Showing posts with label boavista. Show all posts
Showing posts with label boavista. Show all posts

Sunday, 17 May 2026

Domingo Desportivo: Vinte e Cinco Anos De Um Campeão Nacional Inesperado

 

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Apesar de, nos primórdios dos campeonatos profissionais de futebol em Portugal, clubes como a Académica de Coimbra e o Belenenses terem logrado considerável sucesso, na 'era moderna', é dado quase adquirido que o campeão nacional será um dos 'três grandes' – Benfica,Sporting ou Porto. Essa escassez de oportunidades para emblemas mais 'pequenos' torna, no entanto, ainda mais surpreendente e meritória qualquer ocasião em que um outro clube primodivisionário consiga quebrar essa hegemonia 'a três' – algo que sucedeu pela última vez há exactos vinte e cinco anos, quando uma equipa do Boavista recheada de nomes conhecidos conseguia uma façanha ímpar na História do clube do Bessa, ao conquistar o título de campeão da época 2000/01, ultrapassando Benfica, FC Porto e o campeão em título, Sporting.

Apesar de surpreendente à época – sobretudo pela dimensão do clube – a conquista do Boavista faz bastante mais sentido uma vez analisado o plantel com que o emblema contava naquela temporada. Senão veja-se: os guarda-redes eram o histórico William e um jovem Ricardo (em breve destinado a mais altos vôos) e na equipa 'de campo' marcavam presença nomes como Rui Óscar, Rui Bento, Pedro Emanuel, Duda, Jorge Couto, Frechaut, o goleador Elpídio Silva (também ele prestes a dar um 'salto', no seu caso, maior que as pernas) e as 'lendas vivas' do clube Martelinho, Litos e Erwin Sánchez, além do futuro internacional português, jogador do Benfica e treinador do próprio Boavista, Petit; ao comando desta 'chuva de estrelas' estava, claro, o eterno 'timoneiro' axadrezado, Jaime Pacheco, nome que, no Portugal da época, rivalizava apenas com Paco Fortes no tocante a associações de longo prazo entre treinadores e um único emblema. Uma lista de nomes como já raramente se vê hoje em dia num clube fora dos quatro principais emblemas, e que permitia ao emblema do Bessa ter um plantel e 'onze' capazes de competir tanto com o seu 'rival' portuense como com os dois 'gigantes' da capital.

Infelizmente, a conquista do primeiro título nacional do Novo Milénio seria mesmo o auge da trajectória futebolística do Boavista, que dentro em breve se veria envolvido num escãndalo financeiro, e, dentro de poucas temporadas, militaria nos escalões amadores, totalmente falido, humilhado e longe da glória que experienciara no início do século. Felizmente, ao contrário de muitos outros 'históricos' na mesma situação (como o Felgueiras ou o Salgueiros) os axadrezados lograram alcançar novamente as divisões cimeiras do futebol nacional e, ainda que longe do fulgor de outrora, vão encontrando forma de 'sobreviver' entre percalços, revezes e dissabores, talvez sonhando, um dia, voltar a 'intrometer-se' na luta pelo título máximo nacional, como, contra todas as previsões, fez, no dia 18 de Maio de 2001, aquela que foi, por definição, a melhor equipa de toda a sua História.

Monday, 16 March 2026

Domingo Desportivo: A Bonita Carreira do 'Outro' Mozer

NOTA: Este 'post' é respeitante a Domingo, 15 de Março de 2026.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Quando se fala em jogadores memoráveis ou históricos no contexto de um clube de futebol, está-se, na maioria dos casos, a falar dos 'artistas', aqueles atletas cujos movimentos ficam na retina, ou cujo número de golos é inegável; existe, no entanto, outro tipo de jogador que pode ascender a este estatuto – no caso, destacando-se pela consistência mais do que pela 'arte'. É, precisamente, sobre um desses jogadores, que celebrou este fim-de-semana o seu quinquagésimo-quarto aniversário, que versa este Domingo Desportivo.


download.jfif


O jogador com as duas camisolas que o notabilizaram.


Formado no viveiro de talentos do bairro da Boavista (onde chegou a partilhar plantel com um jovem João Vieira Pinto) e no não menos histórico Rio Ave, foi nas divisões inferiores que Rui Miguel Batista Araújo primeiro se deu a conhecer, então já com a alcunha que lhe ficaria associada – Mozer (em homenagem ao histórico jogador do Benfica) Seria, no entanto, no Leixões que, pela primeira vez, ganharia mais visibilidade, tendo-se afirmado como um dos mais importantes jogadores dos 'Bebés do Mar' durante as três épocas que ali passou, e revelado qualidades que o apontavam a mais altos vôos; e os mesmos não tardariam a chegar, com o médio a transferir-se para a então Primeira Divisão a tempo de iniciar os treinos para a pré-época de 1996/97 com a camisola do Sporting Clube de Braga.


