Monday, 31 May 2021

Segundas de Séries: Samurai X

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


O primeiro post 'a sério' deste blog, precisamente uma Segunda de Séries, foi dedicada à série de ‘anime’ mais vista de sempre em Portugal, 'Dragon Ball Z'. O post de hoje é dedicado à segunda colocada nessa ‘corrida’ em particular, a saga de um espadachim a soldo no Japão medieval e dos seus companheiros – uma jovem decidida, um órfão pré-adolescente e um ex-soldado do exército japonês. O seu nome? 'Rouronin Kenshin', mais frequentemente conhecida como 'Samurai X'.


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Originalmente produzido entre 1995 e 96, o relato animado das aventuras de Kenshin Himura ‘Battousai’ – o Samurai do título –  chegaria a Portugal já ao ‘cair do pano’ do século XX (e do segundo milénio), ainda a tempo de cativar toda uma geração de jovens, e de aumentar exponencialmente a média de idades dos espectadores do progama onde estreou, o Batatoon. De facto, o ‘anime’ foi das poucas séries de índole mais séria veiculadas pelo popular segmento infanto-juvenil da TVI, e a sua colocação na grelha do mesmo - onde era o primeiro desenho animado a ser exibido - fazia com que muitos dos espectadores mais velhos, pouco ou nada interessados no programa em si, dessem um ‘saltinho’ ao quarto canal durante a meia-hora que durava a série, e mudassem para outra emissão logo a seguir. Quanto aos mais novos – o público-alvo do Batatoon propriamente dito – a série era, para eles, não menos cativante, especialmente pelo seu carácter mais violento (embora em moderação) relativamente aos restantes ‘animes’ transmitidos em Portugal à época, como Sailor Moon.


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O memorável grupo de personagens principais da série.


Este apelo transversal, e quase universal, devia-se a um simples factor: ‘Samurai X’ estava muito, mas mesmo muito bem feito. O material original já era, em si mesmo de grande qualidade – bem escrito, com animação fluida e excelentes temas de abertura e, principalmente, fecho – e a dobragem portuguesa ainda adicionava mais charme ao todo, sendo universalmente considerada uma das melhores e mais cuidadas alguma vez feitas no nosso país (neste aspecto em particular, ‘X’ era o exacto oposto de ‘Dragon Ball Z’, que ficou bem conhecido pela sua ‘gag dub’ maioritamente improvisada.) Os enredos eram empolgantes (e apropriados a todas as idades, o que também não deixava de ser raro) e o esforço de todos os envolvidos com a tradução e localização da série era evidente a cada episódio. Os jovens – que, ao contrário do que normalmente se pensa, são tudo menos parvos – reconheceram essa dedicação, e transformaram ‘Samurai X’ num ‘hit’ de culto, longe da popularidade estratosférica de ‘Dragon Ball Z’, mas ainda saudosamente recordado pela maioria dos ‘putos’ daquela época.



Embora não caísse nos extremismos de 'Dragon Ball Z', 'Samurai X' deixava lugar aos momentos de humor semi-improvisados.


Com a dose certa de mistério, aventura, acção e um toque de humor bem característico, ‘Samurai X’ merece o lugar que ainda ocupa entre os ‘otakus’ portugueses crescidos nos anos 90 – e que, mesmo desde então, apenas ‘Naruto’ conseguiu ameaçar…



Os temas de abertura e fecho do 'anime' ,tão cuidados e memoráveis como os restantes aspectos técnicos

Domingo Desportivo: Um Programa de Basquetebol Faaaaan-tástico!

NOTA: Este post é correspondente a Domingo, 30 de Maio de 2021.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


E porque atualmente se vai desenrolando uma emocionante série de cinco jogos destinada a apurar o Campeão Nacional de Basquetebol, nada melhor do que recordar o programa que apresentou este fascinante desporto a toda uma geração, em plena ‘Golden Age’ do mesmo no seu país natal, e durante uma época de ‘vacas magras’ a nível nacional.


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Falamos, claro, do NBA Action, o saudoso programa da RTP2 que terá convertido muitos ‘90s kids’ em fãs confessos da liga profissional de basquetebol norte-americana (a famosa NBA) e de jogadores como ‘Magic’ Johnson, Shaquille O’Neal, Patrick Ewing, Dennis Rodman e, sobretudo, Michael Jordan. Numa época em que os jogos de computador e consola ainda estavam longe de conseguir capturar as emoções fortes e ritmo alucinante de um jogo de verdade, um programa como este – declaradamente estruturado como uma compilação dos melhores momentos de cada jornada do referido campeonato – eram o melhor veículo para transmitir a essência do que era o basquetebol de alta competição da época.



Um exemplo típico do conteúdo do programa


E a verdade é que era difícil a qualquer criança não se entusiasmar com os lances artísticos, contra-ataques e ‘afundanços’ característicos do principal campeonato mundial da bola ao cesto – ainda mais quando estavam montados de forma tão emocionante quanto neste programa, e relatados pelas carismáticas vozes de Carlos Barroca (conhecido por se despedir desejando aos espectadores ‘a continuação de um dia faaaaaaan-tástico!’) e João Coutinho, dois apaixonados do basquetebol cujo gosto pelo desporto transparecia nos seus relatos, tornando os jogos tão emotivos para os espectadores como para os comentadores.


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Carlos Barroca, um comentador 'faaaaan-tástico!'


Com as suas rápidas sequências de jogadas mirabolantes, culminando na inesquecível lista das ’10 melhores jogadas da semana’, e comentários apaixonantes (e apaixonados) o ‘NBA Action’  constituía uma excelente maneira de passar uma hora em frente à televisão, numa tarde preguiçosa de Sábado, e um ainda melhor veículo para fomentar uma nova paixão junto dos jovens espectadores – não será por acaso que, depois da estreia do programa, houve um abrupto aumento nas vendas de ‘merchandising’ alusivo a basquetebol entre a juventude portuguesa…


Claro que, numa era em que o resumo de qualquer jogo está disponível no YouTube minutos depois do fim do mesmo, e em que a televisão portuguesa conta com múltiplos canais desportivos, um programa como o ‘Action’ já não faz grande sentido; ainda assim, esta bem-sucedida tentativa da RTP nos anos 90 serve como forma de recordar uma época menos ‘conectada’ e imediatista, em que o espectador médio dependia deste tipo de formato para saber o que se ia passando no seu desporto favorito, ou até conhecer novos desportos de eleição…

Sunday, 30 May 2021

Saídas ao Sábado: A Ida ao Café

NOTA: Este post corresponde a Sábado, 29 de Maio de 2021.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


E porque o tempo já vai aquecendo e o sol pede para ser aproveitado, falaremos hoje de um dos grandes ‘rituais’ de infância, tanto nos anos 90 como ainda hoje: a ida ao café.


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Em criança, antes de o nosso sistema ser ‘treinado’ para associar esplanadas e pastelarias ao consumo de café ou cerveja, uma visita a um destes espaços – normalmente na companhia dos pais – significava uma coisa, e uma coisa apenas: um bolo. Podia haver alguns atractivos extra, fossem eles um sumo, uma pastilha elástica ou ‘chupa’, um pacote de batatas fritas ou cigarros de chocolate (quando ainda os havia), uma oportunidade de ajudar os pais com o Totoloto ou Totobola, ou simplesmente um golo do café ou um pouco de espuma da cerveja dos adultos; no entanto, para nós, estes eram apenas complementos para a verdadeira peça central, sem a qual a experiência não ficava completa. Uma criança que estivesse sentada numa esplanada e não tivesse à sua frente um pão de leite, arrufada, queque, bola de Berlim, ‘croissant’, bolo de arroz ou até mesmo um Bollycao, sentia que faltava algo naquele passeio – algo que era, de imediato, sanado, assim que um dos produtos atrás elencados, ou outro equivalente, lhes aparecesse na mesa. Prazeres simples, mas que muitos de nós continuamos a apreciar vinte ou trinta anos depois (por aqui, a perdição é por ‘croissants’ com creme, bolas de Berlim bolo xadrez ou torta de laranja, por esta ordem.)


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Confessem lá - ainda hoje a experiência de ir tomar café não fica completa antes deste momento...


