Wednesday, 31 July 2024

Quartas aos Quadradinhos: 'História dos Jogos Olímpicos' (1992) ' - Desactualizada, Mas Não Antiquada

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Há exactos trinta e dois anos (que seriam trinta, não fossem os desfasamentos causados pelo COVID-19) desenrolavam-se em Espanha, na cidade de Barcelona, os Jogos Olímpicos de 1992; por essa mesma altura, era lançado nas livrarias portuguesas um álbum de banda desenhada cujo título deixava bem explícito o seu propósito, e justificava igualmente o 'timing' de lançamento por parte da casa editorial responsável, no caso as Edições Asa.


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(Crédito da imagem: CustoJusto)


Da autoria dos franceses André Manguin (texto) e Robert Bressy (desenhos), 'História dos Jogos Olímpicos' oferecia uma versão 'enlatada' do percurso vivido pela competição desde a sua transição para um formato moderno, como o que hoje conhecemos, até à época de publicação original da história, em finais dos anos 70 – um limite já algo desactualizado à data de publicação (houvera já três Olimpíadas desde a criação da história) mas que permitia, ainda assim, oferecer uma perspectiva mais ou menos actualizada da evolução do certame ao longo dos anos. Havia, aliás, razões bastante pertinentes para tal intervalo temporal, já que a primeira publicação da banda desenhada em causa remetia, precisamente, a esse período, tendo a mesma sido apresentada aos leitores portugueses no 'Jornal da BD', ainda nos primeiros meses da década de 80, por ocasião dos Jogos desse ano. As causas da demora de mais de uma década até à edição em álbum perdem-se, infelizmente, nas 'brumas da memória', podendo esta história ter sido lançada num único volume logo nas Olimpíadas de 1984, ou mesmo nas de 1988.


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Uma página da história.


Como diz o ditado, no entanto, 'mais vale tarde que nunca', e a verdade é que os aficionados de banda desenhada com interesse no evento desportivo em causa puderam, eventualmente, desfrutar deste agradável álbum, cujo argumento e desenhos apresentam um nível perfeitamente aceitável e expectável para este tipo de publicação sem grandes 'pressões' para vender, com a arte em particular a situar-se a meio caminho entre as escolas americana e franco-belga (ou não fossem os autores franceses). Um 'prato cheio', portanto, para os 'X' e 'millennials' fãs da competição, e que (àparte a capa 'do seu tempo') se 'aguenta' ainda relativamente bem no contexto actual, podendo constituir um presente interessante para os seus sucessores das gerações 'Z' e 'Alfa', sobretudo numa altura em que muitos deles acompanham em directo as diferentes provas do certame de Paris 2024.

Tuesday, 30 July 2024

Terças Tecnológicas: Trinta Anos de 'Super Metroid', O Clássico de Culto da Nintendo

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Apesar de conhecida e oficialmente representada pelo canalizador aventureiro Mario, a Nintendo criou, ao longo da sua História, vários outros personagens que, sem serem tão icónicos como o italo-americano, são ainda assim instantaneamente reconhecíveis por qualquer fã de jogos de vídeo, a maioria dos quais surgidos na 'época áurea' dos videojogos, entre finais dos anos 80 e o Novo Milénio. De facto, só na primeira metade dos anos 90, a companhia japonesa tinha, além de Mario, uma mão-cheia de outras potenciais mascotes: havia Link (protagonista da série 'The Legend of Zelda'), o 'peluche animado' Kirby, os símios Donkey e Diddy Kong, o aventureiro espacial antropomórfico Fox McCloud e, claro, Samus Aran, a 'loiraça' astronauta que protagonizava 'Metroid', um dos mais populares títulos lançados para a Nintendo original de 8-bits.


Não é, pois, de espantar que, aquando do lançamento da consola de 16-bits da companhia, a Super Nintendo, todos estes personagens tenham tido direito a títulos próprios, com Fox a fazer a sua estreia em 'Star Fox', de 1993, e os restantes a 'transitarem' do universo 8-bits da NES e Game Boy para viver novas aventuras na recém-lançada máquina. 'Metroid' não foi, claro, excepção a esta regra e, há quase exactos trinta anos (a 28 de Julho de 1994) a Europa acolhia de braços abertos o terceiro título da franquia, e primeiro para 16-bits.


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Explicitamente intitulada 'Super Metroid' (numa época em que a convenção era chamar a cada novo titulo 'Super', como forma de estabelecer ligação com a nova consola) a nova aventura espacial da Nintendo aderia à habitual fórmula para a criação de sequelas, oferecendo mais do mesmo, mas melhor. Níveis maiores, com mais segredos e melhores poderes, fomentavam a exploração (horizontal e vertical) pela qual a série se vinha tornando conhecida, enquanto que a história, surpreendentemente complexa para um título da época, estabelecia as bases para lançamentos futuros, em que a vida de Samus se tornaria uma autêntica 'novela mexicana'. Outra inovação eram os diferentes finais, cada um deles baseado no tempo gasto a completar o jogo e em acções e decisões tomadas durante o mesmo, como a opção de libertar criaturas amigáveis das suas prisões; no melhor deles, Samus posava sem o seu fato espacial, exibindo as suas curvas e deixando os jogadores 'pelo beicinho' mais de dois anos antes de Lara Croft sequer surgir em cena.


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A imagem final da melhor das três conclusões do jogo, obtida ao completar a missão em menos de três horas.


Tendo em conta esta combinação de características, e o elevado grau de 'repetibilidade' do jogo, não é de estranhar que 'Super Metroid' seja considerado, ainda hoje, não só o melhor titulo da série, como um dos melhores videojogos de sempre, opinião partilhada tanto pelo público como pela crítica especializada. Surpreendente, sim, é o facto de esta ter sido a última aparição de Samus por um período de oito anos, já que Gunpei Yokoi e a sua equipa não foram capazes de materializar ideias para um título de 'Metroid' para Nintendo 64, tendo o criador da franquia deixado a Nintendo em 1996 e vindo a perecer num acidente de viação, no ano seguinte..


Por alturas do lançamento da Gamecube, no entanto, Samus estava de volta, com criadores diferentes mas o mesmo nível de competência e qualidade; desse ponto em diante, a astronauta de fato vermelho e amarelo não mais voltaria a falhar o lançamento de qualquer outra consola da Nintendo, sendo cada nova aventura quase unanimemente elogiada, mesmo quando a história ou jogabilidade apresentavam claras lacunas, como em 'Metroid: Other M', para Nintendo Wii. Quanto a 'Super Metroid', mesmo trinta anos e várias gerações de consolas após o seu lançamento, continua a ser não só considerado um dos melhores jogos da franquia, e de sempre, como também alvo de adaptações e modificações não-oficiais por parte da comunidade 'hacker' – um sinal inequívoco de que um título se mantém relevante. Parabéns, e que a sua influência se faça ainda sentir por muitos e bons anos.


Segundas de Séries: 'Histórias de Corpo Inteiro' - A Série Mais Esquecida da Televisão Portuguesa

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 29 de Julho de 2024.


NOTA: Este 'post' não teria sido possível sem o André Alonso, que não só recordou o nome da série abordada como providenciou 'links' para a única fonte onde a mesma surge mencionada. Obrigado, André!


Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


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O elenco de personagens da série. (Crédito da foto: RTP)


Já aqui por várias vezes mencionámos produtos ou criações mediáticas das décadas de 80, 90 e até 2000 que, por uma razão ou por outra, têm pouca ou nenhuma presença nos supostamente omniscientes motores de pesquisa da Internet actual. No entanto, enquanto que as BD's da Hanna-Barbera ou a revista Ultra Som possuem pelo menos uma imagem ou menção no Google, outros tópicos que abordámos aqui no 'blog', como o sumo do Astérix da Libby'sa bebida B Cool da Danone ou a pasta de dentes do Super Mario, encontram-se totalmente esquecidos e dependentes da memória de quem com eles conviveu. O tema desta Segunda de Séries situa-se precisamente a meio caminho entre estes dois paradigmas, encontrando-se todos os seus episódios disponíveis para visualização (mas apenas em uma única fonte, e sabendo como os procurar) mas sendo funcionalmente impossível precisar criadores ou quaisquer outros dados técnicos. É, pois, com naturalidade que 'Histórias de Corpo Inteiro' integra o crescente grupo de tópicos Esquecidos Pela Net do Portugal anos 90 – o que não deixa de ser uma pena, dado tratar-se de uma série bem conseguida e de produção cem por cento nacional, o que torna ainda mais curioso o facto de nenhuma das várias fontes nostálgicas produzidas em solo português se lembrar dela.


De facto, à parte o aspecto perturbador de algumas das marionetas usadas para dar vida aos personagens – sobretudo as hiper-realistas, que lembravam uma versão demoníaca dos 'Thunderbirds' – a série estreada na RTP1 em Novembro de 1991 e exibida diariamente até ao final do referido ano mostrava aspectos técnicos cuidados (alguns até inovadores, como a fusão de acção real com fantoches) e tirava o máximo proveito do seu presumivelmente reduzido orçamento, apostando numa apresentação ao estilo peça de teatro, com cenários de fundo estáticos sobre os quais os personagens se moviam e levavam a cabo a trama de cada episódio. Uma abordagem talvez muito distante de produções contemporâneas como 'Rua Sésamo', mas que resultava em pleno no contexto da série em causa, dando-lhe um aspecto e características distintas, que a deveriam ter tornado consideravelmente mais memorável para a geração 'millennial', à época a demografia-alvo destas 'Histórias' passadas no interior de uma cavidade bucal humana, e destinadas a educar o público-alvo sobre a higiene oral, um dos temas mais em voga naquele início dos anos 90.


