Em
Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais
marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção
real.
Já
aqui por várias vezes falámos da era de ouro que a comédia
televisiva portuguesa atravessava na segunda metade dos anos 90,
sendo muitas e boas as opções disponíveis para fãs de humor. Há
quase exactos trinta anos (a 15 de Julho de 1996) a oferta neste
campo tornava-se ainda mais vasta, com a estreia na SIC de mais uma
das dezenas de séries humorísticas com elencos consagrados e
premissas prometedoras que, apesar de acabarem por não passar de uma
única temporada, chegavam ainda assim a conseguir entreter quem as
sintonizava.
Falamos,
neste caso, de 'Sai da Minha Vida', proposta encabeçada por Miguel Guilherme e RitaBlanco, no papel de um casal divorciado (décadas
antes de 'serem casados' em 'Conta-me Como Foi') cujas desavenças e
peripécias servem de 'motor' para os catorze episódios exibidos.
Como coadjuvantes – e como era apanágio deste tipo de emissão –
surgem uma série de nomes de 'luxo' do humor português da época,
como RitaSalema, Luís Aleluia (a poucos meses de se 'transformar'
no icónico 'Tonecas') e Adriano Luz, os quais ajudam a configurar
uma proposta bem típica do período televisivo português em causa,
e que, sem ser tão lembrado como outros programas da mesma época
(como o referido 'Tonecas' ou 'Malucos do Riso') merece, ainda assim,
uma breve 'chamada' nas páginas deste nosso blog, uma semana após
se completarem três décadas sobre a sua primeira emissão.
Porque
nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças
portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá
destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante
aquela década.
Mesmo
em meados dos anos 90, a carreira de HermanJosé
já dispensava apresentações; com, à época, mais de uma década
de presença assídua na televisão e teatro portugueses (primeiro
como actorcómico e, mais tarde, também como apresentadordevariedades) o carismático luso-alemão era já 'companhia' apreciada
nas tardes da grande maioria dos portugueses. Não é, pois, de
admirar que, em 1996, aquela que até então havia sido a sua
emissora de sempre lhe decidisse prestar homenagem, sob a forma de um
programa retrospectivo da sua carreira, que se haveria de chamar
'Herman Total'.
Capa da compilação em VHS.
Estreado
há exactos trinta anos – em Maio de 1996 – 'Herman Total'
distinguia-se das habituais produções com o nome do humorista
associado pelo seu cariz documental. De facto, apesar de as rábulas
e 'sketches' de Herman marcarem presença (algo inevitável para um
programa associado ao humorista) as mesmas serviam propósitos
puramente 'de arquivo', surgindo entremeadas com entrevistas a
figuras ligadas a Herman e números musicais regravados por artistas
como Rui Veloso ou Pedro Abrunhosa, naquela que era uma tentativa
declarada (e bem sucedida) de homenagear o humorista luso-alemão
através de uma montagem dos seus melhores e mais icónicos momentos.
Os
esforços da RTP não se ficariam, no entanto, pela mera exibição
deste trabalho na sua grelha, sendo que, três anos depois (já ao
cair do pano do Segundo Milénio) a emissora, em parceria com a
Lusomundo, lançaria o programa em formato VHS, espalhado por um
total de quatro volumes, ajudando assim a preservar e eternizar
fisicamente a memória não só do trabalho, como da carreira do seu
protagonista até então. Quanto a Herman, a sua carreira
prosseguiria de vento em popa, podendo o mesmo ser, até hoje, visto
nos ecrãs nacionais, precisamente com o mesmo tipo de presença,
material e relação com o público-alvo que mantém há quase
cinquenta anos; oportunidade perfeita, talvez, para 'actualizar' a
homenagem de 1996 e, três décadas depois, efectivar uma segunda
série de 'Herman Total'?
Em
Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais
marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção
real.
A
comédia inglesa das décadas de 70 e 80 – a
chamada 'Britcom' – é ainda hoje tida como um dos melhores
exemplos de sempre de como escrever séries de humor para televisão,
não sendo, pois, de admirar que um sem-número de programas desse
movimento tenha servido de inspiração para adaptações localizadas
em outros países. Portugal não foi excepção nesse sentido, tendo
sido váriosos exemplos de 'Britcoms' 'aportuguesadas' a passar na
televisão portuguesa durante as décadas de 80 e 90 – como é o
caso da série que focamos esta Segunda-feira, quase exactos trinta
anos após a sua estreia na SIC.
