Monday, 29 November 2021

Segundas de Séries: Os Ursinhos Carinhosos

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Numa edição recente desta mesma rubrica, abordámos a série animada dos Pequenos Póneis, transmitida pela RTP em meados da década de 90; hoje, é a vez de focarmos a outra grande representante dos desenhos animados 'fofinhos' e inofensivos a passar naquela época em Portugal, e que partilha muitos aspectos com a nossa primeira visada: os Ursinhos Carinhosos.



As semelhanças entre as duas séries – que são daquelas que costumam ser mencionadas juntas na mesma frase, à semelhança de outros binómios famosos como 'Survivor e Europe' ou 'FIFA e PES' – começam logo no seu intuito puramente comercial; como tantas e tantas outras séries daquela época, 'Os Ursinhos Carinhosos' (no original, 'Care Bears') destinava-se sobretudo a criar a vontade, entre o público-alvo, de adquirir os adoráveis bichinhos de peluche homónimos. No entanto, pelo menos em Portugal, esse objectivo saiu algo 'furado', já que a série (e respectivos filmes) era bem mais conhecida entre a miudagem do que os brinquedos em si, cujo principal mercado eram os seus Estados Unidos natais.


Também como 'Pequenos Póneis', esta era daquelas séries que, sendo do sexo masculino e tendo mais do que uma certa (pouca) idade, não se podia sob circunstância nenhuma admitir que se via; como os póneis de cor pastel, os ursinhos risonhos e amigos de ajudar com casa nas terra das nuvens e arco-íris eram do domínio exclusivo das raparigas, reunindo num só programa absolutamente TODOS os ingredientes para se tornarem objecto de escárnio de qualquer 'macho' que se prezasse – fosse o dito escárnio mais ou menos sincero.


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Menos másculo do que isto, era difícil...


Não que a referida reacção não fosse, em parte, justificada – como 'Pequenos Póneis', 'Ursinhos Carinhosos' contentava-se em oferecer o mínimo possível para agradar ao seu público-alvo. Embora a animação fosse bastante razoável (e bem melhor que a dos póneis) o teor simplista e moralista das histórias de cada mini-episódio reduzia o interesse da série estritamente ao sector menos exigente do público infantil, preferindo a maioria dos restantes dedicar o seu tempo a concorrentes como 'Tartarugas Ninja', 'Moto-Ratos de Marte' ou até 'Garfield'.


Ainda assim, os ursinhos multi-cores com tatuagens na barriga conseguiram ter impacto suficiente no nosso país para justificarem TRÊS transmissões da série original de 1985, no espaço de apenas 16 anos, das quais duas na década que nos concerne: primeiro na RTP (1990) e mais tarde na TVI (1996). Em 2006, o Canal Panda viria a completar esta tríade, apresentando os Ursinhos a toda uma nova geração de crianças e assegurando que os mesmos se mantinham relevantes duas décadas depois da sua criação e transmissão nos seus EUA natais. E se é verdade que existirão decerto séries menos merecedoras deste ciclo de vida artificialmente prolongado, também é inegável que mesmo o mais distraído seguidor da produção animada internacional das décadas de 80 e 90 conseguirá nomear, em questão de segundos, cinco ou seis séries que fazem muito mais por justificar o mesmo tratamento...

Sunday, 28 November 2021

Domingos Divertidos: A Ondamania

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Numa altura da História em que as gerações mais novas já nasceram rodeadas de todas as inovações que os seus pais viram surgir quando eram da mesma idade, as empresas vêem-se obrigadas a empregar esforços mais árduos do que nunca para impressionar o seu público-alvo. Hoje em dia, tudo é mais colorido, mais rápido, mais barulhento e com mais 'truques na manga' do que tudo o resto, na esperança de conseguir capturar a imaginação da hiper-tecnológica e hiperactiva 'Geração Alfa'.


Antes do 'boom' tecnológico de inícios do século XXI ter para sempre mudado o paradigma da publicidade e 'marketing', no entanto, era bem mais fácil a uma companhia tornar o seu produto num sucesso entre o público mais jovem; bastava, para tal, ter uma ideia verdadeiramente inovadora ou apelativa para a referida demografia – por mais simples que a mesma fosse – e desenhar em torno dela uma campanha de 'marketing' que a tornasse irresistível. Esta estratégia, liberalmente empregue ao longo de toda a segunda metade do século XX, tornou um sem-número de conceitos relativamente simples e modestos em mega-sucessos de vendas, e os anos 90 assistiram a um exemplo perfeito desse mesmo fenómeno, sob a forma da chamada Ondamania.


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Já conhecida no estrangeiro desde os anos 40 – com destaque para os Estados Unidos, onde foi criada e onde era conhecida como 'Slinky' – mas chegada a Portugal em meados da década em causa, a Ondamania mais não era do que uma mola em formato de concertina, em plástico de cores berrantes, e que tinha na sua resistência e maleabilidade o seu principal argumento. As Ondamanias podiam ser esticadas, dobradas, atiradas, usadas como iô-iô improvisado (ou não fossem molas) ou à laia de pulseira, sem que com isso se danificassem grandemente (os 'dentes' da mola abriam um pouco, mas a funcionalidade essencial não se alterava.) Só isto já seria suficiente para tornar o brinquedo num favorito entre a criançada, mas a Ondamania escondia ainda mais um truque na manga - ou antes, O truque: a Ondamania sabia descer escadas.


Sim, por muitos usos que a Mola Maluca (como também era conhecida) tivesse, a mesma não teria tido o sucesso que teve não fosse a habilidade que lhe havia sido atribuída de descer um lanço de escadas completo sem se desfazer ou enrodilhar; e a verdade é que ver aquele brinquedo de plástico inanimado menear-se pelos degraus abaixo, qual lagarta (a de cá de casa era verde, o que ainda acentuava mais a semelhança) era algo de estranhamente fascinante para a criança média da era pré-Internet.


O resultado foi o inevitável: aquele brinquedo criado por um engenheiro americano nos anos 40, para divertir crianças pobres, celebrava o seu 50º aniversário tornando-se 'febre' absoluta entre as crianças de classe média de um país a dois oceanos de distância. E 'febre' é mesmo a palavra para descrever o impacto da Ondamania – talvez não ao nível de uns Tazos (mas convenhamos, poucos fenómenos atingem esse nível), mas certamente mais popular do que um brinquedo do seu grau de simplicidade poderia alguma vez almejar a ser.


Como todas as febres, no entanto, também esta chegou ao fim; de um momento para o outro, as Ondamanias deixaram de ser presença constante nos quartos de cama infantis e pátios de recreio por esse Portugal fora, tornando-se apenas mais um brinquedo obsoleto, esquecido em favor da 'moda' que se seguia (que, no caso, viriam a ser os Diabolos.) E como seria de prever, um brinquedo de tal modo simples não teve grandes hipóteses de recuperar a sua popularidade, acabando (pelo menos em Portugal) por cair no esquecimento – pelo menos até, quase trinta anos depois do seu auge, um blog nostálgico resolver dedicar um artigo inteiro a recordá-lo...

Saídas ao Sábado (de Natal): As Iluminações de Natal

NOTA: Este post corresponde a Sábado, 28 de Novembro de 2021.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


A época natalícia é uma altura do ano que tende a evocar uma série de memórias e sensações tanto em quem é criança, como em quem já o foi. Das viagens de 'reconhecimento e prospecção' ao hipermercado ou 'shopping' mais próximo até ao jantar de Natal, tempo passado com familiares por vezes distantes, filmes de família na televisão e, claro, os presentes, são apenas alguns dos momentos ligados a esta época do ano que tendem a ficar gravados na memória de quem é ou já foi jovem.


A estes factores há ainda que juntar mais um, pelo menos para quem reside em áreas mais urbanizadas; a tradicional saída nocturna, em passeio, com o intuito de admirar as iluminações de Natal estrategicamente colocadas em pontos-chave da cidade ou povoação algures em fins de Setembro, e acesas pela primeira vez cerca de um mês depois. Apesar de não ser uma experiência tão universal como a maioria das outras de que falamos aqui no blog, para muitas crianças, esta saída assinalava o verdadeiro início da época festiva, tanto ou mais do que a recepção do primeiro catálogo de brinquedos na caixa do correio.