Outro elemento que deveria ter ficado indelevelmente gravado na psique de toda uma geração, mas que em vez disso se viu vetado ao esquecimento, era o inesquecível genérico da série, uma 'malha' que, sem qualquer hipérbole, pode e deve ser posta ao mesmo nível das que iniciavam a supramencionada 'Rua Sésamo' ou o concurso 'Arca de Noé', e que (por experiência própria) tinha potencial para se 'colar' ao cérebro durante décadas. Infelizmente, conforme acima mencionado, o total desaparecimento da série da memória colectiva levou consigo o referido tema – o que ajuda a justificar ainda mais o esforço de recuperação da mesma que pretendemos levar a cabo com este 'post'. Infelizmente, não nos é possível colocar qualquer destas 'Histórias' directamente nesta publicação, já que os episódios apenas se encontram disponíveis nos Arquivos RTP, que não permitem ligações externas; assim, temos de nos contentar em partilhar o 'link' para a página da série no 'site' da emissora estatal, e confiar que os nossos leitores tenham suficiente interesse para irem reviver mais esta memória esquecida da infância remota e – quem sabe – trazer a série de volta à consciência popular da geração 'millennial' nacional...

Sunday, 28 July 2024

Domingos Divertidos: Os Cavalos de Baloiço

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Na nossa última publicação, falámos dos cavalos de pau, um tipo de brinquedo hoje obsoleto mas que, nos anos 90, constituía ainda uma excelente forma de passar um Sábado aos Saltos. Para quem não era adepto de grandes 'coboiadas' ou 'cavalgadas', no entanto (ou simplesmente para crianças mais novas) existia uma outra opção, a qual podia por si mesma dar azo a um Domingo Divertido: os cavalinhos de baloiço.


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Lá por casa existia um modelo exactamente igual a este...


Uma espécie de versão mais encorpada (e estática) dos cavalos de pau, os cavalos de baloiço eram presença frequente nos quartos de cama ou de brinquedos de crianças em idade pré-escolar, quando um brinquedo deste tipo era ainda capaz de encantar, e proporcionavam uma espécie de cruzamento entre o referido cavalo de pau e uma versão gratuita dos brinquedos de moeda tão populares à época. Requerendo apenas um pequeno impulso – que podia ser dado tanto pela criança como por um adulto – e controlo firme sobre os manípulos situados de cada lado da cabeça (já que, nestes casos, tendia a não haver rédeas) estes brinquedos eram a forma ideal de viver as fantasias de ser 'cowboy', cavaleiro ou príncipe encantado sem grande esforço, e sem quaisquer acidentes resultantes em 'nódoas negras', arranhões e outras 'mazelas' típicas da infância. Não é, pois, de espantar que os mesmos continuassem a gozar de enorme popularidade entre as crianças das décadas de 80 e 90, as quais certamente relembrarão uma qualquer variação do tradicional modelo pintado de vermelho e branco, que ilustra este post.


À semelhança dos cavalos de pau, é também ainda hoje possível encontrar para venda versões modernas dos cavalos de baloiço, sobretudo em lojas especializadas em brinquedos de índole mais clássica; tal como com os seus 'irmãos' mais 'magricelas', no entanto, é difícil imaginar o interesse que um produto desta índole possa ter para a 'geração iPad', para quem até mesmo os referidos brinquedos de abanar movidos a créditos já têm de ter animações a acompanhar. Quem viveu num tempo mais simples e menos tecnológico, no entanto, certamente terá, após ler este 'post', despertado memórias remotas de muitos Domingos Divertidos passados 'a cavalo' de um destes 'bravos alazões', a dar largas a uma imaginação que cada vez mais vai faltando às crianças modernas...

Sábados aos Saltos: Os Cavalos de Pau

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 27 de Julho de 2024.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


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Versão moderna do clássico brinquedo.


Apesar de estar já a cair em desuso em inícios dos anos 90 (narrativa que, aliás, serve de base a um dos grandes filmes animados da década, o fantástico 'Toy Story', que em breve aqui terá o seu 'momento') a imagética dos 'cowboys' a cavalo continuava, ainda, a reter algum apelo junto das crianças e jovens das gerações 'X' e 'millennial', como bem demonstra o sucesso que continuavam a fazer dois brinquedos 'irmãos' (mas não gémeos) ainda bastante populares naqueles últimos dez anos do século XX. De um desses, falaremos neste mesmo post, enquanto o outro servirá de tema ao Domingo Divertido desta semana.


Comecemos, pois, por aquele que, dos dois, proporcionava um belo Sábado aos Saltos – o tradicional cavalo de pau em madeira pintada, o qual era ainda presença relativamente frequente nas lojas de brinquedos mais tradicionais (sobretudo as de bairro) nos primeiros anos da década em causa. E se os modelos disponíveis hoje em dia oferecem 'cabeças' quase exclusivamente em peluche, os seus congéneres dos anos 80 e 90 nem 'sonhavam' com tais veleidades, sendo a efígie do animal em causa esculpida na própria madeira e, em seguida, pintada ao gosto do criador. Já o resto do corpo consistia, como o próprio nome do brinquedo dá a entender, de um simples 'pau', no qual as crianças se podiam equilibrar e, segurando nas 'rédeas' em plástico muitas vezes acopladas à cabeça, 'partir à desfilada' pela casa ou quintal afora, recriando as aventuras que era ainda possível acompanhar na televisão, livros, filmes  e revistas aos quadradinhos da época.


De salientar que, ao contrário de muitos brinquedos que ocupam a nossa atenção nesta mesma rubrica, os cavalos de pau não desapareceram totalmente da sociedade, sendo ainda hoje possível encontrá-los na Internet, ou em lojas dedicadas à venda de brinquedos mais tradicionais; no entanto, numa era em que qualquer produto infanto-juvenil vem equipado com LED, efeitos sonoros ou mesmo visuais, e ligação a Bluetooth, é de ponderar até que ponto as crianças da chamada 'Geração Alfa' poderão ter interesse num brinquedo simplista e obsoleto ao ponto de ser pitoresco. Quem cresceu a 'galopar' pela casa num pau de madeira com uma cabeça de cavalo na ponta, no entanto, certamente terá 'desbloqueado' memórias remotas ao ler este 'post' – tendência que, suspeitamos, se estenderá à nossa próxima publicação, onde falaremos do 'irmão mais velho' (e ainda mais nostálgico) deste tipo de brinquedo...

Saturday, 27 July 2024

Sextas Com Style: A Amarras

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 26 de Julho de 2024.


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


A natureza cíclica da moda tende a ser apercebida, sobretudo, de um contexto mais técnico, centrado em aspectos ligados à manufactura, como estilos, padrões, cortes e têxteis; no entanto, uma outra vertente deste paradigma prende-se com as marcas em si, as quais podem, no espaço de poucos anos, ir dos píncaros da popularidade ao quase total esquecimento, seja por falta de visibilidade ou, simplesmente, por as suas peças darem lugar, nas prateleiras e expositores das lojas, a artigos das suas 'sucessoras'. A marca de que falamos neste 'post' foi vítima de ambas essas situações, e, embora nunca tenha desaparecido totalmente do mercado, é hoje associada sobretudo com épocas passadas, nomeadamente com os últimos vinte anos do século XX. Falamos da Amarras, a marca pan-ibérica (as peças são criadas em Espanha mas fabricadas em Portugal) que, a partir do início dos anos 80, trouxe o mundo dos desportos náuticos para o domínio popular, através, principalmente, da sua icónica linha de 'sweat-shirts', as quais, para determinadas demografias, estão ao mesmo nível das camisas da Sacoor, das t-shirts da Quebramar ou das 'sweats' da No Fear.


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Fundada em 1978, no Bairro de Salamanca, em Madrid, Espanha (onde ainda hoje possui a sua loja principal) a Amarras logrou, durante os vinte anos seguintes, espalhar o seu símbolo por países tão distintos como o México, os EUA e, claro, Portugal, onde a concessão da manufactura das peças ajudava a facilitar a entrada e dispersão no mercado. E se a ligação à vela e ao remo conotava, de imediato, a marca com a infame sub-classe dos 'betinhos', a verdade é que nem por isso as peças da Amarras deixavam de ser desejáveis e cobiçadas de forma transversal pelas demografias jovens das gerações 'X' e 'millennial', para quem o símbolo da marca detinha alguma atractividade, ainda que sem chegar ao patamar das concorrentes acima citadas.


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A icónica 'sweatshirt' da marca, imutável até aos dias de hoje.


Nada dura para sempre, no entanto, e foi com naturalidade que o 'ciclo' da Amarras enquanto marca notável e popular se encerrou, dando lugar, ao longo dos primeiros anos do Novo Milénio, a novas 'grifes' prontas a conquistar tanto o mercado ibérico quanto o mundial. Para uma certa parcela da sociedade portuguesa, no entanto, aquelas cordas entrançadas com as letras em Arial Bold por baixo ficarão, para sempre, ligadas a 'sweat-shirts' propositalmente largas envergadas durante encontros com amigos ao fim de um dia de praia – o tipo de memória que nenhum ciclo de popularidade poderá, jamais, apagar, e que garante a esta e outras marcas um lugar permanente no coração dos 'trintões' e 'quarentões' portugueses dos dias que correm.