Era,
de facto, a 17 de Maio de 1996 que pela primeira vez ia ao ar 'Pensão
Estrela', a versão lusitana da inglesa 'Rising Damp', sobre um grupo
de habitantes de uma pensão, e as peripécias em que os mesmos se
envolvem – um tema, curiosamente, já explorado em várias outras
sériesnacionais da mesma década, mas que continuava
a dar 'pano para mangas' no tocante a situações humorísticas. E,
como era apanágio das comédias televisivas da época, também esta
'Pensão' contava com uma lista de 'hóspedes' de luxo, tendo à
cabeça José Raposo (no papel do senhorio com o mesmo apelido) e
como inquilinos Ana Bustorff, Ângelo Torres e Marco Horácio, com
suporte a surgir da parte de veteranos como Adriano Luz, Carla
Andrino ou Helena Laureano, entre outros actores bem 'versados' na
arte de fazer rir.
Apesar
destes consideráveis argumentos, no entanto, 'Pensão Estrela'
acabou por não se afirmar tão memorável quanto outras séries do
mesmo tipo, tendo-se 'perdido' entre a vasta oferta da época e
encontrando-se, hoje, algo 'Esquecida Pela Net', com apenas a sinopse
e alguns dados técnicos a estarem disponíveis em páginas online
(e, por vezes, incorrectos, com uma fonte a apontar a série como
tendo passado em 1995) e nem sequer um breve trecho disponível no YouTube. Ainda assim, para fãs de comédias
situacionais que queiram ver um 'Fawlty Towers' à portuguesa, esta poderá
ser mais uma boa proposta para recordar numa tarde chuvosa em que
bata mais a 'nostalgia'...
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década
Os programas de humor estavam entre os mais populares e bem-sucedidos das décadas de 80, 90 e 2000 – e, destes, grande parte tinha como formato uma sucessão de 'sketches' não relacionados entre si, normalmente vividos por uma série de personagens recorrentes. E se, no Novo Milénio, o grande exemplo deste tipo de emissão seria o ainda hoje histórico 'Gato Fedorento', na década de 90, a honra de líder de audiências dividiu-se entre dois programas concorrentes: a 'Herman Enciclopédia', da RTP, e o programa que abordamos neste 'post', cerca de um mês após se terem celebrado os trinta anos sobre a sua estreia.
Era a 1 de Setembro de 1995 que a SIC transmitia, pela primeira vez, um episódio daquele que se viria a tornar, durante a década subsequente, um dos seus programas-estandartes, e pôr tanto crianças como adultos de Norte a Sul do País a repetir dichotes e imitar personagens por si veiculadas, e criadas por um veterano da comédia nacional, GuilhermeLeite, cuja carreira o havia ajudado a perceber exactamente o que agradava ao público nacional. 'Malucos do Riso' apostava, assim, num estilo de humor popular e brejeiro, mais próximo do anedotário popular ou teatro de revista do que das piadas mais subtis e baseadas na personalidade de cada figurino propostas pela 'Enciclopédia' de HermanJosé. O resultado não podia ser outro que não a adesão quase total de certos segmentos da sociedade portuguesa, com destaque para as crianças e membros da classe trabalhadora, a quem o humor simples, quotidiano e ligeiramente 'maroto' nunca deixava de agradar.
Alguns dos muitos personagens memoráveis do programa.
Não é, assim, de admirar que 'Malucos do Riso' se tenha, eventualmente, afirmado como um dos programas de entretenimento mais longevos da SIC, completando uma década no ar com a fórmula praticamente inalterada. Seria apenas já em meados da primeira década do Novo Milénio, que este bastião da estação de Carnaxide viria a sair do ar – embora durante pouco tempo, já que não passariam mais de quatro anos até 'Novos Malucos do Riso' procurar continuar o legado deixado pelo original. E apesar de esta segunda tentativa ter ficado longe do sucesso da original – num panorama televisivo já algo diferente em termos de sensibilidades e interesses do público-alvo – os 'Malucos' originais continuam, até hoje, a afirmar-se como um dos clássicos mais absolutos e indeléveis das mais de três décadas de História da SIC, merecendo bem esta homenagem (ainda que um pouco atrasada) por altura do seu trigésimo aniversário. E para quem quiser recordar, fica abaixo um compêndio completo da série, com quase NOVE HORAS de duração - embora, claro, não se recomende a visualização toda de uma vez...
