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Thursday, 5 March 2026

Quintas de Quinquilharia: Trinta Anos de Uma Colecção 'Multi-Facetada'

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Qualquer português nascido ou crescido durante os anos 90 e 2000 reconhece essa era como sendo o período áureo para brindes oferecidos por produtos alimentares; das batatas fritas da Matutano aos cereais da Kellogg's e Nestlé, passando pelos ovos Kinder, pelos produtos da Panrico e até por fontes menos tradicionais (como iogurtes ou bolachas) eram inúmeras as marcas a procurar 'comprar' a atenção do público jovem através de ofertas mais ou menos extravagantes, que iam de simples cromos a figuras ou até brindes menos ortodoxos, como adereços, reflectores de bicicleta ou mesmo jogos de computador ou livros de banda desenhada. E se nem todas estas promoções atingiam o estatuto icónico gozado pelas mais memoráveis da época, algumas não se poupavam a esforços para pelo menos almejarem os seus 'quinze minutos de fama', sendo um dos melhores exemplos a colecção de que falamos neste 'post', veiculada há quase exactos trinta anos (algures em 1996) por um produto e companhia pouco usuais – o chocolate Twix, da Mars – mas que chegou a 'conquistar' os jovens portugueses aquando do seu lançamento, graças a um conceito e execução cuidados e apurados


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Tratava-se de 'Spacix', nome de uma colecção de cartas tematizadas em torno de extraterrestres inspirados em motivos musicais (e com 'designs' meio 'animados' e bem interessantes), e que oferecia dois grandes pontos de interesse para as crianças e jovens da época: por um lado, o efeito lenticular, que fazia com que as imagens 'mexessem' quando a carta era manuseada de uma certa forma, e, por outro, um típico jogo de 'valores', ao estilo do das populares Super Cartas da Majora ou das posteriores colecções 'Bollykaos' e 'Dragonflash'.


A série reunia, assim, em apenas um produto três dos principais 'chamarizes' para a então jovem geração 'millennial' – um efeito visual 'fixe' (numa era em que tais 'truques' ainda não haviam sido 'abafados' pela revolução digital), a vertente coleccionista e o sempre importante aspecto competitivo, que manteve os 'putos' da época a disputar 'duelos' de 'Spacix' durante os meses posteriores ao seu lançamento. E apesar de, hoje, ser apenas mais uma colecção esquecida pela memória colectiva nostálgica nacional, a verdade é que esta série é intemporal o suficiente para poder ser relançada hoje em dia e cativar os actuais 'miúdos' das gerações Z e Alfa como, há quase exactas três décadas, fez com os seus pais e educadores, merecendo por isso ser mais lembrada pelo seu (hoje adulto) público-alvo.

Thursday, 17 October 2024

Quintas de Quinquiharia: A Precursora das 'Colecções-Mistério'

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Hoje em dia, o conceito de 'pacotes-mistério' – ou seja, embalagens opacas que prometem uma figura ou brinde da colecção a que são alusivas, mas não especificam qual, estando parte da emoção, precisamente, no mistério – é por demais popular entre as crianças e jovens das gerações 'Z' e 'Alfa'; no entanto, o referido sistema tem raízes bastante mais antigas do que se possa pensar, fazendo já sucesso junto das demografias 'X' e 'millennial'. De facto, uma das instâncias mais antigas desse tipo de fenómeno em Portugal remonta ao início dos anos 90, quando grande parte das crianças e jovens nacionais decidiram coleccionar porquinhos.


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Alguns dos muitos porquinhos da colecção.


Sim, nos anos antes dos ovos Kinder popularizarem as colecções de 'bonequinhos' como brinde alimentar, já uma companhia havia procurado explorar esse mercado de forma mais tradicional, através do lançamento de uma colecção de porquinhos 'humanizados' (ainda que não antropomórficos) com as mais variadas temáticas, de bebés de touca ou babete a árbitros de futebol ou boxeadores, passando por porcos de fato (um dos quais fazia lembrar a icónica indumentária de Babar) ou porcas fêmeas de batom ou a fazer bailado, entre muitas outras figuras altamente coleccionáveis, e apelativas para ambos os sexos – embora, claro, houvesse sempre algumas consideradas demasiado femininas para os rapazes, ou vice-versa.


Escusado será dizer que o próprio conceito da linha, muito semelhante ao subjacente às cadernetas de cromos, não só fomentava como praticamente exigia a troca de figuras, de modo a completar ao máximo possível a colecção – um factor absolutamente necessário ao procurar criar uma 'febre de recreio'. E apesar de estes porquinhos não terem chegado ao nível de iconicidade e 'culto' de uns Tazos, Pega-Monstro ou Caveiras Luminosas – encontrando-se mesmo algo Esquecidos Pela Net – o volume que se pode encontrar para venda no OLX indicia que terá havido uma percentagem significativa de portugueses e portuguesas não só a coleccionar estas figuras à época do seu lançamento, como também a guardar a sua colecção de infância para propósitos nostálgicos; para esses, aqui fica mais uma lembrança daquela que foi uma das pioneiras do conceito de 'pacotes-mistério' em território nacional.

Wednesday, 1 May 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Livros da Rua Sésamo - Um Sucesso em Vários Formatos

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Logo no primeiro ano deste 'blog', dedicámos um par de 'posts' à histórica e icónica 'Rua Sésamo' – um à série em si, e outro à revista complementar da mesma, que chegava às bancas no mesmo período, logo em inícios dos anos 90, e fazia as delícias das primeiras camadas demográficas da geração 'millennial'. No entanto, à época das publicações originais, ficaram por abordar, por descuido ou simples esquecimento, as outras vertentes através das quais o programa da RTP se insinuava na cultura popular; nada melhor, pois, do que corrigir agora essa situação, e dedicar mais uma 'dose dupla' de posts aos restantes produtos alusivos à emissão que moldou a infância de grande parte dos 'putos' dos anos 90, o primeiro dos quais centrado na enorme variedade de livros com os personagens da Rua Sésamo ao dispôr da demografia em causa durante o auge de popularidade do programa, e até alguns anos após o mesmo.


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As diferentes colecções de livros da 'Rua Sésamo' disponíveis durante os anos 90.


De facto, até pelo menos a meados da década de 90 – já vários anos depois de a 'Rua Sésamo' portuguesa ter saído do ar – era ainda possível encontrar nas bancas e livrarias portuguesas pelo menos quatro colecções centradas nos personagens do programa: uma em formato quadrado e de capa dura, outra idêntica, mas de capa mole, uma terceira em formato mais tradicional e de capa emoldurada, e ainda a série 'Passo A Passo Com A Rua Sésamo', que, mais do que livros de histórias, oferecia conjuntos de actividades tematizadas em torno de um tema central, quase como uma versão em livro da popular revista infantil com o mesmo nome da série. Em comum, as quatro tinham tanto o elevado nível de qualidade, em linha com os padrões estabelecidos pela PBS e pela equipa de educadores responsável pela versão portuguesa, como o foco em temas familiares e que faziam parte do quotidiano da faixa etária alvo, da escolha de profissões e aprendizagem das letras e números a situações e conceitos sociais como as mentiras, os segredos, a perda de um brinquedo favorito, uma situação de doença, ou mesmo algo tão singelo e corriqueiro como uma festa de aniversário, com todas as pequenas preocupações e alegrias que tal evento acarreta – uma abordagem que ajudava a tornar cada volume das diferentes séries ainda mais apelativo para o público infantil.


De referir que, apesar de trazerem maioritariamente o elenco da versão americana – causando uma certa dissonância na jovem demografia-alvo, habituadas ao Poupas de cor laranja e ao Ferrão de pêlo castanho dentro do seu barril, e que aqui se deparava com o Poupas Amarelo e com um 'primo' do Ferrão de cor verde, morador numa lata de lixo e de nome Óscar – chegaram a ser produzidos alguns livros numa das séries com os personagens da variante nacional do programa, como a Gata Tita ou a Avó Chica de Fernanda Montemor, permitindo uma ainda maior aproximação a quem acompanhava semanalmente as aventuras destes e outros protagonistas no então Canal 1.


Mesmo sem este 'chamariz' adicional, no entanto, a mera presença de nomes como Egas, Becas e Gualter nas páginas das diferentes colecções, a viver aventuras e situações com que qualquer um dos leitores se poderia deparar no dia-a-dia, era já suficiente para fazer dos livros da Rua Sésamo um sucesso de vendas; e apesar de o Mundo, a sociedade e mesmo as crianças terem mudado muitíssimo desde então, é de supôr que as referidas premissas continuem a ser suficientemente universais e intemporais para agradarem até mesmo à ultra-digital e hiperactiva 'Geração Alfa'. Porque não, pois, 'desenterrar' do sótão ou do armário os antigos livros de criança, e apresentar os afáveis personagens da infância remota a toda uma nova geração?

