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Saturday, 25 July 2026

Sessão de Sexta: Trinta Anos de Uma Cópia Bem Feita

 NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Sexta, haverá Sessão, e a próxima será com Style.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os filmes em que uma ou mais crianças estabelecem laços de amizade com um animal fora do comum – que têm, posteriormente, de salvar de um qualquer perigo – são um filão lucrativo desde o início da História do cinema, e atravessavam em finais do século XX uma época áurea, com clássicos infanto-juvenis como 'Libertem Willy', 'Voando P'ra Casa', ou o filme de que falamos esta Sexta, poucos dias antes de se celebrarem exactas três décadas sobre a sua estreia em Portugal, e que, apesar de menos bem-sucedido que os seus pares, terá ainda assim logrado entreter o público jovem da altura, e certamente criado memórias nostálgicas no seio do mesmo.

Baseado numa antiga série televisiva do mesmo nome, 'Flipper' aterrava nas salas de cinema nacionais a 26 de Julho de 1996, trazendo como principal atractivos um golfinho capaz de acrobacias mirabolantes – chamariz imediato para qualquer criança – e a presença de Paul Hogan, então ainda em alta graças ao sucesso dos filmes de 'Crocodilo Dundee'. Como inevitável presença 'jovem' ao lado do veterano pseudo-australiano encontrava-se um dos mais promissores jovens actores da época, já detentor de algum nome graças a filmes como 'O Bom Filho' (ao lado de outra 'mini-estrela' da época, Macaulay Culkin) ou 'Huckleberry Finn'. O seu nome? Elijah Wood, ainda a pouco mais de meia década de se tornar nome conhecido de toda a população cinéfila como protagonista principal de uma certa trilogia de fantasia épica. Aqui, surge no papel do adolescente que, ao lado do tio Hogan, tem de salvar as águas onde nada Flipper, o golfinho, de poluição causada por residentes locais sem escrúpulos.

Uma história já mais que 'batida' (e que parece saída de um episódio de 'Capitão Planeta') mas que servia bem o propósito do filme – o de criar uma 'cópia' de 'Libertem Willy' com um animal ligeiramente mais simpático; e, nesse particular, não se pode dizer que o filme seja de todo mal-conseguido. O problema é que, num mundo em que 'Libertem Willy' ia já na primeira sequela, torna-se ainda mais aparente que 'Flipper' é apenas um 'seguidor' relativamente fiel, razão pela qual talvez não tenha ficado na memória colectiva dos 'Millennials' portugueses (e do resto do Mundo) da mesma forma que os filmes supracitados (além de passar bastante menos vezes na televisão...) Ainda assim, é apenas justo lembrar aquela que é mais uma boa produção infanto-juvenil da década de 90, no fim-de-semana em que a mesma celebra os trinta anos da sua estreia em Portugal.



Saturday, 4 July 2026

Sessão de Sexta: Os Primórdios de Uma Franquia Que Não É 'Brinquedo'...

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 03 de Julho de 2026.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Ainda que as franquias animadas com diversos capítulos não sejam nada de novo, sobretudo desde o início do Terceiro Milénio, é ainda assim incomum encontrar uma que leve já três décadas, sempre com o mesmo grau de sucesso. 'Em Busca do Vale Encantado', por exemplo, encontra-se desde há muito remetido para o mercado do vídeo, o mesmo sucedendo com 'Alfa e Ómega'; séries como 'O Panda do Kung-Fu', 'Como Treinar o Seu Dragão' ou 'Gru, O Mal-Disposto', por outro lado são significativamente mais recentes, deixando apenas 'Shrek' como o único verdadeiro concorrente da franquia a que dedicamos este 'post', e cujo quinto capítulo faz actualmente sucesso nas bilheteiras mundiais. Altura ideal, portanto, para recordar os humildes inícios de um 'cowboy' e de um astronauta que, nos mais de trinta anos desde a sua estreia, cimentaram merecidamente um lugar no imaginário infanto-juvenil mundial.

Produzido em 1995 e estreado em Portugal na Primavera do ano seguinte, 'Toy Story – Os Rivais' marcava não só a estreia em longa-metragem da californiana Pixar – até então produtora de 'spots' publicitários e curtas-metragens – como também uma autêntica revolução no mercado da animação, à época ainda dominado por filmes de produção totalmente artesanal e que, do dia para a noite, via surgir nas salas de cinema uma obra totalmente criada por computador. Mais – ao contrário do que se poderia esperar, o filme não se fazia valer do factor 'novidade', apresentando uma história cuidada e que nada perderia caso a animação fosse 'feita à mão'.

Com personagens memoráveis – não só os protagonistas Woody e Buzz como os restantes brinquedos 'vivos' do quarto do pequeno Andy – diálogos hilariantes (potenciados, em Portugal, por uma das melhores dobragens alguma vez produzidas num estúdio nacional) e os inevitáveis momentos emocionais, o primeiro 'Toy Story' não podia deixar de ser um sucesso entre a 'pequenada', e foi sem surpresas que a aventura dos dois 'parceiros melindrados' se tornou um dos grandes sucessos não só da sua época de estreia, mas do próprio catálogo da Disney, então em plena fase hegemónica de 'Renascença', justificando assim os esforços da Pixar e tornando o nome da companhia sinónimo de animação por computador de qualidade. E ainda que, hoje em dia, a animação 3D comece a parecer algo antiquada, o filme afirma-se ainda suficientemente cativante para justificar uma Sessão de Sexta, quer como parte de uma maratona, quer apenas emparelhado com a sua primeira sequela, amplamente considerada uma das melhores de todos os tempos.

De facto, 'Toy Story 2: Em Busca de Woody' – terceiro filme da Pixar, após o algo mais fraco 'Uma Vida de Insecto' – consegue a proeza de ombrear com o seu antecessor, levando ao expoente máximo a fórmula 'mais do mesmo, mas maior e melhor'. Aquilo que poderia apenas ser uma 'cópia' do primeiro filme com os papéis trocados – com Buzz a ter, desta feita, de salvar Woody – atreve-se, pelo contrário, a explorar novas dimensões do 'mundo' de Toy Story, introduzindo novas personagens (o que se viria a tornar um dos esteios da série) e tornando a aventura dos brinquedos significativamente mais ampla que a do primeiro filme, com mais cenas de exterior, muito mais acção, e um tema musical que muitos consideram ainda melhor do que 'Sou Teu Amigo, Sim'. Como tal, foi novamente sem surpresas que o filme 'arrasou' nas bilheteiras nacionais aquando da sua estreia em Fevereiro de 2000, inscrevendo mais um nome naquela que viria a ser uma longa lista de sucessos para a Disney-Pixar.

O que, efectivamente, surpreendeu foi o facto de os capítulos seguintes da série (estreados em 2010 e 2019, respectivamente) serem, também eles, filmes cuidados, sendo 'Toy Story 3', inclusivamente, considerado tão bom ou melhor do que os seus dois antecessores. E ainda que 'Toy Story 5' vá, para já, dividindo opiniões, o impacto daquela que sempre foi a série-estandarte da Pixar (e onde 'tudo começou' para a companhia) não parece dar sinais de enfraquecer, podendo Woody, Buzz e companhia vir potencialmente a fazer parte do imaginário infantil de quatro gerações – algo de que poucas companhias àparte a própria Disney se podem gabar. Oportunidade perfeita, pois, para recordar os primórdios da série, e 'regressar' aos tempos da estreia do original, em que a geração 'millennial' era da idade do protagonista Andy e se debatia, ela própria, com a questão de qual seria o seu brinquedo favorito...

