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Tuesday, 14 July 2026

Terças de TV: Os Trinta e Um Anos do Primeiro 'Reality Show' de Um Cantor

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

No início dos anos 90, quando os 'talk shows' eram um género ainda relativamente inexplorado na televisão portuguesa, não era de todo invulgar ou estranho ver ser dado a uma personalidade de outro campo do entretenimento o seu próprio 'tempo de antena' enquanto anfitrião de um programa de entrevistas e variedades; o próprio Herman José fazia, nesta altura, a transição para esse género, ao mesmo tempo que Fátima Lopes cimentava os trâmites do que viria a ser o padrão do mesmo para as três décadas seguintes. Em meio a tudo isto, e ainda antes de Marco Paulo se aventurar nesta área, um outro cantor popular tomava as rédeas da sua própria emissão homónima, cujo primeiro episódio estreava há quase exactos trinta e um anos (a 13 de Julho de 1995).


Falamos de Roberto Leal, o luso-brasileiro que fez carreira algures entre a música romântica e o género 'pimba', 'derretendo' os corações de boa parte de Portugal durante as décadas de 80 e 90, e que, em 1995, se encontrava ainda suficientemente 'em alta' para a proposta em causa não ser tão arriscada como se poderia esperar – até por o foco ser, naturalmente, colocado na música, com os convidados a inserirem-se quase totalmente nesse campo. O formato, esse, era o habitual, com entrevistas um-para-um e, em cada programa, até dois interlúdios musicais, a cargo de um dos três convidados – os quais, para crédito da RTP, não se inseriam todos no género popular comercial, havendo lugar a artistas de fado e grupos de música tradicional, entre outros.

A verdade, no entanto, é que, apesar do 'nome sonante' ao leme, e do gabarito dos convidados, 'Roberto Leal' (o programa) nunca conseguiu captar a sua audiência, talvez pela disparidade entre o meio musical do apresentador e o dos convidados, muitos deles surpreendentemente 'eruditos' para o tipo de emissão em causa, e quiçá desfasados do que o público fã de Leal procurava ver; ou talvez o interesse por este tipo de programa, simplesmente, não fosse muito. Fosse qual fosse o motivo, a verdade é que a experiência 'Roberto Leal' durou escassos três meses no ar, datando a última emissão de 19 de Outubro; não se pode, no entanto, culpar a RTP, que via num programa deste tipo todos os ingredientes para o sucesso, o qual, infelizmente, acabaria por nunca se materializar. Ainda assim, vale a pena recordar esta espécie de 'ensaio geral' para o posterior programa de Marco Paulo, menos de vinte e quatro horas após se terem assinalado os trinta e um anos da sua primeira emissão.

Wednesday, 24 December 2025

Terças de TV: Trinta e Cinco Anos da 'Canção' de Natal de Júlio Isidro

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 23 de Dezembro de 2025.


NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Terça será de TV.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


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Uma das coisas com que os portugueses aprenderam a contar ao longo dos Natais dos últimos trinta a quarenta anos é com o aparecimento, nos quatro canais, de produções especialmente criadas para servir de complemento aos tradicionais filmes de família, Sequim D'Ouro, Natal dos Hospitais e circo de Monte Carlo; e, apesar de ainda hoje se verificar, é inegável que esta tendência teve o seu auge no 'período de ouro' da televisão portuguesa, entre os anos 80 e 2000, período em que nasceram muitos dos melhores 'especiais de Natal' (e também de Ano Novo) da História do audiovisual nacional. Um desses programas - sobre o qual se completam exactos trinta e cinco anos à data original de criação deste 'post' - foi imaginado e apresentado por um ícone da televisão portuguesa, o incomparável Júlio Isidro, como forma de prestar homenagem à quadra através de um dos seus mais emblemáticos elementos - a música.


Transmitido pela RTP 1 a 23 de Dezembro de 1990, 'Cantar o Natal' oferece precisamente aquilo a que o título alude - uma série de números musicais com temática natalícia, interpretados por alguns convidados musicais de 'monta' como Vitorino e Dulce Pontes, unidos por segmentos de entrevista a estes e outros convidados, numa tentativa de recriar e reviver a noite de consoada de 1960 (então distante no tempo exactas três décadas), que servia de linha narrativa ao especial. O resultado era um programa 'ameno' e confortável, bem ao estilo não só de Isidro como da produção nacional da época em geral, perfeita para servir de 'ruído de fundo' a uma noite de Terça-feira em plenas férias do Natal.


No entanto, talvez este cariz declaradamente virado para o conforto do espectador tenha contribuído para que este especial fosse, em décadas posteriores, algo Esquecido Pela Net, já que o mesmo não rendia quaisquer momentos memoráveis, daqueles em que Herman José (por exemplo) era 'perito' nos seus especiais de Ano Novo. Ainda assim, na data em que se assinalam exactas três décadas e meia sobre a sua ida ao ar, vale bem a pena recordar um especial de cariz único no panorama televisivo nacional, e que terá decerto entretido um sem-número de pequenos 'X' e 'millennials' nacionais - ainda que os mesmos pouco ou nada o recordem; para quem desejar rectificar esse erro, o programa encontra-se disponível, em duas partes, nos arquivos da RTP, pronto a ser recordado por ocasião desta data marcante.

Wednesday, 17 December 2025

Terças de TV: Vinte e Cinco Anos de Um Programa Pleno de Espírito Natalício

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 16 de Dezembro de 2025.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Já aqui em outra quadra natalícia falámos da iniciativa 'Querido Pai Natal', desenvolvida pelos CTT a partir dos anos 90, como forma de alimentar a fantasia das crianças portuguesas relativamente ao 'bom velhinho'; pois bem, já ao 'cair do pano' do século XX, a RTP levaria ainda mais longe esse conceito, transformando-o numa emissão televisiva em que uma parte da demografia em causa era surpreendida com o seu pedido de Natal em frente às câmaras.


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Com apresentação de Guilherme Leite (então em alta devido ao sucesso de 'Cromos de Portugal' e sobretudo o perene 'Malucos do Riso'), o programa homónimo da iniciativa (estreado há quase exactos vinte e cinco anos, a 14 de Dezembro de 2000) via o apresentador, uma equipa técnica e o Pai Natal (ou seja, um actor disfarçado) visitar diversas escolas de Norte a Sul do País, e distribuir entre os alunos das mesmas algumas das prendas mencionadas nas suas cartas para o Pólo Norte, para que as suas férias de Natal começassem da melhor maneira. Um conceito simples, mas perfeito para a época em causa (pleno como era de boas intenções e espírito natalício) e impossível de criticar com qualquer tipo de cinicismo - o que talvez explique a sua longevidade, já que o formato foi 'repescado' durante os sete natais seguintes, tendo desaparecido apenas após a quadra de 2007, por razões que não ficam claras com os poucos dados ainda disponíveis 'online' sobre o programa.


Ainda assim, quem quiser 'ver por si mesmo' do que constava o programa (ou simplesmente recordá-lo) pode fazê-lo mediante os três episódios ainda constantes dos Arquivos RTP, único vestígio mais 'tangível' da existência de uma emissão surpreendentemente Esquecida Pela Net, e intemporal o suficiente para poder perfeitamente ter tido continuidade nos anos subsequentes.

Tuesday, 2 December 2025

Terças de TV: Vinte e Cinco Anos de Uma Série 'Catita' e Injustamente Esquecida

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


No que toca a programas infantis de cariz ao mesmo tempo interactivo e remoto na televisão portuguesa de finais do século XX, vêm imediatamente à memória duas variantes: por um lado, os programas 'de auditório', como 'Batatoon' ou 'Buereré', em que as crianças ligavam para participar de passatempos e ganhar prémios, e, por outro, o lendário 'Hugo', em que era dada aos espectadores a possibilidade de assumir um papel menos passivo, e controlar activamente os acontecimentos mostrados no ecrã da televisão. E se este último é, ainda hoje, lembrado e 'reverenciado' por toda uma faixa demográfica que atingiu na 'altura certa', um outro programa semelhante, embora com a sua própria abordagem ao género, encontra-se, por sua vez, um pouco 'esquecido' pela 'sua' geração, um quarto de século após a sua estreia.


