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Tuesday, 2 December 2025

Terças de TV: Vinte e Cinco Anos de Uma Série 'Catita' e Injustamente Esquecida

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


No que toca a programas infantis de cariz ao mesmo tempo interactivo e remoto na televisão portuguesa de finais do século XX, vêm imediatamente à memória duas variantes: por um lado, os programas 'de auditório', como 'Batatoon' ou 'Buereré', em que as crianças ligavam para participar de passatempos e ganhar prémios, e, por outro, o lendário 'Hugo', em que era dada aos espectadores a possibilidade de assumir um papel menos passivo, e controlar activamente os acontecimentos mostrados no ecrã da televisão. E se este último é, ainda hoje, lembrado e 'reverenciado' por toda uma faixa demográfica que atingiu na 'altura certa', um outro programa semelhante, embora com a sua própria abordagem ao género, encontra-se, por sua vez, um pouco 'esquecido' pela 'sua' geração, um quarto de século após a sua estreia.


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Surgido pela primeira vez nos ecrãs nacionais em meados de Novembro de 2000, por intermédio da TVI, 'Rita Catita e o Ursinho Oops' aplicava o conceito de 'Hugo' a um contexto menos competitivo e mais narrativo, criando algo único e que não se tornaria a repetir na televisão portuguesa: essencialmente um desenho animado 'ao vivo', em que as falas eram gravadas (e, muitas vezes, improvisadas) no momento, para reflectir a conversa com a criança do outro lado da linha, ou os acontecimentos que a mesma despoletara. Assim, apesar de cada episódio ter, nominalmente, uma história, a mesma era vaga o suficiente para acomodar os 'imprevistos' da gravação ao vivo sem que, com isso, a coerência narrativa saísse prejudicada, permitindo às cianças liberdade para interagirem com os personagens titulares (e até com outras crianças que ligavam em simultâneo) conforme desejassem.


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A personagem principal e titular.


Apesar de o foco ser na história, no entanto, 'Rita Catita' adoptava também o elemento competitivo do seu antecessor em certas partes do programa, podendo as crianças testar a sua perícia e reflexos com um jogo de tiro ao alvo, por exemplo. Esta vertente ajudava, se possível, a dar ao programa ainda mais originalidade, fazendo dele uma experiência única na televisão portuguesa, senão mesmo mundial – o que torna ainda mais surpreendente o facto de a emissão ser tão pouco lembrada hoje em dia pela parcela mais nova da geração 'millennial', que teria sido o principal público-alvo da mesma naqueles primeiros meses do século XXI. Talvez a referida demografia não seja tão nostálgica quanto os seus antecessores, ou talvez o programa não tivesse sido marcante o suficiente, ou talvez se trate apenas de uma questão de tempo, e se venha a assistir, daqui a alguns anos, a uma vaga de nostalgia por 'Rita Catita'; seja como fôr, o referido programa não deixa, à data, de ser um dos mais injustamente Esquecidos Pela Net da História da televisão portuguesa, apresentando um conceito e execução verdadeiramente originais e distintos, que mereciam ter tido mais impacto na cultura popular infantil portuguesa da época em que foi transmitido.



O único 'clip' do programa ainda disponível na net.

Sunday, 1 June 2025

Saídas de Sábado / Sábados aos Saltos / Domingos Divertidos: O Dia da Criança nos Anos 90 - Possibilidades (Quase) Infinitas

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 31 de Maio e Domingo, 1 de Junho de 2025.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


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Muitos programas infantis assinalavam a data com emissões especiais


O dia 1 de Junho assinala, desde a década de 60, o Dia Mundial da Criança, e, como tal, não é de admirar que, a cada ano, se organizem um pouco por todo o Mundo uma série de eventos, actividades e festividades para assinalar essa data. O Portugal dos anos 90 não era, de todo, excepção a esta regra, podendo as crianças lusitanas de finais do século XX desfrutar de uma série de eventos alusivos à data, fossem mais localizados e 'de bairro' ou de âmbito mais global, abrangendo toda uma localidade ou até região.