Friday, 5 June 2026

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

 Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Em inícios do século XXI, o mercado cinematográfico da animação vivia uma situação peculiar e sem precedentes: o lento declínio da Disney enquanto líder hegemónica (iniciado ainda em finais dos anos 90, e que tinha na absurda quantidade de sequelas directas para vídeo o seu principal indicador) abria caminho para o aparecimento de uma companhia capaz de rivalizar com a 'casa do Rato Mickey'. E, numa espécie de versão Hollywoodesca do que acontecia com a WWF e a WCW no mercado da luta livre, essa concorrente não tardaria a surgir, liderada (surpreendentemente, ou talvez não) por um ex-executivo da própria Disney na sua chamada 'Renascença' – Jeffrey Katzenberg, que havia sido substituído poucos anos antes pelo homem responsável pelas sequelas e outras manobras 'duvidosas', Michael Eisner – e com apoio financeiro de um dos maiores nomes de Hollywood da altura. Steven Spielberg.


Não admira, pois, que a Dreamworks não tardasse a estabelecer uma reputação firme como o 'segundo grande' da animação noventista, apresentando uma qualidade até então apenas presente nos filmes de Don Bluth, eles mesmos em lento mas perceptível declínio naqueles últimos anos do século XX. Mas enquanto que filmes como 'O Caminho Para El Dorado', 'O Príncipe do Egipto' ou 'Anastasia' (realizado pelo próprio Bluth) seguiam moldes muito semelhantes aos dos clássicos da fase renascentista da Disney, procurando competir com estes ao mesmo nível, seria com o seu primeiro filme do Novo Milénio que Katz e Spielberg verdadeiramente deixariam a sua marca no mercado da animação, com um filme subversivo e arrojado, que não só revolucionava e redefinia o conceito do que era um filme animado, mas também escarnecia directa e abertamente de todos os estereótipos empregues pela Disney nos seus tradicionais 'contos de fadas' desenhados, numa 'provocação' directa àquele que era, ainda, o maior estúdio de animação do Mundo,

Falamos, claro está, de 'Shrek', o primeiro 'capítulo' de um 'anti-conto de fadas' que dominaria a cultura popular (e as bilheteiras) durante as duas décadas seguintes, tornando-se a primeira de várias franquias altamente populares e reputadas lançadas pela Dreamworks, e dando azo a um 'império' de 'merchandising' encabeçado pelas três sequelas (a primeira das quais considerada uma das melhores 'segundas partes' de sempre, em qualquer género cinematográfico) e dois especiais (de Natal e 'Halloween'); e todo esse sucesso tinha início numa simples paródia da 'fórmula' Disney, protagonizada por um personagem explícita e propositadamente feio, e que surpreendia muita gente com uma 'reviravolta' final verdadeiramente inesperada.

É esse o filme que celebra, este fim de semana, o quarto de século sobre a sua estreia nacional (a 7 de Junho de 2001) aquando da qual atraía de imediato as atenções de uma geração já demasiado 'adulta' (e auto-conscienciosa) para filmes de 'desenhos animados', que encontrava na vertente satírica e sarcástica de 'Shrek' a 'desculpa' perfeita para satisfazer o seu lado mais infantil. E a verdade é que o filme não desapontava, mostrando-se tão ou mais apropriado para um público adolescente e adulto do que para o infantil, e impressionando não só na componente técnica (embora, hoje em dia, seja fácil perceber as limitações da animação, sobretudo por comparação com a primeira sequela, lançada dois anos depois) como no aspecto sonoro, com excelente utilização de música 'pop' (a abertura ao som de 'All-Star', dos Smash Mouth, é uma das mais icónicas de sempre) e elenco de luxo quer na versão original quer na dobrada em Português, e sobretudo na escrita, que conseguia misturar de forma harmoniosa referências visuais ao estilo 'Scary Movie' e 'alfinetadas' à rival Disney com um enredo algures entre o conto de fadas e a 'missão de um homem só' (ou, neste caso, de um ogre e um burro). O resultado não podia deixar de ser um sucesso, um clássico geracional que marcou de tal forma os 'millennials' de todo o Mundo que é algo 'penoso' ver 'Shrek' ser apenas um 'meme' para os elementos da geração seguinte.

É, pois, com relativa boa-vontade e nostalgia que esses mesmos 'millennials' recebem as intermináveis repetições de 'Shrek' e das suas sequelas nos Natais e Páscoas da televisão portuguesa, dedicando mesmo algum tempo a rever aqueles clássicos nostálgicos da sua juventude, nascidos da necessidade de um homem fazer o equivalente cinematográfico de um 'manguito' à sua ex-companhia. E a verdade é que o impacto cultural de 'Shrek' se fez sentir não só no imediato (com o filme a servir de inspiração a outra franquia 'perene', a sátira de sátira 'A Idade do Gelo') como a longo-prazo, com a Dreamworks a consolidar a sua posição no mercado e a atingir níveis de sucesso que quase rivalizam com os da própria Disney. E se, por entre dragões e pandas, teria sido fácil ao ogre, burro e restantes 'comparsas' perder-se na 'multidão', aconteceria, de facto, o exacto oposto, com um quinto capítulo de 'Shrek' actualmente em produção, exactos vinte e cinco anos após o discreto despontar daquela que viria a ser a primeira grande franquia de animação do Novo Milénio.



Friday, 23 January 2026

Sessão de Sexta: Um Clássico Infantil Deixado 'No Armário'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Recentemente, falámos nesta rubrica de um dia, perto do final do ano 2000, em que estrearam em Portugal vários filmes de interesse para o público jovem; no entanto, por nos termos focado numa data específica, ficou por mencionar uma outra película, estreada em Portugal cinco anos antes, e que, como tal, acaba de completar, há pouco mais de um mês, trinta anos sobre a sua exibição no nosso País.


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Tratava-se de 'A Chave Mágica', a adaptação cinematográfica da obra 'O Índio no Armário', de Lynne Reid Banks, publicada quinze anos antes (em 1980) e que, por alturas do lançamento do filme, se havia tornado já num clássico infantil moderno entre as crianças norte-americanas, as quais se terão regozijado com esta adaptação. Já em Portugal, o livro era menos conhecido (apesar de ter sido publicado em tradução portuguesa) e, como tal, será mesmo o filme o principal ponto de referência para quem era de uma certa idade à época; e a verdade é que, como principal forma de conhecer a história, é um veículo perfeitamente válido, sendo daqueles filmes que seguem o material de origem quase 'à letra', retendo todas as suas qualidades e não arriscando incorrer em quaisquer defeitos.


Tematicamente, 'A Chave Mágica' insere-se naquela 'safra' muito particular de longas-metragens infantis de meados dos anos 90 centradas em torno de uma situação de 'realismo mágico' causada por um objecto quotidiano aparentemente inofensivo, da qual 'Jumanji', 'Pagemaster' ou 'Pequenos Guerreiros' talvez sejam os exemplos mais conhecidos; no caso do filme em questão, a 'pista' está no próprio título; de facto, é quando o protagonista Omri usa o armário encontrado e consertado pelo seu irmão mais velho para guardar duas das suas figuras de índios e 'cowboys' de plástico, e dá a volta à chave para o fechar, que se descobre que o sobredito móvel tem a capacidade de dar vida a objectos inanimados. Assim, quando Omri volta a rodar a chave na fechadura, depara-se não com os brinquedos que ali deixara, mas com um índio e um 'cowboy' de carne e osso, transportados através do tempo algumas centenas de anos e 'encolhidos' para o tamanho de uma figura de acção, mas de outro modo vivos, conscientes...e aterrorizados.


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Touro Sentado e Boone, dois humanos magicamente transportados para o futuro pela titular Chave Mágica.


Segue-se a habitual trama de tentar esconder os 'convidados' sobrenaturais dos adultos, com a agravante de que o cobarde Boone e o intempestivo Touro Sentado (inexplicavelmente chamado Touro Pequeno na tradução do livro) não parecem capazes de parar de se tentar agredir mutuamente, nem dispostos a evitar o choque de personalidades – pelo contrário, cada um dos homens faz a Omri exigências que o pequeno tem de se esforçar por cumprir, apesar das circunstâncias menos do que habituais. O resultado são noventa minutos (ou algumas centenas de páginas) de peripécias que balanceiam muito bem o humor, o drama e o sentimentalismo (sem que este nunca chegue a tornar-se 'lamechiche'), além de procurarem veicular algumas informações sobre o modo de vida dos nativos e colonos americanos no período histórico de que Boone e Touro Pequeno são oriundos. Uma boa escolha para uma Sessão de Sexta em família, portanto, que merecia ser mais lembrada, trinta anos depois da sua chegada aos cinemas lusitanos.


