Monday, 28 February 2022

Segundas de Séries: A Série Animada de Batman dos Anos 90

NOTA: Para celebrar a estreia, esta sexta-feira, do novo filme de Batman, todos os 'posts' desta semana serão dedicados ao Homem-Morcego.


Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Numa era em que o Universo Marvel gera consensos críticos positivos e bate recordes de bilheteira duas vezes por ano, pode parecer difícil de acreditar que, em tempos, qualquer propriedade intelectual associada aos heróis da Marvel e DC que extravasasse o universo das revistas aos quadradinhos tinha tantas hipóteses de ser razoável como de não corresponder às (baixas) expectativas geradas. E, no entanto, foi precisamente esse o paradigma até à ponta final do século XX, altura em que as produções audio-visuais e multimédia alusivas a super-heróis de banda desenhada conseguiram, finalmente, aringir o nível que os fãs de 'comics' há tanto desejavam; e se, no caso do cinema, a 'viragem' se deu já no dealbar do século XXI, com o na altura considerado excelente 'X-Men', de Bryan Singer, no que toca à animação, o estigma já tinha sido eliminado alguns anos antes, por uma produção não menos icónica, influente ou importante – a série animada de Batman produzida pela Warner Brothers.


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Emitida nos seus EUA natal entre 1993 e 1995, e transmitida em Portugal pela RTP 2, alguns anos mais tarde, a simplesmente intitulada 'Batman: The Animated Series' conseguiu o impensável ao afirmar-se como o primeiro produto audio-visual relacionado com super-heróis a ser bem recebida pela sempre exigente crítica especializada. Muita desta boa-vontade advinha do seu guião cuidado e de qualidade, que não poupava esforços na tentativa de desfazer a má impressão deixada por 'coisas' como 'The Super Friends', a série animada produzida pela DC nos anos 70 e que, desde então, passou a simbolizar tudo o que de errado se passava com a abordagem televisiva ao mundo dos super-poderes.


Talvez tenha sido precisamente essa má reputação a motivar os criadores de 'Batman: The Animated Series' a seguirem na direcção exactamente oposta: às mascotes 'fofinhas', piadas 'secas', histórias politicamente correctas e positividade forçadas do seu antecessor, a nova série respondia com uma Gotham City declaradamente escura e opressiva com toques de 'noir' e 'pulp' (inspirada na criada por Tim Burton na sua interpretação cinematográfica do herói), guiões coesos e que levavam o público-alvo a sério, uma narrativa estruturada e personagens que, grosso modo, se mantinham fiéis às personalidades para eles criadas, ao longo das décadas, pelas diversas equipas criativas encarregadas de trabalhar na BD. Bruce Wayne, Dick Grayson, o mordomo Alfred, o comissário Gordon e a sua filha Barbara eram precisamente as mesmas pessoas que os leitores conheciam da BD, o mesmo se passando com a clássica galeria de vilões do Morcego, da qual todos os principais nomes marcavam presença, acrescidos de algumas novas adições – entre elas uma personagem tão bem sucedida que viria a fazer o percurso inverso, transitando do ecrã onde nascera para as páginas dos 'comics', e daí para o grande ecrã. O seu nome? Harley Quinn.


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Sim, foi aqui que nasceu a hoje idolatrada parceira profissional e (por vezes) amorosa do Joker, uma criação do argumentista Paul Dini com trabalho vocal a cargo da mulher deste, Arleen Sorkin, cuja interpretação teve um papel fulcral no sucesso obtido pela personagem, e ajudou a moldar e definir de forma permanente a sua personalidade. Ainda longe da loucura sensual de Margot Robbie, a Harley Quinn de Sorkin pauta-se pela sua personalidade exageradamente extrovertida, animada, 'desbocada' e hiperactiva, bem como pelos toques masoquistas e psicóticos e paixão assolapada pelo seu chefe (aqui, ao contrário do que acontece na versão cinematográfica, não correspondida) que partilha com a revisão posterior de Robbie; é, precisamente, esta complexidade dicotómica que transforma aquilo que poderia ser apenas a habitual personagem cómica vagamente irritante, dirigida às crianças, numa das mais populares criações de sempre da DC, e presença, hoje, quase que excessivamente constante no seu universo mediático.


Foi exactamente esta mentalidade – extensível também aos outros personagens da série – que ajudou a fazer de 'Batman: The Animated Series' um dos programas mais importantes de sempre, não só para a causa dos super-heróis nos 'mass media', como também para o próprio panorama da animação nos anos 90; isto porque o sucesso da série não só ajudou a lançar todo um universo animado da DC, sempre encabeçado pelos criadores Paul Dini e Bruce Timm, como também inspirou muitas criações posteriores a seguirem o seu exemplo, contribuindo assim para alterar positivamente o paradigma das séries de aventuras para crianças; por outras palavras, se a geração seguinte teve muitos e bons programas deste género por onde escolher, ao 'Batman' dos anos 90 o deve.


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Um desses programas foi, precisamente, uma espécie de 'sequela' para a série original, intitulada 'Batman do Futuro' (no original, 'Batman Beyond') e que seguia as aventuras do sucessor de Bruce Wayne no fato do Homem-Mercego. Apesar de estreada originalmente em 1999, no entanto, essa série apenas chegaria a Portugal já no século XXI, ficando assim fora do âmbito deste blog; ficamo-nos, por isso, pela original – que, convenhamos, está longe de ser a pior maneira de abrir uma semana de homenagem ao Homem-Morcego...


Sunday, 27 February 2022

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - Pedro Pauleta

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Em geral, a carreira de um jogador português de sucesso segue um percurso determinado: 'descoberta' num qualquer clube regional, formação num 'grande', um ou outro empréstimo, eventual afirmação nesse mesmo 'grande' ou num dos diversos emblemas históricos de estatura ligeiramente menor que estes (como Braga, Guimarães ou Marítimo) e, potencialmente, uma saída para um clube estrangeiro, normalmente já depois de esse mesmo jogador ter captado a atenção dos adeptos e, muitas vezes, dos seleccionadores nacionais dos diversos escalões.


No entanto, apesar de comum, esta fórmula não é imutável; muito pontualmente, aparece um jogador que se desvia desta norma, sem por isso deixar de conseguir fazer um percurso de sucesso dentro da sua profissão de eleição. É precisamente esse o caso do homem de quem falamos hoje, um jogador cujos feitos são por demais conhecidos – bateu, por exemplo, o recorde de Eusébio de golos internacionais por Portugal, que manteve até Cristiano Ronaldo o superar, e foi o primeiro português a marcar em duas fases finais de Mundiais – e que se afirmou como uma das mais importantes figuras da turma das Quinas da fase pós-Geração de Ouro...sem nunca ter jogado ao mais alto nível em Portugal.


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De facto, aquando da sua primeira chamada à Selecção (para um jogo contra a Arménia, em 1997) Pedro Miguel Carreiro Resendes – conhecido para o futebol pela alcunha que atravessou gerações na sua família, Pauleta – jogava já no Salamanca, aonde chegara vindo directamente da Segunda Divisão de Honra portuguesa, onde chamara a atenção dos espanhóis enquanto goleador dos 'canarinhos' do Estoril. Nessa época (apenas a sua segunda enquanto jogador profissional), Pauleta apontara uns estonteantes dezoito golos em 29 partidas, demonstrando a veia finalizadora que, mais tarde, viria a pôr não só ao serviço da Selecção Nacional, como também de emblemas bem maiores.


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O Estoril da época 1996-97


Antes da fama e glória internacional ao serviço do Salamanca, La Coruña, Bordéus e Paris Saint-Germain, e da humilde 'reforma' no minúsculo São Roque, no entanto (antes mesmo da época de revelação no Estoril) já Pauleta vinha demonstrando o seu 'faro' de golo ao serviço de emblemas dos seus Açores natais, primeiro como amador ao serviço do Santa Clara (ainda longe da estatura de que goza hoje em dia), Operário e Angrense, e mais tarde no União Micaelense, emblema com quem assinou o primeiro contrato profissional e por quem viria a contribuir com onze golos em 23 partidas, nos primeiros passos do que viria a ser uma carreira lendária. Para trás ficava, ainda, um breve período como formando no FC Porto, por quem assinara no seu último ano de júnior, antes de as saudades de casa o levarem de volta às ilhas – uma circunstância que não deixa de fazer pensar como teria sido a carreira do goleador português se tivesse despontado a Norte, e num dos maiores clubes lusitanos, em vez de no contexto insular e de divisões inferiores em que na verdade se revelou.


Tal como se desenrolou, no entanto, a carreira do 'Milhafre dos Açores' continua a afirmar-se como talvez a mais inusitada de sempre para um jogador de Selecção, e a colocá-lo em lugar de destaque no panteão dos craques de verde e vermelho vestidos; nada mau para um açoriano que nunca chegou a jogar na Primeira Divisão nacional...

Saturday, 26 February 2022

Saídas ao Sábado / Sábados aos Saltos: O Carnaval

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


Sim, leram bem – o 'post' de hoje é uma combinação estilo '2-em-1' dos nossos dois tipos de posts de Sábado. Isto porque a festa que se celebra deste fim-de-semana até à próxima quarta-feira – o Carnaval – envolve tanto Saídas (para que o Mundo possa ver a nossa bela fatiota de máscara) e Saltos (ou não fosse esta, em anos 'normais', uma semana de férias da escola, em que o tempo parece interminável.) Falemos, pois, do modo característico como esta festa era celebrada em Portugal nos anos 90, e de tudo aquilo que, em criança, lhe tendia a estar associado.


