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Saturday, 30 May 2026

Saídas ao Sábado: As Lojas de Fotografia - 'Vítimas' do Avanço Tecnológico

 As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Já aqui por diversas vezes abordámos tipos de estabelecimentos comerciais que, nas duas décadas e meia desde o início do Novo Milénio, se tornaram obsoletos e acabaram por ficar à beira da extinção, senão mesmo por desaparecer por completo; e enquanto que muitos destes foram, simplesmente, substituídos pelas cada vez mais ubíquas grandes superfícies, outros casos houve em que a obsolescência se deveu ao desaparecimento do tipo de produto em que se especializavam. É de um destes casos, familiar a muitos jovens de finais do século XX, que falamos nesta Saída de Sábado.


Intimamente ligados à popularidade das máquinas fotográficas de rolo, não é, pois, de espantar que, com o advento da tecnologia digital neste tipo de aparelho, os estúdios e lojas de fotografia tenham acabado por, mais ou menos discretamente, desaparecer das ruas portuguesas. Aqui e ali, sobra ainda uma ou outra loja deste tipo, mas o foco, hoje em dia, está declaradamente na vertente mais técnica, com o público-alvo a ser constituído na sua quase totalidade por entusiastas da fotografia 'à moda antiga' ou profissionais do ramo; a loja que muitos portugueses conheceram em criança, onde se iam revelar os rolos de imagens da vida quotidiana ou tirar o 'retrato' para o cartão da escola, Cartão Jovem ou para ocasiões especiais, encontra-se inexoravelmente extinta, substituída pela conveniência, primeiro, de um cabo de transferência e um CD de instalação no computador e, mais tarde, da tecnologia 'Bluetooth' e facilidade de armazenagem de imagens na 'Cloud', que tornavam os serviços oferecidos por este tipo de estabelecimento redundantes.

Para quem viveu a época áurea da fotografia 'caseira' analógica, no entanto, aqueles estabelecimentos com frontispícios patrocinados pela Fujifilm e Kodak representaram parte integrante das memórias de infância e adolescência (até por terem directamente contribuído para a sua preservação), tendo constituído, à época, uma Saída de Sábado menos frequente do que outras que aqui abordámos, mas tão ou mais entusiasmante...

Saturday, 7 December 2024

Saídas ao Sábado: As Vendas Beneficentes - A Encarnação do Espírito Natalício

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


A aproximação do Natal comportava consigo, no Portugal dos anos 90, o aparecimento de uma série de elementos bem típicos da estação: as tradicionais iluminações (um dos pontos altos do período festivo para muitas crianças) a montagem da árvore de Natal e do presépio, as cartas ao Pai Natal, as festas de Natal da escola ou do trabalho dos pais, a chegada dos inevitáveis circos de Natal a diversas localidades, a gradual abertura de calendários do advento, o aparecimento de inúmeros catálogos de brinquedos na caixa do correio, a transmissão na televisão de 'Sozinho em Casa', 'Mary Poppins' e dos icónicos anúncios do Continente (que aqui terão, em tempo, o seu espaço) ou o tema do nosso 'post' de hoje, as vendas de caridade.


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Tipicamente organizadas por paróquias ou associações beneficentes, as referidas instalações – via de regra situadas em espaços comerciais vazios, mediante aluguer temporário – comportam, geralmente, fins de angariação de fundos, através da venda de uma mistura de objectos novos (a maioria dos quais de pendor sazonal), artesanato feito à mão pelos membros da entidade organizadora e, claro, doações efectuadas pelos mesmos. O resultado é um espaço que permite encontrar um presente ou decoração natalícia diferente, a um preço convidativo, e com o dinheiro gasto a reverter para boas causas - normalmente associadas ao restauro de instalações, organização de actividades ou simples melhoria da qualidade de vida de cidadãos mais carenciados - acabando assim por servir como manifestação física do espírito natalício de solidariedade e entreajuda. Não é, pois, de admirar que estes espaços sejam, durante o seu tempo de existência, bastante concorridos, contando sempre com forte afluência, sobretudo se situados em artérias comerciais de grandes cidades.