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E a verdade é que, nos anos 90, muitas autarquias se esmeravam para que as suas iluminações de Natal fossem verdadeiramente espectaculares, fazendo com que a deslocação – fosse de carro, a pé ou de transportes - valesse bem a pena. A emoção de descobrir uma rua onde as habituais iluminações estáticas tivessem sido substituídas por enfeites com efeito de movimento é difícil de descrever a quem não a tenha experienciado na idade e contexto certos...mas acreditem que o 'hype' era definitivamente real. E mesmo quando não havia nada de assim tão entusiasmante, era sempre divertido ver as diferentes filas de luzes nas diferentes ruas, bem como – com alguma sorte – algum tipo de instalação especial numa praça ou largo, mesmo a pedir uma fotografia ao seu lado...


Enfim, embora possa ser potencialmente considerada uma experiência sobretudo relevante para crianças e jovens residentes nas cidades – as aldeias e vilas mais pequenas tinham formas e esquemas de iluminação diferentes – a verdade é que o passeio para ver as iluminações terá decerto marcado muito boa gente naqueles já longínquos anos 90; tanto assim que, embora as iluminações de hoje em dia fiquem muito a dever às daquele tempo, decerto ainda haverá quem leve os filhos, sobrinhos e outras crianças que lhe sejam próximas a vê-las ano após ano, para que também eles possam desfrutar da experiência que tanto prazer deu à geração anterior, quando era da sua idade...


 

Saturday, 27 November 2021

Sextas com Style: As Bolsinhas para Trocos dos Anos 90

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 26 de Novembro de 2021


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


Uma das mais perenes e transversais características das sociedades ocidentais modernas é a tendência para ridicularizar as tendências mais populares de décadas anteriores. A atitude 'qual era a deles?' abrange desde comportamentos a termos de linguagem (o chamado 'calão'), iniciativas culturais (como filmes, séries ou arte) e, claro, roupas e adereços visuais, talvez o alvo mais fácil de entre os citados.


E ainda que não seja de todo descabido dizer que muitos destes aspectos não merecem o desdém que lhes é reservado (sendo, pura e simplesmente, produtos de um tempo muito diferente) outros há que verdadeiramente suscitam a pergunta 'como é que isto era permitido?' - como é o caso do 'item' que hoje abordamos.


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Uma imagem que deverá evocar muitas memórias


As bolsinhas para trocos de pôr à cintura (as famosas 'fanny packs' dos norte-americanos) nunca foram um paradigma de estilo; aliás, nem sequer foram alguma vez desenhados para o ser. Embora existissem bolsas deste tipo fabricadas pelas grandes marcas da altura, nem mesmo estas tinham a audácia de tentar vender o referido adereço como algo mais do que um produto puramente prático – um sítio para quem não tinha carteira de alças pôr as moedas, notas e cartões, quer à solta, quer no respectivo porta-moedas ou carteira (no sentido de receptáculo de dinheiro e cartões.) As mesmas não eram, de todo, comercializadas como um indicador de moda, ou mesmo algo desejável – e, no entanto, foi exactamente nisso que se tornaram, um pouco por todo o Mundo durante os anos 90.


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Estes acessórios eram tão populares que até celebridades como The Rock se deixavam fotografar com elas


Portugal não foi excepção a esta regra, sendo que nos primeiros anos da década, em particular, não havia membro de uma determinada faixa etária que não exibisse orgulhosamente a sua bolsinha de trocos a tiracolo (algumas de padrão bem 'anos 90'), sem que a mesma o tornasse objecto de ridículo – antes pelo contrário. E enquanto os membros mais velhos dessa mesma demografia utilizavam este acessório da maneira correcta, para os mais novos (com menor acesso a dinheiro e ainda muito jovens para usar carteira) o mesmo transformava-se, muitas vezes, num repositório do tipo de quinquilharias de que aqui falamos por vezes às quintas feiras – coisas como berlindes, bolinhas saltitonas, bolas de sabão, Tazos, Matutolas, Pega-Monstros, cartas, cromos, pastilhas, chupa-chupas, bolachas, chocolates ou até figuras de acção, se a bolsa fosse grande o suficiente.


De facto, apesar de do ponto de vista da moda serem mais do que questionáveis, estes acessórios afiguravam-se como uma excelente maneira de transportar este tipo de pequeno objecto que era (e é) parte tão integrante da vida das crianças em idade pré-adolescente; e o mínimo que se pode dizer é que quem foi desta idade nos anos 90 tirou o máximo partido da sua 'bolsinha'...


Claro que uma moda tão 'parola' como esta não podia ter grande longevidade, e menos de uma década depois de terem sido consideradas o supra-sumos da moda, as bolsinhas para trocos tinham sido relegadas a motivo de chacota, e substituídas, no caso do sexo masculino, por um 'item' algo mais aceitável, embora hoje também alvo de ridículo – as bolsas a tiracolo, vulgo 'pochettes'. No entanto, aqueles anos loucos em que as 'fanny packs' foram universalmente aceites como acessórios desejáveis ainda hoje fazem parte da consciência colectiva – e com bom motivo. Afinal de contas, 'qual era a nossa' em usar aquelas coisas?!

Friday, 26 November 2021

Quintas no Quiosque: 'Fofocas' e Televisão

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 25 de Novembro de 2021.


Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Apesar da variedade e qualidade das publicações periódicas dos anos 90 – que se estendiam de revistas sobre jogos de computador ou ciência a um jornal de música – a imagem que vem imediatamente à mente da maioria das ex-crianças ou jovens daquela época ao ouvir falar em 'revistas' será, quase certamente, uma qualquer capa de uma das muitas publicações semanais que ofereciam uma mistura de informações sobre a programação televisiva naquela semana com muitos, muitos artigos dedicados a 'fofocas' sobre as celebridades do momento; títulos tão icónicos quanto a TV Guia, TV 7 Dias, Nova Gente ou Maria, que pareciam 'habitar' nas mesas dos consultórios médicos ou na casa de familiares, sempre prontas a serem folheadas num momento de maior ócio, em que não houvesse nada melhor para fazer.


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Exemplos do grafismo da TV Guia em finais dos anos 80 e inícios de 90


Embora muito semelhantes, tanto estruturalmente como a nível de temáticas, estas publicações dividiam-se, ainda assim, em dois grandes grupos – de um lado, as mais declaradamente dedicadas ao jornalismo cor-de-rosa (onde se destacavam a Maria, a Ana, e a Nova Gente) e do outro, as que procuravam servir, em primeira instância, como um verdadeiro guia de programação, sendo a vertente de 'fofocas' secundária, caso da TV Guia, TV 7 Dias ou ainda da TV Mais. Não que as revistas pertencentes a este último grupo não tivessem páginas atrás de páginas dedicadas à vida dos famosos, que tinham; no entanto, as mesmas traziam, também, artigos de outro tipo, desde pequenas notícias mais sérias a peças sobre alguns dos filmes que iriam passar na televisão nessa semana, ou que se encontravam em exibição no cinema à data de publicação, entrevistas a actores e personalidades, notícias sobre desporto, ou o principal atractivo para a geração que lê este blog, os destacáveis.


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Exemplo dos conteúdos menos 'cor de rosa' proporcionado por revistas como a TV Guia


Parte tradicionalmente integrante das revistas sobre televisão desta época – sobretudo da TV Guia – os destacáveis tomavam mais frequentemente a forma de 'posters' de temas variados, que podiam ir desde uma foto de um actor ou de desportistas a uma cena retirada de uma série popular (por aqui, ficaram especialmente na memória os 'posters' do Bart Simpson a escrever no quadro, e do Sporting vencedor da Taça de Portugal 1994/95, ambos os quais tiveram lugar cativo na parede até a fita-cola secar.) No entanto, a referida TV Guia ganhava também pontos por oferecer 'capas' para filmes, que permitiam transformar uma qualquer 'cassette' gravada da televisão num 'facsimile' da fita comercial do respectivo filme, completa com texto de resumo nas costas e o título na lombada – uma solução extremamente apelativa numa altura em que a maioria dos filmes em VHS era mesmo gravado directamente a partir da transmissão televisiva, dado o preço algo proibitivo dos vídeos comerciais. Esta é, aliás a vertente pela qual a TV Guia 'clássica' mais é lembrada hoje em dia pela geração de 80 e 90, que muito e bom uso fez da mesma.


