Showing posts with label grandes dos pequenos. Show all posts
Showing posts with label grandes dos pequenos. Show all posts

Sunday, 1 February 2026

Domingo Desportivo: Um 'Grande' de Dois 'Pequenos'

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Muito mais do que nos clubes ditos 'grandes', os muitos 'pequenos' históricos dos campeonatos portugueses vêem ingressar nas suas fileiras jogadores que verdadeiramente 'sentem' a camisola, e para os quais o compromisso a longo prazo e baseado na paixão se sobrepõe a qualquer consideração contratual ou salarial – ou não fosse essa a premissa desta rubrica. Mais raros, no entanto, são os nomes que conseguem apresentar tal vínculo em não apenas um, mas múltiplos clubes, como logrou o nome a quem dedicamos as próximas linhas, no dia do seu sexagésimo aniversário.


31639_20200904110117_armando_santos.jpg


De facto, antes de ser 'esteio' da defensiva central do Grupo Desportivo Feirense durante grande parte da década de 90 (ao lado do ainda mais histórico Pedro Miguel), Armando Gomes dos Santos fora já parte importante dos plantéis dos Dragões Sandinenses a partir de meados da década de 80, altura em que era promovido ao plantel principal, após ter feito toda a sua formação no clube; seria, aliás, ainda ao serviço da agremiação das Distritais portuguesas que o central veria 'entrar' a década de 90, tendo a primeira transferência da sua carreira sénior tido lugar apenas no defeso de Verão da década de 1990/91, quando se transferia para a Sanjoanense, naquela que seria a única época menos bem conseguida da sua carreira, com apenas dois jogos disputados ao longo da temporada. Foi, pois, sem surpresas que o Verão seguinte viu o futebolista 'mudar de ares', rumando à equipa que, sem que ninguém ainda o soubesse, se tornaria sinónima com o seu nome.


De facto, em Santa Maria da Feira, Armando viria a 'pegar de estaca', nunca realizando menos de trinta jogos por época ao longo das sete que passou no clube azul e branco, com o qual viveria 'altos e baixos', transitando entre a então chamada II Divisão de Honra (hoje Liga 2) e a II Divisão B (hoje Liga 3) mas nunca 'virando o bico ao prego' ou procurando novas paragens, preferindo, ao invés, tornar-se 'Grande dos Pequenos' daquele emblema, tal como o fôra em Sandim durante grande parte da década anterior. O defesa só voltaria, pois, a efectivar uma transferência após a segunda despromoção dos homens da Feira à II Divisão B, no final da época 1997/98, quando já contava trinta e três anos, mudando-se para a Vila das Aves para representar, durante uma época e meia, o Desportivo local.


A sua importância no seio da nova equipa e as boas exibições que continuava a carimbar garantiram-lhe, no primeiro defeso da década de 2000, nova transferência, desta feita para o Freamunde, onde passaria o período mais curto da sua carreira – apenas seis meses que, ainda assim, o viram alinhar quase duas dezenas de vezes com a camisola do clube, e abriram caminho a nova 'aventura', desta feita na Ovarense, onde voltou a ser opção quase indiscutível durante mais duas épocas, antes de regressar às suas duas 'casas', ingressando primeiro no Feirense (para a época 2002/2003) e depois no emblema que o vira despontar para o futebol sénior, e onde terminaria carreira, aos trinta e oito anos, no final da época 2003/2004. E quem observou atentamente o 'padrão' da carreira do agora ex-central certamente não ficará surpreendido pelo facto de o mesmo ter escolhido, precisamente, os Dragões Sandinenses como plataforma para embarcar na carreira de treinador, a qual seguiu durante três épocas, antes de se afastar definitivamente do mundo do futebol.


Hoje, aos sessenta anos, o antigo defesa pode 'olhar para trás' e orgulhar-se de uma carreira que, embora passada longe das 'luzes da ribalta' e a um nível mais modesto (sem sequer o habitual 'salto' para um clube de meio da tabela da I Divisão nacional, empreendido por tantos dos seus contemporâneos), demonstra ainda assim um nível de lealdade e amor à camisola cada vez menos comuns entre os futebolistas modernos. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Monday, 10 November 2025

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Pedro Miguel, o Filho 'Esquecido' de Santa Maria da Feira

NOTA: Este 'post' é respeitante a Domingo, 09 de Novembro de 2025.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Há jogadores assim: não despertam a paixão dos adeptos fora do seu próprio clube, não partem em aventuras nos 'grandes' ou no estrangeiro, nem sequer são particularmente lembrados pelo grande repositório digital de memórias (pesquisar o nome e clube na Wikipédia talvez até direccione para um homónimo mais famoso) mas constroem carreiras honrosas, ligadas ao emblema de formação ou de coração, e encarnam a expressão que escolhemos para dar nome a esta rubrica, tornando-se verdadeiros 'Grandes dos 'Pequenos''.


112290_pedro_miguel.gif


A única foto do jogador actualmente disponível na Web.


É o caso do jogador a que dedicamos estas linhas, por ocasião dos seus cinquenta e três anos, celebrados este fim de semana: Pedro Miguel Almeida Santos (mais vulgarmente conhecido pelos dois primeiros nomes) defesa formado no Feirense e que, à parte uma muito breve incursão pelo futebol amador à saída dos escalões jovens (no clube da terra, o Caldas de São Jorge) passaria nada menos do que quinze anos ligado ao histórico emblema nortenho, que acompanhou nos diversos 'altos e baixos' ao longo dos anos 90, tendo chegado a sagrar-se campeão da então II Divisão de Honra e militado mesmo no principal escalão português. E, embora tenha demorado algumas épocas a verdadeiramente se afirmar no esteio da defesa do seu clube de formação, uma vez conquistado esse estatuto, não mais o perderia, tendo sido peça activa das campanhas dos homens de Santa Maria da Feira entre as temporadas de 1994/95 e 1997/98, e elemento transmissor da 'mística', a partir do banco, nas duas seguintes.


Não seria, pois, senão na primeira temporada completa do Novo Milénio, já sem a mesma preponderância de outrora no seio do plantel, que Pedro Miguel finalmente deixaria em definitivo o clube que o vira nascer e crescer, regressando ao futebol amador ao serviço do Lusitânia de Lourosa. Não demoraria, no entanto, mais do que duas épocas até o defesa regressar a 'casa' – onde, infelizmente, se tornaria a ver algo 'proscrito', pouco passando da meia-dúzia de presenças ao longo da temporada de 2002/2003.