Mais tarde, já adolescentes, a ida ao café tomava toda uma nova dimensão. Uma saída deste tipo era, agora, uma oportunidade de conviver com os amigos e vivenciar a mesma experiência de sempre de uma perspectiva ‘de gente grande’ (quem se esquece da primeira ‘bica’ tomada à frente dos pares?) Os ‘chupas’, batatas fritas, pastilhas, sumos e sobretudo os bolos continuavam presentes (só os cigarros já não eram de chocolate), mas deixava de ser necessário pedir autorização, ou depender da vontade dos adultos sobre quando e onde os comprar. A ida ao café, nos tempos do secundário, era um ritual de passagem à vida adulta, complementar a tantos outros que se experienciavam durante esses anos formativos – e bastante mais prazeroso do que a maioria deles.


Conforme se referiu anteriormente, este não é exactamente um ritual que tenha passado de moda, ou cujas características tenham mudado significativamente desde aquele tempo; não é por isso, no entanto, que ela deve deixar de ser recordada como parte integrante (e marcante) da infância de qualquer criança portuguesa dos anos 90 – ou de outra década qualquer. Fica aqui, assim, a nossa pequena homenagem a uma saída que – tal como a ida ao jardim ou ao parque infantil que relembrámos nas últimas edições desta rubrica – pode a princípio parecer insignificante, mas acaba por se revelar bem merecedora da nostalgia de toda uma geração.


 

Saturday, 29 May 2021

Sextas com Style: Os Bonés dos Anos 90

NOTA: Este post é relativo a sexta-feira, 28 de Maio de 2021.


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


E porque hoje está sol, e se aproxima o Verão, nada melhor do que relembrar uma peça essencial da ‘fardamenta’ das crianças dos anos 90: o boné.


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Embora este continue a ser um acessório muito popular entre jovens de todas as idades, existem diferenças fundamentais ao nível do ‘design’ que separam os bonés dos ‘putos’ modernos daqueles que os seus pais ou familiares usavam na mesma idade – a começar, desde logo no formato da pala. Enquanto que hoje em dia, os miúdos se orgulham de usar bonés com a pala impecavelmente e rigorosamente direita, que pode depois ser levantada para trás (os chamados ‘snapbacks’), as crianças dos anos 90 queriam precisamente o oposto. Em finais do século XX, uma pala a direito era para ‘totós’, e a mesma só era usada virada para cima quando se queria ‘gozar’, ou momentaneamente para limpar o suor da testa; antes pelo contrário, a primeira coisa a fazer ao receber um boné novo era dobrar a pala para dentro o máximo que se conseguisse, de forma a esta formar uma cúpula sobre os olhos. Só depois da pala dobrada a ‘preceito’ é que o boné era considerado apto a ser usado (pelo menos virado para a frente; se fosse para usar para trás, ao estilo ‘radical’, as regras eram menos definidas.)


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Ângulo mínimo para uma pala nos anos 90


Outra diferença entre os bonés modernos e os daquela época é a própria forma. Os bonés de hoje em dia tendem a ser altos e largos, dando a quem os usa a chamada ‘cabeça de capacete’; ora, nos anos 90, essa mesma ‘cabeça’ era, também, algo a evitar – o boné ideal ficaria ‘enterrado’ na cabeça, e apertado atrás o máximo possível sem se tornar desconfortável. O formato dos bonés produzidos naquela época traduz essa mesma preferência, sendo, regra geral, mais baixos e estreitos do que os modernos (com uma excepção, de que falaremos já a seguir.)


Estabelecidas que estão as diferenças estéticas entre os chapéus de pala do novo milénio e os do fim do anterior, resta fazer uma rápida retrospectiva dos mais populares tipos de boné encontrados em Portugal nos anos 90. E logo para começar, há que falar de um, incontornável, e que hoje em dia parece estar a retomar a popularidade de que então gozava – seja sinceramente, ou de forma irónica. Falamos, é claro, do boné de rede, esse mítico artefacto da nossa infância que todos tivemos, e que nunca ninguém conseguiu que lhe ficasse verdadeiramente bem.


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Os píncaros do estilo infanto-juvenil no início dos anos 90. Só que não...


Conhecidos nos Estados Unidos como ‘trucker hats’, por serem tradicionalmente utilizados pelos camionistas, estes bonés ganhavam o seu nome português devido ao material de que eram maioritariamente feitos. De facto, à excepção da pala e da zona frontal, o resto destes chapéus era feito de uma fina malha de rede, que tinha como objectivo deixar respirar a cabeça, para contrabalançar o efeito criado pela parte da frente, invariavelmente feita de espuma e, portanto, muito quente. O efeito geral é difícil de descrever sem se ter ‘estado lá’ – não que seja preciso; todos estivemos, certo? – mas tal como os fatos de treino daquele tempo, não é exactamente algo que recordemos como altamente estiloso. Para piorar (ou, na perspectiva infantil da época, MELHORAR) a maioria destes bonés tendiam a ser de índole promocional ou publicitária, sendo a parte da frente normalmente adornada com o simbolo ou logotipo de uma qualquer companhia (o nosso era das Edições Alfa); numa época em que era considerado ‘fixe’ ter vestuário ou acessórios alusivos a marcas de outros quadrantes, no entanto, isto não era o problema, e a ‘morte’ dos bonés de rede só se deu quando a geração em causa cresceu um pouco, olhou para aquela ‘coisa’ que usava na cabeça anos antes, se riu, e a pôs no fundo do armário. E em boa hora o fizemos…


O segundo tipo de boné comum à época era o alusivo a equipas desportivas ‘da moda’, normalmente de um qualquer desporto americano. Estes bonés tendiam a ter palas de duas cores (uma na parte superior, e a segunda na parte inferior) e a parte principal em pano de uma cor escura, normalmente preto ou azul-escuro. Tal como no caso dos bonés de rede, este tipo de chapéu tendia a estar adornado com um logotipo na parte da frente, mas ao contrário dos seus antecessores, o mesmo era bordado directamente no pano, criando um efeito muito mais uniforme. Dos tipos de boné abordados neste artigo, este era considerado o mais ‘fixe’, e qualquer miúdo de meados da década tinha pelo menos um (deste lado, o favorito foi, durante anos, um dos grandes Chicago Bulls.)


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Aquele momento em que se encontra um boné EXACTAMENTE IGUAL ao nosso dos 11 anos numa pesquisa da Google...


O mesmo, embora em menor escala, se pode dizer dos sucessores directos dos bonés de rede – os bonés promocionais de pano. Mistura exacta entre os dois tipos de chapéu anteriormente mencionados, estes bonés eram, normalmente, de uma só cor, com o logotipo bordado ou estampado acima da pala, mas de forma muito mais discreta do que no caso dos bonés de rede, criando um efeito mais sóbrio, e que ficava do ‘lado certo’ da linha invisível que separava o ‘fixe’ do ‘fatela’. Por essa mesma razão, e pela facilidade em adquirir um destes bonés – eram, à época, tão comuns como as suas companheiras espirituais, as t-shirts promocionais - a maioria das crianças tendia a ter vários por onde escolher no seu armário.


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Não encontrámos a dizer 'TMN' nem 'PT'


O único azar – pelo menos no que tocava à popularidade – era se um ou mais desses bonés fossem de elástico, em ver de ajustáveis através dos tradicionais ‘furinhos’; por alguma razão, nem mesmo bonés de elástico de marca ou de clubes se safavam do estigma de não serem ‘fixes’, pelo menos a partir de uma certa idade. Assim, só os mais ‘valentes’ – ou aqueles cujos pais ou colegas de escola menos se importavam com esse tipo de estigma – usavam este tipo de chapéu, optando os restantes por uma das opções mais ‘seguras’ descritas acimas.


‘Fixe’ ou não, de rede ou de pano, com mais ou menos costuras na pala, a verdade é que não havia criança nos anos 90, independentemente do sexo ou idade, que não tivesse e usasse pelo menos um boné – o que tornou ainda mais surpreendente o decréscimo acentuado no ‘cool factor’ deste tipo de acessórios na década seguinte. De facto, os bonés só voltariam a entrar em voga já na segunda década do novo milénio – e mesmo assim, em moldes significativamente diferentes dos seus antecessores de final do século XX. Desde então, no entanto, a popularidade desta peça tem-se mantido em alta, o que faz crer que a ‘moda’ dos bonés está mesmo de volta para ficar – com um pouco de sorte, desta vez, com menos modelos publicitários de ‘redinhas’…


 

Thursday, 27 May 2021

Quintas ao Quilo: Salteadores dos Cereais Perdidos

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Os cereais de pequeno-almoço fizeram, fazem e provavelmente continuarão a fazer parte da experiência de ser criança. Parte integrante de muitos pequenos-almoços durante os anos formativos, estes produtos apresentam a combinação perfeita entre sabor apelativo, brindes ainda mais apelativos, e uma composição suficientemente ‘no limiar’ da comida saudável para justificar o consumo repetido sem muita insistência junto dos pais. Quer sejam comidos a seco, postos no leite, ou postos na tigela para depois se deitar o leite por cima (por aqui, ainda hoje se opta pela segunda opção), os cereais são daquelas coisas que provavelmente nunca vão desaparecer, ou sequer decrescer em popularidade.


