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Saturday, 4 July 2026

Sessão de Sexta: Os Primórdios de Uma Franquia Que Não É 'Brinquedo'...

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 03 de Julho de 2026.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Ainda que as franquias animadas com diversos capítulos não sejam nada de novo, sobretudo desde o início do Terceiro Milénio, é ainda assim incomum encontrar uma que leve já três décadas, sempre com o mesmo grau de sucesso. 'Em Busca do Vale Encantado', por exemplo, encontra-se desde há muito remetido para o mercado do vídeo, o mesmo sucedendo com 'Alfa e Ómega'; séries como 'O Panda do Kung-Fu', 'Como Treinar o Seu Dragão' ou 'Gru, O Mal-Disposto', por outro lado são significativamente mais recentes, deixando apenas 'Shrek' como o único verdadeiro concorrente da franquia a que dedicamos este 'post', e cujo quinto capítulo faz actualmente sucesso nas bilheteiras mundiais. Altura ideal, portanto, para recordar os humildes inícios de um 'cowboy' e de um astronauta que, nos mais de trinta anos desde a sua estreia, cimentaram merecidamente um lugar no imaginário infanto-juvenil mundial.

Produzido em 1995 e estreado em Portugal na Primavera do ano seguinte, 'Toy Story – Os Rivais' marcava não só a estreia em longa-metragem da californiana Pixar – até então produtora de 'spots' publicitários e curtas-metragens – como também uma autêntica revolução no mercado da animação, à época ainda dominado por filmes de produção totalmente artesanal e que, do dia para a noite, via surgir nas salas de cinema uma obra totalmente criada por computador. Mais – ao contrário do que se poderia esperar, o filme não se fazia valer do factor 'novidade', apresentando uma história cuidada e que nada perderia caso a animação fosse 'feita à mão'.

Com personagens memoráveis – não só os protagonistas Woody e Buzz como os restantes brinquedos 'vivos' do quarto do pequeno Andy – diálogos hilariantes (potenciados, em Portugal, por uma das melhores dobragens alguma vez produzidas num estúdio nacional) e os inevitáveis momentos emocionais, o primeiro 'Toy Story' não podia deixar de ser um sucesso entre a 'pequenada', e foi sem surpresas que a aventura dos dois 'parceiros melindrados' se tornou um dos grandes sucessos não só da sua época de estreia, mas do próprio catálogo da Disney, então em plena fase hegemónica de 'Renascença', justificando assim os esforços da Pixar e tornando o nome da companhia sinónimo de animação por computador de qualidade. E ainda que, hoje em dia, a animação 3D comece a parecer algo antiquada, o filme afirma-se ainda suficientemente cativante para justificar uma Sessão de Sexta, quer como parte de uma maratona, quer apenas emparelhado com a sua primeira sequela, amplamente considerada uma das melhores de todos os tempos.

De facto, 'Toy Story 2: Em Busca de Woody' – terceiro filme da Pixar, após o algo mais fraco 'Uma Vida de Insecto' – consegue a proeza de ombrear com o seu antecessor, levando ao expoente máximo a fórmula 'mais do mesmo, mas maior e melhor'. Aquilo que poderia apenas ser uma 'cópia' do primeiro filme com os papéis trocados – com Buzz a ter, desta feita, de salvar Woody – atreve-se, pelo contrário, a explorar novas dimensões do 'mundo' de Toy Story, introduzindo novas personagens (o que se viria a tornar um dos esteios da série) e tornando a aventura dos brinquedos significativamente mais ampla que a do primeiro filme, com mais cenas de exterior, muito mais acção, e um tema musical que muitos consideram ainda melhor do que 'Sou Teu Amigo, Sim'. Como tal, foi novamente sem surpresas que o filme 'arrasou' nas bilheteiras nacionais aquando da sua estreia em Fevereiro de 2000, inscrevendo mais um nome naquela que viria a ser uma longa lista de sucessos para a Disney-Pixar.

O que, efectivamente, surpreendeu foi o facto de os capítulos seguintes da série (estreados em 2010 e 2019, respectivamente) serem, também eles, filmes cuidados, sendo 'Toy Story 3', inclusivamente, considerado tão bom ou melhor do que os seus dois antecessores. E ainda que 'Toy Story 5' vá, para já, dividindo opiniões, o impacto daquela que sempre foi a série-estandarte da Pixar (e onde 'tudo começou' para a companhia) não parece dar sinais de enfraquecer, podendo Woody, Buzz e companhia vir potencialmente a fazer parte do imaginário infantil de quatro gerações – algo de que poucas companhias àparte a própria Disney se podem gabar. Oportunidade perfeita, pois, para recordar os primórdios da série, e 'regressar' aos tempos da estreia do original, em que a geração 'millennial' era da idade do protagonista Andy e se debatia, ela própria, com a questão de qual seria o seu brinquedo favorito...

Thursday, 13 June 2024

Quartas de Quase Tudo: Os 'Clássicos Disney' em Livro e Cassette

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 12 de Junho de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Em finais dos anos 80 e inícios da década seguinte, com o advento e posterior expansão de tecnologias como os leitores de cassettes áudio portáteis, assistiu-se ao aparecimento e difusão de um novo e popular formato de literatura infanto-juvenil, que juntava um livro a uma cassette áudio, por vezes com uma simples narração do texto do livro, em outras com uma adaptação livre e expandida da história ali contida – o chamado, em Inglês, 'read-along'.


Em Portugal, as primeiras tentativas de implementar este novo formato deram-se ainda em finais dos anos 80, com as quadrilogias 'A Aldeia das Amoras' e 'Histórias e Canções em Quatro Estações' – curiosamente, ambas de temática sazonal, e a segunda com textos de autores como Maria Alberta Menéres ou Alice Vieira – cujo sucesso entre a demografia-alvo não tardou a motivar novas edições do mesmo estilo, de entre as quais se destaca uma colecção que fazia uso de uma poderosa licença para chamar a atenção das crianças da época.Falamos da série de livros vulgarmente conhecida apenas como 'Os Clássicos Disney', que a maioria dos jovens 'X' e velhos 'millennials' portugueses conhecerão, não tanto pelo nome, mas pelo distintivo formato quadrangular e com os desenhos da capa emoldurados por um bloco de cor garrida – verde, amarelo, cor de laranja, vermelho ou azul.


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Alguns dos volumes da colecção, com as respectivas cassettes áudio.


De data de edição, infelizmente, perdida no tempo – situando-se algures entre finais da década de 80 e os primeiríssimos anos da seguinte – esta apelativa colecção 'esticava' ao máximo o conceito de 'clássico', emparelhando histórias, sem dúvida, merecedoras desse epíteto – quer retiradas directamente dos filmes da companhia, quer do repertório popular de contos – com outras menos conhecidas, ou até criadas especificamente para a colecção, que conseguia assim chegar às duas mãos-cheias de títulos. Mais ou menos conhecidos, no entanto, todos os contos integrantes da colecção recebiam um tratamento áudio cuidado, com direito a vozes e efeitos sonoros distintos, e com o selo de qualidade outorgado pela licença Disney, criando assim um excelente complemento à vertente escrita, para quando não 'apetecesse' ler. Esta dualidade, aliada ao poderio das personagens criadas por Walt Disney, ajudava ainda a assegurar o interesse por parte do público-alvo, levando a que a colecção em causa marcasse presença nos quartos de muitas crianças da época, sobretudo os das mais adeptas à leitura.