Esta situação motivaria nova transferência para as ligas amadoras, desta vez para o Pampilhosa, mas seria apenas na época seguinte que Pedro Miguel viveria novamente uma situação de estabilidade e preponderância dentro de um grupo de trabalho, vindo a tornar-se 'Grande' de um segundo 'Pequeno' ao serviço da Sertanense, onde viria a passar sete épocas – tantas quantas fizera como sénior no Feirense – e a pendurar as botas, já com quase quarenta anos. Para trás, ficava uma carreira discreta, quase sempre longe dos holofotes da ribalta, mas onde, ainda assim, lograra deixar marca consideravelmente longeva em dois clubes, e viver o sonho de jogar pelo clube da terra-natal, e do coração – bem vistas as coisas, uma história bem mais feliz do que a de muitos jogadores com perfil bastante mais destacado, e que lhe merece a homenagem nestas páginas por ocasião do seu aniversário. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Sunday, 14 September 2025

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Paulo Ferreira, O 'Amadorense Adoptivo'

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Da quase infinita quantidade de jovens futebolistas que passam pelas camadas jovens dos grandes clubes mundiais, apenas uma ínfima parte logra, efectivamente, ascender à equipa principal, ficando a restante (esmagadora) maioria 'pelo caminho', seja por questões técnicas, por tardarem a demonstrar o potencial esperado, por opção técnica dos treinadores, ou até por razões do foro pessoal. Portugal não é, de todo, excepção a esta regra, sendo habitual ver jovens jogadores acabados de sair dos 'fornos' de Sporting, Benfica e Porto reforçarem emblemas de menor dimensão, e construírem carreiras que, embora honrosas, acabam por ficar longe do esperado. Cabe, pois, a cada jogador decidir como encarar este trajecto alternativo, acabando por ser tantos os que desanimam com o que percebem como um 'falhanço' como aqueles que vêm o 'copo meio cheio', e decidem, literalmente, 'vestir a camisola' do novo clube.


download.jpg


Na década de 90, um dos exemplos desta última filosofia foi Paulo Alexandre Marques Ferreira. Formado nas escolas do Sporting em finais da década de 80, seria, no entanto, num outro clube da zona de Lisboa que viria a completar a formação – nomeadamente, o histórico Estrela da Amadora, então da antiga II Divisão de Honra, onde viria a passar literalmente toda a década de 90, primeiro como júnior e, mais tarde, como membro efectivo da equipa A, ao lado de nomes como os futuros internacionais Dimas e Paulo Bento. E se, a princípio, a sua participação na mesma era tão periférica quanto a de qualquer outro jovem em início de carreira, paulatinamente, vir-se-ia mesmo a afirmar como peça importante do plantel dos alvirrubros, tomando conta da ala esquerda na grande maioria das impressionantes sete épocas e meia (de um total de nove) que ali passou como sénior, e conseguindo mesmo honras de campeão da II de Honra, com apenas 19 anos, na época 1992/93, tendo os seis jogos em que participou ao longo dessa campanha sido suficientes para lhe outorgar esse título, e para lhe valer um lugar nas Selecções Nacionais Sub-20 e Sub-21, com as quais disputou, nesse Verão, o Torneio de Toulon (em que fez três jogos) e o Campeonato Mundial da categoria (em que participou em dois).


Ao mesmo tempo que a lealdade de Ferreira ao emblema da Reboleira fazia dele um Grande dos Pequenos naquele histórico do futebol português, as boas exibições chamavam a atenção dos ditos 'grandes', acabando o extremo por ser mesmo abordado por um deles, no caso o então 'campeão crónico' Futebol Clube do Porto, para o qual se transferia no final da época 1998/99. No entanto, a estadia do extremo na Invicta não foi feliz, não indo a sua participação de azul e branco além de cinco jogos na equipa B (em que, ainda assim, logrou marcar um golo) em menos de quatro meses passados no antigo Estádio das Antas. De facto, logo em Janeiro de 1999, o nome de Paulo Ferreira constava já da lista de dispensáveis, estando o extremo a um passo de voltar a 'casa' por empréstimo, mas acabando a escolha por recair no Farense, onde ingressou para o que restava da época, e onde voltou a ser feliz, participando em catorze jogos e contribuindo com dois golos para ajudar os algarvios a evitar a despromoção da Liga Portuguesa, antiga I Divisão.


download (1).jpg


O 'regresso a casa' de Paulo Ferreira teria, pois, de esperar até à época seguinte, tendo o extremo ingressado a título efectivo no clube que o vira despontar para o futebol, e onde voltaria a ser peça-chave, agora a um nível mais elevado. Duraria apenas uma temporada esta segunda passagem de Ferreira pela Reboleira, no entanto, sendo que a época seguinte o via envergar novamente as cores do Farense, desta vez a título efectivo. No final de mais uma bem-sucedida época, nova mudança, desta vez para o Varzim, onde se viria a iniciar o ocaso de carreira do jogador, que poria no futebol amador, ao serviço do 9 de Abril de Trajouce, ponto final definitivo numa carreira honrosa, em que, embora passando ao largo dos grandes palcos, conseguiu ser ídolo em pelo menos um clube, e rectificar adequadamente todos os (poucos) passos em falso. Razão mais que suficiente, pois, para a honrarmos, e ao próprio jogador, no dia em que este completa cinquenta e dois anos de idade. Parabéns, Paulo, e que conte ainda muitos.

Sunday, 13 October 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Os Dois Amores de Bruno Vaza

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Numa era em que o desporto-rei se encontra mercantilizado ao extremo, com valores salariais e de transferência cada vez mais absurdos, é já praticamente impossível encontrar jogadores que, ao longo da carreira, apenas representem menos de uma mão-cheia de emblemas, por vezes ficando-se mesmo pelo clube do coração. Há três décadas, no entanto, o panorama era algo mais 'inocente', e muitos futebolistas deixavam, ainda, que o coração falasse mais alto, fidelizando-se às poucas agremiações nas quais faziam carreira. Já aqui abordámos alguns desses nomes, como foi o caso de Serifo, Kasongo, Litos ou Martelinho, e este Domingo Desportivo adicionamos mais um atleta a essa ilustre lista, na pessoa de Bruno Alexandre Vaza Ferreira, também por vezes conhecido apenas pelo seu apelido mais 'invulgar', Bruno Vaza.


Bruno Vaza SCU Torreense.jpg


Com a camisola do primeiro dos seus dois clubes...


Nascido em Torres Vedras e formado no histórico clube local, o médio chegaria à equipa principal do mesmo ainda em finais dos anos 80, ainda como opção periférica. Não tardaria muito, no entanto, até o jogador mostrar o seu valor e se tornar peça-chave da equipa para a primeira época completa da década de 90, no decurso da qual contribuiu activamente para a primeira promoção do Torreense à então I Divisão em vinte e sete anos – curiosamente, sucedendo ao próprio pai, que fizera parte da última equipa torreense a conseguir a subida ao escalão principal, em 1964/65.


