Sunday, 29 June 2025

Sextas Com Style / Saídas de Sábado / Domingos Desportivos: As Grandes Superfícies de Artigos Desportivos em Portugal - Uma Luta Sempre A 'Dois'

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Sexta-feira, 27 e Sábado, 28 de Junho de 2025.


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Em tempos, falámos nesta mesma rubrica das diversas cadeias de 'fast fashion' que, desde o advento dos 'shoppings' em finais dos anos 90, têm vindo progressivamente a substituir as lojas de roupa e boutiques tradicionais. Nessa ocasião, fizemos menção passageira às duas cadeias que, nessa mesma altura, surgiram para fazer frente às lojas de desporto de bairro, acabando por se tornar a nova referência para a compra de roupa e artigos de desporto. Nada melhor, pois, do que dedicarmos este 'post' triplo a uma análise mais alargada desses estabelecimentos, ambos ainda hoje em actividade, embora apenas um ainda em território português.


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E comecemos, precisamente, por esse, estabelecido em 1997 e durante as décadas seguintes parte do gigantesco Grupo Sonae, do qual servia como 'ramo' desportivo. Falamos, claro está, da icónica Sport Zone, a grande superfície dedicada ao desporto que, durante as duas primeiras décadas do século XXI, teve o quase monopólio deste sector comercial no mercado nacional, graças à sua boa relação preço-qualidade, grande variedade de artigos à escolha (e para todos os orçamentos) e algum cuidado no 'design' das peças das suas marcas próprias - a Berg, mais dedicada à caminhada e montanhismo, e a Deeply, mais voltada para o 'surf', bodyboard e outros desportos aquáticos.


Este conjunto de características fazia com que uma visita a uma qualquer Sport Zone (e continua, até hoje, a haver uma em praticamente todas as grandes superfícies ou zonas comerciais de destaque em Portugal) fosse quase garantia de se encontrar fosse o que fosse que se procurava, e a um preço muito competitivo em relação às lojas de bairro, cujo teor independente obrigava à cobrança de valores mais altos por cada artigo. Não é, pois, de admirar que, naqueles primeiros anos do Novo Milénio, a maioria dos portugueses acorresse a uma das lojas da cadeia de Belmiro de Azevedo para colmatar as suas necessidades em termos de material desportivo.


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Este monopólio da consciência popular nacional não correspondia, no entanto, a um monopólio comercial, já que uma outra cadeia, de cariz internacional, fazia, no mesmo período, frente à Sport Zone, almejando uma presença e variedade tão grande ou maior do que esta. Tratava-se da suíça Intersport, que, a acrescer a todos os benefícios da Sport Zone, tinha ainda a vantagem de três décadas de experiência adicional, e de uma ligação a diversos eventos desportivos de monta, com destaque para os Jogos Olímpicos, dos quais era a fornecedora oficial. Assim, era também com naturalidade que os portugueses recorriam a esta cadeia como alternativa à nacional Sport Zone, tendo a Intersport gozado, mesmo, de vários anos de monopólio, no período anterior à criação da marca da Sonae.


Tendo isto em conta, foi com alguma surpresa que os portugueses assistiram à retirada da Intersport do mercado português, algures nas últimas duas décadas, cedendo definitivamente à Sport Zone a parcela maior do sector de artigos desportivos a nível nacional – um desaparecimento que se torna ainda mais surpreendente ao perceber que, em outros países do estrangeiro, a marca continua forte, e a afirmar-se como uma referência no seu sector. Em Portugal, no entanto, essa distinção pertence, hoje, à Decathlon, a 'sucessora' da Intersport na concorrência à Sport Zone, e que almejou ser mais bem sucedida do que qualquer delas, sendo hoje o principal destino dos desportistas e caminhantes amadores nacionais. A 'decana' das grandes superfícies desportivas continua, no entanto, a ter, ela mesma, um grau considerável de sucesso, assegurando que, tal como sucedia há três décadas, os aficionados de desporto portugueses continuam a ter escolha no tocante a artigos e roupas para a prática da sua actividade favorita.


 

Thursday, 26 June 2025

Quartas de Quase Tudo: As Rifas Escolares - Um Desafio Recompensante

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Quarta-feira, 25 de Junho de 2025.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Eram prática corrente sempre que era preciso auto-financiar uma viagem de finalistas ou visita de estudo, ou sempre que a escola, clube desportivo ou paróquia queria adicionar um incentivo extra para comparecer na sua festa de Natal ou em qualquer outro evento dessa índole. Ensinavam às crianças e jovens auto-confiança, ousadia, gestão de risco e o valor do trabalho, mas também a 'lei do menor esforço' e a arte de 'se safar', à boa maneira portuguesa. Eram, para uns, um frete e, para outros, um divertido desafio. E, como tantas outras coisas de que falamos nesta e noutras rubricas, caíram em desuso na era digital, a ponto de se encontrarem quase ausentes da sociedade actual - pelo menos da mais urbanizada – preteridas em favor dos mais simples e económicos sorteios digitais, por 'email', 'app' ou nas redes sociais. Falamos das rifas, aqueles pedacinhos de papel arrancados de um bloco, à maneira dos cheques ou bilhetes da altura, e que podiam deter em si o acesso a um prémio (mais ou menos) apelativo, ligado ao evento em causa e, mais que provavelmente, custeado pela própria organização.