Para além destas possibilidades de Saídas de Sábado que permitiam passar, simultaneamente, um Sábado aos Saltos e um Domingo Divertido, também os programas televisivos dirigidos à demografia mais jovem assinalavam a data, fosse apenas através de menções no decurso de um episódio 'normal', ou mediante uma emissão especial (mais longa ou até num dia em que normalmente não passava o programa) especificamente dedicada a este fim. É, pois, fácil de perceber que, apesar de viverem numa época mais simples e de menores recursos, as crianças dos anos 90 em nada ficavam a perder face às suas congéneres actuais no que ao dia 1 de Junho dizia respeito. A elas, e aos potenciais filhos que possam, entretanto, já ter, resta-nos desejar o resto de um excelente Dia Mundial das Crianças.


 

Tuesday, 26 July 2022

Terças de TV: 'Mix Max', o 'Outro' Programa Infantil da TVI de Finais dos Anos 90

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Quem pensa em blocos de programação infantis da TVI de finais dos anos 90, decerto pensará de imediato no lendário Batatoon, um dos maiores sucessos da História do canal, e um dos mais conhecidos e populares programas infantis de sempre em Portugal, principalmente devido à sua mirabolante grelha de desenhos animados, que incluiu séries  como 'Samurai X', 'Sonic Underground', 'Navegantes da Lua', 'Homens de Negro' ou 'Digimon Adventure'; quem, no entanto, assistia ao mesmo canal aos dias de semana da parte da manhã, durante a mesma época, certamente se lembrará de um segundo programa, apresentado por uma dupla de 'bonecos' com pinta de radialistas e química a condizer que, sem nunca ter atingido os níveis de audiência do congénere das tardes da 'Quatro', apresentou ainda assim uma alternativa bem válida ao mesmo para quem tinha aulas depois do almoço.


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Falamos de 'Mix Max', bloco infanto-juvenil estreado mesmo ao 'cair do pano' do novo milénio – a primeira emissão vai ao ar algures em 1999 - e que, sem bater o recorde de longevidade do Batatoon, conseguiu ainda assim permanecer nos ecrãs nacionais uns honrosos dois anos, até 2001. De conceito substancialmente diferente do programa dos palhaços Batatinha e Companhia (apesar de uma sinopse divulgada no artigo relativo ao programa do nosso congénere Desenhos Animados Anos 90 falar em audiência ao vivo, bem como de um terceiro boneco, do sexo feminino, este formato planeado nunca chegou a ser levado avante, sendo o programa uma emissão exclusivamente de estúdio e centrada no duo homónimo) este bloco vivia muito mais da qualidade e interesse dos segmentos e desenhos animados que exibia, o que poderá explicar o porquê de não ter durado tanto quanto o seu programa-irmão, cuja índole era bem mais variada; ainda assim, os apresentadores DJ Mix e MC Max – um daqueles duos de 'melhores inimigos', à semelhança dos 'colegas' Batatinha e Companhia e de personagens como Egas e Becas, da Rua Sésamo, com uma aparência que lembrava um cruzamento entre Terrence e Phillip, de 'South Park', e o famoso 'Boneco Amarelo' do 'Curto Circuito' – chegaram a ser responsáveis por proporcionar muitos e bons momentos às crianças e jovens nacionais, nomeadamente através da exibição dos excelentes 'animes' inspirados em histórias clássicas, aos quais já aqui dedicámos um 'post'.


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A carismática dupla de apresentadores do programa


Ainda assim, fosse pelo horário menos ideal fosse pelo teor mais simplista do próprio conceito do programa, a verdade é que Mix e Max nunca lograram intrometer-se no 'monopólio' que Batatinha e Companhia detinham sobre os programas infantis da estação de Queluz à época – uma situação que nem um tema de abertura tão ou mais memorável que o do programa dos palhaços ajudou a alterar.



O contagiante genérico do programa não foi, infelizmente, suficiente para o tornar mais memorável junto do público-alvo.


Quem lá esteve, no entanto, sabe que este programa, apesar de 'menor', tinha ainda assim os seus méritos, nomeadamente o de proporcionar desenhos animados de qualidade a quem não conseguia estar em casa a horas de ver o 'Samurai X' ou os 'Digimon' – argumento, por si só, mais que suficiente para lhe valer a homenagem nesta rubrica do nosso blog.