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Surgido pela primeira vez nos ecrãs nacionais em meados de Novembro de 2000, por intermédio da TVI, 'Rita Catita e o Ursinho Oops' aplicava o conceito de 'Hugo' a um contexto menos competitivo e mais narrativo, criando algo único e que não se tornaria a repetir na televisão portuguesa: essencialmente um desenho animado 'ao vivo', em que as falas eram gravadas (e, muitas vezes, improvisadas) no momento, para reflectir a conversa com a criança do outro lado da linha, ou os acontecimentos que a mesma despoletara. Assim, apesar de cada episódio ter, nominalmente, uma história, a mesma era vaga o suficiente para acomodar os 'imprevistos' da gravação ao vivo sem que, com isso, a coerência narrativa saísse prejudicada, permitindo às cianças liberdade para interagirem com os personagens titulares (e até com outras crianças que ligavam em simultâneo) conforme desejassem.


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A personagem principal e titular.


Apesar de o foco ser na história, no entanto, 'Rita Catita' adoptava também o elemento competitivo do seu antecessor em certas partes do programa, podendo as crianças testar a sua perícia e reflexos com um jogo de tiro ao alvo, por exemplo. Esta vertente ajudava, se possível, a dar ao programa ainda mais originalidade, fazendo dele uma experiência única na televisão portuguesa, senão mesmo mundial – o que torna ainda mais surpreendente o facto de a emissão ser tão pouco lembrada hoje em dia pela parcela mais nova da geração 'millennial', que teria sido o principal público-alvo da mesma naqueles primeiros meses do século XXI. Talvez a referida demografia não seja tão nostálgica quanto os seus antecessores, ou talvez o programa não tivesse sido marcante o suficiente, ou talvez se trate apenas de uma questão de tempo, e se venha a assistir, daqui a alguns anos, a uma vaga de nostalgia por 'Rita Catita'; seja como fôr, o referido programa não deixa, à data, de ser um dos mais injustamente Esquecidos Pela Net da História da televisão portuguesa, apresentando um conceito e execução verdadeiramente originais e distintos, que mereciam ter tido mais impacto na cultura popular infantil portuguesa da época em que foi transmitido.



O único 'clip' do programa ainda disponível na net.

Tuesday, 7 October 2025

Terças de TV: Trinta Anos de 'Maluquices' na SIC

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década


Os programas de humor estavam entre os mais populares e bem-sucedidos das décadas de 80, 90 e 2000 – e, destes, grande parte tinha como formato uma sucessão de 'sketches' não relacionados entre si, normalmente vividos por uma série de personagens recorrentes. E se, no Novo Milénio, o grande exemplo deste tipo de emissão seria o ainda hoje histórico 'Gato Fedorento', na década de 90, a honra de líder de audiências dividiu-se entre dois programas concorrentes: a 'Herman Enciclopédia', da RTP, e o programa que abordamos neste 'post', cerca de um mês após se terem celebrado os trinta anos sobre a sua estreia.


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Era a 1 de Setembro de 1995 que a SIC transmitia, pela primeira vez, um episódio daquele que se viria a tornar, durante a década subsequente, um dos seus programas-estandartes, e pôr tanto crianças como adultos de Norte a Sul do País a repetir dichotes e imitar personagens por si veiculadas, e criadas por um veterano da comédia nacional, Guilherme Leite, cuja carreira o havia ajudado a perceber exactamente o que agradava ao público nacional. 'Malucos do Riso' apostava, assim, num estilo de humor popular e brejeiro, mais próximo do anedotário popular ou teatro de revista do que das piadas mais subtis e baseadas na personalidade de cada figurino propostas pela 'Enciclopédia' de Herman José. O resultado não podia ser outro que não a adesão quase total de certos segmentos da sociedade portuguesa, com destaque para as crianças e membros da classe trabalhadora, a quem o humor simples, quotidiano e ligeiramente 'maroto' nunca deixava de agradar.


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Alguns dos muitos personagens memoráveis do programa.


Não é, assim, de admirar que 'Malucos do Riso' se tenha, eventualmente, afirmado como um dos programas de entretenimento mais longevos da SIC, completando uma década no ar com a fórmula praticamente inalterada. Seria apenas já em meados da primeira década do Novo Milénio, que este bastião da estação de Carnaxide viria a sair do ar – embora durante pouco tempo, já que não passariam mais de quatro anos até 'Novos Malucos do Riso' procurar continuar o legado deixado pelo original. E apesar de esta segunda tentativa ter ficado longe do sucesso da original – num panorama televisivo já algo diferente em termos de sensibilidades e interesses do público-alvo – os 'Malucos' originais continuam, até hoje, a afirmar-se como um dos clássicos mais absolutos e indeléveis das mais de três décadas de História da SIC, merecendo bem esta homenagem (ainda que um pouco atrasada) por altura do seu trigésimo aniversário. E para quem quiser recordar, fica abaixo um compêndio completo da série, com quase NOVE HORAS de duração - embora, claro, não se recomende a visualização toda de uma vez...


Thursday, 11 September 2025

Terças de TV: Vinte e Cinco Anos do 'Big Brother', O Programa Que Mudou A Televisão Portuguesa

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 09 de Setembro de 2025.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


De entre as dezenas (senão mesmo centenas) de programas propostos pelos quatro canais nacionais ao longo de cada ano, existem aqueles que rapidamente caem no esquecimento, aqueles que 'pegam de estaca' e acabam por se eternizar na memória colectiva, tornando-se nostálgicos, e aqueles que transcendem o mero estatuto de entretenimento televisionado, extravasando as fronteiras do ecrã para se estabelecerem como parte integrante da cultura popular nacional. E embora estes casos sejam relativamente raros (ou talvez por causa disso), quando um deles surge na grelha televisiva da RTP, SIC ou TVI, a sua influência tende a manter-se muito para além do tempo de transmissão, sendo os mesmos ainda relembrados várias décadas após a sua conclusão. É, precisamente, esse o caso com o programa que abordamos neste 'post', sobre cuja estreia se celebraram há cerca de uma semana exactos vinte e cinco anos, e cujo legado continua bem vivo não só na mente dos portugueses, como nos próprios ecrãs das suas televisões, mesmo um quarto de século após a sua introdução na grelha da 'Quatro'.


O serão de dia 3 de Setembro de 2000 marca, pois, o ponto em que o panorama televisivo lusitano se alteraria irreversivelmente, e em que os espectadores nacionais tomariam pela primeira vez contacto com aquele que se viria a tornar um dos géneros mais populares do século XXI. Isto porque era nesta data que a TVI apresentava, pela primeira vez, o seu novo concurso, adaptado de um popular formato holandês, e que propunha seguir de perto, e em directo, a vida de catorze portugueses comuns, forçados a cohabitar numa casa especialmente construída para o efeito, e sujeitos a eliminações decididas pelo público, com base nos seus comportamentos e capacidade de engajar (ou não) quem via o programa. Era o início do 'Big Brother' em Portugal, e também de uma febre comparável à causada junto dos jovens por 'Dragon Ball Z', alguns anos antes, mas desta vez extensível a todas as faixas etárias e demográficas do País.