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O desafio era sempre o mesmo: ser o primeiro a vender todas as rifas do seu bloco ou, pelo menos, conseguir vender mais do que os colegas. Em teoria, o cumprimento de tal objectivo passaria pela abordagem de estranhos que parecessem dispostos a investir no evento infanto-juvenil associado ao sorteio; para a grande maioria dos alunos portugueses da época, no entanto, tratava-se apenas de convencer os familiares (e, quiçá, um ou outro amigo mais próximo) a darem 'uma ajuda', já que poucos eram os que verdadeiramente tinham coragem de 'jogar' da forma correcta, ou seja, de falar a estranhos em plena rua ou mesmo nas lojas ou cafés do bairro. Fosse qual fosse a forma de chegar ao objectivo, no entanto, o que contava era mesmo a angariação de fundos, essencial para qualquer que fosse o objectivo da organização do sorteio propriamente dito, e que nunca deixava de ser substancial.


Conforme já referimos, no entanto, as rifas 'físicas' caíram um pouco em desuso com o avançar da era digital, tendo as Gerações Z e Alfa, presumivelmente, encontrado outra forma de ganhar carácter e auto-confiança. Para quem alguma vez levou para casa um 'caderninho' de rifas para o sorteio da escola, no entanto, aqueles 'bilhetinhos mágicos' ficarão, ainda e sempre, associados a tempos mais simples, em que tentar convencer o pai ou a mãe a contribuir para a causa em questão era a maior das suas preocupações nessa semana...

Wednesday, 25 June 2025

Terças de TV: Trinta e Cinco Anos de 'Oito e Oitenta', A Aposta Falhada de Júlio Isidro

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 24 de Junho de 2025.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


De entre todos os 'veteranos' da televisão portuguesa de finais do século XX, um, em particular, destacava-se pela sua capacidade de comunicar com as crianças e jovens ao seu nível, sem paternalismos, bem como de criar formatos televisivos apelativos para essa mesma demografia, que ele próprio se encarregava de apresentar. Falamos, claro, de Júlio Isidro, o já então 'decano' dos pequenos ecrãs (levava, à época, quase três décadas de actividade) responsável por clássicos infanto-juvenis em décadas anteriores (de 'O Passeio dos Alegres' a 'Clube Amigos Disney') e que, à entrada para os últimos dez anos do Segundo Milénio, procurava manter esse estatuto com mais um formato com tudo para agradar ao seu público-alvo. É desse programa, sobre cuja se celebram na próxima semana trinta e cinco anos, que falamos nas linhas abaixo.


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Na linha de propostas semelhantes da mesma época, mas mais ambicioso do que estas, 'Oito e Oitenta' propunha um conceito mais baseado na perícia, destreza e habilidade do que nas capacidades mentais ou conhecimentos, destacando-se assim, desde logo, da concorrência. As equipas participantes eram formadas por alunos de dois estabelecimentos de ensino distintos e sem qualquer relação entre si, que se 'degladiavam' em confronto directo pela oportunidade de ganhar os habituais prémios patrocinados, neste caso pela Coca-Cola. Por entre provas, havia também lugar aos quase obrigatórios momentos musicais, protagonizados pelos artistas mais 'na berra' (os GNR, por exemplo, partilharam nas redes sociais um vídeo da sua actuação no programa).


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Uma fórmula, portanto, que tinha tudo para agradar à demografia a que apontava, mas que, infelizmente, acabou por não ir além dos treze episódios (o equivalente a uma 'temporada', em termos televisivos) nem tendo chegado a terminar o ano no ar – um desempenho desapontante, numa época em que os concursos ficavam no ar durante períodos bastante mais prolongados, e que terá deixado o veterano Isidro a ponderar o que havia corrido mal; felizmente, a carreira do apresentador não viria a sofrer em consequência desta aposta menos ganha, continuando o mesmo a entreter os espectadores portugueses até aos dias de hoje. Já 'Oito e Oitenta' permanece 'eternizado' nos Arquivos RTP, pronto a ser 'redescoberto' por quem na altura o via - ou quem não sabia da existência, mas ficou interessado após ler as linhas acima...