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Depois de postas nas caixas, as capas da TV Guia eram virtualmente indistinguíveis das dos lançamentos comerciais


Hoje em dia, a maioria destas revistas continua a ser publicada, e a encontrar o seu 'habitat' natural em salões de beleza e consultórios médicos por esse Portugal fora, ao lado de publicações como a Caras e a tradicional Hola!; no entanto, qualquer das mesmas é uma mera 'sombra' do que foi nos anos 90, reflectindo a mudança de paradigma introduzido pela Internet 2.0, e que teve um impacto considerável sobre os meios de comunicação tradicionais. Para quem cresceu com estas revistas resta, portanto, recorrer à memória do que costumavam ser, e às recordações de as folhear no médico, no salão de beleza ou em casa da avó...


 

Wednesday, 24 November 2021

Quartas de Quase Tudo: Os Catálogos de Natal dos Anos 90

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Encontramo-nos, novamente, na altura do ano em que se aproxima a passos largos a época natalícia. Por todo o lado, começam a acender-se iluminações e a aparecerem Pais Natais nas montras do comércio local – e, como tal, nada melhor do que recordar uma tradição que nunca deixava de entusiasmar a criança média portuguesa criada em finais do século XX e inícios do Terceiro Milénio: a chegada às caixas de correio dos catálogos de Natal.


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Exemplo moderno de um clássico catálogo de Natal, ao estilo dos que recebíamos em casa nos anos 90


Inevitavelmente distribuídos por esta altura do ano a lares de Norte a Sul do País, da parte de todas as principais grandes superfícies, e quase tão inescapáveis e representativos da época natalícia como a transmissão de 'Mary Poppins' ou 'Sozinho em Casa', estes catálogos eram, para as crianças daquele tempo, o equivalente do que um super-saldo 'Black Friday' numa loja 'online' é hoje em dia para um adulto: um repositório de sonhos, de possibilidades infinitas ali mesmo ao alcance da mão – ou melhor, de uma visita ao supermercado ou hipermercado mais próximo. De brinquedos para recém-nascidos a bonecas (fossem Barbies ou Nenucos), figuras de acção e respectivas 'moradias', carros telecomandados, jogos de tabuleiro e computador, consolas, peluches, bicicletas, artigos de desporto e mil e um outros produtos de interesse directo para a faixa etária em causa, estes folhetos punham diante dos seus destinatários tudo aquilo que eles alguma vez pudessem desejar – e até alguns artigos que os mesmos não sabiam que queriam até os verem nas páginas do catálogo, o que no fundo era o objectivo declarado de todas e cada uma destas publicações.


Ainda assim, e apesar da vertente abertamente comercial, estes catálogos estavam sempre entre os folhetos mais cuidados e criativos do ano, com a competição entre os diferentes retalhistas a motivar a criação de verdadeiras obras de arte da publicidade física, dos quais o exemplo máximo talvez fossem os invariavelmente magníficos catálogos da Toys'R'Us, capazes de fazer qualquer 'puto' sonhar, e de quase o colocar ali, em meio a todos aqueles brinquedos, a partilhar alegres brincadeiras com aquelas crianças felizes que lhe sorriam da página...


Em suma, o prazer de folhear um catálogo de Natal e assinalar os presentes desejados, na esperança que um deles nos aparecesse debaixo da árvore, é só mais uma das muitas experiências que dá pena não poder recriar para a nova geração, para que também eles possam sentir o que nós sentíamos, naqueles idos anos 90, sempre que se aproximava o mês de Dezembro e a caixa do correio se enchia de folhetos de múltiplas páginas exclusivamente dedicados a brinquedos...

Tuesday, 23 November 2021

Terças de TV: 'TODOS OS PATINHOS, ACABAM DE BRINCAR,...'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


A tradição oral é, normalmente, imortal e praticamente imutável. Gerações de crianças conhecem as mesmas histórias, canções, tradições e até jogos do que os seus pais e avós, aprendendo-as muitas vezes destes, e mais tarde passando-as aos seus filhos, sensivelmente na mesma forma em que lhes foram passadas.


Por vezes, no entanto, a 'máquina' criativo-mediática revela-se tão influente que é mesmo capaz de se intrometer e moldar uma tradição; os filmes da Disney são disto perfeito exemplo, sendo as suas interpretações das histórias e fábulas tradicionais consideradas, hoje em dia, quase como que as versões 'oficiais' desses mesmos contos.


O Portugal dos anos 90 viu ocorrer, já no final da década, um fenómeno muito semelhante - ainda que a uma escala bastante mais reduzida – quando o segundo grande trabalho da companhia de animação lisboeta Animanostra (do primeiro, já aqui falámos recentemente) conseguiu a proeza de fazer com que a sua versão de uma canção tradicional se tornasse a versão definitiva da mesma para toda uma geração de crianças.



Qualquer desafio de 'tentar não cantar' com esta música estaria condenado ao fiasco...


Falamos, é claro, d''Os Patinhos'; a lendária animação que veio, em 1999, substituir o ainda mais lendário Vitinho, a quem os pais haviam desejado boa noite em formato musical durante quase vinte anos ininterruptos. Para seu máximo crédito, no entanto, a animação da Animanostra não só conseguiu ser uma digna sucessora da mítica série de vídeos musicais patrocinados pela Milupa, como acabou por se tornar tão icónica quanto estes.


As razões para este triunfo são variadas, e diferem consoante a idade da pessoa a quem se pergunte. Alguns dirão que a música, e respectivo 'videoclip' animado, estavam simplesmente muito bem feitos, transmitindo a sua mensagem com um bem-vindo toque de humor e sem condescender para com o público alvo, o que não deixa de ser verdade; outros, mais velhos, vociferarão contra a interpretação irritantemente memorável do tradicional tema infantil pelo patinho de roupa de marinheiro e voz esganiçada, o que também é um argumento perfeitamente válido; outros ainda indicarão a omnipresença de 'merchandising' (oficial e pirata) com a figura do Patinho nos anos que se seguiram à introdução do 'clip' na grelha de programação da RTP, causando uma rápida saturação.


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Exemplo de 'merchandising' oficial da animação


Seja qual for a razão, no entanto, a conclusão é a mesma: muito pouca gente que tenha estado exposta à música de abertura do horário nobre da RTP no final dos anos 90 se consegue esquecer da mesma, o que apenas valida a eficácia da campanha desenvolvida pela emissora. Mais – existe toda uma faixa etária que ainda hoje, mais de duas décadas após a estreia da animação, decerto defenderá veementemente que a música SEMPRE FOI sobre os rituais pré-sono das crias de aves aquáticas, ignorando por completo o anterior foco da música na eficácia das lições de natação das mesmas.


De facto, o sucesso do Patinho aquando do seu aparecimento foi tal que suscitou o lançamento de toda uma série de versões de outras músicas infantis, cada qual acompanhada de um videoclip animado, e que mais tarde foram reunidas num CD oficial alusivo à animação (e que trazia como bónus o vídeo da mesma, em formato CD-ROM) também ele um sucesso de vendas.



A série completa de animações protagonizadas pelo Patinho e seus amigos


E apesar de todas estas animações terem, entretanto, caído no esquecimento, a primeira – a original – continua, e provavelmente sempre continuará, a afirmar-se como um dos momentos-chave da programação televisiva infantil da segunda metade da década de 90, a par de um Samurai X ou Dragon Ball Z (embora numa perspectiva diferente de ambos). E se pensam que estamos a exagerar, considerem o seguinte: o Patinho precisou de apenas um minuto e meio para fazer aquilo que levou a Son Goku e Kenshin dezenas de episódios a conseguir: conseguir um lugar, para si e para a sua canção, na memória colectiva de toda uma geração de crianças portuguesas. Só esse facto já torna criação de Rui Cardoso e Teresa Sobral merecedora de respeito, bem como de um destaque aqui no anos 90...

Monday, 22 November 2021

Segundas de Sucesso: Netinho - Mil(la) e Uma Noites de Sucesso

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


O povo português vem tendo, ao longo dos tempos, uma relação estreita com a música brasileira, talvez pelo idioma partilhado entre os dois países, e que transforma Portugal num dos principais mercados para os diversos géneros e estilos saídos do país-irmão. Não só os discos e músicas de artistas brasileiros vendem bem no nosso país, como a própria música popular portuguesa (vulgo 'música pimba') se apropria livremente de estruturas, letras e até melodias de estilos como o forró e o sertanejo, demonstrando assim cabalmente a influência que o produto musical de terras de Vera Cruz tem no lusitano.


