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Sunday, 27 March 2022

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - O Boavista Como Viveiro de Talentos

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


O que têm em comum nomes como João Vieira Pinto, Nuno Gomes, Ricardo ou Bosingwa? Para além de terem sido alguns dos melhores jogadores nacionais de finais do século XX e inícios do XXI, todos eles emergiram do mesmo clube, um verdadeiro 'viveiro de talentos' durante a última década do Segundo Milénio: o Boavista.


Sim, o Boavista – o histórico 'segundo grande' da cidade do Porto que - antes de produzir um dos primeiros choques desportivos do novo milénio ao vencer, de forma totalmente inesperada, o Campeonato Nacional da Primeira Divisão, na primeira época completa do século XXI – se afirmava como 'incubadora' de jovens futebolistas talentosos, que se 'mostravam' na equipa principal antes de, invariavelmente, partirem para mais altos vôos.


Destes, talvez o mais notável tenha sido um jovem loiro e de baixa estatura, descrito pelo então Seleccionador Nacional sub-20, Carlos Queiroz, como tímido e de falas mansas, mas que dentro de campo se afirmava como um líder, graças à sua técnica apurada, raça, classe e talento.


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João Pinto, aqui ao serviço do clube pelo qual se celebrizou


Falamos, claro, de João Vieira Pinto, cujas duas primeiras passagens pela equipa principal do clube onde se formara (em 1988-89, ainda com idade júnior, e novamente em 1991-92, já depois da revalidação do título mundial de sub-20 e de uma bem-sucedida temporada em Espanha) se saldaram num total de 51 jogos e 12 golos – números bem distantes dos que viria a conseguir mais tarde, enquanto estrela absoluta e campeão por ambos os rivais da capital, mas já indicativos do talento que 'morava' naquele corpo franzino. Melhor, mesmo após a afirmação, JVP nunca esqueceu as suas origens, regressando uma terceira vez ao Boavista, já em final de carreira, mas ainda a tempo de fazer duas épocas em grande nível, contribuindo com 57 jogos e 11 golos, uma marca muito semelhante às que conseguira enquanto jovem talento dos axadrezados. E embora não tenha terminado carreira na casa que o viu nascer (foi mais acima, em Braga) o talentoso avançado continua, ainda assim, a merecer o seu estatuto como lenda do clube nortenho.


Mas embora João Pinto seja a 'estrela' mais imediatamente associada ao Boavista, existiu outro nome cuja carreira rivaliza com a do franzino criativo, tendo partido da mesma casa-mãe: Nuno Miguel Soares Pereira Ribeiro, mundialmente conhecido pelo seu apelido-alcunha, Nuno Gomes.


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Tendo, como JVP, feito a sua formação no clube axadrezado, o avançado chegou a alinhar na equipa principal do clube do Bessa durante três épocas – nas quais participou em 79 jogos, marcando 23 golos – antes de chamar a atenção do Benfica, clube com o qual é inevitavelmente (e merecidamente) associado, e do qual se tornaria histórico. Pelos encarnados, foram quase 300 partidas ao longo de 12 épocas (divididas em duas passagens, separadas por uma aventura de duas épocas em Itália, ao serviço da Fiorentina) que lhe valeriam lugar cativo na Selecção Nacional portuguesa, pela qual marcou golos importantes e memoráveis em competições como o Euro 2000 (cinco golos, incluindo um 'bis' à Turquia e o golo da confirmação da 'remontada' e vitória contra a Inglaterra) ou Euro 2004, onde marcou o golo da vitória sobre a Espanha. E embora a sua carreira tenha terminado de forma discreta – com passagens por Braga e Inglaterra, no Blackburn Rovers – é difícil negar a Nuno Gomes o estatuto de segundo maior nome alguma vez saído das escolas do Boavista.


E se os dois primeiros dessa restrita lista são avançados, o terceiro joga no extremo exactamente oposto do campo – à baliza.


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Já terão adivinhado tratar-se de Ricardo, o futuro guarda-redes titular do Sporting e da Selecção Nacional, que começou a carreira profissional como suplente do eterno William Andem, histórico máximo do clube durante a década de 90, com quem se bateria pela titularidade durante as sete épocas seguintes. E apesar de William ser o nome mais associado com a baliza do Boavista durante o referido período, seria com Ricardo entre os postes que a agremiação do Bessa conquistaria o referido campeonato, em 2000-2001.