E se, nos dias que correm, o conceito de um 'áudio livro' em formato físico – e acompanhado de um livro propriamente dito – parece quase pitoresco, a verdade é que estes e outros livros do mesmo formato marcaram época, e terão tido a sua parte a cumprir na missão de encorajar todo um conjunto de portugueses de uma certa faixa etária a ler – o que, só por si, já lhes valeria a presença nestas páginas. O facto de se tratar de uma colecção relativamente icónica é apenas a cereja no topo de um 'bolo' que, mesmo totalmente obsoleto, talvez ainda conseguisse, com os devidos ajustes, apelar à juventude de hoje em dia...

Wednesday, 24 April 2024

Quartas aos Quadradinhos: 'Mickey 70 Anos' (1999) - Uma 'Correcção' de Luxo

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Em tempos considerado a personalidade mais conhecida em todo o Mundo (fosse fictícia ou de 'carne e osso') o Rato Mickey continua, até hoje, a ser um ícone verdadeiramente intemporal da cultura popular, presente no imaginário infanto-juvenil de todas as gerações surgidas desde a sua criação em finais dos anos 20, e sempre com o mesmo (alto) nível de popularidade. Assim, não é de surpreender que cada novo aniversário do roedor mais famoso do Mundo seja motivo para celebração, com um sem-número de eventos alusivos à data e transversais a todas as áreas culturais em que o rato de Walt Disney se inseriu; e, sendo a banda desenhada uma das principais de entre elas, tão-pouco é de espantar que se tenham verificado, ao longo dos anos, uma série de edições comemorativas, lançadas um pouco por todo o Mundo.


Enquanto mercado da 'linha da frente' no consumo de banda desenhada em finais do século XX, Portugal não podia, claro, ser excepção a esta regra, tendo visto serem lançadas uma série de especiais alusivos ao aniversário de Mickey, pela mão da Abril, então detentora dos direitos de edição das BD's Disney em Portugal. O primeiro destes, de 1988, era uma verdadeira edição histórica, com vários volumes que traçavam o percurso de Mickey através das décadas; já o segundo pouco passava de uma revista vulgar, com as únicas alusões à efeméride a terem lugar no desenho de capa – e, para cúmulo, lançada com atraso de quase um ano! Um deslize que, crédito lhe seja feito, a editora tentou corrigir com o lançamento seguinte, editado há vinte e cinco anos, por ocasião dos setenta anos de Mickey, que surgia em formato encadernado e dividida em dois volumes, num total de quase duzentas páginas de banda desenhada.


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Capas dos dois volumes do especial, cada um com cem páginas.


Felizmente, tal como acontecera com o especial de 1988, também aqui a qualidade do conteúdo se coadunava com a apresentação, surgindo cada um dos volumes dividido em secções temáticas, cada uma com um respectivo texto introdutório e explicativo. O primeiro volume trazia, assim, uma parte dedicada às tiras diárias de Floyd Gottfredson, outra ao detective Sir Lock e outra à 'Patrulha Estelar' que trazia Mickey e Pateta como astronautas e heróis futuristas; já o segundo tomo trazia secções alusivas aos principais coadjuvantes e personagens secundários do universo de Mickey, como o Capitão Plim, o extraterrestre Esquálidus e o inevitável Pateta – embora, estranhamente, deixando de fora nomes tão icónicos como João Bafo-de-Onça, Mancha Negra e, claro, a namorada do herói, Minnie. Deste volume faziam, ainda, parte um texto genérico sobre outros personagens, um 'cantinho do artista', onde eram publicados alguns desenhos enviados para a editora por fãs do rato e respectivos amigos, e uma história interactiva, em prosa, que convidava os leitores a resolverem o mistério de onde estaria o bolo de aniversário de Mickey.


No cômputo geral, portanto, uma edição que fazia por justificar o (sem dúvida exorbitante) preço de capa, e por 'emendar a mão' após a 'derrapagem' por altura dos sessenta e cinco anos do personagem – objectivos que atingiu com louvor, perfilando-se como uma homenagem tão adequada como justa e sentida a um dos maiores personagens de banda desenhada de sempre, que (aos quase cem anos de 'vida') continua tão relevante como sempre foi.

Sunday, 29 October 2023

Domingos Divertidos: O Jogo da Eurodisney (1992)

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Já aqui por várias vezes abordámos os jogos de tabuleiro, uma das melhores maneiras de passar uma tarde de fim-de-semana em família, ou com amigos; e embora a grande maioria dos mesmos apresentasse parâmetros e mecânicas muito semelhantes, um grupo mais restrito tentava inovar, e ampliar o seu conceito para lá dos habituais dados, peças multi-coloridas e 'casas' para atravessar até ao objectivo final. Estes esforços de diferenciação assumiam várias formas, desde obstáculos mecanizados até alterações no próprio formato do tabuleiro de jogo ou nas mecânicas subjacentes à vitória, passando por uma abordagem híbrida, que juntava à premissa básica das casas, dados e peças elementos complementares, que ajudavam a diversificar a experiência de jogo. Destes, talvez os mais famosos tenham sido o Pictionary, Monopólio e Trivial Pursuit, mas, em 1992, a MB apresentava um forte (e, à época, mais do que relevante) candidato à inclusão nesta lista.


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Falamos do jogo de tabuleiro da Euro Disneyland (não confundir com 'Disneylândia', a imitação de Monopólio com personagens Disney lançado na década anterior), uma preciosidade hoje surpreendentemente esquecida, especialmente dada a sua proposta absolutamente irrecusável para qualquer criança da época: atravessar a hoje chamada Disneyland Paris, recolhendo lembranças (que 'serviam' às peças de jogo, cada uma das quais representava uma família de visita ao parque) e competindo numa série de provas de habilidade baseadas nas suas principais atracções.


Para este fim, o jogo inclui, além do tabuleiro e peças, uma série de estruturas representativas de cada uma das áreas do parque, do inevitável castelo encantado ao foguetão da área espacial, a mina de Big Thunder Mountain ou o labirinto do País das Maravilhas – aqui com três Alices, de diferentes tamanhos. Era, até, possível fazer o percurso de comboio, havendo mesmo um 'trilho' especial no tabuleiro para esse efeito, percorrido por um modelo à escala da verdadeira locomotiva, e que permitia dar a 'volta' ao tabuleiro em metade do tempo, dado cada 'passo' do comboio equivaler a dois das famílias a pé! Um nível de detalhe verdadeiramente alucinante, e capaz de deixar qualquer jovem da época 'de olhos em bico', e com vontade de juntar o jogo em causa ao seu lote de 'tesouros' – até porque, mesmo quando não estava a ser utilizado, o tabuleiro 'fazia um vistão' simplesmente montado numa qualquer mesa, cómoda ou outra superfície.


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O tabuleiro montado, em toda a sua glória.


Como é evidente, um produto deste tipo está altamente dependente do factor temporal, tornando-se algo menos atractivo e cobiçado depois de o interesse no evento ou local que representa começar a esmorecer; no caso do jogo da Eurodisney, no entanto, o conceito era suficientemente cuidado e variado para oferecer razões para tirar a caixa da prateleira muito depois de passada a 'excitação' inicial sobre o novo parque. De facto, mesmo nos dias de hoje (mais de três décadas após o seu lançamento) o produto em causa continua a ser suficientemente chamativo para juntar em volta da mesa quem o jogou em criança e quem tem agora essa mesma idade, e quer perceber a razão para a abertura de um parque em França ter causado uma 'vaga' de entusiasmo um pouco por toda a Europa – bastando, para tal, pousar os olhos sobre o tabuleiro desta relíquia injustamente Esquecida Pela Net.