À semelhança da maioria das tradições acima elencadas, também este tipo de instalação continua a existir, sensivelmente no mesmo formato em que primeiro surgiu, há já várias décadas, embora em número e com frequência cada vez mais reduzidas, á medida que o comércio transita do modelo comercial para outro mais digital, e baseado nas compras 'online'. Ainda assim, enquanto existirem instituições beneficentes, utentes necessitados, clientes solidários e lojas vazias onde 'montar a banca', é de crer que as vendas beneficentes continuem a formar parte integrante do Natal nacional, permitindo aos membros das gerações 'X', 'millennial' ou até 'boomer' proporcionar aos filhos ou netos a mesma experiência que eles próprios viveram durante inúmeras Saídas ao Sábado de Natal, nos anos anteriores (ou imediatamente seguintes) à viragem do Milénio.

Saturday, 22 June 2024

Saídas ao Sábado: 'Ir Ver a Bola' - Um Ritual Intemporal

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


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Numa edição passada desta rubrica, também publicada num período de efusão futebolística, falámos da experiência de ir ao estádio ver um jogo. Apesar de preferencial e inesquecível, no entanto, essa nem sempre era uma opção viável para as crianças e jovens dos anos 90, especialmente no tocante a jogos de (ou contra) clubes maiores, em que o preço dos bilhetes tendia a ser proibitivo, ou encontros internacionais, que muitas vezes tinham lugar fora do País, tornando a presença física impossível, numa era em que as viagens não eram ainda tão globalizadas como hoje.


Nesse tipo de instância, apenas restava uma de duas opções aos jovens: ver o jogo em casa, no conforto da própria sala, ou dirigir-se a um espaço público – normalmente o café mais próximo – para assistir à partida em conjunto com outros adeptos. E se a primeira das duas opções primava pela practicidade e conforto, a segunda (que abordámos também, embora sumariamente, no nosso 'post' anterior) era, muitas vezes, a escolhida, pela oportunidade que proporcionava de viver uma espécie de versão 'reduzida' da experiência de estádio, em que cada adepto se podia manifestar livremente ou trocar impressões ou até 'galhardetes' com quem apoiava os adversários. Talvez por isso tantas crianças e jovens da época tenham feito questão de acompanhar os familiares adultos ou, quando já mais velhos, combinar com os amigos ou colegas de escola para ir ao café 'ver a bola'.


O advento da TV Cabo e da Sport TV tornou, se possível, esta prática ainda mais comum, já que a mesma era comum em estabelecimentos públicos (por oposição a lares particulares, muitos dos quais ainda não tinham o pacote) e oferecia maior qualidade e diversidade de jogos a que assistir, permitindo assim que os adeptos não ficassem restitos ao 'jogo da semana' exibido pela televisão pública ou por um dos canais privados. A partir de finais do século XX, concretamente de 1998, passou ainda a ser possível assistir a certos jogos, sobretudo partidas internacionais que envolvessem a Selecção Portuguesa ou fizessem parte de torneios, em ecrã super-gigante, num novo espaço: a Praça Sony, em Lisboa, inaugurada aquando da EXPO '98, e onde milhares de adeptos de todo o Mundo acompanharam o Mundial de França desse mesmo Verão. Escusado será dizer que este passou, também, a ser um ponto de encontro privilegiado para os adeptos lisboetas durante os anos seguintes, embora menos nos dias que correm.


Ao contrário do que sucede com outras tendências abordadas nestas páginas, o ritual de 'ir ver a bola' em público, mesmo que não no estádio, não só não caiu em desuso como não se alterou significativamente com o advento da era digital – o que não é de surpreender, visto ser o Homem um animal social, apreciador de experiências de catarse conjunta como as propiciadas por um jogo de futebol. É, pois, provável que um adepto português que entre num qualquer café durante as próximas semanas encontre a televisão sintonizada num qualquer jogo do Euro, e ainda mais provável que o mesmo se detenha alguns momentos a assistir, e a trocar impressões com o 'vizinho' do banco ou mesa ao lado, que estará, sem dúvida, tão absorto quanto ele próprio - e, potencialmente, a lembrar outras competições, de um passado mais ou menos distante, em que tenha feito exactamente a mesma coisa, quiçá naquele mesmo local...