Tuesday, 24 June 2025

Segundas de Sucessos: Um Duo de Vozes 'Angelicais'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-Feira, 23 de Junho de 2025.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Já aqui, anteriormente, falámos dos Excesso e D'Arrasar, duas das principais 'boy bands' portuguesas; no entanto, aquando desse 'post', deixámos de fora outros dois grandes nomes da música popular vocal da altura – os Millennium (a terceira grande 'boy band' nacional) e a dupla constituída pelos irmãos Rosado (Nélson e Sérgio) sob a denominação Anjos. Numa altura em que estes últimos voltam a estar na ribalta, devido a um processo jurídico movido contra a humorista Joana Marques, nada melhor do que dedicar algumas linhas àquela que continua a ser uma das grandes referências do seu nicho no nosso País.


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Nascidos na Margem Sul do Tejo mas com raízes alentejanas, os irmãos Rosado desde cedo principiaram a seguir o seu sonho, tendo ingressado na Academia de Música ao completarem sete anos, e dado o seu primeiro espectáculo pago quando o mais velho dos dois, Nélson, contava apenas doze anos, e o irmão apenas oito. Por essa actuação – a primeira de muitas – receberam quinze mil escudos, uma autêntica 'fortuna' para 'putos' dos anos 80, e que servia como uma espécie de antevisão do que o futuro reservava aos dois.


Ainda assim, os futuros Anjos não 'embandeiravam em arco', e continuavam a conciliar a música com a escola e o futebol, sem, no entanto, deixarem de 'agarrar' qualquer oportunidade que surgisse para mostrarem o seu talento. Foi esta abordagem que lhes permitiu, já no final da adolescência, em 1996, participar no programa 'Lugar Aos Mais Novos', da Rádio Renascença e, no ano seguinte, na 'Casa dos Artistas' da RTP, saindo vencedores de ambos – mais um augúrio auspicioso para o que esperava os irmãos a breve trecho.



Após este sucesso enquanto dupla, Nélson e Sérgio ingressaram nos Sétimo Céu, uma tentativa de 'concorrente' a Excesso e D'Arrasar que não deu certo, durando menos de um ano. Longe de se deixarem desanimar, os dois irmãos viram este percalço como uma oportunidade para, mais uma vez, trabalharem como dupla, dando oficialmente e definitivamente início ao percurso dos Anjos no panorama musical português, corriam os últimos meses do Segundo Milénio. Era a convite de uma produtora nacional que a nova dupla – cujo nome remetia a uma 'alcunha' dada aos jovens pela sua avó – surgia na 'cena' popular nacional, e seria também, quiçá, essa ligação a permitir aos irmãos gravar o primeiro álbum, 'Ficarei', logo nesse ano de 1999, estabelecendo desde logo a sua fórmula assente na 'pop' romântica, com ênfase nas vozes dos dois integrantes. Ainda antes do final do Milénio (embora já nas últimas semanas do mesmo) o álbum viria a ser relançado com uma música adicional – o mega-sucesso de Natal 'Noite Branca', em que Sérgio e Nélson Rosado surgiam em dueto com a cantora Susana.


Estava dado o mote para (à data deste 'post') duas décadas e meia de carreira, nem sempre com tanto sucesso como naqueles primórdios, mas sempre com uma audiência cativa e pronta a 'apadrinhar' cada novo lançamento da dupla, o último dos quais remete já a 2022. Ainda assim, os Anjos continuam a usufruir de fama suficiente para serem convidados a cantar o hino nacional no início de eventos – privilégio que está na base do actual processo movido a Joana Marques, e que se vai, desde Julho de 2024, 'arrastando' em tribunal. Qualquer que seja o resultado do mesmo, no entanto, o impacto dos Anjos no panorama da música romântica em português está estabelecido, e dificilmente poderá ser negado, merecendo-lhes o destaque nesta nossa rubrica dedicada a artistas musicais nostálgicos.

Monday, 23 June 2025

Sábados aos Saltos / Domingos Divertidos: Os Barcos de Brincar - A Melhor Maneira de 'Navegar' Na Imaginação

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 21 de Junho e Domingo, 22 de Junho de 2025.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


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Já aqui repetidamente mencionámos o facto de não ser, de todo, preciso grande complexidade de conceitos para entreter as crianças de finais do século XX; pelo contrário, alguns dos mais memoráveis brinquedos desse período primam pela simplicidade, bastando lembrar as 'febres' que foram as Ondamanias e os 'Diabolos'. Este paradigma estendia-se, também, a brinquedos que simulavam objectos ou elementos da vida real, estando por detrás não só de linhas como Lego Duplo, Playmobil e Pinypon, como também de brinquedos como os que abordamos neste 'post' duplo de fim-de-semana.