'Spot' promocional alusivo ao programa

Tuesday, 12 July 2022

Terça de TV: 'Os Segredos do Mimix'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Quando o assunto são blocos de entretenimento infantil da década de 90, alguns nomes são incontornáveis: a SIC teve o lendário 'Buereré', a TVI teve 'A Casa do Tio Carlos' e, mais tarde, o não menos icónico 'Batatoon', e a RTP teve o 'Brinca Brincando'. Estabelecido ainda durante os anos 80, o espaço infantil da RTP diferia dos supramencionados blocos da 'concorrência' por apresentar, periodicamente, uma mudança de conceito, apresentação e formato, que lhe permitia manter-se 'fresco' e relevante, captando assim continuamente a atenção do público-alvo.


Uma dessas 'lavagens de cara' deu-se, precisamente, nos primeiros dias da nova década, quando a emissora estatal levou ao ar o primeiro episódio de 'Os Segredos do Mimix', o novo conceito unificador do bloco, que via a actriz Paula Fonseca contracenar com o 'robot' do título, um suposto extraterrestre cuja nave se havia despenhado no sótão da infeliz jovem, e cuja existência a mesma tinha de manter oculta do resto do Mundo – uma ideia não tanto inspirada como copiada de séries e filmes de enorme sucesso à época, como 'E.T,' ou 'Alf'. A diferença residia no facto de Mimix ser um enorme terminal de computador 'à moda antiga', cuja principal fonte de alimentação eram cassettes VHS com desenhos animaos, que Paula inseria periodicamente na ranhura que servia de boca ao 'robot', justificando assim a proveniência dos desenhos animados exibidos.


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A peculiar dupla de apresentadores do programa


Apetrechado com todos os factores necessários ao sucesso – da boa química existente entre a actriz e o intérprete vocal do 'robot' a uma excelente selecção de desenhos animados, e música de abertura do então omnipresente Carlos Alberto Moniz – não foi de estranhar que Mimix e Paula fossem bem recebidos pelo público-alvo, e que a rubrica que co-apresentavam tivesse conseguido durar mais de um ano, surgindo ambos os protagonistas no Especial de Natal da RTP de 1990. E embora, inevitavelmente, o Brinca Brincando tivesse continuado na sua senda de mudança, deixando para trás o alienígena comedor de VHS e a sua amiga secreta, a verdade é que os mesmos constituíram uma das mais memoráveis e populares duplas de apresentadores do espaço, merecendo bem a homenagem neste nosso blog.


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Paula Fonseca e José Jorge Duarte, o 'Lecas' - dois dos apresentadores infantis mais populares da sua era de televisão

Tuesday, 5 April 2022

Terças de TV: 'Tal Pai, Tal Filho'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Há alguns meses atrás, falámos aqui do Lecas, o personagem 'criança grande' que, em finais da década de 80 e inícios de 90, apresentava a sua Hora homónima, e que se tornou tão popular que chegou a gravar e editar um disco de músicas originais; hoje, vamos falar do próximo projecto abraçado pelo homem que o criara e lhe vestira a pele durante vários anos – o apresentador José Jorge Duarte.


Em estado de graça entre o público infantil, como resultado do seu estilo hiperactivo e energético de actuar enquanto Lecas, Duarte decidiu, em 1991, despir o 'fato' de personagem, e tentar a sua sorte em nome próprio, e num formato diferente: enquanto que a 'Hora do Lecas' era um programa de variedades com foco na apresentação de desenhos animados, o novo projecto seria um concurso de moldes clássicos. Em comum, os dois programas tinham, apenas, o facto de serem gravados em auditório, e dirigidos a um público infanto-juvenil, aquele que mais facilmente reconheceria o nome do apresentador, e teria interesse numa emissão por ele apresentada.


O resultado final deste desiderato foi 'Tal Pai, Tal Filho', concurso produzido pela Duvídeo, de Teresa Guilherme, e estreado na mesma RTP d''A Hora', menos de um ano depois de a mesma ter saído do ar - um 'timing' presumivelmente destinado a evitar que o nome de Duarte se esvaísse da sempre efémera memória das crianças.


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Com muitas semelhanças com outros concursos da época, como a mítica 'Arca de Noé' – então no pico da popularidade, e que adoptaria um formato semelhante para as suas últimas temporadas, apresentadas por outro ícone da televisão infantil da época – 'Tal Pai, Tal Filho' via equipas de um adulto e uma criança (normalmente familiar ou amiga) competir entre si em provas de cariz criativo e cultural, que iam desde criar um conto a cantar uma música ou representar uma peça de teatro.