Friday, 29 December 2023

Sessão de Sexta: 'Sozinho em Casa 3' - À Terceira Não Foi de Vez...

NOTA: Por motivos de relevância, todas as Sextas-feiras de Dezembro serão Sessões.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


No mundo do cinema comercial, qualquer filme ou propriedade que faça sucesso entre a sua demografia-alvo está, inevitavelmente, 'fadada' a transformar-se numa franquia, com tantos filmes quantos forem viáveis até os lucros começarem a diminuir. Foi assim, nos anos 80, com os filmes de terror para adolescentes, e tem sido assim, desde então, com grande parte dos filmes para crianças, tendo à cabeça a aparentemente interminável série de sequelas para 'Em Busca do Vale Encantado'. Além de Pézinho e seus amigos, no entanto, também propriedades como 'Shrek', 'Toy Story', 'O Panda do Kung Fu', 'Air Bud' (e a complementar série 'Buddies', com cachorrinhos bebés) ou 'Beethoven' tiveram direito a um sem-fim de filmes, especiais de Natal e Halloween, séries animadas e outros produtos relacionados, normalmente dirigidos à parcela 'resistente' (ou menos exigente) da base de fãs, e muitas vezes sem direito a estreia cinematográfica, sendo lançados directamente para o mercado de vídeo.


Como uma das mais conhecidas, famosas e historicamente apreciadas franquias de comédia infantis dos anos 90, não é de estranhar que 'Sozinho em Casa' tenha tido direito ao mesmo tratamento; surpreendente foi, apenas, o facto de a série ter ficado tanto tempo em 'águas de bacalhau' antes de os executivos da 20th Century Fox decidirem enveredar pelo rumo em causa. De facto, meia década medeia entre 'Sozinho em Casa 2: Perdido em Nova Iorque' (a natural sequela para o mega-sucesso que foi o original) e 'Sozinho em Casa 3', o primeiro dos 'restantes' filmes da franquia, sobre cuja estreia em Portugal se celebraram na semana transacta vinte e seis anos. E porque já vem sendo tradição deste nosso 'blog' abordar um capítulo da série por ano - e apesar de termos falhado a marca de quarto de século, tendo a nossa atenção, nessa instância, sido focada no trigésimo aniversário do segundo filme - nada melhor do que terminar este mês de Natal com uma breve análise do terceiro capítulo daquela que é, talvez, a franquia mais frequentemente associada à quadra em Portugal.


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E o primeiro aspecto a abordar ao falar de 'Sozinho em Casa 3' é o mais óbvio e, quiçá, impactante - nomeadamente, a ausência do icónico Macaulay Culkin, o qual, nos cinco anos desde a sequela directa, havia não só atingido e ultrapassado a puberdade - sendo, por isso, demasiado 'velho' para retomar o seu papel mais icónico - como também abandonado o mundo do cinema, ao qual apenas voltaria várias décadas depois; assim, apesar de o personagem principal deste terceiro filme também se chamar Kevin, o mesmo é marcadamente diferente do homónimo de Culkin, sendo mais novo, menos inocente, e de cabelo moreno, por oposição à icónica franja loira do seu antecessor. A época em que se passa o filme é, também, diferente, com o realizador Raja Gosnell (sucessor do entretanto conceituado Chris Columbus) a abandonar a ligação ao Natal e a ambientar o seu filme no tradicional período de Primavera/Verão, o que faz com que o mesmo se pareça menos com a ideia da geração 'millennial' do que deveria ser um filme da franquia 'Sozinho em Casa'.


Para além destas diferenças óbvias, no entanto, a fórmula continua a ser a mesma, com Kevin a encontrar-se, inesperadamente, 'Sozinho em Casa', e a ter de combater por si mesmo, com recurso a armas 'caseiras' e muita imaginação, bandidos que pretendem infiltrar-se no seu lar - no caso, para roubar um 'chip' informático acidentalmente escondido no carro telecomandado de Alex. Um enredo que procura recuperar a atmosfera do original, mas que acaba por ser prejudicado por certos toques de ambição desnecessários (os bandidos, por exemplo, são agora terroristas internacionais, ao invés de simples assaltantes de casas oportunistas) e que, apesar do envolvimento do histórico John Hughes, não consegue atingir o mesmo nível dos seus antecessores, fazendo desta terceira parte um notório 'passo atrás' em termos de qualidade e apelo familiar. De facto, ao contrário do que sucedia com os dois primeiros, 'Sozinho em Casa 3' é, declaradamente, um filme para crianças, do qual adultos ou até jovens um pouco mais velhos retirarão muito pouco; o foco é posto (ainda) mais na comédia física, e a vertente sentimental que ancorava os dois primeiros fica quase totalmente de lado, tornando a 'parte três' um daqueles filmes algo 'parvos' de que apenas um público muito jovem consegue gostar.


Ainda assim, e apesar das diferenças e 'fraquezas' assinaladas, 'Sozinho em Casa 3' conseguiu atingir moderado sucesso comercial, granjeando cerca de duas vezes e meia o seu orçamento - uma vantagem algo duvidosa, já que levou à produção, já no Novo Milénio, de mais dois filmes ainda mais fracos, e de projecção e impacto praticamente nulos (como referência, enquanto 'Sozinho em Casa 3' ainda saiu no cinema, a quarta e quinta partes foram...telefilmes). No entanto, enquanto produtos da década de 2000, ambas essas sequelas (bem como o inenarrável 'remake' criado já na presente década) ficam (felizmente) fora da jurisdição deste nosso 'blog', permitindo-nos finalizar este 'trio' de artigos sobre a franquia numa nota, ainda assim, relativamente positiva, mesmo que distante dos 'tempos áureos' em que Culkin fizera as delícias de toda uma geração com a sua 'tortura' semi-acidental de dois desafortunados ladrões...


Friday, 30 June 2023

Sessão de Sexta: 'A Espada Mágica' (1998) - Uma 'Cópia' de Qualidade

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Apesar de ser a rainha inquestionável das longas-metragens infantis dos anos 90, a Disney não deixava de ter, na ponta final do século XX, 'concorrência' à altura neste campo – nomeadamente, da parte da Amblin Entertainment, de Spielberg e Don Bluth (sua concorrnte desde a década transacta), da recém-criada Dreamworks (que 'agitava as águas' com o excelente 'O Príncipe do Egipto'), e da Warner Brothers, que fazia por essa altura as suas primeiras tentativas de se estabelecer como criadora de filmes animados de grande orçamento. E apesar de este desiderato não ter sido inteiramente bem sucedido (no Novo Milénio, a companhia seria conhecida, sobretudo, com produtora de filmes animados com os super-heróis da DC, destinados ao mercado de vídeo e DVD) a divisão de animação da Warner não deixou de produzir pelo menos duas longas-metragens de considerável sucesso junto do público alvo. Da primeira, 'Space Jam', já aqui falámos anteriormente; agora, num fim-de-semana em que se assinalam os vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, chega a altura de dedicarmos algumas linhas à outra.


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Capa do lançamento em DVD do filme.