Tão-pouco perderia o médio preponderância durante as épocas passadas pelos rubro-celestes na 'Primeira'; antes pelo contrário, nas quatro épocas seguintes, apenas uma (a primeira no escalão principal) viu Vaza fazer menos de trinta jogos pela equipa da sua terra, tendo mesmo assim participado ainda em cerca de metade dos jogos do Torreense durante a referida temporada, e deixado a sua marca com dois golos. Nas temporadas subsequentes, o médio voltaria a agarrar a titularidade, tendo os seus números sido exactamente iguais para ambas: trinta e um jogos e dois golos em cada uma.


30617_20240117114449_bruno_ferreira.png


...e com a do segundo.


A constância e qualidade exibicional demonstrada pelo médio não passavam, aliás, despercebidas, e foi com pesar que os adeptos torreenses viram o 'filho da terra' dar o 'salto' para um clube de maiores dimensões, rumando a Norte para representar aquele que viria a ser o segundo de apenas dois clubes representados por Vaza durante toda a sua carreira, no caso o Sporting de Braga, onde chegou a partilhar plantel com nomes como Eduardo, Quim, Ricardo Rocha, Miklos Feher, Carlitos (todos mais tarde do Benfica) Tiago ou Luís Filipe (que se notabilizaram no Sporting) ou ainda a eterna 'estrela' bracarense, Karoglan. Ali, o médio deu de imediato continuidade ao bom trabalho realizado no Oeste, justificando a sua contratação e afirmando-se como elemento importante do plantel alvirrubro a longo prazo. De facto, foram nada menos do que sete as temporadas passadas pelo médio no Minho, quase todas como titular quase indiscutível, tendo a sua contribuição esmorecido apenas já nos últimos meses do século XX, em que uma lesão grave o levou a registar apenas sete aparições pela equipa principal e uma pela equipa B. Após uma primeira época do Novo Milénio passada 'a zeros', o médio percebeu que era altura de regressar a 'casa', e foi com prazer, orgulho e satisfação que os adeptos do Torreense viram regressar uma das suas 'estrelas' noventistas, ainda bem a tempo de deixar o seu contributo nas campanhas, agora bem mais modestas, do clube do Oeste.


Infelizmente, o médio que pendurou a camisola no balneário do Estádio no final do Verão de 2001 não era, já, o mesmo que o deixara rumo a Braga alguns anos antes. A lesão contraída durante a estadia no Minho condicionava fortemente o jogador, impedindo-o de deixar o seu contributo como fazia em tempos passados, e tornando Bruno sobretudo num daqueles 'jogadores de balneário' cuja função é transmitir aos colegas a mística do clube. E ainda que esta fosse uma posição honrosa, não era manifestamente a mais desejável para um atleta de apenas trinta e um anos, e que normalmente teria ainda um par de épocas pela frente antes de 'pendurar as botas'; assim, e ainda a ressentir-se da lesão, Vaza viria mesmo a terminar a carreira de forma prematura no final da época 2001/2002, tendo vestido por apenas duas vezes a camisola que, em tempos, tão honrosamente representara. Um final triste para uma carreira que se pautou pelo profissionalismo, dedicação e verdadeiro 'amor à camisola', numa época em que essa expressão era já tão 'abusada'.


images.jpeg


Bruno Vaza na actualidade, em programa do Canal 11.


Ao contrário da maioria dos colegas a quem dedicamos espaço nestas páginas, Bruno Vaza não enveredou por cargos técnicos, nem tão-pouco ficou ligado à estrutura de qualquer dos seus dois clubes, tendo-se afastado por completo do mundo do futebol; o seu legado, no entanto, não se ficou por aí, já que o filho, Rodrigo Vaza (que chegou a passar pelas camadas jovens do Sporting) iniciou a carreira sénior com a mesma camisola do pai – a do clube da terra natal – antes de rumar aos Estados Unidos para prosseguir a carreira na Major League Soccer. Quanto a Bruno, é hoje um cidadão perfeitamente comum, que certamente terá, algures no decurso do seu quinquagésimo-quarto aniversário, recordado os tempos em que era Grande dos Pequenos na antiga I Divisão Portuguesa. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Sunday, 21 July 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Eugénio, Um Pequeno Grande Homem

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Qualquer fã de futebol que tenha crescido em Portugal nas duas últimas décadas do século XX recordará com especial carinho as icónicas cadernetas de cromos alusivas aos campeonatos nacionais da época, cada uma repleta de clubes históricos e caras que, através da sua presença ano após ano, acabavam por se tornar familiares e conhecidas. O jogador de que falamos este Domingo, no dia do seu quinquagésimo-oitavo aniversário, foi uma dessas caras, tendo ficado ligado, na mente dos jovens adeptos nacionais, a um dos mais históricos de todos os clubes nacionais, o carismático Sporting Club Farense.


795331__20210622002643_eugenio.png


O jogador com a camisola com que se tornou sinónimo.


De facto, apesar de nascido na Margem Sul do Tejo e formado no Sporting, onde dava os primeiros toques logo no início da adolescência, Rui Pedro Rodrigues Eugénio (vulgarmente conhecido apenas pelo seu apelido) veria a sua carreira sénior ficar ligada a regiões consideravelmente mais a Sul, nomeadamente a terras algarvias – região onde, aliás, daria os primeiros passos como sénior, aos dezoito anos recém-completos, ao serviço do Olhanense. Seguir-se-ia uma experiência mais a Norte (no Recreio de Águeda) e outra na zona de Lisboa – onde representaria, durante duas épocas, o Estoril-Praia – mas o dealbar da época 1988-89 via o defesa lateral ingressar na agremiação com que haveria de se tornar sinónimo para muitos adeptos portugueses ao longo da década seguinte. Essa primeira passagem pelo Farense durou quatro épocas, em que Eugénio se afirmou como peça-chave quase indiscutível da equipa algarvia, realizando mais de cento e trinta jogos entre a então Segunda Divisão de Honra e o escalão principal – que, aliás, ajudaria a equipa a atingir logo na sua segunda época, a qual ficou também coroada pela presença no Jamor (embora como finalista derrotado) e, a nível pessoal, pelo nascimento do filho, Pedro.


eugenio5.jpg


Cromo da Panini dos tempos da passagem pelo Braga....