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O apresentador, junto ao quadro com as diferentes categorias de provas disponíveis


A julgar cada 'performance' estava um júri de celebridades e respectivos mini-companheiros (também eles familiares ou amigos próximos dos jurados), cujas classificações numéricas de 0 a 10 perfaziam o total de pontos de cada equipa. No final, a equipa vencedora tinha direito a escolher entre uma série de prémios bastante típicos dos concursos da época e, na altura, incrivelmente aliciantes, desde viagens a computadores e outros produtos electrónicos. Pelo meio, havia ainda lugar aos interlúdios musicais típicos deste tipo de programa à época.


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Um típico painel de jurados do programa


Nada de incrivelmente inovador, portanto, mas suficiente para satisfazer o público-alvo, para quem o conceito interessante e um Duarte tão energético como sempre (já para não falar do tema inicial, daqueles tão 'peganhentos' que por aqui, ainda é parcialmente recordado três décadas depois) eram suficientes para justificar a hora passada à frente da televisão – embora não chegassem para manter o concurso no ar mais do que um ano.


Sim, 'Tal Pai, Tal Filho' foi mais um de entre vários concursos noventistas a desaparecer das televisões portuguesas tão rapidamente quanto tinha surgido; no caso, foram 41 emissões semanais, entre Outubro de 1991 e Agosto do ano seguinte, uma marca bem aquém da referida Arca de Noé (que se manteria no ar mais três anos, estabelecendo-se como o programa de concursos infantil mais duradouro da época) e mais condicente com emissões tão Esquecidas Pela Net como o Trocado em Miúdos (do qual, em tempo, também aqui falaremos.)


Ainda assim, para quem viu e fazia parte da demografia-alvo, tratou-se de um programa bem conseguido, que tentou afirmar-se por mais do que apenas o nome do apresentador, missão que, de um certo prisma, se pode dizer ter sido cumprida – ainda que não de forma tão longeva quanto, presume-se, teria sido desejável para a direcção da RTP. O referido apresentador, esse, transitaria para novos e mais altos vôos, nem todos direccionados ao sector infanto-juvenil (embora os mais famosos definitivamente o sejam). Desses, talvez um dia falemos; para já, e para quem não viu ou quiser matar saudades, partilhamos abaixo o único episódio de 'Tal Pai, Tal Filho' disponível online, para que os nossos leitores tirem as suas próprias conclusões sobre se o mesmo merecia ou não ter permanecido mais tempo no ar...


Monday, 7 February 2022

Segundas de Sucesso: Os LP's da 'Arca de Noé'

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Nos anos 90, como em décadas anteriores, ver ser lançado um disco relativo a um qualquer programa de grande popularidade entre os jovens não era nada de novo. Tal como acontecia com o cinema, e as respectivas bandas sonoras com músicas 'constantes ou inspiradas' no filme em causa, a produção musical era vista como apenas mais um de muitos meios possíveis para facturar com um determinado produto mediático, comparável a aspectos como o vestuário (oficial ou pirata), os brinquedos ou os jogos de computador; e a verdade é que - de programas 'de auditório' com apresentadores carismáticos, como o Buereré, o Batatoon, a Hora do Lecas ou o Muita Lôco, até programas educativos como a Rua Sésamo, ou mesmo alternativas menos óbvias, como as animações d'Os Patinhos ou (reza a lenda) o Dragon Ball Z - foram muitos e bem variados os programas que beneficiaram desta estratégia em Portugal durante aquela época.


Menos comum, no entanto, era ver lançamentos discográficos associados a concursos televisivos, o que não deixa, bem vistas as coisas, de fazer sentido; afinal, é difícil imaginar um álbum de canções baseado na Amiga Olga ou na Roda da Sorte, por exemplo. No entanto, na década a que este blog diz respeito, houve pelo menos um exemplo dessa estratégia a ser aplicada a um programa deste tipo, nomeadamente, os dois LP's com músicas retiradas do programa 'Arca de Noé'.