Nos anos 90 e 2000 não era, no entanto, preciso ir tão longe para demonstrar este argumento – bastava olhar para as tabelas de vendas e 'playlists' radiofónicas para perceber o impacto que os artistas populares brasileiros tinham entre o público consumidor português. De Roberto Leal aos Mamonas Assassinas, e de Iran Costa a (mais tarde) Ivete Sangalo, passando por Salsicha e Mário Jorge, eram inúmeros os nomes que conseguiam atravessar o oceano e fazer tanto (ou mais!) sucesso do lado 'de cá' do que no seu próprio país de origem. 


A esta lista há que acrescentar, ainda, um cantor que tomou de assalto as tabelas de 'hits' nacionais nos anos finais da década, com uma música gravada ao vivo, e pôs toda a gente – e particularmente as crianças e jovens – a exortar os amigos para 'tirar o pé do chão'.


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O cantor, já numa fase posterior da carreira


Falamos de Ernesto de Souza Andrade Júnior, habitualmente conhecido como Netinho, cantor popular de longa e respeitada carreira no seu país-natal – as suas músicas são presença habitual em bandas-sonoras de novelas, e chegou a participar num tributo a Caetano Veloso – mas que em Portugal é conhecido, sobretudo por duas coisas: ser o autor de 'Milla', um dos maiores 'hits' pop-brega dos anos 90, e ter posto oitenta mil pessoas (!) a saltar em pleno Parque das Nações, aquando do seu concerto durante as comemorações dos quinhentos anos do Brasil, já após o virar do milénio, vários anos depois de o momento de 'Milla' ter passado. Prova cabal de que o seu maior sucesso tinha 'pernas', embora também indicativa de que, pelo menos em Portugal, essa obra de Netinho ofusca totalmente o próprio autor.


As razões para o estrondoso sucesso de 'Milla' não são difíceis de explicar. Não só Netinho era presença assídua nos famosos expositores de CD's e cassettes tipicamente encontrados em tabacarias e estações de serviço, como a própria música em si é irresistivelmente viciante, com um daqueles refrões (aliás, uma daquelas LETRAS) que se alojam na memória para toda a eternidade, e tornada ainda mais eficaz pela energia electrizante da 'performance' e do público, que extravasa as colunas e convida, inapelavelmente, a dar um 'passinho de dança', onde quer que se esteja. É 'foleira'? Claro que sim. Mas é também divertida, enérgica, e de uma sinceridade desarmante, que impede a existência de má-vontade e a ajudour a tornar um dos principais hinos 'pop-pimba' da década de 90.


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O CD de onde a música é tirada marcava presença assidua nos expositores de 'cassettes' e CD's daquele tempo


Quanto ao seu autor, merecia mais? Claro. Ao contrário de muitos dos seus colegas de movimento, Netinho era um músico 'à séria', com raízes na MPB e bossa nova; e a verdade é que, no seu país natal, o cantor conseguiu fazer valer essas credenciais. Em Portugal, no entanto. Ernesto de Souza Andrade Júnior terá, para sempre, de se contentar com o estatuto de 'one-hit wonder' – que, convenhamos, também não é a pior coisa do Mundo para se ser, especialmente se o nosso 'one hit' for uma 'malha' tão enérgica e irresistível como 'Milla'.

Sunday, 21 November 2021

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - Deco

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


Para a maioria das pessoas – incluindo os desportistas – a rota para o sucesso é longa e árdua. Embora haja quem pareça já ter nascido ali, no topo da cadeia alimentar da sua respectiva área, a verdade é que, a maior parte das vezes, até as mais distintas carreiras têm início nos locais mais insólitos e inesperados. Nesta nova rubrica aqui no Anos 90, vamos relembrar onde andavam algumas das caras mais icónicas do desporto português, antes de serem famosos.


E começamos, desde logo, com um exemplo perfeito do tipo de percurso acima descrito: a história de Anderson Luís de Sousa, um médio brasileiro que, no decorrer dos anos 2000, se viria a tornar um dos jogadores mais instantaneamente reconhecíveis do mundo do futebol, passeando a sua classe primeiro ao serviço de um FC Porto em transição da fase 'sarrafeira' para a fase de conquista da Europa, e mais tarde do Barcelona, do Chelsea e da Selecção Nacional portuguesa. O que poucos saberão, no entanto, é que antes de viver estes anos de glória, Deco – como era mais comummente conhecido – militou em dois outros 'históricos' do futebol português, ambos entretanto tombados: nada mais, nada menos do que o Alverca (aqui por empréstimo do 'clube-pai' Benfica, juntamente com o colega de equipa e histórico dos ribatejanos, Caju) e Sport Comércio e Salgueiros.


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Deco alinhou pelo Alverca e Salgueiros, nas épocas de 1997-98 e 1998-99, respectivamente


Sim, um dos jogadores mais claramente predestinados da sua geração começou a sua ascensão para o sucesso do mesmo modo que tantos outros: descoberto no seu Brasil natal por um 'grande', mas cedo 'despachado' para um clube satélite, onde acaba por se afirmar. No caso de Deco, no entanto, a excelente época realizada no clube ribatejano - onde foi, ao lado do conterrâneo e colega de equipa Caju, uma das figuras de proa, com 32 jogos e 12 golos - não foi suficiente para conseguir uma segunda oportunidade no Benfica de Souness, demasiado ocupado a arranjar lugares de plantel para os seus 'boys' para reparar na pérola que tina debaixo do seu nariz. No início da época de 98-99, naquele que foi considerado posteriormente como um 'erro histórico', Deco viria a desvincular-se definitivamente do Benfica, clube pelo qual nunca chegara a calçar, e rumaria a Norte, para se juntar ao Salgueiros, seguindo Nandinho (outra aposta falhada do clube da Luz) na direcção inversa. Uma época assolada por lesões levaria a que o hoje luso-brasileiro alinhasse apenas doze vezes pelo histórico clube nortenho, mas mesmo com poucas aparições e muito azar, Deco conseguiu mostrar o seu talento a ponto de despertar o interesse do Porto, que o viria a contratar ainda antes do fim da temporada. O médio estreava-se, assim, na elite do futebol mundial da melhor maneira – com um título de campeão nacional, que quase fazia esquecer a época desafortunada que acabara de viver.


O resto da história é bem conhecido – títulos europeus com o Porto, transferências para o Barcelona e depois Chelsea, participação em algumas das melhores campanhas da selecção nacional portuguesa, e eventual regresso a 'casa' para alinhar pelo Fluminense. Uma carreira verdadeiramente de 'top' mundial, que é difícil de acreditar que começou com a dispensa de uma equipa que ficou na história pelo seu elevado volume de 'mancos', mas que não teve lugar para um dos últimos grandes 'números dez' puros do futebol moderno. No entanto, como se disse no início deste texto, por vezes a vida tem destas coisas – e Deco não será, certamente, o último exemplo que aqui vemos disso mesmo...

Saturday, 20 November 2021

Sábados aos Saltos: Os Veículos Eléctricos dos Anos 90

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


Um dos aspectos mais memoráveis para quem nasceu ou cresceu nos anos 90 será, certamente, enorme variedade de meios de locomoção 'divertidos' disponíveis para as crianças e jovens daquele tempo. Os 90s foram, afinal de contas, a década que viu popularizarem-se as bicicletas BMX, os 'skates' e os patins em linha, bem como outros apetrechos mais especializados e específicos, como as pranchas de surf e bodyboard em tamanhos reduzidos, dirigidas especificamente à demografia mais nova. A acrescentar a estes veículos há, ainda, outro tipo, favorecido por crianças mais novas, mas que não deixava de causar alguma inveja de quem era sortudo o suficiente para ter: os carros e motas eléctricos.


