Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.
Em inícios do século XXI, o mercado cinematográfico da animação vivia uma situação peculiar e sem precedentes: o lento declínio da Disney enquanto líder hegemónica (iniciado ainda em finais dos anos 90, e que tinha na absurda quantidade de sequelas directas para vídeo o seu principal indicador) abria caminho para o aparecimento de uma companhia capaz de rivalizar com a 'casa do Rato Mickey'. E, numa espécie de versão Hollywoodesca do que acontecia com a WWF e a WCW no mercado da luta livre, essa concorrente não tardaria a surgir, liderada (surpreendentemente, ou talvez não) por um ex-executivo da própria Disney na sua chamada 'Renascença' – Jeffrey Katzenberg, que havia sido substituído poucos anos antes pelo homem responsável pelas sequelas e outras manobras 'duvidosas', Michael Eisner – e com apoio financeiro de um dos maiores nomes de Hollywood da altura. Steven Spielberg.
Não admira, pois, que a Dreamworks não tardasse a estabelecer uma reputação firme como o 'segundo grande' da animação noventista, apresentando uma qualidade até então apenas presente nos filmes de Don Bluth, eles mesmos em lento mas perceptível declínio naqueles últimos anos do século XX. Mas enquanto que filmes como 'O Caminho Para El Dorado', 'O Príncipe do Egipto' ou 'Anastasia' (realizado pelo próprio Bluth) seguiam moldes muito semelhantes aos dos clássicos da fase renascentista da Disney, procurando competir com estes ao mesmo nível, seria com o seu primeiro filme do Novo Milénio que Katz e Spielberg verdadeiramente deixariam a sua marca no mercado da animação, com um filme subversivo e arrojado, que não só revolucionava e redefinia o conceito do que era um filme animado, mas também escarnecia directa e abertamente de todos os estereótipos empregues pela Disney nos seus tradicionais 'contos de fadas' desenhados, numa 'provocação' directa àquele que era, ainda, o maior estúdio de animação do Mundo,
Falamos, claro está, de 'Shrek', o primeiro 'capítulo' de um 'anti-conto de fadas' que dominaria a cultura popular (e as bilheteiras) durante as duas décadas seguintes, tornando-se a primeira de várias franquias altamente populares e reputadas lançadas pela Dreamworks, e dando azo a um 'império' de 'merchandising' encabeçado pelas três sequelas (a primeira das quais considerada uma das melhores 'segundas partes' de sempre, em qualquer género cinematográfico) e dois especiais (de Natal e 'Halloween'); e todo esse sucesso tinha início numa simples paródia da 'fórmula' Disney, protagonizada por um personagem explícita e propositadamente feio, e que surpreendia muita gente com uma 'reviravolta' final verdadeiramente inesperada.
É esse o filme que celebra, este fim de semana, o quarto de século sobre a sua estreia nacional (a 7 de Junho de 2001) aquando da qual atraía de imediato as atenções de uma geração já demasiado 'adulta' (e auto-conscienciosa) para filmes de 'desenhos animados', que encontrava na vertente satírica e sarcástica de 'Shrek' a 'desculpa' perfeita para satisfazer o seu lado mais infantil. E a verdade é que o filme não desapontava, mostrando-se tão ou mais apropriado para um público adolescente e adulto do que para o infantil, e impressionando não só na componente técnica (embora, hoje em dia, seja fácil perceber as limitações da animação, sobretudo por comparação com a primeira sequela, lançada dois anos depois) como no aspecto sonoro, com excelente utilização de música 'pop' (a abertura ao som de 'All-Star', dos Smash Mouth, é uma das mais icónicas de sempre) e elenco de luxo quer na versão original quer na dobrada em Português, e sobretudo na escrita, que conseguia misturar de forma harmoniosa referências visuais ao estilo 'Scary Movie' e 'alfinetadas' à rival Disney com um enredo algures entre o conto de fadas e a 'missão de um homem só' (ou, neste caso, de um ogre e um burro). O resultado não podia deixar de ser um sucesso, um clássico geracional que marcou de tal forma os 'millennials' de todo o Mundo que é algo 'penoso' ver 'Shrek' ser apenas um 'meme' para os elementos da geração seguinte.
É, pois, com relativa boa-vontade e nostalgia que esses mesmos 'millennials' recebem as intermináveis repetições de 'Shrek' e das suas sequelas nos Natais e Páscoas da televisão portuguesa, dedicando mesmo algum tempo a rever aqueles clássicos nostálgicos da sua juventude, nascidos da necessidade de um homem fazer o equivalente cinematográfico de um 'manguito' à sua ex-companhia. E a verdade é que o impacto cultural de 'Shrek' se fez sentir não só no imediato (com o filme a servir de inspiração a outra franquia 'perene', a sátira de sátira 'A Idade do Gelo') como a longo-prazo, com a Dreamworks a consolidar a sua posição no mercado e a atingir níveis de sucesso que quase rivalizam com os da própria Disney. E se, por entre dragões e pandas, teria sido fácil ao ogre, burro e restantes 'comparsas' perder-se na 'multidão', aconteceria, de facto, o exacto oposto, com um quinto capítulo de 'Shrek' actualmente em produção, exactos vinte e cinco anos após o discreto despontar daquela que viria a ser a primeira grande franquia de animação do Novo Milénio.