Verdade seja dita, a 'Arca de Noé', da qual aqui falaremos muito em breve, prestava-se melhor a este tipo de empreitada do que a maioria dos outros concursos, não só por ser declaradamente dirigida ao público infanto-juvenil, como por ser apresentado por Carlos Alberto Moniz, mais tarde também conhecido como Tio Carlos, dono de uma Casa num canal rival, e já na altura um conceituado compositor de músicas para crianças. A junção destes factores – a demografia-alvo do programa e o talento do apresentador – resultou, naturalmente, na produção de vários temas musicais centrados em torno do tema do programa, a saber, os animais e a vida selvagem.


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Foram estes temas, num total de catorze – já contando com duas repeitições do memorável e contagiante genérico do programa, a abrir e a fechar, tal como na televisão – que perfizeram o alinhamento do primeiro LP da 'Arca de Noé', lançado mesmo no dealbar da nova década pela editora Ariola, e que contava com a presença, na capa, do Vitinho, mascote da Milupa, marca associada ao programa na qualidade de patrocinador. Não que o disco precisasse desta 'recomendação' extra para ser, previsivelmente, um sucesso de vendas entre a criançada, vinculado como estava a um dos mais populares programas infantis portugueses da altura.


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Como também seria de esperar, a boa prestação deste primeiro álbum no mercado levou à produção de uma mais que natural sequela. Lançado dois anos depois do original – e com o sucesso do programa-pai ainda no auge, o que diz muito sobre a aceitação do mesmo entre o público-alvo – 'Arca de Noé 2' seguia exactamente os princípios de uma boa sequela, do título óbvio e pouco original à filosofia 'mais e maior', que via duplicar o número de discos deste segundo capítulo, e expandir-se o número de músicas de catorze para vinte e quatro (seis por lado de cada um dos LP's), mais uma vez precedidas e antecedidas por duas repetições do tema-genérico do programa. Ao contrário da maioria das sequelas, no entanto, neste caso o segundo capítulo tinha tanta qualidade como o primeiro, e os volumes de vendas voltaram a reflecti-lo, com o público-alvo novamente a aderir à proposta de Moniz e companhia.


Como disse em tempos George Harrison, no entanto, 'tudo deve passar', e o ciclo da 'Arca de Noé' como ponto alto das tardes de semana das crianças dos anos 90 acabou mesmo por chegar ao fim, antes que o apresentador e respectiva equipa de produção pudessem conceber um terceiro volume de músicas alusivas ao programa. Ainda assim, os dois LP's lançados constituem um excelente exemplo de música infantil de qualidade produzida em Portugal durante aqueles anos, exibindo uma vertente menos simplista e comercial que um título como 'As Canções do Lecas', sem por isso serem menos memoráveis ou atractivas para o seu público-alvo; no fundo, os mesmos princípios que haviam tornado o programa-pai num dos maiores êxitos da televisão infantil de inícios daquela década, ainda hoje lembrado com carinho por quem a ele assistiu. Desse aspecto, no entanto, falaremos num próximo post; até lá, aqui fica um dos melhores temas de qualquer dos álbuns, para vos animar a noite...


Monday, 31 January 2022

Segundas de Séries: 'Heathcliff, Heathcliff, É Um Gaaaatoooo...'

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Quando aqui falámos do primeiro programa infantil de sempre da TVI, 'A Casa do Tio Carlos', referimos que o mesmo tinha, inicialmente, tido dificuldade em se estabelecer como alternativa aos super-populares Brinca Brincando (da RTP) e Buereré (da SIC), e que tal desiderato só havia sido atingido depois de o bloco ter adquirido aquela que viria a ser a sua série-estandarte.


Essa série era 'Heathcliff', um 'cartoon' de inspiração declarada no então super-popular 'Garfield', mas que demonstrava originalidade e competência de execução suficientes para levar o seu público-alvo a sintonizar a TVI às tardes de semana, e para assegurar três anos de transmissão contínua no canal de Queluz - um ciclo de vida quase exactamente coincidente com o do programa de que fazia parte - bem como um regresso, já no novo milénio e em versão dobrada em Espanhol (!) nos canais infantis da TV por cabo (a razão pela qual não voltou simplesmente a ser exibida a mesma dobragem já existente não é, infelizmente, clara.)