Isto porque, numa era em que o controlo remoto se principiava ainda a impôr, os aeromodelos eram caros e os carrinhos à escala eram a melhor opção para simular deslocações veiculares, não é de espantar que um brinquedo grande, relativamente económico e extremamente versátil (capaz de preencher tanto um Sábado aos Saltos como um Domingo Divertido) captasse a atenção das crianças. E era, precisamente, isso que acontecia com os barcos de brincar, muitos dos quais reuníam muitas ou todas as características supracitadas.


De facto, os anos 90 viam surgir nas drogarias, lojas de brinquedos e até lojas 'dos trezentos' todo o tipo de barcos à escala, desde os preparados para verdadeiramente 'navegar' ou 'velejar' (e que podiam ser testados na banheira de casa ou, pelos mais valentes, num curso de água exterior) até modelos de corda, ou outros que mais explicitamente se destinavam a um Domingo Divertido em casa, longe da água, ou até mesmo apenas à decoração de prateleiras, como o lendário e icónico barco pirata da Playmobil – isto sem falar daqueles que apresentavam 'função múltipla', afirmando-se como adequados para todas as funções supracitadas.


Fosse qual fosse a variante escolhida, no entanto, a diversão e o exercício da imaginação estavam garantidos, numa época em que a mente era mesmo o principal recurso para quem quisesse 'visitar' ou embrenhar-se em outros mundos. Talvez por isso tantas crianças, de ambos os sexos e de todas as idades, tivessem no quarto ou armário um qualquer tipo de barco de brincar, pronto a 'levantar âncora' sempre que para isso houvesse vontade...

Saturday, 21 June 2025

Sessão de Sexta: 'Léon - O Profissional' - Um 'Thriller' 'À Grande e À Francesa'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 20 de Junho de 2025.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O início dos anos 90 viram ter lugar uma mudança de paradigma no tocante ao produto cinematográfico de Hollywood, em mais do que uma vertente. Para além das mudanças na apresentação e estética dos filmes considerados 'blockbusters', assistiu-se também a um influxo de realizadores estrangeiros – nomeadamente asiáticos e europeus – que trouxeram consigo as influências do cinema dos seus respectivos países e regiões, incorporando nos seus filmes elementos estilísticos e temáticos a que os espectadores norte-americanos não estavam necessariamente habituados, e estabelecendo assim uma reputação como criadores de 'cinema de autor' que, ao mesmo tempo, conseguia ser bem aceite pelas massas. E se John Woo e seus comparsas se centravam sobretudo no estilo, com recurso à câmara lenta e inclusão de simbologia visual, o contingente europeu preferia destacar-se pela inclusão de temáticas humanistas e filosóficas naquilo que, regra geral, seria apenas 'mais um' filme de acção ou suspense. Um dos melhores exemplos desta abordagem estreou nas salas de cinema nacionais há pouco mais de trinta anos (a 28 de Abril de 1995) e granjeou imediatamente o estatuto de obra de culto para amantes de 'thrillers' mais cerebrais e menos imediatistas.


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Falamos de 'Léon – O Profissional', o 'thriller' responsável por lançar em Hollywood não só os seus dois actores principais – o francês Jean Reno e uma jovem Natalie Portman, para quem este era o primeiro papel cinematográfico – como também o seu realizador, Luc Besson, que rapidamente ficaria conhecido como um dos melhores 'balanceadores' de estilo e conteúdo do período em causa. E a verdade é que essas qualidades ficam bem vincadas neste filme, que, apesar de longe dos excessos visuais de 'O Quinto Elemento' e outros filmes do realizador, tem um estilo visual próprio, que complementa uma trama centrada, não em tiros e cenas de acção, mas no relacionamento do titular assassino a soldo com a menina que resgata após a morte dos pais – um elemento que Reno e, sobretudo, Portman (em extraordinária actuação para uma criança de apenas 13 anos e sem qualquer experiência no ramo) conseguem transmitir de forma exímia, dando ao filme um 'centro' emocional que muitas outras obras do estilo nunca chegam a almejar.


Não admira, pois, que 'Léon – O Profissional' seja ainda hoje alvo de elogios por parte da crítica especializada, e conste das listas de favoritos de muitos cinéfilos (nacionais e não só) com preferência por filmes com alguma 'substância' a ancorar os momentos de emoção e acção. Mais – nas três décadas subsequentes, o filme quase não 'envelheceu', quer do ponto de vista visual quer a nível do enredo e temáticas, continuando a constituir uma excelente base para uma Sessão de Sexta, e a justificar algumas breves linhas a seu respeito neste nosso 'blog' nostálgico.