O resto da história é bem conhecido, tendo o atleta cuja carreira se iniciara no modesto Montijo granjeado um lugar na mesma Selecção Nacional onde figuravam Nuno Gomes e João Vieira Pinto, bem como uma transferência para os 'leões' de Lisboa, ao serviço dos quais disputaria quase 120 partidas, ao longo de quatro anos. Do Sporting, saiu para o Betis, onde apenas se conseguiu afirmar na primeira das três épocas que passou com o clube, naquilo que se pode considerar uma aposta, infelizmente, gorada; a partir desse ponto, a carreira do guardião entrou em ciclo descendente, tendo terminado de forma ainda mais discreta que a de Nuno Gomes, com passagens anónimas pelo Leicester City, de Inglaterra, Vitória de Setúbal e Olhanense, onde viria a 'pendurar as botas' em 2014, tendo já granjeado um merecido estatuto como um dos melhores guardiões portugueses da era moderna, e mais um talento a emergir do relvado do Bessa.


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Já no novo milénio, o Boavista veria, ainda, um último produto das suas escolas noventistas despontar para o mundo do futebol: José Bosingwa, lateral-direito que se viria a tornar indiscutível do 'vizinho' FC Porto, bem como da Selecção Nacional pós-Geração de Ouro, antes de emigrar para o estrangeiro, primeiro para Inglaterra (onde continuaria a brilhar de azul, e sob a tutela de José Mourinho, agora ao serviço do Chelsea), depois para a Escócia, para representar o Q. P. R., e finalmente para a Turquia, onde terminaria a carreira após três épocas no Trabzonspor. E embora a sua passagem pelo clube axadrezado tenha sido bem mais discreta do que a dos nomes anteriormente mencionados, o lateral merece, ainda assim, uma referência quando o assunto são talentos saídos da 'fábrica' do Bessa durante a década de 90.


E embora a hegemonia do Boavista neste particular não tenha sobrevivido à viragem do milénio, uma coisa é certa: o clube axadrezado pode, com toda a legitimidade, gabar-se de ter, durante os últimos anos do século XX, produzido e oferecido ao futebol mundial um naipe de grandes nomes, que honrarariam subsequentemente o nome do seu clube formador numa miríade de grandes palcos, tanto nacionais como internacionais.

Sunday, 13 June 2021

Domingo Desportivo: Especial Europeu - Recordando o Euro '96

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


E porque precisamente este fim-de-semana se celebra uma ocasião única no seio do futebol internacional – um Campeonato Europeu disputado no Verão de 2021, mas anacronisticamente chamado Euro…2020 – nada melhor do que recordar aquele que foi, para as crianças da ‘nossa’ década, um dos primeiros e mais marcantes contactos com o futebol ‘de selecções’, e que, devido ao referido anacronismo, acaba mesmo por ver o seu 25º aniversário ser celebrado com a realização de outro certame do mesmo género.


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Falamos, é claro, do Euro 96, disputado em Inglaterra entre 8 e 30 de Junho desse ano, e que marcaria o regresso das grandes competições internacionais ao ‘berço’ do futebol, após exactas três décadas – daí o slogan da prova, ‘football’s coming home’.


Nostalgias à parte, no entanto, a maior influência deste campeonato para o futebol moderno foi mesmo o facto de ter sido utilizado como prova-modelo para a implementação definitiva do modelo competitivo pelo qual os Campeonatos Europeus modernos ainda hoje se regem, com 16 equipas (o dobro de campeonatos anteriores) divididas em grupos de apuramento de quatro equipas cada, das quais duas são eliminadas e outras duas seguem para as fases eliminatórias da prova.