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
Um dos fenómenos sociais mais pervasivos das últimas cinco décadas em Portugal – sensivelmente desde a globalização dos televisores caseiros – vem sendo a miscigenação da cultura portuguesa com a brasileira, não só através da imigração, como também da importação de produtos mediáticos daquele País. E se, hoje em dia, esse cruzamento se limita às eternas telenovelas, a um ou outro canal da TV Cabo e às revistas da Turma da Mônica, há trinta anos, o panorama de propriedades intelectuais brasileiras presentes em Portugal era bem mais vasto, com as referidas telenovelas e as bandas desenhadas daAbril e Globo à cabeça. E terá sido, precisamente, através das referidas bandas desenhadas que uma larga parcela da população nacional terá tido o primeiro contacto com um dos mais famosos produtos mediáticos saídos do país-irmão – a 'troupe' de comediantes conhecida como Os Trapalhões.
E se a referida BD da Globo tinha como foco versões infantis do quarteto, não tardaria também a que as crianças e jovens daquela época ficassem a conhecer os 'verdadeiros' Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, quando – há quase exactos trinta e um anos, em Março de 1994 – o seu programa, lendário no Brasil, chegou finalmente aos televisores nacionais, pela mão da SIC. E a verdade é que, previsivelmente, a inspirada colecção de 'sketches' cómicos de índole 'pastelona' (com alguns dichotes brejeiros à mistura) não tardou a conquistar o público-alvo, sempre aberto a tentativas de humor deste tipo – sobretudo quando se afirmavam como bem acima da média, como era o caso. Sem nunca se terem tornado um 'caso de estudo' de popularidade, como o eram no seu país natal, Os Trapalhões encontravam, assim, em Portugal uma audiência suficientemente devota e fiel para justificar a 'aventura' inédita que o quarteto encetaria logo no ano seguinte, e sobre cuja estreia se comemoram por estes dias exactas três décadas.
Falamos de 'Os Trapalhões em Portugal', a produção nacional (da própria SIC) que procurava recuperar o formato de sucesso do programa original, ao mesmo tempo que o ambientava por terras lusitanas, com os Trapalhões ainda restantes – Didi e Dedé – a contracenarem com coadjuvantes com sotaque português, em cenas típicas da vida quotidiana nacional. Uma ideia que poderia ter resultado – e que, sob algumas métricas, resultou mesmo, já que o programa fez tanto sucesso quanto o seu antecessor – mas que perdia consideravelmente pela ausência da 'outra metade' do grupo, a saber, os malogrados Mussum e Zacarias, que muitos consideravam serem as principais fontes da comédia do grupo. Com apenas Didi como verdadeiro Trapalhão (Dedé sempre desempenhou o papel de elemento mais sério do grupo) e com a presença de actores portugueses a ressalvar a diferença de abordagem e desempenho em relação aos brasileiros, o resultado era um produto algo menos fluido, e mais 'bem-comportado', do que o hilariante original da Globo.
Ainda assim, conforme referimos acima, 'Trapalhões em Portugal' chegou a fazer sucesso entre a juventude lusitana da época, e será ainda recordado por parte dela como um dos elementos nostálgicos da sua infância ou adolescência, merecendo assim destaque nestas nossas páginas no mês em que se completam trinta anos sobre a sua primeira emissão.
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
De todas as personalidades televisivas portuguesas, Herman José talvez tenha sido a que mais 'peles' encarnou ao longo das suas já cinco décadas de carreira. De humorista de 'vanguarda', o luso-alemão passou, em inícios da década de 90, a ícone dos concursos e entretenimento, ao mesmo tempo que, à margem destas duas facetas, continuava a cultivar uma terceira, que se lhes sobrepunha: a de 'cara' oficial das passagens de ano portuguesas.
De facto mesmo após as 'novatas' SIC e TVI terem tentado introduzir alternativas próprias para ter no ecrã aquando das doze badaladas, continuava a ser com Herman que os portugueses preferiam passar a meia-noite, fosse num formato mais típico - como as edições de fim-de-ano dos seus programasregulares - fosse através da vertente favorita do artista, ou seja, o humor puro e duro. Foi, aliás, neste último registo que o luso-alemão criou dois dos mais memoráveis especiais de fim-de-ano de sempre da TV portuguesa: 'Hermanias', em 1991/92, e, no ano anterior, o não menos memorável (bem como pioneiro) 'Crime Na Pensão Estrelinha'.