E seria mesmo na 'Pedreira' que Mozer se afirmaria como um dos bons médios dos campeonatos da altura, realizando ao todo cinco épocas ao serviço dos arsenalistas - as três primeiras como indiscutível – precisamente na altura em que o clube iniciava a caminhada rumo ao estatuto de 'quarto grande', contando com plantéis muito interessantes, onde pontuavam jogadores como Miki Féher, Mladen Karoglan ou o histórico Quim, e que chegou mesmo a disputar a Taça UEFA e a Taça das Taças, além de chegar a uma final da Taça de Portugal, perdida diante de um Porto em potência máxima. O Novo Milénio seria, no entanto, menos 'simpático' para com Mozer, que – após uma temporada com menor preponderância – iniciaria o século XXI com uma grave lesão (rotura de ligamentos) que o veria disputar apenas cinco partidas pelo plantel principal e mesmo jogar na equipa B para recuperar a forma – um fim de ciclo triste para um jogador que se afirmara como importante ao longo das temporadas anteriores.


A sorte de Mozer tão-pouco viria a mudar na época seguinte, com novos problemas físicos a travarem a sua afirmação na nova equipa, o Farense, pela qual somaria apenas doze presenças, cerca de um terço dos jogos realizados pelos alvi-negros nessa temporada. Seria, pois, novamente a Norte que o médio lograria relançar a carreira, com três boas épocas ao serviço de um dos seus clubes formadores, o Rio Ave, durante as quais se sagraria campeão da II Liga e recuperaria finalmente o estatuto de peça importante numa equipa de alguma projecção no principal escalão nacional. O passo seguinte, no entanto, seria 'para trás', com o jogador a ingressar no Trofense, antes de – a meio da época 2006/07, já com provectos trinta a cinco anos – arriscar a unica aventura internacional, ao serviço dos espanhóis do Vecindario.


O regresso a Portugal dar-se-ia seis meses depois, desta feita rumo aos Açores, antes de a natural curva descendente de carreira remeter o médio para as divisões inferiores, nível no qual penduraria as botas no Verão de 2011, aos trinta e nove anos (!) para arriscar uma curta carreira como treinador de Pedras Rubras (último clube representado), Candal e Nogueirense. Desde 2014, no entanto, o médio 'goza' a vida de 'anónimo social', estatuto bem merecido após uma honrosa carreira que o levou 'um pouco por todo o lado' dentro do futebol português e até ibérico em geral. Parabéns, e que conte muitos.

Sunday, 4 August 2024

Domingo Desportivo: Os 'Intrusos' da Supertaça

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


1024.jfif


Nos últimos meses da década de 70, o futebol português via nascer mais uma competição, a juntar aos campeonatos nacionais e à Taça de Portugal: a Supertaça Cândido de Oliveira, troféu designado em homenagem ao lendário jogador e treinador que põe frente a frente os vencedores das duas outras competições. E embora as características do panorama futebolístico nacional não permitam grandes surpresas, tornando algo previsível quais as duas equipas que se irão defrontar, a História do troféu reservou, ainda assim, lugar a surpresas, embora a hegemonia de Sporting, Benfica e FC Porto apenas por três vezes tenha sido quebrada nos já quarenta e cinco anos de vida da competição. Agora, no rescaldo de mais uma Supertaça (ganha de forma tão impressionante quanto mirabolante pelo FC Porto) nada melhor do que recordar esses 'intrusos' que, embora apenas por uma época, lograram 'roubar' uma Taça aos três 'grandes' nacionais.


A primeira dessas três 'intromissões' deu-se ainda na década de 1980, quando o Vitória de Guimarães, capitaneado por Nando e com Neno na baliza, levou para casa o troféu da época 1987-88, após bater por um agregado de 2-0 o Porto de Quinito, que contava com nomes como João Pinto, Augusto Inácio, António André, Jaime Pacheco, Domingos ou Rui Águas, e que havia, nesse ano, feito a 'dobradinha', derrotando precisamente a equipa de Geninho na final da Taça de Portugal. Os vimaranenses tornavam-se assim, ainda que sem o saberem, a única equipa fora do eixo Lisboa-Porto a vencer a competição, e realizavam um feito e que apenas mais uma equipa conseguiria igualar em toda a História da competição – curiosamente, outra agremiação alvinegra, embora neste caso as cores surgissem em padrão axadrezado.


Falamos, claro, do Boavista, que, por duas vezes na década de 90, 'bateu o pé' a um 'grande' – primeiro em 1992 e em seguida cinco anos depois, em 1997, ambas contra o FC Porto. O primeiro destes dois triunfos viu a equipa então treinada por Manuel José, e que tinha como capitão o histórico Paulo Sousa, eliminar a equipa de Carlos Alberto Silva, após dois 'derbies da Invicta' repletos de golos, o primeiro dos quais veria os axadrezados vencer por 3-4 em plenas Antas, para depois segurar (e assegurar) um empate a duas bolas em casa, no Bessa. De ressalvar que, dessa equipa do Boavista, faziam parte, além de Paulo Sousa, nomes como Lemajic, Rui Bento, Caetano, Litos ou o 'Grande dos Pequenos' axadrezado, Bobó, que faziam frente ao Porto de Baía, Fernando Couto, Aloísio, Paulinho Santos, Timofte, Kostadinov, Domingos, Jorge Costa e Jorge Couto.