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E começamos, precisamente, pelo factor mais comummente associado ao Carnaval – as máscaras. Enquanto que hoje estas se cingem quase exclusivamente a propriedades intelectuais populares – não se pode ser 'apenas' uma princesa, tem de se ser uma princesa DISNEY, de preferência a Elsa – nos anos 90, havia ainda uma mistura saudável entre este tipo de fatos (com destaque para as Tartarugas Ninja, Homem-Aranha, Super-Homem e Power Rangers) e os mais 'clássicos' disfarces de cowboy, princesa, palhaço, monstro, ou o que mais se conseguisse imaginar sem ter que gastar muito dinheiro.


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O disfarce de Tartaruga Ninja era um dos mais populares nos anos 90


No entanto, mesmo com esta vasta gama de disfarces à disposição, havia um que suplantava todos os outros, senão em popularidade, pelo menos em frequência: o de Zorro. Não havia, à época, praticamente nenhum Carnaval em que não se vissem pelo menos uns dois ou três Zorros, fosse na rua, na escola ou no clube desportivo. A popularidade do herói mascarado era tão indisputável quanto inexplicável, já que o mesmo estava ainda a alguns anos do seu 'renascimento' às mãos de Antonio Banderas, e era apenas vagamente conhecido da maioria das crianças; a verdade, no entanto, é que – vá-se lá saber porquê... - a sua característica roupagem era mesmo uma das escolhas mais populares no que tocava a fatos de máscara.


Os fatos completos não eram, no entanto, a única opção no tocante a disfarces de Carnaval; pelo contrário, a maioria das crianças via-se mesmo restrita às chamadas 'caraças', aquelas máscaras de cara completa, com elástico, que se podiam comprar em qualquer drogaria, loja de brinquedos ou até dos trezentos, por um preço relativamente acessível – o que ajudava, talvez, a explicar a popularidade. Curiosamente, estas máscaras eram perfeitamente bem aceites entre o normalmente hiper-crítico público infantil, e embora um fato fosse mais admirado e invejado, a criança que se disfarçava apenas com uma máscara não seria alvo da chacota dos colegas, como se poderia talvez pensar, tornando-as uma boa alternativa para quem tinha menos dinheiro.


Nem só de máscaras e disfarces, no entanto, vivia o Carnaval – e, aqui, há que falar da enorme panóplia de acessórios associados à celebração desta festa pelas crianças e jovens, que ajudava a dar vigência à expressão 'BRINCAR ao Carnaval'. À época, a gama de diversões de Carnaval ia das mais inócuas - como as serpentinas que se penduravam das grades da janela ou varanda e que acabavam invariavelmente na rua, a dar trabalho aos lixeiros – às irritantes (como os martelinhos, as pistolas de água ou os balões de água atirados de andares altos para quem passava cá em baixo) ou activamente perigosas, como os inenarráveis estalinhos ou as sempre populares pistolas de fulminantes. Alguns destes acessórios tinham uma ligação mais óbvia ao Carnaval que outros, mas a verdade é que todos eles fizeram parte da infância de qualquer português que tenha celebrado esta festa nos anos 90 – senão a título próprio, pelo menos manuseados por alguém nas proximidades.


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Alguns dos mais populares brinquedos do Carnaval português dos anos 90


No cômputo geral, todos estes elementos – as máscaras, as partidas, os brinquedos, até mesmo as férias da escola - contribuíam para moldar a experiência do Carnaval português dos anos 90; e embora, hoje, as regras mais apertadas de segurança tenham tornado esta festa significativamente diferente, quem a viveu nos anos 90 certamente nunca vai esquecer as emoções, sensações e brincadeiras daquela última semana de Fevereiro. Feliz Carnaval!

Friday, 25 February 2022

Sessão de Sexta: 'Jamaica Abaixo de Zero'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Nas Olimpíadas de Inverno de 1988, disputadas em Calgary, no Canadá, uma equipa de um país totalmente improvável protagonizou uma daquelas histórias de 'sangue, suor, lágrimas e triunfo' que normalmente só se vêem nos filmes; cinco anos depois, essa mesma história teve direito ao inevitável tratamento 'Hollywoodesco', que transformava a saga puramente 'underdog' da equipa jamaicana de 'bobsledding' (e que estranho é pensar que algo assim existiu MESMO, e não apenas na mente de um argumentista sob o efeito de drogas) numa daquelas comédias infantis coloridas e barulhentas típicas dessa época do cinema infantil. O que talvez não fosse de esperar seria que dessa manobra potencialmente cínica resultasse um filme que (no fim-de-semana em que se celebram exactos vinte e oito anos da sua estreia em Portugal, a 26 de Fevereiro de 1994) continua a ser um dos melhores representantes do seu estilo de cinema, e a agregar novos fãs a cada geração.


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Vendo bem as coisas, talvez isso não seja assim TÃO surpreendente – afinal, 'Jamaica Abaixo de Zero' (o horrendo título lusófono para 'Cool Runnings', o filme de que aqui se fala) teve a chancela da Walt Disney Pictures, ela que já havia sido responsável, um ano antes, por outro clássico do género, 'A Hora dos Campeões' (no original, 'The Mighty Ducks'), cuja sequela, lançada um ano depois de 'Cool Runnings', continua ainda hoje, a constituir o 'standard' máximo para as comédias desportivas infanto-juvenis. Uma companhia que percebia da 'poda', portanto, e que utilizou as suas décadas de experiência no ramo do cinema para crianças para assegurar que o filme sobre os jamaicanos a andar de trenó obedecia aos seus padrões de qualidade.- uma missão que não se pode considerar nada menos do que um retumbante sucesso.


De facto, 'Jamaica Abaixo de Zero' é aquele raro filme que consegue ter piada sem sacrificar o âmago da história – no caso, a luta dos quatro protagonistas (jamaicanos, mas interpretados por quatro actores nova-iorquinos...) para conseguirem a 'missão impossível' de qualificar pela primeira vez o seu país para as Olimpíadas de Inverno, com a ajuda de um treinador caído em desgraça, interpretado pelo malogrado John Candy.


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Os quatro protagonistas do filme


Um enredo que facilmente seria transformável numa sucessão de quedas supostamente 'humorísticas', mas que na verdade, deriva muito do seu humor e momentos mais memoráveis das interacções entre os personagens, cinco personalidades muito diferentes (e, por vezes, diametralmente opostas) que se vêem forçados a aprender a conviver em prol do bem comum; sim, há algumas quedas (a esmagadoria maioria protagonizadas pelo personagem de Doug E. Doug, Sanka Coffie, suscitando, inevitavelmente, o memorável bordão 'Sanka, morreste?') mas mesmo essas são bem contextualizadas pelos treinos e dificuldades da equipa em se adaptar a um desporto totalmente novo, nunca parecendo gratuitas ou forçadas.



E depois, claro, há o final, em que a Disney, numa atitude de louvar, decidiu preservar a verdade dos factos, em vez de optar pelo tradicional final feliz, que retiraria algum do impacto; tal como acaba, o filme suscita uma mistura de sentimentos perfeitamente deliciosa, que dificilmente se esperaria de um filme deste tipo. Um dos poucos casos em que o eterno 'cliché' do aplauso lento que vai aumentando de intensidade é bem merecido.


Grande parte destas decisões talvez derivem do facto de, na sua génese, 'Jamaica Abaixo de Zero' ter sido pensado como um filme totalmente sério, uma autobiografia ficcionada daquela equipa heróica, cuja história superava qualquer guião. Dificuldades na criação desta versão do filme ditaram, no entanto, a mudança de tom e toada, e a verdade é que – como sucederia com 'Pacha e o Imperador', do mesmo estúdio, alguns anos mais tarde – o filme não ficou a perder; antes pelo contrário, 'Cool Runnings' continua (conforme mencionado no início deste texto) a ser muitíssimo bem cotado por membros da 'geração X' e seguintes, tendo sobrevivido às enormes mudanças vividas pelo mundo do cinema nos últimos trinta anos. Como a equipa que retrata, o filme afirma-se como um 'sobrevivente', conseguindo manter-se à tona de sucessivas 'mudanças de maré', como que desafiando a que alguém pergunte: 'filme, morreste?', para que possa triunfalmente responder 'ná, meu...'


Thursday, 24 February 2022

Quintas ao Quilo: Os Cigarros de Chocolate

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Hoje em dia, a prática de fumar tabaco é activamente desencorajada na grande maioria da sociedade ocidental, com medidas cada vez mais restritivas e alternativas cada vez mais viáveis a serem implementadas como forma de reduzir o número de afectados por este vício. No século passado, no entanto, não era exactamente este o paradigma; pelo contrário, até à última década do Segundo Milénio, o tabaco era uitas vezes visto como um símbolo de 'status' social, tanto por alguns adultos, como pela maioria das crianças e jovens - o que, em perspectiva, torna os esforços para erradicar esta substância da vida quotidiana das mesmas nada menos do que louváveis.


A não ajudar nada a este 'estado da arte' estava um produto bastante popular entre o público mais jovem, e que, pela sua natureza, se tornou naturalmente um dos primeiros e mais óbvios 'alvos' da guerra ao tabaco: os cigarros de chocolate.