Concebido como paródia directa dos programas de detectives que continuam, até hoje, a fazer sucesso (ainda que seguindo os moldes vigentes na altura, estabelecidos por séries como 'Poirot'), o especial de duas horas e meia proposto pela RTP como acompanhamento do 'reveillon' de 1990/91 excedeu todas as expectativas, mantendo 'colada' ao ecrã uma parcela significativa da audiência televisiva portuguesa, e fazendo História no contexto dos especiais de fim-de-ano. Com o próprio Herman no papel de um óbvio 'boneco' de Hercule Poirot, o programa alternava a trama de mistério com 'sketches' humorísticos, bem ao estilo do que o seu criador fizera em 'O Tal Canal', na década transacta, e voltaria a fazer em 'Hermanias' e, mais tarde, 'Herman Enciclopédia'. O resultado foi uma emissão que, apesar do carácter híbrido e algo invulgar, resultou em cheio, tornando Herman na 'estrela' das passagens de ano' noventistas e criando, involuntariamente, o molde para o não menos mítico programa de 'reveillon' do ano seguinte.
Herman como Hércules Pirô, detective e personagem principal do especial.
Infelizmente, as passagens de ano subsequentes investiriam em formatos bem mais clássicos e menos inovadores - não obstante o sucesso de que haviam gozado esta 'Pensão Estrelinha' e as 'Hermanias' de 91 - facto que, aliado à ligeira alteração de carreira de Herman, significaria que o humorista raramente voltaria a ter ensejo de explorar a sua veia puramente cómica no contexto dos programas de 'reveillon' da década de 90. Ainda assim, o humorista luso-alemão tirou o máximo proveito das oportunidades que teve, criando dois absolutos clássicos das passagens de ano das gerações 'X' e 'millennial', ainda hoje eminentemente 'visíveis' e lembrados por todos os que, naqueles idos de 90, se deixaram embrenhar, juntamente com o detective Hércules Pirô, no mistério de quem havia assassinado o dono da Pensão Estrelinha...
A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.
Numa edição passada desta rubrica, falámos de Mafalda, uma das mais influentes personagens de banda desenhada das décadas de 70, 80 e 90. No entanto, apesar de a contestatária menina ter sido o principal contributo do seu criador, Quino, para a História desta forma de arte, a mesma esteve longe de ser a sua única criação de sucesso, tendo o mercado português sido testemunha de, pelo menos, mais uma: a colecção 'Humor Com Humor Se Paga', cujos últimos volumes completam, neste ano que ora finda, precisamente três décadas sobre a sua edição nacional.
Os três volumes da série editados nos anos 90
Iniciada ainda nos anos 70, e concluída vinte anos e trinta e seis volumes depois (tendo apenas os três últimos sido editados já nos anos 90), a colecção da Dom Quixote permitiu, aliás, a outros autores que não apenas Quino cimentar a sua marca na indústria portuguesa; Sempé, por exemplo (o co-criador do popular 'O Menino Nicolau' ao lado de René Goscinny, guionista de Astérix) teve direito a vários volumes, além de artistas menos conhecidos, mas dentro do mesmo estilo satírico e 'cartoonesco', como Coco e Palomo. No entanto, a esmagadora maioria dos tomos da colecção trazia, mesmo, autoria de Quino, servindo como uma introdução algo mais 'leve' que Mafalda ao seu inconfundível estilo, através de 'gags' de imagem única, bem ao estilo do que se podia encontrar em muitos jornais mundiais da altura, e declaradamente dirigidas a adultos, afastando assim parcialmente o público infantil que (talvez erroneamente) se afeiçoara e fidelizara à menina da bandolete e aos seus amigos.
Apesar de - por esse mesmo motvo - ser potencialmente menos nostálgico para a juventude portuguesa que a criação principal do desenhador argentino, ou que outros 'ilustres' como Calvin e Hobbes, a série em causa merece, ainda assim, destaque nestas nossas páginas, por alturas do trigésimo aniversário da sua conclusão, por constituir mais um dos inúmeros exemplos da 'era de ouro' dos 'cartoonistas' disponíveis no mercado português.
Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog..
...como é o caso da mudança de atitudes na sociedade.
Provavelmente, acabam de ofender vários grupos minoritários sem sequer o saberem...