Friday, 26 July 2024

Quintas de Quinquilharia: As Tatuagens Temporárias - Entusiasmantes, Mas Controversas...

NOTA: Este post é respeitante a Quinta-feira, 25 de Julho de 2024.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Eram um dos brindes mais populares entre os jovens portugueses dos anos 90 e, apesar de estarem longe de ser consensuais junto dos pais, adornavam muitas vezes a pele da demografia em causa ao longo daqueles últimos anos do século XX, surgindo frequentemente em locais algo invulgares, como as costas da mão, onde podiam ser devidamente admiradas por pares invejosos. Falamos das tatuagens temporárias, uma categoria de quinquilharia que nunca retinha esse estatuto durante muito tempo, mas que não deixa, ainda assim, de ser elegível para esta categoria.


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Adquiríveis em folhas completas na tabacaria ou, frequentemente, como brindes de produtos alimentares (como no caso das tatuagens das Tartarugas Ninja oferecidas pela Panrico no auge da popularidade das mesmas) estes desenhos, normalmente consistentes de personagens populares entre a 'pequenada' ou desenhos e símbolos universalmente considerados 'fixes', eram transferidos da folha adesiva para a pele (ou para qualquer superfície onde se desejasse colocá-las, já que serviam 'função dupla' como uma espécie de autocolante) por meio da aplicação de uma esponja ou pano húmido no reverso da tatuagem, criando assim uma espécie de 'cópia-borrão' da mesma, que podia depois ser removida com água ou álcool quando a criança se 'fartasse' – algo que muitas pessoas certamente desejariam ser possível com tatuagens reais! A desvantagem – e principal razão da natureza polémica destes brindes junto dos adultos – prendia-se com o risco de doenças de pele resultantes do processo, como a urticária, o que fazia com que muitos pais proibíssem o uso deste tipo de tatuagem na pele dos filhos.


Quer se pertencesse a este último grupo ou à percentagem da demografia que orgulhosamente exibia o seu desenho de uma caveira ou Tartaruga Ninja no braço ou nas costas da mão, uma coisa é certa: as tatuagens temporárias marcaram época junto de toda uma geração, em Portugal e não só. E embora este tipo de brinde tenha caido em desuso no mais informado mundo de inícios do século XXI, não é por isso que passa a ter menos nostalgia para quem, há duas ou três décadas atrás, vibrava com a ideia de transferir o recém-adquirido padrão para o seu braço, e causar inveja aos amigos no pátio da escola, no dia seguinte...

Wednesday, 24 July 2024

Quartas aos Quadradinhos: Os Aniversários de Luxo do Pato Donald

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


É uma verdade inegável que, de entre todos os personagens da Walt Disney, o Rato Mickey goza do estatuto de 'estrela', tendo desde sempre sido a 'cara' da companhia, e contando-se hoje em dia entre os ícones 'pop' mais reconhecíveis a nível mundial; no entanto, não é menos acertado dizer que o Pato Donald ocupa um segundo lugar muito próximo nessa lista, surgindo à frente de Pateta (o terceiro personagem do 'trio maravilha' da BD Disney) e da própria namorada de Mickey, Minnie. Assim, não é de todo de espantar que, aquando dos dois aniversários marcantes que o pato mais famoso do Mundo celebrou durante os anos 90, a sua editora nacional da altura realizasse uma comemoração 'à altura', tal como fizera por ocasião dos aniversários de sessenta e cinco e setenta anos de Mickey. O resultado foram duas edições comemorativas que – ao contrário do que sucedia com pelo menos uma das do Rato Mickey – valia bem a pena ter na colecção para quem fosse fã da irascível ave aquática de fato de marinheiro.


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A primeira destas, que comemora dentro de um par de dias (a 26 de Julho) o trigésimo aniversário da sua chegada às bancas, era alusiva aos sessenta anos de Donald, e trazia quase duzentas e quarenta páginas com quase duas dezenas e meia de histórias protagonizadas pelo pato aniversariante e seu restante núcleo, com especial ênfase para os seus sobrinhos, catalistas da dinâmica familiar presente em muitas histórias do personagem. Infelizmente, das vinte e quatro aventuras que compunham o volume, a esmagadora maioria era de produção (à época) moderna, tendo sido originalmente publicada em meados da década de 80, o que fazia da edição pouco mais do que um Hiper Disney tematizado em torno do aniversário de Donald. Ainda assim, uma edição de valor para quem privilegiasse o coleccionismo, pese embora o proibitivo preço (quase setecentos escudos, uma 'pequena fortuna' em 1994, sobretudo no tocante a banda desenhada).


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Previsivelmente, muitas das falhas dessa primeira edição eram corrigidas na segunda, saída quase exactamente cinco anos depois, no mesmo mês de Julho (embora a data exacta de publicação não se encontre, neste caso, disponível) e que comemorava os sessenta e cinco anos do pato marinheiro. De facto, apesar de contar com apenas dois terços das páginas da 'irmã mais velha' (menos de duzentas), esta edição tirava o máximo proveito do espaço de que dispunha, apresentando não só uma mistura mais equilibrada de histórias antigas e modernas (com mais de metade – cinco em nove – assinadas por Carl Barks) como também uma estrutura seccionada por temas, cada um deles introduzido por uma página de texto informativo, e ainda uma capa e contra-capa dedicadas e devidamente assinaladas. Medidas que, em edições menos especiais, poderiam parecer 'para encher chouriços', mas que, neste contexto, dão ao volume o carácter diferenciado que se espera de uma edição de aniversário – e tudo por menos de quinhentos escudos, o que, em 1999, era consideravelmente menos do que os setecentos de 1994! Estes pequenos mas nada insignificantes ajustes ajudavam a fazer da edição '65 Anos' a melhor das duas, e mais do que colmatavam a redução em conteúdo e número de páginas, tornando-a quase essencial para fãs do temperamental pato.


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De realçar ainda duas edições, ambas de 1994 e ambas publicadas à margem das 'oficiais' da Abril: 'Feliz Aniversário, Donald – O Livro de Ouro das Suas Melhores Histórias', publicada pela RBA Editora como parte da colecção 'Disney em Banda Desenhada', e o livro do mesmo título da colecção 'Clássicos da BD'. Ambas são bem sucedidas em transmitir a sensação de 'edição de luxo', com as suas capas encadernadas e de cuidado desenho, mas (apesar dos títulos quase idênticos) os conteúdos de ambas são vastamente diferentes: o volume da RBA Editora segue, em larga medida, a mesma linha das edições da Abril, abrindo com três páginas dedicadas à génese do personagem e uma quarta com instruções sobre como desenhar Donald, e partindo daí para uma colectânea de histórias de todas as eras do personagem, enquanto o segundo livro foca-se, sobretudo, nas informações sobre a génese e percurso do aniversariante, descurando o aspecto de BD em si (embora contenha ainda duas histórias, nas últimas páginas.) Duas abordagens completamente diferentes, mas que resultam ambas bastante bem, podendo mesmo ser consideradas melhores do que qualquer das propostas da Abril/Controljornal, as quais não tinham quaisquer pretensões a ser algo mais do que revistas aos quadradinhos ligeiramente mais luxuosas do que a média.


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Independentemente do volume em que recaísse a escolha do jovem leitor, no entanto, uma coisa é certa: o sexagésimo e sexagésimo-quinto aniversários de Donald foram celebrados com tanta ou mais pompa e circunstância que o do 'melhor inimigo', e providenciou aos fãs do pato mais famoso do Mundo muito e bom material de leitura durante aqueles Verões de 1994 e 1999. Feliz aniversário, Donald, e que contes ainda muitos.

Tuesday, 23 July 2024

Terças de TV: 'Onda de Verão', Um Pioneiro Esquecido

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Os programas de entretenimento e variedades filmados ao vivo numa qualquer localidade remota de Portugal continuam, até aos dias de hoje, a ser talvez a maior constante do Verão televisivo nacional; no entanto, embora pareçam sempre ter existido, este tipo de transmissões eram consideravelmente menos populares (e certamente menos formatadas) à entrada para a última década do século XX. De facto, seriam precisos alguns anos para este tipo de formato encontrar tanto uma fórmula estável como uma audiência regular, levando a que algumas das primeiras tentativas de o implementar pareçam, de uma óptica contemporânea, algo peculiares. É o caso, por exemplo, da proposta da RTP para a época estival de 1994, a qual sobrevive hoje em dia, sobretudo, através do segmento satírico que lhe foi devotado pelo outrora popular grupo de comédia e improviso, Gato Fedorento.



De facto, sem essa 'alavanca', é muito provável que 'Onda de Verão' entrasse para a crescente galeria de programas noventistas Esquecidos Pela Net, já que a única outra referência à emissão é uma entrada no blog Eu Também Vejo TV, um recurso equivalente a um arquivo bibliográfico, ou seja, sem grandes informações sobre cada emissão, àparte o canal, horário, e mês de estreia – no caso, Julho de 1994, o que faz com que se celebrem por esta altura exactos trinta anos sobre a transmissão do programa.