Wednesday, 10 January 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Livros do 'Jovem Indiana Jones'

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


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(Crédito da foto: CustoJusto)


A chegada a Portugal das chamadas 'lojas dos trezentos', em inícios dos anos 90, levaram, por sua vez, a um significativo influxo de títulos literários de cariz popular e qualidade mediana, invariavelmente encontrados nos icónicos 'escaparates' das sobreditas lojas, e inevitavelmente editados pela Europa-América. De facto, embora fosse já um nome bem reconhecido dentro do panorama editorial português (e responsável pela edição em solo nacional de excelentes títulos policiais e de ficção científica) a editora lisboeta encontrou uma autêntica 'segunda vida' como perpétua fornecedora de literatura barata para lojas deste tipo, grande parte da qual dirigida a um público infanto-juvenil.


De facto, entre colecções de fantasia como 'Dragonlance' ou 'Dungeons and Dragons' (esta última, a precursora menos conhecida das lendárias 'Aventuras Fantásticas'), séries como 'Enciclopédia Brown', novelizações de filmes 'da moda' e um ror aparentemente infindável de 'westerns' 'de cordel', uma percentagem significativa do escaparate de livros de qualquer 'loja dos trezentos' tendia a ser formada por obras que tinham em comum a qualidade 'duvidosa' das traduções (e, muitas vezes, da escrita em si) e o facto de serem expressamente dirigidos a leitores ainda sem a maturidade suficiente para desfrutarem dos clássicos de Robert Heinlein ou Phillip K. Dick com os quais estes livros partilhavam espaço. Era também esse o caso com a colecção de que falamos neste 'post', a qual aproveitou o 'embalo' de uma série mais ou menos bem-sucedida para 'regurgitar' para as prateleiras de livros baratos mais de duas dezenas de títulos com pretensões a expandir o 'universo' do programa, à semelhança do que acontecia na mesma época, com 'O Caminho das Estrelas' e, particularmente, 'Guerra nas Estrelas'.


Tratou-se de 'O Jovem Indiana Jones', colecção baseada na série do mesmo nome produzida por Steven Spielberg e George Lucas, e que chegou também a ver ser editada em Portugal a série de banda desenhada oficial, num esforço de 'marketing' inusitado, considerando a reduzida 'pegada' que a série deixou em Portugal; de facto, é perfeitamente credível que a principal referência e memória da mesma para a maioria dos jovens da época venha através destes livros, quase tão prolíficos como 'Dragonlance' nas 'lojas dos trezentos' de meados da década de 90.


Assinados por um sem-número de autores anónimos (dos quais se destaca Megan Stine, quiçá familiar do R. L. Stine de 'Arrepios') os diferentes volumes desta série oferecem precisamente aquilo que se poderia esperar de um título deste tipo: aventuras infanto-juvenis centradas em torno dos personagens criados por Spielberg e Lucas, e obedecendo à premissa temporal e conceptual da série. Assim, ao longo dos vinte e dois números que compõem a colecção, vemos 'Indy' e o pai a braços com fantasmas, labirintos, fenómenos naturais, e até eventos históricos como o naufrágio do Titanic (anos antes de o filme do mesmo nome o trazer de volta à cultura popular), em enredos invariavelmente descritos em linguagem simples e sem grandes 'floreados', como era apanágio, à época dos títulos infanto-juvenis de 'segunda linha' ou baseados em propriedades mediáticas – sendo que 'Jovem Indiana Jones' se insere confortavelmente em ambas as categorias.


Apesar desta relativa 'falta de carácter' (e também de ambição) estes livros não deixam, no entanto, de constituir uma opção de leitura razoável para uma criança ou adolescente com interesse em tramas de aventura e muita acção, ou que já seja fã do arqueólogo aventureiro de Steven Spielberg – especialmente por continuarem amplamente disponíveis, não só em sites como o CustoJusto (de onde foi tirada a foto que ilustra este 'post') mas também em livrarias propriamente ditas, como a Bertrand. Uma boa oportunidade, portanto, para os ex-jovens das gerações 'X' e 'millennial' recuperarem mais esta 'pérola' da sua infância, e a apresentarem aos seus descendentes directos; quem sabe, o 'Jovem Indiana Jones' possa ainda vir a ser tema de um qualquer vídeo no TikTok ou Instagram...


 

Wednesday, 1 November 2023

Quartas de Quase Tudo / Quintas no Quiosque: A Colecção 'Arrepios' - O Terror em Versão 'Júnior'

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


O cinema de terror foi, a par do de acção, um dos que mais cedo cativou, e mais fortemente marcou, a geração nascida e crescida entre os anos 80 e o Novo Milénio, muito graças à quantidade e qualidade de filmes com que os dois géneros contribuíram para o panorama cinematográfico daquelas décadas. No caso do cinema de terror, além do factor 'cool' que partilhava com os heróis de acção, havia ainda o atractivo adicional do 'fruto proibido', que fazia muitas crianças e jovens (em Portugal e não só) ficar acordado até tarde, ou programar o VHS, para acompanhar os actos de vingança de Jason Voorhees, Michael Myers e Freddie Krueger, as 'brincadeiras' de Chucky, o Boneco Diabólico, ou simplesmente uma das muitas histórias de fantasmas, fenómenos paranormais e casas assombradas que potenciavam, na mesma época, o retumbante sucesso da série 'Ficheiros Secretos'.


Não foi, assim, de surpreender que este interesse dos jovens pelos filmes de 'meter medo' principiasse, rapidamente, a ser explorado para fins comerciais, com vários produtos dirigidos a crianças a contarem com a imagem de um dos ícones oitentistas do género, ou ainda dos mais clássicos monstros da Universal, que serviam inclusivamente de inspiração para uma popular linha de mini-figuras, que contava mesmo com um desenho animado e jogo de computador próprios. Em meio a tudo isto, um autor infanto-juvenil norte-americano viu no paradigma vigente a oportunidade perfeita de explanar a sua ideia de escrever uma série de contos de terror explicitamente dirigidos a um público mais jovem, no caso em idade primária ou secundária; o resultado foi uma colecção que, em meados dos anos 90, colocaria até os leitores mais relutantes de nariz colado às páginas, marcando assim toda uma geração.


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O icónico primeiro volume da colecção, oferecido em conjunto com a revista 'Super Jovem',


Falamos da colecção 'Arrepios', de R. L. Stine, cujo aparecimento em solo lusitano se insere confortavelmente em duas categorias do nosso blog; isto porque, apesar de se tratar de uma colecção de livros (que entraria normalmente nas Quartas de Quase Tudo), os volumes eram vendidos, sobretudo, em bancas de jornais e papelarias, tornando-os também candidatos às Quintas no Quiosque. A icónica série de Stine consegue, assim, o feito de ser tema do primeiro 'post' híbrido de dois dias diferentes da História do Portugal Anos 90, valendo o presente texto pelos dias 1 e 2 de Novembro de 2023 – uma altura, aliás, bastante apropriada para falar de livros centrados no sobrenatural, espíritos e monstros, e que, muito antes de o Halloween ser oficialmente importado e adoptado como festa em Portugal, já causava calafrios (ou, bem, 'Arrepios') nas então crianças nacionais.


Isto porque, apesar de algo básicos pelos padrões de uma demografia que já 'devorava' 'Uma Aventura', 'Viagens no Tempo', 'O Clube das Chaves' ou as obras de Alice Vieira, estes livros conseguiam, dentro da sua 'fórmula', criar uma atmosfera bastante eficaz para as suas histórias, a maioria das quais se baseava em medos primários do público-alvo, como monstros, mutantes, bonecos assassinos, casas assombradas, predadores terrestres ou aquáticos, ou ainda os inevitáveis 'zombies'. E se é certo que nem todos os livros acertavam no 'alvo' ('O Feitiço do Relógio de Cuco' tem mais de comédia involuntária do que de arrepiante experiência de terror) os que atingiam este fim prestavam-se a releituras sucessivas, e tornavam-se assunto de discussão no recreio da escola, algo a que muito poucas colecções além das supracitadas conseguiam almejar.