Wednesday, 14 June 2023

Quartas aos Quadradinhos: A Revista 'Correio Juvenil' do Clube Verbo

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui falámos, numa edição passada, de como os clubes de jovens por correspondência se popularizaram entre a juventude noventista. Da Sega e Nintendo ao grupo Auchan (através das mascotes Rik e Rok) passando pelo pioneiro Clube Amigos Disney e por um sem-fim de clubes de fãs de artistas sem afiliação corporativa, criados e geridos por jovens perfeitamente normais e anónimos, foram inúmeros os exemplos deste tipo de iniciativa surgidos durante as duas últimas décadas do século XX e primeira do seguinte.


O campo da literatura não foi, de todo, excepção a esta regra, tendo sido nada menos do que duas as tentativas feitas nesse sentido por editoras populares entre a 'miudagem': o lendário Clube Caminho Fantástico, da Editorial Caminho – talvez o exemplo mais bem conseguido deste tipo de serviço – e o Clube Verbo, lançado pela editora homónima algures nos anos 80 e que, como o seu congénere, 'resistiu' até pelo menos à 'recta final' do século XX. Tal como sucedia com a maioria dos outros clubes deste tipo, cada um destes grupos tinha a sua revista própria, com passatempos, cartas e desenhos de leitores e – no caso do Correio Juvenil – também banda desenhada.


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Duas capas do suplemento, ambas alusivas à mesma história de Tintim


De facto, a revista veiculada pelo Clube Verbo destacava-se da 'concorrência' por se inserir no mesmo segmento de publicações 'oficiais' como 'Tintim', 'Spirou' e 'Selecções BD', bem como de suplementos vinculados a jornais e revistas, como o 'BDN' ou o suplemento juvenil do Expresso, ao reunir e editar em 'tranches' histórias de alguns dos autores mais clássicos do mundo da banda desenhada, com destaque para Hergé e Carl Barks, ilustrador principal da era de Ouro da BD da Disney, do qual foram veiculadas duas histórias entre os números 74 e 89, cada uma delas dividida em oito partes: do número 74 ao 81 foi editado 'O Sofá Expresso', de Donald e sobrinhos, e do 82 ao 89 'O Deus do Vulcão', com Mickey e Pateta. Os restantes (poucos) recursos actualmente existentes sobre esta revista mostram imagens de 'O Caranguejo das Tenazes de Ouro', aventura de Tintim passada no Médio Oriente, e sugerem terem sido publicadas histórias de outros autores franco-belgas menos conhecidos.


O facto, no entanto, é que o clube da Difusão Verbo foi um pouco 'Esquecido Pela Net', o que acaba por ser uma pena, já que parece tratar-se, como o Caminho Fantástico, de um exemplo particularmente bem conseguido do formato de clube de jovens por assinatura ou correspondência; cabe assim, como sempre, a este nosso 'blog' a função de recordar este clube, a sua revista, e as excelentes histórias nela publicadas, para que quem fez parte possa recordar, e quem não conhecia possa passar a estar a par...

Wednesday, 18 January 2023

Quartas de Quase Tudo; As Agendas Disney

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


O período de Natal e o início do ano seguinte eram, por razões óbvias, a altura do ano por excelência para o lançamento e comercialização de agendas – que, neste caso, se referiam não àqueles livrinhos de couro recheados de papel pautado onde se anotavam números de telefone e moradas antes do advento dos 'smartphones', mas sim a verdadeiros tomos encadernados, dirigidos a um público infanto-juvenil, e que combinavam essa vertente com outros conteúdos de interesse para a demografia-alvo, como receitas, passatempos, curiosidades, ou espaços onde anotar os desejos e ambições para o novo ano. E se a rainha indisputada deste tipo de publicação era 'A Minha Agenda', o esforço anual da RTP cujo principal ponto de interesse era o lendário anúncio, também não deixou de haver um ou outro 'concorrente' esporádico, determinado a retirar a 'coroa' à publicação da emissora estadual.


Destes, um dos principais (e que não deixa de ser surpreendente nunca ter almejado mais altos vôos) foram as agendas Disney – volumes em tudo semelhantes a 'A Minha Agenda', mas com o atractivo extra de contarem com a presença (totalmente legal e licenciada) das mais populares personagens de banda desenhada da Disney. Assim, conteúdos que de outra forma teriam de ter sido decorados com desenhos ou motivos genéricos passavam a ter como 'anfitriões' o Tio Patinhas, o Rato Mickey, e as restantes (e bem conhecidas) personagens com que as crianças portuguesas conviviam sempre que abriam uma revista aos quadradinhos da época.


Infelizmente, este é mais um daqueles casos em que o produto em questão foi totalmente Esquecido Pela Net, não havendo mesmo rasto de qualquer dos (pelo menos dois) volumes lançados (relativos aos anos de 1992 e 93) em sites como o OLX. Assim, e perante a impossibilidade de retirar imagens dos nossos exemplares pessoais (há muito arrumados numa de entre muitas caixas com conteúdos semelhantes) vemo-nos forçados a publicar, pela segunda vez, um 'post' sem quaisquer imagens.


Ainda assim, e numa altura do ano em que a maioria das crianças tinha, ainda, motivação para utilizar activamente este tipo de volumes, não queríamos deixar passar em branco este 'conccrrente' d''A Minha Agenda', cujo insucesso é tão difícil de perceber quanto o seu desaparecimento total da consciência nostálgica colectiva portuguesa – algo que pode parecer inimaginável para um produto com uma licença tão popular quanto a dos Estúdios Walt Disney, mas que, no caso destas agendas, é absolutamente verídico...

Wednesday, 23 November 2022

Quartas aos Quadradinhos: 'Zé Carioca na Copa' (1994)

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Apesar de ser tão ou mais popular em Portugal quanto no resto da Europa ou na América do Sul e Latina, o futebol só recentemente se tornou tema viável para obras de banda desenhada criadas em território luso, sendo os seus principais representantes a série de humor 'Os Campeões' e a também cómica (ainda que de forma não intencional) 'Cristiano Ronaldo Strike Force'; antes destes exemplos – todos criados já do lado de 'cá' do Novo Milénio – o único exemplo de BD expressamente dedicada a este tema era o álbum de cariz didáctico e informativo sobre a 'História dos Campeonatos do Mundo', lançado pelas Edições ASA em meados da década de 80.


Esta escassez de títulos dedicados ao desporto rei 'made in Portugal' obrigava, por sua vez, os jovens bedéfilos lusos a recorrer a fontes do país irmão, o Brasil, para satisfazerem a sua vontade de ler 'histórias aos quadradinhos' ambientadas em torno de jogos de 'bola'. Mesmo do outro lado do Atlântico, no entanto, a oferta não era tão abundante quanto se pudesse pensar – além do personagem Pelezinho, criado por Mauricio de Sousa (também criador da Turma da Mônica) e que apareceria apenas esporadicamente durante os anos 90, sendo mais tarde 'sucedido' por Ronaldinho, apenas um título dedicava verdadeiramente a sua atenção ao futebol, muito por conta da paixão assolapada do seu protagonista pelo desporto – a qual, por sua vez, levaria à publicação de uma memorável série de quatro revistas na Primavera de 1994.


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Três das quatro capas da série.


Falamos de 'Zé Carioca na Copa', o título alternativo dado aos números 1997 a 2000 da edição normal da revista 'Zé Carioca', e justificado pela presença de uma história principal em que o simpático papagaio procura (e consegue) viajar para os EUA, a fim de assistir ao vivo ao Mundial que ali se desenrolava naquele ano. Escusado será dizer que, pelo caminho, o nosso herói vivia uma série de peripécias e vissicitudes – muitas delas ligadas à dificuldade em sair do próprio Brasil, derivada da sua perpétua falta de fundos monetários – que requeriam o uso de toda a sua 'malandrice' para ultrapassar, na prossecução do objectivo-mor delineado.