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Muitas vezes com caixas a fazer lembrar (ou mesmo a imitar quase integralmente) os maços que os pais da demografia-alvo traziam no bolso, estes doces – que não faziam parte da categoria dos que se tinham em casa em permanência, sendo sobretudo um complemento a ocasiões especiais, como idas ao estádio para ver o futebol – revelavam também grande atenção ao detalhe no tocante ao interior do próprio pacote; isto porque não só o número de rolinhos de chocolate dentro do mesmo era mais ou menos equivalente ao número de cigarros num maço, mas cada um deles se encontrava envolto numa folha de papel de seda, que (pelo menos à primeira vista) criava um efeito muito semelhante ao da mortalha de um cigarro de verdade, Quando combinados com as caixas também bastante cuidadas, estes elementos ajudavam a criar uma ilusão que, embora na prática desfeita assim que o 'cigarro' era desembrulhado e se transformava 'apenas' em chocolate, permanecia na imaginação das crianças durante o tempo suficiente para se acabar de comer os doces em causa – ou antes, de os segurar entre os dedos e fingir tirar 'bafos', que eventualmente se transformavam em trincas.


Este aspecto – o de constituir não só um doce, como também um veículo para uma brincadeira de 'faz-de-conta' – era mesmo o principal atractivo dos cigarros de chocolate, cujo gosto, por si só, nunca os teria tornado tão populares como o foram. De facto, embora muitas vezes comercializados por companhias de renome na indústria do chocolate – como a francesa Jacquot ou a brasileira Garoto – aqueles rolinhos tinham um gosto muito característico, que só quem comeu saberá evocar; a consistência era, ao mesmo tempo, crocante e arenosa (quase como a de um salame de chocolate, por exemplo) enquanto o paladar ficava marcado pelo excesso desnecessário de açúcar, ficando ao nível daqueles 'sucedâneos' de chocolate vendidos em barra, e também bastante populares à época. Enfim, um chocolate 'barato' (objectivamente, nem ao nível daqueles chocolates em forma de bolas de Natal chegava) que alicerçava toda a sua estratégia de 'marketing' e vendas no aspecto e abordagem diferenciados – os quais, felizmente, acabavam por resultar favoravelmente.


Hoje em dia - e apesar de uma caixa de cigarros de chocolate não ser avistada numa prateleira de café ou supermercado há pelo menos um quarto de século – estes doces podem ainda ser adquiridos nessa 'caixinha de tesouros' e surpresas chamada Internet; no entanto, com a 'mística' em torno do tabaco drasticamente diminuída pelas medidas referidas no início deste texto (e a pouca qualidade do produto em si) é de duvidar que os mesmos voltem a ser populares entre o público jovem, como o foram no início dos anos 90. Posts como este, e outros facilmente acessíveis mediante uma rápida pesquisa, provam que o valor dos cigarros de chocolate é, hoje em dia, puramente nostálgico - e ainda bem, já que existem nos escaparates opções bem melhores pelas quais arriscar cáries e quilos a mais...

Wednesday, 23 February 2022

Quartas de Quase Tudo: O Renault Twingo

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


...como é o caso dos carros.


Apesar de a maioria dos leitores deste blog não ter ainda, nos anos 90, idade para conduzir, os carros não deixavam, ainda assim, de exercer um certo fascínio sobre muitos dos membro daquela geração, sobretudo os do sexo masculino. E ainda que muita da atenção fosse, obviamente, para os supercarros desportivos ou de Fórmula 1, houve, em 1993, um pequeno e humilde veículo que se conseguiu intrometer por entre os 'monstros' de alta cilindrada, e cativar muitos jovens pela razão precisamente inversa: por parecer, praticamente, uma versão real dos carros eléctricos ou carrinhos de brincar com que muitos deles haviam crescido.


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Como muitos miúdos imaginavam que seria conduzir, ou ser passageiro, num destes veículos


Falamos do Renault Twingo – nome derivado da junção dos nomes de três danças, Twist, Swing e Tango - que, apesar de hoje ser 'apenas' mais um carro igual a tantos outros, marcou verdadeiramente época aquando do seu lançamento, e terá potencialmente servido de inspiração para o surgimento, uma ou duas décadas mais tarde, do popular Smart, seu 'sucessor espiritual' na categoria dos carros que parecem 'de brincar'.


As semelhanças entre os dois não se ficam, aliás, pelo aspecto: tal como o Smart, o Twingo pretendia ser um carro para quem não gostava de carros, na sua acepção convencional, e preferia ser visto ao volante de algo que ficava a meio caminho entre uma criação de desenho animado e os referidos veículos eléctricos para crianças pequenas. Tendo na forma arredondada a sua principal característica visual, e disponível numa série de cores vivas (sendo a mais comum à época o roxo, retratado na imagem acima) o Twingo parecia quase ter sido feito com as crianças e jovens em mente, não sendo, de todo, de estranhar, que muitos desejassem tê-lo como carro familiar; afinal, se algum veículo alguma vez se pôde apelidar de 'fofo', foi definitivamente o Twingo.


Não era, no entanto, apenas o aspecto deste carro que apelava a um público mais jovem e aos iniciantes da condução; a própria potência do carro, cujas pequenas dimensões requeriam um motor de baixa cilindrada, impedia grandes 'aventuras', tornando este veículo ideal para principiantes, como primeiro carro, apenas para 'dar umas voltas' – algo que se tornaria ainda mais evidente com o lançamento da variante semiautomática Easy, que permitia a condução sem o pedal de embraiagem, um dos principais pontos fracos de quem ainda tem pouca experiência.


Daí em diante, seriam inúmeras as 'edições especiais', alterações, adições e revisões ao modelo inicial, que seria acrescido de aspectos tão indispensáveis como air-bags, novos faróis e pára-choques e motores mais potentes, além de extras mais supérfluos, como interiores em pele e rádio com CD (ambos exclusivos à edição especial Initiale Paris, de 1998.) Aquele carro que empatara com o Citroen Xania como Carro do Ano em Espanha, em 1994, e que conquistara os corações de tantos jovens no país vizinho, tornava-se cada vez melhor e mais seguro – mas, infelizmente, também cada vez mais um carro normal.


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Um Twingo moderno


De facto, as sucessivas revisões fizeram tanto para melhorar o Twingo como para lhe retirar alguma da 'magia' e novidade que o seu modelo inicial conseguira implementar – a qual, mais tarde, o Smart viria a utilizar para se estabelecer no mercado. Hoje em dia, o Twingo já nem sequer se pode gabar de ser, precisamente, um carro 'pequeno', especialmente comparado com modelos como o Lancia Y (na altura, um dos seus principais competidores), Fiat Cinquecento e Seicento, Mini, ou os próprios Smart; ainda assim, quem assistiu ao aparecimento daquele carro 'da Carochinha', e desejou ardentemente ter um, certamente concordará que, no que toca a carros 'normais' de todos os dias, o Twingo talvez tenha mesmo sido dos mais originais e marcantes a surgir em toda a década de 90...

Tuesday, 22 February 2022

Terças de TV: 'VAMOS FAZER AMIGOS ENTRE OS ANIMAIS...'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Depois de há duas semanas termos falado dos dois LP's de músicas alusivas ao programa Arca de Noé (e, devido a uma mudança de planos de última hora, termos tido de adiar o presente post outro tanto) chega finalmente a altura de falarmos de um dos mais populares concursos, e programas infantis em geral, da primeira metade dos anos 90. E porque só há uma maneira de introduzir um artigo sobre este programa, comecemos, desde já, da maneira correcta – com o absolutamente lendário tema de abertura, um dos melhores de sempre da televisão portuguesa, e que qualquer criança ou jovem da época ainda será capaz de cantar quase de cor (e cuja letra, saliente-se, também servia na perfeição como insulto de recreio...)



Quem resistir a cantar isto, é mais forte do que nós...


Ultrapassada esta inevitável formalidade, falemos agora do concurso propriamente dito. Estreado logo no dealbar da década, e transmitido primeiro na RTP2 e, mais tarde, no então Canal 1, 'Arca de Noé´ adaptava um formato japonês, criado duas décadas antes, e que rapidamente atingiu sucesso mundial. Gravado no antigo Cinema Europa, em Lisboa, o programa tinha por base um formato muito simples e com uma estrutura clássica: quatro concorrentes – dos quais um era sempre uma figura pública - eram sujeitos a várias rondas de perguntas sobre animais, a maioria das quais baseadas num apoio visual, normalmente um vídeo pausado na altura certa, tendo os concorrentes que adivinhar qual o comportamento que o animal em causa adoptaria a seguir. O concorrente que mais perguntas acertasse ganharia o grande prémio de 250.000 escudos (cerca de 1250 euros), sendo que se o vencedor fosse a figura pública convidada, este valor reverteria na totalidade para uma instituição de apoio aos animais ou à vida selvagem (na verdade, a maioria dos participantes doava parte da sua bolsa a uma entidade deste âmbito, quase sempre o Jardim Zoológico de Lisboa.) Para além do conflito central, o programa ficava também marcado por segmentos de entrevista a tratadores e especialistas em animais (normalmente acompanhados dos mesmos, para gáudio das crianças em estúdio e a assistir em casa) e números musicais, interpretados ao vivo pelo responsável pela música do programa (e também favorito das crianças), Carlos Alberto Moniz, ou por um convidado especial.