 

Saturday, 20 April 2024

Saídas ao Sábado: As Feiras de Artesanato - Exposições Gratuitas ao Ar Livre

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Na última edição das Sextas com Style, falámos das 'pulseiras da sorte' brasileiras, um marco do visual jovem nos anos da viragem do Milénio; nada melhor, pois, do que, num Sábado de sol e calor, realizarmos uma Saída até aos espaços onde estas e outras peças podiam ser encontradas: as feiras de artesanato.


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Um mercado do género, no Porto.


Realizadas de Norte a Sul do País ao longo de todo o ano - sobretudo nos meses de Verão, quando podiam ser organizadas no exterior – e, muitas vezes, até permanentes, este tipo de feiras ofereciam uma excelente forma de 'matar' alguns minutos, ou até horas, numa tarde de fim-de-semana. Isto porque, quer se acabasse ou não por adquirir alguma coisa, era sempre agradável passear entre as bancas e simplesmente admirar os produtos em exposição, fossem eles as referidas pulseiras e outros adereços, muitas vezes criados à mão no próprio local, ou algo mais complexo, como objectos em couro ou madeira, muitos deles tradicionais de países africanos, asiáticos ou do médio oriente (embora nem sempre exactamente artesanais), e vendidos por naturais dessas mesmas regiões, o que permitia também ficar a conhecer outras culturas e a sua arte de forma relativamente em conta.


Quer se fosse lá apenas comprar adereços ou usufruir desta vertente mais expositiva e cultural, no entanto, as feiras de artesanato eram, e continuam a ser, uma aposta segura para uma Saída de Sábado simples e capaz de entreter toda a família. De facto, embora algo diferentes das suas 'versões' de alturas da viragem do Milénio, este tipo de eventos continua a ter, regularmente, lugar um pouco por todo o território nacional, permitindo aos mesmos homens e mulheres que os visitaram enquanto jovens proporcionar aos seus próprios filhos, familiares ou amigos mais novos uma experiência semelhante à que terão vivido quando eles próprios eram crianças, e manter viva a prática das vendas de artesanato de rua em fins-de-semana de sol.

Saturday, 13 January 2024

Saídas de Sábado: As Salas de Cinema Independentes

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Na última Sessão de Sexta, falámos dos ciclos e mostras de cinema independente, bem como das salas que escolhiam prescindir dos maiores êxitos de bilheteira para divulgar este tipo de filmes, por intermédio de distribuidoras como a Medeia Filmes. Nada melhor, portanto, do que dedicarmos a Saída deste Sábado a explorar um pouco mais a fundo esses espaços emblemáticos de finais do século XX, e – infelizmente – praticamente desaparecidos nos dias que correm.


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Normalmente situadas nos locais mais insuspeitos – em ruas residenciais ou paralelas às grandes artérias urbanas, caves de centros comerciais de bairro, ou até no interior de instituições e centros culturais – estas salas mais pequenas e independentes tinham, normalmente, em comum o clima e atmosfera no seu interior, que remetia a tempos mais clássicos, com poucos lugares, o ecrã muito próximo até mesmo das filas de trás, e aquele silêncio quase reverente que as gerações anteriores ao aparecimento dos 'multiplex' se habituaram a associar com a experiência de ir ao cinema. Este claro contraste com as luzes, ruído e banca de pipocas e refrigerantes das referidas salas de 'shopping', coadunava-se com a própria oferta de filmes, sendo as obras exibidas neste tipo de cinema, regra geral, mais intimistas e menos 'bombásticas' do que os típicos filmes de Verão ou Natal.