Grande parte do sucesso dos primeiros vinte volumes da colecção em Portugal pode, no entanto, ser também atribuído ao modelo de venda escolhido pela Abril/Controljornal, que aproveitava a sua hegemonia no campo dos periódicos infantis para lançar 'Arrepios' nas bancas, e a um preço bastante convidativo para as carteiras dos jovens da altura, custando cada livro pouco mais do que uma banda desenhada das mais 'grossas'. A oferta do primeiros volume da colecção na compra da revista 'Super Jovem' (também da editora) ajudou a difundir ainda mais a nova colecção junto do público-alvo, havendo decerto muito poucas crianças daquela época que não tenham tido, pelo menos, este livro na sua estante. As 'letras grandes', linguagem simples e histórias apelativas (apesar dos finais estilo 'Scooby-Doo' e invariavelmente desapontantes) encarregavam-se do resto, tornando 'Arrepios' numa das mais bem sucedidas séries de livros entre quem não gostava de ler.


Infelizmente, a Abril cometeu o erro de saturar o mercado com cada vez mais livros da colecção, além da série-irmã que oferecia uma experiência estilo 'Aventuras Fantásticas' e de outra série de R. L. Stine, 'A Babysitter', sobre uma azarada adolescente que vê todos os seus trabalhos de ama-seca transformarem-se numa perseguição por parte de um tarado ou psicopata. Apesar da relação com 'Arrepios', nenhuma destas colecções (ou até mesmo os livros subsequentes da própria série) conseguiram o mesmo sucesso dos primeiros volumes, não conseguindo crescer com o público-alvo nem tão-pouco competir com o baluarte da literatura infanto-juvenil em Portugal que era (e é) 'Uma Aventura'. Assim, foi sem surpresas que a colecção 'saiu de fininho' de 'cena' ainda antes do Novo Milénio, deixando como legado os volumes arrumados nas estantes do quarto de muitas crianças e uma série televisiva relativamente bem-sucedida, exibida no espaço 'Buereré' da SIC, nas manhãs de fim-de-semana; é possível, no entanto, que esta situação mude, e que o recente (e bem-sucedido) filme com Jack Black venha a suscitar o interesse da Geração Z pelos livros que adornavam a estante dos pais quando estes tinham pouco mais ou menos a mesma idade. Enquanto não assistimos a um ressurgir de 'Arrepios', no entanto, fica a recordação de uma série de livros que acabou por marcar época, e que, apesar dos evidentes defeitos e falhas, merece bem um lugar (duplo!) nestas nossas páginas nostálgicas.

Thursday, 26 January 2023

Quintas de Quinquilharia: Os BollyKaos

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


De entre todos os produtos industrializados com oferta de brindes na embalagem comercializados em Portugal nos anos 90, o Bollycao (e outros produtos da Panrico) estiveram entre os mais consistentemente populares, ocupando um honroso e bem cimentado segundo lugar, atrás da 'criadora de febres' Matutano. E apesar de nunca ter conseguido concorrer, em termos de popularidade, com os Tazos, as Matutolas, as Caveiras Luminosas e os Pega-Monstros, a panificadora não deixou de ser responsável por algumas linhas de brindes bem memoráveis para quem cresceu naquele tempo, como os lendários autocolantes dos 'Tou's, as Janelas Mágicas, os cromos e tatuagens temporárias das Tartarugas Ninja, ou o jogo de que se fala hoje, os Bollykaos.


2014951481-cromo-nixi-o-diabo-bollykaos-the-legendUma das cartas da colecção


Lançado já na segunda metade do século XX, e contando com duas 'séries' - subituladas 'The Game' e 'The Legend' - respectivamente este jogo mais não era do que uma versão graficamente mais interessante das icónicas 'Super Cartas' da Majora, que substituía os motivos de motas, aviões, carros de corrida ou jipes por monstros e criaturas alienígenas, bem ao gosto do público-alvo.


 


Havia, ainda, uma tentativa de diversificar um pouco a forma de jogar, através do uso da chamada 'Pirâmide de Poder' - na verdade, um dado losangular, ao estilo dos usados no famoso 'Dungeons and Dragons', cujo suposto objectivo era ditar qual das quatro características de cada criatura (Ataque, Defesa, Inteligência ou Velocidade) deveria ser comparado; o vencedor deveria, ainda, gritar 'Kao' como forma de declarar o seu direito às restantes cartas em jogo (um pouco ao estilo do que acontecia no 'Uno!'), sendo que só após este acto poderia recolher os seus 'ganhos'.


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As regras do jogo e as 'Pirâmides de Poder' (crédito das imagens: OLX)


Estas regras, que procuravam dar ao jogo um carácter diferenciado, sucumbiam, no entanto, à tendência das crianças para adoptar, instintivamente, fórmulas conhecidas, sendo que a maioria dos jogadores se limitava a utilizar as regras das referidas 'Super Cartas' (ou do muito semelhante, jogo com temática do Dragon Ball Z oferecido pela Matutano alguns anos antes), dispensando o uso da tal 'Pirâmide do Poder' – um brinde que, apesar de grátis (tal como a caixa para guardar as cartas – ou antes, 'Kartas') poucas crianças tinham (ou, pelo menos, se davam ao trabalho de carregar consigo, no bolso.)


Assim, para quem era fã das cartas, esta foi uma colecção 'gira', mas sem grande novidade, enquanto que quem era um pouco mais novo, ou nunca tinha tido contacto com os baralhos da Majora, terá tido por meio deste brinde a sua introdução a esse tipo de jogo. Fosse qual fosse a circunstância, no entanto, os Bollykaos deixaram a sua marca entre a juventude da época, merecendo o seu lugar no panteão de promoções e brindes memoráveis dos anos 90 e 2000.


 

Thursday, 15 September 2022

Quintas de Quinquilharia: As Cartas do Dragon Ball Z

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Já anteriormente aqui mencionámos que o coleccionismo, enquanto 'hobby' infanto-juvenil, atravessou durante os anos 90 uma das suas fases 'em alta'; e se os Tazos da Matutano e os cromos (quase sempre) da Panini representam as faces mais visíveis desse passatempo, as cartas coleccionáveis também não lhes ficam muito atrás, ocupando inegavelmente o terceiro lugar deste pódio. E apesar de o Magic: The Gathering ser o 'rei' incontestado deste sector, isso não impediu muitas outras colecções de tentar fazer frente ao jogo dos monstros fantásticos, de forma mais ou menos estruturada.


Firmemente 'entrincheirada' do lado do 'menos' encontramos a Quinquilharia desta semana, um daqueles produtos que ninguém sabe muito bem de onde vieram (não eram brinde de qualquer produto alimentar, nem uma daquelas colecções 'formais' com caderneta ou dossier para guardar) parecendo ter-se simplesmente materializado, de um dia para o outro, nos bolsos e estojos das crianças de finais dos anos 90, algures após a estreia nacional do 'anime' que viria a revolucionar indelevelmente a cultura popular infanto-juvenil da época, o lendário Dragon Ball Z; o propósito das referidas cartas tão-pouco era claro, não havendo qualquer jogo associado às mesmas, que se pareciam destinar, pura e simplesmente, a serem coleccionadas..


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Os designs das cartas nem sempre eram por aí além de interessantes.


Previsivelmente, esse carácter misterioso faz com que seja difícil encontrar na Internet de hoje em dia informações sobre estas cartas, que nem sequer figuram na ultra-compreensiva lista do site 'Dragon Ball Z Coleccionador', embora haja várias listagens de vendas das mesmas no OLX – presumivelmente, de ex-crianças que deram com um 'molho' delas 'perdido' no fundo de qualquer gaveta da infância, a coleccionar cotão. Tudo o que se sabe é que as cartas foram suficientemente bem-sucedidas para justificarem uma segunda série, o que não é de estranhar, dada a sua associação àquele que talvez ainda hoje seja o desenho animado mais bem-sucedido da História da televisão portuguesa.


E a verdade é que só mesmo esse 'laço milionário' poderia justificar o sucesso de uma colecção tão tosca a nível do design (a maioria das cartas ofereciam apenas uma imagem de um qualquer episódio, sem grande contexto, e muitas vezes sem grande interesse, inserida num desinteressante rebordo azulado) e sem qualquer caderneta ou qualquer outro tipo de tentativa de organização, como que a cimentar o estatuto descartável e 'do momento' destas cartas. Ainda assim, era (e é) difícil não gostar de uma coisa feita tão descaradamente 'à pressão' e para aproveitar o momento, uma motivação a que os jovens empreendedores de onze anos que vendiam fotocópias 'malaicas' nos corredores da escola não ficavam indiferentes; e depois, claro, havia o facto de ser um produto alusivo ao 'Dragon Ball Z', o que, só por si, já lhes garantia o sucesso. Hoje em dia, no entanto, estas cartas servem, sobretudo, como 'activadores' de memórias esquecidas da infância, além de como prova de que, com 'marketing' bem feito e ligação à propriedade intelectual certa, até o produto mais 'desastrado' consegue ter sucesso...