Já a segunda vitória, obtida em Agosto de 1997, veria os homens de Mário Reis, ainda com Paulo Sousa como capitão e agora com o bem conhecido Ricardo na baliza (além do também 'famoso' matador Ayew na frente) levar de vencida a turma de António Oliveira por um resultado agregado de 2-1, tendo a equipa axadrezada vencido em casa por 2-0 antes de ir perder às Antas por margem mínima, a qual não foi suficiente para lhe retirar o troféu. A equipa de Ricardo, Paulo Sousa, Rui Bento, Isaías, Martelinho, Delfim e do 'matador' Ayew Kwame (muitos com passagem passada ou futura pelos 'grandes') lograva assim conquistar um dos poucos troféus perdidos pelo Porto da fase hegemónica, que, na época em causa, contava com nomes tão conhecidos dos adeptos da altura como Rui Jorge, Sérgio Conceição, Drulovic, Zahovic, Chippo, Folha, Capucho e, claro, Mário Jardel, além do 'perene' Paulinho Santos.



Assinalar-se-ia assim a última vez que uma equipa fora do 'triumvirato' de Sporting, Benfica e Porto levaria para casa a Supertaça, pelo menos até à data de publicação deste 'post'. Numa era em que o desnível entre equipas se tende cada vez mais a reduzir, não é, no entanto, impossível ou impensável que outra agremiação consiga repetir tal façanha – sendo que, por exemplo, o Sporting de Braga deu muito trabalho ao seu homónimo lisboeta ainda há poucos anos, sucumbindo já perto do fim do jogo; e se o formato de 'jogo único' torna impossível uma vitória por agregado, como as conseguidas pelos clubes acima descritos, a verdade é que a remontada do Porto na edição 2024 do certame prova que tal desiderato pode perfeitamente ser atingido num jogo de 90 ou 120 minutos. Têm a palavra as restantes quinze equipas actualmente no escalão principal nacional...

Sunday, 25 February 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Litos: Amor À Camisola Axadrezada

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Um dos elementos mais importantes em qualquer agremiação desportiva é a chamada 'mística' – o conjunto de valores que definem a ética profissional e desportiva da colectividade, e que se espera que os atletas da mesma sigam sempre que a representam. É, precisamente, este factor que torna tão crucial, em qualquer plantel de qualquer desporto, a presença de atletas que vejam no clube que representam a sua 'casa', ou o tenham como emblema de coração desde muito jovens, já que é, normalmente, sobre eles que recai a responsabilidade de transmitir a 'essência' do clube aos recém-chegados. O jogador de que falamos este Domingo, e que completa no dia da publicação deste 'post' cinquenta anos de idade, insere-se nessa mesma categoria, ao lado de nomes como Serifo, Kasongo, Aloísio ou o colega de equipa Martelinho, tendo sido uma das grandes figuras de um 'histórico' português da década de 90. Um verdadeiro 'Grande dos Pequenos', portanto, que muitos adeptos da época reconhecerão das páginas das icónicas cadernetas da Panini – ou, caso sejam adeptos do clube em casa, de o ver jogar em 'carne e osso'.


887_20210522164515_litos.png


O central com a camisola que o notabilizou.


Falamos de Carlos Manuel de Oliveira Magalhães, mais conhecido pelo seu 'apelido' futebolístico, Litos, defesa-central que foi lenda do Boavista e, mais tarde, representou os espanhóis do Málaga, à época 'casa' para muitos nomes bem conhecidos dos meandros futebolísticos da viragem de Milénio, com destaque para os também ídolos Edgar e Duda. Natural do Porto e formado no clube ao serviço do qual se notabilizaria anos depois, seria, no entanto, no Campomaiorense que o central faria a sua estreia como sénior, por empréstimo do emblema axadrezado, na época de 1992/93. E a verdade é que, apesar da tenra idade (atributo que tende a jogar contra atletas defensivos, sobretudo numa posição-chave como a de central) Litos não demorou a estabelecer-se como figura importante do clube alentejano, pelo qual realizou cerca de três dezenas de partidas durante a temporada em causa.


Este início auspicioso não foi, no entanto, suficiente para convencer os responsáveis boavisteiros, e a época seguinte reservava novo empréstimo a Litos, desta feita para a zona da Grande Lisboa, para representar o Estoril-Praia. Infelizmente, este segundo empréstimo foi diametralmente oposto ao primeiro, com o central a participar em apenas cerca de metade dos jogos dos 'canarinhos' na campanha de 1993/94 – o que em nada ajudava à concretização do seu sonho de jogar pelo Boavista. Por sorte, o terceiro e último empréstimo da carreira do defesa voltou a correr-lhe bastante melhor, com Litos a estabelecer-se novamente como figura importante no Rio Ave, voltando a contabilizar mais de trinta partidas e, desta feita, fazendo o suficiente para justificar não só a sua inclusão no plantel axadrezado para a época de 1995/96, mas também diversas chamadas à Selecção sub-21, onde se tornou opção a partir de 1993.


E o mínimo que se pode dizer é que Litos não desperdiçou a sua oportunidade de finalmente viver o seu sonho, 'agarrando' o lugar com unhas e dentes e dando o mote para seis temporadas como opção quase indiscutível no seio do plantel axadrezado, culminadas com a inédita conquista do título de Campeão Nacional, na primeira temporada completa do Novo Milénio – campanha, aliás, em que Litos, por essa altura já com honras de capitão de equipa, teve papel determinante, formando um esteio defensivo de respeito com uma Cara (Des)conhecida prestes a rumar a mais altas glórias, Pedro Emanuel. Foi, também, durante este período que Litos teve a honra de representar a Selecção Nacional AA da fase Geração de Ouro, pela qual disputou um total de seis partidas entre 1999 e 2001.


