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Friday, 8 May 2026

Quartas de Quase Tudo: Tragédia na Casa de Banho

 Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Foi uma das primeiras grandes notícias do ano que acabara de começar, e rapidamente se tornou tema para referências satíricas não só no dia-a-dia, como também por parte de comediantes e até músicos, provando mais uma vez o inegável talento português para 'brincar com coisas sérias'. E a verdade é que, piadas à parte, foi uma situação bastante séria aquela que se viveu, logo de manhãzinha cedo, nos estúdios da RTP, em Lisboa, no dia 04 de Janeiro de 2001, quando um funcionário se barricou com a família numa das casas de banho do edifício de Entrecampos, alegando ter uma bomba pronta a activar se não fosse ouvido.

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O momento da rendição de Subtil, após oito horas barricado na casa de banho da RTP.

Foi dessa forma tudo menos subtil que Manuel Subtil conseguiu 'ser notícia', e penetrou o imaginário português da época, tornando-se o seu tom desesperado e algumas das suas palavras alvos de 'chacota' - ainda que, de engraçada, a situação nada tivesse, já que o catalista das acções de Subtil era uma tragédia pessoal, alegando o mesmo ter perdido tudo e pedindo uma indemnização à RTP. Foram necessárias oito horas - e a intervenção de psicólogos, especialistas e das forças especiais da PSP – para dissuadir Subtil do seu propósito, tendo o mesmo acabado por se render, cerca das quatro da tarde, e sido recebido em apoteose pelos 'mirones' que acompanhavam, da rua, o desenrolar dos acontecimentos.

Uma situação que podia ter acabado tragicamente – e criado um mártir – mas que, em vez disso, se tornou numa 'lenda urbana' do Portugal de inícios do século XXI, tendo até sido tema de uma música do grupo 'punk' Acromaníacos. Quanto a Manuel Subtil, regressou a casa, onde logrou voltar a ser anónimo – embora seja de suspeitar que os vizinhos não o tenham deixado esquecer o incidente que, por breves horas de um frio dia na primeira semana do ano de 2001 – fizeram dele o homem mais falado de todo o País...

Wednesday, 11 February 2026

Quartas de Quase Tudo: Um Início Sombrio Para A Época Natalícia de 2000

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Apesar de Dezembro ser, tradicionalmente, um mês festivo, a quadra natalícia portuguesa do primeiro ano do século XXI iniciava-se, não com alegria, mas com tragédia. Isto porque, a 11 de Dezembro do ano transacto, assinalaram-se os exactos vinte e cinco anos sobre o desastre ferroviário de Ermida, em que um comboio de passageiros acabou parcialmente submerso no Rio Douro, vitimando o maquinista e fazendo ainda sete feridos, naquele que fora um dos mais impactantes acidentes de comboio da década, a par do ocorrido mais de uma década antes, na zona da Grande Lisboa, e que já abordámos nesta rubrica.


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Seria pouco depois de a locomotiva 1400 da CP deixar a estação de Ermida, no concelho de Baião, no distrito do Porto, que a queda de uma pedra nos carris causaria o descarrilamento da mesma ao passar sobre uma ponte, fazendo com que todo o comboio ficasse 'pendurado' sobre o rio, com a locomotiva a desaparecer mesmo sob as águas, levando consigo Bruno Sousa Vieira, de 59 anos, que servia de maquinista, e cujo corpo seria recolhido do rio poucas horas depois. Melhor sorte teve o assistente do mesmo, que ficaria apenas ferido, o mesmo acontecendo com dois revisores e quatro passageiros; o condutor do comboio, esse, sairia incólume, tendo conseguido saltar da locomotiva antes de a mesma submergir completamente. Os passageiros das carruagens traseiras não sofreriam igualmente quaisquer sequelas, já que as mesmas nem sequer chegaram a desviar-se dos carris.


O acidente levou, naturalmente, a uma investigação, e ao habitual 'apontar de dedos' entre as partes responsáveis pela manutenção do comboio e da via férrea. Ainda assim, o acidente foi considerado 'imprevisível', já que a pedra responsável pelo descarrilamento caíra já depois de um veículo de inspecção da linha ter passado pela zona naquela manhã, sem encontrar nada a registar. Uma tragédia no mais puro sentido da palavra, portanto, que fazia com que a época natalícia daquele ano se iniciasse em tom mais sombrio do que o habitual, e que deixava pelo menos uma família sem vontade de celebrar fosse o que fosse...

Friday, 13 September 2024

Quartas de Quase Tudo: O Dia Em Que A Terra Parou

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 11 de Setembro de 2024.


NOTA: Por razões de relevância temporal, a Quarta aos Quadradinhos fica adiada para a próxima semana.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


A premissa por detrás da criação deste blog era simples: oferecer uma perspectiva nostálgica e leve sobre algumas das frivolidades que ocupavam a infância da geração 'millennial' portuguesa, sobretudo entre os anos de 1989 e 2000. No entanto, até o mais rígido dos conceitos encontra, forçosamente, situações em que é preciso 'contornar' um pouco as regras em nome de um tema ou efeméride tão importante e impactante que praticamente obriga a que lhe seja feita menção; e, para a juventude portuguesa de finais do século XX e inícios do seguinte, talvez a mais significativa dessas excepções tenha tido lugar a 11 de Setembro de 2001, o dia em que o Mundo parou para assistir a uma catástrofe que (espera-se) nunca mais será igualada.