Editada durante uma das fases áureas da edição brasileira da revista (pouco depois de uma das poucas mudanças de 'visual' que não foram acompanhadas de um decréscimo de qualidade) esta história em quatro partes apresenta, evidentemente, um altíssimo nível técnico, como era apanágio da publicação na altura (o qual, aliás, fica bem patente logo nos cuidados desenhos das capas acima reproduzidas) prometendo muitas e boas gargalhadas aos fãs de futebol, do personagem, ou simplesmente das revistas de BD da Disney publicadas pelo ramo brasileiro da Abril à época.


De referir que, além destes quatro números, houve ainda um outro, especial, também intitulado 'Zé na Copa' e lançado em 1998, como brinde na compra de outras revistas Disney, como forma de assinalar a competição realizada nesse ano; no entanto, a informação sobre esta BD disponível na Internet não vai muito além da capa, pelo que nos é impossível analisá-la mais a fundo.


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Capa da edição especial alusiva ao Mundial de França '98


No cômputo geral, e apesar do exemplo existente ser de alto nível, a ausência de mais publicações alusivas aos Campeonatos Mundiais é desapontante, sendo que nem o outro grande fã do desporto-rei da banda desenhada da época, o Cascão da Turma da Mônica,teve direito a qualquer história ou número especial na sua revista. Ainda assim, como diz o ditado, o que existiu foi 'melhor que nada', especialmente dado que 'Zé Carioca na Copa' é tão bom que ainda se 'aguenta bem' nos dias de hoje, quase trinta anos após a sua publicação – um feito que, convenhamos, não está ao alcance de qualquer um...

Thursday, 27 October 2022

Quintas de Quinquilharia: O Baralho de Cartas da Eurodisney

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Nos anos 90, como hoje em dia, os jogos de cartas eram uma excelente forma de passar uma tarde bem divertida na companhia da família ou amigos; e apesar de alguns jogos serem estritamente para adultos, ou pelo menos adolescentes – casos da sueca e do póquer, que se aprendiam e continuam a aprender na mesa do bar da faculdade – outros tantos havia que eram próprios para 'todas as idades', desde os clássicos 'bisca' e 'burro' até ao 'peixinho' ou ao sempre aliciante 'jogo do polícia e ladrão', entre outros. E se estes jogos já eram divertidos jogados com um baralho 'normal' – sem muito que ver além do desenho invariavelmente 'caprichado' dos dois Jokers – ainda muito melhores se tornavam quando o baralho em causa substituía o referido Joker, e ainda os habituais reis, rainhas e valetes, com personagens de uma propriedade intelectual daquelas que atravessam gerações, nunca deixando de ser relevantes para as crianças e jovens, independentemente da época em que vivam.


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A variante aqui mostrada é a de fundo vermelho, sendo que havia também uma variante que trocava a colocação das cores vermelha e verde na imagem de 'capa'. (Crédito da foto: Etsy)


Era, precisamente, esse o caso com o baralho de cartas da Eurodisney, lançado para coincidir com a abertura daquele espaço mítico para as crianças da época (em 1992) e que, além de trazer o Rato Mickey no verso de todas as cartas, onde normalmente estaria um desenho tipo 'mandala' ou um padrão de losangos, o colocava ainda no papel de rei do baralho, com a namorada Minnie, inevitavelmente, como rainha, e o 'melhor inimigo' Pato Donald a fazer as vezes de valete, dando aos jovens jogadores algo mais interessante do que as habituais figuras para que olhar enquanto esperavam a sua vez – algo que nem mesmo os também populares baralhos promocionais (com uma qualquer marca no verso das cartas) logravam fazer.


Escusado será dizer que este pequeno toque, e a associação a alguns dos mais populares personagens de BD da Disney e ao seu ultra-popular parque de diversões em França, foi suficiente para tornar este baralho num retumbante sucesso, daqueles que se levavam dentro do estojo ou da pasta para a escola, a fim de mostrar aos amigos e de ensaiar umas 'jogatanas' no recreio. Infelizmente, a sua ligação à Eurodisney relegou, também, este baralho à condição de 'produto de época', cujo interesse se esbateu um pouco à medida que o parque foi perdendo a sua popularidade inicial (para além de ter sido, ao longo dos tempos, substituído por outras versões, de grafismo mais actualizado); ainda assim, quem, à época, teve este primeiro baralho com Mickey e companhia – quer na sua versão de fundo verde, quer na variante com fundo vermelho - certamente ainda hoje o recorda, e - quem sabe - talvez até o continue a escolher sobre todos os outros baralhos na altura de organizar umas partidas com a família...

Thursday, 12 May 2022

Quintas no Quiosque: Os Cursos de Línguas da Planeta deAgostini, Parte II - 'Magic English, Magic English, Have Fun With Disney Every Day!'

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Depois de na última visita ao Quiosque termos falado da primeira tentativa da Planeta deAgostini de lançar cursos de línguas em fascículos, chega hoje a altura de completarmos a nossa análise das publicações deste tipo veiculadas pela editora durante os anos 90, com a segunda e mais frequentemente recordada série de aprendizagem de línguas disponibilizada pela Agostini durante esse período, o bem-sucedido Disney Magic English.


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Lançada em Portugal em 1997 e dirigida, ao contrário do seu antecessor, a um público explicitamente infantil, para o qual tinha atractivos claros em relação à tentativa anterior (basta atentar na licença), a série Magic English propunha-se ensinar os rudimentos da língua inglesa através de um formato baseado em exemplos tanto escritos como audio-visuais. Assim, cada nova entrega da colecção era composta tanto pelo habitual fascículo, com a explicação do tema abordado em cada número e alguns exercícios práticos em formato escrito, como por uma cassette VHS (substituída, em reedições subsequentes, por um DVD) onde excertos de desenhos animados e filmes da Disney ajudavam a cimentar os conceitos expostos na parte escrita; a esperança era de que a combinação dos exercícios do fascículo e dos exemplos práticos incluídos no vídeo ajudasse o aluno a assimilar o vocabulário necessário, tornando-o assim auto-didacta do novo idioma.



O primeiro vídeo da série; os restantes estão disponíveis aqui mesmo, no 'nosso' Sapo


Para além dos fascículos, a série incluía ainda o habitual meio para arrumação dos mesmos (neste caso, uma caixa) e ainda um dicionário de termos em Inglês, para ajudar a cimentar a aprendizagem.


Apesar do objectivo do projecto ser por demais optimista, sobretudo quando aplicado a uma demografia conhecida pela sua reduzida capacidade de atenção e concentração, a verdade é que a colecção Magic English era bem estruturada e pensada, afirmando-se, mais do que como um produto feito 'às três pancadas' para aproveitar a licença milionária, como um excelente auxiliar de estudo para pais e professores que pretendessem iniciar as crianças no estudo da língua inglesa; os excertos utilizados em cada vídeo eram cuidadosamente escolhidos e enquadrados para serem sempre relevantes ao tema em causa, e era mesmo possível aprender algum vocabulário simples em cada cassette ou DVD da série – cujos atractivos começavam, aliás, desde logo no contagiante estribilho do genérico de abertura, que alguns dos leitores deste 'post' estarão, possivelmente, a entoar mentalmente neste preciso momento.



'Have fun with Disney, every day! Have fun with Disney, every day! Have fun with Disney, e-ve-ry DAY!'