Não quer isto dizer, é claro, que um ou outro desses filmes não surgisse nos cinemas em causa, sendo que os filmes da Disney, em particular, tendiam a ser exibidos nestes espaços. Mesmo nesses casos, no entanto, estas salas marcavam a diferença, normalmente através da exibição da versão legendada, por oposição à dobrada, mantendo assim a vertente mais inteligente e intelectual que as caracterizava, ao mesmo tempo que se estabeleciam como a única escolha para quem quisesse ver os filmes em versão original, atraindo assim uma quota-parte garantida de público.


Infelizmente, o advento do DVD, e a maior diversificação dos lançamentos em formato caseiro – que passaram a incluir muitos títulos independentes e 'de autor', antes totalmente inacessíveis fora do contexto de salas deste tipo – veio ditar o 'início do fim' dos cinemas independentes, que passariam as duas décadas seguintes a definhar numa triste 'morte lenta', até ao inevitável fecho e reconversão em qualquer outro tipo de negócio. Como consequência, hoje em dia, apenas um número irrisório de entre todas as salas deste género existentes no País à época se encontra ainda em actividade, tendo as mostras e ciclos de cinema passado, quase exclusivamente, para as cinematecas e instituições culturais como a Culturgest, em Lisboa – p que não invalida que as salas em causa vivam na memória de quem nelas assistiu a muitos e bons filmes que, de outra forma, talvez nunca tivesse visto, justificando assim a sua escolha como destino para a primeira Saída de Sábado do ano de 2024.

Saturday, 25 February 2023

Saídas ao Sábado: As Lojas dos 'Trezentos'

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Qualquer criança ou jovem dos anos 90 apreciava uma boa ida às compras, fosse com familiares ou, quando mais velho, com os amigos. O aparecimento, durante a referida década, de estruturas como os 'shoppings' e os hipermercados ajudava a tornar essa experiência ainda mais entusiasmante, oferecendo uma alternativa aos supermercados, drogarias, centros comerciais de bairro e lojas tradicionais de brinquedos, desporto, roupa ou discos e vídeos que formavam o 'itinerário' da maioria destes passeios. No entanto, qualquer que fosse o destino, havia sempre o problema de o dinheiro – da mesada, semanada, economias, ou simplesmente oferecido pelos pais no próprio dia – raramente chegar para o que se queria comprar; os mais pequenos, em especial, ficavam inevitavelmente 'reféns' das possibilidades e disposição dos pais no que tocava a levar para casa um 'presente' simbólico para recordar a viagem.


Ainda na primeira metade da década de 90, no entanto (bem antes do advento das grandes superfícies) um novo tipo de loja veio ajudar a resolver esse problema, oferecendo uma enorme variedade de produtos a um preço fixo e – mais importante – acessível aos bolsos e carteiras infantis – a princípio, cem ou duzentos escudos, que mais tarde viriam a subir para o valor que 'baptizou' oficialmente este tipo de estabelecimento, os famosos trezentos.


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Configuração típica de um estabelecimento deste tipo. (Crédito da foto: Ainda Sou do Tempo.)


Escusado será dizer que este conceito, por essa altura já presente em países como os EUA ou o Reino Unido, se afirmou absolutamente revolucionário em Portugal, onde o consumidor médio – sobretudo jovem – estava pouco habituado a tal variedade de produtos por tão baixos preços. Isto porque as 'lojas dos trezentos' vendiam desde as previsíveis 'quinquilharias' sem grande serventia até utensílios de cozinha, artigos de casa, livros (normalmente os famosos volumes da editora Europa-América, praticamente monopolista neste sector) e até artigos de vestuário ou plantas decorativas! E se é evidente que a qualidade destes produtos deixava muito a desejar – inclusivé no que toca às traduções dos livros – também não deixa de ser verdade que poder entrar numa loja com a semanada no bolso e sair de lá com QUALQUER produto em exposição era (e provavelmente continua a ser) o sonho de qualquer menor de idade. Assim, não é de estranhar que estas lojas tenham tido enorme adesão aquando do seu aparecimento, multiplicando-se rapidamente e espalhando-se por todo o País no espaço de poucos anos.