Foi com o Farense ainda 'em alta', e com estatuto de titular quase indiscutível, que Eugénio abraçou a sua próxima aventura, desta feita no outro extremo do País, e trocando a camisola alvinegra do Farense pela alvirrubra do Sporting de Braga de Mladen Karoglan. A passagem para um clube de maior dimensão não assustou, no entanto, Eugénio, que rapidamente se afirmou como opção também nos arsenalistas, pelos quais viria a realizar setenta e cinco jogos ao longo das três épocas seguintes.


s-l1200.jpg


...e da segunda passagem pelo Farense.


Em 1995, no entanto, surgiria a oportunidade de 'regressar a casa', que Eugénio não hesitaria em aproveitar; seria, pois, de braços abertos que a 'capital' do Algarve voltaria a acolher um jogador que lhes dera muitas alegrias num passado nada distante. E a verdade é que Eugénio retomaria funções no mesmo patamar em que as havia deixado, ou seja, como titular habitual – pelo menos durante a primeira época, já que na seguinte (de 1996/97) viria a perder o lugar, realizando apenas sete partidas em toda a campanha. A situação viria, no entanto, a ser corrigida na época seguinte, tendo Eugénio voltado a figurar como parte importante da equipa durante os dois anos seguintes, antes de se tornar novamente opção de recurso na sua última época nos 'leões' algarvios, já no dealbar do Novo Milénio.


Por esta altura, o 'peso' da idade já se começava a fazer sentir, e Eugénio iniciaria, gradualmente, uma transição para o futebol semi-profissional, 'despedindo-se' dos principais escalões nacionais com uma época como 'jogador de plantel' do Olhanense (num bonito 'fecho de círculo' da sua carreira profissional) antes de ingressar por duas épocas no modesto Sambrasense (embora algumas fontes dêem também conta de uma passagem pelo Valdevez). Seria nesse clube, e na condição de amador, que, no final da época 2002/2003, Eugénio viria a fechar definitivamente o seu ciclo enquanto jogador de campo, deixando o legado do seu nome nas mãos do filho, Pedro, à época ainda em idade de Iniciado, e parte das escolas do Farense - ele que viria a passar pelas Academias de Sporting e Benfica e, tal como o pai, a representar o clube alvinegro em duas ocasiões distintas, antes de rumar ao estrangeiro para jogar na Bulgária, Turquia e, actualmente, Cazaquistão. Já o Eugénio 'sénior' transitaria, com naturalidade, para cargos técnicos do clube a que ficara indelevelmente ligado, tendo exercido funções de adjunto durante duas épocas, e chegado mesmo a ser treinador interino dos algarvios na época 2006/2007.


Hoje afastado do Mundo do futebol, Eugénio continua, no entanto, a ser lembrado com carinho pelos adeptos farenses, que aprenderam a respeitar e apreciar o profissionalismo do lateral, um homem de valores e personalidade bem maiores do que a sua estatura de módicos 1,66 metros, e que bem merece esta singela homenagem no dia do seu aniversário. Parabéns, e que conte muitos.

Sunday, 10 March 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Luís Vouzela, Um Exemplo de Estabilidade Modesta

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Apesar de, hoje em dia, militar na modesta Liga 3 (ao lado de outros históricos do futebol português, como Belenenses e Vitória de Setúbal) a União de Leiria sempre foi - historicamente e em particular em finais do século XX e inícios do seguinte – um dos emblemas-estandarte das divisões profissionais nacionais, daqueles que qualquer adepto da época nem sequer equacionava não ver nas páginas da tradicional caderneta anual da Panini. Por entre classificações honrosas (mas sem nunca 'tocar' nos 'grandes') e as habituais 'subidas e descidas' experienciadas por um clube da sua dimensão, o Leiria conseguia, ainda, revelar uma série de jogadores que, mais tarde, viriam a almejar a mais altos vôos, com destaque para Hélton (histórico guardião do Porto que teve na cidade do Lis a sua primeira experiência futebolística em Portugal) e para os prolíficos avançados Maciel e Derlei, este último 'destinado' a fazer História como um dos poucos jogadores a vestir a camisola de todos os três grandes, e a gozar de sucesso em todos os três.


Em meio a estas revelações, no entanto, o clube alvirrubro contava, também, com a sua quota parte de 'jogadores de clube', aqueles 'Grandes dos Pequenos' que se contenta(va)m com uma carreira estável e o estatuto de ídolo dos adeptos; e, no período em causa, um destes nomes foi o de um médio trasmontano que, durante mais de uma mão-cheia de épocas, assegurou a consistência defensiva no centro do terreno leiriense, e que comemora este Domingo cinco décadas de vida.


VouzelaPortoLeiria.jpg


O médio ao serviço do clube onde se notabilizou.


Proveniente do Académico de Viseu, onde se formara e onde tivera as primeiras experiências como futebolista sénior, Luís Miguel Silva Tavares, mais conhecido como Luís Vouzela, chegava a Leiria, no início da época 1995/96, já com créditos de jogador estabelecido, após duas temporadas como peça indispensável do emblema viseense. O 'salto' para um nível consideravelmente mais alto tão-pouco assustou o médio, que, das seis temporadas que passaria no clube do Lis, apenas em uma não conseguiria afirmar-se como indispensável (1997/98, em que apenas amealhou pouco mais de uma dezena de presenças), tendo, nas restantes, sido pedra basilar do meio-campo alvirrubro, sempre com cerca de trinta a trinta e cinco jogos ao longo de cada época. Neste período, o viseense chegou também a partilhar o relvado com nomes sonantes do futebol nacional, como os futuros ídolos portistas Derlei e Nuno Valente, a ex-estrela de Benfica e Porto Tiago, o guarda-redes Costinha, antigo mal amado de Sporting e FC Porto, ou o futuro treinador dos 'leões', Silas, outro 'histórico' do clube.


Shutterstock_8292587b.jpg


Vouzela no Moreirense.


Curiosamente, este honroso e regular registo, bem como o apreço de que gozava junto dos adeptos leirienses, não resultou em vôos ainda mais altos para Luís Vouzela; pelo contrário, os passos seguintes do médio seriam 'para o lado', já que se transferiria para emblemas da mesma dimensão do Leiria, ou até um pouco menores. O que também não mudaria seria o estatuto do jogador dentro dos plantéis de Santa Clara (primeiro) e Moreirense (depois), clubes entre os quais dividiria as épocas entre 2002/2003 e 2004/2005, realizando entre quatro a cinco dezenas de jogos por cada um. O 'salto', no caso para o estrangeiro, ficaria adiado para o fim de uma única época ao serviço do Beira-Mar, também em bom plano, após a qual o médio assinaria pelo Olympiakos Nicosia, de Chipre – à época destino de 'férias pagas' para um sem-número de jogadores portugueses de nível médio.


thumb_W95px_H120px_19-08-2005_1124462759_104_28.jp


Ao serviço do Beira-Mar.