Esta 'anonimidade' por oposição a outros programas do mesmo tipo não deixa de ser surpreendente, já que o 'Onda de Verão' oferecia precisamente o mesmo do que aqueles, consistindo de rubricas de humor, jogos e passatempos, interesse humano e interacção com a audiência, além dos inevitáveis momentos musicais firmemente vincados no género 'pimba', tudo dinamizado por uma dupla de apresentadores afáveis, carismáticos e com a dose certa de 'brejeirice' - uma fórmula que tanto a própria RTP como a SIC e a TVI explorariam com excelentes resultados durante as três épocas seguintes, mas que neste caso parece não se ter afirmado como especialmente memorável para as demografias-alvo. Ainda assim, numa altura em que os canais 'abertos' voltam a apostar em força em conteúdos deste género, é legítimo e de valor recordar um dos pioneiros do mesmo – especialmente porque mais nenhuma fonte parece especialmente interessada em o fazer...

Monday, 22 July 2024

Segundas de Sucessos: 'Supermix', o Som do Verão Noventista

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


De entre todos os estilos de música moderna, talvez o mais imediatamente associado à época estival seja a música de dança, ou pelo menos, dançável – seja na sua vertente Europop, 'pimba', ou de electrónica mais 'pura e dura'. Assim, não é de estranhar que, a cada Verão, continuem a sair colectâneas (ou, nos dias que correm, 'playlists') compostas especificamente por músicas feitas para tocar num qualquer estabelecimento nocturno à beira da praia. E se, hoje em dia, a escolha dentro desta vertente é praticamente ilimitada, em finais do século XX, as colectâneas de electrónica e música de dança eram, grosso modo, sinónimas com dois nomes: por um lado, as compilações 'Electricidade', da Rádio Cidade e, por outro, a série anual 'Supermix'.


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'Supermix 5', de 1990, o primeiro volume da série misturado por um DJ português


Criada no país vizinho em meados dos anos 80, como forma de replicar 'dentro de portas' o sucesso de que o fenómeno das 'megamixes' vinha gozando a nível global, a referida série de colectâneas lograria manter-se relevante (e bem-sucedida) durante quase duas décadas, sempre fiel ao mesmo formato (excepção feita ao penúltimo lançamento, lançado já no Novo Milénio, em 2004, e que privilegiava os temas individuais em detrimento do formato homónimo da série.) No total, foram dezoito lançamentos (embora o último seja já 'póstumo') misturados por alguns dos nomes mais sonantes da electrónica espanhola e, mais tarde, também portuguesa.


De facto, embora os volumes lançados ainda nos anos oitenta tivessem ficado a cargo de DJ's espanhóis, o criador e ideólogo da série, Miquel Casas, não tardaria a tirar proveito da sua boa relação com executivos da Vidisco para dar também destaque a nomes portugueses, os quais 'entrariam em cena' a partir do quinto volume da série, e primeiro lançado na década de 90. De entre os vários nomes envolvidos, destacava-se o do DJ Jorginho, responsável pela mixagem de sete volumes consecutivos entre 1990 e 1997, ano em que 'passaria o testemunho' ao outro grande nome ligado ao Supermix, DJ Jash Hook ('nome de guerra' de Nélson Horta) que misturaria os últimos dois volumes lançados no século XX, e os dois primeiros da década, século e Milénio seguintes. O volume seguinte, Supermix 17, seria a 'excepção da regra' acima mencionada, enquanto o décimo-oitavo, lançado após um hiato de oito anos, traria misturas a cargo de Ricardo Jorge Pires, conhecido no meio como Massivedrum.


Por essa altura (2012) o meio musical, tanto em Portugal como um pouco por todo o Mundo, rumava já numa direcção mais centrada em músicas individuais e 'singles', que viria a tornar obsoleto o formato de colectânea em álbum, substituído gradual mas indelevelmente pelas 'playlists' gratuitas disponibilizadas em 'sites' como o YouTube. E embora o processo de transição para esta nova conjuntura fosse tudo menos imediato, o mesmo não deixou, ainda assim, de fazer vítimas, entre elas conceitos como o 'Super Mix', agora possíveis de forma independente, personalizada e gratuita. Ainda assim, é inegável que esta colectânea marcou época no seio do movimento da música de dança em Portugal, tanto entre os entusiastas do género como junto dos profissionais, justificando assim plenamente a sua presença nas páginas do nosso 'blog', numa altura em que começa, precisamente, a estação do ano em que desfrutaria de maior rotação em festas, bares, discotecas e praias de Norte a Sul do nosso País.

Sunday, 21 July 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Eugénio, Um Pequeno Grande Homem

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Qualquer fã de futebol que tenha crescido em Portugal nas duas últimas décadas do século XX recordará com especial carinho as icónicas cadernetas de cromos alusivas aos campeonatos nacionais da época, cada uma repleta de clubes históricos e caras que, através da sua presença ano após ano, acabavam por se tornar familiares e conhecidas. O jogador de que falamos este Domingo, no dia do seu quinquagésimo-oitavo aniversário, foi uma dessas caras, tendo ficado ligado, na mente dos jovens adeptos nacionais, a um dos mais históricos de todos os clubes nacionais, o carismático Sporting Club Farense.


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O jogador com a camisola com que se tornou sinónimo.


De facto, apesar de nascido na Margem Sul do Tejo e formado no Sporting, onde dava os primeiros toques logo no início da adolescência, Rui Pedro Rodrigues Eugénio (vulgarmente conhecido apenas pelo seu apelido) veria a sua carreira sénior ficar ligada a regiões consideravelmente mais a Sul, nomeadamente a terras algarvias – região onde, aliás, daria os primeiros passos como sénior, aos dezoito anos recém-completos, ao serviço do Olhanense. Seguir-se-ia uma experiência mais a Norte (no Recreio de Águeda) e outra na zona de Lisboa – onde representaria, durante duas épocas, o Estoril-Praia – mas o dealbar da época 1988-89 via o defesa lateral ingressar na agremiação com que haveria de se tornar sinónimo para muitos adeptos portugueses ao longo da década seguinte. Essa primeira passagem pelo Farense durou quatro épocas, em que Eugénio se afirmou como peça-chave quase indiscutível da equipa algarvia, realizando mais de cento e trinta jogos entre a então Segunda Divisão de Honra e o escalão principal – que, aliás, ajudaria a equipa a atingir logo na sua segunda época, a qual ficou também coroada pela presença no Jamor (embora como finalista derrotado) e, a nível pessoal, pelo nascimento do filho, Pedro.


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Cromo da Panini dos tempos da passagem pelo Braga....


Foi com o Farense ainda 'em alta', e com estatuto de titular quase indiscutível, que Eugénio abraçou a sua próxima aventura, desta feita no outro extremo do País, e trocando a camisola alvinegra do Farense pela alvirrubra do Sporting de Braga de Mladen Karoglan. A passagem para um clube de maior dimensão não assustou, no entanto, Eugénio, que rapidamente se afirmou como opção também nos arsenalistas, pelos quais viria a realizar setenta e cinco jogos ao longo das três épocas seguintes.


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...e da segunda passagem pelo Farense.


Em 1995, no entanto, surgiria a oportunidade de 'regressar a casa', que Eugénio não hesitaria em aproveitar; seria, pois, de braços abertos que a 'capital' do Algarve voltaria a acolher um jogador que lhes dera muitas alegrias num passado nada distante. E a verdade é que Eugénio retomaria funções no mesmo patamar em que as havia deixado, ou seja, como titular habitual – pelo menos durante a primeira época, já que na seguinte (de 1996/97) viria a perder o lugar, realizando apenas sete partidas em toda a campanha. A situação viria, no entanto, a ser corrigida na época seguinte, tendo Eugénio voltado a figurar como parte importante da equipa durante os dois anos seguintes, antes de se tornar novamente opção de recurso na sua última época nos 'leões' algarvios, já no dealbar do Novo Milénio.


Por esta altura, o 'peso' da idade já se começava a fazer sentir, e Eugénio iniciaria, gradualmente, uma transição para o futebol semi-profissional, 'despedindo-se' dos principais escalões nacionais com uma época como 'jogador de plantel' do Olhanense (num bonito 'fecho de círculo' da sua carreira profissional) antes de ingressar por duas épocas no modesto Sambrasense (embora algumas fontes dêem também conta de uma passagem pelo Valdevez). Seria nesse clube, e na condição de amador, que, no final da época 2002/2003, Eugénio viria a fechar definitivamente o seu ciclo enquanto jogador de campo, deixando o legado do seu nome nas mãos do filho, Pedro, à época ainda em idade de Iniciado, e parte das escolas do Farense - ele que viria a passar pelas Academias de Sporting e Benfica e, tal como o pai, a representar o clube alvinegro em duas ocasiões distintas, antes de rumar ao estrangeiro para jogar na Bulgária, Turquia e, actualmente, Cazaquistão. Já o Eugénio 'sénior' transitaria, com naturalidade, para cargos técnicos do clube a que ficara indelevelmente ligado, tendo exercido funções de adjunto durante duas épocas, e chegado mesmo a ser treinador interino dos algarvios na época 2006/2007.


Hoje afastado do Mundo do futebol, Eugénio continua, no entanto, a ser lembrado com carinho pelos adeptos farenses, que aprenderam a respeitar e apreciar o profissionalismo do lateral, um homem de valores e personalidade bem maiores do que a sua estatura de módicos 1,66 metros, e que bem merece esta singela homenagem no dia do seu aniversário. Parabéns, e que conte muitos.