As excelentes prestações durante a temporada do título, e o respeito e estatuto de que gozava entre jogadores e adeptos do Boavista, propiciaram mesmo o 'salto' internacional para Litos, que, no final da época em causa, assinava pelo emblema sul-espanhol que se viria a tornar a sua segunda 'casa'.


785291_med__20210522164223_litos.jpg


Ao serviço do Málaga, de Espanha.


Em Málaga, o central seria novamente opção indiscutível em quatro das cinco épocas que passou de azul e branco, encantando e conquistando os adeptos espanhóis da mesma forma que fizera com os do seu clube formador, em Portugal – pelo menos durante a primeira época, já que, nas seguintes, foi gradualmente perdendo preponderância, acabando por se desvincular do emblema aquando da descida à II Divisão espanhola, no Verão de 2006. Oportunidade perfeita para regressar a Portugal, onde rapidamente encontrou novo 'emprego' ao serviço de outro histórico, a Académica de Coimbra, pela qual militou duas épocas, tendo sido titular habitual na primeira e opção de banco esporadicamente utilizada na segunda, o que motivou nova 'aventura' pelo estrangeiro, desta vez ao serviço dos austríacos do Salzburgo; meia época sem qualquer presença no 'onze' levou, no entanto, a que Litos desse oficialmente por encerrada a carreira no final da temporada 2007/2008.


download.jpg


Em campo pela Académica.


Curiosamente, para um jogador com perfil de líder, Litos nunca se aventurou por cargos técnicos (não devendo ser confundido com o treinador e ex-jogador de alcunha semelhante, alguns anos mais velho, e que chegou a passar pelo Sporting) preferindo que o seu legado se resumisse aos feitos conseguidos dentro de campo. E a verdade é que, apesar dos poucos emblemas representados, o central podia, à data da sua reforma, gabar-se de ter sido Campeão Nacional, contra todos os prognósticos, e de ter partilhado o balneário com futuras 'lendas' como Nuno Gomes, Ricardo, Petit ou o referido Pedro Emanuel – um espólio honroso, e do qual o defesa se pode, com toda a justiça, orgulhar. Parabéns, e que conte muitos.

Sunday, 4 September 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - Fary

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


O avançado africano parco em técnica mas que compensa esse defeito com muita velocidade e boa compleição física é uma das figuras clássicas do futebol, não só português, como mundial; e se mesmo na era do futebol moderno e 'rendilhado' é possível encontrar exemplos deste tipo de futebolista um pouco por todo o Mundo, escusado será dizer que, na época em que o desporto-rei era bem mais físico e 'feio', os mesmos eram presença constante, sobretudo em clubes e ligas mais 'periféricos'. Portugal não constituiu de todo, excepção a esta regra, bastando lembrar nomes tão icónicos dos campeonatos dos anos 90 e 2000 como Chiquinho Conde, Douala, Cafu (um dos exemplos mais 'acabados' deste tipo de futebolista) ou o 'Grande dos Pequenos' que focaremos esta semana, Faye Fary.


190 - Fary.jpg


Um dos inevitáveis cromos da Panini referentes ao jogador


Nome tão conhecido de quem acompanhava o futebol português da época como qualquer dos anteriores, o avançado senegalês chegava a Portugal na segunda metade da década de 90, pela mão da modesta União de Montemor, após ter sido 'descoberto' a jogar na desconhecida ASC Diaraf, do seu país natal, e contratado para reforçar o plantel da referida equipa para a época 1996/97. Seguir-se-iam duas auspiciosas épocas de estreia no futebol europeu, com Fary a não acusar a transição para o futebol europeu (algo que continua a afectar um grande número de futebolistas oriundos de outros continentes, mesmo nos dias que correm) e facturando um total de quarenta golos em pouco menos de sessenta jogos – uma marca admirável, mesmo numa divisão inferior.


Foi, portanto, sem surpresas que a pré-época de 1998-99 viu Fary dar o 'salto' profissionalizante, ao ingressar no histórico Beira-Mar, um dos dois clubes 'pequenos' de que se viria a tornar 'Grande'; no total, foram cinco épocas equipado de aurinegro, durante as quais participou em 165 jogos e marcou 63 golos (tendo-se mesmo afirmado como Bola de Prata da I Liga na temporada 2002-2003), venceu uma Taça de Portugal (logo na sua época de estreia), visitou palcos europeus, e se assumiu como parte importante da equipa principal dos aveirenses, com os quais empreendeu uma viagem de 'ida e volta' entre a I Divisão Nacional e a então chamada II Divisão de Honra.



Os 18 golos do jogador valeram-lhe a Bola de Prata em 2002/2003


Foi já no novo milénio, no entanto, que Fary deu o passo que o tornaria nome de charneira nos campeonatos portugueses, e cimentaria o seu estatuto como 'Grande dos Pequenos' – a transferência para o Boavista, clube onde se viria a tornar símbolo, não obstante a alarmante falta de golos (apenas dezassete em cinco épocas e cem jogos pelo emblema axadrezado), constituindo uma das principais constantes na verdadeira 'montanha russa' que foram os anos após a conquista do campeonato nacional pelos axadrezados, que seriam relegados à II Divisão B umas meras três épocas após o histórico feito.