Isto não significa, no entanto, que ‘de quando em vez’ não haja cereais que fiquem para trás na grande corrida às prateleiras. Embora a maioria dos nossos favoritos da infância continuem bem presentes em qualquer superfície comercial, dos básicos Corn Flakes aos Frosties (basicamente a mesma coisa, mas com o açúcar adicionado de antemão, e mascote ‘à maneira’), Estrelitas ou Nesquik, a verdade é que houve mesmo tipos de cereal que foram retirados do mercado – alguns, inclusivamente, na época a que este blog diz respeito. O post de hoje recorda, precisamente, esses cereais que, nos anos 90, faziam as delícias da miudagem, mas que hoje se encontram total ou parcialmente defuntos – curiosamente, todos comercializados pela Nestlé, que se pode considerar ter tido algum ‘azar’ nesse capítulo na década em causa.


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O primeiro exemplo deste fenómeno a ter lugar durante o nosso tempo de vida passou-se com as Crépitas, criadas e comercializadas pela Nestlé nos anos 80, e que desapareceram das prateleiras, sem grande alarido, mais ou menos a meio da década seguinte, deixando pouco ou nenhum rasto. Embora não fosse o cereal preferido de ninguém, as Crépitas constituíam uma escolha relativamente ‘sólida’ quando não se queriam levantar muitas ‘ondas’ com os pais, e terá decerto havido quem lhes tivesse sentido a falta.


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Uma caixa norte-americana contemporânea, e semelhante, à disponível em Portugal


Ainda no início da década, um cereal de caixa vermelho-berrante, também da Nestlé, trazia para as prateleiras portuguesas um conceito irresistível, importado dos Estados Unidos: ‘marshmallows’ multi-coloridos misturados nos cereais de todos os dias. Com uma proposta de valor destas, não admira que os Lucky Charms tenham feito sucesso entre os jovens daquele tempo…!


No entanto, a dada altura, estes cereais desapareceram mesmo de circulação, sem qualquer pré-aviso, obrigando os seus muitos e desconsolados fãs a procurarem uma nova alternativa para a sua refeição da manhã. A alegada razão para esta remoção (a qual, aliás, teve efeito a nível mundial) seria o elevado teor de açúcar dos ‘marshmallows’, que ficava acima dos limites internacionais para alimentos deste tipo; problema esse que, nos anos intervenientes, terá sido devidamente sanado, visto os Lucky Charms terem regressado às prateleiras - pelo menos às americanas. Em Portugal (bem como em outros países, como o Reino Unido) estes cereais continuam a só estar disponíveis em lojas de importação, a preços absolutamente exorbitantes, e certamente proibitivos para aquele que costumava ser o seu público-alvo; já aqueles que, entretanto, cresceram e adquiriram poder de compra, até podem achar graça a dar 7 euros por uma caixa de cereais da sua infância, mas não será certamente uma experiência a repetir todas as semanas…


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Mas se os Lucky Charms regressaram (ainda que em locais específicos, e muito mais caros), outro cereal líder de vendas na década de 90 foi mesmo vítima de extinção total e completa. ‘Patrocinado’, pelo menos em Portugal, pelos sobrinhos do Pato Donald (numa inusitada parceria entre a Nestlé e a Disney) o saudoso Trio foi, como os Lucky Charms, vítima das normas que decretavam uma redução no nível de açúcar dos cereais infantis. Ao contrário do que aconteceu com os cereais do duende Lucky, no entanto, a Nestlé não parece ter arranjado maneira de sanar ESTE problema – até porque o próprio conceito do cereal tornava essa missão praticamente impossível. Ao contrário dos pedaços açucarados localizados e em número limitado dos Lucky Charms, no caso do Trio, os corantes e adoçantes eram aplicados aos próprios grãos do cereal, que surgiam em três cores (e sabores) diferentes – caramelo, mel e baunilha (daí o nome Trio, e o memorável slogan, em que um coro de crianças cantava os três sabores). Pequenas ‘bombas’ de açúcar concentrado, portanto – embora deliciosas quando posta dentro do leite, o qual tingiam com uma pálida tonalidade decorrente da mistura das três cores dos cereais. Talvez o mais saudoso dos três cereais aqui apresentados, mas também aquele cuja extinção é mais fácil de compreender e justificar.


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Dos três cereais mostrados neste anúncio de meados da década de 90, só um ainda está disponível nos dias de hoje...


O Trio foi, no entanto, a última grande perda no campo dos cereais de pequeno-almoço em Portugal; desde o seu desaparecimento, há já quase duas décadas, o leque de escolhas dos consumidores portugueses neste campo tem-se mantido mais ou menos imutável, com as mesmas gamas perenes que já existiam quando os cereais acima relembrados desapareceram. Ao contrário dos EUA, onde cada nova ‘febre’ cultural vem acompanhada de um cereal a condizer, neste país de brandos costumes à beira-mar plantado, ficamos perfeitamente satisfeitos com os nossos Chocapic e Nesquik, Estrelitas e Cheerios, Clusters, Golden Grahams, Corn Flakes e Special K. Ainda assim, vale a pena relembrar que, embora incomum, o fenómeno de desaparecimento de cereais das prateleiras não é, de todo, inédito – e pode ainda dar-se o caso de a geração actual ficar, de um dia para o outro, sem um dos seus pequenos-almoços favoritos. Nós sabemos – passámos pelo mesmo…

Wednesday, 26 May 2021

Quartas de Quase Tudo: A Literatura Infanto-Juvenil dos Anos 90, Parte 2 - Os Estrangeiros

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


…como é o caso da literatura juvenil.


Sim, hoje chegamos, já com (muito) atraso, à parte final da nossa retrospectiva sobre colecções de livros infanto-juvenis dos anos 90. E se nas duas partes anteriores recordámos alguns dos mais populares títulos totalmente concebidos em Portugal, desta feita, a vez cabe àquelas colecções que, apesar de criadas por autores estrangeiros, estiveram tão indelevelmente ligadas à maioria das infâncias portuguesas da época, que quase poderiam ser produto nacional.


Colecções como, por exemplo, a da Anita, que constituiu uma das primeiras experiências de leitura para grande parte dos ‘80s and 90s kids’, em especial para as raparigas (apesar de o melhor amigo de Anita ser um rapaz, a maioria dos leitores do sexo masculino pouco ou nada queriam ter a ver com uma série cheia de bochechas rosadas e desenhos em tons pastel.)


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Alguns dos muitos títulos da série 'Anita'


Com os seus desenhos e capas ‘fofinhos’, letras gordas e histórias inócuas de todos os dias (o primeiro e mais famoso volume da série chama-se ‘Anita Vai À Escola’, e trata precisamente disso) as aventuras da personagem originalmente criada em França como ‘Martine’ ainda hoje continuam a fazer sucesso entre a faixa etária em idade primária e pré-primária, e a constituir um ponto de partida perfeito para leituras mais a sério.


E para as crianças da (segunda metade da) década de 90, o mais natural era que essa evolução tivesse como próximo passo a colecção Arrepios. Lendária nos Estados Unidos, onde apresentou milhares de crianças à literatura de terror, a série da autoria de R. L. Stine chegou ao mercado português em 1997, num formato de revenda invulgar (os livros eram vendidos exclusivamente nas papelarias e bancas de jornais, não estando disponíveis em livrarias convencionais) e a preço muito convidativo para as escassas economias juvenis – cada volume custava apenas 250$00, aproximadamente o mesmo preço de uma revista de super-heróis ou um exemplar da Bravo ou Super Pop.


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Os dois livros do pack promocional original, de 1997


Assim, não é de estranhar que os primeiros volumes da colecção tenham sido sérios sucessos de vendas entre o público-alvo, com particular ênfase nos dois primeiros, ‘Bem-Vindos À Casa da Morte’ e ‘A Cave do Terror’, que eram vendidos ‘costas-com-costas’ num ‘pack’ promocional, em regime ‘leve 2, pague 1’. As traduções algo ‘manhosas’ – tratavam-se, afinal de contas, de edições da Abril-Controljornal – pouca importância tinham para os jovens leitores, que ‘devoraram’ estas histórias de (muito pouco) terror durante uns largos meses, tempo suficiente para a colecção chegar ao número 20. A partir desse mesmo número (uma imitação infantilizada de ‘Tubarão’, de Spielberg) deu-se uma perda de interesse tão súbita quanto inexplicável, e a colecção Arrepios passou de ser a publicação mais lida do recreio ao quase esquecimento, uma tendência que nem mesmo uma linha de livros ao estilo ‘Escolhe a Tua Aventura’ conseguiu inverter.