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A nova configuração das fases de grupos introduzida pelo Euro 96


Embora alguns dos nossos leitores mais velhos possam ainda recordar o Euro 92, o Mundial de 90 ou até de algum ou outro campeonato da década anterior, para a maioria das crianças nascidas na década de 80, o binómio Mundial 94 – Euro 96 representa a primeira memória relacionada ao futebol internacional, e a primeira vez que o futebol não-clubístico foi seguido com verdadeiro interesse. E se no caso do Mundial o principal motivo de interesse se prendia com o exoticismo de o certame ser realizado num país com pouca ou nenhuma tradição futebolística, no caso do Euro 96, havia um ‘gancho’ adicional, nomeadamente a participação de uma selecção portuguesa em ascensão, conduzida, pela primeira de muitas vezes, pelos elementos da equipa bicampeã do Mundo de sub-20 – a chamada ‘Geração de Ouro’.


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A Selecção portuguesa de 1996


De facto, o Euro 96 marcava o início da ‘era de ouro’ da Selecção Nacional portuguesa, cujo percurso durante os próximos dez anos se daria em claro ascendente, culminando na quase-vitória em pleno solo ‘caseiro’, durante o Europeu de 2004. Em 1996, no entanto, esta equipa-maravilha apresentava-se ainda em fase embrionária, já com todos os elementos no sítio, mas sem a química quase maquinal que os seus elementos viriam a adquirir com o passar dos anos.


Ainda assim, a prestação de Portugal no Campeonato Europeu de meados da década de 90 seria valorosa e meritória – ainda que, em muitos aspectos, frustrantemente típica. Exemplo disto mesmo foi a fase de grupos de ‘serviços mínimos’, que se iniciaria com um empate frente à Dinamarca dos irmãos Laudrup, e prosseguiria com um ‘meio a zero’ frente à poderosa Turquia; quando já estava tudo a fazer ‘contas à vida’ no entanto, a Selecção Portuguesa fez aquilo a que, durante os próximos anos, habituaria os adeptos, ‘esmagando’ por 3-0 a Croácia de Suker e companhia, e usurpando à mesma, por apenas um ponto, o primeiro lugar do grupo.


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Classificação final do grupo D


No entanto, no jogo dos quartos-de-final da prova, a equipa nacional voltaria a estar ‘igual a si mesma’ (ou, pelo menos, àquilo que viria a ser) sendo eliminada pela República Checa, na sua primeira participação enquanto país independente, com um golo solitário de Karel Poborsky, uma das estrelas reveladas nesta competição. Uma saída agri-doce, até porque o jogo foi bem disputado e renhido, mas ao mesmo tempo um ensaio de preparação para a sensação que os adeptos portugueses se viriam a habituar a sentir  muitas e muitas mais vezes ao longo dos anos seguintes – a sensação do ‘foi quase’. Porque, sim, foi quase – mas…


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Os onzes iniciais do jogo dos quartos-de-final entre Portugal e a República Checa


Fica a consolação de, pelo menos, a equipa que eliminou as Quinas ter sido uma das eventuais finalistas, constituindo talvez a surpresa da prova ao ‘dar luta’ à Alemanha de Lothar Matthaus, acabando por sucumbir por honrosos 2-1. Mais uma vez, esta viria a ser a primeira instância de uma ocorrência recorrente para Portugal em provas internacionais – a de ser eliminado por uma equipa finalista da prova.


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O homem do jogo dos quartos-de-final, Karel Poborsky, em disputa com o central português Fernando Couto


Enfim, em muitos aspectos, o Euro 96 foi uma espécie de primeiro ensaio para aquilo que viria a ser o futebol internacional português durante as duas décadas seguintes – um futebol bonito, esforçado, com lampejos de génio, mas que acabava sempre por se ficar pelo ‘quase’. A situação viria a mudar, é claro, exactos 20 anos após o certame em causa, quando muitos dos mini-adeptos que com ele vibraram eram já, eles próprios, pais de mini-adeptos que vibraram com a turma de Ronaldo e companhia.


Os mais velhos, no entanto, não poderão, ainda hoje, deixar de recordar o ponto de partida dessa gloriosa odisseia, que pode ter continuidade já daqui a poucas semanas – aquele Verão de 96 em que uma equipa de vermelho e verde, oriunda de um pequeno país mediterrânico, tentava replicar o sucesso atingido pelas suas camadas jovens alguns anos antes, e afirmar-se como potência a ter em conta no panorama do futebol internacional. Objectivo que, aliás, viriam a cumprir, ainda que para tal tivessem que esperar até à década, século e milénio seguintes…

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...