Saídas ao Sábado: A Exposição 'Aldeia dos Flintstones' do Zoo de Lisboa (1995)

NOTA: Este 'post' é correspondente a Sábado, 20 de Julho de 2024.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Ao longo das últimas semanas, temos aqui vindo a falar da estranha vaga de popularidade de que os personagens criados por William Hanna e Joseph Barbera gozaram durante as décadas de 90 e 2000, com inúmeros jogos de vídeo e uma mão-cheia de longas-metragens (animadas e de acção real) a eles alusivos a surgirem no mercado mundial durante este período. Em Portugal, grande parte desta popularidade devia-se ao programa 'Oh! Hanna-Barbera', da RTP, que 'reapresentara' as famílias Flintstone e Jetson, os jovens detectives de 'Scooby-Doo', o gato Manda-Chuva e o urso Zé Colmeia a toda uma nova geração de crianças, através do sempre popular formato de um programa de auditório centrado em torno das séries de desenhos animados dos mesmos. E dado o interesse pela vida pré-histórica que também voltava a ressurgir entre as crianças e jovens da altura (mesmo antes do lançamento do revolucionário 'Parque Jurássico') não foi de admirar que os Flintstones – habitantes da Idade da Pedra que teriam, em 1994, direito ao seu próprio filme de acção real – se contassem entre os personagens mais populares do grupo acima descrito, a par dos aparentemente perenes Freddy, Daphne, Velma, Shaggy e respectivo animal de estimação, Scooby-Doo.


Serve este enquadramento para explicar a existência da exposição 'Aldeia dos Flintstones', organizada pelo Jardim Zoológico de Lisboa e que, apesar de ter 'falhado' a estreia do filme da família homónima por quase um ano e meio (sendo inaugurada no Natal de 1995, quando a longa-metragem saíra no Verão do ano anterior) ainda conseguiu atrair a grande maioria dos jovens residentes na Grande Lisboa, com a sua recriação fiel da cidade de Bedrock, a que Fred e Wilma Flintstone e Barney e Betty Rubble chamavam lar.


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(Crédito da foto: Enciclopédia de Cromos, site detentor das únicas fotos alusivas a uma exposição algo Esquecida pela Net)


Com recurso a manequins e cenários-modelos (além de alguns 'bonecos' dos próprios protagonistas) os responsáveis da exposição conseguiam transformar a tenda-pavilhão temporária do Zoo (que já fora palco de memoráveis exposições sobre dinossauros e mamíferos pré-históricos em anos anteriores) numa vila pseudo-pré-histórica, cheia de réplicas 'monolíticas' de objectos reais, precisamente como acontecia no desenho animado original, criando um ambiente de fantasia que não podia deixar de ser um sucesso junto da demografia-alvo. A escolha das férias do Natal como época para inauguração da exposição também não foi, de todo, deixada ao acaso, já que a realização do evento neste período do ano assegurava um elevado fluxo de jovens visitantes, temporariamente livres das obrigações da escola e prontos a fazerem uma visita a Bedrock entre uma volta de teleférico e o espectáculo da tarde na Baía dos Golfinhos.


Curiosamente, a Aldeia dos Flintstones foi uma das últimas exposições do seu tipo realizadas pelo Jardim Zoológico, o qual rapidamente voltaria a concentrar-se na sua proposta principal – a de apresentar espécies animais mais ou menos exóticas. Ainda assim, quando analisada em conjunto com as suas congéneres da mesma época, a recriação da cidade de Bedrock ajuda a revelar o potencial que este tipo de evento demonstrava em finais do século XX, e a reforçar a ideia de que os Flintstones, tal como os demais personagens de Hanna-Barbera, tinham ainda consideráveis 'pernas para andar' junto da geração jovem portuguesa da época.

Saturday, 20 July 2024

Sessão de Sexta: 'Tom e Jerry: O Filme' (1994) ou, Como Falhar o Infalível

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-Feira, 19 de Julho de 2024.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Já aqui por várias vezes referimos a existência de videojogos licenciados como a grande marca de sucesso de qualquer franquia infanto-juvenil de finais do século XX; no entanto, existe outro indicador, apenas ligeiramente abaixo desse, que denota que uma propriedade intelectual tem tracção junto do público-alvo – o lançamento de um filme de longa-metragem com os seus personagens. As criações de Hanna-Barbera, que viviam, nos anos 90, um surpreendente 'segundo fôlego', não foram diferentes nesse aspecto, tendo a referida década e o início da seguinte visto serem lançados uma série de filmes alusivos aos mais diversos grupos de personagens criados pela dupla em meados do século XX.


De facto, dos principais núcleos saídos da imaginação de William e Joe, apenas um não teve, até à data, direito a adaptação para longa-metragem – a futurista família Jetson. Dos restantes, dois protagonizariam filmes ainda nos anos 90, e outros dois na década seguinte, entre 2000 e 2010. E se estes últimos ficam, já, fora do âmbito deste nosso blog, os dois primeiros merecem ser recordados, por terem sido (de uma forma ou de outra) marcos do cinema infanto-juvenil de finais do século XX. De um deles, falaremos na próxima Sessão de Sexta, que sairá dias antes de se comemorar o trigésimo aniversário do seu lançamento em Portugal; este post será, pois, dedicado a relembrar o outro, que atingiu há cerca de três semanas esse mesmo marco. E por, nessa altura, termos escolhido falar de 'Libertem Willy', outro clássico do cinema infantil da época, nada melhor do que celebrarmos agora, ainda que tardiamente, essa efeméride – ainda que, à altura do seu lançamento, o referido filme se tenha revelado largamente desapontante.


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Até mesmo o cartaz prometia algo que os fãs queriam ver, mas que ficava muito longe do que o filme apresentava.


Isto porque 'Tom e Jerry: O Filme' (que chegava às salas portuguesas a 1 de Julho de 1994, com quase dois anos de atraso sobre os seus EUA natais, num dos piores casos de 'décalage' cultural da época) cometia o erro simples, honesto, mas irreparável de tentar ser aquilo que não era, e que ninguém queria que fosse – nomeadamente, um típico filme infantil, com a clássica estrutura criada e implementada pela Walt Disney. De facto, ao pensar num filme protagonizado pelo gato e rato mais famosos da televisão (e ainda com a popularidade em alta, graças à repetição dos episódios clássicos nos diversos canais abertos e de TV Cabo portugueses, e de séries como 'Tom and Jerry Kids') a maioria dos fãs imaginaria uma hora e meia de caos, numa espécie de versão alargada das velhas curtas dos anos 40 e 50, por oposição a um filme em que Tom e Jerry falam (!), travam amizade (!!) e defendem uma jovem orfã de parentes malvados (!!!).


Sim, 'Tom e Jerry: O Filme' pouco mais é do que uma versão mal disfarçada do primeiro filme de Bernardo e Bianca (à época já com duas décadas de vida) que revela um total e perfeitamente estarrecedor desconhecimento da dupla de personagens sobre a qual supostamente se centra, e que, precisamente por esse facto, não logrou convencer o jovem público, que antecipava humor violento e pastelão – uma premissa que talvez não 'segurasse' um filme de noventa minutos, mas que poderia ser utilizada para, pelo menos, ancorar uma história característica da dupla e coerente com as suas aventuras passadas, talvez com Tom a ter de proteger a casa onde ambos vivem, ou de percorrer a cidade para evitar uma situação lesante para a sua pessoa. Estes são apenas dois dos muitos argumentos que se poderiam criar em torno de Tom e Jerry sem os descaracterizar completamente, e sem ter de recorrer a mais palavras do que as poucas ocasionalmente proferidas por Tom – dois factores que, inevitavelmente, teriam resultado num muito melhor filme do que o apresentado pela Hanna-Barbera. Pior – a primeira cena do filme apresenta precisamente aquilo que os fãs esperavam, elevando-lhes as expectativas com uma clássica (e hilariante) perseguição para depois os defraudar apresentando algo totalmente incaracterístico.


Em suma, apesar da boa animação e do orçamento razoável para a época, 'Tom e Jerry: O Filme' dá um gigantesco 'tiro no pé', conseguindo algo que parecia quase impossível: desperdiçar a premissa fácil e lucrativa de um filme centrado na dupla titular. Por esse motivo, e ao contrário da maioria dos filmes que passam nestas nossas Sessões, o mesmo apenas deve ser mostrado às novas gerações como exemplo do que NÃO fazer ao criar um filme licenciado, dado por pais que ainda lembram vivamente a desilusão que sentiram ao sair do cinema naquele Verão de 1994. Para esse efeito, fica abaixo o 'link' para o filme completo, em versão original; vejam por vossa própria conta e risco...


Friday, 19 July 2024

Quintas ao Quilo: O Cornetto Clássico

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 18 de Julho de 2024.


Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Já aqui em diversas ocasiões tivemos ensejo de falar dos váios gelados que a Olá faz, periodicamente, regressar ao seu icónico cartaz - uma tendência que, nos últimos anos, se vem tornando quase numa tradição anual. Tanto assim é, de facto, que para este Verão de 2024, a magnata multi-nacional das guloseimas congeladas fez 'voltar à vida' não apenas um, mas dois dos seus mais reconhecíveis e saudosos produtos de épocas passadas: o Fizz Limão, ao qual já dedicámos aqui algumas linhas, e o Cornetto Clássico, gelado que havia desaparecido da lista de escolhas da marca sem que se percebesse muito bem porquê.