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Heathcliff, o personagem que dava nome à série, tinha iniciado a vida como protagonista de uma série de tirinhas de banda desenhada destinadas à inclusão nos suplementos de banda desenhada dos jornais de fim-de-semana norte-americanos (os chamados 'Sunday funnies') onde, ironicamente, partilhava do mesmo espaço com a sua principal inspiração, Garfield. Ao contrário daquele gato cor-de-laranja, listrado e gordo, no entanto, ESTE gato cor-de-laranja, listrado e gordo estava mais interessado em pregar partidas ao leiteiro, ao peixeiro e ao inevitável cão da vizinhança, ou em namoriscar a não menos inevitável gatinha bonita da casa ao lado, do que necessariamente em comer e dormir – embora também fossem numerosas as piadas em torno da sua preguiça – evitando assim o rótulo de plágio total e completo, e justificando a continuidade da sua publicação, que se estendeu por várias décadas, e ainda a proposta de adaptação para desenho animado, já na década de 80.


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Uma tirinha de Heathcliff


Esta última não vinha, no entanto, sem algumas complicações; especificamente, os responsáveis por avalizar e aprovar o projecto achavam que a base das aventuras de Heathcliff era algo redutora para uma série completa de episódios animados (um meio substancialmente diferente do das 'comic strips') e que não iria captar e cativar a atenção do público-alvo. Foi, pois, considerado necessário 'incrementar' a nova série com novos elementos – uma decisão que viria a alterar completamente o espectro, recepção e percepção da mesma.


Isto porque a solução encontrada passou pela criação de um grupo de personagens totalmente inédito - um bando de gatos de rua (que incluía uma fêmea de anatomia marcadamente humana, que terá decerto inspirado muitas fantasias 'furry'), residentes num velho carro Cadillac abandonado junto a um ferro velho, e liderados por Riff-Raff, um gato atarracado, de enorme boina de ardina e lenço ao pescoço, numa espécie de cruzamento entre Scrappy-Doo (o sobrinho de Scooby) e Manda-Chuva. Este novo grupo (conhecido, na versão original, como Catillac Cats) não tardaria a roubar protagonismo ao personagem que dava nome ao programa, tornando-se, para muitos dos pequenos espectadores, o principal motivo de interesse do mesmo.


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Os novos personagens criados em exclusivo para a série


Isto porque, enquanto os episódios centrados em Heathcliff seguiam uma vertente mais próxima dos 'comics' originais, baseada em humor pastelão e frenético de moldes clássicos, Riff-Raff e o seu bando tendiam a protagonizar histórias de cariz mais voltado à aventura, e com maior ênfase na história, num estilo mais próximos dos programas que faziam sucesso à época. No entanto, tal como havia fãs de Riff-Raff e do seu bando, também havia quem apenas quisesse acompanhar as aventuras cómicas do 'gato bem disposto e educado', considerando as segundas partes de cada episódio da série apenas como um 'mal necessário'.


No cômputo geral, no entanto – e apesar das histórias algo simplistas e da animação notoriamente barata e pouco cuidada – 'Heathcliff' conseguia oferecer um pouco de tudo, aliando (ainda que nem sempre com grande fluidez) a vertente de animação mais clássica com as características necessárias a uma série dos anos 80 e 90. Sem ser um programa histórico ou até digno de especial relevo (o seu aspecto mais memorável será mesmo o irresistível genérico, interpretado por Paulo Brissos), a série representava uma forma perfeitamente válida (e não-violenta) de passar meia-hora depois da escola, e certamente despertará memórias nostálgicas, ainda que vagas, em alguns dos leitores deste blog. E para quem não se lembra, deixamos abaixo um pequeno 'activador' de memória...


Tuesday, 25 January 2022

Terças de TV: 'A Hora do Lecas'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Desde o início deste blog, já várias vezes aqui falámos da importância dos apresentadores no sucesso (ou falta dele) de um programa dirigido ao público infantil ou jovem. Sem ter sido, de todo, exclusivo desta era da cultura ocidental moderna, este fenómeno teve, no entanto, no final do século XX a sua época áurea, deixando para a posteridade um rol de nomes ainda hoje reconhecíveis, quer no estrangeiro (em que a brasileira Xuxa ou o americano Mr. Rogers vêm imediatamente à memória) quer em Portugal, onde as crianças e jovens das décadas de 80 e 90 tiveram o prazer de conhecer e conviver com personalidades tão carismáticas como Júlio Isidro, José Figueiras, Ana Malhoa, Rita Mendes, Batatinha, ou o nome a que dedicamos o 'post' de hoje, José Jorge Duarte.