Thursday, 3 March 2022

Quintas de Quinquilharia: As Colecções de Cromos de Batman dos Anos 90

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Um dos mais demonstráveis axiomas dos anos 90 era que qualquer propriedade intelectual popular entre o público jovem seria alvo da sua própria colecção de cromos; e com bom motivo, já que s autocolantes temáticos coleccionáveis estavam em alta entre a referida demografia, e lançar uma colecção alusiva a uma série, artista ou obra literária de sucesso era receita segura para manter a mesma ou o mesmo relevante junto do sector infanto-juvenil, prolongando assim a sua popularidade ao mesmo tempo que se aumentavam as receitas de vendas. Foi assim com o Dragon Ball Z, as Tartarugas Ninja, os Simpsons, A Máscara e – numa altura em que o Cavaleiro das Trevas atravessava a sua fase de maior exposição mediática até então, graças à sua popular série de filmes e a algumas excelentes histórias nas suas bandas desenhadas – era de prever que assim fosse, também, com Batman.


A diferença entre o caso do Vingador Mascarado e os referidos no parágrafo anterior reside no facto de que, sendo a sua popularidade bem mais 'continuada' do que a da maioria das propriedades intelectuais para crianças, o mesmo teve direito, não a uma, mas a duas colecções de cromos durante a década a que este blog respeita, conseguindo através das mesmas fazer parte das memórias coleccionistas de duas gerações distintas.


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O primeiro dos dois lançamentos (nenhum dos quais, surpreendentemente, lançado pela Panini) deu-se logo no início da década, aquando da estreia do primeiríssimo filme do justiceiro de Gotham, da autoria de Tim Burton, o qual foi alvo de uma aguerrida campanha de marketing e divulgação, na qual a caderneta da Editorial Impala se inseria. Com cromos que retratavam as diferentes cenas do filme, o álbum oferecia às crianças e jovens um meio de recordar o filme de que tanto haviam gostado no cinema, ao mesmo tempo que aguçava o 'apetite' de quem ainda não o tinha visto – exactamente como se pede a uma publicação deste tipo.


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O mesmo, aliás, se passava com a segunda caderneta, lançada em 1995 pela Merlin como complemento ao terceiro filme da série, 'Batman Para Sempre'. De facto, apesar do aspecto visual algo mais cuidado, e que reflectia a passagem de tempo que se havia verificado deste a caderneta original, esta colecção possuía estrutura e conteúdos muito semelhantes aos da sua antecessora, oferecendo uma visão geral simplificada do filme, passível de agradar tanto a quem o vira no cinema, como a quem ainda não tinha tido oportunidade. E é claro que também não faltavam os habituais cromos 'especiais', duplos e quádruplos, que tornavam a experîência de completar a colecção ainda mais desafiante e emocionante.


No cômputo geral, e apesar de não apresentarem rigorosamente nada de novo em relação a outras colecções marcantes da época, os dois álbuns de cromos de Batman lançados nos anos 90 mostravam-se exímios naquilo que se pedia a uma colecção de cromos à época, possuindo múltiplos pontos de interesse para o público que se dedicava a este tipo de actividade.


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Uma das cadernetas de Batman lançadas já no novo milénio


O Homem-Morcego seria, aliás, um filão que o meio continuaria a explorar em décadas subsequentes, com pelo menos mais dois álbuns alusivos ao Cavaleiro das Trevas a serem lançados desde então; esses, no entanto, ficam já fora do âmbito deste blog, pelo que hoje nos ficamos por recordar as duas colecções que marcaram o início do percurso do herói de Gotham no mundo das cadernetas de cromos...


 

Thursday, 20 January 2022

Quintas de Quinquilharia: O Coleccionismo nos Anos 90

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Uma das principais características da maioria das crianças e jovens – seja qual for a época em que nascem e crescem – é o gosto pelo coleccionismo. Há algo na perspectiva de acumular todas as variantes disponíveis de alguma coisa que desperta o interesse inato do ser humano em fase formativa, sendo essa predisposição intangível o principal factor por detrás do sucesso de fenómenos como as colecções de cromos, jogos como os Tazos, o Magic the Gathering e conceitos como o do 'franchise' Pokémon.


No entanto, e ainda que todos os produtos atrás enumerados convidem ao coleccionismo parametrizado (no caso, pelo número de cromos, Tazos, cartas ou até monstrinhos virtuais à disposição do utilizador) existe – ou pelo menos existiu – uma vertente bem mais espontânea e anárquica deste passatempo, traduzida no coleccionismo de um determinado tipo de produto ou objecto, independentemente da sua proveniência e sem estar restrito aos moldes artificialmente criados por uma determinada empresa.


Esta vertente do 'hobby' de coleccionar, que encontra raízes em décadas mais ou menos remotas da sociedade ocidental, estava ainda bem viva nos anos 90, sendo que muitas crianças e jovens desse tempo tinham, ainda, o hábito de coleccionar 'quinquilharias', fossem elas selos, autocolantes, seixos da praia, postais, caricas, fotografias de artistas, ou até algo mais inusitado, como Credifones.


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Os porta-chaves eram apenas um dos muitos objectos quotidianos potencialmente coleccionáveis para um jovem dos anos 90


Dependendo da seriedade de cada indivíduo, estas colecções podiam chegar a durar anos, e – pela sua organização e armazenamento tão anárquicos quanto o próprio método de colecção – corriam sério risco de serem deitadas fora, oferecidas a terceiros ou (na melhor das hipóteses) vendidas quando se tornasse necessário desocupar espaço nos armários, juntar dinheiro, ou proceder a uma alteração no estilo de vida. Melhor sorte tinham as que ficavam guardadas na garagem depois de o seu dono perder o interesse, à espera de serem encontradas e nostalgicamente recordadas algumas décadas depois.


Fosse qual fosse o seu fado, no entanto, a verdade é que as colecções eram, nos anos 90, levadas muito a sério pela faixa mais jovem da população – ao ponto de, nas habituais secções de correspondência que eram parte integrante de qualquer revista para jovens da época, aparecerem muitas vezes anúncios relativos à troca de elementos de colecção, fossem essas trocas directas – selos por selos, por exemplo – ou entre elementos de dois tipos distintos (como um coleccionador de caricas que trocasse tampas raras por postais ou autocolantes potencialmente interessantes, por exemplo.) A natureza necessariamente postal destas interacções fazia ainda com que, muitas vezes, aquilo que começava como um 'negócio' de interesse puro e duro se transformasse em algo mais, por força do volume de cartas e encomendas trocadas entre ambas as partes – decerto terá havido muitas amizades a ter início na secção de Trocas do Correio do Leitor de uma qualquer revista dirigida ao público juvenil...


Tal como muitos outros fenómenos de que falamos nestas páginas, no entanto, também o coleccionismo acabou por cair em desuso. Embora o sucesso da série de jogos de 'Pokémon' demonstre que a atracção quase obsessiva pelo coleccionismo não desapareceu por completo entre a demografia mais jovem, os membros da mesma parecem mais interessados em coleccionar seguidores no YouTube ou Instagram do que em juntar paciente e dedicadamente produtos físicos semelhantes ao longo de vários anos; uma pena, pois – além de divertido – o coleccionismo fomenta conceitos tão valiosos quanto as supracitadas dedicação e paciência, a perserverança, o desenvolver de interesses próprios ou o sentido de organização e responsabilidade. Ainda não é, no entanto, demasiado tarde – talvez a última geração a ter crescido a coleccionar 'bricabraques' em caixas e frascos mantidos na prateleira do quarto ainda consiga mostrar à que lhes sucedeu o porquê de este passatempo ter sido, em tempos, a tal ponto popular...

Thursday, 18 November 2021

Quintas de Quinquilharia: As Matutolas

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Na primeiríssima edição desta rubrica, falámos um pouco sobre os 'Tazos', talvez o brinde alimentício mais recordado e nostálgico dos anos 90; hoje, falamos finalmente da 'febre' que lhes sucedeu, e que atingiu níveis de sucesso quase (QUASE) semelhantes, embora se tenha afirmado como menos icónica a longo prazo.


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Falamos das Matutolas, pequenas figuras de plástico sólido ou translúcido em forma de cabeça (ou se quiserem, 'tola') que, tal como os seus antecessores, fomentavam não só a vertente coleccionista inerente a qualquer criança, mas também a veia competitiva existente dentro dela. Isto porque, como os 'Tazos', as Tolas eram, ao mesmo tempo, objectos de colecção e peças de jogo, destinadas a serem apostadas, ganhas e perdidas nos recreios e pátios por esse Portugal afora – objectivo esse que, previsivelmente, foi mais do que confortavelmente atingido.