156401.jpg


O senegalês com a camisola do segundo clube de que se viria a tornar ídolo


Os anos seguintes veriam o avançado senegalês reforçar ainda mais o seu lugar no coração dos adeptos dos dois emblemas nortenhos, primeiro com um regresso ao Beira-Mar, por duas épocas (embora, desta vez, como peça bastante secundário, tendo amealhado umas parcas trinta exibições e quatro golos ao longo desse período) e, mais tarde, com novo ingresso no Boavista, onde viria a fazer as últimas quatro épocas da sua carreira profissional, cimentando o seu estatuto como representante da 'mística' boavisteira no balneário, e recuperando mesmo a sua veia goleadora, com uns honrosos 31 golos apontados em 79 aparições (incluindo 15 em uma época, que lhe valiam o título de melhor marcador da II Divisão B em 2012/2013), o seu melhor registo pessoal desde a viragem do milénio. Pelo meio, ficava uma passagem apagada pelo Desportivo das Aves de 2010-2011, onde nunca 'contou para o Totobola', e que o impede de conquistar a marca bonita de ter representado apenas dois clubes nas suas quinze épocas de carreira no século XXI.


Apesar dos percalços e passos em falso, no entanto, a carreira de Faye Fary não deixa de ser um exemplo perfeito de brio profissional e dedicação a (neste caso) dois emblemas, características que compensavam algumas deficiências técnicas que (presumivelmente) terão sido o único obstáculo a que o senegalês ingressasse num dos 'três grandes' portugueses; ainda assim, aquando da sua reforma - aos quarenta (!!) anos – o jogador podia orgulhar-se de ter sido ídolo de mais do que uma agremiação histórica do futebol português, e de ter verdadeiramente adquirido o estatuto de 'Grande dos Pequenos'. E pensar que tudo começou nas divisões amadoras de meados dos anos 90...



O tributo de um adepto boavisteiros ao jogador, aquando do fim da sua carreira, mostra bem o estatuto de que Fary gozava no seio dos axadrezados

Sunday, 10 July 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - Martelinho

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidades do desporto da década.


Na última edição desta rubrica, falámos de Serifo, jogador que desenvolveu toda a sua carreira profissional num único clube, o Leça; esta semana, toca a vez a um nome que, embora não tendo batido o recorde do guineense, mostrou a mesma dedicação a um único emblema – Joaquim Pereira da Silva, conhecido futebolisticamente pela alcunha de Martelinho, e que fica indelevelmente ligado à trajectória noventista do seu clube do coração, o Boavista.


785299_med__20210522171246_martelinho.png


O jogador com a camisola de que se tornou sinónimo


De facto, grande parte da carreira do extremo foi passada nos axadrezados do Porto, onde ingressou ainda em idade de júnior, vindo do Feirense, e onde passou nada menos do que doze épocas - ainda que, nas duas primeiras, tenha sido alvo de empréstimos, a Marco e Aves, respectivamente. Tendo sido figura importante em ambas as equipas durante as respectivas temporadas (pelo Marco, fez 32 jogos e marcou quatro golos, enquanto que pelo Aves alinhou 33 vezes, contribuindo com seis golos) o ainda jovem jogador foi, no início da temporada 1995/96, reintegrado no plantel boavisteiro, o qual não voltaria a abandonar durante precisamente dez anos, durante os quais conquistaria (merecidamente) o estatuto de capitão e figura maior do conjunto nortenho, ainda mais do que nomes como William, Jimmy Hasselbaink, Erwin Sánches ou até Ricardo. No total, foram 189 jogos e 23 golos pelos axadrezados, dos quais trinta (e quatro golos) durante a época mais bem-sucedida da História recente do clube – foi, aliás, seu o único golo da vitória contra o Porto, que permitiu ao Boavista de 2000/2001 ultrapassar os rivais nortenhos e ocupar o topo da tabela, onde viriam a terminar a referida prova.


Terá, pois, sido com relativa surpresa que os adeptos axadrezados viram a sua figura de proa abandonar o clube no fim da época 2004/2005, para rumar aos amadores espanhóis do Portonovo, uma equipa de dimensão substancialmente menor do que o Boavista. A 'aventura' no estrangeiro duraria apenas um ano (durante o qual o médio logrou apenas 14 exibições), tendo Martelinho regressado a Portugal em 2006/2007 para ingressar, não no Boavista, mas no igualmente nortenho Penafiel; após apenas nove partidas ao longo de uma época, no entanto, o extremo voltaria a rumar a Espanha, para nova temporada no Portonovo, antes de efectuar nova mudança de rumo, 'pendurando as botas' como futebolista de campo para ingressar na equipa de futsal do Cidade de Lourosa.