Lançado nas salas de cinema lusitanas a 3 de Julho de 1998, 'A Espada Mágica' ('Quest for Camelot', no original) não disfarça as suas intenções de rivalizar com a Disney, que, nesse mesmo ano, lançaria o fabuloso épico de guerra 'Mulan'; pelo contrário, das personagens à história, formato musical e até ambientação, tudo neste filme é uma tentativa declarada de replicar a fórmula que, à época, tantos dividendos vinha rendendo à multi-nacional californiana. Senão veja-se: a trama segue uma humilde jovem camponesa da Inglaterra Arturiana, Kayley, que sonha ser cavaleira, mas encontra resistência por parte da sua família e comunidade, até um ataque à quinta da sua família por parte de um Cavaleiro da Távola Redonda renegado lhe dar a oportunidade de se tornar a heroína que sempre sonhou ser, e salvar não só a sua família, como todo o reino, tendo como aliados um eremita cego residente na floresta e um dragão de duas cabeças com as vozes de um elemento dos Monty Python e do Senhor Cabeça-de-Batata de 'Toy Story'. Junte-se a isto a presença de um vilão totalmente 'angular', cuja silhueta lembra tanto Radcliffe, de 'Pocahontas', como Jafar e até Frollo, e que conta com os habituais asseclas de teor cómico, e os vários interlúdios musicais (incluindo, claro, um logo na abertura do filme) e 'A Espada Mágica' quase podia fazer parte da lista de sucessos do chamado 'Renascimento Disney'.


Verdade seja dita, no entanto, esta 'cópia' é feita de forma bastante bem sucedida, ficando longe das produções barateiras que, no mesmo período, 'inundavam' o mercado caseiro com variações sobre os temas dos filmes da companhia do Rato Mickey, como forma de facturar sem grande esforço; pelo contrário, o orçamento disponível para este filme é evidente em todos os aspectos do mesmo, com um elenco original repleto de celebridades, personagens e canções cuidadas e memoráveis e até o uso ocasional de tecnologia CGI, como na cena inicial em torno da Távola Redonda.


A única pecha do filme acaba, assim, por ser o seu carácter declaradamente derivativo, o qual ajudou, ainda assim, a atrair às salas de cinema o público familiar (numa época em que era quase obrigatório ir ver cada novo filme de animação lançado em sala) mas rendeu postumamente ao filme o escárnio da Internet, para quem 'A Espada Mágica' se tornou - a par de 'As Aventuras de Zack e Chrysta na Floresta Tropical', outro filme que aqui terá paulatinamente o seu espaço – um dos alvos de crítica mais fáceis de toda a cultura nostálgica.


Quem não tenha tanto interesse em dissecar cada minúcia de um filme para criar interesse e provocar risos, no entanto, certamente achará que não era caso para tanto; 'A Espada Mágica' era, e continua a ser, um filme infantil perfeitamente aceitável (até acima da média) e envelheceu apenas um pouco menos bem do que os clássicos intemporais sugeridos na mesma época pela Disney. Como tal, aos vinte e cinco anos da sua estreia em Portugal, a grande aposta da Warner Brothers para fazer frente à 'casa' do Rato Mickey merece bem o mesmo tipo de homenagem que, logo nos primórdios deste nosso 'blog', prestámos aos referidos filmes, continuando a constituir uma excelente adição à ´rotação' de filmes infantis de qualquer lar de família nacional.


Friday, 24 March 2023

Sessão de Sexta: 'Anastasia' (1997) - O Último Clássico de Don Bluth

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Os filmes de animação de finais do século XX tendiam a estar associados a um de três nomes: por um lado, o da tradicional e decana Walt Disney, então a atravessar um 'renascimento' que lhe viria a render um segundo estado de graça, por outro o da 'estreante' Pixar e, apenas um meio passo atrás, o do realizador Don Bluth, o qual, em parceria com a Amblin Entertainment de Steven Spielberg, deixaria um legado de 'clássicos' de animação modernos. E apesar de a melhor fase do criador ter tido lugar entre meados da década de 80 e inícios da seguinte – quando produziu obras-primas como 'Fievel, Um Conto Americano' (e respectiva sequela), 'Em Busca do Vale Encantado' e 'Todos os Cães Merecem o Céu' – os últimos anos do século XX ainda veriam ser lançado pelo menos mais um clássico com o nome de Bluth à cabeça: 'Anastasia', uma versão ficcionalizada, bem ao estilo da concorrente Disney, da história verídica de Anastasia Romanoff, czarina russa que, reza a lenda, terá sobrevivido ao atentado que vitimou a sua família em 1917.


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Considerado hoje como o filme que marcou o regresso à forma do realizador norte-americano após obras menos conseguidas como 'Um Duende no Parque', 'Hubie, o Pinguim' ou a sequela de 'O Segredo de Nimh', a animação estreou em Portugal há quase exactos vinte e cinco anos, tendo chegado aos cinemas nacionais a 27 de Março de 1998, e conseguido boa aceitação entre o público infanto-juvenil nacional, apesar (ou talvez por causa) das semelhanças com as obras que a Disney vinha, à época, lançando anualmente. E se é verdade que o filme contém muitos dos elementos que se tornaram sinónimos com as animações da companhia do Rato Mickey – da protagonista que deseja mais da vida ao par romântico 'atrevido' e bem-parecido, sem esquecer os alivios cómicos, o vilão de traços angulares e, claro, as canções - nem por isso o mesmo deixa de ser um exemplo extremamente bem conseguido de um filme de família, capaz de maravilhar e até assustar o público-alvo (muito por conta do vilão Rasputin, uma daquelas criações que a equipa de animadores da Disney talvez desejasse ter concebido) sem descurar o público mais adulto – uma dicotomia que os melhores filmes animados e de família tendem a valorizar, e a saber balancear.


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O núcleo central de personagens do filme era bastante bem conseguido, com destaque para o pérfido vilão, Rasputin.


Talvez por isso 'Anastasia' se tenha tornado um dos 'clássicos menores' da animação dos anos 90, que, sem chegar ao nível de notabilidade de um 'Aladino' ou 'O Rei Leão', não deixa ainda assim de fazer parte das memórias nostálgicas de muitas crianças – portuguesas e não só. E a verdade é que tanto a animação quanto a história do filme 'envelheceram' marcadamente bem, afirmando-se como perfeitamente aceitáveis (e até acima da média) mesmo um quarto de século após o seu lançamento, e fazendo de 'Anastasia', ainda hoje, uma excelente proposta para um fim-de-semana chuvoso em família, em frente à televisão – quem sabe, como comemoração da data marcante que ora se assinala...?

Friday, 11 November 2022

Sessão de Sexta: 'Bean - Um Autêntico Desastre'...de Filme

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


As décadas de 80 e 90 foram palco para, provavelmente, a 'era de ouro' da comédia britânica, com programas tão lendários e ainda hoje recordados como 'Fawlty Towers' (que passou em Portugal durante a 'nossa' década com o título 'A Grande Barraca'), 'Alô Alô', 'A Ilustre Casa de Blackadder', ou ainda produções mais recentes, como 'Doido Por Ti', 'Absolutamente Fabulosas' ou a versão britânica de 'Friends' que era 'Couplings'. Em meio a toda esta qualidade, no entanto, uma figura se destacava, não só pela bizarria como também pelo sucesso trans-geracional de que gozava: um homenzinho de figura algo patética, sempre com um 'blazer' de xadrez bastante surrado, que guiava um Mini amarelo-canário e cujas expressões faciais conseguiam, por si só, fazer rir o mais sisudo dos 'rezingões' desta vida.


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Falamos, claro, de Mr. Bean, o personagem mais famoso de Rowan Atkinson em todo o Mundo, excepto, curiosamente, no seu Reino Unido natal, onde é, até hoje, conhecido sobretudo como Edmund Blackadder. Tal dever-se-à, talvez, à comédia sobretudo física e estilo 'pastelão' do solteirão atrapalhado Bean (um personagem conhecido, aliás, por ser de MUITO poucas palavras), por contraste ao humor sofisticado e baseado em jogos de palavras de Blackadder e seus comparsas. Seja qual fôr o motivo, a verdade é que Mr. Bean fazia as delícias de muitos espectadores portugueses nos anos 90, entre eles muitas crianças e jovens, para quem o humor de Atkinson e do seu personagem pareciam feitos à medida - tanto assim que a série original, produzida pela BBC na década de 80, teve honras de lançamento em VHS por terras lusitanas na década seguinte, pela mão da Orbis-Fabbri, no então habitual formato periódico e distribuído em bancas de jornal.