Thursday, 19 June 2025

Quintas ao Quilo: As Variantes do Perna de Pau dos Anos 90 e 2000

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Uma das grandes curiosidades na aproximação de cada época balnear é saber que gelados a Olá vai adicionar ao seu já icónico cartaz. Seja qual fôr a abordagem – inovação, nostalgia, ou uma mistura de ambos – é certo e sabido que haverá sempre, pelo menos, um par de gelados novos no catálogo anual da marca. Neste ano de 2025, uma dessas atracções é uma versão em cone do icónico Perna de Pau – o que, por sua vez, justifica uma pequena 'revisão' das variantes deste gelado que a Olá introduziu (e fez desaparecer) nos anos da viragem do Milénio.


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A primeira destas, lançada em 1998, foi o Perna de Pau Mega – que, como o nome indicava, era tão-sómente uma versão gigante do clássico gelado de morango, baunilha e chocolate. Com cerca do dobro do tamanho de um Perna de Pau normal (aproximando-se mais às dimensões do não menos icónico Magnum) esta variação sobre o tema fez as delícias dos fãs desse ícone da Olá durannte os dois últimos Verões do século XX, antes de ser substituído, há um exacto quarto de século, pela outra variante que aqui abordaremos, nas próximas linhas.


Falamos do Perna de Pau Moeda, um gelado de 'sanduíche' em que o exterior era de chocolate, e o interior trazia o clássico recheio de morango e baunilha, permitindo assim saborear o velho favorito de forma nova e diferente. E a verdade é que esta proposta fez sucesso entre a juventude da época, a ponto de o Perna de Pau Moeda ter sido finalista da votação que, no Verão de 2024, acabaria por fazer regressar às arcas o também histórico Fizz Limão. Mesmo saindo derrotado, no entanto, a 'sanduíche' de Perna de Pau não deixou de contar com a lealdade dos seus fãs de há vinte e cinco anos, que até hoje esperam nova oportunidade de voltar a provar esta variante, descontinuada em 2003.


Qualquer que seja o formato em que é apresentada, no entanto, é óbvio que a tradicional e icónica 'fórmula Perna de Pau' encontrará sempre o seu público, nostálgico ou mais recente. É, pois, de esperar que, este ano, se vejam muitos cones 'piratas' nas mãos de miúdos e graúdos, em praias e localidades por esse Portugal fora...

Wednesday, 18 June 2025

Terças Tecnológicas / Quartas aos Quadradinhos: Os Primórdios dos 'Webcomics' - O Início de Algo Maior

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Terça-feira, 17 de Junho de 2025.


A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


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O lendário 'Penny Arcade', ainda hoje actualizado.


Hoje em dia, a criação artística com recurso a meios digitais é comum e normalizada ao ponto de quase ser expectável, em grande parte devido aos avanços tecnológicos e subsequente aumento na variedade e acessibilidade dos produtos e materiais necessários. Em finais do século XX, no entanto, a situação era diametralmente oposta, com os equipamentos disponíveis a serem tão caros quanto rudimentares e, como tal, utilizados sobretudo por aqueles que não tinham qualquer outra forma de atingir o seu objectivo, eram 'tecnocráticos' o suficiente para saber o que fazer com eles, ou reuniam ambas as condições.


Não foi, pois, sem uma certa admiração e surpresa – misturada com prazer – que os fãs de banda desenhada com acesso à Internet em finais dos anos 90 se depararam com todo um novo leque de opções de leitura em formato digital, antes acessível apenas a quem se movimentasse em meios informáticos, fizesse parte dos velhos 'fóruns', ou soubesse utilisar serviços como a Usenet. Por comparação, estas novas criações (no bom e velho formato HTML) apenas requeriam conhecimento do endereço em que se encontravam para poderem ser apreciadas, garantindo assim, desde logo, um público muito maior e mais global - ainda que a língua inglesa exclusivamente utilizada nestas obras continuasse a constituir um entrave e a restringir a verdadeira globalização.


Quem percebia inglês a um nível satisfatório, no entanto – e tinha um sentido de humor voltado para o sarcasmo e para o humor referencial, base de muitos destes chamados 'webcomics' – não podia deixar de se deliciar com criações como 'Aaron A. Ardvark', 'Captain Jim' ou o lendário 'Penny Arcade' (precursor da tematização em torno dos videojogos, hoje tão popular) e com paródias como 'Dysfunctional Family Circus' e 'Neglected Mario Characters', entre outros. E se algumas destas obras podem, à luz dos dias de hoje, parecer algo primitivas, rudimentares e até imaturas, outras há que logram subsistir ao longo das décadas e manter-se relevantes, quais 'South Park' da banda desenhada digital, como é o caso do referido 'Penny Arcade'. Quem presenciou o início do meio, no entanto, sabe que a produção e oferta de hoje pouco tem da magia inovadora e verdadeiramente entusiasmante daquelas primeiras criações, a cujo impacto e influência vários criadores modernos devem uma carreira, e que, por isso, bem merece ver-lhe dedicado mais um 'post' duplo neste nosso 'blog' nostálgico.