Terminada essa aventura, o histórico do Boavista – então já com 34 anos - viria mesmo a assumir a reforma, fazendo, como tantos outros dos nomes que aqui focamos, a transição natural para a função de treinador, primeiro dos juniores de Feirense e Boavista (as mesmas equipas que o haviam lançado como profissional, quinze anos antes) e, mais tarde, das equipas sénior do Cesarense e Lourosa, pelo qual efectuou duas passagens, tendo a primeira rendido à equipa o título de campeão da AF Aveiro 2012-2013. Uma carreira indubitavelmente honrosa, e nada menos do que fascinante, mas cuja principal contribuição para o imaginário colectivo dos adeptos portugueses será mesmo o 'lugar cativo' que, durante várias épocas, o jogador teve no flanco direito do Boavista de Jaime Pacheco, pelo qual se afirmou como um verdadeiro 'Grande dos Pequenos'.


 

Monday, 25 April 2022

Domingo Desportivo: Os Grandes dos 'Pequenos' - William Andem

NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 24 de Abril de 2022.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Uma das principais 'verdades' do futebol moderno é que os jogadores que mais se destacam num determinado campeonato irão, quase inevitavelmente, acabar por assinar por um dos maiores clubes desse campeonato ou, alternativamente, por um clube de expressão equivalente num campeonato internacional; o que não falta no desporto-rei (português e não só) são histórias de jovens que, de humildes começos no clube 'da terrinha', chegam a estrelas internacionais de renome, sendo Figo ou Cristiano Ronaldo apenas dois dos muitos jogadores que fizeram essa trajectória.


Por vezes, no entanto, surge um jogador que se insere no contexto do 'quase' da frase acima utilizada; um atleta que, embora indispensável no seu emblema e admirado até mesmo por adeptos de outras agremiações, nunca chega a dar esse 'salto' quantitativo durante a sua permanência no futebol português. A nova rubrica que hoje inauguramos pretende, precisamente, recordar alguns dos principais exemplos desse fenómeno a militar em Portugal durante a década de 90.


E como figura inicial desta nova série, nada mais justo do que dar honras de abertura a um dos nomes que vem imediatamente à memória sempre que se pensa em jogadores influentes no campeonato português da década de 90 que militavam em emblemas 'menores': o lendário William Andem, guarda-redes do histórico Boavista durante a maior parte daquela década.


arq_16989.jpg


Quem seguia o campeonato daquela altura, certamente ainda terá presente a figura imponente daquele guarda-redes que – com 'cara de mau' a condizer com a estatura – defendia com surpreendente agilidade e leveza de reflexos as redes axadrezadas em finais da década; o que muitos não saberão é que o mesmo teve, antes da chegada ao clube que o celebrizaria, um percurso no mínimo insólito para um jogador africano, que o levou ao futebol sul-americano antes de, eventualmente, se celebrizar no português.


Nascido Bassey William Andem em Douala, nos Camarões, a 14 de Junho de 1968, o simplesmente apelidado William iniciou o seu percurso futebolístico em finais da década de 80, ao serviço do seu clube local, o Union, onde militou quatro épocas, tendo numa delas ingressado por empréstimo no desconhecido Olympic Mvolyé, também do campeonato camaronês. O inevitável 'salto' para fora de África, esse, dá-se em 1994, quando Andem ingressa no...Cruzeiro.


A presença de um jogador africano num campeonato célebre por contratar maioritariamente 'dentro de portas' (não fosse o Brasil um dos países, senão mesmo O país, com mais aspirantes a jogadores de futebol em todo o Mundo) parecia – e era – insólita, e a contratação acabou por nunca se justificar, tendo William realizado apenas nove jogos nas duas épocas que passou com o emblema brasileiro. Este início pouco auspicioso não foi, no entanto, suficiente para descoroçoar William, que, em 1996, transitava para um novo emblema, ainda no Brasil – no caso, o Bahia, onde chegou a realizar 19 jogos na sua única época como efectivo.


Então com quase 30 anos, e não tendo conseguido afirmar-se em qualquer dos clubes por onde passara desde a sua saída dos Camarões, William parecia condenado a uma carreira medíocre e anónima; essa situação mudou, no entanto, no defeso de Inverno da época 1997-98, quando o guarda-redes decide viajar para Portugal, para se vincular ao Boavista - uma escolha que lhe viria a permitir, finalmente, lançar a sua carreira.


No total, foram nove épocas e mais de 150 jogos de xadrez ao peito, a esmagadora maioria dos quais como titular; e mesmo quando perdeu o lugar, a mudança pode considerar-se mais como um 'passar do testemunho', já que o seu sucessor era nada mais nada menos do que Ricardo, futuro guarda-redes do Sporting e da Selecção Nacional (mais tarde, perderia novamente a titularidade para o brasileiro Carlos, recuperando-a após a venda deste para o Steaua de Bucareste). Um percurso que - além de o tornar um 'clássico' das cadernetas da Panini - lhe valeu várias chamadas à Selecção camaronesa (onde serviu de apoio ao lendário Jacques Songo'o em várias competições, incluindo o Mundial de França '98), e que justificou plenamente o estatuto de 'lenda viva' que adquiriu entre os adeptos boavisteiros...o que torna ainda mais incompreensível a sua saída do clube, no final da época de 1997-98.


No entanto, fosse qual fosse o motivo, foi mesmo isso que aconteceu, e William acabou por 'pendurar as botas' em outro clube que não aquele que o lançara – no caso, o Feirense, no qual ingressou para a época 2007-2008, mas onde figuraria apenas três vezes ao longo da época, números que não justificam minimamente a saída do emblema onde era ídolo.