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Presença assídua (e, normalmente, destacada) nos catálogos de Natal que começavam, por esta altura, a chegar às caixas do correio, da parte dos diversos supermercados e hipermercados nacionais, estes brinquedos tinham, normalmente, um preço de venda ao público algo elevado, ainda que maioritariamente justificado pela tecnologia eléctrica no qual estes veículos se baseavam. Nem todas as crianças tinham, por isso, oportunidade de experienciar a sensação de 'andar' num daqueles carros ou motos do catálogo; quem tinha ou teve, no entanto, sabe que valia bem a pena, mais não fosse pela eterna sensação de ter algo que os amigos cobiçavam.


Curiosamente, ao contrário de muitos dos brinquedos que focamos neste blog - que 'pegavam' com pessoas de todas as idades - este era um tipo de meio de transporte que ficava, normalmente, restrito a uma faixa etária mais nova, quase não existindo veículos deste tipo dirigidos a crianças com mais do que oito ou nove anos. Sorte, pois, de quem era pequeno e leve o suficiente para conseguir dar umas voltas pelo jardim ou parque montado num destes veículos sem os pés roçarem no chão ou o motor se recusar a funcionar...


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Quem era do tamanho certo sentia-se sempre um 'boss' em cima de um veículo destes


Tal como quase tudo o que abordamos aqui no Anos 90, também os carros e motas eléctricos acabaram por cair em desuso, sendo hoje raro ver uma criança montada num deles; no entanto, a popularidade das bicicletas e trotinetes eléctricas leva a crer que talvez muitos dos 'ex-putos' que naquele tempo eram já demasiado velhos para terem estes veículos, estejam agora a 'desforrar-se' depois de adultos...

Friday, 19 November 2021

Sessão de Sexta: Sozinho em Casa

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Os meados de Novembro marcam, no calendário de muito boa gente – e, certamente, da maioria das empresas e estabelecimentos de comércio – o início da época natalícia. As iluminações, armadas e colocadas nos respectivos lugares desde há pelo menos seis semanas, são finalmente acesas; os supermercados inserem uma série de temas natalícios nas suas 'playlists' musicais; o comércio de rua toma a liberdade de começar a decorar as montras com Pais Natais, árvores decoradas e desenhos de flocos de neve; e milhares de ex-crianças dos anos 90 começam a tentar prever em que data passará na televisão o 'Sozinho em Casa'.


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Uma imagem que está indelevelmente gravada na memória de todos nós.


Um dos três filmes de Natal inescapáveis em Portugal – ao lado de 'Mary Poppins' e 'Música no Coração', sendo, nos últimos anos, também provável que alguma emissora exiba um dos filmes da série 'Shrek' – 'Sozinho em Casa' é uma das obras cinematográficas mais imediatamente associadas a esta época do ano por qualquer pessoa que fosse da idade certa quando o mesmo estrou nos cinemas de todo o Mundo há quase exactamente trinta e um anos, a 16 de Novembro de 1990. E ainda que a constante e quase anual repetição do filme nos diversos canais da TV portuguesa tenha contribuído para reduzir significativamente a boa-vontade exibida por essa mesma geração em relação ao filme, a verdade é que também há pouco quem se oponha a ver o filme ainda mais uma vez...


Vendo bem, em retrospectiva, era inevitável que 'Sozinho em Casa' fizesse sucesso entre o público-alvo da altura, que não podia deixar de se rever no protagonista Kevin McAllister, interpretado por um rapazinho de nove anos que se viria em anos subsequentes a tornar um dos principais actores juvenis de Hollywood – o inconfundível Macaulay Culkin, cuja cara seria em breve objecto de capa de revistas infanto-juvenis como a Super Jovem, sempre acompanhada do icónico 'pullover' castanho-avermelhado envergado por Kevin durante a grande maioria da hora e 45 do filme. Quanto ao realizador Chris Columbus, vir-se-ia também a tornar uma estrela por direito próprio, tendo o seu segundo momento de glória surgido quase exactamente uma década após o primeiro, quando foi seleccionado para realizar as primeiras duas adaptações cinematográficas da estratosférica saga 'Harry Potter'.


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Macaulay Culkin, então e agora


E se a carreira do seu actor principal viria eventualmente a descarrilar, levando Culkin a afastar-se do mundo do cinema durante quase vinte anos, o legado do filme em si sobreviveria, tanto por culpa das repetições constantes como parte da programação natalícia de canais de televisão em todo o Mundo, como por mérito próprio do seu guião, assumidamente 'pastelão' a pontos de se assemelhar a um desenho animado de acção real, mas ao mesmo tempo alicerçado numa situação realista q.b., e tão excitante quanto aterrorizante para o seu público-alvo – ser esquecido pelos pais aquando de uma viagem, e ter que defender a sua casa contra assaltantes. Junte-se a isto uma pitada de sentimentalismo, sem exageros, e muitos, muitos momentos memoráveis (encabeçadas pela impagável cena do 'after-shave' e pelo icónico 'keep the change, ya filthy animal!') e está encontrada a receita perfeita para o maior filme de Natal do ano – ou, no caso de Sozinho em Casa, um dos maiores filmes do ano, ponto (ao que também ajudou o facto de a proposta da Disney para esse Natal ser 'Bernardo e Bianca na Cangurulândia', um dos filmes menos lembrados da safra anos 90 da companhia.) 


Méritos à parte, o facto é que Sozinho em Casa foi um estrondoso sucesso (só por aqui, foram CINCO as idas ao cinema para ver o filme!), tendo não só justificado, à época, a inevitável sequela (por sinal muito abaixo do nível do original) como também dado origem, anos mais tarde, a um inenarrável 'franchise' de lançamentos 'direct-to-video', já sem o envolvimento de qualquer membro da equipa original (Columbus só não sentirá vergonha destes filmes porque deve receber 'royalties' relativas aos mesmos), e com orçamentos significativamente mais reduzidos. Isto sem esquecer o 'remake' recém-estreado no canal Disney +, agora com um jovem britânico (Archie Yates, de 'Jojo Rabbit') inexplicavelmente residente nos EUA, no papel outrora interpretado pelo americaníssimo Culkin. MV5BNDI1MzM0Y2YtYmIyMS00ODE3LTlhZjEtZTUyNmEzMTNhZW


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A primeira regra das sequelas de 'Sozinho em Casa' é que não se fala das sequelas de 'Sozinho em Casa'...


Pelo caminho, o filme original foi também indelevelmente incorporado na cultura 'pop' (na Primark britânica podiam, há uns anos, encontrar-se 'pullovers' de Natal com a legenda 'Merry Christmas, you filthy animal!') a um ponto que tornava inevitável que o seu aniversário fosse celebrado, e lhe fossem dadas honras de abertura da época natalícia, neste nosso blog nostálgico. Chegou, pois, oficialmente a altura de começar a consultar as grelhas de programação dos diversos canais (vai passar ALGURES. Todos sabemos que vai passar ALGURES!) e a 'arrumar' a agenda para, no momento certo, podermos estar à frente da televisão a ver o gorro de Joe Pesci a pegar fogo e Daniel Stern a apanhar com a bola de bólingue na cabeça pela 6,427,139ª vez... Feliz Natal, seus animais!

Thursday, 18 November 2021

Quintas de Quinquilharia: As Matutolas

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Na primeiríssima edição desta rubrica, falámos um pouco sobre os 'Tazos', talvez o brinde alimentício mais recordado e nostálgico dos anos 90; hoje, falamos finalmente da 'febre' que lhes sucedeu, e que atingiu níveis de sucesso quase (QUASE) semelhantes, embora se tenha afirmado como menos icónica a longo prazo.


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Falamos das Matutolas, pequenas figuras de plástico sólido ou translúcido em forma de cabeça (ou se quiserem, 'tola') que, tal como os seus antecessores, fomentavam não só a vertente coleccionista inerente a qualquer criança, mas também a veia competitiva existente dentro dela. Isto porque, como os 'Tazos', as Tolas eram, ao mesmo tempo, objectos de colecção e peças de jogo, destinadas a serem apostadas, ganhas e perdidas nos recreios e pátios por esse Portugal afora – objectivo esse que, previsivelmente, foi mais do que confortavelmente atingido.


Tão-pouco era este o único ponto em comum entre as Tolas e a colecção que lhes antecedera; as próprias regras de como jogas Matutolas eram muito semelhantes às do jogo dos 'Tazos', ainda que esta variante se desenrolasse numa perspectiva vertical, ao invés de horizontal. Como nos 'Tazos', cada jogador apostava as suas Tolas, no caso colocando-as em pé, lado a lado, sobre uma superfície plana; cada participante utilizava, então, outra Tola para tentar derrubar o maior número possível de peças em jogo, passando (ou voltando) cada peça derrubada a ser pertença desse jogador.