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A primeira imagem que muitos associam ao 11 de Setembro.


Qualquer cidadão velho o suficiente para ter tido noção do ocorrido sabe exactamente como responder à famosa pergunta 'onde é que estavas no 11 de Setembro?' Em Portugal, era já o início da tarde quando o primeiro dos três aviões capturados por terroristas embatia com uma das torres gémeas do World Trade Center, pelo que não faltam histórias sobre estar a almoçar, a trabalhar, ou mesmo na praia, a gozar os últimos dias de férias antes do regresso às aulas, como era o caso com o autor deste 'blog'. Fosse qual fosse o contexto ou local, ninguém jamais esquecerá a famosa imagem da coluna de fumo a emergir das torres nova-iorquinas, símbolo da destruição da mentalidade capitalista que as mesmas representavam, por parte de uma facção terrorista do Médio Oriente. Mesmo antes de se saberem detalhes da impressionante tragédia (como o número de mortos) aquela primeira imagem deixava já a sensação de se estar a viver, em directo, uma mudança no quotidiano do Mundo – a qual se viria, nos anos seguintes, a acentuar através de uma série de aspectos irremediavelmente alterados, como o processo de verificação das bagagens nos aeroportos (a famosa 'segurança' que tanto incomoda os viajantes aéreos frequentes) e o aumento da politização entre artistas dos mais diversos campos, muitos dos quais condenavam o Presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush, por ter dado azo ao horrendo acto com os seus interesses económicos no Médio Oriente.


Não faltaram, também, teorias da conspiração, com os habituais argumentos de que o atentado havia sido orquestrado pelo próprio Governo americano, como pretexto para atacar o Iraque e ali explorar as reservas de petróleo, e de que o homem capturado como sendo Osama Bin Laden (suposto líder da Al Qaeda e ideólogo do golpe) não passava de um sósia inocente feito de 'bode expiatório' pelos ianques, encontrando-se o verdadeiro ainda a monte. Teorias nunca comprovadas, e que dificilmente ajudam a atenuar, contextualizar, e muito menos explicar um acto difícil de conceber por qualquer cidadão ocidental, e sobretudo pelos habitantes de um pacato 'recanto' à beira-mar na cauda da Europa, como é Portugal. Talvez por isso o 11 de Setembro continue a constituir uma marca tão profunda na memória e psique de uma geração que nunca havia visto nada semelhante, e que, espera-se, nunca mais torne a ver, fazendo da tragédia norte-americana um daqueles momentos capazes de mudar toda a percepção relativamente à vida e ao quotidiano de qualquer criança ou jovem. Que nunca esqueçamos, e que nunca mais tenhamos que voltar a passar pelo mesmo.

Sunday, 19 May 2024

Domingo Desportivo: A Tragédia do Jamor (Em Memória de Rui Mendes 1960-1996)

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


O objectivo desta rubrica – tal como das restantes que compõem o blog – passa, normalmente, pela 'repescagem' de elementos e experiências positivas que faziam parte do Portugal dos anos 90 e inícios de 2000; no entanto, ocasionalmente, é também necessário recordar efemérides menos agradáveis, mas que deixaram ainda assim marca indelével na década em causa, bem como nas subsequentes, como foram o caso Aquaparque ou a tragédia de cariz desportivo que recordamos este Domingo, escassas vinte e quatro horas volvidas sobre o seu vigésimo-oitavo aniversário. Falamos, claro está, da morte de um adepto do Sporting como consequência da explosão de um artefacto pirotécnico, em pleno Estádio do Jamor, durante o 'derby' a contar para a final da Taça de Portugal entre os 'leões' e os rivais da Segunda Circular, a 18 de Maio de 1996.


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O momento da tragédia, captado pelas câmaras televisivas presentes no estádio.


Estavam decorridos apenas dez minutos da partida quando, como forma de celebrar o golo inaugural marcado por Mauro Airez, um membro da claque organizada benfiquista 'No Name Boys' lança um 'very light', um tipo de foguete já então proibido por lei em áreas habitadas. Não contente com essa violação da lei, Hugo Inácio decidiu fazer 'pontaria', não para o ar, mas para a bancada Sul do estádio, onde se encontravam os adeptos do Sporting, num gesto deliberado que terminaria com a morte de Rui Mendes, de trinta e seis anos.Um crime de assassinato que deveria ter feito parar o jogo, mas ao qual não foi dada, no momento, a devida importância, tendo a partida continuado, com eventual resultado de 3-1 a favor do Benfica, e respectiva consagração como vencedor da competição – uma decisão que causou, e continua a causar, polémica, sobretudo entre adeptos dos 'leões' que sentem que a perda da vida de Mendes foi trivializada pelo prosseguimento da partida.