Deste formato, adoptado durante as primeiras três temporadas do programa, é quase sinónima a carismática apresentação de Fialho Gouveia, um daqueles anfitriões da velha escola que sabia falar a um público jovem sem nunca ser condescendente – uma qualidade que partilhava com outras 'lendas' infanto-juvenis da época, como Júlio Isidro, ou o próprio Moniz, o qual viria, mais tarde, a tomar o seu lugar para a última temporada do programa. A seu lado, a também icónica e carismática Maria Arlene, a tradicional assistente comum a tantos concursos da mesma época, e que neste caso era responsável por marcar a pontuação dos concorrentes com bonecos das mascotes do programa – primeiro o Vitinho, da Milupa, e mais tarde os Orelhudos, então 'caras' dos iogurtes Mimosa.


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Os carismáticos anfitriões (e mascote) do programa


Foi assim até 1994, ano em que teria lugar uma mudança de formato, assinalada também por uma mudança na apresentação, que passava a caber a uma mulher, Ana do Carmo; nesta nova fase, os concorrentes eram três pares de um adulto e uma criança, já sem a presença de quaisquer figuras públicas, mantendo-se as regras e o restante ambiente basicamente inalterados. Já a quinta e última temporada era palco de nova mudança, com o programa a render-se finalmente e totalmente ao seu público-alvo: o cenário 'infantilizava-se', com cores mais vibrantes e adereços a imitar um barco (ou Arca), as equipas passavam a ser constituídas exclusivamente por crianças entre os 8 e os 12 anos, e a apresentação ficava a cargo de Carlos Alberto Moniz, que acumulava assim funções e se tornava a figura central do programa, apenas alguns meses antes de 'emigrar' para uma 'Casa' nos arredores de Lisboa, onde continuaria a conquistar o coração das crianças durante mais alguns anos.


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Uma emissão com Ana do Carmo como apresentadora


Quando saiu finalmente do ar, em Setembro de 1995, a 'Arca de Noé' havia marcado toda uma geração de crianças portuguesas, sendo parcial ou totalmente responsável pelo interesse generalizado que a miudagem da época desenvolveu por animais. E com bom motivo – o programa soube pegar num tema que, já de si, interessava ao seu público-alvo, e introduzi-lo num contexto igualmente apelativo para essa demografia (o da competição televisiva) criando uma receita praticamente perfeita para um programa de televisão infanto-juvenil, que, até hoje (mais de trinta anos após a estreia do concurso) poucas outras propostas souberam igualar, e ainda menos superar. E, convenhamos, AQUELE tema de abertura também ajudava.... 'VAMOS FAZER AMIIIIGOS, ENTRE OS A-NI-MAAAIS...!'

Monday, 21 February 2022

Segundas de Sucesso: 'Estou na Luuuuuuaaaaa...´

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


A música cómica ou humorística constituía, nos anos 90, um dos principais géneros na cena 'mainstream' portuguesa. Normalmente considerada mais 'de nicho', esta categoria de produção musical viveu, durante a referida década, um crescimento quase tão rápido como o 'pimba' ou o pop-rock, os dois principais géneros em que se tendia a inserir. Dos veteranos e pioneiros Ena Pá 2000 a artistas como os Mercurioucromos, José Figueiras e Fúria do Açúcar, passando por 'humoristas acidentais' como Zé Cabra, e mesmo algumas importações lusófonas, como Salsicha e Mário Jorge ou os Mamonas Assassinas, eram muitos os artistas que procuravam, de alguma forma, atingir o sucesso através da paródia mais ou menos explícita, parecendo, a dada altura, que não passava um Verão sem que mais uma destas músicas invadisse os 'tops' nacionais.


Nesse aspecto, o Verão de 1995 não foi excepção, tendo o inevitável 'hit' cómico desse ano pertencido a uns tais de Lunáticos, hoje um dos mais esquecidos (e, simultaneamente, puros e duros) 'one-hit wonders' do pop noventista português.



Apesar de o referido único hit, 'Estou na Lua' (porque eles eram Os Lunáticos, percebem?) ter posto crianças e jovens de Norte a Sul do País a cantar letras muito pouco próprias para a sua idade – à semelhança do que, na mesma altura, fariam os brasileiros Mamonas Assassinas – hoje em dia, é praticamente impossível encontrar informações sobre o pseudo-grupo centrado em torno do teclista e DJ leiriense Alex Santos.


E dizemos 'pseudo' porque, além do referido fundador (também produtor do material gravado) os únicos outros integrantes do grupo eram dois vocalistas, Miguel Dionísio e Manuel Pereira; os restante sons e instrumentos que se ouviam eram puramente sintetizados, numa manobra bem típica de certo pop da altura (e, verdade seja dita, ainda de hoje em dia) no qual estes Lunáticos se inserem.


Efectivamente, o som do 'grupo', pelo menos na sua música mais conhecida, salda-se naquele 'popzinho' leve e sem grandes pretensões artísticas, fadado a passar cem vezes por dia na rádio, a ser cantado na TV por futuras estrelas do 'stand-up' português, à laia de 'inside joke' e a suscitar cantorias do banco traseiro sempre que toca no carro a caminho da escola; e, nesse contexto, 'Estou na Lua' resulta maravilhosamente, sendo que há, ainda hoje, toda uma geração de portugueses que consegue cantar 'de cor' o refrão do tema, sem maiores 'ajudas' do que uma menção do título. Se ouvido na idade certa, este era daqueles temas que se entranhava nas sinapses, e lá ficava, adormecido, à espera de ser recordado – e cantarolado – a propósito de nada, literalmente décadas depois.


Infelizmente, o restante material dos Lunáticos não surtiu o mesmo efeito; se a relação entre o nome da música e da banda não for indicação suficiente (parece uma daquelas situações em que um grupo consegue que uma música 'estoure' sem sequer ter ainda nome, e tem que arranjar à pressa um que os associe ao seu tema-estandarte) os Lunáticos não pareciam, propriamente, ser um projecto a longo prazo, ou sequer destinado a passar de um único 'single'. Ainda assim, a crer no Google, o colectivo conseguiu, ainda, lançar quatro discos, dos quais o óbvio destaque vai para 'Muito À Frente', de onde é retirado o tema que os tornou, no Verão de 1995, um dos maiores fenómenos da música feita em Portugal.


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Capa de 'Não É Fácil', o profeticamente intitulado segundo álbum do grupo


Curiosamente, numa altura em que as vendas de música se contabilizam por temas individuais mais do que por álbuns, é difícil não pensar em como os Os Lunáticos poderiam ter beneficiado deste sistema, que lhes permitia ser um 'one-hit wonder' declarado, e manteria a sua música na consciência popular por um período mais alargado; no entanto, o som datado e meio 'fatela' do grupo assegura que o mesmo fique confinado apenas aos anos 90 – pelo menos até algum revivalista da nossa geração se lembrar de tentar trazer a música 'de volta', talvez num qualquer vídeo de TikTok, e puser mais uma geração de pré-adolescentes a cantar sobre mulheres nuinhas só com véu...

Sunday, 20 February 2022

Domingos Divertidos: Os Jogos de Tabuleiro dos Anos 90

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


No vocabulário de hoje em dia, a expressão 'jogo de tabuleiro' evoca imagens de jovens reunidos numa qualquer loja de cave, em torno de uma mesa apinhada de miniaturas de Warhammer 40.000 ou algum outro jogo semelhante, Nos anos 90, no entanto, esse termo tinha conotações bem mais simples, muitas das quais se vêm rapidamente perdendo; nada melhor, portanto, do que dedicar um post a preservar a memória daquela que foi uma das épocas áureas dos jogos de mesa para toda a família,


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De facto, quem queria passar uma tarde chuvosa a divertir-se em família tinha, entre os anos 80 e o início do novo milénio, uma panóplia de opções à escolha, de clássicos intemporais como o Monopólio (um dos poucos a sobreviver à transição para a era digital), o Trivial Pursuit, o Jogo da Glória, o Jogo do Ganso ou o Ludo, até jogos mais elaborados e ilustrativos do momento cultural de finais do século XX, como o eterno e lendário Quem É Quem (hoje ainda no mercado, mas praticamente irreconhecível), o Labirinto Mágico, o excelente Piloto Piruetas, ou ainda títulos criados especificamente para facturar com a ligação a uma qualquer propriedade intelectual popular, como o algo peculiar jogo da série Dinossauros.


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Sim, isto existia.


Os esforços, durante estes anos, de companhias como a nacional Majora ou a internacionalmente famosa MB (distribuída no nosso país pela inevitável Concentra) garantiam a diversão de famílias de Norte a Sul do País, e era raro o aniversário ou, principalmente, Natal que não contasse pelo menos um destes jogos entre a sua selecção de presentes.


Como tudo, no entanto, também os jogos de tabuleiro foram obrigados a adaptar-se com o passar do tempo, a fim de conseguirem fazer frente às muitas alternativas digitais que a era informática trouxe – especialmente dado que, graças à Internet 2.0, era agora possível jogar, não apenas com a família em torno da mesa da sala, mas com milhões de outros seres humanos, espalhados pelos quatro cantos do globo. Assim, não foi de todo surpreendente ver desaparecer a grande maioria dos jogos tradicionais de tabuleiro – hoje em dia, muitos dos exemplos deste tipo de jogo disponíveis nas lojas são de cariz mais educativo, sendo o seu público-alvo, precisamente, quem procura uma alternativa aos Candy Crush e Roblox – e os restantes adaptarem-se ao que as novas gerações procuravam (actualmente, são poucas as edições do Monopólio ou Trivial Pursuit que NÃO são alusivas a qualquer tipo de instituição ou tema.)