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De facto, o 'reality-show' da TVI (primeiro do seu género em Portugal) era de tal modo inescapável que até quem evitava declaradamente acompanhar o programa não conseguia deixar de estar a par do que nele se passava. Elementos como o confessionário, as provas (que garantiam ao vencedor imunidade contra a eliminação nessa semana) e as famosas 'câmaras nocturnas' instaladas nos quartos de cama rapidamente se tornaram tema recorrente de conversa, o mesmo sucedendo com grande parte dos concorrentes – ainda que alguns fornecessem mais 'tema de conversa' do que outros. Em particular, destacavam-se o afável pedreiro Zé Maria, o campeão de 'kickboxing' Marco (protagonista do mais controverso e polémico momento do programa), o recatado Telmo e, do contingente feminino, a carismática Susana e a 'desbocada' Sónia. Outros, por seu lado, mal deixariam marca na memória colectiva, havendo pouco quem se lembre de Riquita (a professora de Inglês eliminada em primeiro lugar) ou dos dois Ricardos, que rapidamente se lhe seguiram.


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A grelha de concorrentes do primeiro Big Brother.


Dos restantes, no entanto, parte significativa encontraria lugar cativo na cultura popular portuguesa, fosse por saberem como 'jogar o jogo', por terem simplesmente personalidades mais vincadas ou expansivas, ou por serem protagonistas de momentos controversos, como actos sexuais em directo (algo que chegou, previsivelmente, a gerar escândalos à época) ou momentos de descontrolo emocional, como aquele que viu Marco ser expulso da casa, apesar de não ter sido o escolhido do público, após agredir Sónia com o pontapé mais famoso da História da televisão portuguesa, senão de sempre, pelo menos desde os tempos áureos de Eusébio. O facto de tal acto (contra uma mulher, ainda para mais) não ter imediatamente excomungado o 'kickboxer' da memória popular nacional – tendo o mesmo, pelo contrário, adquirido estatuto de celebridade menor – diz muito do poder do 'Big Brother' sobre a psique colectiva portuguesa naquele período de pouco mais de três meses na segunda metade do ano 2000, cujo efeito sobre a sociedade fez com que parecesse muito mais longo.


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Marco, protagonista do mais polémico momento do programa, e único concorrente expulso da casa sem direito a votação.


De facto, era logo na véspera de Ano Novo que Zé Maria - o simples e espontâneo pedreiro que ajudara a colocar Barrancos no mapa por razões não ligadas à tauromaquia, e que conquistara o coração dos portugueses ao longo dos três meses anteriores - 'roubava' audiências aos habituais espectáculos da noite e recebia das mãos da anfitriã Teresa Guilherme o cheque que viria a mudar indelevelmente a sua vida, tomando o seu lugar como 'pedra basilar' de uma dinastia que, vinte e cinco anos depois, não mostra sinais de abrandar, com variações do 'Big Brother' a serem produzidas e transmitidas pela TVI até aos dias de hoje, quer no formato original, quer com a participação de celebridades. O sucesso do programa daria, também, o mote para o surgimento de uma série de outros 'reality shows' nas grelhas televisivas nacionais, o primeiro dos quais da responsabilidade da SIC, canal que rejeitara originalmente o Big Brother e procurava 'emendar' o seu erro. Nenhuma destas tentativas viria, no entanto, a ter sequer uma fracção do sucesso das duas primeiras séries do 'Big Brother', sendo apenas com 'Quinta das Celebridades' que o formato voltaria verdadeiramente a cativar audiências em massa.


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O momento da coroação de Zé Maria.


Mas se, para a TVI, o resultado foi positivo, já para o vencedor do concurso, a súbita riqueza e fama provariam ser demasiado 'pesadas', causando problemas do foro psíquico e levando a que Zé Maria se isolasse da sociedade, situação que ainda hoje se mantém, e que ninguém poderia ter previsto naquele momento em que, aos vinte e sete anos, o pedreiro recebia um cheque de vinte mil 'contos' e um carro, sob as luzes de um estúdio de televisão. Ainda assim, e apesar de tudo fazer para que o seu nome seja esquecido, Zé Maria estará, juntamente com os outros concorrentes, para sempre ligado ao início de uma nova etapa na programação portuguesa, e do 'reino' continuado de um novo formato que, um quarto de século depois e na sua 'enésima' edição, continua a gerar temas de conversa e a render lucro e audiências à estação que o transmite.

Tuesday, 22 July 2025

Segundas de Sucessos / Terças de TV: 'Pop-Off', O 'Top +'' do Pop-Rock Nacional

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 30 de Março de 2024.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


No tocante a programas de música e telediscos no Portugal dos anos 90, a referência imediata (e praticamente única) para a maioria dos 'millennials' nacionais será o icónico 'Top +', o mais próximo a que a televisão lusa da altura chegava do estilo de programação de uma MTV, cuja reputação atravessava, à época, o oceano, fazendo muitos jovens sonhar com algo equivalente mas falado e criado em Português. No entanto, nessa mesma época, a própria RTP veiculava um segundo magazine sobre música, hoje mais esquecido, mas que, à época, representou uma importante mudança de paradigma na grelha audiovisual do Portugal pré-SIC e TVI.


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Tratava-se do 'Pop-Off', da autoria de José de Freitas, à época figura de proa nos esforços de representação do 'pop-rock' português nos 'media', e que decidia, com este formato, deitar ele próprio 'mãos à obra'. Não é, pois, de estranhar que este programa se destaque do 'irmão' do 'Canal 1' pelo seu foco exclusivo na cena portuguesa, à época num dos seus muitos períodos de florescimento. As habituais bandas internacionais que dominavam os 'tops' (incluindo o '+') eram, assim, substituídas tanto por 'suspeitos do costume' como Xutos & Pontapés, Delfins, GNR, Resistência ou Madredeus como por novas sensações do movimento, como LX-90 ou Sitiados. Eram, no total, cerca de vinte e cinco minutos diários dedicados a telediscos, reportagens e notícias sobre música portuguesa, com a apresentadora Sofia Morais a servir de elo de ligação entre os diferentes segmentos que perfaziam o programa.


Um formato que tinha tudo para agradar ao público-alvo e que, sem surpresas, viria a reter um lugar na grelha de programação do 'Canal Dois' durante dois anos - período que até parece pouco, tendo em conta a relevância da temática e a excelente execução técnica do programa, sobretudo se se tiver em conta a duração substancialmente mais considerável do contemporâneo dedicado aos 'tops' internacionais. O curto ciclo de vida não impediu, no entanto, que 'Pop-Off' conquistasse um lugar tanto no coração dos melómanos da época como na própria história dos programas musicais na televisão portuguesa, tornando praticamente obrigatórias estas poucas linhas a ele dedicadas neste nosso 'blog' dedicado, precisamente, a recordar esses e outros aspectos da sociedade portuguesa de outros tempos.





 


 


 


 


 

Wednesday, 28 May 2025

Terças de TV: 'Só Números', O Sucessor Falhado de 'Quem Quer Ser Milionário'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 27 de Maio de 2025.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Já aqui por diversas vezes mencionámos os anos 80 e especialmente 90 como sendo a 'época áurea' para os concursos televisivos, com diversos formatos estrangeiros a serem adaptados e outros tantos criados de raiz, resultando numa oferta tão variada quanto apelativa, à qual já dedicámos diversos 'posts' no passado. Este paradigma não foi, no entanto, exclusivo daqueles últimos anos do século XX; por alturas da viragem do Milénio, o mesmo continuava ainda bem vivo, como o prova o tema deste 'post', estreado há quase exactos vinte e cinco anos (a 29 de Maio de 2000) no principal canal nacional.