Durou pouco, no entanto, a 'viagem de férias' de Vouzela, que se veria de regresso ao futebol nacional no final dessa época de 2006-2007, após apenas uma dezena de partidas pelo emblema cipriota. O 'remédio' para relançar a carreira passou, assim, por nova descida de nível profissional, com as épocas seguintes a verem Vouzela representar clubes progressivamente mais modestos: Desportivo de Chaves (onde se chegou a cruzar com outro Grande dos Pequenos, Kasongo, na última época do congolês enquanto futebolista), Nelas, e Penalva do Castelo foram os seus destinos nas três temporadas seguintes, antes de 'regressar a casa' para duas épocas no clube que o vira despontar para o futebol, no decurso das quais sofreu uma lesão grave na perna.


241_pri_luis_vouzela.jpg


Com a camisola do Chaves.


Ao contrário do que seria de esperar, no entanto, não seria no Académico de Viseu que Vouzela viria a dar por encerrada a carreira, tendo o médio recuperado da referida lesão o suficiente para representar ainda, já com estatuto de veterano, por Nogueirense e Oliveira de Frades, onde viria a terminar o seu percurso, já com quarenta anos feitos.


95869-vouzela.webp


No 'seu' Académico de Viseu, já veterano.


Um exemplo de longevidade dentro das quatro linhas, que chegaria ainda a ter um 'gostinho' da carreira de treinador, ao orientar os modestos Campia e Santacruzense durante um par de jogos cada, nas épocas de 2017/18 e 2018/19, respectivamente. Desde então, Vouzela tem-se mantido afastado do Mundo do futebol, preferindo dedicar-se a outras actividades na sua 'reforma', e ser lembrado por aquilo que deu aos campeonatos portugueses nos seus tempos de mais jovem. Parabéns, e que conte muitos.

Sunday, 12 February 2023

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Mladen Karoglan

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Numa semana em que o Sporting Clube de Braga está nas 'bocas do Mundo' por ter eliminado o Benfica da Taça de Portugal, nada melhor do que recordar um dos jogadores históricos da fase 'noventista' do clube nortenho. Não, não se trata da escolha óbvia, já que esse foi fazer História também no Benfica, na década seguinte, desqualificando-o da selecção para esta rubrica; falamos, antes, de um jogador que passou oito épocas em Portugal (seis delas em Braga) sem nunca ter querido 'dar o salto' para mais altos vôos – o ponta-de-lança Mladen Karoglan.


762776_med__20210317145902_mladen_karoglan.png


O avançado com a camisola que o notabilizou.


Nome clássico dos Elifoots daqueles tempos (em que acabava, muitas vezes, a carimbar por si mesmo a subida de um clube da Quarta Divisão), Karoglan passou grande parte da sua carreira na sua Croácia natal, tendo a sua estreia como sénior tido lugar ainda no início da década de 80, pelo Hadjuk Split, onde havia feito a sua formação; sem espaço no 'grande' croata, no entanto, o jovem Karoglan teria uma única presença pelo clube, transferindo-se, logo na época seguinte, para o modesto Iskra Bugojno, onde passaria cinco épocas, com utilização apenas esporádica.


A paragem seguinte seria o também inexpressivo Dínamo Vinkovci, onde se estabeleceria finalmente como parte importante da equipa titular, justificando a transferência, logo no início da década de 90, para o NK Zagreb, onde passaria uma época, participando em quase todos os jogos e contribuindo com um golo. Uma marca escassa para um ponta-de-lança, mas que seria, ainda assim, suficiente para assegurar a Karoglan, então com 26 anos, a primeira (e única) aventura internacional - motivada, em grande parte, pela guerra então vivida na ex-Jugoslávia, conforme o avançado revelou numa entrevista anos depois.


O destino era Portugal, nomeadamente Chaves, onde o croata rapidamente se destacou pela boa química com o parceiro de ataque, o finlandês Kimmo Tarkkio, que lhe valeu a condição de titular quase indiscutível; no total, em duas épocas, o avançado realizou sessenta e duas partidas, contribuindo com dezassete golos, e deixando indicações suficientemente boas para suscitar um suposto interesse do FC Porto (que nunca se chegaria, no entanto, a concretizar) e lhe garantir a transferência para um clube do nível seguinte – no caso, o emblema onde se viria a tornar 'herói', e a terminar a carreira profissional.


Chegado a Braga no início da época 1993/94, Karoglan rapidamente se estabeleceria como pedra basilar da equipa principal, tal como já acontecera em Chaves, tornando-se muito acarinhado pelos adeptos locais ao longo das seis épocas que passou no emblema arsenalista, durante as quais partilhou o balneário com outros 'Grandes dos Pequenos', como Gamboa, bem como com futuros 'famosos' como Quim (o outro grande nome da História do clube) e Elpídio Silva. Partidas, essas, foram mais de duzentas, com cerca de sessenta e cinco golos apontados, tornando o avançado num dos melhores da História dos arsenalistas, e deixando-o com um total de oitenta e dois golos marcados em oito temporadas passadas nos campeonatos nacionais, dos quais apenas dez não foram obtidos em jogos da Primeira Divisão; uma marca que, mais uma vez, pode parecer escassa para um 'ponta-de-lança', mas que foi ainda assim suficiente – em conjunto com os restantes atributos técnicos do futebolista – para render a Karoglan o estatuto de nome lendário da Primeira Divisão nacional, e de 'grande' de um 'pequeno' que nem o era assim tanto, conforme viria a provar em anos subsequentes...



Karoglan em acção.

Sunday, 2 October 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - Camberra

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Desde que demos início a esta rubrica dedicada a celebrar jogadores cuja carreira se fez longe dos 'três grandes', e como figura maior de clubes mais pequenos, temos mencionado vários nomes que acabam por ficar associados a apenas um ou dois clubes em particular ao longo da sua carreira, mostrando um amor e dedicação à(s) camisola(s) pouco habitual num meio mercenário como é o do futebol. Agora, chega a altura de juntar mais um desses jogadores à lista que já inclui nomes como Serifo, Fary ou Martelinho, e de falar de um dos mais sonantes e influentes futebolistas a passar pelo histórico Rio Ave durante a década de 90.