Ainda assim, e apesar dos pesares, William bem merece o título de 'grande dos pequenos', tendo conseguido transfigurar-se de eterno suplente do Brasileirão em 'patrão' da defesa de um clube de Primeira Divisão português (que, na altura, lutava por títulos e se afirmava como viveiro de jovens talentos) e internacional pelo seu país – o que, convenhamos, não é mesmo nada mau para um camaronês trintão...


Sunday, 27 March 2022

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - O Boavista Como Viveiro de Talentos

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


O que têm em comum nomes como João Vieira Pinto, Nuno Gomes, Ricardo ou Bosingwa? Para além de terem sido alguns dos melhores jogadores nacionais de finais do século XX e inícios do XXI, todos eles emergiram do mesmo clube, um verdadeiro 'viveiro de talentos' durante a última década do Segundo Milénio: o Boavista.


Sim, o Boavista – o histórico 'segundo grande' da cidade do Porto que - antes de produzir um dos primeiros choques desportivos do novo milénio ao vencer, de forma totalmente inesperada, o Campeonato Nacional da Primeira Divisão, na primeira época completa do século XXI – se afirmava como 'incubadora' de jovens futebolistas talentosos, que se 'mostravam' na equipa principal antes de, invariavelmente, partirem para mais altos vôos.


Destes, talvez o mais notável tenha sido um jovem loiro e de baixa estatura, descrito pelo então Seleccionador Nacional sub-20, Carlos Queiroz, como tímido e de falas mansas, mas que dentro de campo se afirmava como um líder, graças à sua técnica apurada, raça, classe e talento.


35169_ori_joao_pinto.jpg


João Pinto, aqui ao serviço do clube pelo qual se celebrizou


Falamos, claro, de João Vieira Pinto, cujas duas primeiras passagens pela equipa principal do clube onde se formara (em 1988-89, ainda com idade júnior, e novamente em 1991-92, já depois da revalidação do título mundial de sub-20 e de uma bem-sucedida temporada em Espanha) se saldaram num total de 51 jogos e 12 golos – números bem distantes dos que viria a conseguir mais tarde, enquanto estrela absoluta e campeão por ambos os rivais da capital, mas já indicativos do talento que 'morava' naquele corpo franzino. Melhor, mesmo após a afirmação, JVP nunca esqueceu as suas origens, regressando uma terceira vez ao Boavista, já em final de carreira, mas ainda a tempo de fazer duas épocas em grande nível, contribuindo com 57 jogos e 11 golos, uma marca muito semelhante às que conseguira enquanto jovem talento dos axadrezados. E embora não tenha terminado carreira na casa que o viu nascer (foi mais acima, em Braga) o talentoso avançado continua, ainda assim, a merecer o seu estatuto como lenda do clube nortenho.


Mas embora João Pinto seja a 'estrela' mais imediatamente associada ao Boavista, existiu outro nome cuja carreira rivaliza com a do franzino criativo, tendo partido da mesma casa-mãe: Nuno Miguel Soares Pereira Ribeiro, mundialmente conhecido pelo seu apelido-alcunha, Nuno Gomes.


190.jpg


Tendo, como JVP, feito a sua formação no clube axadrezado, o avançado chegou a alinhar na equipa principal do clube do Bessa durante três épocas – nas quais participou em 79 jogos, marcando 23 golos – antes de chamar a atenção do Benfica, clube com o qual é inevitavelmente (e merecidamente) associado, e do qual se tornaria histórico. Pelos encarnados, foram quase 300 partidas ao longo de 12 épocas (divididas em duas passagens, separadas por uma aventura de duas épocas em Itália, ao serviço da Fiorentina) que lhe valeriam lugar cativo na Selecção Nacional portuguesa, pela qual marcou golos importantes e memoráveis em competições como o Euro 2000 (cinco golos, incluindo um 'bis' à Turquia e o golo da confirmação da 'remontada' e vitória contra a Inglaterra) ou Euro 2004, onde marcou o golo da vitória sobre a Espanha. E embora a sua carreira tenha terminado de forma discreta – com passagens por Braga e Inglaterra, no Blackburn Rovers – é difícil negar a Nuno Gomes o estatuto de segundo maior nome alguma vez saído das escolas do Boavista.


E se os dois primeiros dessa restrita lista são avançados, o terceiro joga no extremo exactamente oposto do campo – à baliza.


ricardo.jpg


Já terão adivinhado tratar-se de Ricardo, o futuro guarda-redes titular do Sporting e da Selecção Nacional, que começou a carreira profissional como suplente do eterno William Andem, histórico máximo do clube durante a década de 90, com quem se bateria pela titularidade durante as sete épocas seguintes. E apesar de William ser o nome mais associado com a baliza do Boavista durante o referido período, seria com Ricardo entre os postes que a agremiação do Bessa conquistaria o referido campeonato, em 2000-2001.