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Exemplo de uma edição moderna, temática, do clássico Trivial Pursuit


No entanto, apesar destes poucos títulos continuarem, qual aldeia gaulesa do Astérix, a resistir ainda e sempre ao invasor, é justo dizer que a era dos jogos de tabuleiro clássicos como meio de preencher 'tempos mortos' na companhia de familiares e amigos havia, infelizmente, passado; mas é também justo teorizar que, numa altura em que a geração que viveu essa mesma era se vem tornando responsável pela seguinte, é possível que haja um esforço de sensibilização da mesma para as diversões que entretinham os seus pais em fins-de-semana preguiçosos de Inverno. Se a mesma surtirá algum tipo de efeito, há que esperar para ver: mas, como sucede com a maioria dos produtos do 'nosso tempo' de que aqui falamos, a perspectiva de uma 'era Renascentista' dos jogos de tabuleiro não é, de todo, descabida...

Saturday, 19 February 2022

Sábados aos Saltos: O Pingue-Pongue

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


Os anos 90 foram pródigos em 'febres' no que toca a brincadeiras de exterior. De várias delas, já aqui falámos, como foi o caso com as bicicletas BMX, o skate, os patins em linha ou o 'diabolo'; no entanto, existiu durante essa década outra moda que, embora mais discreta e menos declaradamente 'datada' do que as acima mencionadas, não deixa de estar ligada ao período em causa: o pingue-pongue.


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O 'kit' essencial do entusiasta de pingue-pongue dos anos 90


Sim, os anos 90 foram a época em que muitas crianças e jovens de Norte a Sul de Portugal descobriram a beleza desse jogo simples, mas que se pode tornar estupidamente competitivo, chamado ténis de mesa – e em que, encorajados pela difusão em larga escala dos acessórios necessários, se dedicaram à prática do mesmo, sobretudo nos intervalos das aulas. Aproveitando o facto de a maioria das escolas básicas e secundárias do País terem qualquer tipo de instalação ou equipamento para a prática do pingue-pongue, os referidos jovens (na sua maioria, do sexo masculino) trataram de adicionar uma ou duas raquetes e outras tantas bolas à sua lista de 'materiais indispensáveis' a colocar na mochila todas as manhãs.


Escusado será dizer que, como acontece com a maioria dos outros produtos de que aqui falamos, também as raquetes de pingue-pongue tinham a sua 'hierarquia' própria, havendo uma linha qualitativa definida entre as compradas nas lojas de desporto (mais pesadas, e com revestimento normalmente liso de um dos lados) e as disponíveis nas comuns lojas de brinquedos, ou até dos 'trezentos' (as quais eram significativamente mais leves, e tinham um revestimento rugoso em ambas as faces.) No entanto, sendo essas diferenças menos imediatamente aparentes do que em outros casos, tendia a não haver tanto o estigma do 'falso' entre os praticantes de pingue-pongue – até porque, melhores ou piores, todas as raquetes sofriam o mesmo fim, acabando invariavelmente desprovidas de 'capas' em pelo menos um dos lados, e provavelmente com a capa do outro já a 'pingar', a ameaçar destino idêntico dentro em breve. Não, no jogo de pingue-pongue, o facto de se ter ou não uma raquete de qualidade apenas afectava o próprio jogador, já que quanto mais pesada a raquete, mais precisão se conseguia ter no contacto com a bola.


E por falar em bolas, também estas variavam em qualidade, embora não tanto como as raquetes. As universalmente consideradas melhores entre a juventude da época eram cor-de-laranja vivo, enquanto que, entre as brancas, a qualidade era determinada pelo peso e pela facilidade com que 'amolgavam' (e se prestavam às subsequentes tentativas de 'desamolgar'.); ainda assim, por muita qualidade que as suas bolas de pingue-pongue tivessem, o jogador médio podia esperar perder, pelo menos, uma por semana, dependendo da frequência com que disputasse partidas.


Como a maioria das modas de que falamos nestas páginas, também a febre do pingue-pongue acabou por passar, ainda que este desporto continue a ser um passatempo extremamente popular nos intervalos das aulas, sobretudo entre crianças de uma certa idade; quem viveu a 'época áurea' nos anos 90, no entanto, e se recordar das multidões de 'mirones' que uma partida bem disputada atraía, certamente concordará que – ao contrário do imortal futebol de recreio e de rua – o ténis de mesa já não é o que foi durante esses anos...

Friday, 18 February 2022

Sextas com Style: As Marcas de Surf dos Anos 90

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


As décadas de 90 e 2000 são bem conhecidas como a era em que os desportos radicais, e a respectiva estética, transpuseram o seu estatuto de 'nicho' e encontraram o seu lugar na cultura popular. Do skate ao surf, passando pela BMX – termo que deixou de ser sinónimo com 'bicicletas para miúdos' para passar a designar algo bem mais desejável – foram várias as modalidades pelas quais uma geração inteira de jovens se interessou a ponto de justificar programas de televisão sobre os mesmos.


E porque um movimento nada é sem a respectiva 'farda' oficial, estas duas décadas representaram, também, o auge das vendas 'mainstream' para as marcas associadas aos diferentes desportos, da Dickies, Vans e Airwalk típicas dos 'skaters' ao tema do post de hoje – as várias grifes de 'surfwear' que fizeram furor no mercado português durante esse período.


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Algumas das mais populares marcas de surf dos anos 90 e 2000


Quem cresceu, e especialmente quem foi adolescente, naquele tempo decerto que se lembra deles, e provavelmente vestiu um ou outro artigo de uma ou até de várias; Quiksilver, Rip Curl, O'Neill, Ocean Pacific, Scorpion Bay, Lightning Bolt, Body Glove ou Hang Loose (embora estas últimas em menor escala) eram nomes que qualquer jovem conhecia, sobretudo por as ver na montra de inúmeras lojas de desporto – quer as pequenas de bairro, quer as maiores situadas em 'shoppings' – e lojas especializadas em surf, como as que existiam (e ainda existem) em muitas localidades costeiras portuguesas. Esta omnipresença (que levava a que os artigos das referidas marcas se tornassem visão comum no dia-a-dia) aliada à mística e apelo do surf para a referida geração, tornava estes artigos desejáveis, e uma sweatshirt da Quiksilver ou O'Neill passou a ter praticamente o mesmo valor de uma da Gap ou No Fear na 'bolsa de valores social' existente em qualquer escola do país.


Mais – apesar de terem, entretanto, sido substituídas por outros e novos nomes do mundo da moda jovem, as marcas de surf continuam a ter uma presença (mais ou menos) considerável entre os jovens. Hoje em dia, é a Billabong quem, de todas, leva vantagem, mas uma pesquisa mais apurada não deixará, certamente, de revelar vários produtos de alguns dos outros nomes elencados acima ainda em circulação entre as crianças e jovens. Ainda assim, é inegável que as marcas de surf já não têm, hoje em dia, a expressividade que tiveram junto da geração anterior de jovens, para quem representaram, mais do que simples roupas, símbolos de um modo de vida a que muitos aspiravam, mas poucos conseguiam, verdadeiramente, ter...


 

Quintas no Quiosque: A Revista 'Nosso Amiguinho'

NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2022.


Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


NOTA: Este post não pretende promover qualquer ideologia religiosa, destinando-se, tão-somente, a recordar uma publicação que, coincidentalmente, tem ligações a determinada fé. 


Embora as escolas públicas sejam (ou devam ser) um espaço onde as crianças são livres de desenvolver as suas próprias ideologias sociais e religiosas, tal não impediu que, nos anos 90, houvesse uma tentativa de fazer com que as crianças portuguesas compreendessem, especificamente, a religião católica, nomeadamente através das aulas de Educação Moral e Religiosa Católica, que muitas escolas primárias incluíam no seu horário lectivo semanal; verdade seja dita, no entanto, aquelas horas semanais tendiam, muitas vezes, a focar assuntos que se podiam considerar do foro laico – como era o caso da cidadania, do respeito ao próximo ou da problemática da liberdade 'versus' libertinagem, por exemplo – e que era importante incutir nas crianças logo a partir de tenra idade, seguissem elas ou não a religião cristã e católica.


Era precisamente este princípio – ensinar princípios, não só cristãos como de sociabilidade geral, de forma descomprometida e divertida – que informava, na mesma época, uma publicação oriunda do Brasil, e disponível em Portugal exclusivamente através de assinatura, normalmente contraída, precisamente, em ambiente escolar: a famosa revista Nosso Amiguinho.