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E a verdade é que 'Só Números' tinha, desde logo, uma missão espinhosa: a de substituir, nas noites de Segunda-feira da RTP, o mega-sucesso 'Quem Quer Ser Milionário', com o carismático Carlos Cruz. Para tentar levar a cabo este ambicioso objectivo, o concurso 'armava-se' de uma proposta verdadeiramente original, embora com potencial para 'alienar' as audiências mais jovens. Isto porque a premissa do concurso apresentado por Miguel Dias tinha por base – como o próprio título indicava – respostas inteiramente compostas por números, devendo os concorrentes (dez, no total) tentar aproximar-se, tanto quanto possível, da resposta correcta, sendo o vencedor aquele que mais próximo ficasse. O prémio final era o habitual automóvel, 'presente' máximo de pelo menos noventa e cinco por cento dos concursos 'para adultos' da televisão portuguesa da época.


Um conceito original o suficiente para ancorar um programa deste tipo, mas que acabou por não ser suficiente para manter 'Só Números' à tona, tendo o concurso concluído as suas emissões ainda antes do final do primeiro ano do Novo Milénio, e ficado muito longe dos níveis de audiências, repercussão e memorabilidade do seu antecessor. Ainda assim, e apesar de ter constituído uma aposta falhada, não deixa de ser de valor recordar este concurso, apenas um par de dias antes de se completar um exacto quarto de século sobre a sua primeira emissão.

Tuesday, 1 April 2025

Segundas de Sucessos / Terças de TV: Os Canais Musicais da TV Cabo - Novos Horizontes Para Os Melómanos 'Millennials'

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 30 de Março de 2024.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


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A chegada a Portugal da TV Cabo abriu novos horizontes aos quais o português médio não estava, de todo, habituado. Mesmo quem tinha televisão por satélite gozava de pouco mais do que alguns canais adicionais (e nem sempre com transmissão clara) enquanto que o novo serviço punha à disposição dos seus assinantes centenas de canais de uma só vez, todos (ou quase) com transmissão perfeita, e dentro dos mais diversos 'nichos' especializados. Para os espectadores mais jovens, em particular, isto representava uma amplitude consideravelmente maior no tocante a canais desportivos, de desenhos animados e, claro, de música, um dos mais perenes e intemporais interesses de qualquer criança ou adolescente.


E se os 'millennials' lusitanos haviam, até então, tido de se contentar apenas com o icónico 'Top +', a TV Cabo veio trazer-lhes a possibilidade de sintonizar canais de que, até então, apenas se ouvia falar em filmes ou programas de televisão estrangeiros, como a MTV e o VH1. De súbito, aquela parca 'horinha' semanal de 'videoclips' e êxitos de tabela transformava-se numa emissão praticamente perpétua, composta não só pelos vídeos 'da moda' como também por entrevistas a músicos e bandas, galas (como os icónicos MTV Video Music Awards, que mantiveram acordados pela noite dentro muitos jovens da época) notícias do foro musical, programas de curiosidades (como o 'Pop-Up Video' do VH1) documentários biográficos (como o lendário 'Behind The Music', do mesmo canal) e até conteúdos apenas tangencialmente ligados ao Mundo da música, os quais viriam, eventualmente, a 'tomar de assalto' a MTV, e a escorraçar os vídeos musicais pela qual a mesma se tornara conhecida.


Tal situação ainda estava, no entanto, a alguns anos de distância, pelo que os 'millennials' portugueses puderam, ainda, viver o 'auge' dos dois canais, a par da 'alternativa' nacional Sol Música (que já aqui teve o seu espaço) e do canal alemão VIVA, que permitia conhecer algumas das 'bizarrias' que iam fazendo sucesso na Europa Central. Um 'cardápio' com algo para todos os gostos, que não podia deixar de satisfazer os melómanos inveterados – mesmo faltando nele alguns 'ingredientes-chave', como o 'Headbangers' Ball', o programa de hard rock e heavy metal da MTV norte-americana, mas que não fazia parte da grelha da inglesa.


E se as constantes reestruturações de canais da TV Cabo vieram relegar estes canais de música para longe dos lugares de destaque que então ocupavam, a verdade é que pelo menos um – a MTV – 'resiste ainda e sempre ao invasor', qual Astérix dos canais musicais. Infelizmente, mesmo esse canal se encontra, hoje, muito desvirtuado, e quase irreconhecível para quem o conheceu nos anos 90 e 2000, quando – ao lado dos 'irmãos' nacionais e estrangeiros – constituiu um dos principais atractivos para se tornar assinante do novo e revolucionário serviço de televisão por cabo, e fez a alegria de milhares de jovens de Norte a Sul do País com as suas novidades áudio-visuais e culturais.

Wednesday, 19 February 2025

Terças de TV: 'Cromos de Portugal' (1999) - Em Fórmula Que Resulta, Não Se Mexe...

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2025.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Já aqui anteriormente falámos dos programas de 'Apanhados' como um dos formatos de maior sucesso no panorama televisivo nacional de finais do século XX. Fosse em situações cuidadosamente 'criadas' por comediantes 'à paisana', fosse no mais orgânico e natural estilo de 'vídeo caseiro', o público telespectador nacional parecia não se cansar de presenciar a vergonha alheia, e de rir das situações mais ou menos embaraçosas em que pessoas como eles se encontravam frente a câmaras de televisão. Assim, não é de estranhar que, nos últimos meses do século XX e do Segundo Milénio, a RTP tenha querido, mais uma vez, capitalizar no formato que tantas alegrias lhe trouxera em anos anteriores, através de um programa que aliava a tradicional e bem-sucedida fórmula dos 'Apanhados' a um apresentador carismático e capaz, por si só, de cativar potenciais interessados a sintonizarem a emissão em causa.


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Surgem assim, algures em 1999, os 'Cromos de Portugal', programas de cerca de uma hora em que Guilherme Leite – à época bastante em alta – servia de 'anfitrião' a três rábulas de 'apanhados', nos moldes já bem conhecidos da audiência-alvo, e expectáveis em programas deste tipo. O sucesso, esse, foi também o expectável, partindo o programa para um ciclo de vida de respeitáveis dois anos - um de cada 'lado' da viragem do Milénio - que provavam que o público português continuava a nutrir apetência por este formato, sempre que o mesmo fosse apresentado de forma apelativa e bem executada. Mesmo não tendo tido o sucesso dos seus antecessores (exibidos quando o formato era, ainda, relativamente novo e original) nem sendo o 'expoente máximo' do género em causa, 'Cromos de Portugal' merece ainda assim, portanto, destaque nestas páginas, como mais um exemplo de que a repetição de uma fórmula de sucesso nem sempre é sinónimo de 'fadiga' por parte da audiência-alvo. E quem quiser comprovar por si mesmo pode fazê-lo no bom e velho YouTube, onde um utilizador fez o 'favor' de adicionar toda a primeira temporada do programa numa só 'playlist', perfeita para uma sessão de 'visionamento compulsivo' daquelas que estão tão na moda hoje em dia...

Tuesday, 12 November 2024

Terças de TV: O Canal Mais Controverso (e Icónico) da TV Cabo Noventista

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Nunca um canal 'premium' teve tanta audiência e tão pouca aderência; nunca uma emissora com tão pouco conteúdo acessível, ou até perceptível, foi tão icónica e marcante para tão grande parte de uma demografia; e nunca os 'riscos de estática' de um canal codificado geraram tanto entusiasmo em tantos habitantes de um só País. Todos o conheciam, todos o discutiam no pátio da escola, todos tentavam 'decifrá-lo' às escondidas dos pais, mas – talvez por razões óbvias – poucos ou nenhuns lhe tinham acesso, pelo menos a partir de certa hora. 'Camuflado', durante o dia, de inocente e inócuo canal de 'lifestyle', a partir da 'hora de deitar', aquela posição no primeiro terço da lista de canais da TV Cabo adquiria, passe o trocadilho, outra 'frequência', e passava a ser dedicada a, digamos, outros 'modos de vida', algo mais arriscados e controversos. Ao longo dos anos, foram várias as designações e grafismos, mas sem que nunca se alterassem a proposta, a localização na grelha a cabo e o nome por que era coloquialmente conhecido em função da mesma: chamasse-se o que se chamasse, para quem dele falava, era sempre o 'Canal 18'.