Muito se fala, hoje em dia, do 'politicamente correcto', e do impacto (por vezes excessivo) que o cuidado (por vezes extremo) para não ofender vem tendo na vida quotidiana. Quer se goste ou não, a sociedade ocidental avançou consideravelmente, a nível de mentalidades, nos últimos trinta anos, e para se perceber isso basta lembrar as anedotas que todos contávamos no recreio da escola, ainda antes de a nossa idade atingir os dois dígitos, e que seriam, hoje, suficientes para nos 'cancelar' social e culturalmente.
Mais do que os próprios dichotes – contados, afinal de contas, por crianças – é a atitude indiferente e casual da sociedade de então em relação aos mesmos que verdadeiramente choca hoje em dia; ainda que pais ou professores pudessem repreender ou tentar corrigir quem era apanhado a contar esse tipo de anedotas, o próprio facto de elas existirem era olhado com naturalidade e descontracção pelo mundo 'adulto', não sendo o potencial ofensivo das mesmas tido em conta, excepto em contextos muito específicos (como a presença de um elemento de uma minoria étnica no momento em que a anedota era dita, por exemplo). Uma atitude que é, hoje em dia, diametralmente oposta - e ainda bem, pois fica aí demonstrado o crescimento exponencial da sociedade neste parãmetro específico.
Precisamente por este motivo, dificilmente ouviremos uma criança actual contar aos amigos da mesma idade este tipo de anedota; na verdade, até mesmo os adultos evitam dizê-las hoje em dia, por respeito a quem possa ser ofendido. No entanto, isso está longe de constituir um ponto a desfavor da sociedade do novo milénio – pelo contrário, pode ser considerado um dos casos em que o 'politicamente correcto' não só tem razão de ser, como beneficia activamente o 'clima' social quotidiano.
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
Quando se fala de humor feito em Portugal, pelo menos na era pré-Gato Fedorento, um nome se levanta acima de todos os outros: Herman José. Com carreira iniciada ainda no tempo do preto-e-branco, o actor e humorista (cuja carreira não dá, aliás, sinais de abrandar) atingiu o seu auge na década de 80, tendo explanado o seu humor entre o brejeiro e o satírico (e sempre no limiar do politicamente incorrecto) ao longo uma série de programas de enorme sucesso, como 'O Tal Canal' e 'Hermanias'; na década seguinte, no entanto, o luso-alemão sofreu uma inflexão na carreira, que o tornou conhecido, sobretudo, como apresentador de concursos e programas de variedades, entre os quais se destacam 'A Roda da Sorte' e 'Parabéns', dois programas de que paulatinamente aqui falaremos.
Já no final da referida década, no entanto, Herman sentiu o 'bichinho' da comédia (que nunca, verdadeiramente, o abandonara) 'morder' de novo, e não tardou a reunir novamente a sua posse de fiéis seguidores e cúmplices, com vista à criação de um novo programa de 'sketches' humorísticos, semelhante aos que o haviam notabilizado nos 'velhos tempos'; o que nem ele, nem ninguém poderia saber é que o mesmo se tornaria, aos olhos de muitos, não só o seu melhor programa, como um sério concorrente ao título de melhor programa de humor português de sempre.
Falamos, é claro, da mítica 'Herman Enciclopédia', sobre cuja estreia se celebrararam neste fim-de-semana pascal exactos vinte e cinco anos (foi ao ar pela primeir vez a 15 de Abril de 1997) mas que continua, de uma forma ou de outra, a influenciar o humor criado em território nacional até aos dias de hoje.
Larga porção dessa influência deve-se ao facto de a geração que hoje cria programas de humor ter crescido com Herman, e ter provavelmente passado uma grande parte da sua infância e adolescência a citar ou até imitar cenas da 'Enciclopédia'. De facto, a penetração do programa na cultura popular portuguesa de finais do século XX foi tal que até mesmo quem não via conhecia (e utilizava no dia-a-dia) todos os principais personagens e bordõe; do mítico Diácono Remédios, para quem nunca 'habia nexexidade, ze, ze' (e respectiva mãe, sexóloga liberal) à não menos lendária Super Tia e o seu 'caturreiraaaa!', passando pelos televendedores Mike e Melga, da MELGASHOP, para quem tudo era 'fantáááástico!' ou pelos 'pastiches' de Artur Albarran (vivido por José Pedro Gomes, e conhecido por iniciar cada segmento com as palavras 'a tragédia, o drama, o horror') ou Lauro António (Lauro Dérmio, sinónimo com a sugestão 'let's luque et da treila'), foram inúmeros os 'bonecos' introduzidos pela 'Enciclopédia' no imaginário popular, muitos dos quais ainda nostalgicamente recordados por quem assistiu 'em tempo real' ao seu aparecimento.