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De facto, tal como o Super Maxi ou o próprio Fizz, o clássico Cornetto de nata faz parte de uma lista restrita de gelados que nenhum português imaginaria alguma vez desaparecerem do cartaz, mas que acabaram mesmo por dar lugar, de forma permanente, a alternativas mais interessantes. Quem, quando jovem, teve o referido gelado como uma das 'escolhas seguras' do cartaz da Olá – daquelas previsíveis, mas sempre satisfatórias – não esqueceu o velho 'cone', gerando uma procura que terá, agora, convencido finalmente a Olá a (re)adicioná-lo à gama cada vez mais vasta de Cornettos em oferta. Que seja, pois, bem-vindo de volta, e que as vendas justifiquem a permanência no cartaz num futuro próximo.


 

Quartas de Quase Tudo: Os Livros de Preparação Escolar de Férias

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 17 de Julho de 2024.


NOTA: Por motivos de relevância temporal da próxima Quarta aos Quadradinhos, a mesma será lançada na Quarta-feira, 24 de Julho. O 'post' desta semana será uma Quarta de Quase Tudo.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Embora as férias de Verão sejam, tradicionalmente, um período em que os jovens procuram relaxar e afastar-se das obrigações académicas e escolares, aproveitando o clima ameno, existe sempre quem (por iniciativa própria ou dos pais) procure adiantar-se um pouco nas matérias do ano lectivo vindouro; e se, hoje em dia, esse objectivo é conseguido sobretudo através de portais educativos existentes na Internet, na era pré-digital, em que a referida plataforma era ainda incipiente, esse 'estudo avançado' era feito, maioritariamente, através de colecções de livros didácticos complementares aos utilizados na escola, e especificamente dedicados a serem utilizados durante as férias - os quais continuam, aliás, a existir até aos dias de hoje, como alternativa para quem prefira minimizar ao máximo a exposição digital dos educandos.


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Exemplo de livro de preparação de finais dos anos 90 ou inícios de 2000.


Tão-pouco ficava este tipo de livros restrito a apenas uma editora – antes pelo contrário, quase todas as casas conhecidas pelo enfoque didáctico possuíam uma edição deste tipo, renovada anualmente, de modo a manter os exercícios actualizados com os currículos dos respectivos anos. Apesar da premissa semelhante, no entanto, nem todos estes volumes eram equiparantes, sendo alguns propositalmente mais desafiantes enquanto outros, ao procurarem amenizar a 'carga mental' dos jovens discentes no período estival, acabavam por simplificar em demasia o nível dos exercícios, criando uma imagem ilusória do que seria o ano lectivo seguinte. Havia, pois, que saber escolher a colecção ou série certa, de modo a assegurar o nível adequado e desejado de preparação aquando do regresso às aulas, em Setembro. E apesar de nem toda a gente ter nostalgia por este tipo de actividade ou livro (muito pelo contrário) vale, ainda assim, a pena recordar como era feita a 'preparação de Verão' de um estudante português na época em que a Internet 2.0 era ainda um sonho na cabeça de algum informático norte-americano. 


 

Thursday, 18 July 2024

Terças Tecnológicas: (Alguns d)Os Jogos da Hanna-Barbera dos Anos 90

NOTA: Este 'post' é correspondente a Terça-feira, 16 de Julho de 2024.


A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Já aqui anteriormente abordámos a invulgar longevidade e popularidade dos personagens da companhia de animação Hanna-Barbera junto do público infanto-juvenil contemporâneo; de facto, os 'bonecos' criados por William Hanna e Joe Barbera nos anos 60 mostraram-se capazes de se manter relevantes ao longo de (até à data) seis décadas completas, tendo mesmo gozado de um 'segundo fôlego' de popularidade durante aquela que talvez tenha sido a década mais cínica e irreverente da História moderna – e, por conseguinte, a antítese do que a maioria dos personagens da dupla representam. Uma das provas físicas mais 'visíveis' desse mesmo estatuto junto dos jovens 'X' e 'millennial' é o absurdo volume de videojogos alusivos e dedicados a cada uma das principais franquias da companhia – um sinal inequívoco de que algo almejou tracção junto do público jovem.


Efectivamente, a quantidade de os títulos lançados durante os dez últimos anos do século XX torna impossível seguir o habitual formato desta rubrica, que passa normalmente por um breve resumo de cada jogo acompanhado de imagens ou vídeos do mesmo. Assim, esta Terça Tecnológica operará de forma ligeiramente diferente, oferecendo uma perspectiva mais alargada sobre o que os jovens fãs de Hanna-Barbera tinham ao seu dispôr durante uma das grandes 'épocas áureas' do entretenimento electrónico.


Tendo em conta o período em questão, não é de surpreender que a esmagadora maioria destes títulos se insira no formato de acção em plataformas em plano bi-dimensional e de perspectiva lateral, o género quase sinónimo com jogos licenciados durante a era dos 8 e 16 bits. Scooby-Doo, os Flintstones, os Jetsons, Zé Colmeia e Tom e Jerry contam, cada um, com uma mão-cheia de jogos deste estilo lançados para todas as consolas e computadores pessoais da época, o que demonstra bem a natureza hercúlea de os tentar detalhar a todos; assim, optámos, neste 'post' por focar apenas os títulos que oferecem algo distinto em relação a esta fórmula – já que, apesar de poucos, os mesmos não deixam ainda assim de existir.


É o caso, por exemplo, dos primeiros jogos dos Jetsons, lançados no início da década de 90 para os computadores pessoais da época – IBM, Amiga, Amstrad CPC e Commodore 64. Por oposição aos típicos saltos e tiros, 'The Jetsons: The Videogame' sugere um formato mais próximo das colecções de mini-jogos que viriam a singrar no mercado Windows anos depois, com o jogador a ser desafiado a cumprir uma série de tarefas para cada um dos membros da família. Já 'George Jetson and the Legend of Robotopia' e 'By George! In  Trouble Again' são aventuras à base de texto, com o jogador a clicar nas opções que prefere à medida que a história se desenrola, ao estilo dos clássicos livros de 'Aventuras Fantásticas' ou 'Dungeons and Dragons'. Dois conceitos que podem parecer algo enfadonho nesta era do hiper-realismo, mas que 'enchiam as medidas' dos jogadores mais estratégicos e intelectuais de inícios dos 'noventa'.




Outro exemplo de algo fora dos padrões de um jogo licenciado é 'Scooby-Doo! Mystery of the Fun Park Phantom', lançado para PC nos últimos meses do Segundo Milénio, e que se insere num estilo então 'em alta' entre o público-alvo – a aventura gráfica 'point and click'. Na pele dos diferentes membros do grupo principal (excepto, curiosamente, o próprio Scooby-Doo, aqui remetido a um papel de coadjuvante) os jogadores perambulam pelo parque de diversões titular, para tentar resolver o mistério em causa através da recolha de pistas e pedaços de armadilhas destinadas a aprisionar o Fantasma do Parque de Diversões. Resta saber se é possível separar o quinteto, enviando Velma, Freddy e Daphne para um lado, enquanto Shaggy e Scooby vão para o outro, dando inevitavelmente 'de caras' com o titular espectro. No ano seguinte, o mesmo grupo viria ainda a protagonizar uma aventura 3D para Nintendo 64, 'Scooby-Doo: Classic Creep Capers' embora a mesma se tenha 'perdido' em meio a muitos outros jogos semelhantes e mais bem conseguidos, ou com licenças mais apelativas.




Talvez o exemplo mais radical da utilização de uma licença Hanna-Barbera para algo distinto lançado durante a época em causa (se não contarmos com os jogos baseados no filme dos Flintstones, que de diferente têm apenas a aparência dos protagonistas principais) é 'Flintstones Bedrock Bowling', lançado no Verão de 2000 para PC e PlayStation e que, ao contrário do que o nome indica, é um jogo...de corridas - ou, mais concretamente, daquele tipo de nível bem típico dos jogos licenciados da era 32-bits, que vê o personagem correr ou deslizar por um trajecto pré-definido, procurando evitar obstáculos e recolher itens. E embora um jogo inteiro nesses parâmetros se possa tornar cansativo muito rapidamente, a verdade é que a proposta não deixa, ainda assim, de ser original q.b., e diferente de quase tudo o que na altura se lançava para computador ou consola.



Para finalizar, e já nos últimos meses do primeiro ano do Novo Milénio, foram lançados, para Nintendo 64 e PlayStation, dois jogos de premissa idêntica e com a mesma licença, Tom e Jerry. Tanto 'House Trap' (da PlayStation) como 'Fists of Furry' (na Nintendo) são jogos de luta tri-dimensionais, em que os eternos inimigos se tentam magoar mutuamente com objectos localizados ao redor de sua casa, proporcionando talvez a experiência mais próxima a uma das suas clássicas 'curtas' que seria possível recriar em formato digital.



É, pois, fácil de ver que, embora a maioria dos criadores recorresse à fórmula fácil e testada, havia ainda quem tentasse inovar dentro do campo dos jogos licenciados, e aliar os personagens de Hanna-Barbera a outros formatos que não apenas o de plataformas – empreitada que, aliás, se verifica ainda nos dias de hoje, não tendo os personagens em causa 'abrandado o ritmo' desde o nascimento dos videojogos. Apenas mais uma prova (como se ainda fosse necessário) da absurda longevidade e poder de renovação destes personagens, não só no formato televisivo ou cinematográfico, mas também no campo do entretenimento interactivo.