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O actor e apresentador, na pele do personagem que o popularizou


'Nascido' para a televisão aos 16 anos, quando foi finalista do concurso Écran Mágico, promovido pela RTP 2, José Jorge Marques Duarte de Jesus viria, nas décadas seguintes, a cimentar a sua posição como uma das personalidades mais populares entre o público mais jovem, primeiro pela sua presença 'em carne e osso' em vários concursos e séries populares e, mais tarde, através da sua voz, que fez parte do elenco de dobragens tão icónicas como a da Rua Sésamo original (onde foi responsável pela icónica e inesquecível voz do permanentemente nervoso Gualter) ou a do filme 'Shrek', de 2001, em que teve a árdua tarefa de replicar a memorável prestação de Mike Myers no papel principal. Para uma certa e determinada fatia da população, no entanto – a mesma que, à época, terá rido com o Gualter, sem saber nem se importar com quem o dobrava – o actor, apresentador e humorista ficará, para sempre, associado com uma só personagem: o Lecas, apresentador da 'Hora' com o mesmo nome.


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Estreada em 1989, 'A Hora do Lecas' - programa substituto do anterior bloco de programação infanto-juvenil da RTP, 'Juventude e Família', mas agora às tardes de semana, por oposição às manhãs de Sábado e Domingo - gozou de popularidade imediata entre o público alvo, não só pela excelente selecção de desenhos animados que o programa propunha, como também pela personalidade castiça, desbocada e algo hiperactiva do apresentador, que recuperava para esse efeito um personagem criado ainda no âmbito do bloco familiar anterior. A típica 'criança grande' em corpo de homem crescido, o Lecas era um daqueles apresentadores que nunca 'parava quieto', não se limitando a servir de mero interstício entre duas séries animadas, mas antes dinamizando (por vezes até demais...) os segmentos que permeavam essas mesmas séries, e que incluíam os habituais jogos, momentos didácticos, interacções com o público e prestações de artistas musicais convidados – alguns, como também era apanágio da época, bem inesperados, como foi o caso dos Censurados, que promoveram no programa o seu álbum homónimo, de 1990.



Um formato, portanto, quase idêntico ao de outros espaços infantis do mesmo período, como o 'Clube Disney', e que, como tal, não podia deixar de agradar aos mais novos. De facto, foi tal a popularidade do Lecas – em grande medida auxiliada pelo horário de transmissão do programa, que punha o apresentador nas televisões infantis quatro dias por semana, mesmo à hora de chegada do público-alvo da escola – que o mesmo foi, em Outubro de 1990, 'promovido' a uma nova posição. 'Lecas, Mais Certo Que Sem Dúvida' (nome algo infeliz no que toca à memorização futura) via o personagem regressar ao espaço que o vira, literalmente, nascer – as manhãs de fim-de-semana – embora agora com um contexto bem mais sóbrio, em que Lecas se limitava a apresentar cada nova série, ao mesmo tempo que mostrava desenhos enviados pelas crianças.


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Um formato completamente errado, tanto para a personalidade que Duarte desenvolvera para o personagem como para o público-alvo, que não queria uma imitação infanto-juvenil do Agora Escolha (nem precisava, já que o original primava pela popularidade entre o mesmo segmento.) Saldou-se, assim, em pouco mais do que seis meses a duração da experiência – tempo, ainda assim, suficiente para Lecas conseguir um último êxito junto do 'seu' público, através do lançamento do disco 'As Canções do Lecas', composto por uma dúzia de temas de 'pop rock' infantil, interpretados 'in character', e do qual aqui falámos no nosso último post.


Poucos meses depois, o Lecas – tal como as crianças da 'viragem' da década de 80 para a de 90 o haviam conhecido – desaparecia para sempre das televisões portuguesas, ao mesmo tempo que o seu criador progredia para programas mais 'adultos', e explorava outras vertentes, como o teatro. E apesar de hoje pouco lembrado – mesmo no contexto da carreira de José Jorge Duarte - quem teve o privilégio de com ele conviver nas tardes depois da escola sabe que o divertido e carismático personagem nada deixava a desejar a qualquer dos seus contemporâneos, merecendo destino melhor do que cair no (quase) esquecimento no contexto da cultura popular portuguesa...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...