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O subtítulo nacional não podia ser mais adequado...


Com isto em mente, não é de admirar que Hollywood tenha procurado capitalizar sobre o sucesso do personagem com uma longa-metragem sobre ele centrada: o que surpreende é o facto de os estúdios norte-americanos terem conseguido estragar uma fórmula que praticamente se escreve a si própria – a exemplo, aliás, do que já haviam feito com Tom e Jerry alguns anos antes, num filme de que aqui paulatinamente falaremos. O resultado, o profeticamente intitulado 'Bean - Um Autêntico Desastre' (filme que completou há um par de meses vinte e cinco anos sobre a sua estreia nacional, a 6 de Setembro de 1997) é uma autêntica comédia (involuntária) de erros, que consegue cometer o 'pecado capital' de um filme centrado sobre um personagem como Mr. Bean – nomeadamente, o de não ter graça.


De facto, a primeira longa-metragem de uma das mais carismáticas e cómicas figuras da televisão noventista – algo que apenas precisava de ser um 'episódio alargado' da mega-popular série de 'sketches' humorísticos protagonizada pela personagem – chega ao ponto de RETIRAR O FOCO do seu personagem principal, colocando-o, sobretudo, na típica família americana com quem o mesmo se cruza durante as férias em Hollywood (daquele tipo de personagens usados neste tipo de filmes para 'ancorar' o espectador americano, mas insuportáveis para o resto da população mundial), antes de se ver envolvido em peripécias relacionadas com uma tentativa de roubo do popular quadro 'A Mãe', do pintor James McNeill Whistler. Sim, o filme dá mesmo prioridade ao argumento e personagens secundários do que ao suposto protagonista, aparentemente não compreendendo que -Mr. Bean é uma espécie de versão moderna de Cantinflas, e que – como acontecia com este, ou ainda com nomes como Bucha e Estica - ninguém vai ver uma película sua pela história!


Seria, no entanto, desonesto dizer que não há QUAISQUER bons momentos em 'Bean – Um Autêntico Desastre'; esporadicamente (MUITO esporadicamente) o filme até consegue arrancar algumas gargalhadas, sobretudo (e previsivelmente) quando dá ao seu público-alvo aquilo que o mesmo quer de um filme deste tipo, colocando o seu protagonista em situações comprometedoras que põem em evidência os dotes de comédia física do actor, e os peculiares métodos de resolução de problemas do seu personagem. O melhor destes, centrado sobre um 'acidente' com o referido quadro causado por Bean, quase merecia ser um 'sketch' em si mesmo, em vez de ficar 'esquecido' em meio a um filme que (como 'Tartarugas Ninja III' ou 'Super Mário' alguns anos antes) nem sequer a um público-alvo já 'convertido' (e, como tal, extremamente tolerante) consegue agradar, e que se encontra hoje em dia (algo merecidamente, diga-se) quase votado ao esquecimento.


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O 'Filme Bom' de Mr. Bean, que mostra como transpôr a fórmula para o grande ecrã correctamente.


Felizmente, Hollywood aprenderia com o fracasso deste primeiro filme de Bean, e – quase uma década e meia depois – 'emendaria a mão' com o divertidíssimo 'Mr. Bean de Férias', que mostra como é fácil transpôr CORRECTAMENTE a fórmila do personagem de Atkinson para o grande ecrã e mitiga um pouco o 'sabor a amargo' do original, um daqueles incompreensíveis 'casos de estudo' sobre como interpretar o sucesso de uma propriedade intelectual da forma mais errada possível.


 

Friday, 16 September 2022

Sessão de Sexta: 'Beethoven' (1992) - O Cão com Sete Vidas

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


De entre os muitos géneros cinematográficos normalmente associados com os anos 90, os filmes de família estão entre os mais imediatamente memoráveis, dada a quantidade e qualidade das longas-metragens deste estilo produzidas durante essa década. De Sozinho em Casa e Papá Para Sempre a Hook e Parque Jurássico, passando pelos filmes das Tartarugas Ninja, por vários grandes sucessos de Jim Carrey e, claro, por uma sucessão de obras-primas da Disney, não faltam exemplos de obras que justificaram bem a ida ao cinema, e que, mais tarde, gozaram de nova vida no circuito de vídeo e DVD.


Uma dessas obras, que completou em finais do mês transacto três décadas sobre a sua estreia em Portugal, foi 'Beethoven', o filme que criou em muitas crianças da altura (em Portugal e não só) o desejo de adoptar um cão São Bernardo, ao mesmo tempo que tentava alertar para os perigos de tal acto, especialmente para quem não soubesse 'ao que ia'; e por, por alturas do referido aniversário, termos estado ocupados com outros temas (além de, na última Sessão de Sexta, termos preferido falar sobre 'O Quinto Elemento') dedicaremos agora, ainda que já algo tardiamente, algumas linhas a um filme que, quase sem querer, acabou por ter influência não só na geração em causa, como também na seguinte.


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Representante perfeito de um tipo de filme intemporal, mas cuja fase moderna remonta a finais dos anos 80, 'Beethoven' conta a história de como o cão homónimo, um São Bernardo de raça pura, afecta a vida da família que o adopta, após o encontrar abandonado na rua em cachorro – um processo que engloba todas as peripécias expectáveis, do desespero inicial à eventual aceitação e à formação de elos de amizade e amor. A este enredo junta-se ainda, a partir de meio, uma segunda trama, centrada em torno de um veterinário pouco escrupuloso, como que para justificar a existência deste filme enquanto obra cinematográfica; no entanto, não há como negar que o principal interesse deste filme para o seu público-alvo estava mesmo no farfalhudo protagonista, e nos 'desastres' que o seu tamanho e movimentos abrutalhados causavam, sendo estas as principais razões por detrás do sucesso do filme à época da sua estreia.


Claro que, da perspectiva de um cinéfilo adulto, e com trinta anos de filmes de permeio, 'Beethoven' dificilmente pode ser considerado um bom filme; mesmo dentro do sector infantil, existem opções bem mais sofisticadas, divertidas e bem conseguidas. No entanto, pode-se argumentar que nunca terá sido esse o propósito do filme, inserindo-se o mesmo na 'escola Sozinho em Casa' de obras em que o principal foco cai sobre a comédia física, causada (acidental ou propositadamente) por um protagonista declarada e descaradamente 'fofo' – humano no caso de 'Sozinho em Casa', animal no de 'Beethoven'; e o mínimo que se pode dizer é que essa receita resultou esplendidamente para ambas as propriedades, as quais viriam, em anos vindouros, a dar origem a toda uma série de filmes com o mesmo título. E se, para ambas, esse desenvolvimento apenas se deu várias décadas após a estreia do original, também é verdade que as duas tiveram direito à obrigatória sequela ainda na mesma década, apenas um par de anos depois do lançamento do primeiro filme – a qual, previsivelmente, obedecia à quase obrigatória fórmula das sequelas de apresentar 'mais do mesmo', mas ampliado.


No caso de 'Beethoven 2' (lançado logo no ano seguinte, em 1993) essa estratégia implicava o aparecimento não só de uma companheira para Beethoven, como da respectiva ninhada, sextuplicando o quociente de destruição massiva em casa dos pobres Newtons. Apesar de sobejamente divulgado por publicações como a Super Jovem, no entanto, este filme passou algo despercebido junto da mesma audiência que tornara o primeiro um sucesso – uma ocorrência algo inesperada, tendo em conta que se passara pouco menos de um ano desde a estreia do mesmo – e foi rapidamente esquecido pelo mundo cinematográfico em geral, sendo hoje em dia sobretudo recordado por ter dado azo a um jogo de vídeo para Super Nintendo, Game Gear e Mega Drive.