E já que falamos em ‘Escolhe a Tua Aventura’, esta é a altura perfeita para falar da colecção Aventuras Fantásticas, mais uma ‘febre’ de recreio que durou vários anos. Estes inesquecíveis livros, a maioria da autoria de Ian Livingstone, tinham como principal atractivo consistirem de uma espécie de jogo RPG de tabuleiro, mas em formato escrito. O jogador utilizava dados para determinar factores como a força, esperteza e capacidade mágica, e era também através de dados que se decidiam as lutas e eventos decisivos da trama – sendo que uma rodada mais desafortunada podia fazer derrocar todo o esforço anterior, e conduzir o jogador a um final infeliz.


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Algumas das muitas 'Aventuras Fantásticas' disponíveis


É claro que nem todas as crianças tinham paciência para jogar com os dados - muitas faziam ‘batota’, atribuindo os pontos aleatoriamente e voltando atrás quando as coisas não corriam bem. Ainda assim, a premissa atraente do conceito, aliada a capas igualmente bem concebidas e chamativas para o público-alvo, fez desta colecção um sucesso durante grande parte da década de 90, e uma das mais duradouras ‘febres’ de recreio da época.


E por falar em ‘febres’ duradouras, o final dos anos 90 viu aparecer uma série que, apesar de o seu maior impacto se vir a verificar na década seguinte, ainda foi a tempo de influenciar muitas crianças daquele tempo. Falamos, é claro, das aventuras de um jovem mago e seus amigos, numa escola de magia na Escócia. Sim, a saga de Harry Potter chegou a Portugal ainda nos 90s, e caivou ‘putos’ e adultos de uma forma que poucos outros livros conseguiram repetir desde então. Na altura, eram apenas três os livros disponíveis (quer em Portugal, quer no estrangeiro), e apesar de muitos dos melhores momentos da saga ainda estarem apenas na mente da autora J. K. Rowling, vale a pena destacar a influência que a série já vinha tendo sobre a juventude da época.


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Capa da primeira edição de sempre de 'Harry Potter e a Pedra Filosofal' em Portugal


E terminamos esta retrospectiva de literatura infanto-juvenil de qualidade com uma série que, apesar de menos massificada do que as outras neste post, tinha ainda assim a sua legião de fãs: os Diários Secretos do neurótico adolescente por excelência, Adrian Mole. À época, eram apenas quatro os livros que narravam as desventuras do jovem intelectual de Leicester, na sua cruzada por ver o seu génio reconhecido e conquistar a rapariga dos seus sonhos; e embora nominalmente dirigidos a um público juvenil, todos os quatro continham momentos de humor multifacetado, em que as crianças se podiam rir das piadas mais directas enquanto os adultos se divertiam com o substrato sarcástico e mordaz que os mais novos não compreendiam.


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As primeiras edições dos livros de Adrian Mole em Portugal


Esta polivalência fez com que Adrian Mole fosse relativamente bem-sucedido em Portugal - apesar de, ao contrário de outra saga de que aqui falámos, não ter sido de todo localizado, e manter muita da sua ‘britanicidade’. Ainda assim, uma série de relativo sucesso, que vale a pena incluir nesta retrospectiva.


E é precisamente com o jovem inglês que fechamos esta viagem pelas séries de livros mais marcantes dos anos 90. Havia outras, é claro, algumas já lidas por jovens de outras décadas (como as diversas séries de aventura de Enid Blyton) mas estas foram as que considerámos terem sido especificamente ‘nossas’, isto é, das crianças daquela época. Concordam? Discordam? Faltou alguma? A mesa é vossa! Entretanto, ‘keep reading’!

Tuesday, 25 May 2021

Terças de TV: PONHA! PONHA! PONHA!

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


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Uma imagem vale mais do que 200 e tal palavras


‘Ponha, ponha, ponha!!! AAAAAAIIII!!!’


Esta frase – que se tornou um ‘meme’ décadas antes de esse conceito ter sido oficialmente inventado – é, ainda hoje, a primeira coisa que vem à memória quando se fala do programa abordado neste post, a ponto de haver quem já nem se lembre do nome, mas ainda se lembre do homem careca, sentado de olhos fechados, aos gritos, enquanto lhe eram postas iguanas na calva.


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Esse homem chamava-se João Muge, e o programa, Agora ou Nunca – um conceito que, à época, até foi bastante popular, sobretudo devido à enérgica apresentação de Jorge Gabriel, mas que hoje tem como único legado esse famoso ‘clip’ e a respectiva citação, incessantemente repetida por esse país afora naqueles idos de 1997.


Baseado, como quase todos os programas nacionais à época, num formato estrangeiro (neste caso, alemão), o programa tinha uma ideia-base simples, que consistia tão somente em ajudar os concorrentes a ultrapassar as suas maiores fobias, através do comprovado método de as expor, em directo, a uma audiência de milhões de portugueses. Uma espécie de sessão de terapia televisionada, em que a maioria das fobias oscilava entre o inusitado e o ridículo, expondo, por isso, os seus detentores ao ridículo, como foi o caso com o Sr. João Muge e as suas iguanas.


Mesmo assim, a maioria dos participantes não se parecia importar grandemente com as ‘figuras’ que ia fazer para a televisão, até porque havia uma inevitável recompensa em dinheiro à espera de quem fosse ‘valente’ o suficiente para enfrentar os seus medos – e os risos da audiência. No caso de João Muge, 225 contos foram a soma recebida em troco da exposição ao ridículo no programa e (ainda que ninguém o antevisse na altura) da entrada no imaginário humorístico popular, com a sua ‘catchphrase’ a virar dichote de recreio, e Herman José – então a atravessar um momento alto da sua carreira – a satirizar a participação de Muge no programa da SIC com uma rábula na sua ultra-popular ‘Enciclopédia’. Estava, assim, criado um 'meme' que perdurou tanto que, literalmente décadas mais tarde, o próprio Jorge Gabriel viria a recriar o momento no programa '5 Para a Meia-Noite' - desta vez, tendo ele próprio a iguana na cabeça...


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O Jorge também não parece gostar lá muito da situação...


Do restante programa, restam muito poucas recordações, pelo menos para quem não foi espectador fiel ou tenha uma memória acima da média (ou ambos.) Comparados com a performance digna de um Óscar de João Muge, os restantes desafios (e respectivos ‘freakouts’) não eram, nem de longe, tão memoráveis, ainda que alguns tivessem tudo para o ser (como a pobre concorrente que, para enfrentar o seu medo de montanhas-russas, se deslocou, não até à Feira Popular de Lisboa, ou na Bracalândia minhota, mas…a Inglaterra.) Assim, vão valendo os gritos de um careca com iguanas na cabeça (e um blog nostálgico de um gajo trintão) para impedir que este tesourinho deprimente caia, de vez, no esquecimento. E para que a memória perdure, aqui fica o registo desse momento lendário da televisão portuguesa...



Vá, força - digam lá 'a frase'. Vocês sabem que não vão resistir...

Monday, 24 May 2021

Segundas de Sucessos: O 'Boom' do Pop-Rock Nacional

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


E dado que desde o início desta rubrica temos vindo a falar sobretudo de movimentos e estilos musicais – quer nacionais, como o ‘pimba’, quer importados, no caso do europop ou do rock alternativo – nada mais justo do que abordarmos, esta semana, um movimento que teve um enorme ‘boom’ em território nacional precisamente nos anos 90.


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Falamos, é claro, do pop-rock, estilo que viu alguns dos seus principais representantes nacionais de décadas anteriores entrar em fases de declínio de carreira durante a última década do século XX (casos dos Xutos & Pontapés, GNR, Rui Veloso ou UHF, entre outros) mas assistiu ao nascimento e consolidação de popularidade de outros tantos artistas e colectivos, alguns dos quais relevantes ainda hoje, quase trinta anos após o seu aparecimento. Os anos 90 foram, por exemplo, a década dos Sitiados, Silence 4, Mão Morta, Ornatos Violeta, Pólo Norte, Rádio Macau, Três Tristes Tigres, Quinta do Bill, Pedro Abrunhosa, Clã ou The Gift, entre muitos outros - isto, claro, sem esquecer bandas que transitavam da década anterior ainda no auge da sua forma, como era o caso dos Delfins ou Madredeus. Um verdadeiro panteão de nomes sonantes da música portuguesa, que fazia as delícias de qualquer melómano adepto das vertentes mais melódicas da música ‘de guitarras’.