Diácono Remédios, provedor da 'Enciclopédia' e talvez o personagem mais popular de todos os introduzidos pelo programa.
Pode parecer incrível que um programa com este tipo de penetração e impacto cultural apenas tenha tido direito a duas temporadas, mas acredite-se ou não, foi esse o tempo de vida da 'Herman Enciclopédia' na televisão portuguesa; período talvez curto para uma emissão com o sucesso de que esta desfrutou, mas mais que suficiente para que, um quarto de século depois, toda uma geração retenha, ainda, memórias vívidas e nostálgicas das criações de Herman e seus asseclas, fazendo com que haja - ao contrário do que o Diácono Remédios poderia pensar - mesmo muita 'nexexidade' de prestar homenagem, por alturas do seu aniversário, a mais este marco da televisão portuguesa.
NOTA: Devido à relevância temporal específica do tema abordado no post de hoje, iremos excepcionalmente trocar a ordem das Terças Tecnológicas e Terças de TV. Os posts sobre tecnologia regressam no novo ano - para já, desfrutem deste post sobre um dos programas de passagem de ano mais marcantes dos anos 90.
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
Quem passou 'reveillons' e noites de passagem de ano em casa durante os anos 90 e 2000 (fosse por escolha ou por motivos de idade ou falta de pecúlio monetário), certamente se habituou a passá-las na companhia de Herman José. O humorista, que à época gozava de estatuto de figura maior no campo do entretenimento televisivo 'made in Portugal', conseguiu que a sua imagem ficasse, também, associada à produção televisiva específica para esta noite especial.
Esta associação,cimentada em anos subsequentes por espectáculos especiais das mais diversas índoles, teve a sua génese logo no início da década, altura em que Herman e a sua 'entourage' habitual (que ainda hoje mantém) lançaram aquele que é talvez a mais memorável de todas as produções de Ano Novo elaboradas pelo grupo: o inesquecível Especial de Ano Novo conhecido como Hermanias.
Com génese no programa semanal do mesmo nome, exibido em meados dos anos 80 mas já de há muito extinto à época desta transmissão em particular, o Hermanias Especial de Ano Novo (que completa nesta noite de fim de ano exactos 30 anos) reviveu o nome por apenas uma noite, associando-o a um programa de humor ao estilo 'sketch' bem característico do que Herman e companhia vinham apresentado à época, e apresentariam ao longo da década seguinte.
Utilizando um espectáculo de Tony Silva (o famoso personagem de 'entertainer' latino do humorista) como elo de ligação entre os diferentes 'sketches', que não partilham de outro modo qualquer contexto, Hermanias Especial de Ano Novo apresenta todos os personagens mais famosos criados por Herman até à data, como José Severino ou José Estebes, e continha muitos momentos memoráveis, como a rábula da poetisa (com Rosa Lobato de Faria a troçar de si própria de forma magnífica) ou um falso anúncio tão convincente que pôs este que vos escreve, do alto dos seus seis anos, a pedir para ir ver o suposto espectáculo anunciado, aparentemente dirigido a crianças mas na verdade...de strip-tease! Entre todos estes momentos, do calibre a que Herman e companhia haviam habituado os seus espectadores da época, as horas até à passagem de ano 'voaram', e foi quase com pesar que os referidos espectadores viram terminar aquele que foi um dos mais memoráveis espectáculos de fim de ano da década - e, para dizer a verdade, também desde então.
Infelizmente, e apesar de Herman José (conforme referido acima) ter apresentado vários outros espectáculos de 'reveillon' ao longo da época, o momento criado por 'Hermanias' não mais se viria a repetir - pelo contrário, Herman permaneceria afastado da escrita humorística durante grande parte da década, antes de efectuar um dos regressos mais memoráveis e marcantes da televisão portuguesa. Desse, no entanto, falaremos noutra ocasião; para já, fiquem com algumas amostras daquilo de que os espectadores puderam disfrutar na passagem de ano de 1991 para 1992...