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Edição de  Novembro de 1986 da revista, distribuído numa escola primária de Lisboa cerca de meia década depois, como 'amostra grátis' durante uma campanha de angariação de assinaturas


Concebida em 1952 pelo editor Miguel J. Malty, a revista vem, desde então, sendo ininterruptamente publicada pela Casa Publicadora Brasileira, uma editora ligada à Igreja Adventista do Sétimo Dia, uma das fés mais populares naquele país. No total, são já setenta anos em que (à parte as habituais adaptações ao correr dos tempos, como a passagem de uma para várias cores) a revista manteve, grosso modo, o mesmo formato – uma mistura de banda desenhada, passatempos, receitas, curiosidades e, claro, transmissão de valores morais, éticos e comportamentais associados à religião em causa,. No papel de anfitriões (e, muitas vezes, receptores) neste processo de aprendizagem encontrava-se a Turma do Noguinho, um conjunto de personagens infantis criados em 1972 pelo então editor Ivn Schimidt e pelo desenhador uruguaio Heber Pintos que pretendia ser a resposta religiosa a outras 'turmas' super-populares da banda desenhada secular brasileira da época, como a da Mônica, dos Trapalhões ou do Menino Maluquinho. E apesar de os conteúdos da Nosso Amiguinho não terem (obviamente) o elemento humorístico e politicamente incorrecto que fazia com que esses trabalhos fossem tão apreciados pelo público-alvo, a verdade é que os mesmos conseguiram suficiente popularidade junto do mesmo para manter a revista no mercado durante as referidas sete décadas.


Na verdade, mesmo para quem não é Adventista de Sétimo Dia, a revista lê-se (ou, pelo menos, lia-se, nos anos 90) extremamente bem, embora os seus conteúdos não escapem – nem queiram escapar – àquele tom levemente moralista demais, que pode (e poderá) ter levado alguns a torcer o nariz à revista, tanto à época como nos dias de hoje. O preço da assinatura (que chegava a ser mais cara do que a de algumas revistas equivalentes do mercado secular) terá sido o outro principal entrave à expansão da revista no mercado português, onde penetrou em 1986, e onde permanece firme (ainda que apenas num pequeno nicho, conforme descrito acima) até aos dias de hoje.


De facto, a Nosso Amiguinho continua, hoje, a seguir 'de vento em popa', tendo actualmente o atractivo adicional de poder ser assinada directamente online, sem recurso ao mediador escolar, e continuando a oferecer a pais afectos à religião em causa (e a outros a quem a declarada afiliação religiosa não incomode) um meio de transmitir aos seus filhos em idade escolar básica mensagens e conceitos importantes, de uma forma divertida – isto, claro, se tiverem dinheiro para a assinatura...

Wednesday, 16 February 2022

Quartas aos Quadradinhos: Os Álbuns de Capa Dura da Disney e Nestlé

NOTA: Esta é a versão expandida deste post, que foi inicialmente publicado com bastante menos dados, e um texto mais vago. 


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Às vezes, há coisas assim. Uma editora quase monopolista de um determinado sector decide editar algo um pouco mais elaborado e sofisticado, de modo a assinalar um marco, e essa obra, em vez de se tornar um estandarte do seu catálogo, cai quase totalmente no esquecimento, largamente ofuscada na memória colectiva por edições bem mais corriqueiras e banais.


É, precisamente, essa a situação em que se encontram dois livros de capa dura lançados pela Editora Abril em 1992, em exclusivo para a Nestlé, presume-se como parte de uma qualquer promoção.


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E dizemos 'presume-se' porque, à parte UMA ÚNICA fotografia oriunda de um leilão actualmente activo no OLX, não existem quaisquer informações sobre estes dois livros na Net. Rigorosamente NADA. Se o volume centrado no Rato Mickey não sobrevivesse, ainda hoje, na estante lá de casa, não teríamos ficado a saber da sua existência, nem do contexto em que foi publicado. Assim sendo, podemos, pelo menos, falar – ainda que MUITO brevemente – sobre esse volume e o seu congénere, respeitante ao outro personagem principal das BD's Disney da época, o Pato Donald.


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As únicas informações sobre os volumes encontram-se na secção de detalhes técnicos no interior da primeira página


Tendo como título, tão-somente, o nome do personagem que focam (o que, convenhamos, também não ajuda à pesquisa) os mesmos apresentam capas que sugerem um clima de festa, com Donald e Mickey vestidos com roupas 'radicais', bem na moda para o período em causa, sobre um fundo de serpentinas. A apresentação é, aliás, toda ela luxuosa: tratam-se de álbuns de capa dura e lombada grossa, que, caso tivessem estado disponíveis nas bancas, teriam sem dúvida tido um preço de revenda elevado.


Os conteúdos, esses – pelo menos no respeitante ao volume constante da nossa colecção –pouco têm, infelizmente, de especial. Àparte a apresentação cuidada e o formato cartonado, de livro 'a sério', estas duas obras em nada diferem da comum revista de BD Disney comercializada pela própria Abril à época, podendo perfeitamente ter sido comercializados como um dos volumes do Hiper Disney ou Show Disney sem que se tivesse notado grande diferença. Isto porque nem as habituais secções inerentes a livros deste tipo – como resumos da história dos personagens, cronologias, etc. - se encontram presentes em qualquer dos dois tomos, que apresentam a primeira história logo a seguir à folha de capa, e a última logo antes da habitual folha em branco das costas – exactamente como se de uma publicação semanal normal se tratasse. O aspecto exterior tem, pois, uma função puramente estética, fazendo com que estes livros pareçam algo especial e exclusivo, e que valha a pena porfiar para conseguir no contexto desta promoção; e, nesse aspecto, há que admitir que os mesmos são bem sucedidos.


Quanto à raridade (ou não) das histórias incluídas em cada volume, não nos podemos, infelizmente, pronunciar – para nós, em criança, tratavam-se de escolhas perfeitamente vulgares, mas é bem possível que tal não seja, necessariamente, o caso, ganhando assim estes livos um atractivo adicional à aquisição. Sem esse chamariz, no entanto, a mesma apenas é justificada pelas capas muito bem conseguidas, e que sem dúvida se integram muito bem na colecção de qualquer aficionado de banda desenhada; de resto, não é difícil perceber porque, num Portugal que ainda compra, vende e troca em larga escala as revistas Disney publicadas pela Abril - especialmente as mais raras, como é o caso - estes dois volumes constituam, até agora, o melhor exemplo de um produto verdadeiramente Esquecido pela Net...


 

Tuesday, 15 February 2022

Terças Tecnológicas: Elifoot, O 'Manager' À Portuguesa

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Os jogos de computador e consola eram, nos anos 90, um mundo completamente diferente do que são hoje em dia; dito assim, pode parecer um lugar-comum perfeitamente óbvio, mas a verdade é que a maioria dos 'gamers' de hoje em dia – e até muitos dos que conheceram esse mundo já na metade final da década – tendem a não ter a perspectiva de exactamente QUÃO acentuados foram os avanços tecnológicos no campo da programação informática durante os últimos anos do século XX. Prova disso mesmo é que, na mesma época em que jogos como Tomb Raider e Final Fantasy VII revolucionavam indelevelmente o mercado dos jogos de computador e consola, muitos de nós continuavam a perder horas esquecidas em frente a algo com este aspecto:


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Sim, o mítico Elifoot – o precursor de Championship Manager criado em 1987 por um português, André Elias, e cuja sequela, lançada dois anos depois, se viria a tornar, nas quase quatro décadas subsequentes, um dos títulos de 'shareware' mais famosos e saudosamente recordados de sempre.


Para quem já passou nem que fossem uns minutos com o referido Championship/Football Manager (ou títulos semelhantes como o 'esquecido' Premier Manager) Elifoot 2 parecerá básico ao ponto de ser constrangedor. Longe das nuances táctico-financeiras do 'franchise' da Eidos (ou mesmo do mais simples mas ainda assim intrincado sistema da série da Gremlin Interactive) o jogo apresenta a simulação futebolística reduzida à sua expressão mais básica: compram-se jogadores (utilizando a avançadíssima táctica negocial de lhes oferecer um ordenado cinco vezes maior do que o que exigiam), espera-se que os outros não comprem melhores, escolhe-se uma táctica no ecrã de jogo, ao intervalo fazem-se duas substituições, e pouco mais. Existe uma tentativa de abordar outros aspectos inerentes ao trabalho de um treinador – é possível renegociar contratos, expandir as instalações do estádio ou verificar a saúde das finanças do clube – mas tudo é apresentado de forma tão directa e simplista que estes aspectos acabam por nunca aprofundar especialmente a jogabilidade. Uma espécie de 'versão Fisher-Price' dos jogos de estratégia futebolística, portanto, que oferece muito pouco para satisfazer o treinador virtual moderno.


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O sistema de leilões extremamente simplista permitia comprar qualquer jogador para qualquer clube ou divisão, desde que se oferecesse o ordenado mais alto de entre todas as propostas, resultando em contratações perfeitamente mirabolantes


Não era, no entanto, ao 'gamer' calejado por anos de simuladores de futebol que Elifoot 2 se dirigia; todo o aspecto e interface do jogo parece pensado para permitir que trabalhadores de escritório aborrecidos possam fazer uma 'jogatina' 'à sorrelfa' nos computadores da empresa, sem que os chefes se apercebam que as letras amarelas sobre fundo preto nos ecrãs dos subalternos não são de uma base de dados ou folha de computação. O jogo não é, nem pretende ser, CM ou FM; trata-se, conforme já foi referido, de um precursor de ambos, um pioneiro do género dos simuladores futebolísticos, que viria a estabelecer algumas das bases do género para anos vindouros - como a possibilidade de inclusão de vários jogadores num sistema de turnos, que o Championship Manager original não possuía. E, desse ponto de vista, Elifoot não pode ser considerado nada menos do que um sucesso.