Esta relativa falta de interesse por parte do público-alvo não desencorajou, no entanto, os produtores do filme, que ressuscitariam o 'franchise', já no novo milénio, no âmbito do mercado do 'direct-to-video'. 'Beethoven 3', de 2000, deu o mote para nada menos do que SEIS novos filmes na década e meia subsequente, nos quais Beethoven viveu com aristocratas, foi estrela de cinema (dentro do próprio mundo do filme, claro está) e pirata e, como qualquer bom ícone comercial infantil, ajudou a salvar o Natal – tudo isto com a qualidade (ou falta dela) habitual deste tipo de produção, que fazia o primeiro filme parecer uma obra-prima por comparação. Ainda assim, os filmes foram, claramente, encontrando o seu público – presumivelmente, entre a mesma demografia que comprava as diversas sequelas de 'Sozinho em Casa', e que consistia já dos irmãos mais novos, e até filhos, de quem tinha assistido no cinema ao original.


Com tanto tempo passado (e tantos filmes lançados) desde o início da franquia, era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, a popularidade do São Bernardo se principiasse a desvanecer – e a verdade é que 'Beethoven e o Tesouro Secreto', de 2014, marca, até agora, o último sinal de vida do 'franchise' iniciado doze anos e uns impressionantes OITO filmes antes (quase o dobro dos 'Sozinho em Casa' lançados até hoje). A verdade, no entanto, é que a maioria deste tempo de vida foi passado no 'subterrâneo' cinematográfico do 'direct-to-video', tendo apenas os dois primeiros filmes da série tido verdadeiro impacto cultural – e mesmo esses, trinta anos volvidos, servem mais como exemplo de que os 'putos' dos anos 90 eram pouco exigentes no tocante a material de longa-metragem do que propriamente como obras de qualidade intemporal. Ainda assim, quem na infância desejou ter (ou teve) um São Bernardo, quase certamente recordará com carinho o filme do cão com nome de compositor, e as suas tropelias em casa dos seus desafortunados donos...


Friday, 13 May 2022

Sessão de Sexta: 'O Mentiroso Compulsivo' (1997)

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O cinema dos anos 90 foi frutíferos, acima de tudo, para actores de três géneros específicos: o romance, a acção e a comédia. E enquanto que Richard Gere, Brad Pitt, Johnny Depp e Leo DiCaprio arrasavam corações, e Bruce Willis, Stallone, Schwarzenegger e Van Damme arrasavam 'mauzões', no campo da comédia, agigantavam-se dois nomes: Robin Williams e Jim Carrey.


Em lados opostos do espectro de carreira – um já veterano de duas décadas, o outro ainda a lançar carreira – estes dois homens travaram, ao longo da década, uma fascinante batalha pela supremacia no campo da comédia 'mainstream' juvenil, a qual rendeu ao mundo do cinema alguns dos melhores exemplos de sempre do género; e enquanto Robin conquistava o público alvo com o seu trabalho de voz em 'Aladdin' e 'Ferngully', além de filmes como 'Papá Para Sempre', 'O Fabricante de Sonhos' ou 'Flubber - O Professor Distraído', Carrey utilizava da melhor maneira a sua impressionante elasticidade facial para dar vida a desenhos animados 'de carne e osso', em filmes como 'Doidos Á Solta', 'A Máscara', 'Batman Para Sempre' ou o binómio de filmes de Ace Ventura.


Desenrolava-se, assim, uma batalha fascinantemente 'taco a taco', que coincidiu até mesmo nos seus pontos mais fracos, tendo ambos os actores visto os seus filmes menos memoráveis serem lançados no mesmo ano, 1997. Mas se o referido 'Flubber', de Robin Williams, rapidamente cairia no esquecimento, a contribuição de Jim Carrey afirmar-se-ia, ainda assim, como um pouco mais memorável.


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Não, não existe imagem melhor do cartaz português do filme (crédito da imagem: Wook)


Prestes a completar vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal (a 16 de Maio de 1997), 'O Mentiroso Compulsivo' destaca-se hoje em dia, sobretudo, por ter marcado o final da 'fase cómica' da carreira de Carrey, tendo o actor procurado, em filmes subsequentes, diversificar o seu leque de géneros, com resultados surpreendentemente favoráveis; aqui, no entanto, o comediante surge ainda firmemente apoiado nas bocas, expressões e caretas que o haviam tornado conhecido, e que faziam, à época, o gáudio do público-alvo. No papel do titular mentiroso compulsivo – um advogado a quem um desejo de aniversário do filho obriga a apenas dizer a verdade durante 24 horas – Carrey tem inúmeras oportunidades para utilizar todo o seu repertório de expressões faciais, bem como os restantes truques no seu arsenal, das vozes aos gestos exagerados; pena é que o filme não seja suficientemente bom para dissipar a sensação de que a performance de Carrey nada mais é do que 'mais do mesmo', e que mais valia estar a ver novamente qualquer dos outros filmes do actor lançados até essa altura da década.


De facto, embora ainda hoje seja frequentemente exibido na televisão portuguesa, e esteja disponivel no Netflix europeu, 'Liar Liar' (o título original do filme) não é particularmente memorável, sendo até um pouco 'piroso' e sentimental, como só os filmes de família dos anos 90 o sabiam ser; comparado com a restante obra de Carrey, fica a faltar à obra de Tom Shadyac aquela sensação de anarquia e imprevisibilidade que o actor sempre trazia a qualquer um dos seus papéis. Como despedida do actor do mundo da comédia familiar, é, certamente, bem menos do que o mesmo merecia, e dá até algumas indicações sobre as razões que o levaram a afastar-se deste género – por sinal, no momento certo, justamente quando se arriscava a ficar, para sempre, 'preso' a um tipo de papel.


Em suma, na filmografia de Jim Carrey, 'O Mentiroso Compulsivo' perde-se entre as referidas obras-primas da comédia noventista e os não menos bem-conseguidos dramas que se lhes seguiram (e dos quais aqui paulatinamente falaremos), e só mesmo a efeméride do aniversário da estreia justifica que lhe sejam dedicadas estas linhas - isso e o facto de, à época, o filme ter (por qualquer razão inescrutável) sido pretexto para a oferta de um calendário de bolso na revista 'Super Jovem', que, ainda hoje, talvez seja a melhor coisinha associada a esta descartável comédia...



O YouTube não tem o 'trailer' em português, mas pelo menos tem os 'bloopers'...

Friday, 15 April 2022

Sessão de Sexta: 'Flubber - O Professor Distraído'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Para a geração que tinha uma certa idade nos anos 90, o humor cinematográfico era personificado, essencialmente, por dois nomes: Jim Carrey e Robin Williams. E se o primeiro gozou de uma daquelas décadas de fazer inveja a qualquer novato (à revelação com Ace Ventura - Detective Animal seguiram-se Doidos À Solta, A Máscara, Ace Ventura em África, Batman Para Sempre e O Mentiroso Compulsivo, antes da viragem para filmes mais sérios com os excelentes The Truman Show e Homem Na Lua) o segundo - de quem Carrey foi, em certa medida, sucessor, e cujo papel no terceiro filme de Batman acabou por 'usurpar' - efectivou nos anos 90 uma viragem de carreira, deixando de parte os papéis algo mais sérios que desempenhara nos anos 80 e retornando às suas raízes mais cómicas e direccionadas a um público mais infantil.


E o mínimo que se pode dizer é que essa opção foi extremamente bem sucedida, tendo o actor caído nas boas graças do público pré-adolescente da época, graças aos seus desempenhos em sucessos como O Fabricante de Sonhos, Aladdin (um dos melhores filmes da chamada 'Renascença' da Disney, em que interpretou, memoravelmente, o Génio da Lâmpada), Ferngully: As Aventuras de Zack e Krysta na Floresta Tropical, Papá Para Sempre, Hook (de Steven Spielberg) Jumanji ou Jack (de Francis Ford Coppolla) entre outros.