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Elemento incontornável dos anos formativos da população masculina portuguesa de uma certa idade (e, imagina-se, também de alguma percentagem do público feminino) a lendária emissão erótico-pornográfica da TV Cabo portuguesa dividia o canal com que era sinónimo com um vizinho de 'time-sharing' de características diametralmente opostas – o espanhol Viver/Vivir, que nada possuía de controverso ou censurável. Essa 'face diurna' da posição 18 da grelha pouco interesse retinha para os adolescentes, no entanto; eram os minutos após o fim da transmissão da mesma que viam milhares de jovens de Norte a Sul do País 'esgueirarem-se' para a sala de estar (ou, para os mais sortudos, ligarem a televisão do quarto) para olhar para 'riscos de estática', dos quais emanavam gemidos, grunhidos e palavrões dobrados no mais 'azeiteiro' espanhol. Por vezes, com sorte, era possível ler uma legenda, ou ver metade de uma imagem distorcida, mas na maior parte do tempo, a experiência ficava-se mesmo, em grande parte, pelo domínio do áudio – a menos, claro está, que o canal estivesse num dos seus raros períodos de emissão aberta, caso em que havia que aproveitar ao máximo...


Apesar deste cariz codificado e secretista, o 'canal 18' – que, a partir de certo ponto, veria 'cortada' a sua 'ligação' com o Viver/Vivir, passando a ocupar por si mesmo toda a emissão da referida posição – foi icónico o suficiente entre os 'millennials' portugueses para não só ver o seu nome tornar-se sinónimo de qualquer forma de 'media' erótico lançada no País, como também gerar pelo menos uma frase daquelas que, hoje, seriam taxadas de 'meme': o famoso 'hó sí carinho!', sempre dito com exagerada entoação espanhola, por forma a emular as actrizes responsáveis pelas dobragens do canal.


Com o passar dos anos, no entanto – e o alargamento da grelha da TV Cabo – o canal em causa acabou por ser 'expulso' da sua icónica posição, vindo eventualmente a extinguir-se devido a influências políticas. E ainda que, nesta era de fácil acesso a conteúdos eróticos não-codificados – o interesse e relevância deste tipo de canal seja cada vez mais reduzido, para uma larga maioria de ex-jovens portugueses, hoje na casa dos quarenta anos, o (ex-)'canal 18' representará, para sempre, a sua primeira forma de contacto com aquela vertente algo mal-afamada da existência humana que tanto tem fascinado os adolescentes do sexo masculino ao longo das décadas e gerações...

Tuesday, 8 October 2024

Terças de TV: Os Vinte e Cinco Anos do CNL - A Morte Prematura de Um Pioneiro

NOTA: Por razões de relevância temporal, esta Terça será de TV, e a próxima Tecnológica.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


A chegada a Portugal da TV Cabo, na ponta final da década de 90, veio terminar definitivamente com a hegemonia dos canais abertos, completando um processo de transição e expansão iniciado aquando da criação dos dois canais privados, SIC e TVI, alguns anos antes. Pela primeira vez, o panorama televisivo português contava com uma amplitude e liberdade anteriormente inimagináveis, as quais abriam possibilidades nunca antes pensadas, nomeadamente no tocante à criação de 'alternativas' menos generalistas aos quatro canais originais. Escusado será dizer que este paradigma não tardou a ser explorado, tendo os primeiros anos do serviço assistido ao aparecimento de toda uma gama de novos canais 'feitos em Portugal', muitos deles tematizadas. E se algumas destas novas adições ditariam o 'mote' para o próximo quarto de século de emissões por cabo, outras tantas ficariam 'pelo caminho', destinadas a permanecer confinadas à memória dos primeiros adoptantes da TV Cabo. Entre estes, contava-se um canal sobre cujas primeiras emissões se acabam de celebrar, há coisa de três semanas,vinte e cinco anos, e que demonstrava as supramencionadas possibilidades do novo sistema televisivo nacional.


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Falamos do Canal de Notícias de Lisboa, vulgarmente abreviado para CNL, que surgia pela primeira vez nos ecrãs portugueses a 15 de Setembro de 1999, pela mão da SIC e da Portugal Telecom, que assim adquiria o seu segundo canal, depois da Sport TV. Por comparação com os canais generalistas abertos, o CNL apresentava um foco mais regional, explícito no próprio nome, e uma marcada e assumida aposta em jornalistas e 'pivots' mais jovens, que fazia com que os seus programas fossem mais bem aceites por espectadores de faixas etárias mais baixas, os quais se sentiam talvez mais 'representados' do que anteriormente. Esta opção pela juventude estendia-se, aliás, também aos programas de entrevista e debate, tendo o CNL entrado para a História da televisão portuguesa como o canal que albergou o formato original de um dos mais icónicos programas entre os portugueses da geração 'millennial', o famoso Curto Circuito. Por entre os diversos blocos informativos, havia ainda lugar a algumas 'bizarrias' difíceis de imaginar na grelha de outros canais, como o programa que fechava cada emissão, 'Morfina'.


Uma das consequências da inovação, no entanto, é o potencial para o insucesso – factor que, infelizmente, viria a afectar irremediavelmente o CNL, o qual, no seu formato original, não chegaria a completar um ano e meio de vida, sofrendo uma reestruturação menos de dezasseis meses após ir ao ar, a 8 de Janeiro de 2001. Desengane-se, no entanto, quem pensar que o canal se extinguiu; antes pelo contrário, o mesmo continua a marcar presença diária em muitos lares portugueses, embora agora sob um novo nome – SIC Notícias. Não deixa de ser curioso perceber, no entanto, que um dos maiores canais especificamente noticiosos da televisão portuguesa talvez não tivesse sido possível sem aquela 'aventura' de um ano e três meses, que acabou por 'desbravar' caminho a tanto do que se seguiu ao nível da informação por cabo...






 


 

Wednesday, 2 October 2024

Terças de TV/Quartas de Quase Tudo: 'Morfina' (1999) - 'Bizarrias' Nocturnas

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


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O livro do programa, única prova visual da existência do mesmo presente na Internet.


O advento da televisão por cabo – com a sua miríade de novos canais, a grande maioria especializados – abriu aos criadores de conteúdos oportunidades que nem mesmo o surgimento dos canais privados, alguns anos antes, havia permitido. Onde, anteriormente, os programas 'de autor' se encontravam confinados a parâmetros culturais ou de 'talk-show' (e sempre dentro de formatos padronizados, que garantissem os mínimos desejáveis em termos de audiências) era, agora, possível 'arriscar' em conceitos mais experimentais, cujo potencial 'falhanço' não resultasse em calamidade. Não é, pois, de admirar que os últimos anos do século XX e primeiros do seguinte tenham visto surgir programas difíceis de imaginar como parte da grelha da RTP, ou mesmo da SIC ou TVI, a não ser em contextos muito particulares. Um destes surgia mesmo nos últimos meses do Segundo Milénio (celebra este mês o vigésimo-quinto aniversário da sua estreia), no extinto CNL, e talvez mereça a distinção de mais bizarro da grelha da época, pelo menos até a SIC Radical decidir dar Nu-Tícias, alguns anos depois.