Assim, não é de estranhar que a série Magic English tenha feito tanto ou mais sucesso em Portugal do que em qualquer dos outros países onde foi lançada, e seja ainda hoje recordada com carinho pela geração à qual ajudou a ensinar Inglês; e apesar de muito deste sucesso se dever à presença de personagens Disney (as quais ajudavam a mitigar a vertente educativa do projecto) uma parte significativa do mérito deve mesmo ser atribuído aos criadores da série, por terem conseguido criar um produto educativo capaz de agradar e interessar genuinamente ao sempre difícil público a que se destinava - um privilégio normalmente reservado para propriedades como 'Rua Sésamo' e 'Artur'. Só por isso, Magic English já mereceria esta homenagem; o facto de se tratar de um lançamento genuinamente nostálgico apenas a torna duplamente merecedora.

Friday, 15 April 2022

Sessão de Sexta: 'Flubber - O Professor Distraído'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Para a geração que tinha uma certa idade nos anos 90, o humor cinematográfico era personificado, essencialmente, por dois nomes: Jim Carrey e Robin Williams. E se o primeiro gozou de uma daquelas décadas de fazer inveja a qualquer novato (à revelação com Ace Ventura - Detective Animal seguiram-se Doidos À Solta, A Máscara, Ace Ventura em África, Batman Para Sempre e O Mentiroso Compulsivo, antes da viragem para filmes mais sérios com os excelentes The Truman Show e Homem Na Lua) o segundo - de quem Carrey foi, em certa medida, sucessor, e cujo papel no terceiro filme de Batman acabou por 'usurpar' - efectivou nos anos 90 uma viragem de carreira, deixando de parte os papéis algo mais sérios que desempenhara nos anos 80 e retornando às suas raízes mais cómicas e direccionadas a um público mais infantil.


E o mínimo que se pode dizer é que essa opção foi extremamente bem sucedida, tendo o actor caído nas boas graças do público pré-adolescente da época, graças aos seus desempenhos em sucessos como O Fabricante de Sonhos, Aladdin (um dos melhores filmes da chamada 'Renascença' da Disney, em que interpretou, memoravelmente, o Génio da Lâmpada), Ferngully: As Aventuras de Zack e Krysta na Floresta Tropical, Papá Para Sempre, Hook (de Steven Spielberg) Jumanji ou Jack (de Francis Ford Coppolla) entre outros.


Foi, precisamente, em meio a este estado de graça que Williams aceitou representar um professor distraído (numa altura em que Eddie Murphy revivia a carreira com um papel muito semelhante, num filme também baseado num clássico do cinema a preto a branco) num 'remake' de uma comédia familiar da Disney, hoje algo esquecido - para ser sincero, algo justificadamente - mas cuja data de estreia em Portugal completou recentemente 24 anos.


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Falamos de Flubber - O Professor Distraído, estreado em Portugal a 27 de Março de 1998 e que procurava ser mais um na longa lista de sucessos infanto-juvenis de Williams, bem como na lista de 'remakes' bem-sucedidos de obras de décadas passadas (onde se contam também O Professor Distraído e Doutor Doolittle, de Murphy, e a versão em 'acção real' do clássico animado Os 101 Dálmatas, produzida no ano anterior.) No entanto, apesar do bom desempenho do filme nas bilheteiras mundiais, o mesmo é, hoje em dia, bem menos lembrado do que os seus congéneres acima mencionados, talvez por se tratar de um daqueles filmes que entretêm no imediato, mas caem no quase total esquecimento algum tempo depois de terem sido vistos.


De facto, apesar de as aventuras do professor Phillip Brainard (Williams) e da sua criação, a borracha voadora Flubber (corruptela de 'flying rubber') terem tudo para agradar ao público a que o filme se destina - a começar por muito, mas muito humor tipo 'pastelão' - existem, na mesma época e com a mesma demografia em mente - opções muito mais bem conseguidas, como Space Jam (também de 1997), Pequenos Soldados, do ano seguinte, ou o próprio Jumanji, em que Williams participara pouco mais de um ano antes. Comparado com estes, o filme de Williams sai, definitivamente, a perder, sendo a sua exibição recomendada apenas àqueles pais já falhos de opções para entreter os filhos, e que não querem recorrer ao 'Baby Shark' ou à Porca Peppa.


De realçar, ainda, que, em Portugal, a estreia de 'Flubber' ficou marcada pela oferta da novelização oficial do filme - numa daquelas traduções manhosas e meio 'às três pancadas' a que a Abril já habituara os jovens leitores com a série 'Arrepios' - como brinde numa edição da revista 'Super Jovem', então já na fase final da sua existência. E ainda que, presumivelmente, tal estratagema tenha ajudado a gerar interesse pelo filme por parte do público-alvo à época, o certo é que nem a mais bem conseguida campanha publicitária conseguiria transformar 'Flubber - O Professor Distraído' em algo mais do que uma das produções 'menores' da fase 'imperial' de Williams, um filme 'engraçado' para ver uma vez, mas que não chega aos calcanhares da obra anterior do actor (o clássico 'O Bom Rebelde') e que, quase um quarto de século após a sua estreia, se afirma como relevante apenas num contexto de recordação do passado, como o proposto por este blog; para o público cinéfilo em geral, o filme merece mesmo continuar no esquecimento...


Wednesday, 13 April 2022

Quartas aos Quadradinhos: Álbum Disney - Mickey

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


De inícios da década de 80 ao dealbar do novo milénio, a editora Abril Morumbi (mais tarde apenas Abril) foi sinónima com a publicação de banda desenhada Disney nas bancas portuguesas, sendo praticamente impossível encontrar um produto literário da companhia americana que não tivesse a chancela da casa luso-brasileira; mas enquanto que a maioria dos títulos lançados pela editora eram e continuam a ser fáceis de encontrar, um ou outro conseguiu, ainda assim, reter um estatuto obscuro o suficiente para, à entrada para a terceira década do século XX, poder ser considerado Esquecido Pela Net.


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Frente e verso da capa do álbum


É o caso do volume que hoje apresentamos, uma publicação de 1990 que leva o tão descritivo quanto anónimo título de 'Álbum Disney - Mickey' - uma designação genérica o suficiente para dificultar (e muito!) a procura de informação sobre ele na Internet, especialmente dada a quantidade de colecções diferentes lançadas ao longo dos anos, precisamente com o mesmo título, algumas das quais já aqui abordadas. Este 'Álbum Disney´ nada tem a ver com qualquer delas, sendo (tanto quanto podemos aferir) uma entidade única, e uma experiência nunca repetida pela Abril - o que talvez ajude a explicar o seu estatuto obscuro no panorama da banda desenhada nacional.


Seja qual for o motivo para a sua situação actual, o certo é que este álbum não merecia tal fado, dado tratar-se não só de uma experiência válida, mas também de uma aquisição indispensável para qualquer interessado na História da banda desenhada, tanto da Disney quanto em geral. Isto porque, ao contrário de outras edições especiais da Abril (como os álbuns criados em exclusivo para uma promoção da Nestlé) o livro não apresenta qualquer história (à época) contemporãnea do protagonista, assumindo, logo desde a capa, a sua intenção de servir como veiculo para a publicação em Portugal de histórias clássicas de Mickey e companhia - no verdadeiro sentido da palavra, já que a totalidade do material contido nas suas páginas foi publicado quase sessenta anos antes da edição do próprio álbum, na década de 1930!


De facto - de acordo com as curtas mas informativas notas presentes no início e a meio do livro - as quatro histórias (mais uma mão-cheia de 'tiras') que perfazem esta obscura publicação começaram por surgir, em formato serializado, nos jornais em que as histórias de Mickey eram publicadas, entre 1932 e 1938; e apesar de, aqui, surgirem em formato 'corrido', é ainda bastante evidente onde cada porção originalmente acabava.