Mas como cantava George Harrison, 'tudo deve terminar', e também o 'ciclo' das 'lojas dos trezentos' acabou, eventualmente, por chegar ao fim – embora de forma muito mais lenta do que outros estabelecimentos de que aqui falámos em rubricas passadas, tendo o formato sobrevivido durante tempo suficiente para o nome 'loja dos trezentos' se transformar em 'loja do Euro'. Por essa altura, no entanto, já este tipo de loja enfrentava o adversário que o viria a destronar – a famosa 'loja dos chineses', que 'tomou de assalto' o sector comercial das 'lojas dos trezentos' e, mesmo sem a vantagem do preço fixo, as conseguiu paulatinamente eliminar do léxico dos portugueses. De facto, hoje em dia vai-se 'aos chineses' da mesma forma que, dez ou vinte anos antes, se ia 'aos trezentos', tendo o novo tipo de loja conseguido suplantar o estigma que lhe foi inicialmente associado – exactamente como aconteceu com os 'trezentos' no seu tempo. Para quem viu nascer e florescer esse tipo de loja, no entanto, a memória de um local onde tudo custava pouco mais de uma semanada permanecerá, sem dúvida, bem viva até aos dias de hoje, e remeterá inevitavelmente àqueles anos em que o conceito veio 'agitar' o comércio quotidiano e de bairro em Portugal...

Saturday, 11 February 2023

Saídas ao Sábado: Os Centros Comerciais de Bairro

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Já aqui por várias vezes fizemos referência aos centros comerciais tradicionais, 'residência' habitual de espaços hoje tão ultrapassados como videoclubes, lojas de discos independentes ou pequenas discotecas; estava, no entanto, ainda a faltar um artigo sobre estes espaços em si – falha que procuraremos, hoje, corrigir dedicando algumas linhas àquilo que passava por uma 'grande superfície' antes do advento dos 'shoppings' e hipermercados.


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O Apolo 70, em Lisboa, um dos mais icónicos estabelecimentos deste tipo


Presentes em quase todas as localidades ou povoações de algum tamanho em Portugal (e, ainda hoje, existentes em algumas delas, embora sob uma forma marcadamente mais 'esquelética' do que naqueles tempos) os centros comerciais tradicionais dividiam-se, grosso modo, em dois tipos: as chamadas galerias, que reuniam num mesmo espaço vários tipos de pequenos retalhistas, e aqueles que serviam, principalmente, de apoio a um supermercado. Ambos os tipos eram bastante comuns, não se podendo dizer que qualquer deles se superiorizasse ao outro, e ambos tendiam a oferecer algumas das 'necessidades básicas' do consumidor de bairro: boutiques, tabacarias, pequenos snack-bars, livrarias ou lojas de impressão, brinquedos ou informática (além dos espaços supramencionados) eram apenas alguns dos tipos de estabelecimento mais comummente encontrados em espaços deste tipo.


A ideia era, portanto, que um consumidor conseguisse encontrar num só edifício tudo aquilo de que necessitava, independentemente da sua natureza – daí o nome 'centro comercial'. Um conceito que, mais tarde, seria 'apropriado' e expandido pelas grandes superfícies, fazendo, ironicamente, com que os inovadores originais parecessem ultrapassados e pitorescos por comparação aos novos mega-espaços.


Ainda assim, a persistência do 'comércio de bairro' em muitas localidades portuguesas permitiu à maioria dos centros comerciais 'clássicos' protelar a sua extinção – ainda que, muitas vezes, a mesma se tenha apenas traduzido num modelo de 'morte lenta' tão deprimente quanto prejudicial às companhias que ocupavam o espaço. Na maioria dos casos, era o fecho do supermercado ou de uma das lojas principais (ou ainda a extinção da sala de cinema, outro apanágio deste tipo de espaços) que ditava o fim da galeria, sendo que muitas arriscavam, ainda, numa tentativa de renovação, invariavelmente (e infelizmente) malograda.


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O estado e aparência actual da maioria dos centros comerciais tradicionais portugueses.