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Alguns dos muitos artistas pop-rock portugueses de finais do século XX


Um dado curioso é que muitos destes grupos contavam com vocalizações femininas, fossem principais ou secundárias. Clã, Três Tristes Tigres, Rádio Macau, Entre Aspas, The Gift e Madredeus contavam todos com vocalistas femininas, algumas delas figuras bem populares e influentes da cena musical da época, como Xana e Viviane; dos restantes, os Silence 4 também contavam com vozes de apoio femininas (numa dinâmica muito semelhante à dos Pixies, com as devidas distâncias) e os Sitiados tinham em Sandra Baptista a sua segunda figura central, embora esta última não cantasse. Isto sem esquecer, é claro, as duas finalistas do Festival da Canção mais famosas da era pré-Salvador Sobral: Sara Tavares e Anabela (a sério, conseguem nomear o finalista de algum ano sem ser 1993 e 1994?) Enfim, uma excelente representatividade para o sexo feminino, que conseguia tão ou mais sucesso que os grupos e artistas masculinos.


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Quem se lembra?


No cômputo geral, pois, os anos 90 não podem saldar-se como nada menos do que uma década fantástica para a música pop e rock portuguesa – quer em termos comerciais, quer criativos. Bebendo das bases cimentadas na década anterior, os artistas que entraram em voga durante os 90s viriam, eles próprios, a erigir muitas das fundações que informariam a música portuguesa na década seguinte, e um pouco até aos dias de hoje, tornando a última década do século XX uma das melhores de sempre para se ser fã de música em Portugal.

Sunday, 23 May 2021

Domingos Divertidos: As Figuras de Acção

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


E começamos, desde logo, por recordar aquele que foi, talvez, o tipo de brinquedo mais emblemático da década de 90 (e também das duas anteriores): as figuras de acção, ou como eram conhecidas na altura, os ‘bonecos’.


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Antes dos Funko Pops e outras ‘febres’ do género, eram estes os bocados de plástico licenciados avidamente coleccionados pelas crianças, e que faziam as suas delícias em muitas tardes em que os trabalhos de casa já estavam feitos, e não havia desenhos animados. Alusivos a qualquer propriedade intelectual que estivesse ‘na moda’ entre o público-alvo na altura do lançamento, estas figuras – tradicionalmente com cerca de 20cm de altura, embora houvesse maiores – vinham normalmente equipadas com uma característica especial, fosse ela um acessório para colocar no braço da figura ou um qualquer tipo de ‘truque’ accionável através de um gesto ou botão.


De indicadores luminosos a frases pré-gravadas e de pontapés de karaté a armas maiores do que a própria figura, estes bonecos vinham invariavelmente equipados com algum tipo de chamariz destinado a atrair a atenção do público-alvo - e escusado será dizer que o mesmo, quase sempre, resultava. Os ‘bonecos’ estavam entre os brinquedos mais pedidos pelas crianças daquela geração, até por serem mais baratos do que as bicicletas, consolas e outros presentes ‘maiores’ invariavelmente reservados para os anos e Natal, o que significava que podiam, com sorte, ser adquiridos mais frequentemente (numa visita ao hipermercado ou à loja de brinquedos, por exemplo), e em maior número.


De facto, embora no nosso país não se chegasse aos exageros de volume de outros países (com os EUA à cabeça), a criança média portuguesa dos anos 90 tinha, provavelmente, um acervo considerável de ‘bonecos’, das mais diferentes colecções, sendo os mais populares os das Tartarugas Ninja, Power Rangers e Dragon Ball; já as armas e acessórios dos mesmos estavam, invariavelmente, condenadas ao esquecimento (ou desaparecimento) atrás de um sofá ou cama, de onde acabavam por ser ‘desenterrados’ tempos depois pelo aspirador, animal de companhia, ou irmão mais novo. A perda destes ‘acrescentos’ não constituía, no entanto, qualquer entrave para o dono ou dona do brinquedo, que simplesmente passava a encenar lutas a punhos ou pontapés, em vez de com armas, como anteriormente.


Escusado será dizer que nem todos os ‘bonecos’ na colecção de uma criança da época eram oficiais – de facto, havia fortes probabilidades de a maioria (ou pelo menos uma proporção significativa) ter sido adquirida em locais como barraquinhas de feira, mercados e pequenas lojas de bairro, ficando estas a dever algo à autenticidade, quer em termos de embalagem quer de qualidade da propria figura.


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Humm...qual será o produto oficial...?


Mais uma vez, no entanto, este factor não constituía qualquer entrave para a maioria das crianças; pelo contrário, algumas das colecções de figuras ‘piratas’ aparecidas durante o período áureo deste tipo de brinquedos eram tão populares que ainda hoje são recordadas por quem com elas cresceu. De Tartarugas Ninja ligeiramente deformadas a figuras do Dragon Ball Z em embalagens com o grafismo correcto, mas sem qualquer tipo de letreiro, passando por Power Rangers sem articulação nem pintura nas costas, muitas foram as séries de figuras completamente ilegítimas que passaram pelos quartos das crianças daquela época, com mais ou menos discriminação relativamente às autênticas e oficiais - havia quem torcesse o nariz às figuras ‘falsas’ ou ‘de imitação’, como também havia quem as usasse à mistura com as ‘verdadeiras’. (Por aqui, havia uma mistura entre o fascínio pelas figuras falsas e a consciência de que elas eram muito piores do que as outras, e que como tal não valia a pena comprá-las.)


Enfim, fosse qual fosse a abordagem da criança ao coleccionismo de ‘bonecos’, a verdade é que estes estavam sempre presentes na prateleira ou caixa de brinquedos, e acabavam por protagonizar muitos dos melhores momentos passados em brincadeiras em casa. Fosse trabalhando em equipa ou lutando entre si pela supremacia do ‘bando’ (com pouco ou nenhum respeito por quem era ‘bom’ ou ‘mau’), estes pedaços de plástico articulados e moldados à imagem e semelhança dos nossos heróis favoritos terão, sem dúvida, sido parte inseparável da infância de qualquer leitor deste blog – um daqueles produtos que caíram em desuso em décadas subsequentes (substituídos por estátuas e outras figuras de ‘enfeitar’, para ter na estante e não mexer) e que quase nos faz ter pena que as gerações actuais e futuras não tenham podido vivenciá-lo. O brinquedo perfeito, portanto, com o qual iniciar esta nova rubrica no Anos 90.


E por aí? Qual era o boneco preferido? Deste lado, era declaradamente o Tommy, dos Power Rangers, que se sobrepunha ao Batman, ao GI Joe, às duas Tartarugas Ninja (uma oficial, outra falsa) e até ao Son Goku, liderando a equipa dos bonecos de 20cm contra a ameaça do Godzilla de borracha ou do Power Ranger vermelho gigante que dava pontapés de karaté…


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(Um sósia do) melhor boneco de todos os tempos.


Também tinham destas brincadeiras? Partilhem nos comentários!

Saturday, 22 May 2021

Sábados aos Saltos: A Febre do 'Skate' dos Anos 90

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


Hoje concluímos (já com algum atraso) a ‘trilogia’ de meios de deslocação ‘radicais’ dos anos 90; depois de em edições anteriores desta rubrica termos falado dos patins em linha e das bicicletas BMX, chega hoje a vez de abordarmos um ‘meio de transporte’ que menos crianças da época tinham, mas que quase todas desejavam – o ‘skate’.


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Imaginem isto, mas em amarelo-canário com rodas vermelhas e um desenho em cima...era o nosso


Disseminados entre as massas pela ‘febre’ dos desportos radicais que se instalou um pouco por todo o Mundo durante a década de 90 (e que no nosso país tinha a sua expressão máxima no programa ‘Portugal Radical’), os ‘skates’ passaram ainda alguns anos como equipamentos mais ‘de nicho’ antes de passarem a ocupar o topo das listas de Natal das crianças portuguesas; uma vez essa posição ocupada, no entanto, não mais a largariam, tendo a segunda metade da década ficado marcada pela proliferação de estruturas especificamente destinadas à prática do ‘skate’, bem como dos seus ‘irmãos’ já aqui abordados, os patins e a BMX. Sim, a atual geração que tão bom uso faz dos ‘skate parks’ espalhados um pouco por todo o País tem a agradecer aos seus pais a popularização destes tipos de ‘hobby’, a ponto de serem criados equipamentos específicos para a sua prática.