Tuesday, 17 June 2025

Segundas de Séries: 'No Tempo dos Afonsinhos' - Uma 'Fantochada' Histórica

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 16 de Junho de 2025.


Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Apesar de se encontrar ainda em estado extremamente embrionário relativamente a mercados como os Estados Unidos ou a Inglaterra, a produção televisiva portuguesa atravessava, nos anos 80 e 90, um período de expansão, não só no tocante a séries de acção real, como também a animações ou projectos mais experimentais, abstractos ou diferentes. E depois de já aqui termos abordado vários exemplos das duas primeiras categorias, chega agora a altura de falarmos de uma série que se enquadra na última, destacando-se vincadamente da restante produção da época e, por esse meio, tornando-se memorável.


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Falamos de 'No Tempo dos Afonsinhos', série educativa que, como o próprio nome indica, pretendia oferecer uma versão ficcionalizada e 'artística' da vida quotidiana dos portugueses primitivos (os Afonsinhos do título) nos castros onde residiam; no fundo, uma espécie de 'Astérix à portuguesa', mas com menor ênfase nos elementos fantásticos e maior preocupação com a veracidade histórica, ainda que com as devidas e compreensíveis 'licenças artísticas' destinadas a captar a atenção do público-alvo. Ainda assim, e mesmo com estes elementos ficcionalizados, a série não deixava de retratar verdadeiras ocupações dos castrenses, como a olaria ou o fabrico artesanal do pão.


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Para além desta abordagem diferenciada, 'No Tempo dos Afonsinhos' destacava-se, ainda, pelo uso exclusivo de marionetas para criar e retratar os seus personagens e histórias – um método que já não era novidade para as crianças portuguesas na fase pós-'Rua Sésamo', mas que, aqui, é utilizada de forma talvez até mais extensa do que no supracitado programa, constituindo meio único de veicular as aventuras dos Afonsinhos, eles mesmos inspirados nos tradicionais 'cabeçudos' presentes em festas populares, e nos personagens de cerâmica típicos do Norte português. E ainda que esta escolha visual não seja para todos – lá por casa, por exemplo, evitava-se activamente esta série – o mesmo não deixa, ainda assim, de ser original o suficiente para se tornar memorável, e trazer lembranças tão logo se veja mencionado o título do programa.


Apesar da sua curta duração, a série produzida pela RTP-Porto em 1993 fez, pois, durante os seus poucos meses no ar, o suficiente para 'cravar' um lugar na memória remota das gerações 'X' e 'Millennial' portuguesas, e deixar na mesma imagens e recordações, sejam mais ou menos positivas. Para quem quiser reviver algumas dessas memórias, aqui fica o link para uma playlist do YouTube com alguns episódios.


Monday, 16 June 2025

Domingos Desportivos: Aventuras e Desventuras de Lula

NOTA: Este 'post' é respeitante a Domingo, 15 de Junho de 2025.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Veio com selo de jogador de Selecção, para jogar num histórico, e acabou na então II Divisão B nacional; mais tarde, passou 'despercebido' por um grande, singrou noutro, e foi convidado a representar a Selecção Nacional Portuguesa, apesar de ter nacionalidade brasileira; já em fim de carreira, ainda foi campeão da Liga de Honra com apenas uma mão-cheia de aparições; pelo meio, gravou o seu nome nos anais da História do futebol português, tanto pelo talento como pelo caricato percurso que empreendeu. Falamos de Luiz Bonfim Marcos, mais conhecido como Lula, o 'centralão' que, ao longo dos anos 90, impressionou pela sua estatura e capacidade de 'mandar' no sector mais recuado da defesa de vários clubes históricos dos campeonatos nacionais, quer ao nível mais alto, quer em contextos mais discretos.


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Com a camisola do Famalicão.


'Caído de pára-quedas' em Famalicão em 1988 – sem nada saber sobre a localidade, ou mesmo o país para onde vinha jogar – Lula não começou da forma mais auspiciosa a sua estadia naquele que se tornaria o seu país de acolhimento, sendo 'apanhado' nas teias de um caso de secretaria que atiraria o 'Fama' – cujo plantel havia sido formatado para competir no patamar principal – para a II Divisão B. Para seu crédito, o brasileiro não se queixou; antes, tomou parte activa no restabelecer da equipa aos escalões profissionais, tendo o clube, logo no ano seguinte, 'saltado' a então II Divisão de Honra para de novo se integrar entre os maiores nomes do desporto-rei em Portugal. Cumprindo a promessa feita aos jogadores, a direcção famalicense libertou Lula e dois dos seus compatriotas, tendo o defesa regressado ao seu país-natal para jogar no Sport Recife.