Isto porque 'Morfina' – cujo nome não é inspirado na substância narcótica, mas antes no deus grego do sono, Morfeu – era um programa de dez minutos cujo objectivo era, tão simplesmente, contar uma história para adormecer. Não um conto de fadas ou aventura medieval para crianças, mas uma história (ou apenas um texto) que ajudasse os espectadores a adormecer, independentemente da idade; no fundo, uma versão adulta das músicas do Vitinho e dos Patinhos ou, se preferirmos, um precursor televisionado do estilo de vídeo hoje conhecido como ASMR, embora sem as conotações semi-sexuais do mesmo. A dar voz (e autoria) a estes textos estava a jornalista Clara Pinto Correia, que as relatava a um sempre atento Quim Leitão, sendo os dois as únicas figuras presentes no cenário, cuja meia-luz e adereços remetiam a um quarto de cama. Quando a história acabava, o mesmo sucedia com a própria emissão do CNL, que se 'despedia' diariamente ao som da canção titular do programa, como que a 'mandar' os espectadores para a cama, ao melhor estilo Vitinho.


Embora possa parecer que um programa deste tipo nunca conseguiria audiência, e rapidamente desapareceria da grelha televisiva, a verdade é que foram praticamente quatro dezenas os episódios emitidos pelo CNL nos oito meses que o programa se manteve no ar, cada um com uma história diferente, tendo as mesmas sido, mais tarde, reunidas num livro que levava o mesmo nome do programa, lançado pouco depois do fim do mesmo, no Verão de 2000; ainda um pouco mais tarde, 'Morfina' chegava também ao formato VHS, naquela que será uma das mais bizarras edições do mercado do vídeo e DVD em Portugal. Ainda assim, enquanto experiência declarada por parte de um canal 'recém-nascido' e ainda à procura da identidade, 'Morfina' foi uma ideia perfeitamente válida, ainda que talvez demasiado rebuscada para garantir audiência num Portugal ainda muito 'formatado' para programas de consumo fácil, que merece bem ser lembrada no mês em que se celebra um exacto quarto de século desde a sua estreia.

Wednesday, 18 September 2024

Terças de TV: 'Com A Verdade M'Enganas' (1994) - A Típica Sequela Pouco Memorável

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 17 de Setembro de 2024.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


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Já aqui anteriormente falámos do papel preponderante do humorista Herman José na televisão portuguesa de finais do século XX, tanto na sua vertente 'de origem' como na função por que foi mais conhecido durante a década de 90, a de apresentador de concursos vespertinos e, mais tarde, de 'talk shows'. De facto, a personalidade afável, bonacheirona e ligeiramente brejeira de Herman prestava-se maravilhosamente ao cargo de anfitrião deste tipo de programas, papel no qual várias gerações de espectadores nacionais o viram 'brilhar' , desde logo ao leme da mìtica adaptação portuguesa de 'Roda da Sorte'. Quando o referido programa atingiu a sua conclusão natural, no entanto, era necessário manter 'em alta' a 'estrelinha' de Herman, pelo que foi sem surpresas que os fãs do apresentador o viram regressar, alguns meses depois, com um novo formato, onde se fazia acompanhar dos seu 'cúmplices' - a 'voz' da 'Roda', Cândido Mota, e a icónica assistente, Ruth Rita.


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O 'trio maravilha' d''A Roda da Sorte' seguiria junto no novo formato.


Intitulado 'Com a Verdade M'Enganas', este novo concurso, estreado logo nos primeiros dias do ano de 1994, era, explicitamente, tematizado em torno de mentiras, equívocos e enganos, temas que inspiravam várias das provas a que os concorrentes se deviam submeter semanalmente, com destaque para aquela em que deveriam identificar a afirmação incorrecta sobre o parceiro, de entre as mencionadas pelo apresentador, e para aquelas em que deviam corrigir textos e letras de canções previamente lido, de forma correcta, por Cândido Mota. As restantes provas eram mais corriqueiras (ficando próximas do concurso que notabilizara Herman, com perguntas de cultura geral à mistura com leilões de letras) mas uma delas voltava a adicionar um toque de originalidade, consistindo basicamente de um 'jogo do sério', em que cada concorrente deveria fazer o outro rir. Tudo isto conduzia, claro está, ao 'puzzle' final, onde o desafio era decifrar uma palavra-chave, bem ao estilo da 'Roda'. A equipa vencedora levaria para casa uma soma em dinheiro que poderia ascender a 600 mil escudos, enquanto os perdedores não sairiam de 'mãos a abanar', tendo direito a uma 'bateria' de electrodomésticos - um prémio quase tão útil quanto o próprio dinheiro, e bastante mais prático!


Um formato, como se pode ver, bastante próximo do que celebrizara Herman enquanto animador de concursos, mas que, talvez por esse cariz pouco original, não almejou o mesmo sucesso, mantendo-se no ar durante um ano e meio, mas não suscitando hoje em dia o género de memórias associado ao seu antecessor. Ainda assim, no momento, 'Com a Verdade M'Enganas' foi uma maneira eficaz de manter Herman relevante e bem presente no quotidiano televisivo dos portugueses – algo que, como também já aqui documentámos, levaria mais tarde a certos desenvolvimentos importantes no panorama programático nacional, os quais não teriam sido possíveis sem este algo esquecido concurso, que merece assim um 'agradecimento' e pequena homenagem nas páginas deste nosso blog.



O último episódio do concurso, transmitido em Julho de 1995, exactos dezoito meses após a estreia do mesmo.

Wednesday, 4 September 2024

Terças de TV: 'Nunca Digas Banzai' (1994) - Um Concurso 'de Loucos'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 04 de Setembro de 2024.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Há três décadas atrás, a televisão portuguesa estava longe do cariz formatado, homogéneo e algo anónimo de que se reveste hoje em dia. De facto, enquanto que a programação actual dos vários canais é semelhante ao ponto de os mesmos se confundirem, em meados da década de 90, cada um dos apenas quatro canais disponíveis tinha uma personalidade bem distinta, e bastante mais margem de manobra no tocante a apostas para a grelha de programação, sobretudo no caso das recém-nascidas emissoras privadas, que não tinham de obedecer aos mesmos padrões da estatal RTP; e escusado será dizer que tanto a SIC quanto a TVI tiraram o máximo proveito desta liberdade, apostando em vários conceitos, no mínimo, inusitados, como o mega-popular 'Jogo do Ganso' da 'Quatro'. No entanto, até a mais arriscada destas apostas parece perfeitamente normal ao lado daquele que talvez seja o programa mais delirante e tresloucado a alguma vez passar na televisão portuguesa, um verdadeiro 'sonho psicadélico' composto de provas mirabolantes disputadas por concorrentes frenéticos, um literal vilão de ficção e comentários que mais se aproximavam a números de 'stand-up comedy'.


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Falamos, claro está, de 'Nunca Digas Banzai', o histriónico nome escolhido para o misto de concurso e filme de acção japonês originalmente baptizado 'Takeshi's Castle', em honra do seu ideólogo e actor principal, a estrela de cinema nipónica Takeshi Kitano, sobre cuja estreia em Portugal se celebram este ano exactas três décadas. De facto, seria apenas quatro anos após a sua conclusão no seu Japão natal, e oito após a sua estreia, que a 'loucura' de Takeshi 'aterraria' em Portugal, onde teria honras de exibição nas tardes de Sábado da SIC (embora originalmente estivesse incluído no bloco da manhã, o 'Sábado Mágico') e de locução por parte de João Carlos Vaz (também narrador do homólogo 'Gladiadores Americanos') e José Carlos Malato, então ainda um relativo desconhecido nos meandros da televisão portuguesa, e cujos improvisos formaram grande parte da personalidade da versão portuguesa do programa, sendo hoje um dos elementos mais lembrados e nostálgicos para quem assistia ao mesmo.