Mais - onde os ‘skates’ usados pelos ‘putos’ de hoje em dia são do tradicional formato preto em cima e com desenhos mais ou menos ‘radicais’ na base, os dos seus pais eram muito, mas mesmo muito mais ‘fixes’. Maioritariamente no formato ‘banheira com rodas’, entretanto caído em desuso, eram normalmente feitos de plástico colorido (o nosso era amarelo e vermelho, das mesmas cores da bicicleta BMX), e adornados com todo o tipo de motivos. tanto em baixo como na parte superior; alguns traziam, inclusivamente, desenhos alusivos a propriedades intelectuais populares entre  o público-alvo - por aqui, por exemplo, quase caímos para o lado quando percebemos que o desenho do nosso ‘skate’ dos 5-6 anos de idade era uma reprodução em cores algo estranhas de uma ilustração de…Dragon Ball Z!!


Enfim, embora fossem menos ergonómicos e bastante mais ‘matacões’ do que os modelos de décadas posteriores, estes ‘skates’ ganhavam-lhes largamente em termos de ‘estilo’ – e de apelo para o público mais jovem.


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Exemplo de uma 'parte de baixo' de 'skate' com desenhos licenciados - neste caso, das Tartarugas Ninja


Infelizmente, tal como os patins em linha, o ‘skate’ era daquelas coisas para que todos queriam ter ‘jeito’, mas nem todos conseguiam. Mesmo com capacete e protecções (não tantas quanto nos tempos modernos, mas chegávamos a pôr) os ‘trambolhões’ eram mais que muitos, e como consequência, muitas crianças usavam o skate mais como um adorno, uma coisa ‘fixe’ para ter no quarto ou na garagem. Ainda assim, aqueles que conseguiam dominar a arte eram olhados com admiração e inveja, e davam por vezes azo a mais umas quantas tentativas frustradas de fazer o mesmo, antes de o ‘skate’ voltar para o seu lugar de honra contra a parede…


Ao contrário dos outros instrumentos de que falámos nesta rubrica, que acabaram por cair em desuso com o passar dos anos (e o virar da década, século e milénio), os ‘skates’ continuam a gozar de enorme popularidade entre os jovens até aos dias de hoje – muito por culpa de uma certa e imensamente bem-sucedida série de videojogos cujo primeiro título foi lançado, precisamente, nos anos 90. Ainda assim, há que mostrar a essa nova geração de onde veio e como era o seu passatempo de eleição no tempo em que os ‘velhotes’ trintões eram da sua idade…algo que, espera-se, este post terá conseguido fazer. Fica, agora, a faltar falar do último desporto radical adoptado pela juventude daquela época, e que também ainda retém a sua popularidade - mas isso será no próximo post. Por agora, fiquem com uma reportagem de época (precisamente do 'Portugal Radical') sobre um dos primeiros eventos portugueses totalmente dedicados ao (então) novo fenómeno que acabámos de abordar...



 

Friday, 21 May 2021

Sessão de Sexta: Os Impostores Animados

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


E se na primeira destas nossas Sessões falámos dos filmes da segunda época áurea da Walt Disney, nada mais justo do que falarmos hoje daquelas animações que se pareciam ‘materializar’ nos escaparates, do nada, de cada vez que um deles estreava; animações comercializadas em VHS’s manhosos, muitas vezes em bancas de jornal, e cujos títulos e capas remetiam invariavelmente para um dos filmes recentes da Disney, Fox ou Warner Bros., sem no entanto resistirem a um escrutínio mais apertado.


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Acima: ideias cem por cento originais e sem inspiração em nenhuma companhia em especial


Comercializados em Portugal pela Goodtimes e pela Trisan Vídeo (sob a sigla ‘Classic Animations’, cuja escolha de tipo de letra para o logo era certamente aleatória e de forma alguma deliberada), estes filmes apresentavam-se, normalmente, divididos em dois tipos; por um lado, havia produções originais especificamente concebidas para serem ‘mockbusters’ dos filmes animados de grande orçamento, e por outro, havia desenhos animados mais antigos, alguns já com várias décadas, que eram oportunisticamente colocados de volta no mercado como tentativa de lucrar com a ‘febre’ invariavelmente causada por qualquer que fosse o novo filme animado em estreia nos cinemas - ambas práticas que, aliás, se mantêm até aos dias de hoje, agora com o DVD e o 'streaming' como formatos de eleição.


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Não lembra nada, pois não...?


E se estes últimos ainda gozam de alguma boa-vontade – por terem sido feitos muito tempo antes de a Disney ou Warner Bros. terem a mesma ideia – o primeiro tipo, que era também o mais frequente, só ganha pontos pelo seu descaramento. Basicamente, estes vídeos (a maioria deles da Goodtimes) eram as ‘cassettes amarelas’ dos filmes animados infantis – prometiam um produto excitante q.b. e ofereciam outro muito menos entusiasmante. A diferença é que, no caso dos vídeos, era fácil de perceber que aquele não seria o filme ‘oficial’ apenas olhando para a capa – ainda que algumas tentassem ao máximo confundir-se com as da ‘casa-mãe…


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'Coincidence? I THINK NOT!!'


Também ao contrário dos cartuchos amarelos, muitos destes filmes nem sequer eram, necessariamente, toscos ou mal feitos; pelo contrário, a maioria dos enredos tendia a manter-se mais fiel ao material original que a habitual ‘adaptação livre’ da Disney, e embora a animação ficasse obviamente muitos furos abaixo, o nível de qualidade era, normalmente, equiparante ao de uma série televisiva média. Ou seja, havia muito para gostar nestes vídeos – ainda que os pontos positivos fossem, infelizmente, ofuscados pela estratégia de marketing, essa sim, tosca e desingénua.


Mesmo assim, talvez devido ao baixo preço e fácil acessibilidade (muitas, como referimos acima, eram vendidas em papelarias e bancas de jornais, coladas àquelas icónicas cartolinas que eram sinónimas com o ‘VHS de quiosque’) estas cassettes conseguiram encontrar lugar nas colecções de VHS de muits crianças por esse Portugal fora. E embora (pelo menos por cá) não fossem dos filmes mais vezes postos a rodar, eram sempre uma óptima solução de recurso quando não apetecia ver mais nada – isto, claro, se soubéssemos de antemão ao que íamos, e não estivéssemos à espera de ver o filme oficial quando puséssemos a cassette no VHS…

Thursday, 20 May 2021

Quintas de Quinquilharia: Os Pega-Monstro

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


E depois de na edição inaugural desta rubrica termos falado do mais famoso brinde de sempre da Matutano – os lendários Matutazos – hoje vamos falar de outro item promocional, ainda anterior a esse, mas que gerou quase o mesmo nível de furor entre a pequenada (bem como algumas dores de cabeça à maioria dos pais): os Pega-Monstro.


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Oferecidos com cada pacote de ‘snacks’ Matutano no início da década, este era daqueles brindes com um conceito tão simples quanto infalível para agradar ao público-alvo; tratavam-se de pedaços de borracha multicoloridos, moldados na forma dos titulares ‘Monstros’ - ou, em alternativa, de mãos – e revestidos com material aderente, que os fazia colarem-se a qualquer superfície (pelo menos enquanto a ‘cola’ não secasse, o que normalmente acontecia ao fim de dois ou três usos.) O longo 'fio’ com uma anilha na ponta, que representava quase metade da superfície total do brinquedo, permitia à criança atirá-los contra a parede, vidro, porta ou até mesa mais próxima, podendo depois vê-los ‘escorregar’ pela referida superfície, até caírem e se reiniciar o processo. Em alternativa, a criança podia manter o Pega-Monstro preso na mão, e puxá-lo para o descolar da superfície, ao estilo iô-iô. Qualquer das opções fazia as delícias do público-alvo, que as alternava indiscriminadamente conforme as circunstâncias, e arriscava danificar irreversivelmente qualquer superfície com que o brinquedo contactasse - daí a aversão de muitos pais a estes aparentemente inofensivos brindes das batatas fritas…


(E ainda bem que no nosso tempo não havia YouTube, porque assim nunca nenhum de nós viu este vídeo e decidiu tentar a gracinha...)


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Os Pega-Monstros em forma de mão eram menos interessantes em formato, mas colavam ainda melhor que os restantes.