Durou apenas alguns meses, no entanto, esse regresso ao Brasil, sendo que, no dealbar dos anos 90, Lula regressava a Famalicão, por pedido expresso de Abel Braga, para se afirmar como peça-chave dos famalicenses durante as próximas duas épocas. Tais eram o seu talento e potencial, de facto, que o jogador foi mesmo equacionado para jogar pela Selecção...portuguesa, provando que a naturalização de jogadores estrangeiros (sobretudo brasileiros) remonta a muito antes de Deco. E apesar de esse pedido, em particular, ter sido recusado, Lula ficou mesmo no 'radar' dos dirigentes portugueses, sobretudo do seleccionador Carlos Queiroz, que chamaria mesmo o jogador para jogar no Sporting após assumir o comando técnico dos 'Leões'. Por essa altura, já Lula era campeão paulista e da Taça Libertadores, pelo São Paulo, mas ainda assim, aquiesceu em vir jogar para aquele que era um dos principais clubes do seu 'outro' país.


Mais uma vez, no entanto, o azar bateu à porta, já que Lula foi incapaz de fazer uso da sua dupla nacionalidade, contando como estrangeiro num plantel já no limite imposto pelas regras de então; o central acabou, assim, por ficar cinco meses sem jogar em Alvalade, antes de procurar relançar a carreira com uma mudança para Leiria. Esta estratégia resultou e, longe de polémicas e azares, o brasileiro foi capaz de relançar a carreira, tanto nessa época na cidade do Lis como na seguinte, em que regressou à capital para ser peça-chave de outro histórico nacional, o Belenenses, onde partilhou plantel com futuros 'grandes' como Ivkovic, Paulo Madeira ou Mauro Airez, e onde encontrou maior prazer em jogar, de entre todos os clubes da sua carreira.


As suas boas exibições ao longo dessas duas épocas voltaram, naturalmente, a valer-lhe o interesse de um 'grande', desta vez mais próximo da sua 'base' original em Famalicão. Lula viria mesmo, assim, a vestir a camisola listada de um dos principais clubes de Portugal...só que listada de azul, e não de verde. Seria, de facto, ao serviço do FC Porto, e não do Sporting, que o brasileiro passaria as duas temporadas seguintes, embora sem nunca se afirmar, e não chegando às duas mãos-cheias de presenças pelos então hegemónicos 'Dragões' nortenhos – números, ainda assim, suficientes para o sagrarem bicampeão nacional, com participação em dois dos inéditos cinco títulos ganhos pelo conjunto da Invicta durante esse período, mas que não chegaram para evitar que o jogador rumasse novamente ao Brasil em finais da época de 1997-98, desta feita para representar o Vitória Esporte Clube.


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Numa das escassas aparições que fez pelo FC Porto.


Não terminaria aí, no entanto, a ligação de Lula a Portugal, já que, nos primeiros meses do Novo Milénio, o defesa regressaria ao nosso País para ganhar a edição de 1999-2000 da II Liga ao serviço do Paços de Ferreira, pesem embora as apenas oito presenças com a camisola dos 'castores'. Só então o brasileiro diria, definitivamente, adeus a Portugal, para rumar à 'reforma dourada' dos campeonatos chineses, onde actuaria ainda durante mais três épocas e meia, ao serviço de dois clubes, antes de pendurar definitivamente as botas, em 2003, já com trinta e sete anos praticamente completos. Como registo de uma carreira que não conta com quaisquer cargos técnicos, fica um percurso repleto de altos, baixos, 'carambolas' e momentos inusitados, mas que – talvez por isso mesmo – garante a Lula um lugar na galeria dos 'figurões' dos campeonatos de futebol portugueses de há trinta anos; nem bem Grande dos Pequenos, nem bem Lenda da Primeira Divisão, mas ainda assim mais que merecedor de espaço nestas nossas páginas, por ocasião dos seus cinquenta e nove anos. Parabéns, e que conte muitos.

Sunday, 15 June 2025

Saídas ao Sábado: O Zoo Lourosa, A 'Alternativa Nortenha' Para A Exibição de Vida Selvagem.

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 14 de Junho de 2025.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


No tocante a parques zoológicos, as referências no Portugal dos anos 90 eram claras e óbvias, com o Jardim Zoológico de Lisboa, o Badoca Safari Park e o Zoomarine a centrarem as atenções da maioria dos entusiastas da vida selvagem. Tal não significava, no entanto, que não houvesse também, em território nacional, espaço para uma série de outras instalações, mais pequenas e discretas do que os 'três grandes', mas capazes, como estes, de encontrar o seu público – em especial nos concelhos mais a Norte, que não dispunham de qualquer grande infra-estrutura zoófila de origem não-natural, e que, como tal, se encontravam particularmente receptivos a este tipo de local.