E como diz o ditado, 'mais vale tarde que nunca', já que 'Nunca Digas Banzai' compensaria a sua chegada tardia aos écrãs nacionais com o seu retumbante sucesso, devido em parte precisamente à locução de Malato, cujas hilariantes observações combinavam na perfeição com o caos frenético da própria competição, uma espécie de versão hiper-exagerada dos 'Jogos Sem Fronteiras' ou do referido 'Gladiadores Americanos', em que largas dezenas de concorrentes se 'matavam' em provas físicas cada uma mais extrema do que a seguinte, na esperança de conseguir chegar ao confronto final com o malvado Conde Takeshi - dono do castelo que dava o título original ao programa, e interpretado pelo seu criador – e ganhar o grande prémio de um milhão de ienes (cerca de 6300 euros actuais). A natureza extrema das provas, aliada a algumas 'batotas' por parte de Takeshi, assegurava, no entanto, a raridade de tal feito, apenas por nove vezes almejado em todo o ciclo de vida do programa.


Mesmo sem 'finais felizes', no entanto, os episódios de 'Nunca Digas Banzai' ofereciam entretenimento suficiente para saciar até o mais hiperactivo dos espectadores noventistas, com o seu misto de provas inenarráveis e disputadas a ritmo frenético, e comentários 'a condizer', com destaque para as famosas denominações dos vilõess como 'Fuji-moto', 'Fuji-carro' e 'Fuji-lambreta', em trocadilhos que, hoje, poderiam ser considerados controversos, mas que, à época, divertiam o público maioritariamente jovem que reservava parte da sua tarde de Sábado para ver japoneses anónimos cair de plataformas para dentro de piscinas, enquanto dois comentadores ao mais puro estilo luta-livre lhes atribuem nomes de celebridades para os distinguir uns dos outros. Um conceito que apenas poderia ter nascido e sido transmitido na era de 'liberdade televisiva' vivida em finais do século XX, à qual toda uma geração de portugueses (e não só) tem a agradecer alguns dos melhores e mais memoráveis programas de sempre da televisão portuguesa, dos quais 'Nunca Digas Banzai' faz, definitivamente, parte. E caso este 'post' tenha 'activado' a nostalgia a algum dos nossos leitores, abaixo fica um episódio completo, que reflecte bem a loucura que grassava neste lendário concurso nipónico.



 

Wednesday, 7 August 2024

Terças de TV: As Olimpíadas na RTP

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 06 de Agosto de 2024.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Nos anos 90, como hoje em dia, a RTP era a grande veiculadora de eventos desportivos para as massas portuguesas – um paradigma que, aliás, apenas principiaria a ser quebrado aquando da repartição dos direitos de transmissão do Campeonato Europeu de Futebol de 2000, que veria, pela primeira vez, a SIC ter direito a mostrar alguns dos jogos de um certame internacional. Não é, pois, de admirar que a RTP tenha, também, sido a televisão 'oficial' das Olimpíadas noventistas em Portugal, fazendo chegar a lares nacionais e internacionais as proezas de atletas de todas as nacionalidades e especialidades - entre eles a representante lusa do atletismo, Fernanda Ribeiro, que, em 1996, estabeleceria em plena cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, um novo marco para a prova dos cem metros femininos, trazendo para 'casa' a primeira medalha de Ouro da História do Portugal olímpico, num momento a que muitos assistiram em directo, precisamente graças à televisão estatal. Abaixo deixamos esse momento ímpar na História olímpica portuguesa, ocorrido há quase exactamente vinte e oito anos, e que urge preservar para sempre como marco histórico do desporto nacional.


Tuesday, 21 May 2024

Terças de TV: Trinta Anos de 'Perdoa-me' - Um Risco 'Perdoado'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Já aqui por várias vezes nos referimos ao início dos anos 90 como o período por excelência de experimentação televisiva em Portugal, com o aparecimento de dois canais independentes a permitir a aposta em programas inovadores, muitos deles adaptados de formatos estrangeiros de igual sucesso. De concursos a programas de auditório, passando por emissões sentimentais e até falsos casos de tribunal televisionados, foram muitos os formatos a correr riscos calculados em busca das sempre 'fugidias' audiências; a essa lista, há agora que juntar aquela que foi uma das grandes apostas da SIC para a temporada televisiva de 1994, e que introduzia mais um conceito pioneiro no contexto da televisão portuguesa – o 'Perdoa-me'.


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Com uma premissa algures entre o 'Ponto de Encontro' e 'O Juiz Decide', com uma pitada de 'Jerry Springer' à mistura, o programa apresentado primeiro por Alexandra Lencastre (a Guiomar da 'Rua Sésamo', entretanto transformada em apresentadora de televisão credível) e depois por Fátima Lopes, mais tarde pioneira dos 'talk shows' nacionais, propunha-se, simplesmente, a resolver publicamente conflitos entre duas partes lesadas, numa tentativa de restabelecer as boas relações entre elas – um daqueles conceitos que apela ao 'voyeurismo' e partilha da desgraça alheia inerentes a grande parte da humanidade, e a que os portugueses não são excepção. Assim, não é de surpreender que o programa se tenha instantaneamente afirmado como um sucesso de audiências, atingindo um 'share' de 53.5%, um número histórico à época e que indicava que mais de metade dos lares portugueses tinham o programa sintonizado! Esta inaudita popularidade ajudou, aliás, a catapultar para o sucesso os programas que se sucediam ao 'Perdoa-me', em particular o 'All You Need Is Love', outro conceito pioneiro que aqui terá, em breve, o seu 'lugar ao Sol'.


Apesar deste sucesso quase absurdo, no entanto, 'Perdoa-me' é, trinta anos depois, lembrado sobretudo pelo episódio transmitido a 1 de Junho de 1994, em que Alexandra Lencastre se deixou enganar pelos próprios convidados, dois jovens estudantes de Agronomia cuja pretensa querela não passava de um artifício para conseguir aparecer no programa e, por consequência, na televisão; um momento algo embaraçoso, que fez parangonas na imprensa da época e que não deixou de ser recordado no 'Jornal da Noite' aquando dos vinte anos da efeméride. Um 'legado' algo inglório para um programa pleno de boas intenções, e que, à época, provou aos executivos televisivos que, por vezes, valia a pena arriscar, sem que posteriormente fosse necessário pedir perdão...




Excertos das duas 'eras' ou 'fases' do programa.


 

Wednesday, 13 March 2024

Terças de TV: 'A Noite da Má Língua' - Um 'Protótipo' À Frente do Seu Tempo

NOTA: Este 'post' é correspondente a Terça-feira, 12 de Março de 2023.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


A produção televisiva portuguesa pautou-se, durante os anos 90, pelo seu carácter experimental – não no sentido artístico ou 'avant-garde', mas simplesmente da perspectiva de tentativa e erro levada a cabo com vários tipos de programação, e que acabaria por revelar alguns formatos de sucesso imediato e ainda hoje vigentes, como 'talk shows' e 'reality shows'. Era, precisamente, esse o tipo de mentalidade por detrás do programa criado e lançado pela SIC há cerca de trinta anos, e que acabaria por se manter três anos no ar, bem como por encetar um inesperado regresso quase três décadas depois.


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Falamos de 'A Noite da Má Língua', o programa de literal crítica social exibido em directo às quintas-feiras, conduzido por Júlia Pinheiro (à época a porta-estandarte da apresentadora televisiva 'desbocada', a par de Teresa Guilherme) e que contava com um painel rotativo por onde passaram nomes como Miguel Esteves Cardoso, Helena Sanches Osório, Constança Cunha e Sá, Rita Blanco, Manuel Serrão ou Rui Zink que, todas as semanas, atribuíam o 'Prémio da Má Língua' a uma personalidade diferente - o que ocasionou mesmo um momento insólito, quando o cantor José Cid surgiu no programa para receber o seu prémio e quase causou uma altercação com os apresentadores. Um formato que, sem dúvida, será familiar a quem hoje assiste a programas como 'Irritações' ou '5 Para a Meia-Noite', mas que, à época, era relativamente inovador no contexto da televisão portuguesa, tendo mesmo ganho notoriedade suficiente para suscitar mesmo uma sátira por parte de Herman José (ele próprio, a dado ponto, convidado do programa) no seu 'Herman Zap', um dos muitos projectos em que o humorista embarcou nos anos pré-'Enciclopédia'.



