da Gap e Deallema, mais a Norte. Em suma, o movimento hip-hop português talvez não tivesse sido possível nem viável sem a coragem de Boss AC em lançar esta histórica colectânea, e as capacidades compositivas dos Black Company, que conseguiram pôr Portugal a cantar sobre os problemas de jovens pobres de bairros suburbanos durante um Verão inteiro. Razões mais que suficientes para darmos algum espaço à 'mãe' do chamado TugaHop, no ano em que se celebram exactos trinta anos sobre o 'nascimento' oficial do género.

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...