Ainda assim, os habitantes das principais cidades do País (bem como de muitas vilas mais pequenas) terão ainda, potencialmente, contacto diário com este tipo de espaço, quanto mais não seja por lhes passarem à porta a caminho de casa, do emprego ou de qualquer outra actividade; e, nessas alturas, é de crer que a mente lhes 'voe' para outros tempos, em que percorriam com regularidade aqueles mesmos corredores, em busca das lojas favoritas e dos 'tesouros' que as mesmas escondiam.

Saturday, 12 November 2022

Saídas ao Sábado: A Festa do Magusto

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


Esta sexta-feira, celebrou-se o feriado bem português do São Martinho, que fica marcado, de Norte a Sul do País, pelas tradicionais festas do magusto que em ambientes mais citadinos se resumem praticamente ao consumo de castanhas assadas (em tempos disponibilizadas pelos tradicionais vendedores de rua), mas que em povoações mais pequenas acarretam uma série de outros elementos que as tornam uma Saída de Sábado (ou antes, de qualquer dia em que se dê a festa) verdadeiramente memorável, para os mais novos e não só.


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Nos anos 90, não era diferente, sendo as celebrações do magusto desse período muito semelhantes às actuais, ou às de décadas passadas, sendo esta, felizmente, daquelas tradições imunes a quaisquer avanços sociais ou tecnológicos – até pelo seu carácter bem presencial, com as famílias (e, por vezes, até grupos maiores, sobretudo nas aldeias, onde se trata de uma festa comunitária) a reunirem-se à volta da mesa ou de uma fogueira para conviver, comer as referidas castanhas e beber bebidas típicas da época (neste caso, mais os adultos que as crianças, dado o teor alcoólico da maioria dos acompanhamentos líquidos ligados à festa, dos quais se destaca o vinho novo.) Em certas partes do País, o magusto fica ainda ligado a tradições localizadas, como o 'furar das adegas' praticado nas Beiras, ou a matança do porco minhota.


Todos estes elementos – aliados aos que cada bairro ou povoação não deixava de adicionar à sua própria celebração – tornavam (e tornam) a noite de S. Martinho marcante para quem era (é) jovem e impressionável, sobretudo em ambientes menos urbanizados, onde as tradições eram, e continuam a ser, observadas a rigor - sendo que, para os citadinos, a data era, sobretudo, memorável pela oportunidade que oferecia de comer castanhas assadas na escola, muitas vezes no exterior, na companhia dos colegas de turma. Motivos mais que suficientes, portanto, para recordamos esta festa nas nossas páginas, e (espera-se) provocarmos nostalgia em todos aqueles que, em pequenos, as viveram....

Saturday, 26 March 2022

Saídas ao Sábado: A Ida À Biblioteca

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


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Não são todas as crianças que gostam de ler, mas para aquelas que gostam, uma ida à biblioteca é (ou era) uma Saída de Sábado tão válida quanto uma ida ao jardim ou ao parque infantil. Aquelas prateleiras atrás de prateleiras, cheias de segredos, aventuras, surpresas e mistérios prestes a serem revelados (quer 'in loco', quer mais tarde, com calma, em casa) conseguiam, no contexto certo, surtir o mesmo efeito de um corredor de hipermercado ou loja de brinquedos – até porque, para quem tem apetência para a leitura, os livros acabam por quase ser brinquedos...


Até mesmo quem não era muito de leituras, no entanto, tinha na biblioteca (quer municipal, quer de bairro ou até no contexto da escola) motivos de algum interesse, fossem os computadores de uso (quase) livre – durante muito tempo, a única forma de acesso à Internet para muitos jovens portugueses – fossem as pequenas, mas honestas, secções de filmes e CD's de música, onde se podia, com sorte, descobrir um novo filme para ver numa sexta à noite (sem que para isso fosse necessário ir ao videoclube) ou um álbum nunca antes ouvido de um artista favorito. Muitas bibliotecas tinham, ainda, arquivos de revistas de interesse cultural e científico, pelo que quem gostava de passar uma tarde a folhear volumes desse tipo acabava também, muitas vezes, por se inscrever para um cartão na biblioteca local.