Tão-pouco era este o único ponto em comum entre as Tolas e a colecção que lhes antecedera; as próprias regras de como jogas Matutolas eram muito semelhantes às do jogo dos 'Tazos', ainda que esta variante se desenrolasse numa perspectiva vertical, ao invés de horizontal. Como nos 'Tazos', cada jogador apostava as suas Tolas, no caso colocando-as em pé, lado a lado, sobre uma superfície plana; cada participante utilizava, então, outra Tola para tentar derrubar o maior número possível de peças em jogo, passando (ou voltando) cada peça derrubada a ser pertença desse jogador.


Um jogo, no mínimo, tão viciante como o dos 'Tazos', e que veio preencher o 'vazio' que o fim dessa colecção havia deixado no instinto coleccionador das crianças portuguesas – pelo que não é de admirar que a recepção e expansão do mesmo tenham sido tão rápidas, e praticamente tão abrangentes, como as dos seus antecessores. No ano após o fim dos 'Tazos', não havia criança portuguesa que não coleccionasse, trocasse e apostasse as pequenas cabeças grotescas da Matutano com os amigos, e que não tivesse em casa um qualquer recipiente (fosse um Portatolas oficial ou simplesmente um qualquer tubo ou 'tupperware') recheado com as suas várias aquisições, muitas delas com falhas à laia de 'cicatrizes de batalha' (as Tolas de plástico translúcido, em particular) rachavam-se com surpreendente facilidade, e haverá decerto muito poucas que tenham sobrevivido inteiras até aos dias de hoje.)


Menos popular seria a inexplicável caderneta de autocolantes (?!) que servia função dupla como livro de regras - como se um jogo de recreio necessitasse de regras oficiais escritas num livro de instruções...


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Os tubos de transporte 'Portatolas' e a inexplicável caderneta


Um último ponto em comum entre as Tolas e os 'Tazos' prendia-se com o facto de, também aqui, existirem modelos não ligados à Matutano, facilmente adquiríveis se se soubesse onde procurar, e muitas vezes mais esteticamente cuidadas que as próprias originais; no entanto, ao contrário do que acontecia com os 'Tazos', as Tolas 'falsas' eram tão bem acabadas que acabavam por ser poucos os jogadores que não as aceitassem como 'moeda de aposta' em meio às oficiais – o que, simultaneamente, facilitava sobremaneira a vida a quem não tinha por hábito (ou não era autorizado a) comer batatas fritas.


gogos-crazy-bones-nostalgia-anos-90-matutolas.jpgUm pacote de Matutolas 'não-oficiais' - ou antes, de Go Go Crazy Bones, o conceito que havia sido adaptado e renomeado como Matutolas...


Em suma, uma moda que, embora algo derivativa da que a precedera, foi ainda assim uma das três maiores da Matutano durante aquela década - juntamente com os Tazos e os Pega-Monstros, vindo as Caveiras Luminosas ainda um pouco atrás em termos de nostalgia nos tempos que correm - que marcou época tanto quanto qualquer uma delas, e que, como elas, acabou por conseguir lugar cativo no coração de muitas ex-crianças daquele tempo – embora as mesmas apenas tendam a lembrar-se dela após (e geralmente como consequência de) terem recordado os 'Tazos'...

Sunday, 31 October 2021

Domingos Divertidos: Especial Halloween - Os Monsters in My Pocket

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


O fim dos anos 89 e início da década seguinte viu despontar no mercado infanto-juvenil uma tendência, algo insólita, para figuras moldadas em borracha monocromática e de dimensões extremamente reduzidas. A primeira linha deste tipo a obter sucesso (ainda que nem tanto em Portugal) foram os lutadores de M.U.S.C.L.E., os quais – com os seus modelos baseados em minotauros ou em forma de mão – acabaram por abrir caminho à linha de que falamos hoje: Monsters in My Pocket.


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Algumas das figuras da linha


Lançada pela Matchbox – sim, a dos carrinhos – mesmo no dealbar da década de 90, esta linha de figuras seguia exactamente o mesmo princípio de M.U.S.C.L.E., mas substituindo o tema inspirado na luta-livre daquela série por outro baseado nos monstros clássicos, tanto da mitologia como do cinema. Frankenstein e Drácula conviviam, assim, lado a lado com figuras baseadas na mitologia grega, como a Hidra ou a Medusa, para além de alguns monstros mais 'genéricos' e sem qualquer filiação especial, mas ainda assim muito bem desenhados e moldados, fazendo jus à reputação da Matchbox como fabricante de brinquedos de qualidade.


Também a mecânica de jogo – sim, estas figuras eram criadas para servir como instrumentos de jogo – era semelhante à de M.U.S.C.L.E., com cada figura a ter impresso nas costas um número, correspondente ao seu 'poder'; a vertente competitiva consistia em pôr frente a frente duas figuras e comparar os respectivos números, ganhando – previsivelmente – o jogador que tivesse o número maior. Um processo tão simples que mal contava como 'jogo', mas que era ainda assim suficiente para cativar o público-alvo de rapazes pré-adolescentes, sempre dispostos a 'medir forças' seja sob que pretexto fôr.


Como seria de esperar para qualquer linha infanto-juvenil de sucesso nos anos 90, Monsters in My Pocket (que, estranhamente, nunca viu o seu nome traduzido para português) teve direito a uma série de itens de 'merchandise', dos mais bizarros (um jogo para a Nintendo original, ou NES) aos mais previsíveis, como a obrigatória caderneta de cromos da Panini.


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A inevitável caderneta da Panini


Apesar de tudo, no entanto, a 'febre' das figuras em miniatura em Portugal foi algo menor do que noutros países (incluindo a vizinha Espanha) tendo esta linha, como as suas congéneres, sido algo ofuscada por outras ofertas da altura, como os Pega-Monstro; ainda assim, a mesma afirmou-se como suficientemente memorável para merecer uma menção nas páginas deste nosso blog, ainda que sómente no contexto de um Especial Halloween...

Friday, 29 October 2021

Quintas de Quinquilharia: As Caveiras Luminosas

Nota: Este post é relativo a Quinta-feira, 29 de Outubro de 2021.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Hoje em dia, a Matutano dos anos 90 é, sobretudo, recordada pela febre extrema e até hoje inigualada que foram os Tazos; no entanto, a verdade é que a marca de batatas fritas teve várias outras promoções de sucesso ao longo da década. De uma delas, os Pega-Monstros, já aqui falámos, e das Matutolas, falaremos noutra ocasião; desta vez, e porque é Halloween, vamos falar do brinde que a marca lançou em 1993 – as Caveiras Luminosas.


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Ao contrário dos Tazos e das Tolas, não há muito que saber sobre os pequenos moldes plásticos em forma de esqueleto que passaram a sair nas batatas por volta de 1996 ou 97. De facto, este é daqueles produtos em que a informação está (quase) toda contida no próprio nome; tratam-se de Caveiras que brilham no escuro – portanto, Luminosas. A parte do 'quase' diz respeito ao facto de estes brindes terem, cada um, um capuz ou carapuço distinto – o qual 'servia' a todas as outras figuras da colecção, permitindo assim trocar as caras e criar, essencialmente, Caveiras novas e diferentes, num sistema de constante mutação que tornava a linha essencialmente infinita – bem como um buraco na parte inferior, onde uma cabeça real ligaria ao pescoço. O objectivo deste orifício, e um dos principais pontos distintivos da colecção das Caveiras Luminosas, era permitir às crianças usar as suas caveiras na ponta dos dedos, de um lápis, ou de qualquer outra superfície onde as mesmas coubessem – um toque inteligente, que ajudava a dar alguma versatilidade às Caveiras, e que ajudou a torná-las populares entre a juventude da época.


Não que a colecção precisasse de qualquer ajuda, atenção – com as suas caras ao estilo Skeletor do He-Man, os carapuços estilo Ceifeira da Morte e o esquema de cores estilo álbum de heavy metal clássico da década anterior, as Caveiras eram feitas à medida para o público-alvo (essencialmente rapazes em idade pré-adolescente, embora possam também ter sido do agrado de jovens mais velhos de inclinação gótica) e conseguiram uma recepção previsivelmente positiva por parte do mesmo. Sem chegar ao nível dos Tazos (mas nada, nunca mais, chegou) estes brindes eram também avidamente trocados e coleccionados nos recreios do Portugal de então, e conseguiram afirmar-se como a última de três promoções verdadeiramente bem-sucedidas por parte da Matutano (quatro, se quisermos incluir os Pega-Monstros) durante a década de 90 – além do assunto perfeito para uma viagem nostálgica por brindes e quinquilharias por alturas do Halloween...