O desprazer parental não era, no entanto, suficiente para abafar a ‘febre’ dos Pega-Monstro; pelo contrário, estes brindes eram tão populares que chegavam a ser utilizados como ‘recompensa’ de incentivo em escolas e atividades extra-curriculares. E vendo bem, isso até nem é tão estranho; afinal, estes brinquedos simples, mas estranhos reuniam todas as características necessárias para apelarem ao seu público-alvo - implicavam o consumo de ‘snacks’ salgados para coleccionar, eram vagamente ‘nojentos’, divertidos, chateavam os adultos, e consistiam literalmente de colar coisas a paredes, um dos maiores e mais inexplicáveis fascínios infantis. Em suma, uma receita que tinha tudo para resultar, e resultou mesmo, originando um dos brindes mais memoráveis dos Anos 90.


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Eles bem lhes chamam 'Animal Toys', mas não enganam ninguém...


Ao que parece, apesar de já não verem o interior de um pacote de batatas há praticamente duas décadas, ainda há Pega-Monstros à venda em certas lojas hoje em dia; no entanto, os mesmos não parecem ter a mesma adesão entre a miudagem que tinham na altura – talvez por não terem ligação Bluetooth nem permitirem Deathmatch Multiplayer. O conceito em si, esse, permanece sólido como sempre, e passível de agradar a qualquer pré-adolescente, de qualquer dos sexos, tal como agradou aos seus pais quando eles eram daquela idade. Portanto, se têm filhos, e não se importam de ter uns móveis e paredes cheios de cola de vez em quando, iniciem-nos no maravilhoso mundo dos Pega-Monstro; quem sabe esse esforço não acabe numa ‘segunda vida’ para estes monstrinhos pegajosos?



 

Wednesday, 19 May 2021

Quartas aos Quadradinhos: As Revistas de BD da Hanna-Barbera

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


E se da última vez falámos de um título tão obscuro que apenas gerou alguns resultados numa pesquisa do Google, esta semana falamos de uma série de publicações que verdadeiramente justificam o epíteto de Esquecidos Pela Net; três conjuntos de revistas de BD que, entre elas, e depois de busca MUITO exaustiva, geraram TRÊS resultados em motores de pesquisa (dois no OLX e um no eBay de ESPANHA…) Caros leitores, bem-vindos ao post que quase não teve imagens; hoje, recordamos as revistas aos quadradinhos ‘feitas em Portugal’ dos personagens de Hanna-Barbera.


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Um de apenas dois números da revista dos Flintstones disponíveis online...


Sim, deste lado também não percebemos porque é que estas revistas são TÃO obscuras, quando tratam de personagens que todos conhecemos e estimamos, como Zé Colmeia ou os Flintstones. Mas a verdade é que, ao pesquisar por estes títulos, a esmagadora maioria dos resultados faz referência às edições brasileiras dessas mesmas publicações, as quais também chegaram a ser importadas para Portugal à época (por aqui, por exemplo, tínhamos pelo menos um número da versão brasileira de ‘Manda-Chuva’.) Não fosse pelo facto de nós próprios termos tido vários números das séries portuguesas, juraríamos ter sonhado com a existência das mesmas - e sim, se tivéssemos tido os referidos números ‘à mão’, este post teria sido ilustrado com fotografias do nosso próprio acervo. No entanto, e como a foto acima prova, estas publicações existiram mesmo, ainda que por um período de tempo muito mais breve do que qualquer das outras revistas de que temos vindo a falar, e infinitamente menor do que o das congéneres brasileiras, o que pode explicar o ‘esquecimento’ por parte do grande público.


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...e a ÚNICA imagem da revista 'Zé Colmeia'


Lançadas no início dos anos 90 para tentar aproveitar o sucesso do programa ‘Oh! Hanna Barbera’, que passava as versões em desenho animado destes e outros heróis, as três revistas (uma delas com o mesmo nome do programa, e dedicada a histórias de personagens que não ‘coubessem’ nas outras duas) apresentavam basicamente as mesmas histórias das edições internacionais, mas com traduções em Português ‘de Portugal’ – essencialmente, uma repetição da estratégia que já rendera dividendos à Abril aquando da adaptação das várias revistas Disney. No entanto, ao contrário dos 'gibis' oriundos do ultramar (que eram perfeitamente vulgares e iguais a quaisquer outros) estas revistas tinham lombada 'grossa' -semelhante à das revistas do Pateta ou Mônica - e papel lustroso, de qualidade superior ao dos títulos supra-citados.


No entanto, a boa apresentação e razoável adaptação do material não foi suficiente para garantir a longevidade destas revistas. Talvez por os personagens dizerem menos aos entusiastas de BD, ou talvez por as versões em desenho animado serem mesmo consideradas melhores, o público infantil não se mostrou tão interessado nos quadradinhos da Oh! Hanna-Barbera como no programa, o que fez com que, inevitavelmente, estes títulos acabassem mesmo por desaparecer sem grande alarido quando o mesmo saiu do ar…


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O único outro vestígio remanescente da existência destas revistas


Mesmo assim, vale a pena recordar mais uma série de livros aos quadradinhos Esquecidos Pela Net, mas que fizeram – ainda que fugazmente – a alegria das crianças portuguesas durante aquela década mágica de 90. Contaram-se entre essas crianças? Tinham alguma destas revistas? Partilhem nos comentários, para sabermos que não fomos os únicos a ler isto…

Tuesday, 18 May 2021

Terças Tecnológicas: As Consolas 'Family Game'

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


E se até aqui temos vindo a falar em consolas que foram sucessos de vendas durante a ‘nossa’ década por serem inovadoras e revolucionárias, nada melhor do que conhecer, hoje, uma máquina – ou antes, um conjunto de máquinas – que fizeram sucesso entre as crianças portuguesas dos anos 90, sem no entanto apresentarem quaisquer argumentos técnicos, tecnológicos ou até visuais que o justificassem; um conjunto de consolas que conseguiu (e continua a conseguir) vender um número respeitável de unidades sem nunca ter avançado no tempo para além de finais da década de 80. Senhoras e senhores…as Family Game.


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Adivinhem no que isto é inspirado, se conseguirem...


Sim, as ‘Family Game’, o nome genérico dado a um grupo vastíssimo de consolas que, apesar de aparentemente diferentes e distintas, faziam todas exactamente a mesma coisa - nomeadamente, correr jogos de Famicom, a versão japonesa do tradicional NES. Conhecidas nos países anglófonos como ‘Famiclones’, na Rússia como ‘Dendy’ ou ‘Terminator’ e no Brasil como ‘Polystations’ (nome derivado do modelo mais popular naquele país, e que também chegou a existir no nosso), estas máquinas acabaram, em Portugal, por ser baptizadas com o nome de um dos primeiros modelos a ser comercializado por estas paragens, cuja caixa exibia, desde logo, um dos principais pontos distintivos desta família de consolas – nomeadamente, o ‘layout’, grafismo, nomenclatura e até ‘designs’ directamente copiados das principais consolas de cada época.


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Sim, isto existe. Neste momento, já vai no modelo PolyStation 5. Mais uma vez, adivinhem no que é inspirado...


Independentemente deste facto, no entanto, as ‘entranhas’ destes videojogos eram todas rigorosamente iguais; fossem elas um sucedâneo de NES, Super Nintendo, Playstation, Dreamcast ou Nintendo 64, todas eram máquinas de 8 bits, que funcionavam exatamente com o mesmo tipo de cartucho – as facilmente reconhecíveis, e memoráveis, ‘cassettes’ amarelas, laranjas ou verdes, normalmente encontradas em pequenos estabelecimentos de bairro dedicados à revenda de eletrodomésticos baratos (e, já no novo milénio, também nas lojas chinesas.)


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Uma 'cassette' de Family Game, provavelmente com um jogo original e oficial de Megaman em versão japonesa/NTSC.


O que muitas crianças que jogavam ‘Family Game’ não sabiam é que este formato de cartucho era, em si mesmo, uma apropriação, neste caso dos cartuchos oficiais da Famicom japonesa (os quais são, eles próprios, compatíveis com estes ‘clones’.) Sem esse ponto de referência, no entanto, estas ‘cassettes’ eram para nós uma novidade, com o seu formato alongado e invólucros multi-coloridos. Quase tão atraentes eram, também, as etiquetas afixadas às frentes das ‘cassettes’, que, à falta de caixas, nos diziam o que a mesma continha - ou antes, o que queriam que pensássemos que a mesma continha, o que nos leva a outra característica marcante destes clones. Embora muitos dos títulos disponíveis fossem oficiais (havia, por exemplo, o jogo das Tartarugas Ninja, Tom e Jerry, Batman ou Contra, todos trazidos directamente da NES, sem quaisquer alterações) a maioria destes cartuchos consistia de versões ‘pirateadas’ de jogos existentes, as quais podiam ir de uma criação cem por cento pirata (os chamados ‘Hong Kong originals’) até uma mera troca de título, que ajudava a transformer o ‘Soccer’ da Nintendo (um título de lançamento de jogabilidade básica) no ‘FIFA 98’ (ou...'Super FIFA 98 IV'...)


s-l300 (2).jpg       ...eles já nem tentam que estes títulos façam sentido, pois não...?