Em suma, na sua essência, as bibliotecas (as quais existiam, e continuam a existir, na maioria das povoações portuguesas acima de um certo tamanho) serviam como um repositório de informação gratuita e acessível a qualquer instante – um papel que a então incipiente Internet estava ainda a algumas décadas de vir a desempenhar. Num mundo em que o Google não só existe, como é quase sinónimo com pesquisas de todos os tipos – e em que a maioria dos lares portugueses tem pelo menos um dispositivo capaz de aceder à Internet – este tipo de estabelecimento encontra-se, a par dos videoclubes e salões de jogos, numa rápida e inexorável espiral rumo à obsolescência, subsistindo hoje muito à custa de um público mais envelhecido e tradicionalista, bem como de eventos temporários, como exposições. Quem, nas décadas a que este blog remete, gostava de ler, de filmes ou de descobrir novos artistas musicais, no entanto, não esquecerá o papel e a influência que a 'sua' biblioteca, por muito humilde que fosse, desempenhou no cultivar desse gosto durante os seus anos de infância – razão mais que suficiente para que lhe sejam dedicadas estas breves linhas...

Saturday, 15 January 2022

Saídas ao Sábado: Os Videoclubes

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


Os anos 80 viram nascer aquele que se viria a tornar um dos mais bem-sucedidos e revolucionários aparelhos tecnológicos da História, o leitor de videocassettes. Ao contrário do que se passava até então – em que um qualquer filme tinha de ser visto enquanto estivesse em cena, caso contrário havia que esperar por uma eventual repetição – graças ao leitor de vídeo, qualquer cinéfilo podia, agora, ver o seu filme preferido no conforto da sua casa, quantas vezes quisesse e sempre que quisesse.


Esta premissa apenas tinha um problema – nomeadamente que, como qualquer tecnologia recém-criada, tanto os próprios leitores de VHS e Betamax como as cassettes com eles compatíveis eram proibitivamente caros para a carteira média da época; mesmo dez anos mais tarde, já depois de a tecnologia se ter popularizado, e de o VHS ter ganho a batalha dos formatos e tornado obsoleto o seu 'irmão mais velho', continuava a não ser barato alimentar o 'vício' por filmes em casa. Não foi, pois, de surpreender que o sempre oportunista mundo dos negócios tenha 'inventado' toda uma nova forma de lucrar com este paradigma e, ao mesmo tempo, permitir ao cidadão médio ver filmes em videocassette sem ter que abrir os cordões à bolsa.


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Surgidos ainda nos anos 80, precisamente como resposta ao problema acima delineado, os videoclubes não tardaram a popularizar-se, primeiro nos dois extremos do continente americano, e mais tarde um pouco por todo o Mundo – incluindo Portugal. O seu conceito era simples: a inscrição como sócio de um destes serviços permitia a qualquer pessoa alugar filmes por um período de uma a cinco noites, tendo cada modalidade um preço fixo – uma solução que, apesar de temporária, caiu no gosto da tal percentagem da sociedade ocidental que não tinha meios para comprar vídeos de forma permanente. Graças aos clubes de vídeo, a prática de juntar toda a família frente a um filme numa Sexta ou Sábado à noite tornou-se prática corrente, e muita gente deixou de ter desculpa para ainda não ter visto tal ou tal filme.


Com o seu aspecto e atmosfera característicos – em Portugal, a maioria eram pequenas 'lojecas' de bairro, longe do 'glamour' de uma Blockbuster – e o óbvio atractivo de oferecer filmes de todos os tipos, desde os maiores 'blockbusters' aos filmes de série B mais 'chungas' – os clubes de vídeo tinham, para as crianças dos anos 80, 90 e 2000, uma atracção muito especial, que apenas aumentava no caso dos videoclubes que permitiam alugar jogos de vídeo. Ir ao clube de vídeo alugar um filme, ou até devolvê-lo, era uma parte marcante da semana de qualquer criança ou jovem da época, e terá sido nestes espaços que muitos deles terão descoberto alguns dos seus filmes favoritos - uma situação que não se alteraria durante as duas décadas seguintes, mesmo depois de o VHS sofrer o mesmo destino que inflingira ao Betamax, e ser tornado obsoleto pelo formato DVD.