 

Wednesday, 4 August 2021

Quartas de Quase Tudo: A Literatura Infanto-Juvenil dos Anos 90, Parte 3 - A Colecção História Jovem

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


…como é o caso da literature infantil.


Sim, hoje voltamos a abordar aquele que tem sido o principal tema destas Quartas de Quase Tudo, desta vez, para recordar uma colecção de cariz mais didático do que de entretenimento, mas que mesmo assim, conseguia acertar na ‘fórmula’ certa para cativar o seu público-alvo.


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Falamos da colecção História Júnior, das Edições Asa, uma série de volumes de capa dura alusivos aos principais acontecimentos da História de Portugal e do Mundo, que muitos certamente recordarão pelas suas características e memoráveis capas cor-de-laranja vivo, que tornavam impossível NÃO ver um dos volumes da colecção na prateleira da livraria ou biblioteca. Quando combinada com os desenhos também bastante apelativos – pelo menos para quem gostava de cenas de acção ou batalhas – esta colorização da capa constituía o primeiro ‘chamariz’ para a demografia a quem a série se destinava.


No entanto, nem só de capas vive uma colecção de sucesso, e as Edições Asa sabiam-no; felizmente, a colecção História Júnior não deixava nada a desejar em termos de conteúdo, sendo exímia a transmitir factos e informações de cariz educacional sem, por isso, deixar de apelar aos gostos dos jovens. Teria sido muito fácil para a Asa replicar a abordagem dos livros de História que esses mesmos jovens estudavam na escola, mas tal não teria, decerto, rendido à colecção em causa o sucesso (ainda que relativo) de que conseguiu gozar. A estratégia da Asa – assente em mapas de página inteira, ilustrações, actividades e outros complementos ‘divertidos’ à informação veiculada – rendeu bem mais dividendos, e terá certamente havido quem usasse estes livros como auxiliares de estudo por altura dos testes de História – e com bons resultados!


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Exemplo do conteúdo típico de um livro da colecção


Hoje em dia, com (literalmente) toda a informação do Mundo à distância de uns cliques e uma pesquisa, deixou de haver lugar na sociedade ocidental para este tipo de livros - quem quer estudar História, fá-lo com recurso às fontes quase ilimitadas do Google. Ainda assim, vale a pena recordar esta instância em que uma editora portuguesa conseguiu ensinar ‘a brincar’, ganhando assim o seu lugar no coração nostálgico dos ex-jovens portugueses apaixonados pela História.

Wednesday, 21 July 2021

Quartas de Quase Tudo: A Literatura Infanto-Juvenil dos Anos 90, Parte 1.75 - A Colecção 'Viagens no Tempo'

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


…como é o caso da literature infantil.


Quando, há tempos, aqui falámos de séries de livros clássicas da nossa juventude, deixámos criminalmente de fora uma, que divertiu e entreteve tantas crianças como qualquer uma das então faladas, com o atrativo extra de também ter servido de companheira de estudos, devido às secções educativas, recheadas de factos e notas, que cada livro trazia como apêndice, depois do fim da aventura ficcionada. Hoje, procuraremos rectificar esse erro, dedicando algumas linhas àquela que começou por ser a ‘segunda série’ das autoras da famosíssima colecção ‘Uma Aventura’, e acabou por se tornar ela própria um marco da literatura infanto-juvenil, por direito próprio.


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Alguns dos títulos da colecção


Falamos de ‘Viagens no Tempo’, a série que ajudou muitos jovens dos anos 90 a ter boa nota na disciplina de História, ao mesmo tempo que constituía também uma excelente opção para fãs de histórias de mistério e aventura.


Tal como a sua congénere ‘aventureira’, esta colecção ainda hoje figura nos escaparates das melhores livrarias; no entanto, tal como a outra série das mesmas autoras, é inegável que a época áurea desta série se deu no início dos anos 90. Foi neste período que foram editados volumes tão icónicos como ‘Mistérios na Flandres’, ‘O Sabor da Liberdade’, e talvez o título mais famoso de toda a série – e o que mais crianças ajudou na escola – ‘Brasil! Brasil!’. Antes, nos anos 80, já tinha havido ‘O Ano da Peste Negra’ e ‘O Dia do Terramoto’, dois outros titulos memoráveis da colecção.


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Talvez o volume mais famoso de toda a série, e auxiliar precioso para as aulas de História do 8º ano


Depois, ainda viriam a sair volumes como ‘Um Trono Para Dois Irmãos’ e ‘No Coração da África Misteriosa’, este último o derradeiro da ‘série clássica’, ou seja, antes do hiato em que a série entrou em 1998, e do qual só viria a sair por duas vezes desde então - primeiro em 2003, e mais tarde em 2012, para aquele que é, até agora, o verdadeiro último volume da colecção. Sinal dos tempos, talvez....mas quase apostamos que se alguém transformasse esta história de dois jovens ‘aos saltos’ pelo tempo na companhia de um cientista ermitão numa série televisiva, a mesma encontraria o seu público – afinal, uma outra série com um conceito extremamente semelhante (só que com um extraterrestre numa cabine telefónica azul da Polícia britânica) conseguiu manter-se no ar desde os anos 60…


Enfim, oportunidades perdidas à parte, o certo é que – mesmo com alguns aspectos, hoje em dia, questionáveis, como a relação inicial de Orlando com os dois protagonistas – esta colecção é bem merecedora de uma nota aqui no blog, e devia mesmo ter sido incluída na compilação original de séries literárias marcantes daquela época. Falha nossa – mas, pelo menos, conseguimos corrigi-la a tempo, e fazer justiça a mais uma colecção de livros memorável, de uma época que teve muitas…

Wednesday, 26 May 2021

Quartas de Quase Tudo: A Literatura Infanto-Juvenil dos Anos 90, Parte 2 - Os Estrangeiros

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


…como é o caso da literatura juvenil.


Sim, hoje chegamos, já com (muito) atraso, à parte final da nossa retrospectiva sobre colecções de livros infanto-juvenis dos anos 90. E se nas duas partes anteriores recordámos alguns dos mais populares títulos totalmente concebidos em Portugal, desta feita, a vez cabe àquelas colecções que, apesar de criadas por autores estrangeiros, estiveram tão indelevelmente ligadas à maioria das infâncias portuguesas da época, que quase poderiam ser produto nacional.


Colecções como, por exemplo, a da Anita, que constituiu uma das primeiras experiências de leitura para grande parte dos ‘80s and 90s kids’, em especial para as raparigas (apesar de o melhor amigo de Anita ser um rapaz, a maioria dos leitores do sexo masculino pouco ou nada queriam ter a ver com uma série cheia de bochechas rosadas e desenhos em tons pastel.)


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Alguns dos muitos títulos da série 'Anita'


Com os seus desenhos e capas ‘fofinhos’, letras gordas e histórias inócuas de todos os dias (o primeiro e mais famoso volume da série chama-se ‘Anita Vai À Escola’, e trata precisamente disso) as aventuras da personagem originalmente criada em França como ‘Martine’ ainda hoje continuam a fazer sucesso entre a faixa etária em idade primária e pré-primária, e a constituir um ponto de partida perfeito para leituras mais a sério.


E para as crianças da (segunda metade da) década de 90, o mais natural era que essa evolução tivesse como próximo passo a colecção Arrepios. Lendária nos Estados Unidos, onde apresentou milhares de crianças à literatura de terror, a série da autoria de R. L. Stine chegou ao mercado português em 1997, num formato de revenda invulgar (os livros eram vendidos exclusivamente nas papelarias e bancas de jornais, não estando disponíveis em livrarias convencionais) e a preço muito convidativo para as escassas economias juvenis – cada volume custava apenas 250$00, aproximadamente o mesmo preço de uma revista de super-heróis ou um exemplar da Bravo ou Super Pop.


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Os dois livros do pack promocional original, de 1997


Assim, não é de estranhar que os primeiros volumes da colecção tenham sido sérios sucessos de vendas entre o público-alvo, com particular ênfase nos dois primeiros, ‘Bem-Vindos À Casa da Morte’ e ‘A Cave do Terror’, que eram vendidos ‘costas-com-costas’ num ‘pack’ promocional, em regime ‘leve 2, pague 1’. As traduções algo ‘manhosas’ – tratavam-se, afinal de contas, de edições da Abril-Controljornal – pouca importância tinham para os jovens leitores, que ‘devoraram’ estas histórias de (muito pouco) terror durante uns largos meses, tempo suficiente para a colecção chegar ao número 20. A partir desse mesmo número (uma imitação infantilizada de ‘Tubarão’, de Spielberg) deu-se uma perda de interesse tão súbita quanto inexplicável, e a colecção Arrepios passou de ser a publicação mais lida do recreio ao quase esquecimento, uma tendência que nem mesmo uma linha de livros ao estilo ‘Escolhe a Tua Aventura’ conseguiu inverter.