Ao contrário de muitos outros programas abordados nestas páginas, 'A Noite da Má Língua' faz parte do 'radar' cultural da Geração Z, embora não no seu formato original. Isto porque, desde 2021, o referido programa vem sendo transmitido em formato de 'podcast', com os mesmos apresentadores da sua última encarnação televisiva – – Júlia, Rita Blanco, Manuel Serrão e Rui Zink. Um caso raro de 'regresso' que se soube adequar ao panorama actual e, como consequência, recuperar a relevância de que gozava aquando da exibição original, e captar o interesse de toda uma nova geração – a marca de um programa verdadeiramente 'à frente' do seu tempo...

Tuesday, 27 February 2024

Terças de TV: 'O Juiz Decide' (1994) - O 'Truque' Que Enganou Um País

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Já aqui anteriormente estabelecemos que grande parte dos programas de maior sucesso da televisão portuguesa eram adaptados quase literalmente de formatos estrangeiros semelhantes. Tratassem-se de concursos, programas de variedades ou auditório ou até programas infantis, havia sempre uma alta probabilidade de a sua essência ter sido 'copiada' (ou, pelo menos, ter tirado inspiração) de um programa semelhante de outro país – especialmente se a referida transmissão fosse criada ou produzida por um dos canais privados. Tendo em conta este paradigma, era apenas uma questão de tempo até que fosse feita uma tentativa de emular 'Judge Judy', o popular programa norte-americano em que a juíza titular, de personalidade frontal e até algo 'desbocada', ditava em directo sentenças sobre pequenos casos quotidianos, numa mistura de 'reality show' com reportagem em tribunal que fazia as delícias das audiências da época. No caso, a responsável por 'importar' este formato para a realidade nacional foi a SIC, cuja versão deste conceito, intitulada 'O Juiz Decide', estreava nas tardes de semana, algures há trinta anos.


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Criado e escrito por Paulo Coelho e apresentado pela jornalista Eduarda Maio, o programa colocava frente ao juiz Ricardo Velha uma série de casos corriqueiros em cada edição, que o magistrado tratava de sentenciar e resolver dentro do tempo que durava cada episódio. Um formato em tudo semelhante ao de 'Judge Judy', portanto, não fosse uma subtil mas crucial diferença – os casos de 'O Juiz Decide' eram totalmente encenados, sendo os queixosos e arguidos actores contratados (entre eles Liliana Campos, futura modelo de capa da 'Playboy' lusitana), sendo a presença de Eduarda Maio, presumivelmente, um meio de dar um toque de autenticidade e legitimidade ao que, de outro modo, pouco mais era do que uma série de ficção sobre um juiz em tribunal. Esta medida ajudava a garantir o drama e emoção que a audiência média esperava de um programa deste tipo, mas retirava-lhe a imprevisibilidade e 'factor choque' que tornavam as decisões (reais) da juíza Judy Sheindin tão atractivas para as audiências norte-americanos.


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A apresentadora e o magistrado do programa.


Apesar desta abordagem algo desonesta – à época, os espectadores não sabiam tratar-se de figurantes, e julgavam assistir a casos reais – mais tarde copiada também pela TVI para o seu 'Vidas Reais', 'O Juiz Decide' atingiu com louvor o objectivo de tornar a SIC campeã de audiências das tardes de semana, com os casos do juiz Ricardo Velha a suplantarem largamente em interesse fosse o que fosse que os outros canais tivessem para oferecer no mesmo período. De facto, o sucesso de 'O Juiz Decide' foi tal que o programa se manteve no ar durante mais de seis anos, até Junho de 2000 – uma marca mais do que honrosa, e que ultrapassa consideravelmente a longevidade média da maioria dos programas exibidos na televisão portuguesa em finais do século XX. E apesar de a sociedade actual ser bastante mais informada no tocante a 'truques' como o que constituía o cerne deste programa, é ainda assim de questionar se uma transmissão desta indole não conseguiria, ainda hoje, captar o interesse dos espectadores portugueses da era das 'boxes' e gravação e TV Cabo, como o fez com as audiências bastante menos bem-servidas e algo mais inocentes daqueles últimos anos do Segundo Milénio...



Tuesday, 13 February 2024

Terças de TV: 'Ideias com História' (1993) - A História em 'Primeira Pessoa'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


A ideia de aprender factos, seja sobre que assunto for, raramente é apelativa para a comum das crianças, viva ela em que era viver. Isso não impede, no entanto, que a faixa adulta da sociedade procure, ainda assim, transmitir conhecimentos relativos às mais variadas áreas, seja por meios tradicionais, seja de forma menos ortodoxa – sendo que, nesta última vertente, um dos métodos mais eficazes de captar o interesse dos mais jovens é através do chamado 'edutenimento', uma categoria de programa que incorpora o aspecto didáctico numa apresentação mais puramente lúdica, com o fito de fazer o público-alvo aprender sem 'dar por isso'. São vários os exemplos mais ou menos bem-sucedidos deste tipo de programa ao longo da História, sendo que Portugal não é excepção nesse particular, bastando recordar as históricas 'Rua Sésamo' e 'Arca de Noé', ou o posterior 'Jardim da Celeste', para perceber que havia, em Portugal, engenho e arte suficientes para criar 'edutenimento' de tanta ou mais qualidade do que o que se vinha fazendo no estrangeiro.


A esta ilustre lista há, ainda, que juntar um programa transmitido pelo segundo canal da emissora estatal há cerca de trinta anos, e que, apesar de não ser explicitamente dirigido a um público jovem, terá sem dúvida contribuído para lhe dar a conhecer uma série de figuras históricas, tanto portuguesas como internacionais, de forma divertida e cativante, e pela 'mão' daquela que era, à época, uma das figuras mais afáveis e simpáticas da programação nacional: o 'Senhor Televisão' em pessoa, Carlos Cruz, ainda a alguns anos de quase ver a sua reputação destruída no processo Casa Pia.



Falamos de 'Ideias com História', o programa da RTP2 cujo conceito e apresentação se assemelhavam ao de qualquer outro espaço de entrevistas da época, com a particularidade de, neste caso, os convidados serem figuras dos mais variados períodos da História, interpretados com requinte por uma série de nomes consagrados da televisão e teatro portugueses. De personagens-chave da História de Portugal, como o Padre António Vieira, Fernão Mendes Pinto ou Bocage, a 'gigantes' internacionais como Átila, o Huno, o Imperador romano Nero, Napoleão ou a Rainha Vitória, muitos e variados foram os nomes a passar pela 'cadeira' de Carlos Cruz ao longo do tempo de vida do programa, todos dispostos a revelar (mais ou menos) factos sobre a sua vida ao simpático apresentador.


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Carlos Cruz ao comando de uma emissão do programa.


Um conceito original, bem concretizado por uma equipa e elenco talentosos, e capaz, por isso, de captar o interesse das mais variadas demografias, e de, com sorte, conseguir transmitir informações sobre as figuras em causa que perdurassem para além dos cinquenta minutos de um episódio. Razões mais que suficientes para, apesar do relativo esquecimento a que foi votado pelos Internautas nostálgicos portugueses, recordarmos aqui (ainda que brevemente) esta emissão veiculada pela 'Dois' há coisa de trinta anos, e da qual resta ainda um episódio no YouTube, com o 'convidado dos convidados', que pode ser visto (ou revisto) abaixo.


Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...