O resto da história é bem conhecido, tendo o atleta cuja carreira se iniciara no modesto Montijo granjeado um lugar na mesma Selecção Nacional onde figuravam Nuno Gomes e João Vieira Pinto, bem como uma transferência para os 'leões' de Lisboa, ao serviço dos quais disputaria quase 120 partidas, ao longo de quatro anos. Do Sporting, saiu para o Betis, onde apenas se conseguiu afirmar na primeira das três épocas que passou com o clube, naquilo que se pode considerar uma aposta, infelizmente, gorada; a partir desse ponto, a carreira do guardião entrou em ciclo descendente, tendo terminado de forma ainda mais discreta que a de Nuno Gomes, com passagens anónimas pelo Leicester City, de Inglaterra, Vitória de Setúbal e Olhanense, onde viria a 'pendurar as botas' em 2014, tendo já granjeado um merecido estatuto como um dos melhores guardiões portugueses da era moderna, e mais um talento a emergir do relvado do Bessa.


gettyimages-651586546-1024x1024.jpg


Já no novo milénio, o Boavista veria, ainda, um último produto das suas escolas noventistas despontar para o mundo do futebol: José Bosingwa, lateral-direito que se viria a tornar indiscutível do 'vizinho' FC Porto, bem como da Selecção Nacional pós-Geração de Ouro, antes de emigrar para o estrangeiro, primeiro para Inglaterra (onde continuaria a brilhar de azul, e sob a tutela de José Mourinho, agora ao serviço do Chelsea), depois para a Escócia, para representar o Q. P. R., e finalmente para a Turquia, onde terminaria a carreira após três épocas no Trabzonspor. E embora a sua passagem pelo clube axadrezado tenha sido bem mais discreta do que a dos nomes anteriormente mencionados, o lateral merece, ainda assim, uma referência quando o assunto são talentos saídos da 'fábrica' do Bessa durante a década de 90.


E embora a hegemonia do Boavista neste particular não tenha sobrevivido à viragem do milénio, uma coisa é certa: o clube axadrezado pode, com toda a legitimidade, gabar-se de ter, durante os últimos anos do século XX, produzido e oferecido ao futebol mundial um naipe de grandes nomes, que honrarariam subsequentemente o nome do seu clube formador numa miríade de grandes palcos, tanto nacionais como internacionais.

Sunday, 13 February 2022

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - Pedro Emanuel

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


O Futebol Clube do Porto 'conquistador' da Europa – aquela equipa treinada por José Mourinho, e da qual o mesmo levaria vários elementos consigo ao transitar para os ingleses do Chelsea – tinha na defesa um dos seus grandes esteios. A linha mais recuada do clube do Norte nesses anos de glória de inícios do século XXI contava com o histórico do clube, Jorge Costa, e ainda vários nomes que se tornariam indiscutíveis da Selecção Portuguesa pós-Geração de Ouro - Paulo Ferreira (à direita), Nuno Valente (a esquerda) e ao centro Ricardo Carvalho, todos os quais seguiriam o seu treinador rumo a Inglaterra. No meio de todas estas estrelas passadas e futuras, mais discreto mas não menos importante, alinhava um 'centralão' que, embora não tendo tido a mesma boa fortuna dos seus companheiros de defesa, conseguiu, ainda assim, tornar-se um nome histórico dos Dragões.


45557_med_pedro_emanuel.jpg


Falamos de Pedro Emanuel, um produto da prolífica escola do Boavista de finais dos anos 80 e inícios de 90 – que também deu ao mundo futebolístico nomes como João Vieira Pinto, Jorge Couto, Nuno Gomes, Ricardo, Litos ou Frechaut, os três últimos colegas de equipa de Emanuel aquando do seu regresso a 'casa' – que viria a fazer carreira entre os dois clubes da Cidade Invicta, contabilizando mais de cem jogos por cada um deles (no Boavista, ficou a um jogo de completar 150) e assumindo-se como peça importante na 'fase áurea' de ambos.


O que muitos adeptos talvez não saibam é que – à semelhança dos colegas de equipa Deco e Nuno Valente – Pedro Emanuel passou várias épocas a 'pagar dividendos' nas divisões inferiores antes de 'dar o salto' para a ribalta; no caso, foram três os clubes 'menores' representados em outras tantas épocas, curiosamente sempre com números extremamente semelhantes – cerca de 30 jogos (29 no Marco, 31 na Ovarense e 28 no Penafiel) e exactamente dois golos por cada uma das equipas.


Talvez tenha sido esta consistência que levou os olheiros do Boavista, numa jogada que faria corar o Sporting da era moderna, a repararem novamente no jovem que haviam dispensado da sua academia anos antes, voltando Emanuel a ser contratado pelos axadrezados no início da época 1996/97, quando ainda contava apenas vinte e um anos, e, como tal, apresentava ainda enorme margem de progressão, que acabaria mesmo por demonstrar – a restante carreira do atleta foi já descrita em parágrafos anteriores.


23.jpg


O jogador durante o seu período no Boavista


Quando se retirou do futebol competitivo para se dedicar à função de treinador, Pedro Emanuel era (justamente) considerado uma 'lenda' do Futebol Clube do Porto; um nome, talvez, ofuscado pela 'constelação' que o rodeava, mas que não deixou, ainda assim, de ter papel preponderante nos triunfos e conquistas de um dos melhores períodos da História do clube nortenho – algo com que talvez nem sonhasse quando, ainda adolescente, envergava briosamente os emblemas de uma série de clubes das divisões amadoras...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...