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Uma página de 'O Covil de Wolf Barker', demonstrativa do estilo de Floyd Gottfredson (esquerda) e o frontispício e página de notas de 'Hoppy, o Canguru' (centro e direita).


Nada, no entanto, que diminua a experiência de ler estas 'pérolas', a maioria da autoria de Floyd Gottfredson, um dos mais lendários artistas dos primeiros tempos do estúdio, Da pura aventura de 'O Covil de Wolf Barker' (cujo enredo caberia perfeitamente numa revista Mickey dos anos 80 ou 90) à comédia de 'Os Sobrinhos do Mickey' e 'Hoppy, o Canguru' (ambos também adaptados para desenho animado) há neste livro material para satisfazer todos os gostos, sempre com o atractivo extra do contexto histórico, que torna a leitura ainda mais prazerosa para qualquer conhecedor de BD.


Fica, pois, claro, que este 'Álbum Disney' não merece, de todo, o esquecimento a que foi (seja pela sua raridade, pelo título excessivamente genérico, ou por qualquer outro motivo) vetado; e embora se afigure praticamente impossível encontrá-lo à venda hoje em dia, vale bem a pena a qualquer apreciador da era de ouro da banda desenhada Disney o esforço extra para tentar adquiri-lo - quanto mais não seja, pelo valor histórico que apresenta...

Wednesday, 16 February 2022

Quartas aos Quadradinhos: Os Álbuns de Capa Dura da Disney e Nestlé

NOTA: Esta é a versão expandida deste post, que foi inicialmente publicado com bastante menos dados, e um texto mais vago. 


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Às vezes, há coisas assim. Uma editora quase monopolista de um determinado sector decide editar algo um pouco mais elaborado e sofisticado, de modo a assinalar um marco, e essa obra, em vez de se tornar um estandarte do seu catálogo, cai quase totalmente no esquecimento, largamente ofuscada na memória colectiva por edições bem mais corriqueiras e banais.


É, precisamente, essa a situação em que se encontram dois livros de capa dura lançados pela Editora Abril em 1992, em exclusivo para a Nestlé, presume-se como parte de uma qualquer promoção.


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E dizemos 'presume-se' porque, à parte UMA ÚNICA fotografia oriunda de um leilão actualmente activo no OLX, não existem quaisquer informações sobre estes dois livros na Net. Rigorosamente NADA. Se o volume centrado no Rato Mickey não sobrevivesse, ainda hoje, na estante lá de casa, não teríamos ficado a saber da sua existência, nem do contexto em que foi publicado. Assim sendo, podemos, pelo menos, falar – ainda que MUITO brevemente – sobre esse volume e o seu congénere, respeitante ao outro personagem principal das BD's Disney da época, o Pato Donald.


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As únicas informações sobre os volumes encontram-se na secção de detalhes técnicos no interior da primeira página


Tendo como título, tão-somente, o nome do personagem que focam (o que, convenhamos, também não ajuda à pesquisa) os mesmos apresentam capas que sugerem um clima de festa, com Donald e Mickey vestidos com roupas 'radicais', bem na moda para o período em causa, sobre um fundo de serpentinas. A apresentação é, aliás, toda ela luxuosa: tratam-se de álbuns de capa dura e lombada grossa, que, caso tivessem estado disponíveis nas bancas, teriam sem dúvida tido um preço de revenda elevado.


Os conteúdos, esses – pelo menos no respeitante ao volume constante da nossa colecção –pouco têm, infelizmente, de especial. Àparte a apresentação cuidada e o formato cartonado, de livro 'a sério', estas duas obras em nada diferem da comum revista de BD Disney comercializada pela própria Abril à época, podendo perfeitamente ter sido comercializados como um dos volumes do Hiper Disney ou Show Disney sem que se tivesse notado grande diferença. Isto porque nem as habituais secções inerentes a livros deste tipo – como resumos da história dos personagens, cronologias, etc. - se encontram presentes em qualquer dos dois tomos, que apresentam a primeira história logo a seguir à folha de capa, e a última logo antes da habitual folha em branco das costas – exactamente como se de uma publicação semanal normal se tratasse. O aspecto exterior tem, pois, uma função puramente estética, fazendo com que estes livros pareçam algo especial e exclusivo, e que valha a pena porfiar para conseguir no contexto desta promoção; e, nesse aspecto, há que admitir que os mesmos são bem sucedidos.


Quanto à raridade (ou não) das histórias incluídas em cada volume, não nos podemos, infelizmente, pronunciar – para nós, em criança, tratavam-se de escolhas perfeitamente vulgares, mas é bem possível que tal não seja, necessariamente, o caso, ganhando assim estes livos um atractivo adicional à aquisição. Sem esse chamariz, no entanto, a mesma apenas é justificada pelas capas muito bem conseguidas, e que sem dúvida se integram muito bem na colecção de qualquer aficionado de banda desenhada; de resto, não é difícil perceber porque, num Portugal que ainda compra, vende e troca em larga escala as revistas Disney publicadas pela Abril - especialmente as mais raras, como é o caso - estes dois volumes constituam, até agora, o melhor exemplo de um produto verdadeiramente Esquecido pela Net...


 

Wednesday, 18 August 2021

Quartas de Quase Tudo: Os Clubes de Jovens dos Anos 90

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


…como é o caso dos clubes de jovens.


Os anos 80 e 90 foram palco de um estranho fenómeno, criado por certas entidades comerciais e culturais como forma de aliciar o público infanto-juvenil: os chamados ‘Clubes de Jovens’.E se em décadas anteriores, esta denominação tinha já sido usada para designar literais espaços onde os jovens se podiam reunir e passar os tempos livres, nestas duas décadas, a expressão passou a ser usada para designar um conceito mais abstracto, mas não menos bem-sucedido junto do público-alvo.


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Quem nunca viu esta publicidade na sua revista favorita?


Existentes para entidades tão diversas quanto editoras e supermercados, estes Clubes tendiam, ‘grosso modo’, a ter o mesmo modelo: as crianças inscreviam-se, mandavam certos dados pessoais, e passavam a fazer parte de uma lista que recebia em casa, em exclusivo e de forma periódica, brindes e outras ofertas alusivas à temática do Clube. Estes brindes consistiam, normalmente, de uma revista (de conteúdo mais ou menos interessante, mas normalmente mais cuidada do que a natureza promocional poderia fazer adivinhar) e pequenas ‘quinquilharias’ que pouco custavam a produzir e que, simultaneamente, faziam a alegria das crianças médias da época, como autocolantes.


Exemplos destes clubes eram inúmeros, começando logo nos anos 80 com o Clube Amigos Disney (este de molde um pouco diferente, suportado por um programa de televisão e mais focado em ajudar as crianças a completar as suas colecções de revistas aos quadradinhos) e expandindo-se, na década seguinte, para entidades como o Clube Rik e Rok (associado à cadeia de hipermercados Jumbo, hoje Auchan) e o Clube Caminho Fantástico, que fazia verdadeiramente jus ao seu nome, e que adquiriu estatuto de inesquecível junto de  uma ‘fatia’ específica da população jovem, muito graças aos seus fabulosos Almanaques anuais, recheados de jogos, passatempos, receitas e curiosidades, a maioria submetida pelos próprios leitores. E como estes três – os exemplos mais imediatos, sobretudo por os dois últimos serem usufruídos lá por casa – haveria muitos mais, todos sensivelmente com o mesmo ‘modus operandi’, e todos com o seu público cativo – afinal, qual é a criança que não gosta de receber coisas pelo correio, sobretudo quando lhe são relevantes e totalmente gratuitas?