Um jogo, no mínimo, tão viciante como o dos 'Tazos', e que veio preencher o 'vazio' que o fim dessa colecção havia deixado no instinto coleccionador das crianças portuguesas – pelo que não é de admirar que a recepção e expansão do mesmo tenham sido tão rápidas, e praticamente tão abrangentes, como as dos seus antecessores. No ano após o fim dos 'Tazos', não havia criança portuguesa que não coleccionasse, trocasse e apostasse as pequenas cabeças grotescas da Matutano com os amigos, e que não tivesse em casa um qualquer recipiente (fosse um Portatolas oficial ou simplesmente um qualquer tubo ou 'tupperware') recheado com as suas várias aquisições, muitas delas com falhas à laia de 'cicatrizes de batalha' (as Tolas de plástico translúcido, em particular) rachavam-se com surpreendente facilidade, e haverá decerto muito poucas que tenham sobrevivido inteiras até aos dias de hoje.)


Menos popular seria a inexplicável caderneta de autocolantes (?!) que servia função dupla como livro de regras - como se um jogo de recreio necessitasse de regras oficiais escritas num livro de instruções...


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Os tubos de transporte 'Portatolas' e a inexplicável caderneta


Um último ponto em comum entre as Tolas e os 'Tazos' prendia-se com o facto de, também aqui, existirem modelos não ligados à Matutano, facilmente adquiríveis se se soubesse onde procurar, e muitas vezes mais esteticamente cuidadas que as próprias originais; no entanto, ao contrário do que acontecia com os 'Tazos', as Tolas 'falsas' eram tão bem acabadas que acabavam por ser poucos os jogadores que não as aceitassem como 'moeda de aposta' em meio às oficiais – o que, simultaneamente, facilitava sobremaneira a vida a quem não tinha por hábito (ou não era autorizado a) comer batatas fritas.


gogos-crazy-bones-nostalgia-anos-90-matutolas.jpgUm pacote de Matutolas 'não-oficiais' - ou antes, de Go Go Crazy Bones, o conceito que havia sido adaptado e renomeado como Matutolas...


Em suma, uma moda que, embora algo derivativa da que a precedera, foi ainda assim uma das três maiores da Matutano durante aquela década - juntamente com os Tazos e os Pega-Monstros, vindo as Caveiras Luminosas ainda um pouco atrás em termos de nostalgia nos tempos que correm - que marcou época tanto quanto qualquer uma delas, e que, como elas, acabou por conseguir lugar cativo no coração de muitas ex-crianças daquele tempo – embora as mesmas apenas tendam a lembrar-se dela após (e geralmente como consequência de) terem recordado os 'Tazos'...

Wednesday, 17 November 2021

Quartas aos Quadradinhos: A Colecção 'Álbuns Disney'

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Nos anos 90, a Disney vivia um estado de graça em todas as frentes. Os seus filmes de animação (a principal vertente por que eram conhecidos) atravessavam uma segunda era de ouro, o mesmo se passando com as suas séries animadas; os seus parques temáticos estavam entre os destinos mais desejáveis do Mundo; e, apesar da pouca presença no mercado norte-americano, os seus livros de banda desenhada continuavam a fazer sucesso em mercados como o brasileiro, o italiano ou o português, onde as revistas Disney apenas eram rivalizadas em popularidade pelas de super-heróis da Marvel e DC – que, por serem publicadas pela mesma editora, não se podiam exactamente considerar concorrentes – e pelas da Turma da Mônica (estas sim, em competição directa.) Em Portugal em particular, não havia, à época, praticamente, criança ou jovem de uma certa idade que não conhecesse e lesse as histórias de Mickey, Pateta, Donald e companhia, as quais marcavam mesmo presença em suplementos de jornais e até em manuais escolares.


Tendo em conta este panorama, não é de todo surpreendente que a referida editora Abril se tenha sentido à vontade para expandir o seu raio de acção a histórias e personagens mais periféricos dentro do universo Disney, alguns dos quais acabavam de fazer a transição do mundo do cinema ou televisão para o dos quadradinhos, de Aladino, Ursinho Puff ou Mulan a Doug ou Pato da Capa Preta.


Estes e outros heróis Disney chegariam mesmo, no entanto, às bancas portuguesas em meados da década, através de uma colecção de álbuns temáticos em formato 'de luxo', com páginas A4 e papel grosso e brilhante. Simplesmente intitulada 'Álbuns Disney' (o que não ajuda nada no que toca à procura de referências um quarto de século depois) estes volumes faziam por justificar o preço mais elevado em relação às publicações Disney 'normais', algumas das quais ofereciam mesmo mais páginas de histórias, ainda que com personagens mais corriqueiros dentro do universo da companhia.


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O primeiro número da série, no caso, uma republicação de uma história clássica de Carl Barks.


E por falar em histórias, as contidas em cada um destes volumes mais não eram do que traduções do material que saía na popular 'Disney Adventures' norte-americana, na altura uma das poucas fontes de banda desenhada Disney naquele continente, e conhecida precisamente por elaborar enredos aos quadradinhos para heróis mais conhecidos pelos seus feitos no mundo do celulóide ou das ondas televisivas; e a verdade é que estas se tratavam de histórias cuidadas, bem escritas e desenhadas, e bem merecedoras da atenção do seu público-alvo.


Infelizmente, a adesão a esta série foi bastante reduzida por comparação à das revistas mensais ou quinzenais, talvez devido ao preço mais elevado e distribuição mais limitada. De igual modo - e talvez como consequência da sua pouca popularidade na altura da publicação - hoje em dia, esta colecção entra directamente para a galeria dos 'Esquecidos Pela Net', sendo precisa uma pesquisa muito específica para encontrar sequer uma imagem de uma capa da colecção. Resta, pois, ao Anos 90 'desenterrar' mais esta pérola da época, e fornecer-lhe o 'lugar ao sol' que nunca conseguiu ter até hoje...

Tuesday, 16 November 2021

Terças Tecnológicas: O Teletexto

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Quando se fala em inovações tecnológicas, em particular durante as décadas de 90 e 2000, a maioria das pessoas pensa, de imediato, nos avanços feitos durante essa década no campo da informática e programação, as 'faces' mais visíveis do enorme salto vivenciado durante essa época; no entanto, esta evolução esteve longe de se manifestar apenas nesse campo, tendo as referidas décadas assistido a uma série de 'revoluções silenciosas' sob a forma de inovações que, por serem menos óbvias e aparentes, não gozaram de tanta atenção. É precisamente de um desses avanços mais discretos – mas não menos memorável para quem dele usufruiu – que vamos hoje falar.


A passagem dos tradicionais televisores de antena para os então inovadores modelos digitais, sensivelmente em meados da década, veio revelar tanto aos fabricantes como aos responsáveis de programação uma série de potencialidades tecnológicas, que os mesmos não tardaram a explorar; uma dessas potencialidades – já conhecida pelos ingleses há mais de duas décadas, mas ainda inovadora no Portugal de então - prendia-se, precisamente, com a possibilidade de transmitir informação em formato de texto digital, semelhante ao que se veria num computador da época, o qual podia ser acedido com o simples premir de um botão no comando do televisor. O resultado foi uma funcionalidade que, naqueles anos pré-Internet 2.0, constituiu a principal forma de muito boa gente interagir com o seu canal de televisão favorito: o Teletexto.


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Uma imagem que não pode deixar de evocar memórias


Sim, o Teletexto – aquele conjunto de ecrãs saídos directamente de um computador IBM de inícios da década, e que permitia aos responsáveis pelo mesmo divulgar informações sobre a programação da semana, curiosidades sobre os mais diversos temas, resultados desportivos, concursos e promoções exclusivos, bem como implementar serviços de legendagem para surdos, serviços de 'chat' ou até pequenos jogos; no fundo, uma espécie de 'mini-website' ou motor de pesquisa embutido na própria onda do canal, e que não requeria a obtenção de qualquer tecnologia adicional, bastando possuir uma televisão compatível e o respectivo comando para poder desfrutar deste serviço.