Monday, 15 July 2024

Segundas de Séries: As Séries de Hanna-Barbera em Portugal - Uma 'Amizade' de Longa Data

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


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Num mercado infanto-juvenil em que a duração média do interesse de uma franquia se salda num par de anos, conseguir manter a relevância e reconhecimento ao longo de mais de meio século não pode deixar de ser visto como uma proeza; à laia de contexto, franquias tão consensuais como Pokémon, Harry Potter ou Os Simpsons existem há pouco mais de metade desse tempo, e até mesmo O Senhor dos Anéis precisou de um 'tratamento revitalizante' por parte de Hollywood e de um realizador ambicioso e com paixão pelo projecto. E, no entanto, duas séries animadas de orçamento relativamente baixo criadas em inícios dos anos 60 (!!) conseguiram a façanha de cativar, até à data, nada menos do que quatro gerações de crianças, para quem os seus protagonistas continuam a ser instantaneamente reconhecíveis; juntem-se a esta lista outras duas que lograram manter-se relevantes por cerca de metade desse tempo, e torna-se notório que a frequentemente criticada Hanna-Barbera soube criar e explorar uma receita de enorme sucesso.


Portugal não foi, de todo, excepção ao paradigma acima delineado, tendo as famílias Flintstone e Jetson, o gato 'boa-vida' Top Cat (ou Manda-Chuva) e o icónico grupo de jovens detectives com o seu cão Grand Danois falante (além de personagens como Zé Colméia e Catatau ou Pepe Legal e o seu ajudante Babalu) conhecido sucesso imediato aquando da sua primeira chegada a Portugal, quando ainda eram relativamente contemporâneos. Nessa ocasião, os populares personagens surgiam ainda com as vozes dos talentosos artistas de dobragem da lendária companhia brasileira Herbert Richards; o regresso aos televisores nacionais, no entanto (um quarto de século depois, e novamente na RTP, nomeadamente no programa 'Oh! Hanna-Barbera') era feito com as vozes originais e com recurso a legendas, numa altura em que apenas um número relativamente reduzido de séries tinha 'honras' de dobragem nacional. Nada que impedisse o sucesso dos dois Freds (Flintstone e Jones) e respectivos familiares e amigos, da família futurista encabeçada por George Jetson ou dos gatos do beco, que prontamente conquistaram a nova audiência, tal como havia acontecido com a anterior e haveria ainda (pelo menos no caso de Scooby-Doo) de acontecer com a seguinte.


De realçar que, além de serem 'atracções principais' do referido programa, os personagens de Hanna-Barbera surgiam ainda nas televisões portuguesas por meio de uma série de episódios especiais transmitidos em ocasiões 'de festa' (com destaque para 'O Natal de Zé Colmeia' e para o filme que via George Jetson e Fred Flintstone encontrarem-se pela primeira vez cara a cara) e ainda como forma de 'encher' cinco ou dez minutos de 'tempo morto', sendo Zé Colmeia, Pepe Legal e Dom Pixote (além do icónico duo de Tom e Jerry) os personagens mais frequentemente utilizados para este tipo de função. Mais tarde, já depois da saída do ar de 'Oh! Hanna-Barbera', foram ainda transmitidas na RTP duas das quatro tentativas de literal infantilização dos personagens levadas a cabo pela companhia, talvez como forma de competir com 'Tiny Toons' e 'Muppet Babies'; no entanto, nem 'Os Filhos dos Flintstones' nem os de Tom e Jerry ('Yo Yogi!' e 'A Pup Named Scooby-Doo', as duas outras séries do estilo, ficavam de fora das escolhas da RTP) conseguiram o mesmo sucesso dos seus 'progenitores', sendo a 'malha' de abertura da segunda série mencionada o elemento mais memorável de qualquer das duas.



As versões clássicas e adultas, essas, continuariam 'de vento em popa', muito por conta das transmissões no Cartoon Network inglês (canal inserido no pacote TV Cabo) e das adaptações cinematográficas em acção real de que as duas franquias mais populares da companhia gozariam em anos subsequentes (uma das quais em breve aqui terá o seu espaço); e se, hoje, haverá menos quem identifique Manda-Chuva ou George Jetson, os Flintstones e Scooby-Doo continuam a afirmar-se como ícones verdadeiramente intemporais da animação tradicional, e a cativar mesmo os corações empedernidos da cínica Geração Z – prova, como se tal ainda fosse necessário, do sucesso da fórmula e personagens criados por William e Joe em meados do século passado.

Sunday, 14 July 2024

Domingos Divertidos: O Jogo de Penalties do Subutteo

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


O desempate a 'penalties' é um dos elementos-chave de qualquer competição futebolística com formato eliminatório, seja ela um Mundial, um Campeonato da Europa como o que vive os seus últimos instantes à data da edição deste post, ou simplesmente uma taça interna de um qualquer país do Mundo. Com a sua mistura de nervos, emoção e aquela sensação de que tudo pode acontecer, e podem surgir novos heróis, não é de admirar que este seja um momento que muitas companhias produtoras de jogos e brinquedos tenham vindo desde há muito a tentar recriar, com maior ou menor grau de sucesso; ainda menos surpreendente é o facto de uma dessas tentativas fazer parte da gama do Subbuteo, a popular simulação miniaturizada do desporto-rei que fez as delícias dos jovens adeptos dos anos 80 e 90.


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Contendo apenas um jogador, um guarda-redes, uma bola e uma baliza, o jogo de penalties do Subbuteo constituía uma excelente alternativa para quem não tinha posses para comprar um jogo 'inteiro' – ou mesmo só duas equipas completas – para quem tinha menos paciência e queria 'saltar logo para o fim', ou apenas para quem era fãs de desempates da marca de grandes penalidades; e até mesmo quem tinha um jogo de Subbuteo completo era, muitas vezes, incapaz de resistir à apelativa simplicidade de um 'jogo de penalties', fazendo deste 'kit' um popular e versátil acrescento à gama principal da linha.


Escusado será dizer que, numa era da História em que o futebol simulado é, cada vez mais, vivido em ambientes interactivos hiper-realistas, um brinquedo simples como este se afigura tão pitorescamente obsoleto como o próprio jogo-base a que serve de complemento. Para quem se recorda de estar ajoelhado ou deitado no chão do quarto, a tentar simultaneamente marcar e defender um golo numa qualquer final imaginada de um campeonato europeu, este singelo conjunto de acessórios – e o 'post' a que deu azo neste nosso blog – terão, sem dúvida, desbloqueado boas memórias...

Sábados aos Saltos: As Bolas Oficiais dos Campeonatos Europeus dos Anos 90

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 13 de Julho de 2024.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


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A bola de 1992.


Enquanto centro nevrálgico do jogo de futebol – sendo mesmo a razão do prefixo do mesmo – a bola acaba por ser um elemento tão icónico quanto os próprios equipamentos ou chuteiras dos jogadores, apesar de, muitas vezes, menos notável ou notório. Ainda assim, têm havido, ao longo dos últimos cinquenta anos, várias bolas oficiais da FIFA e UEFA cujo 'design' e escolha de cores e padrões as torna particularmente memoráveis, e suscita a compra de um sem-número de réplicas por parte dos jovens fãs do desporto-rei. Os anos 90 não foram, de forma alguma, excepção a esta regra; de facto, ainda que as bolas oficiais dos Campeonatos Europeus daquela década ficassem longe das cores vivas e 'designs' memoráveis do Novo Milénio, as mesmas revelavam, ainda assim, suficiente 'personalidade' para justificarem serem as escolhidas do público-alvo em causa.


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O modelo de 1996.


Da responsabilidade da Adidas, fabricante único das competições internacionais desde o seu início, as três bolas oficiais dos Europeus de finais do século XX (a Etrusco Único de 1992, Questra Europa de 1996 e Terrestra Silversteam de 2000) apresentavam a mesma base no tradicional branco, mas marcavam a diferença através de padrões bem distintos, embora nem sempre particularmente originais. A Etrusco, por exemplo (modelo que 'transitava' do Mundial de Itália '90) era uma simples bola preta e branca, com o habitual e frequentemente imitado padrão da Adidas: painéis lisos no meio, com um 'friso' a toda a volta. Já a Questra Europa, usada apenas no Euro '96, marcava a diferença através das cores usadas no friso (azul e vermelho) que evocavam a anfitriã Inglaterra sem, ao mesmo tempo, serem declaradamente alusivas à icónica Union Jack. Por sua vez, a Terrestra Silverstream, utilizada apenas no Europeu de 2000, apostava num conceito menos declaradamente localizado e de cariz mais inovador, substituindo a clássica cor branca dos painéis por um elegante prateado, que tornava de imediato a bola mais apelativa para os jovens da viragem do Milénio, época em que o futurismo estava em alta em todos os sectores da sociedade.


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O esférico de 2000.