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Um dos fantásticos almanaques anuais do clube da Caminho


Infelizmente, este foi mais um daqueles conceitos que a era da Internet veio tornar obsoletos – hoje em dia, os passatempos, promoções e até artigos que anteriormente sairiam na simbólica revista tendem a estar disponíveis online, tornando redundante todo o processo de inscrição e espera pelo próximo envelope recheado de coisas interessantes. Uma pena, pois – como os leitores deste blog certamente concordarão – tratava-se de um conceito apelativo, e que seria hoje visto como uma excelente manobra de ‘marketing’, por permitir a fidelização de uma demografia de grande interesse para a maioria das marcas, a um custo muitas vezes negligenciável. Mas quem sabe? Talvez nesta era das redes sociais, alguém resolva reviver o conceito, adaptando-o ao século XXI e às novas tecnologias digitais; afinal, nem seriam precisas assim tantas mudanças, e o custo seria ainda mais baixo, dado já não ser necessário produzir conteúdos físicos para justificar a inscrição. Empresários – fica a dica…

Wednesday, 14 July 2021

Quartas aos Quadradinhos: O Suplemento de Banda Desenhada Disney do Jornal Expresso

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Depois de termos feito das revistas Disney da Abril Morumbi o tema de uma das primeiras edições das Quartas aos Quadradinhos, voltamos hoje a falar dos mais famosos personagens de banda desenhada de sempre, desta vez para abordar um tema que, na altura, abordámos mas não aprofundámos: a presença dos mesmos em contextos externos ao das revistas que periodicamente chegavam às bancas.


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O primeiro fascículo do suplemento, datado de 1991


Especificamente, vamos hoje falar do singelamente chamado ‘suplemento Expresso Abril Jovem’, uma adição auto-explicativa ao popular semanário durante a primeira metade dos anos 90, e que, como o nome indica, almejava trazer a banda desenhada da Disney a um público (ainda) mais alargado, que talvez não prestasse atenção à secção de BD do quiosque ou papelaria local, mas que potencialmente se interessaria se as histórias viessem inseridas no seu jornal do costume.


A verdade é que, qualquer que fosse a motivação por trás desta iniciativa, a mesma resultou em cheio; a inserção destes fascículos no semanário de referência em Portugal não só dava aos mais jovens algo para ler enquanto os pais assimilavam o jornal em si, mas também lhes dava uma razão para convencerem os pais a tornar a compra do mesmo regular, caso ainda não o fosse – afinal, uma iniciativa deste tipo não pode deixar de apelar à vertente ‘coleccionista’ inata a todas as crianças.


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Uma edição comemorativa do aniversário da Gibiteca, com o popular personagem Biquinho


Quanto às histórias incluídas nestes fascículos, em nada diferiam das que se podiam encontrar, semanal ou quinzenalmente, nas revistas publicadas nas bancas. Não havia, aqui, lugar à publicação de histórias mais clássicas ou raras – eram, pura e simplesmente, as típicas histórias Disney que todos conheciam e de que todos gostavam. E se, de uma perspectiva adulta, esta característica pode parecer algo desapontante, a verdade é que as crianças da época não lhe atribuíram tanta importância; afinal, o que interessava era ter que ler, e que de preferência não fosse repetido…


Com ou sem novidades, no entanto, a verdade é que este suplemento foi popular o suficiente para continuar a formar parte integrante do semanário durante vários anos; no entanto, a sua natureza algo simplista fez, também, com que acabasse por desaparecer sem grande alarido, e sem que muita gente se desse conta. Ainda assim, uma iniciativa louvável, e que abriu caminho a outras (e ainda melhores) iniciativas conjuntas entre jornais e editoras de banda desenhada, nas décadas seguintes. Só isso já justificaria a existência deste suplemento – isto, claro, se mais justificações fossem necessárias…

Wednesday, 16 June 2021

Quartas aos Quadradinhos: Especial Europeu - Os Maiores Fanáticos da 'Bola' da BD

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


As bandas desenhadas com temática futebolística são tudo menos comuns – e nos anos 90, ainda menos o eram. Se a década de 70 havia tido Sport Billy, a de 80 Pelezinho, e o novo milénio viria a ter Ronaldinho Gaúcho e Neymar (estas três últimas da Mauricio de Sousa Produções, ‘especialista’ neste tipo de história) os anos 90 não viram ser editado qualquer título alusivo a esta temática, pelo menos que chegasse a Portugal. Nem mesmo a BD franco-belga ajudava, estando os heróis da mesma mais virados para aventuras do que para competições desportivas (e quando competiam, era em desportos como a corrida, como era o caso com Michel Vaillant.)


Num post em que se pretende falar de revistas aos quadradinhos dos anos 90 e, ao mesmo tempo, fazer alusão ao Campeonato Europeu que ora se desenrola – ou, pelo menos, a futebol em geral – é, portanto, mesmo preciso puxar pela imaginação; felizmente, imaginação é coisa que não falta por aqui – e, como tal, conseguimos mesmo arranjar maneira de ligar estes dois temas, falando dos dois maiores apaixonados pelo desporto-rei daquela época.


Situados em lados opostos da barreira Disney/Mauricio de Sousa que dividiu e continua a dividir a BD brasileira, estes dois personagens personificam o fanatismo brasileiro por futebol, o qual rivaliza ou até supera o do continente europeu; assim, numa semana em que nos debruçamos sobre o futebol nas suas mais diversas formas, nada mais justo do que prestar-lhes a devida homenagem.


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E começamos, desde logo, pelo representante da Disney – nada mais, nada menos do que o personagem mais declaradamente brasileiro do seu elenco, Zé Carioca, o qual, depois de as suas histórias terem sido definitivamente e exclusivamente centralizadas nos estúdios brasileiros da Disney, passou a aparecer frequentemente ‘trajado a rigor’ com o uniforme cor-de-rosa da equipa do seu bairro, o Vila Xurupita F. C., no qual actua como ponta-de-lança e goleador. De igual modo, várias das histórias do personagem passaram a ter como tema central o futebol, e as agruras do ‘time’ amador de Zé, Pedrão, Nestor, Afonsinho e companhia – o qual, apesar de não ser lá grande ‘espingarda’, chegou a ter oportunidade de enfrentar o Flamengo (equipa do coração de Zé) num jogo beneficente, numa história muito bem conseguida.


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Uma das edições especiais de Zé Carioca alusivas ao Mundial de Futebol, esta lançada nos anos 90


A paixão de Zé pela ‘bola’ estende-se, no entanto, para lá dos limites do terreno de jogo, sendo que quando não está em campo, o papagaio é muitas vezes visto a ‘sofrer’ em frente à televisão, já que dinheiro para ir ao estádio, raramente existe (sendo as excepções as vezes em que consegue assistir ao vivo a um Campeonato do Mundo, em edições especiais temáticas.)  Enfim, um ‘adepto-modelo’, com o qual muitos de nós certamente se identificavam e identificarão.