E já que falamos em ‘Escolhe a Tua Aventura’, esta é a altura perfeita para falar da colecção Aventuras Fantásticas, mais uma ‘febre’ de recreio que durou vários anos. Estes inesquecíveis livros, a maioria da autoria de Ian Livingstone, tinham como principal atractivo consistirem de uma espécie de jogo RPG de tabuleiro, mas em formato escrito. O jogador utilizava dados para determinar factores como a força, esperteza e capacidade mágica, e era também através de dados que se decidiam as lutas e eventos decisivos da trama – sendo que uma rodada mais desafortunada podia fazer derrocar todo o esforço anterior, e conduzir o jogador a um final infeliz.


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Algumas das muitas 'Aventuras Fantásticas' disponíveis


É claro que nem todas as crianças tinham paciência para jogar com os dados - muitas faziam ‘batota’, atribuindo os pontos aleatoriamente e voltando atrás quando as coisas não corriam bem. Ainda assim, a premissa atraente do conceito, aliada a capas igualmente bem concebidas e chamativas para o público-alvo, fez desta colecção um sucesso durante grande parte da década de 90, e uma das mais duradouras ‘febres’ de recreio da época.


E por falar em ‘febres’ duradouras, o final dos anos 90 viu aparecer uma série que, apesar de o seu maior impacto se vir a verificar na década seguinte, ainda foi a tempo de influenciar muitas crianças daquele tempo. Falamos, é claro, das aventuras de um jovem mago e seus amigos, numa escola de magia na Escócia. Sim, a saga de Harry Potter chegou a Portugal ainda nos 90s, e caivou ‘putos’ e adultos de uma forma que poucos outros livros conseguiram repetir desde então. Na altura, eram apenas três os livros disponíveis (quer em Portugal, quer no estrangeiro), e apesar de muitos dos melhores momentos da saga ainda estarem apenas na mente da autora J. K. Rowling, vale a pena destacar a influência que a série já vinha tendo sobre a juventude da época.


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Capa da primeira edição de sempre de 'Harry Potter e a Pedra Filosofal' em Portugal


E terminamos esta retrospectiva de literatura infanto-juvenil de qualidade com uma série que, apesar de menos massificada do que as outras neste post, tinha ainda assim a sua legião de fãs: os Diários Secretos do neurótico adolescente por excelência, Adrian Mole. À época, eram apenas quatro os livros que narravam as desventuras do jovem intelectual de Leicester, na sua cruzada por ver o seu génio reconhecido e conquistar a rapariga dos seus sonhos; e embora nominalmente dirigidos a um público juvenil, todos os quatro continham momentos de humor multifacetado, em que as crianças se podiam rir das piadas mais directas enquanto os adultos se divertiam com o substrato sarcástico e mordaz que os mais novos não compreendiam.


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As primeiras edições dos livros de Adrian Mole em Portugal


Esta polivalência fez com que Adrian Mole fosse relativamente bem-sucedido em Portugal - apesar de, ao contrário de outra saga de que aqui falámos, não ter sido de todo localizado, e manter muita da sua ‘britanicidade’. Ainda assim, uma série de relativo sucesso, que vale a pena incluir nesta retrospectiva.


E é precisamente com o jovem inglês que fechamos esta viagem pelas séries de livros mais marcantes dos anos 90. Havia outras, é claro, algumas já lidas por jovens de outras décadas (como as diversas séries de aventura de Enid Blyton) mas estas foram as que considerámos terem sido especificamente ‘nossas’, isto é, das crianças daquela época. Concordam? Discordam? Faltou alguma? A mesa é vossa! Entretanto, ‘keep reading’!

Friday, 30 April 2021

Quintas de Quinquilharia: As Colecções de Cromos das Tartarugas Ninja

NOTA: Este post é correspondente a Quinta-Feira, 29 de Abril de 2021.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


E desta feita, voltamos a pegar num tema do qual falámos há algumas Quintas-feiras atrás, e em outro do qual temos vindo a falar ao longo de toda esta semana – respectivamente, os cromos, e as Tartarugas Ninja. Porque a verdade é que, entre os muitos items de ‘merchandising’ relativos ao quarteto animado comercializados em Portugal contavam-se, não uma, mas duas colecções de cromos, além de outra tangencialmente relacionada a esse tipo de passatempo. É dessas colecções que falaremos neste post.


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Um cromo da caderneta 'Turtles' da Panini


E começamos, desde já, pela inevitável Panini, ainda hoje a ‘rainha’ das cadernetas de cromos, e que naquele início de década não perdeu a oportunidade de licenciar também aquela que era uma das propriedades intelectuais mais lucrativas e rentáveis da época. Assim, quase em simultâneo com o aparecimento da série em Portugal, saía o ‘Sticker Collectors Album’ das ‘Teenage Mutant Hero Turtles’, com um autocolante adicionado de forma ‘subtil’ à capa com a tradução portuguesa, para o caso de alguém não saber quem eram aqueles quatro répteis antropomórficos animados.


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A capa da caderneta da Panini. Reparem no autocolante de tradução, super-discreto e nada com ar de solução de última hora...


Em termos de estrutura, a caderneta das Tartarugas era bastante típica para aquele tempo, consistindo de cenas retiradas dos episódios da série animada original que se colavam por cima de panos de fundo também alusivos à série, com algum texto à mistura e – como a Panini orgulhosamente apregoava na capa – também um poster grátis, o qual constituía mais um incentivo (como se tal fosse necessário) à aquisição da mesma. Previsivelmente, o público-alvo respondeu de forma entusiasta, rapidamente colocando a colecção no mesmo patamar de sucesso imediato de que gozavam a maioria dos outros produtos com a marca Turtles naqueles primeiros anos da década de 90.


Ao mesmo tempo que a Panini lançava a sua habitual adaptação em formato cromos da série ‘do momento’, também as bolachas Triunfo lançavam uma colecção ‘alternativa’, embalada com a sua gama de bolachas wafers. Em relação aos da Panini, estes cromos eram bem mais simples, mas para quem gostava de bolachas e das Tartarugas Ninja (ou seja, 95% dos ‘putos’ portugueses) esta constituía uma proposta irresistível, e uma desculpa perfeita para aumentar o quociente ‘bolachistico’ dos armários lá de casa. Até porque a promoção associada aos cromos prometia uma ‘prenda ‘muita’ gira’ (sic) a quem encontrasse um dos cromos premiados, incentivando assim as crianças portuguesas a darem uma de Charlie Bucket e comprarem o máximo de pacotes de wafers possível, em busca do fugidio bilhete dourado. Não que tal incentivo fosse necessário, já que as wafers da Triunfo eram, à época, boas o suficiente para justificar a compra por si só.


(O que seria a tal prenda-surpresa, infelizmente, já não é possível saber. Será que alguém aí por casa encontrou um cromo premiado, e nos pode elucidar?)


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Poster alusivo à promoção Tarta-Heróis (ou 'Hero Turtles', porque traduzir sai caro e o dinheiro foi todo na licença) das bolachas Triunfo.


Recordadas que estão as duas colecções de cromos ‘de época’ das Tartarugas Ninja, resta recordar um outro brinde que, apesar de não ser exactamente igual, pertence à mesma categoria: as tatuagens temporárias oferecidas nos produtos da Panrico (Bollycao, Donettes, etc) durante o auge da ‘Tarta-Mania.’


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  Uma das tatuagens temporárias da Panrico


Tal como os cromos da Triunfo, estes decalques eram muito simples, consistindo apenas de uma ‘pose’ de um dos personagens sobre um fundo transparente, com o logotipo 'português' da série na parte superior e o da Panrico na parte inferior. Obviamente, neste caso, a opção pela simplicidade era feita por razões de necessidade, pois um desenho excessivamente complicado poderia não aguentar bem o processo de transferência do autocolante para a pele, ou para qualquer outra superfície onde a criança desejasse colocá-la (no nosso caso, a parede da cozinha da casa onde passámos a infância.)