Inicialmente disponibilizado apenas pelos canais estatais – a SIC e a TVI só 'apanhariam a carruagem' já no novo milénio – este serviço foi, quase de imediato, um enorme sucesso entre públicos de todas as idades; a conjugação entre a comodidade e acessibilidade do serviço, os conteúdos verdadeiramente úteis e a facilidade de navegação – que permitia até aos mais informaticamente iletrados encontrar aquilo que procuravam – tornaram aquele botãozinho na fila de topo ou base dos comandos televisivos da época um dos mais frequentemente pressionados, particularmente quando se queria matar uns minutinhos até ao próximo programa.


A chegada ao país da TV Cabo, também em meados da década, apenas veio exacerbar este fenómeno, já que quase todos os inúmeros canais estrangeiros disponibilizados nos pacotes iniciais da Cabo em Portugal vinham equipados com Teletexto; e se ler as informações e curiosidades generalistas disponibilizadas pela RTP já era entusiasmante, imagine-se o que sentiriam fãs da MTV, Eurosport ou Cartoon Network ao descobrirem que podiam ler páginas inteiras sobre a sua temática favorita, mesmo ali, no ecrã da televisão...


É claro que a 'avalanche' tecnológica das duas primeiras décadas do século XXI rapidamente veio tornar o Teletexto obsoleto; hoje em dia, apesar de resistir ainda e sempre à 'invasora' Internet, o serviço é praticamente redundante, estando a maioria das informações disponibilizadas pelo mesmo acessíveis em qualquer página de Internet – a qual pode, inclusivamente, ser aberta na própria televisão, desde que a mesma possua as funcionalidades correctas. Ainda assim, para muitos ex-jovens dos Anos 90 – bem como, suspeitamos, algumas das gerações mais velhas – esta continua a ser uma ferramenta saudosa, associada a muitos e bons momentos de esforço ocular para tentar ler aquele texto em cores garridas sobre fundo preto...

Monday, 15 November 2021

Segundas de Séries: 'A Maravilhosa Viagem Às Ilhas Encantadas' - A Série de Animação 'Made in Portugal'

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


No que toca à animação, Portugal é um país com pouca tradição; como acontece em quase todos os outros sectores do meio audio-visual, os lusitanos são, sobretudo, consumidores de animação importada do estrangeiro, com particular ênfase nos Estados Unidos (claro), Inglaterra e Canadá.


No entanto, de tempos a tempos, um animador ou empresa de animação nacional consegue não só levar o seu produto adiante como expô-lo a um público mais alargado – e, nos anos 90, foi exactamente isso que aconteceu com a lisboeta Animanostra, responsável por não uma, mas duas das principais produções animadas nacionais durante aquela década e a seguinte. Do momento de maior fama da companhia, falaremos noutra ocasião – hoje, cabe recordar a série que lançou a Animanostra enquanto grande nome do meio dentro de portas, e se tornou uma das mais memoráveis produções animadas nacionais de sempre.


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'A Maravilhosa Expedição Às Ilhas Encantadas' pode não ter tido um título por aí além de apelativo, mas a sua combinação do ambiente directamente ligado à História e tradições portuguesas com um cuidado trabalho técnico (dentro das limitações vigentes) permitiram-lhe ultrapassar essa pecha, e conseguir sucesso suficiente entre o público-alvo para justificar a criação e exibição de uma segunda temporada, mesmo que desfasada no tempo em relação à primeira. Até porque desfasamentos temporais não eram, de todo, um conceito estranho para a equipa da Animanostra, que havia criado a série em 1992, mas só a veria ir ao ar quatro longos anos depois, no Natal de 1996.


Uma vez chegada à RTP, no entanto, 'A Maravilhosa Expedição...' conseguiria 'segurar' o seu lugar na grelha de programação da mesma durante praticamente um ano, tempo que a emissora estatal demorou a transmitir os oitenta episódios (cada um com cerca de cinco minutos) da série original. Findo esse período, a série facilmente encontraria outra casa, desta vez num canal privado, tendo a SIC sido a responsável tanto pela repetição da primeira temporada como pela exibição de vinte episódios inéditos, relativos à segunda - e tudo isto num ano (1998) em que a realização da Expo '98 havia colocado novamente em voga o tema dos Descobrimentos, sohre o qual o desenho animado versa. As aventuras de Simão, Oliveirinha, Libório, Dom Fuas e os restantes tripulantes do 'Destemido' chegavam assim, através do popular Buereré, a todo um novo contigente de crianças – além daquelas que já haviam acompanhado a primeira temporada, dois anos antes, e que teriam assim a oportunidade de acompanhar a continuação das referidas aventuras.


E a verdade é que valia mesmo a pena assistir às viagens da fictícia caravela portuguesa e dos seus carismáticos tripulantes; além da curta duração dos episódios, que fazia com que nunca chegasse a cansar, 'A Maravilhosa Expedição...' era uma série bem escrita, bem animada e bem sonorizada (o genérico era do melhor que por cá se fez durante aquela época), com um estilo muito próprio, e que pouco ficava a dever a muitas das séries produzidas no resto da Europa durante a mesma época - só faltava, mesmo, o orçamento e a publicidade de que dispunham as criações inglesas e norte-americanas. Esta afirma-se, pois, como uma série bem merecedora de ser revisitada ou descoberta, por quem não conhece e nunca viu – especialmente por ser um produto nacional num país onde estes não primavam (nem primam) pela abundância...



 

Sunday, 14 November 2021

Domingos Divertidos: As Barriguitas

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Quando se pensa em bonecas dos anos 90, o primeiro pensamento da maioria das ex-crianças daquele tempo irá, por esta ordem, para as Barbies (e suas respectivas derivadas), os Nenucos ou as Polly Pockets; no entanto, existiu à época uma outra linha de bonecas, não menos famosa enquanto esteve disponível, mas que hoje se encontra um pouco esquecida (pelo menos em Portugal) por comparação com as suas contemporâneas: as Barriguitas.


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Facilmente reconhecíveis, mesmo fora da embalagem, por serem consideravelmente mais pequenas do que as outras bonecas bebés – até os Nenucos mais pequenos tinham o dobro do tamanho – as Barriguitas destacaram-se, aquando da sua criação e distribuição inicial, por serem uma das primeiras linhas a incluir acessórios que não apenas o biberom (como roupas e chapéus, entre outros), e a primeira de sempre a apresentar bonecas de outras etnias que não apenas caucasianas – duas características que, aliadas ao tamanho invulgarmente reduzido, ajudaram a que a linha da Famosa se destacasse das restantes competidoras, encontrasse o seu nicho bem definido de mercado, e servisse de inspiração a mil-e-uma bonecas bebés da 'loja dos 300', e mais tarde chinesas.


No entanto, e apesar do sucesso de que gozaram durante as duas últimas décadas do século XX, também as Barriguitas acabaram por sucumbir ao mesmo fado de tantas outras linhas de que aqui falamos, com a redução gradual do interesse da geração seguinte de crianças a levar a sucessivas mudanças estéticas e de abordagem, até a linha se tornar virtualmente irreconhecível por comparação àquela que havia deliciado as meninas dos anos 90.


Ao contrário de muitos outros brinquedos abordados nestas páginas, no entanto, as bonecas da Famosa nunca chegaram a desaparecer completamente, sendo inclusivamente alvo de uma das famosas colecções em fascículos da Planeta deAgostini (!!) na qual surgiam vestidas a rigor, com trajes tradicionais de diferentes partes do Mundo. Mais recentemente, já nos últimos dois anos, a linha foi mais uma vez reimaginada, voltando as bonecas da mesma a assumir o seu aspecto original, com o qual haviam feito sucesso entre as crianças dos anos 80 e 90; resta, pois (e como sempre) saber se a presente geração de rapariguinhas terá interesse suficiente pelos bebés da Famosa para permitir o renascimento dos mesmos enquanto potência de mercado...


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Uma das novas Barriguitas para 2021

Saturday, 13 November 2021

Saídas ao Sábado: A Ida à Feira

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


Recentemente, falámos aqui das expedições ao supermercado do bairro; hoje, vamos abordar a outra formar de obter mantimentos – estes mais frescos – bem como outros artigos de uso diário, como vestuário: a ida à feira ou mercado.