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Neste ecrã, só havia uma opção possível: 'Alt + F12 - Seleccionar Melhores' - nem que com isso se acabasse com uma equipa constituída exclusivamente por pontas-de-lança...


De facto, houve pouco quem, durante os anos 90, não pusesse de lado os outros 'managers' para, durante umas horas, se entreter a artilhar a equipa do Felgueiras ou Leça com uma frente de ataque composta por Cadete e Acosta, permitindo-lhe assim 'levar tudo à frente' na quarta divisão portuguesa, e ser promovido à seguinte com vinte pontos de avanço sobre os adversários. Apesar de declaradamente simples, sobretudo graficamente – demasiado simples, pensar-se-ia, para atrair um público cada vez mais habituado a avaliar a qualidade de um jogo com base nos seus aspectos visuais – o título de André Elias 'caiu mesmo no gosto' dos jovens portugueses, tornando-se um dos poucos lançamentos 'dos primórdios' da informática noventista a ainda ser amplamente jogado e apreciado entre o público-alvo quase uma década depois.


De facto, a influência do jogo foi tanta que quem perguntar a um 'gamer' fã de futebol daquela época pelos nomes de alguns dos jogos clássicos da sua juventude, certamente verá este título aparecer entre as primeiros menções da lista. Fosse pelo orgulho de ter uma produção nacional com tal qualidade, fosse pelo factor vício (que o título possui, e a um nível considerável) ou mesmo pela 'novidade' de poder o Leça, Felgueiras, Salgueiros e Campomaiorense em vez dos habituais 'gigantes' europeus, o jogo foi mesmo um sucesso – e, a julgar pela sua procura nos dias que correm, continua a ser.


De facto, desde os seus anos áureos de gravação e distribuição em disquetes nos pátios de escolas de Norte a Sul de Portugal, a série Elifoot não parou de crescer, primeiro através das habituais versões modificadas (que substituíam as equipas portuguesas por emblemas do Brasil, o outro país onde o título fez história, ou mesmo da Liga dos Campeões) através da 'sequela melhorada' Elifoot 98 – que aproximava o título da estética Championship Manager, sem sacrificar a sua identidade – e, já no século XXI, através de uma versão para o telemóvel, que permite recriar toda a emoção daquelas partidas virtuais da infância a partir do bolso, e a qualquer momento.


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As versões mais recentes de Elifoot já se aproximam bastante dos títulos mais bem sucedidos do género, e parecerão certamente familiares a quem já os tenha jogado.


E apesar de nenhuma destas inovações ter tido o sucesso do original ou da sua ainda mais popular sequela, a verdade é que qualquer uma delas demonstra que, pelo menos da parte do público português, o apetite por Elifoot continua bem vivo; de facto, este mítico e aparentemente imortal jogo continua, ainda hoje, a ser produzido, datando a versão mais recente de 2020 - uma prova de que, por vezes, os conceitos mais bem sucedidos são mesmo os mais simples...


Querem recordar o Elifoot 2? Cliquem aqui! E cliquem aqui para saber como editar as equipas e plantéis do jogo, para criarem a vossa versão de sonho.


 

Monday, 14 February 2022

Segundas de Séries: Especial Dia dos Namorados - 5 Casais Icónicos da TV dos Anos 90

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Quer se goste ou não, o romance é parte integrante da maioria dos produtos mediáticos. Grande parte da população gosta de ver duas pessoas apaixonarem-se e encetarem uma relação amorosa; como tal, naturalmente, a maioria dos criadores não hesita em incluir este aspecto nas suas obras para consumo massificado, sejam elas dirigidas a adultos ou a um público mais juvenil.


Nos anos 90, o paradigma era exactamente o mesmo – por muito que nós, os miúdos, torcêssemos o nariz a tudo o que envolvesse 'beijinhos', a verdade é que a maioria das séries, filmes e livros que consumíamos acabavam, mesmo, por ter um casalinho romântico algures. Mais – alguns destes pares conseguiam mesmo ultrapassar a nossa renitência inicial, e tornar-se presença marcante dos respectivos produtos; hoje, em homenagem ao Dia dos Namorados, o Anos 90 vasculhou o 'baú' de séries da nossa infância para 'desenterrar' cinco dos mais icónicos casais televisivos da 'nossa' década.


Antes de começarmos, no entanto, um pequeno reparo: esta lista não inclui casos em que a relação é implícita, mas nunca oficialmente declarada (como é o caso com Tico e Gidget em 'Tico e Teco: Comando Salvador' ou Fred e Daphne em 'Scooby-Doo', por exemplo), relacionamentos que gostávamos que acontecessem mas nunca chegaram a ocorrer (como Brock e Misty de 'Pokémon') ou relacionamentos cuja índole é ambígua e nunca explicitada (como Jesse e James, o Team Rocket do mesmo 'Pokémon'.) Feito este áparte, vamos à lista!


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E porque qualquer pesquisa deste tipo tem, inevitavelmente, de começar no mundo das séries para adolescentes, iniciamos a nossa lista com um exemplo extraído da mítica 'telenovela americana' 'Beverly Hills 90210', também conhecida como 'A Febre de Beverly Hills'. Isto porque, embora os dois parzinhos centrados no galã Luke Perry (primeiro ao lado de Jennie Garth, e mais tarde de Shannen Doherty) fossem o principal foco da série, era num dos casais 'laterais' que podíamos encontrar a verdadeira relação estável e saudável. Donna Martin e David Silver (interpretados por Tori Spelling, filha do produtor Aaron, e Ian Ziering, respectivamente) conhecem-se logo no início da série, e – à parte alguns percalços derivados da decisão de Donna em permanecer virgem até ao final do secundário – ficam juntos durante as dez temporadas da série, acabando mesmo por se casar no último episódio da mesma. Se isto não é digno de figurar numa lista de melhores casais dos anos 90, então não sabemos o que seja...


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Continuando no mundo das séries 'teen', fazemos em seguida uma viagem até ao liceu de Bayside, onde encontramos o nosso segundo casalinho-modelo: Zack Morris e Kelly Kapowski. O rebelde de Mark-Paul Gosselaar e a menina bonita de Tiffani-Amber Thiessen, principais protagonistas de 'Já Tocou!', derretiam corações no ecrã e fora dele, e a química que exibiam, mesmo nos maus momentos, fazia com que os espectadores torcessem sempre por Zack nos confrontos com o 'melhor inimigo' Slater pelo coração da jovem, ou quando os seus planos mirabolantes para levar a relação ao patamar seguinte pareciam não ter hipóteses de dar certo...


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O mundo dos adolescentes não era, no entanto, o único a possuir casais icónicos; também nas séries infantis encontramos alguns exemplos de relacionamentos memoráveis e marcantes – por vezes, nos locais menos esperados, como é o caso da relação entre Tommy Oliver e Kimberly Ann Hart em 'Power Rangers'. Sim, a série conhecida por ter personagens quase caricaturalmente assexuados e puros de coração permitiu, na sua segunda e terceira temporadas, que existisse uma relação amorosa (com direito a cenas de beijos!) entre dois dos seus heróis! As crianças, essas, não se importaram grandemente, já que os personagens de Jason David Frank e Amy Jo Johnson eram perfeitos um para o outro, pelo que o seu namoro parecia fazer todo o sentido; pena, pois, que a relação tenha acabado abruptamente, quando Kimberly partiu para uma cimeira de ginástica para não mais voltar – tendo, tempos depois, Tommy recebido uma carta a oficializar o fim do relacionamento, a pior maneira de ficar a par de algo deste tipo. Ainda assim, enquanto durou, o namoro entre os dois foi um dos pontos altos das duas excelentes temporadas de 'Power Rangers', e um marco icónico entre as relações amorosas mostradas em programas infantis da década.


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Outro casal marcante do mundo da TV infantil da época vinha, mais uma vez, de uma fonte inesperada – no caso, a série entre séries da década de 90, 'Dragon Ball Z'. Embora mais conhecida pelas intermináveis lutas super-poderosas e torneios de artes marciais, a série criada por Akira Toriyama foi, também, capaz de levar ao ecrã não um, mas DOIS relacionamentos não só plausíveis como extremamente funcionais, no caso entre o protagonista Son Goku e Kika (Chi Chi no original), a sua melhor entre a melhor amiga de Goku, Bulma, e Vegeta, 'melhor inimigo' do herói. Dois casais improváveis, mas que resultaram surpreendentemente bem, sobretudo pelo facto de as duas personalidades de ambos os casais se complementarem perfeitamente, tendo Kika a maturidade (e mau-génio) necessários para incutir sentido de responsabilidade no imaturo Goku (o qual, por sua vez, colmata o lado por vezes demasiado sério da mulher com a sua natural despreocupação e bom-humor), e Bulma compaixão e carisma social suficientes para minimizar a má impressão causada pelo seu irascível e mal-humorado marido, e trazer ao de cima o seu lado mais humano. É precisamente esta dicotomia que potencia a longevidade de ambos os casais, que permanecem juntos até ao fim da série, sendo que no caso de Goku e Kika, o relacionamento vinha já desde o fim do Dragon Ball original, quando se conheceram no Torneio de Artes Marciais.