Foi, precisamente, em meio a este estado de graça que Williams aceitou representar um professor distraído (numa altura em que Eddie Murphy revivia a carreira com um papel muito semelhante, num filme também baseado num clássico do cinema a preto a branco) num 'remake' de uma comédia familiar da Disney, hoje algo esquecido - para ser sincero, algo justificadamente - mas cuja data de estreia em Portugal completou recentemente 24 anos.


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Falamos de Flubber - O Professor Distraído, estreado em Portugal a 27 de Março de 1998 e que procurava ser mais um na longa lista de sucessos infanto-juvenis de Williams, bem como na lista de 'remakes' bem-sucedidos de obras de décadas passadas (onde se contam também O Professor Distraído e Doutor Doolittle, de Murphy, e a versão em 'acção real' do clássico animado Os 101 Dálmatas, produzida no ano anterior.) No entanto, apesar do bom desempenho do filme nas bilheteiras mundiais, o mesmo é, hoje em dia, bem menos lembrado do que os seus congéneres acima mencionados, talvez por se tratar de um daqueles filmes que entretêm no imediato, mas caem no quase total esquecimento algum tempo depois de terem sido vistos.


De facto, apesar de as aventuras do professor Phillip Brainard (Williams) e da sua criação, a borracha voadora Flubber (corruptela de 'flying rubber') terem tudo para agradar ao público a que o filme se destina - a começar por muito, mas muito humor tipo 'pastelão' - existem, na mesma época e com a mesma demografia em mente - opções muito mais bem conseguidas, como Space Jam (também de 1997), Pequenos Soldados, do ano seguinte, ou o próprio Jumanji, em que Williams participara pouco mais de um ano antes. Comparado com estes, o filme de Williams sai, definitivamente, a perder, sendo a sua exibição recomendada apenas àqueles pais já falhos de opções para entreter os filhos, e que não querem recorrer ao 'Baby Shark' ou à Porca Peppa.


De realçar, ainda, que, em Portugal, a estreia de 'Flubber' ficou marcada pela oferta da novelização oficial do filme - numa daquelas traduções manhosas e meio 'às três pancadas' a que a Abril já habituara os jovens leitores com a série 'Arrepios' - como brinde numa edição da revista 'Super Jovem', então já na fase final da sua existência. E ainda que, presumivelmente, tal estratagema tenha ajudado a gerar interesse pelo filme por parte do público-alvo à época, o certo é que nem a mais bem conseguida campanha publicitária conseguiria transformar 'Flubber - O Professor Distraído' em algo mais do que uma das produções 'menores' da fase 'imperial' de Williams, um filme 'engraçado' para ver uma vez, mas que não chega aos calcanhares da obra anterior do actor (o clássico 'O Bom Rebelde') e que, quase um quarto de século após a sua estreia, se afirma como relevante apenas num contexto de recordação do passado, como o proposto por este blog; para o público cinéfilo em geral, o filme merece mesmo continuar no esquecimento...


Friday, 18 March 2022

Sessão de Sexta: 'As Bruxas' (1990)

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Há cerca de um mês, quando aqui analisávamos a adaptação cinematográfica de 'Matilda, a Espalha-Brasas', celebrava-se o aniversário da estreia em Portugal de uma outra adaptação a filme de uma obra de Roald Dahl; agora, ainda que com algum atraso, remediamos esse 'esquecimento', e falamos da versão de 1990 de 'As Bruxas'.


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Estreado logo no segundo mês da década, no famoso festival de cinema fantástico Fantasporto, o filme do desconhecido Nicolas Roeg traz como nome maior no seu elenco Anjelica Huston, na altura ainda a um ano de distância do papel que a tornaria famosa entre toda uma geração de crianças e jovens, o de Morticia Addams. Aqui, Huston interpreta a Grande Chefe das Bruxas, que vê a convenção anual desta 'classe', realizada num popular hotel inglês, ser inadvertidamente exposta por dois jovens hóspedes do hotel, prontamente transformados em ratos para os impedir de contar o que descobriram.


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Huston como bruxa-chefe


O resto do filme segue os esforços dos protagonistas, Luke e Bruno, para conseguir o antídoto que lhes permitirá desfazer a maldição da bruxa, e travar os seus planos para criar uma poção que elimine do Mundo todas as crianças – uma missão que deixa muito espaço à criatividade e imaginação típicas da obra de Dahl (e o argumento de Alan Scott é extremamente fiel ao enredo do livro) bem como a alguns momentos bem assustadores, daqueles que o autor também muito apreciava, e que já raramente se vêem nos filmes de hoje em dia (e que dão azo a alguns excelentes efeitos práticos, bem típicos dessa era do cinema fantástico.)


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Uma imagem que certamente criou medo de bruxas em quem já não o tinha...


No cômputo geral, apesar de não atingir o estatuto de clássico, 'As Bruxas' não deixa de ser um filme bem representado (Huston, a favorita de Dahl para o papel de bruxa-chefe, justifica plenamente a escolha, tiramdo o máximo partido do seu papel) e que, como é habitual na obra de Dahl, respeita o seu público-alvo o suficiente para lhe providenciar duas horas de diversão inteligente, que justificava bem a ida ao cinema à época, e de que até mesmo os acompanhantes adultos conseguirão desfrutar sem adormecer na cadeira, como é o caso com tantos outros filmes infantis. Apesar de menos lembrado que 'Matilda' ou qualquer das duas adaptações de 'Charlie e a Fábrica de Chocolate', 'As Bruxas' de 90 merecem o seu lugar perto do cimo da lista de adaptações ao cinema de Dahl, sendo bem melhor do que coisas como 'James e o Pêssego Gigante' ou o recente (e aborrecidíssimo) 'BFG', de Steven Spielberg.


E por falar em recente, 'As Bruxas' foi, há cerca de dois anos, alvo de um daqueles inevitáveis 'remakes' de que Hollywood tanto parece gostar de momento. No novo filme, a acção é mudada do litoral inglês para o americano, sem qualquer justificação (uma espécie de 'Alta Fidelidade, Parte 2') e o papel de Grande Bruxa é atribuído a Anne Hathaway, uma herdeira e sucessora bem à altura de Huston, embora mais caricatural e, como tal, menos assustadora.


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Anne Hathaway é a nova bruxa-chefe no 'remake' de 2019


A performance da multi-facetada actriz é, infelizmente, a principal razão para ver um filme que, de resto, 'inventa' muito, adicionando personagens e momentos perfeitamente desnecessários, sem no entanto deixar de ser uma opção válida (e invulgarmente inteligente) no campo dos filmes para crianças modernos, e (como o original) perfeita para uma sessão de Halloween em família. Ainda assim, havendo escolha, o original de 1990 é bem mais recomendável, mesmo para quem não tem por ele qualquer nostalgia; é, simplesmente, um filme mais bem feito, que sobreviveu bem à passagem de mais de duas décadas, e que – como 'Matilda' ou os 'Charlies' – é bem-sucedido na sua missão de prestar homenagem áquele que continua a ser um dos maiores autores infanto-juvenis de sempre.

Friday, 11 February 2022

Sessão de Sexta: 'Matilda, a Espalha-Brasas'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Os anos 90 são, quase por unanimidade, considerados uma das melhores décadas para o cinema infantil. Num espaço de apenas dez anos, os mais novos puderam desfrutar da chamada Renascença da Disney, da continuação da era de ouro de Steven Spielberg, dos últimos bons filmes de Don Bluth, do desabrochar da Pixar, de vários filmes baseados em propriedades mega-populares como os Power Rangers, Tom e Jerry ou as Tartarugas Ninja, e de uma verdadeira miríade de outros títulos em géneros desde a acção à fantasia ou comédia.


É nesta última categoria que se insere um filme cuja passagem pelo cinema foi mais discreta que a de muitos outros ao longo da década, mas que reúne ainda hoje um grande número de entusiastas, pela sua mistura equilibrada entre gargalhadas e verdadeiro (e bem conseguido) sentimento.