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Antes de começar a falar sobre este assunto, há, no entanto, que fazer a distinção entre o mercado de bairro ou aldeia – vulgo 'a praça' – e as feiras, mais esporádicas e, normalmente, de maiores dimensões. Nos primeiros, encontrava-se (e encontra-se) sobretudo comida, com apenas algumas bancas dedicadas à venda de roupa ou artigos utilitários; já nas feiras, a distribuição é mais irmanada, havendo lugar a barracas de roupa, comida, artigos para casa, e por vezes até produtos e bens mais insólitos, como malas, electrodomésticos, brinquedos, música ou até animais. O denominador comum entre ambos é o facto de serem – tanto nos anos 90 como hoje – locais extremamente entusiasmantes da perspectiva de uma criança.


E aqui há que fazer ainda outra distinção – nomeadamente, entre aqueles que visita(va)m estes espaços como fregueses, e aqueles que acompanhavam os pais no comércio, visto ambos terem experiências diametralmente diferentes. Quem visitava para se 'aviar', certamente recordará a excitação de ver tudo o que o espaço tinha para oferecer: admirar as peças de roupa obviamente de contrafacção, analisar os brinquedos e eletrodomésticos apresentados sobre uma simples mesa de madeira, ponderar se os jogos para 'Game USA' naquela outra banca funcionaram no seu Game Boy oficial, e por aí adiante; jà quem assistia os pais na venda associará certamente as feiras e mercados a madrugadas, trabalho braçal, mas talvez também a sensação de contribuir para a economia familiar, e o orgulho de conseguir fazer uma venda por si mesmo, sem a ajuda dos pais.


Vivências, como se disse, muito diferentes, mas ambas merecedoras de serem recordadas, parte integrante que são de um tempo que já não volta mais – ainda que as feiras e mercados, em si mesmos, não tenham mudado por aí além (ou de todo) as experiências das crianças de hoje ao visitarem ou participarem neste tipo de evento são, forçosamente, diferentes, influenciadas como são por uma série de factores que, no tempo a que este blog concerne, ainda não existiam. Este pequeno texto pretendeu, pois, recordar a vivência das crianças dos anos 90 a esse respeito – quem quiser e souber, que fale de como ela era para a geração seguinte..

Friday, 12 November 2021

Sextas com Style: Os Tererés

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


Os anos 80 e 90 representaram, para Portugal, uma considerável abertura ao mundo além-fronteiras, a qual, por sua vez, proporcionou a um país que vivera, durante décadas, num regime ditatorial a hipótese de descobrir, quiçá pela primeira vez, muito do que, lá por fora, já se vinha sabendo, fazendo e consumindo há várias décadas. Isto traduziu-se, em grande parte, num influxo (ainda maior) de tendências 'importadas' dos EUA ou Inglaterra, e que afectavam todos os sectores da sociedade, do vestuário à arte, gastronomia ou costumes sociais.


Para os jovens dos anos 90 (nascidos, na sua grande maioria, na década anterior) um dos momentos mais impactantes no que toca a 'modas' foi o dealbar, e gradual expansão, do movimento alternativo. Partindo das camisas de flanela e jeans rasgados do 'grunge' e fundindo-se com movimentos como o do 'skate', surf ou hip-hop; este movimento não tardou a cimentar a sua presença nos pátios de escolas secundárias por esse país afora, onde se podia inevitavelmente encontrar pelo menos um ou dois dos chamados 'dreads' ou 'freaks'.


Como sucede com qualquer movimento de base estética, também o modo de vida alternativo tinha vários indicadores visuais que permitiam, quase de imediato, identificar um proponente do mesmo, das calças largas aos panamás às flores, correntes nas mochilas, calçado Doc Martens ou Airwalk, ou – no caso das raparigas – a tendência de que falamos hoje: os tererés.


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Um exemplo de tereré mais longo


Nome dado às pequenas tranças artificiais criadas através do entrançar de fitas de tecido no cabelo natural, os tererés tornaram-se presença assídua na cabeça de muitas adolescentes a partir de finais da década de 90, e sensivelmente até meados da seguinte, extravasando inclusivamente o movimento que as vira nascer, e decorando igualmente os cabelos de muitas 'betinhas' por esse Portugal afora – e a verdade é que a popularidade universal desta tendência não é, de todo, difícil de compreender, dada a natureza colorida, alegre e visualmente apelativa da maioria dos tererés. A principal diferença de classes ficava, pois, reservada ao comprimento e espessura das tranças, sendo que as raparigas mais alternativas preferiam normalmente entrançados mais grossos e de menor comprimento, enquanto as 'betinhas' favoreciam tererés mais finos, ora mais discretos, ora mais compridos e vistosos, consoante a personalidade (e tipo de cabelo) da adoptante.


Como todas as modas, no entanto, também a dos tererés acabou por se desvanecer, e de forma algo abrupta – depois de, durante meia dúzia de anos, terem sido um indicador de estilo entre uma determinada demografia, os entrançados artificiais coloridos tornaram-se tão obsoletos como as tatuagens tribais na ponta das costas, um símbolo de época que não mais voltaria a ser visto como desejável, embora nunca tenha deixado de ser activamente aceitável. Ainda assim, quem lá esteve decerto recordará aquele breve mas bem memorável período em que aqueles canudos de fita rústica colorida eram o supra-sumos da estética capilar em Portugal...


 

Quintas ao Quilo: A Frisumo e o Agora, Escolha

Nota: Este post é respeitante a Quinta-feira, 11 de Novembro de 2021.


Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


A associação a fenómenos culturais de sucesso é, desde há pelo menos três quartos de século, uma das principais tácticas publicitárias utilizadas por companhias, produtos e marcas que se procuram destacar no mercado. Dos anúncios em que os Flintstones exaltavam as virtudes de um bom cigarro, nos anos 60, até à passagem da roupa do Pai Natal de verde para vermelha (cores da Coca-Cola, responsável pela campanha que cimentou a mudança) ou simplesmente ao patrocínio de eventos desportivos, culturais ou sociais (muito bem parodiado pelos Fúria do Açúcar no hino 'Eu Gosto É Do Verão'), esta união afirma-se, desde sempre, como um dos pilares da publicidade moderna, e vem tendo cada vez mais preponderância na vida quotidiana da sociedade ocidental.


Nos anos 90, não era diferente, sendo numerosas as companhias e marcas que procuravam elevar o seu perfil através da ligação a fenómenos mediáticos, sobretudo se apreciados pelo público jovem, à época o principal visado por grande parte das mensagens publicitárias; e um dos melhores exemplos deste fenómeno foi a associação da companhia de bebidas Frisumo a um programa de televisão não directamente dirigido à referida demografia, mas que era inequivocamente apreciado pela mesma – o Agora Escolha.


A referida ligação, que tomou a forma de patrocínio, efectivou-se a partir de 1993, tendo o 'timing' da Frisumo sido perfeito no que toca a exposição mediática, já que este foi, precisamente, o ano em que o programa de Vera Roquette transitou da periférica RTP2 para o Canal 1 - então ainda o principal canal da televisão portuguesa – ganhando, assim, uma exposição significativamente maior tanto para si, como para a marca em causa e para o seu recém-criado representante, o Tampinhas, uma carica de ténis, atitude 'radical' e (mais tarde) boné para trás, como convinha a qualquer mascote que se prezasse nos anos 90. Elevado a mascote oficial do programa, o Tampinhas surgia no ecrã ao lado de Vera Roquette, com quem interagia, tanto quanto a limitada tecnologia de inícios dos 90 permitia.


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A mascote da Frisumo em destaque num dos programas da época


Uma jogada certeira, que ajudou a catapultar a Frisumo de 'apenas' mais uma fabricante de refrigerantes, menos badalada e apreciada do que rivais como a Sumol ou a própria Coca-Cola, para uma das marcas preferidas da juventude, e a transformar o Tampinhas numa das caras mais reconhecíveis da publicidade infanto-juvenil da época, a par do Urso Tuli ou das mascotes de cereais da Kellogg's e Nestlé – e, apesar de o Agora Escolha ter durado menos de um ano após a celebração do contrato com a Frisumo, ainda um dos melhores exemplos de sinergia entre marcas e veículos mediáticos da história da publicidade portuguesa


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O Tampinhas viria a tornar-se uma das principais mascotes alimentícias portuguesas

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...