Aqui temos, portanto, cinco exemplos de casais mediáticos dos anos 90 que, embora tenham estado longe de ser os únicos (basta lembrarmo-nos, por exemplo, de Doug e Patty Maionese, de 'Doug', ou de Dartacão e Julieta) tiveram relacionamentos bem escritos o suficiente para deixar marca entre a juventude da época, e justificarem um 'post' celebratório neste Dia de S. Valentim. E porque não vimos todas as séries que passaram na televisão na época, e como tal é bem possível que nos tenhamos esquecido de algum, ficamos abertos às vossas sugestões – quem caberia aqui, que não está? Digam de vossa justiça nos comentários. Até lá, resto de bom Dia dos Namorados!

Sunday, 13 February 2022

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - Pedro Emanuel

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


O Futebol Clube do Porto 'conquistador' da Europa – aquela equipa treinada por José Mourinho, e da qual o mesmo levaria vários elementos consigo ao transitar para os ingleses do Chelsea – tinha na defesa um dos seus grandes esteios. A linha mais recuada do clube do Norte nesses anos de glória de inícios do século XXI contava com o histórico do clube, Jorge Costa, e ainda vários nomes que se tornariam indiscutíveis da Selecção Portuguesa pós-Geração de Ouro - Paulo Ferreira (à direita), Nuno Valente (a esquerda) e ao centro Ricardo Carvalho, todos os quais seguiriam o seu treinador rumo a Inglaterra. No meio de todas estas estrelas passadas e futuras, mais discreto mas não menos importante, alinhava um 'centralão' que, embora não tendo tido a mesma boa fortuna dos seus companheiros de defesa, conseguiu, ainda assim, tornar-se um nome histórico dos Dragões.


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Falamos de Pedro Emanuel, um produto da prolífica escola do Boavista de finais dos anos 80 e inícios de 90 – que também deu ao mundo futebolístico nomes como João Vieira Pinto, Jorge Couto, Nuno Gomes, Ricardo, Litos ou Frechaut, os três últimos colegas de equipa de Emanuel aquando do seu regresso a 'casa' – que viria a fazer carreira entre os dois clubes da Cidade Invicta, contabilizando mais de cem jogos por cada um deles (no Boavista, ficou a um jogo de completar 150) e assumindo-se como peça importante na 'fase áurea' de ambos.


O que muitos adeptos talvez não saibam é que – à semelhança dos colegas de equipa Deco e Nuno Valente – Pedro Emanuel passou várias épocas a 'pagar dividendos' nas divisões inferiores antes de 'dar o salto' para a ribalta; no caso, foram três os clubes 'menores' representados em outras tantas épocas, curiosamente sempre com números extremamente semelhantes – cerca de 30 jogos (29 no Marco, 31 na Ovarense e 28 no Penafiel) e exactamente dois golos por cada uma das equipas.


Talvez tenha sido esta consistência que levou os olheiros do Boavista, numa jogada que faria corar o Sporting da era moderna, a repararem novamente no jovem que haviam dispensado da sua academia anos antes, voltando Emanuel a ser contratado pelos axadrezados no início da época 1996/97, quando ainda contava apenas vinte e um anos, e, como tal, apresentava ainda enorme margem de progressão, que acabaria mesmo por demonstrar – a restante carreira do atleta foi já descrita em parágrafos anteriores.


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O jogador durante o seu período no Boavista


Quando se retirou do futebol competitivo para se dedicar à função de treinador, Pedro Emanuel era (justamente) considerado uma 'lenda' do Futebol Clube do Porto; um nome, talvez, ofuscado pela 'constelação' que o rodeava, mas que não deixou, ainda assim, de ter papel preponderante nos triunfos e conquistas de um dos melhores períodos da História do clube nortenho – algo com que talvez nem sonhasse quando, ainda adolescente, envergava briosamente os emblemas de uma série de clubes das divisões amadoras...

Saídas ao Sábado - Especial Dia dos Namorados: As Saídas Românticas

Nota: Este post é respeitante a Sábado, 12 de Fevereiro de 2022.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


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Das muitas experiências típicas da adolescência, namorar é uma das mais características. Há quem comece mais cedo, outros mais tarde; há relações que duram mais, e outras (nessa etapa da vida, a maioria) menos; mas há muito poucos jovens que não tenham, a uma ou outra altura do seu desenvolvimento, sentido e explorado sentimentos românticos por outrem.


Na época a que este blog concerne (e, queremos acreditar, ainda hoje em dia) uma das formas mais tradicionais de demonstrar esses mesmos sentimentos era com uma saída (mais ou menos) romântica – os hoje chamados, graças à influência anglófila, 'dates'. E uma das alturas mais apropriadas para combinar uma saída com a cara-metade, pela simbologia a ele associada, era precisamente a 14 de Fevereiro, no chamado Dia dos Namorados.


É claro que, para jovens ainda em idade dependente, os gestos românticos ligados a este dia ficavam muito longe das extravagâncias vistas nos filmes ou na televisão, sendo as camas de pétalas de rosa, caixas de chocolates em forma de coração, jóias e saídas a restaurantes finos típicos desses meios substituídas por lembranças mais simbólicas (de ursinhos de peluche a cassettes ou CDs feitos em casa, as famosas 'mixtapes') e idas a locais como o cinema, o bowling, o 'shopping', um dos inúmeros restaurantes de 'fast food' que se começavam à época a espalhar pelo país, ou simplesmente o jardim ao pé da escola ou de casa.


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O ideal romântico da cultura popular estava fora do alcance da esmagadora maioria dos jovens


Qualquer que fosse o destino, o que interessava era passar tempo com a cara-metade, arriscar uns 'namoricos' em público, e quiçá comprar um ou outro presente para simbolizar a ocasião – nem que fosse apenas uma daquelas flores de plástico ou chupetas luminosas entusiasticamente propostas por vendedores ambulantes.


Foram assim os Dias dos Namorados de muitos adolescentes dos anos 80, 90 e 2000 – aqueles que tinham namorado ou namorada, bem entendido; os outros afirmavam, sarcasticamente, ligarem pouco ou nada à data; portanto, esta Segunda-feira, porque não recordar aqueles tempos com uma ida ao Mac, à Pull and Bear e ver um filme 'de gaja', acompanhados do vosso 'gajo' ou 'garina'?


Façam o que fizerem, feliz Dia dos Namorados!

Friday, 11 February 2022

Sessão de Sexta: 'Matilda, a Espalha-Brasas'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Os anos 90 são, quase por unanimidade, considerados uma das melhores décadas para o cinema infantil. Num espaço de apenas dez anos, os mais novos puderam desfrutar da chamada Renascença da Disney, da continuação da era de ouro de Steven Spielberg, dos últimos bons filmes de Don Bluth, do desabrochar da Pixar, de vários filmes baseados em propriedades mega-populares como os Power Rangers, Tom e Jerry ou as Tartarugas Ninja, e de uma verdadeira miríade de outros títulos em géneros desde a acção à fantasia ou comédia.


É nesta última categoria que se insere um filme cuja passagem pelo cinema foi mais discreta que a de muitos outros ao longo da década, mas que reúne ainda hoje um grande número de entusiastas, pela sua mistura equilibrada entre gargalhadas e verdadeiro (e bem conseguido) sentimento.


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Falamos de 'Matilda, a Espalha-Brasas' – ou simplesmente 'Matilda' – a adaptação da obra homónima de Roald Dahl que celebrou, no final do ano passado, o 25º aniversário da sua estreia em Portugal, a 20 de Dezembro de 1996.


Centrado na personagem que lhe dá título, uma menina em idade de instrução primária com um gosto particular pela leitura e poderes muito especiais, o filme deu continuidade à trajectória ascendente da pequena Mara Wilson, que já tinha dado nas vistas em 'Papá Para Sempre', de 1993 (então ao lado de Robin Williams, Sally Field e Pierce Brosnan) e 'Milagre em Manhattan', de 1994 (e cuja carreira no grande ecrã viria, estranhamente, a findar alguns anos depois, ainda antes de a acritz atingir idade adolescente.)


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A jovem protagonista


Aqui, a menina de nove anos contracena com Danny DeVito e Rhea Pearlman, que quase 'roubam' todo o filme como os pais de Matilda, e ainda com Embeth Davidtz, no papel da sua doce e compreensiva professora, Miss Honey, numa daquelas adaptações quase literais da obra escrita em que se baseia – o que, como costuma suceder na maioria de tais casos, acaba por ser um ponto a favor do filme, já que a escrita de Dahl é conhecida pela sua inteligência, imaginação e criatividade, que permanecem quase intactas nesta adaptação para o grande ecrã. Nem as interpretações exageradas dos referidos DeVito e Pearlman (daquele calibre que é, normalmente, suficiente para fazer descarrilar um filme) destoam da atmosfera geral do filme, que já de si projecta uma certa aura de 'desenho animado de carne e osso', semelhante à de filmes como 'As Bruxas' (também uma adaptação de Dahl) ou 'Hook', de Spielberg, lançado alguns anos antes.


No cômputo geral, a impressão que fica no fim destes 98 minutos é a de um filme que, sem ser um clássico intemporal como 'Sozinho em Casa', por exemplo, constitui no entanto uma excelente sessão de cinema para toda a família, daquelas em que até os pais deverão conseguir ficar acordados, a rir dos estereotipados pais da protagonista, ou interessados no que a mesma conseguirá fazer com os seus poderes telecinéticos. Um daqueles filmes 'como já não se faz' hoje em dia, e que – até por estar disponível no Netflix europeu – merece bem uma re-visita, acompanhada (ou não...) pela nova geração de jovens cinéfilos.

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...