15362_med_camberra.jpg


O jogador com a camisola com que se tornou sinónimo durante a década de 90


Nascido João Paulo Santiago Albuquerque, em Luanda, Angola, a 02 de Abril de 1974, este jogador viria – como tantos outros - a ficar conhecido nos meandros do futebol nacional por uma alcunha: Camberra. Foi sob esse nome que deu os seus primeiros passos, ainda com idade de juvenil – em outro histórico do futebol nacional, o Atlético CP, corria a época de 1989/90 – e seria por ele que se daria a conhecer nos campeonatos profissionais, duas épocas depois, ao serviço de ainda mais um emblema de enorme tradição, o Gil Vicente. E apesar de essa passagem pelo clube barcelense ter sido tão discreta quanto as anteriores por Atlético e Ovarense, até pela tenra idade do jogador, as suas oito exibições com a camisola dos gilistas foram, ainda assim, suficientes para despertar, o interesse do Rio Ave, que o contrataria no inicio da época 1992/93, quando Camberra contava, ainda, apenas dezoito anos.


Sem que qualquer das partes ainda o soubesse, iniciava-se nesse momento uma daquelas relações de sinergia que, cada vez mais, vão faltando no futebol moderno; no total, Camberra passaria seis épocas e meia no clube vilacondense, sempre como membro preponderante no coração do meio-campo dos alviverdes, cimentando o seu estatuto como um dos Grandes daquele Pequeno que contava, também, com outro nome ainda mais histórico em Vila do Conde que o de Gamboa: Augusto Gama, de quem paulatinamente também aqui falaremos.


Tão-pouco seria esse o último contacto de Camberra com um nome histórico no seio de um clube, já que a sua próxima aventura o levaria a cruzar-se com Serifo, nome maior do Leça, a quem o médio se juntaria na janela de transferências de Inverno da época 1997/98; precisamente um ano depois, e após trinta e duas partidas pelo seu novo clube, o angolano viria a aceitar o desafio de outro clube nortenho das divisões inferiores, no caso o Freamunde, onde passaria meia época, contribuindo com 17 aparições. O novo milénio veria, no entanto, o médio rumar ainda a outras paragens, tendo as últimas duas décadas da sua carreira sido passadas, respectivamente, com o Desportivo das Aves (27 partidas, 1 golo) e Famalicão (25 partidas) antes de o angolano pôr um ponto final na mesma, com apenas 28 anos.


Apesar do seu contributo para todos estes 'históricos' do desporto-rei nacional, no entanto, não restam dúvidas sobre qual o clube com o qual Camberra é mais frequentemente e imediatamente identificado: são mesmo as seis épocas e meia e quase 170 partidas do médio angolano ao serviço do Rio Ave que lhe outorgam o estatuto de verdadeiro Grande dos Pequenos, demonstrando enorme brio profissional e verdadeira dedicação ao clube vilacondense, e justificando a sua presença nesta nossa rubrica, ao lado de outros nomes tão históricos quanto ele próprio.

Sunday, 10 July 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - Martelinho

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.


Na última edição desta rubrica, falámos de Serifo, jogador que desenvolveu toda a sua carreira profissional num único clube, o Leça; esta semana, toca a vez a um nome que, embora não tendo batido o recorde do guineense, mostrou a mesma dedicação a um único emblema – Joaquim Pereira da Silva, conhecido futebolisticamente pela alcunha de Martelinho, e que fica indelevelmente ligado à trajectória noventista do seu clube do coração, o Boavista.


785299_med__20210522171246_martelinho.png


O jogador com a camisola de que se tornou sinónimo


De facto, grande parte da carreira do extremo foi passada nos axadrezados do Porto, onde ingressou ainda em idade de júnior, vindo do Feirense, e onde passou nada menos do que doze épocas - ainda que, nas duas primeiras, tenha sido alvo de empréstimos, a Marco e Aves, respectivamente. Tendo sido figura importante em ambas as equipas durante as respectivas temporadas (pelo Marco, fez 32 jogos e marcou quatro golos, enquanto que pelo Aves alinhou 33 vezes, contribuindo com seis golos) o ainda jovem jogador foi, no início da temporada 1995/96, reintegrado no plantel boavisteiro, o qual não voltaria a abandonar durante precisamente dez anos, durante os quais conquistaria (merecidamente) o estatuto de capitão e figura maior do conjunto nortenho, ainda mais do que nomes como William, Jimmy Hasselbaink, Erwin Sánches ou até Ricardo. No total, foram 189 jogos e 23 golos pelos axadrezados, dos quais trinta (e quatro golos) durante a época mais bem-sucedida da História recente do clube – foi, aliás, seu o único golo da vitória contra o Porto, que permitiu ao Boavista de 2000/2001 ultrapassar os rivais nortenhos e ocupar o topo da tabela, onde viriam a terminar a referida prova.


Terá, pois, sido com relativa surpresa que os adeptos axadrezados viram a sua figura de proa abandonar o clube no fim da época 2004/2005, para rumar aos amadores espanhóis do Portonovo, uma equipa de dimensão substancialmente menor do que o Boavista. A 'aventura' no estrangeiro duraria apenas um ano (durante o qual o médio logrou apenas 14 exibições), tendo Martelinho regressado a Portugal em 2006/2007 para ingressar, não no Boavista, mas no igualmente nortenho Penafiel; após apenas nove partidas ao longo de uma época, no entanto, o extremo voltaria a rumar a Espanha, para nova temporada no Portonovo, antes de efectuar nova mudança de rumo, 'pendurando as botas' como futebolista de campo para ingressar na equipa de futsal do Cidade de Lourosa.


Terminada essa aventura, o histórico do Boavista – então já com 34 anos - viria mesmo a assumir a reforma, fazendo, como tantos outros dos nomes que aqui focamos, a transição natural para a função de treinador, primeiro dos juniores de Feirense e Boavista (as mesmas equipas que o haviam lançado como profissional, quinze anos antes) e, mais tarde, das equipas sénior do Cesarense e Lourosa, pelo qual efectuou duas passagens, tendo a primeira rendido à equipa o título de campeão da AF Aveiro 2012-2013. Uma carreira indubitavelmente honrosa, e nada menos do que fascinante, mas cuja principal contribuição para o imaginário colectivo dos adeptos portugueses será mesmo o 'lugar cativo' que, durante várias épocas, o jogador teve no flanco direito do Boavista de Jaime Pacheco, pelo qual se afirmou como um verdadeiro 'Grande dos Pequenos'.


 

Sunday, 26 June 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - Serifo

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.


Hoje em dia, é raro encontrar um profissional de futebol que tenha feito toda a sua carreira no mesmo clube; a conjuntura actual, em que o futebol é tanto um negócio como um desporto e os clubes são tanto marcas como agremiações, é pouco propícia a este tipo de situação. Nos anos 90, no entanto, o desporto-rei era, ainda, um mundo algo mais 'puro' e inocente, e jogadores como Puyol e Paul Scholes preferiam tornar-se símbolos do clube onde militavam do que simplesmente ir atrás do próximo contrato milionário.