Esta era apenas uma das maneiras encontrada pelos fabricantes das Family Game para apregoarem jogos como FIFA 98 nas suas consolas; outros ‘franchises’ populares da época – como Final Fight, O Rei Leão, Street Fighter e Mortal Kombat – viam serem criados de raiz, para estas consolas, jogos sem qualquer tipo de licença, e com títulos mirabolantes como ‘Street Fighter III’ (pelo menos meia década antes do oficial!) e ‘Mortal Combat 5’ (sim, escrito com ‘C’ e um numeral árabe). Este tipo de pirataria foi explorada tão a fundo, que as Family Game chegaram a ver ser lançadas versões piratas de Harry Potter, Resident Evil e até Final Fantasy VII (!!)


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Este, até caixa e manual trazia...


Outros 'franchises', ainda. viam jogos pré-existentes serem (mal) modificados para poderem ser vendidos como parte da série. A principal vítima deste tipo de 'engodo' foi o bom e velho Super Mario, que via o seu personagem de ‘Super Mario Brothers 3’ ser inserido em todo e qualquer jogo que se parecesse sequer minimamente com os originais (de Tiny Toons a Joe & Mac, onde o víamos na pré-história e munido de uma clava!) e até em outros que nem por isso, como Kid Niki, e uma hilariante versão de ‘Jackie Chan Adventures’ com um Mario musculado; isto sem esquecer, é claro, a vez em que o canalizador italiano comeu demasiados cogumelos e acabou a dar estaladas a Ryu num jogo de Street Fighter. Sim, a sério.


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Esta imagem é cem por cento real.


Outro tipo ainda de pirataria, talvez a mais frequentemente associada às máquinas Family Game, consistia nos chamados ‘multi-cartuchos’ – ou seja, cassettes que continham mais do que um jogo. Aqui, o ‘truque’ chamariz consistia, sobretudo, em anunciar literalmente milhões de jogos (cartuchos que apregoavam 9999999 em 1 não eram, de todo, incomuns) e depois oferecer uns quantos – que podiam ir de cinco ou seis a uma ou duas centenas – e ‘encher’ os restantes nove milhões e tal de entradas do indíce com repetições desses mesmos cinco ou dez ou cem, normalmente com início num nível mais avançado, ou com velocidade mais rápida. Mais uma vez, sem acesso a uma caixa, não havia como saber o que íamos encontrar até se pôr o cartucho na consola – e nessa altura já era, normalmente, demasiado tarde.


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Exemplo de multi-cartucho, este provavelmente com os oito jogos representados nas imagens, sendo os restantes repetições dos mesmos


Apesar destas ‘manhas’, no entanto, as consolas Family Game eram bastante atractivas para uma certa geração de crianças, as quais muitas vezes não conseguiam ter as consolas reais, ou preferiam até aqueles jogos mais simples. O ‘design’ das cassettes e consolas, com a sua pirataria tão descarada que se tornava ‘fixe’, e o próprio factor de mistério (e os números grandes nas etiquetas dos multi-cartuchos, que incitavam à gabarolice) faziam com que muitas crianças não ficassem desapontadas ao serem presenteadas com uma destas máquinas, mesmo apesar da falta de poderio técnico.


Hoje, os ‘Famiclones’ experienciam um reviver, graças ao fascínio que suscitam à Internet; antes de alguém sequer saber o que era um ‘browser’, no entanto, já milhões de crianças em todo o Mundo (e também em Portugal) jogavam ‘Mortal Combat 5’ e ‘Super FIFA 98 IV’ nas consolas de cartuchos amarelos que imitavam as oficiais. Se se contaram entre esse número, deixem as vossas memórias nos comentários – e sim, estamos a falar contigo, Riaz…

Monday, 17 May 2021

Segundas de Séries: Os Moto-Ratos de Marte

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


E se a última edição desta rubrica foi dedicada a um dos desenhos animados mais emblemáticos da ‘nossa’ década – as Tartarugas Ninja – hoje falamos de uma série que não só explora um conceito muito próximo, mas é também das mais mencionadas entre os entusiastas deste nosso blog: os Moto-Ratos de Marte.


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À primeira vista, o conceito-base desta série pode parecer uma cópia mais ou menos descarada dos referidos Heróis de Meia-Casca; estas críticas são, no entanto, infundadas, pois a série pouco tem a ver com aquele mega-sucesso de ‘merchandising’. Senão vejamos – ESTA série trata de ratos (e NÃO tartarugas) antropomórficos (de origem, logo, sem mutação nenhuma) oriundos de outro planeta (e portanto, sem nada a ver com lojas de animais em Nova Iorque) e que gostam de andar de mota (por oposição a comer pizza) e cujos adversários são outra raça extraterrestre (ou seja, de outro PLANETA, e não de outra DIMENSÃO.) Nada a ver, portanto. O facto de os referidos personagens serem jovens, se expressarem em calão radical dos anos 90 e terem uma amiga e aliada humana é, claro, mera coincidência – quem diz o contrário, é porque é má-língua.


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Nada a ver uns com os outros, realmente... 


Fora de brincadeiras, a verdade é que esta criação de Rick Ungar deriva forte inspiração da congénere de Eastman e Laird (tal como, aliás, acontecia com várias outras ‘cópias’ mais ou menos descaradas da época, como Street Sharks.) A data de criação do conceito (em 1993, no auge da Tarta-Mania) não deixa, aliás, quaisquer dúvidas quanto à intenção de ‘Biker Mice From Mars’ – isto, claro está, se o próprio conceito do ‘cartoon’ e os ‘designs’ dos personagens não as tivessem já dissipado. ‘Moto-Ratos’ queria mesmo ser o novo ‘Tartarugas Ninja’ – e embora nunca o tivesse conseguido (como, aliás, nenhum destes ‘clones’ conseguiu), foi mesmo a que chegou mais perto, tendo conseguido conquistar o público infantil em vários países, entre eles Portugal, e até vender algum ‘merchandise (por aqui, por exemplo, há uma vaga memória de um boneco do personagem cinzento ‘habitar’ lá por casa.) Este sucesso talvez se devesse ao facto de, para esse mesmo público-alvo, as semelhanças com as Tartarugas Ninja serem uma vantagem, e não um defeito; isto, claro, para além do puro ‘cool factor’ de três ratos espaciais gigantes de 'jeans' e armadura, montados em Harley-Davidsons, a desviarem-se de tiros de 'laser' disparados por extraterrestres - um conceito que fica muito perto do ideal de acção de qualquer miúdo pré-adolescente.


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Aos dez anos de idade, esta é uma daquelas coisas que grita 'FIXE' em maiúsculas


Como já devem ter percebido – aqueles que nunca viram a série, pelo menos – a premissa-base deste ‘cartoon’ era ainda mais pateta do que a da maioria das séries deste tipo – o que, por si só, já é um feito. No entanto, enquanto o espectador adulto pondera exactamente PORQUE é que o ‘hobby’ destes ratos de MARTE era guiar um modelo específico de veículo produzido e encontrado NA TERRA, para o público-alvo, isso pouco interessava – ‘Moto-Ratos’ tinha acção, tiros, piadolas radicais, e personagens com um visual ‘cyberpunk’ estilo ‘Mad Max’ que estava também ainda muito em voga à época. Ou seja, a receita perfeita para ser um sucesso de audiências e vender muito ‘merchandising’ licenciado – objectivos que ‘Biker Mice’ conseguiu atingir, ainda que nunca chegasse ao limiar de ser uma ‘febre’, como a série que procurava emular. Este era, ‘apenas’, um desenho animado ‘fixe’ – o que, feitas as contas, nem é uma coisa má de se ser…


E vocês? Viam os Moto-Ratos? Que recordações guardam desta série? Partilhem nos comentários! E para vos avivar a memória, aqui fica o genérico inicial, tal como era transmitido na SIC nos idos de 1994...



 

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...