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Falamos de 'Matilda, a Espalha-Brasas' – ou simplesmente 'Matilda' – a adaptação da obra homónima de Roald Dahl que celebrou, no final do ano passado, o 25º aniversário da sua estreia em Portugal, a 20 de Dezembro de 1996.


Centrado na personagem que lhe dá título, uma menina em idade de instrução primária com um gosto particular pela leitura e poderes muito especiais, o filme deu continuidade à trajectória ascendente da pequena Mara Wilson, que já tinha dado nas vistas em 'Papá Para Sempre', de 1993 (então ao lado de Robin Williams, Sally Field e Pierce Brosnan) e 'Milagre em Manhattan', de 1994 (e cuja carreira no grande ecrã viria, estranhamente, a findar alguns anos depois, ainda antes de a acritz atingir idade adolescente.)


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A jovem protagonista


Aqui, a menina de nove anos contracena com Danny DeVito e Rhea Pearlman, que quase 'roubam' todo o filme como os pais de Matilda, e ainda com Embeth Davidtz, no papel da sua doce e compreensiva professora, Miss Honey, numa daquelas adaptações quase literais da obra escrita em que se baseia – o que, como costuma suceder na maioria de tais casos, acaba por ser um ponto a favor do filme, já que a escrita de Dahl é conhecida pela sua inteligência, imaginação e criatividade, que permanecem quase intactas nesta adaptação para o grande ecrã. Nem as interpretações exageradas dos referidos DeVito e Pearlman (daquele calibre que é, normalmente, suficiente para fazer descarrilar um filme) destoam da atmosfera geral do filme, que já de si projecta uma certa aura de 'desenho animado de carne e osso', semelhante à de filmes como 'As Bruxas' (também uma adaptação de Dahl) ou 'Hook', de Spielberg, lançado alguns anos antes.


No cômputo geral, a impressão que fica no fim destes 98 minutos é a de um filme que, sem ser um clássico intemporal como 'Sozinho em Casa', por exemplo, constitui no entanto uma excelente sessão de cinema para toda a família, daquelas em que até os pais deverão conseguir ficar acordados, a rir dos estereotipados pais da protagonista, ou interessados no que a mesma conseguirá fazer com os seus poderes telecinéticos. Um daqueles filmes 'como já não se faz' hoje em dia, e que – até por estar disponível no Netflix europeu – merece bem uma re-visita, acompanhada (ou não...) pela nova geração de jovens cinéfilos.

Monday, 20 December 2021

Sessão de Segunda: 'Adeus, Pai'

NOTA: Dada a relevância temporal deste 'post', a Sessão de Sexta e as Segundas de Sucessos foram, temporariamente, trocadas. Se ainda não leram o post sobre música desta semana, podem fazê-lo aqui.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas (e, ocasionalmente, às segundas), recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O cinema português não é, nem nunca foi, conhecido pelas suas produções 'mainstream'; pelo contrário, a maioria das obras de realizadores nacionais são de índole muito, muito 'indie', e normalmente até algo pretensiosos, sendo portanto muito pouco apelativos para o público jovem.


Ainda assim, de quando em quando, a filmografia nacional lá vai produzindo uma ou outra película mais 'palatável' para as demografias de menor idade - e, nos anos 90, estrearam nas salas nacionais não um, mas dois exemplos disto mesmo. De um deles, 'Zona Jota', já falámos num post anterior neste blog; o outro celebra hoje, dia 20 de Dezembro, exactos vinte e cinco anos, tornando-o no tópico ideal para a rubrica desta semana.


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Trata-se de 'Adeus, Pai', filme realizado por Luís Filipe Rocha e que proporcionou o papel de estreia a José Afonso Pimentel, então com a mesma idade do personagem que protagoniza - Filipe, um jovem de 13 anos cujo relacionamento com o pai, Manuel, vivido pelo veterano João Lagarto, constitui o centro dramático do filme.


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Os dois protagonistas do filme


Apoiado num enredo simples mas eficaz, e tirando o máximo partido das pitorescas paisagens dos Açores, onde a acção se desenrola, 'Adeus, Pai' é, como já referimos, um filme de digestão algo mais fácil do que a média das películas nacionais (particularmente as da época) ainda que de estética marcadamente europeia, e concretamente latina - do ponto de vista técnico, o filme tanto poderia ser italiano ou espanhol como português. Não será, talvez, o tipico filme de Natal para ver em família, mas como obra cinematográfica, envelheceu marcadamente bem, e não deixa portanto de constituir uma escolha de bastante valor para quem procure algo diferente (e um pouco mais 'arty') com que passar o tempo nesta quadra.


Friday, 3 December 2021

Sessão de Sexta: 'Fievel no Faroeste'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Um dos mais antigos e universalmente aceites axiomas do cinema diz que 'as sequelas nunca são tão boas quanto os originais'. E embora esta afirmação já não seja cem por cento verdadeira ('Shrek 2', por exemplo, é um filme vastamente superior ao original em quase todos os aspectos) o rácio de sequelas de valor para sequelas desapontantes permanece baixo o suficiente para a podermos considerar, no cômputo geral, correcta.


Ainda assim, 'abaixo do original' nem sempre significa, necessariamente, 'mau'; existem casos em que o filme de origem se situa tão acima da média que mesmo uma sequela menos bem conseguida não deixa de ser um bom filme. A 13 de Dezembro de 1991, há quase exactamente trinta anos, estreava em Portugal um filme que ilustrava perfeitamente este paradigma, ficando uns furos abaixo do magnífico original, mas afirmando-se mesmo assim como uma experiência cinematográfica bem divertida.


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Falamos de 'Fievel no Faroeste', a primeira das três sequelas para 'Fievel: Um Conto Americano', a obra-prima de Don Bluth lançada em 1987, e que conseguia a proeza de usar roedores animados para explorar (e de forma bastante séria!) o fenómeno da imigração de cidadãos europeus para a América, em finais do século XIX e inícios do seguinte. Com momentos tocantes, assustadores e divertidos em igual medida, este filme foi um merecido sucesso entre o seu público-alvo, e continua hoje a ser lembrado como talvez o melhor dos vários grandes filmes lançados por Bluth – um feito nada desprezível, se considerarmos que essa lista também inclui clássicos como 'Em Busca do Vale Encantado' e 'Todos os Cães Merecem o Céu', cada um dos quais capaz de ombrear com o melhor que a Disney vinha oferecendo na altura.


'Fievel no Faroeste' não está a esse nível, mas verdade seja dita, também não parece muito preocupado em o atingir; trata-se de um filme muito mais assumidamente 'para crianças', que tem no gato vocalizado (no original) por Dom DeLuise muitos dos seus motivos de interesse, e em que a vertente de análise e crítica social é muito menos pronunciada. Tal não significa, no entanto, que se trate de uma sequela 'às três pancadas', antes pelo contrário – a par de 'Todos os Cães...2', é uma das poucas sequelas dos estúdios de Bluth que NÃO se insere nesta categoria, apresentando um trabalho técnico cuidado e um enredo sem momentos mortos nem cenas 'para encher chouriços', que faz com que os seus cerca de 80 minutos de duração passem prazerosamente.


Em suma, sem ser um clássico intemporal como o seu antecessor, 'Fievel no Faroeste' é – ainda hoje – um filme para crianças acima da média, que não deixa o primeiro 'Conto Americano' ficar mal, e que certamente será alvo de boas reacções por parte do seu público-alvo, mesmo nos dias de hoje (por aqui, foi visto à época da estreia, com seis anos, e muito apreciado.) Pena é, pois, que tanto Bluth como os seus antigos empregadores, e mais tarde rivais – a Disney – tenham decidido enveredar pelo ramo das sequelas 'directas para vídeo' destinadas exclusivamente a 'sossegar os putos' durante uma hora – fazem falta filmes (e sequelas) como 'Fievel no Faroeste', capazes de justificar a transformação de uma propriedade intelectual em 'franchise', e de se 'aguentarem' tão bem ao fim de três décadas como na época da sua estreia.

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