Não era, no entanto, apenas no escalão mais alto do futebol que tais situações ocorriam, muito pelo contrário; de facto, era longe das luzes da ribalta, num modesto clube de reputação local do campeonato português, que se podia encontrar um dos melhores exemplos de dedicação a um só clube da altura, verdadeiramente merecedor do epíteto de 'Grande dos Pequenos'.


Falamos do guineense Serifo Cassamá, vulgarmente conhecido apenas pelo seu primeiro nome, e que desenvolveu toda a sua carreira profissional numa única agremiação, onde passou umas impressionantes (por qualquer bitola!) DEZASSEIS temporadas, de finais dos anos 80 até meados da primeira década do século XXI, seguindo o clube das divisões distritais até à principal e, em seguida, também no sentido inverso.


FRV9HpFWQAA32_7.jpg


O emblema em causa era o histórico Leça FC, no qual Serifo ingressou no início da época 1987/88, com apenas vinte anos, após ter feito a formação no local Sport Bissau e Benfica. À época, o clube militava, ainda, na então denominada III Divisão (mais tarde II Divisão B), onde permaneceria durante mais cinco temporadas, até conseguir a promoção à então II Divisão de Honra no final da época 1992/93. Daí à promoção à I Divisão, passar-se-iam apenas duas épocas - coincidentemente as duas primeiras em que Serifo, verdadeiramente, se impôs na equipa, realizando 31 jogos e marcando 8 golos em 1993/94, e 15 jogos (um golo) na temporada seguinte.


A preponderância do médio no meio-campo dos leceiros permaneceria, aliás, intacta durante as três temporadas do clube no principal escalão nacional, tendo sempre realizado mais de vinte jogos por temporada (29 na última época do Leça na divisão de topo, 1997/98) e contribuído com três golos na temporada 96/97 e mais três na seguinte.


AAB6fjw.jpg


Serifo, nos tempos de Primeira Divisão, em duelo com um jogador que conseguiria o triplo da sua fama, com um terço do seu brio profissional


Os esforços do médio não foram, no entanto, suficientes para evitar a descida de divisão, que apenas foi agravada, em épocas subsequentes, por problemas financeiros, que culminaram num escândalo de corrupção e desvio de fundos. Nada, no entanto, que afectasse a lealdade de Serifo ao clube, tendo o guineense permanecido no plantel da agremiação nortenha até à temporada 2003/04 (a sua última como profissional) e sido quase sempre parte importante do plantel da equipa – um verdadeiro exemplo de amor a um clube, que rende (merecidamente) ao ex-médio do Leça a presença nesta rubrica, e o epíteto que a mesma depreende; de facto, a carreira de Serifo ilustra o significado da expressão 'Grande dos Pequenos', devendo o guineense (que, recentemente, chegou a fazer parangonas por ter andado, literalmente, desaparecido!) servir de exemplo de brio profissional a qualquer jovem que dê os seus primeiros passos como profissional num clube pequeno, e pondere as suas opções de carreira.

Sunday, 22 May 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - Eric Tinkler

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Na generalidade, a carreira de um jogador de futebol profissional desenvolve-se segundo certos trâmites, e segue uma estrutura definida: formação num determinado clube (com ou sem passagem para um clube maior durante esse período formativo), afirmação nesse mesmo clube ou em outro do mesmo país e, finalmente, a quase inevitável saída para o estrangeiro. Grosso modo, é esta a fórmula do futebol moderno, e a forma mais expectável de a carreira de qualquer futebolista se desenvolver.


Como em tudo, no entanto, existem excepções a esta regra – jogadores cuja carreira evolui de forma anómala e algo peculiar relativamente ao esperado. É, precisamente, de um caso desses que trata esta edição do Domingo Desportivo, em que nos debruçamos mais a fundo sobre uma carreira, no mínimo, estranha, e, precisamente por isso, interessante: a do sul-africano Eric Tinkler, um daqueles 'grandes dos pequenos' que se notabilizou em equipas menores do nosso campeonato, sem nunca ter dado o 'salto' para um dos três grandes.


img_1280x720$2016_03_19_00_17_00_1078352.jpg


O jogador ao serviço do Vitória de Setúbal


Iniciada em finais da década de 80, a carreira de Tinkler parecia, numa primeira fase, desenrolar-se de forma vulgar: formado no modesto Wits University, da sua região natal, o jogador conseguiu naturalmente o seu lugar na primeira equipa, tendo realizado 18 jogos durante a sua única temporada como sénior, em que mostrou o suficiente para despoletar o interesse de um clube estrangeiro, no caso, português.


É aqui que se dá a grande surpresa da carreira do sul-africano, já que o emblema em causa não era qualquer dos três 'grandes', nem tão-pouco um dos muitos 'históricos' que povoavam e continuam a povoar as duas primeiras divisões do futebol português; antes, o clube que descobrira Eric Tinkler algures no campeonato sul-africano e se propunha trazê-lo para terras lusas era...o União de Tomar! Sim, um clube regional a militar na II Divisão B conseguia, do nada, contratar uma promessa sul-africana, que, no início da época 1991-92, viajava até à Região Centro do país para alinhar pela modesta agremiação!


Escusado será dizer que, na sua única época ao serviço do União, Tinkler se afirmou como uma das figuras da equipa, com 34 jogos e 5 golos; naturalmente, este tipo de registo rapidamente lhe valeu o interesse de um clube bastante maior, no caso o histórico Vitória de Setúbal, da Primeira Divisão. Foi, portanto, com igual naturalidade que Tinkler empreendeu a viagem para o Sul do Tejo, para integrar 'aquela' equipa com Chiquinho Conde na frente (sobre a qual, aliás, nos teremos paulatinamente de debruçar); no total, seriam quatro as temporadas do sul-africano no emblema sadino, no decurso das quais realizou um total de 84 jogos, marcando 2 golos.


erictinkler.jpg


O cromo de Tinkler numa das cadernetas de cromos de futebol da Panini


Apesar das boas prestações ao serviço dos sadinos, no entanto, Tinkler nunca chegaria a mais 'altos vôos' no futebol português; em vez disso, o próximo passo da sua carreira passaria pela passagem directa para o estrangeiro, no caso para o 'Calcio', para representar o Cagliari, por quem realizaria apenas 20 jogos antes de atravessar a Europa para alinhar pelo Barnsley, de Inglaterra, onde voltou a ser nome maior, realizando perto de cem jogos nas cinco temporadas que ali realizou, e contribuindo com nove golos.