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O mesmo, aliás, pode ser dito do seu congénere do outro lado da ‘barricada’ (e do eixo Rio-São Paulo), o igualmente fanático Cascão. E se Zé Carioca representa o adepto adulto, ainda que irresponsável, Cascão representa a criança que todos fomos, ou pelo menos, contra quem todos jogámos – aquele ‘puto’ que tinha jeito para a ‘bola’, ‘levava tudo à frente’, driblava meia equipa e marcava grandes golaços. É precisamente isto que vemos Cascão fazer na maioria das histórias em que o vemos jogar futebol, e mesmo os amigos não têm qualquer pejo em o considerar a ‘estrela’ das suas ‘peladinhas’ – em contraste directo com o melhor amigo Cebolinha, que é considerado ‘grosso’ (‘tosco’). Este chegou, mesmo, a ser o tema central e único de não uma, mas duas publicações da MSP,, uma ainda nos anos 90 e outra mais recente.


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A edição temática sobre futebol lançada nos anos 90, com Cascão como protagonista


Tal como com Zé Carioca, no entanto, a paixão de Cascão extravasa os jogos de rua com os amigos; ‘doente’ pelo Corinthians, por quem sonha um dia jogar, o ‘sujinho’ da MSP é muitas vezes visto com a camisola do ‘Timão’ orgulhosamente envergada, e chega mesmo a acompanhar o pai a jogos do seu clube do coração, durante os quais vibra incessantemente. Mais uma vez, quem não se identificar, que atire a primeira pedra…


Em suma, apesar de não residirem na Europa nem terem sido criados por artistas europeus, estes dois personagens simbolizam de tal forma a paixão global e internacional por futebol, que acabam por se encaixar perfeitamente nesta semana especial europeia; porque se a presente competição fosse um campeonato mundial em que o Brasil participasse, podem crer que os dois estariam lá, na primeira fila, lado a lado, vestidos a rigor, e a fazer a festa…

Thursday, 27 May 2021

Quintas ao Quilo: Salteadores dos Cereais Perdidos

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Os cereais de pequeno-almoço fizeram, fazem e provavelmente continuarão a fazer parte da experiência de ser criança. Parte integrante de muitos pequenos-almoços durante os anos formativos, estes produtos apresentam a combinação perfeita entre sabor apelativo, brindes ainda mais apelativos, e uma composição suficientemente ‘no limiar’ da comida saudável para justificar o consumo repetido sem muita insistência junto dos pais. Quer sejam comidos a seco, postos no leite, ou postos na tigela para depois se deitar o leite por cima (por aqui, ainda hoje se opta pela segunda opção), os cereais são daquelas coisas que provavelmente nunca vão desaparecer, ou sequer decrescer em popularidade.


Isto não significa, no entanto, que ‘de quando em vez’ não haja cereais que fiquem para trás na grande corrida às prateleiras. Embora a maioria dos nossos favoritos da infância continuem bem presentes em qualquer superfície comercial, dos básicos Corn Flakes aos Frosties (basicamente a mesma coisa, mas com o açúcar adicionado de antemão, e mascote ‘à maneira’), Estrelitas ou Nesquik, a verdade é que houve mesmo tipos de cereal que foram retirados do mercado – alguns, inclusivamente, na época a que este blog diz respeito. O post de hoje recorda, precisamente, esses cereais que, nos anos 90, faziam as delícias da miudagem, mas que hoje se encontram total ou parcialmente defuntos – curiosamente, todos comercializados pela Nestlé, que se pode considerar ter tido algum ‘azar’ nesse capítulo na década em causa.


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O primeiro exemplo deste fenómeno a ter lugar durante o nosso tempo de vida passou-se com as Crépitas, criadas e comercializadas pela Nestlé nos anos 80, e que desapareceram das prateleiras, sem grande alarido, mais ou menos a meio da década seguinte, deixando pouco ou nenhum rasto. Embora não fosse o cereal preferido de ninguém, as Crépitas constituíam uma escolha relativamente ‘sólida’ quando não se queriam levantar muitas ‘ondas’ com os pais, e terá decerto havido quem lhes tivesse sentido a falta.


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Uma caixa norte-americana contemporânea, e semelhante, à disponível em Portugal


Ainda no início da década, um cereal de caixa vermelho-berrante, também da Nestlé, trazia para as prateleiras portuguesas um conceito irresistível, importado dos Estados Unidos: ‘marshmallows’ multi-coloridos misturados nos cereais de todos os dias. Com uma proposta de valor destas, não admira que os Lucky Charms tenham feito sucesso entre os jovens daquele tempo…!


No entanto, a dada altura, estes cereais desapareceram mesmo de circulação, sem qualquer pré-aviso, obrigando os seus muitos e desconsolados fãs a procurarem uma nova alternativa para a sua refeição da manhã. A alegada razão para esta remoção (a qual, aliás, teve efeito a nível mundial) seria o elevado teor de açúcar dos ‘marshmallows’, que ficava acima dos limites internacionais para alimentos deste tipo; problema esse que, nos anos intervenientes, terá sido devidamente sanado, visto os Lucky Charms terem regressado às prateleiras - pelo menos às americanas. Em Portugal (bem como em outros países, como o Reino Unido) estes cereais continuam a só estar disponíveis em lojas de importação, a preços absolutamente exorbitantes, e certamente proibitivos para aquele que costumava ser o seu público-alvo; já aqueles que, entretanto, cresceram e adquiriram poder de compra, até podem achar graça a dar 7 euros por uma caixa de cereais da sua infância, mas não será certamente uma experiência a repetir todas as semanas…


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Mas se os Lucky Charms regressaram (ainda que em locais específicos, e muito mais caros), outro cereal líder de vendas na década de 90 foi mesmo vítima de extinção total e completa. ‘Patrocinado’, pelo menos em Portugal, pelos sobrinhos do Pato Donald (numa inusitada parceria entre a Nestlé e a Disney) o saudoso Trio foi, como os Lucky Charms, vítima das normas que decretavam uma redução no nível de açúcar dos cereais infantis. Ao contrário do que aconteceu com os cereais do duende Lucky, no entanto, a Nestlé não parece ter arranjado maneira de sanar ESTE problema – até porque o próprio conceito do cereal tornava essa missão praticamente impossível. Ao contrário dos pedaços açucarados localizados e em número limitado dos Lucky Charms, no caso do Trio, os corantes e adoçantes eram aplicados aos próprios grãos do cereal, que surgiam em três cores (e sabores) diferentes – caramelo, mel e baunilha (daí o nome Trio, e o memorável slogan, em que um coro de crianças cantava os três sabores). Pequenas ‘bombas’ de açúcar concentrado, portanto – embora deliciosas quando posta dentro do leite, o qual tingiam com uma pálida tonalidade decorrente da mistura das três cores dos cereais. Talvez o mais saudoso dos três cereais aqui apresentados, mas também aquele cuja extinção é mais fácil de compreender e justificar.


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Dos três cereais mostrados neste anúncio de meados da década de 90, só um ainda está disponível nos dias de hoje...


O Trio foi, no entanto, a última grande perda no campo dos cereais de pequeno-almoço em Portugal; desde o seu desaparecimento, há já quase duas décadas, o leque de escolhas dos consumidores portugueses neste campo tem-se mantido mais ou menos imutável, com as mesmas gamas perenes que já existiam quando os cereais acima relembrados desapareceram. Ao contrário dos EUA, onde cada nova ‘febre’ cultural vem acompanhada de um cereal a condizer, neste país de brandos costumes à beira-mar plantado, ficamos perfeitamente satisfeitos com os nossos Chocapic e Nesquik, Estrelitas e Cheerios, Clusters, Golden Grahams, Corn Flakes e Special K. Ainda assim, vale a pena relembrar que, embora incomum, o fenómeno de desaparecimento de cereais das prateleiras não é, de todo, inédito – e pode ainda dar-se o caso de a geração actual ficar, de um dia para o outro, sem um dos seus pequenos-almoços favoritos. Nós sabemos – passámos pelo mesmo…

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...