Também à semelhança do que aconteceu com os cromos da Triunfo, estes brindes foram quase totalmente esquecidos pela Internet, tendo sido encontrada exactamente UMA imagem das mesmas, disponível acima (obrigado, Twitter!) Ainda assim, vale recordar uma promoção que, no auge das ‘febres’ das 'decalcomanias’ e das Tartarugas Ninja, soube combinar ambas num brinde muito apetecível para o público-alvo, disponibilizado na compra de snacks que, como referimos no nosso post a esse respeito, eram igualmente apetecíveis para esse segmento etário.


Fica, assim, completa esta retrospectiva sobre as principais ‘quinquilharias’ associadas às Tartarugas Ninja. Podíamos ainda falar dos ‘pins’ (outro ‘marco’ dos anos 90) e outras ‘tralhas’ semelhantes, mas por agora ficamo-nos por aqui. Chegou, pois, a vossa vez de se manifestarem: coleccionaram estes cromos ou as tatuagens? Que memórias guardam dos mesmos? Por aqui, e além da tatuagem na parede da cozinha, temos uma vaga memória de ter feito a colecção da Panini, embora nada tão vivo como no caso dos cromos do Dragon Ball Z – até porque a dos Tartas é muito anterior… E vocês? Lembram-se? Partilhem nos comentários!

Wednesday, 7 April 2021

Quartas de Quase Tudo: A Literatura Infanto-Juvenil dos Anos 90, Parte I - Made In Portugal

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


…como é o caso da literatura juvenil.


Não, não estamos a falar de banda desenhada; neste post, falamos de livros ‘à séria’, daqueles com capítulos e enredos, só que especificamente criados para agradar a um público infanto-juvenil - aquilo a que nos EUA se chama ‘middle-grade literature’. E os anos 90 foram, sem dúvida, pródigos em exemplos deste tipo de livro, muitos deles orgulhosamente ‘made in Portugal’, e cuja leitura nenhuma criança com alguma propensão para a palavra escrita dispensava.  É precisamente dessas séries de produção inteiramente nacional que este post vai tratar, ficando a próxima Quarta de Quase Tudo reservada para os representantes estrangeiros e traduzidos do género.


No que toca a séries infanto-juvenis concebidas e escritas por autores portugueses, destacam-se de imediato duas, ambas dirigidas ao tal público ‘middle-grade’ (compreendido, sensivelmente, entre o final da escolaridade primária e o final do 3º ciclo do ensino básico) e que fizeram, em maior ou menor grau, parte da infância de qualquer ‘puto’ com queda para a leitura.


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Alguns dos títulos da colecção Uma Aventura


Começando pelos produtos nacionais, não poderíamos escrever um post sobre literatura infanto-juvenil em Portugal e deixar de fora o seu expoente máximo. Concebida e iniciada ainda em inícios dos anos 80, a colecção Uma Aventura continua a ser publicada até aos dias de hoje, contando já com 62 volumes (estando o 63º previsto para sair neste ano de 2021) e prestes a completar quarenta anos de presença constante nos escaparates – e nas estantes das crianças portuguesas. E isto sem nunca ter sido redesenhada a nível do grafismo, ou cedido a quaisquer modismos desse género!


A razão do sucesso de Uma Aventura – que já foi adaptada para televisão e cinema, sempre com boa recepção – não é difícil de perceber. Tal como todas as melhores obras infanto-juvenis, a prosa trata os leitores como seres inteligentes, e perfeitamente capazes de perceber e apreciar livros escritos em linguagem simples, mas não simplista, e com enredos bem pensados e adaptados à sua realidade. Junte-se a isso um ‘cast’ de personagens memorável (incluindo os dois cães) e ilustrações cuidadas e com um estilo distinto e imediatamente reconhecível (da autoria de Arlindo Fagundes, colaborador das autoras desde o primeiro volume da colecção), e está concebida uma série intemporal, e pronta a agradar a gerações de crianças – como, aliás, vem sendo o caso.


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O elenco de uma das adaptações televisivas da série


A receita aparentemente simples desta colecção – basicamente ‘Os Cinco’ adaptados à realidade portuguesa de finais do século XX – continua a revelar-se surpreendentemente versátil e ‘elástica’, e é de imaginar que enquanto a dupla de autoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada tiver inspiração e público-alvo, a colecção não deixe de somar números. Qualquer que seja o seu futuro, no entanto, a verdade é que Uma Aventura já faz parte da malha cultural portuguesa, e que os anos 90 foram responsáveis por uma boa parcela do seu sucesso.


Ao mesmo tempo que Pedro, Chico, João e as Gémeas defrontavam malfeitores nos mais diversos lugares, um outro grupo de personagens disputava com eles o coração dos leitores entre os 7 e os 14 anos. Tratava-se do Clube das Chaves, uma série mais voltada para o mistério em detrimento da aventura, mas que partilhava com a sua principal ‘concorrente’ a escrita sofisticada, os enredos inteligentes e envolventes, e as ilustrações apelativas.


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As capas originais d''O Clube das Chaves', com as excelentes ilustrações de Luís Anglin


De facto, as ilustrações de Luís Anglin eram tão sinónimas com a série como as de Arlindo Fagundes com Uma Aventura, e se possível, ainda melhores que as da série da Caminho, com um estilo arredondado e ‘cartoony’ que traduziria muito bem para um formato de BD ou animado. Infelizmente, a série nunca fez sucesso que justificasse qualquer destes veículos, embora, como Uma Aventura, tivesse sido adaptada para TV, cinco anos após a publicação do último livro da série.


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O elenco da adaptação televisiva d''O Clube das Chaves', de 2005


A principal diferença da série de Maria Teresa Maia Gonzalez e Maria do Rosário Pedreira em relação a Uma Aventura, além do tom menos aventuroso e mais detectivesco, foi o facto de a mesma ter tido uma conclusão definida e, tudo indica, planeada. No total, a colecção teve 21 volumes, espalhados ao longo de exatos dez anos, o último dos quais fechou com ‘chave de ouro’ – passe o trocadilho – a epopeia dos irmãos Pedro e Anica, dos seus primos Guida, André e Vasco e do amigo Frederico para decifrar os mistérios das chaves do avô Cosme. No final da série - e um pouco ao contrário dos personagens algo ‘parados no tempo’ da série rival - todos os jovens eram fisicamente mais velhos, e por consequência mais maduros e com personalidades mais moldadas, oferecendo assim uma perspetiva muito realista do processo de crescimento e da adolescência.


Além destas duas séries, que constituíam leituras ‘por prazer’ para muitos jovens portugueses dos anos 90, destaque ainda para uma autora algo mais ‘mal-amada’ por aquele setor, sobretudo pelo facto de lhes ser ‘impingida’ na escola. Falamos, é claro, de Sophia de Mello Breyner Andresen, cujas obras ‘A Menina do Mar’ e ‘O Cavaleiro da Dinamarca’ foram parte inescapável da disciplina de Língua Portuguesa para muitas crianças do 3º ciclo durante aqueles anos (e, muito provavelmente, ainda hoje.)


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Uma capa memorável para a maioria das crianças portuguesas dos anos 90 - pelas melhores ou piores razões...


Embora seja inegavelmente uma das grandes escritoras portuguesas contemporâneas, e a sua morte tenha significado uma perda considerável para a literatura nacional, Sophia é (ou era) bem menos consensual entre as crianças do 7º, 8º e 9º anos naquela década de 90. Apesar de praticar um estilo simples, as suas histórias apresentavam-se algo ‘pesadas’, não captando o interesse da maioria dos alunos forçados a passar um par de horas com elas, duas a três vezes por semana. Ainda assim, seria uma omissão de monta falar em literatura infantil nacional nos anos 90 sem mencionar estas obras, que – uns anos depois, e em retrospectiva – se afiguravam bem escritas e até algo envolventes.


Antes de darmos este post como concluído, espaço, ainda, para recordar outras séries de algum sucesso entre o público infanto-juvenil da época, como o Detective Maravilhas (de Maria do Rosário Pedreira, co-autora do Clube das Chaves, e com ilustrações novamente a cargo de Luís Anglin) ou O Bando dos Quatro, de João Aguiar, e baseada numa série televisiva. Embora nenhuma destas colecções tenha tido o sucesso de Uma Aventura ou O Clube das Chaves, ambas forneceram às crianças portuguesas de finais da década de 90 bom material de leitura, justificando a sua inclusão neste artigo.


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As séries 'Detective Maravilhas' e 'O Clube dos Quatro'


Como mencionado no início do post, em termos de Parte I, ficamos por aqui; a segunda parte deste tema será publicada daqui a 15 dias. Até lá, a sala é vossa – liam estas séries, ou outras? Qual a vossa favorita? Faltou-nos falar de alguma? Deixem as vossas opiniões nos comentários!


 

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