É, portanto, com um misto de espanto e incredulidade que vemos o passo seguinte da carreira do jogador (à época, recorde-se, ainda internacional pelo seu país, com 45 jogos e um golo ao serviço dos Bafana Bafana) passar por um regresso à Região Centro portuguesa, para representar mais um clube de pouca ou nenhuma expressão, o Caldas SC, das Caldas da Rainha. Este regresso à Península Ibérica dura três temporadas, durante as quais Tinkler realiza 54 jogos e contribui com 15 golos; as saudades de casa falaram, no entanto, mais alto, e a época 2005-2006 vê o sul-africano regressar à sua terra natal, para terminar a carreira com duas épocas ao serviço do Bidvest Wits, por quem realiza 29 partidas e marca 3 golos.


unnamed.jpg


Tinkler como treinador


Penduradas as chuteiras, Tinkler dedica-se a tempo inteiro ao 'outro lado' do jogo, tornando-se um dos mais proeminentes treinadores do campeonato sul-africano, onde orienta equipas como o Orlando Pirates ou SuperSport United; para trás fica um percurso como jogador quase inacreditável de tão peculiar, que vê o jogador passar da II Divisão B portuguesa para os campeonatos principais de Portugal, Itália e Inglaterra e, daí, regressar directamente às divisões inferiores nacionais, como se tal escolha representasse uma progressão natural de carreira! Só por isso, o sul-africano já merece o rótulo de 'grande dos pequenos' (afinal, conseguiu ser titular da Selecção do seu país enquanto militava no Vitória de Setúbal) e lugar de destaque como caso de estudo de uma carreira totalmente atípica para um futebolista profissional...

Monday, 25 April 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - William Andem

NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 24 de Abril de 2022.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Uma das principais 'verdades' do futebol moderno é que os jogadores que mais se destacam num determinado campeonato irão, quase inevitavelmente, acabar por assinar por um dos maiores clubes desse campeonato ou, alternativamente, por um clube de expressão equivalente num campeonato internacional; o que não falta no desporto-rei (português e não só) são histórias de jovens que, de humildes começos no clube 'da terrinha', chegam a estrelas internacionais de renome, sendo Figo ou Cristiano Ronaldo apenas dois dos muitos jogadores que fizeram essa trajectória.


Por vezes, no entanto, surge um jogador que se insere no contexto do 'quase' da frase acima utilizada; um atleta que, embora indispensável no seu emblema e admirado até mesmo por adeptos de outras agremiações, nunca chega a dar esse 'salto' quantitativo durante a sua permanência no futebol português. A nova rubrica que hoje inauguramos pretende, precisamente, recordar alguns dos principais exemplos desse fenómeno a militar em Portugal durante a década de 90.


E como figura inicial desta nova série, nada mais justo do que dar honras de abertura a um dos nomes que vem imediatamente à memória sempre que se pensa em jogadores influentes no campeonato português da década de 90 que militavam em emblemas 'menores': o lendário William Andem, guarda-redes do histórico Boavista durante a maior parte daquela década.


arq_16989.jpg


Quem seguia o campeonato daquela altura, certamente ainda terá presente a figura imponente daquele guarda-redes que – com 'cara de mau' a condizer com a estatura – defendia com surpreendente agilidade e leveza de reflexos as redes axadrezadas em finais da década; o que muitos não saberão é que o mesmo teve, antes da chegada ao clube que o celebrizaria, um percurso no mínimo insólito para um jogador africano, que o levou ao futebol sul-americano antes de, eventualmente, se celebrizar no português.


Nascido Bassey William Andem em Douala, nos Camarões, a 14 de Junho de 1968, o simplesmente apelidado William iniciou o seu percurso futebolístico em finais da década de 80, ao serviço do seu clube local, o Union, onde militou quatro épocas, tendo numa delas ingressado por empréstimo no desconhecido Olympic Mvolyé, também do campeonato camaronês. O inevitável 'salto' para fora de África, esse, dá-se em 1994, quando Andem ingressa no...Cruzeiro.


A presença de um jogador africano num campeonato célebre por contratar maioritariamente 'dentro de portas' (não fosse o Brasil um dos países, senão mesmo O país, com mais aspirantes a jogadores de futebol em todo o Mundo) parecia – e era – insólita, e a contratação acabou por nunca se justificar, tendo William realizado apenas nove jogos nas duas épocas que passou com o emblema brasileiro. Este início pouco auspicioso não foi, no entanto, suficiente para descoroçoar William, que, em 1996, transitava para um novo emblema, ainda no Brasil – no caso, o Bahia, onde chegou a realizar 19 jogos na sua única época como efectivo.


Então com quase 30 anos, e não tendo conseguido afirmar-se em qualquer dos clubes por onde passara desde a sua saída dos Camarões, William parecia condenado a uma carreira medíocre e anónima; essa situação mudou, no entanto, no defeso de Inverno da época 1997-98, quando o guarda-redes decide viajar para Portugal, para se vincular ao Boavista - uma escolha que lhe viria a permitir, finalmente, lançar a sua carreira.


No total, foram nove épocas e mais de 150 jogos de xadrez ao peito, a esmagadora maioria dos quais como titular; e mesmo quando perdeu o lugar, a mudança pode considerar-se mais como um 'passar do testemunho', já que o seu sucessor era nada mais nada menos do que Ricardo, futuro guarda-redes do Sporting e da Selecção Nacional (mais tarde, perderia novamente a titularidade para o brasileiro Carlos, recuperando-a após a venda deste para o Steaua de Bucareste). Um percurso que - além de o tornar um 'clássico' das cadernetas da Panini - lhe valeu várias chamadas à Selecção camaronesa (onde serviu de apoio ao lendário Jacques Songo'o em várias competições, incluindo o Mundial de França '98), e que justificou plenamente o estatuto de 'lenda viva' que adquiriu entre os adeptos boavisteiros...o que torna ainda mais incompreensível a sua saída do clube, no final da época de 1997-98.


No entanto, fosse qual fosse o motivo, foi mesmo isso que aconteceu, e William acabou por 'pendurar as botas' em outro clube que não aquele que o lançara – no caso, o Feirense, no qual ingressou para a época 2007-2008, mas onde figuraria apenas três vezes ao longo da época, números que não justificam minimamente a saída do emblema onde era ídolo.


Ainda assim, e apesar dos pesares, William bem merece o título de 'grande dos pequenos', tendo conseguido transfigurar-se de eterno suplente do Brasileirão em 'patrão' da defesa de um clube de Primeira Divisão português (que, na altura, lutava por títulos e se afirmava como viveiro de jovens talentos) e internacional pelo seu país – o que, convenhamos, não é mesmo nada mau para um camaronês trintão...


Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...