Três bolas tão semelhantes quanto distintas, portanto, cada uma das quais desenhada para apelar às sensibilidades dos adeptos da época e, idealmente, garantir que os mesmos levavam para casa uma réplica de um dos três esféricos, por oposição às igualmente apelativas, e mais baratas, bolas não oficiais com os painéis decorados com bandeiras dos diferentes países do Mundo – um paradigma que, aliás, se mantém até aos dias de hoje, tendo sem dúvida ajudado a informar o 'design' da bola do Campeonato Europeu prestes a concluir-se algumas horas após a publicação deste 'post'...

Saturday, 13 July 2024

Sextas com Style: As T-Shirts Humorísticas

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 12 de Julho de 2024.


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


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A irreverência e necessidade de expressar a sua individualidade estão entre os factores mais importantes da fase jovem do desenvolvimento humano – e a roupa é, a par da música e da arte, um dos principais meios utilizados pelos adolescentes ocidentais para atingir esse objectivo. Não é, pois, de espantar que o mundo da moda tenha, nos últimos anos do Segundo Milénio e primeiros do seguinte, procurado ir ao encontro dessa necessidade do público juvenil, dando origem a um estilo de 't-shirt' ainda hoje muito popular entre a faixa etária em causa, baseado em 'slogans' e dichotes algures entre o humorístico e o ligeiramente 'mal-educado'.


Sucessoras espirituais das camisolas da No Fear ou Street Boy de inícios dos anos 90, estas camisolas utilizavam não só frases variavelmente irreverentes como também, muitas vezes, gráficos arrojados, inspirados na estética 'graffitti' ou em outras formas de arte 'radicais' apreciadas pelos jovens da época, e que eram utilizadas para veicular ou apenas complementar as mensagens. Já estas, por sua vez, iam de desafios à autoridade parental ou cívica até simples mostras de sentido de humor, muitas com piadas baseadas em referências que apenas uma certa 'tribo' ou sector da sociedade compreenderia, fomentando assim o sentido de pertença e individualidade do 'dono' da camisola.


Escusado será dizer que esta combinação de rebeldia com estética apelativa fez enorme e imediato sucesso entre os jovens da época, dando origem a clássicos ainda hoje vistos nas ruas de Portugal, embora já muito menos do que há vinte anos ou um quarto de século. De facto, hoje em dia, as lojas antes especializadas neste tipo de camisola têm, gradualmente, vindo a focar-se em mensagens cada vez mais neutras, e mesmo de cariz puramente turístico, promovendo as localidades onde se situam; uma pena, já que – como qualquer 'millennial' português atestará – a 'piada' destas t-shirts estava mesmo nas frases e conceitos 'bem esgalhados' e fora do comum que apresentavam, e que as ajudaram a tornar numa das primeiras grandes 'modas' juvenis do Portugal do século XXI.

Quintas no Quiosque: As Revistas do Euro 2000

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 11 de Julho de 2024.


Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Enquanto competições máximas do futebol ao nível internacional (ou seja, de Selecções) é natural que tanto os Mundiais como os Campeonatos Europeus motivem publicações especiais por parte dos periódicos desportivos um pouco por todo o Mundo. E escusado será dizer que, num país tão fanático pelo desporto-rei como Portugal, essa naturalidade assume contornos de inevitabilidade, tendo os adeptos nacionais, ao longo dos anos, 'aprendido' a contar com múltiplos suplementos e destacáveis, ou até mesmo revistas individuais, com foco nos diversos certames. O primeiro Europeu do Novo Milénio não foi, de todo, excepção a essa regra, antes pelo contrário, tendo visto surgir nas bancas lusitanas não apenas uma, mas duas revistas especiais a ele dedicadas, ambas com o então Bola de Ouro Luís Figo como figura de capa, ele que era o 'porta-estandarte' da Selecção Nacional na era pré-Cristiano Ronaldo.


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A primeira destas duas, da responsabilidade do jornal 'Record', revestia-se de especial interesse por apresentar uma abordagem algo diferente do habitual: além das habituais 'fichas' de jogadores e factos sobre a competição, a publicação em causa trazia, à laia de 'biografias' dos elementos da Selecção Nacional da época, uma série de textos assinados por autores tão consagrados quanto Manuel Alegre ou Carlos Tê, além de outras figuras ligadas ao mundo das artes e letras, como os cineastas João Botelho e Joaquim Leitão. Já os 'distintos adversários' das outras selecções participantes no certame eram 'apresentados' por especialistas dos respectivos países, com natural destaque para nomes ligados ao jornalismo desportivo. A completar esta ambiciosa edição estavam oito 'guias turísticos' das principais cidades onde a competição se desenrolaria, elaborados 'in loco' por correspondentes do jornal. Uma publicação inovadora e ambiciosa, portanto (sobretudo para os parâmetros algo conservadores do jornalismo desportivo) que terá, certamente, justificado em pleno os quinhentos escudos do preço de capa, até mesmo para quem não era fã do desporto-rei.


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Sobre a 'outra' publicação alusiva ao Europeu de 2000 – fornecida como suplemento do jornal 'Expresso' – existe bastante menos informação; no entanto, a capa sugere que os conteúdos da mesma se insiram numa linha bastante mais típica e 'clássica' do que a seguida pela congénere de 'Record', com dados sobre os jogadores, estádios e países participantes, além de um guia TV com as datas e horas da exibição televisiva dos jogos, quase todos transmitidos em directo pela RTP. Um suplemento de valor inegável, mas que fica muito longe da ambiciosa e demarcada proposta do jornal de António Tadeia. Ainda assim, sem dúvida uma peça de coleccionador, a qual, tal como a revista de 'Record', valerá sem dúvida a pena adicionar à colecção de um adepto com interesse na História das publicações sobre futebol em Portugal, talvez ao lado das revistas dos Mundiais editadas por 'A Bola' e 'Record', e da publicação sobre a 'Geração de Ouro' sugerida pela primeira alguns anos depois...

Friday, 12 July 2024

Quartas de Quase Tudo: As 'Novas Aventuras' dos Cinco e Sete, Ou, O Original É Sempre O Melhor

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 10 de Julho de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


No tocante a franquias ou séries de obras literárias destinadas a um público infanto-juvenil, poucas são as que conseguem tracção durante mais do que um par de anos, sendo de louvar sempre que isso acontece. Portugal não é excepção a essa regra, tendo-se tal fenómeno apenas verificado com um número muito restrito de propriedades, de 'gigantes' como 'Harry Potter' a séries como 'Diário de Um Banana' ou 'Uma Aventura' (esta última já quadragenária, e ainda e sempre o porta-estandarte da literatura infanto-juvenil portuguesa). Nos anos 90, juntavam-se ainda a esta lista as várias colecções de Enid Blyton, as quais, apesar de serem, na altura, tão longevas quanto é agora 'Uma Aventura', continuavam a cativar os jovens das gerações 'X' e 'millennial', os quais haviam herdado ou ouvido falar dos livros através dos pais, que os haviam 'devorado' com a mesma idade.


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Alguns dos títulos de cada uma das colecções.


Não é, pois, de surpreender que, perante este sucesso continuado (que motivou mesmo a reedição da colecção original d'Os Cinco' com novas capas 'fotográficas') tenha também havido quem procurasse capitalizar sobre os 'nomes de marca' idealizados pela autora inglesa em inícios do século XX; surpreendente foi, apenas, a proveniência de tais obras, que eram oriundas, não da Grã-Bretanha natal de Blyton, mas da bastante menos previsível França, onde, nos anos 80, eram lançadas duas colecções de 'Novas Aventuras' dos dois grupos de personagens mais famosos e conhecidos da autora – os referidos Cinco e o Clube dos Sete. Essas mesmas colecções viriam, poucos anos depois (concretamente em 1996), a 'aterrar' em solo nacional, pela mão da Editorial Notícias, prontas a serem adquiridas por 'legiões' de jovens insuspeitos, que não imaginavam terem aqueles livros sido escritos por alguém que não Enid Blyton. E, no entanto, era precisamente esse o caso - as Novas Aventuras dos Cinco ficavam a cargo de um tal Claude Voilet, não sendo conhecidos os nomes dos autores dos novos casos do Clube dos Sete, os quais operavam, evidentemente, em regime de 'escrita fantasma', para manter a ilusão de se tratarem de novas obras da autora britânica.


Apesar destes esforços, no entanto (e das traduções a cargo de grandes nomes do ramo, como Adolfo Simões Muller) bastava ler algumas linhas de um destes livros para perceber que os mesmos não constituíam 'artigo genuíno'. Tanto a escrita abaixo da média como as próprias temáticas de cada história eram completamente desfasados do estilo conversacional e antiquado de Blyton, sendo estas 'Novas Aventuras' apenas 'digeríveis' por quem conseguisse abstrair-se do facto de as personagens terem o mesmo nome e personalidades dos livros originais; quem esperasse algo ao nível da colecção principal acabaria, inevitavelmente, desapontado. Não é, assim, de estranhar que ambas as colecções apenas tenham durado alguns (poucos) anos nas bancas antes de caírem no quase esquecimento, dando lugar a ainda mais reedições 'modernizadas' (e, por vezes, actualizadas) das duas dezenas de aventuras originais de Blyton – um facto que não deixa de vincar a diferença entre uma obra verdadeiramente transcendente e intemporal e uma 'imitação barata' com o propósito único de fazer dinheiro. Neste caso, tal como no dos Corn Flakes da Kellogg's, 'o original é sempre o melhor' – e as crianças portuguesas de finais do século XX souberam percebê-lo.


 

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...