De facto, só mais tarde a FPF viria a mostrar solidariedade para com a família do adepto falecido, doando dez por cento da receita bruta de um jogo da Selecção Nacional para ajudar às despesas da mesma, já depois de o Sporting ter custeado na íntegra o funeral. Já Hugo Inácio viria a ser detido e a cumprir quatro anos de prisão, naquela que foi a primeira de muitas passagens do adepto pela prisão em anos subsequentes – pena que parecia pouca para o crime de homicídio qualificado, num desfecho que, novamente, revoltaria os sportinguistas. Quanto aos adeptos rivais, os mesmos incorporariam, a partir desse dia, um novo som à sua panóplia de cantos e palavras de ordem – um assobio a simular um foguete, ainda hoje ouvido em qualquer partida frente ao Sporting, numa 'picardia' de inequívoco mau gosto, que trivializa ainda mais uma tragédia perfeitamente evitável, e dá a entender que os No Name Boys tiveram orgulho no sucedido – uma ideia quase grotesca de tão revoltante.


Aquele que muitos consideram, justificadamente, o dia mais negro do desporto português acabou, ainda assim, por ter alguns (pequenos) efeitos positivos, nomeadamente a imposição de controlos muito mais restritos sobre a pirotecnia no contexto de jogos dos campeonatos portugueses, por forma a assegurar que tal situação nunca mais se repetisse; há, ainda, que ressalvar o facto de o ataque em causa ter vitimado apenas um adepto, e adulto. numa bancada onde se encontravam inúmeras crianças, podendo a acção deliberada do elemento da claque benfiquista ter tido um desfecho ainda muito pior. No entanto, a verdade é que nenhum destes factos ajudará a trazer de volta à vida Rui Mendes, mártir de uma paixão que, por vezes, assume contornos bem negros. Que continue a descansar em paz, e que nunca seja esquecido.


Sunday, 13 August 2023

Saídas ao Sábado (de Verão): Trinta Anos do Caso Aquaparque

NOTA: Este post é respeitante a Sábado, 12 de Agosto de 2023.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


No início dos anos 90, os parques aquáticos eram um dos mais populares destinos de Verão para as crianças e jovens portugueses, até pelo factor de proximidade, que permitia ir passar o dia a uma instalação deste tipo e voltar a tempo do jantar. Há quase exactos trinta anos, no entanto, essa tendência viria, abruptamente, a mudar, por conta de um grave acidente ocorrido num parque aquático em Lisboa.


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O Aquaparque do Restelo, em Lisboa, palco da tragédia.


Corria a tarde de 27 de Julho de 1993 quando a vida dos familiares de Cristina Caldas, de nove anos, seria, irremediavelmente, virada do avesso; dois dias depois, o mesmo aconteceria com a família de Frederico Duarte, da mesma idade. Ambas as crianças foram dadas como desaparecidas precisamente no mesmo local - o popular Aquaparque, na zona do Restelo, em Lisboa - e foi no decurso das buscas ao local que o triste fim das duas foi revelado: ao ser esvaziada a piscina da atracção 'Ribeirão', os corpos foram encontrados nas tubagens, as quais se encontravam totalmente desprotegidas, tendo as crianças sido sugadas pela força hidráulica e ficado 'entaladas'. Mais curioso era o facto de a grelha de um dos dois tubos de sucção responsáveis pela tragédia ter sido reposta, sem que, ainda hoje, se saiba por quem.
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O caso levou, evidentemente, a fortes protestos contra a instalação do Restelo - conhecida a partir de então como 'Aquaparque da Morte' (onde uma pequena multidão causou desacatos, obrigando a intervenção policial) e, por extensão, a outros parques semelhantes, como o Ondaparque, localizado do outro lado do rio Tejo, e tão ou mais popular que o Aquaparque. Mas se esse ainda se manteria activo durante mais alguns anos (acabando, no entanto, também por morrer) o Aquaparque não sobreviveu ao escândalo, encerrando portas de forma permanente poucas semanas depois, com os donos envolvidos num processo judicial relativo a homicídio por negligência, que se arrastaria durante sete anos, e que os pais das duas crianças viriam a ganhar.


De referir que, mesmo antes do acidente, o Aquaparque era já alvo de controvérsias, com fontes como a revista Pro-Teste a apontarem a falta de segurança das atracções do parque e atitude negligente dos monitores e salva-vidas, além da sujidade e falta de condições da instalação. Ainda assim, o Aquaparque não deixava de atrair entusiastas dos escorregas aquáticos da região de Lisboa - isto, claro está, até àqueles três dias fatidicos, que mudaram a irreversivelmente a percepção do público português sobre os parques aquáticos, e terão deixado muitos jovens da altura com uma sensação de alívio por não lhes ter sucedido algo semelhante. Foi há trinta anos, mas a memória viverá para sempre na mente de quem era de uma idade aproximada à das vítimas e presenciou o caso através dos Telejornais - e que tem, também, o dever de não deixar que o caso caia no esquecimento, para que o mesmo continue a servir como exemplo cautelar para as gerações vindouras...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...