Não, a 'morte' dos clubes de vídeo viria a dar-se, como é tantas vezes o caso com os produtos e conceitos que abordamos neste blog, com o dealbar da era digital 2.0, com as suas plataformas de vídeo e streaming, que tornariam obsoletos não só este tipo de estabelecimentos, como o próprio conceito de formatos físicos para gravação e reprodução de filmes. Após o aparecimento de serviços como o YouTube, não tardaria muito até aqueles carismáticos 'buracos' escuros e esconsos, cheios de uma ponta à outra com estantes repletas de filmes de todos os tipos, estilos e géneros, fecharem portas para sempre, e para o próprio conceito que representavam desaparecer da consciência popular da sociedade ocidental. Os mais velhos, no entanto – aqueles que se lembram da sensação de ir, sozinho ou acompanhado, buscar os 'filmes da semana' ao videoclube mais próximo – não deixarão morrer a memória destes espaços, tão icónicos e indissociáveis da cultura jovem da época como as lojas de discos, os cinemas de bairro, os salões de jogos 'manhosos' ou as discotecas de cave de centro comercial.

Saturday, 30 October 2021

Saídas ao Sábado: A Ida ao Supermercado

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


Nas primeiras edições desta rubrica, abordámos o fenómeno dos hipermercados e dos shoppings, e o fascínio que – por factores como a dimensão e a novidade – os mesmos exerciam nos jovens portugueses dos anos 90; hoje, damos conscientemente um passo atrás, a fim de demonstrar como uma ida ao bom e honesto supermercado do bairro podia, também, ser uma experiência divertida e fascinante, ainda que não tão memorável quanto as atrás descritas - até porque bastante mais corriqueira.


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De facto, ao passo que uma ida ao hipermercado implicava, muitas vezes, um planeamento cuidado de todo ou quase todo o dia, a visita ao supermercado fazia-se de forma bem mais espontânea, estando o único planeamento relacionado com a execução de uma lista de compras e uma vista de olhos ao folheto, para perceber onde cada produto se poderia encontrar mais barato. A partir daí, bastava pôr pés a caminho até à sucursal local do supermercado pretendido e adquirir os produtos necessários.


A simplicidade e mundaneidade deste processo escondiam, no entanto, um atractivo adicional para as crianças e jovens mais curiosos. Isto porque os supermercados dos anos 90, muito menos padronizados e mais individuais que os de hoje em dia, escondiam mil e uma surpresas, fossem os carrinhos que apenas se soltavam após a inserção de uma moeda, os expositores de nozes a granel (das quais se conseguiam sempre 'roubar' algumas para a boca) as secções de brinquedos (bem mais pequenas que as dos hipermercados, mas ainda assim de algum interesse) ou até simplesmente produtos bem do agrado das crianças, como bolachas, sobremesas, bolos, iogurtes ou cereais - já para não falar da oportunidade de ajudar os pais ou familiares a procurar cada produto, tirá-lo do expositor e colocá-lo no carrinho, um acto simples, mas que deixava muitos de nós pouco menos que ufanos da nossa utilidade.


Para as crianças mais pequenas, havia ainda o divertimento de se sentar dentro do próprio carrinho e ser 'conduzido' numa visita guiada às prateleiras, sendo que alguns supermercados incorporavam mesmo uma área para este fim nos seus carrinhos, talvez a fim de evitar que as crianças tivessem de se sentar na área destinada às compras. No fim da visita, para os mais bem comportados, havia ainda a (forte) possibilidade de ser presenteado com um doce – como um chupa-chupa, um chocolate, um pacote de Sugus ou uma simples pastilha – ou uma banda desenhada, como recompensa pela maturidade demonstrada. Razões mais do que suficientes para considerar a simples e singela visita ao supermercado da esquina, na companhia dos pais ou avós, como parte integrante da experiência da infância, quer nos anos 90, quer hoje em dia.

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

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