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Foi, talvez, para explorar esse nicho de mercado que, há cerca de trinta e cinco anos – nos primeiros meses da década de 90 – abria em Lourosa, no concelho de Santa Maria da Feira, no Grande Porto, um parque não apenas zoológico, mas ornitológico. De facto, o Zoo Lourosa destacava-se da 'concorrência' mais 'sulista', desde logo, por se dedicar exclusivamente à conservação e exibição de espécies avícolas, o que limitava o seu apelo mas, ao mesmo tempo, ajudava a outorgar-lhe uma identidade única e original por comparação aos espaços já existentes. Os habitantes do Norte poderiam, assim, não ter ainda ensejo de ver elefantes, girafas ou gorilas, mas podiam, pelo menos, admirar uma enorme variedade de aves, que hoje ascende a mais de meio milhar de indivíduos, representantes de cerca de uma centena e meia de espécies.


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O sucesso do Zoo Lourosa e respectiva missão foi, aliás, suficiente para justificar a aquisição do espaço pela Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, volvida cerca de uma década sobre a sua abertura, e com o intuito de assegurar que eram cumpridas as normas comunitárias da União Europeia relativas à exibição pública de espécies animais, impedindo assim potenciais problemas ao espaço. Foi também nesse mês de Setembro de 2000 que o Zoo ganhou aquela que ainda é a sua mascote, com a adição ao logotipo de um casuar, espécie de pássaro terrestre australiano conhecido pela sua icónica crista, penas farfalhudas e temperamento difícil.


Ao contrário de muitos espaços aqui relembrados – mas à semelhança dos restantes parques zoológicos nacionais – o Zoo Lourosa ainda hoje subsiste, agora já sob nova gerência – da associação Feira Viva, Cultura e Desporto – mas com a mesma missão e características do que quando abriu, há três décadas e meia, permitindo aos entusiastas de aves do Norte do País ver algumas das suas espécies exóticas favoritas 'ao vivo e a cores', sem para isso ter que despender o dinheiro associado a uma deslocação ao Sul. Esperemos, pois, que o espaço se mantenha ainda por muitos e bons anos como principal alternativa 'nortenha' na 'cena' zoológica e zoolófila portuguesa...

Friday, 13 June 2025

Sextas com Style: Os Óculos de Aviador - 'Estilo' Intemporal

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


São, ainda hoje, um dos ícones mais imediatamente associados com a estética dos anos 80 e primeira metade dos anos 90, sobretudo se vestidos juntamente com um blusão de ganga ou cabedal; a verdade, no entanto, é que, qualquer que seja o 'look' que os acompanhe, continuam até hoje a ter um impacto visual único, que explica a sua continuada popularidade. Falamos dos óculos de aviador, o formato por excelência das décadas supramencionadas, mas que, mesmo depois da 'chegada' dos óculos escuros tipo 'visor' (os chamados, em Inglês, 'wrap-arounds') nunca deixaram de ter procura, tanto junto do público mais alternativo que sempre os favoreceu, como também por parte de uma demografia mais seguidora da moda, que não deixava de apreciar as suas qualidades intemporais.


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Tom Cruise e 'Top Gun' estiveram entre os principais responsáveis pela divulgação deste acessório na década de 80.


Popularizados na década de 80 por filmes como 'Top Gun' ou 'O Exterminador Implacável' e normalmente associados à conceituada marca Ray-Ban, estes óculos não ficavam, obviamente, limitados a apenas esse fabricante, tendo, ao longo dos anos, surgido as inevitáveis derivações, sucedâneos e 'imitações baratas', de forma a disponibilizar este acessório para todos os públicos e 'orçamentos'. Não é, pois, de surpreender que muitos jovens da época tivessem (e usassem) um par de 'aviators', ainda que esse número tenha progressivamente diminuído à medida que se aproximava o Novo Milénio, e que filmes como 'Matrix', 'Blade' ou 'Equilibrium' alteravam a estética e percepção dos óculos escuros junto do público de menor idade.


Mesmo durante esse período, no entanto, os óculos Ray-Ban e seus derivados nunca deixaram de ser associados a uma estética 'cool' e 'retro', centrada principalmente nos 'motoqueiros' (entre os quais retêm até hoje a popularidade) e nos aviadores dos quais tiravam o seu nome. Essa percepção sobrevive, aliás, até aos dias que correm, em que os 'aviators' continuam a fazer parte integrante tanto de estilos de vida como apenas de 'looks' com tendência 'vintage'; razão mais que suficiente para, nestas breves linhas, recordarmos os tempos áureos deste acessório, nos já longínquos anos anteriores à viragem do Milénio.

Thursday, 12 June 2025

Quintas no Quiosque: A Revista Mais Misteriosa da Internet...Desvendada!

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Numa edição anterior desta rubrica, abordámos aquela que parecia ser a revista mais misteriosa da Internet, sobre a qual existia, apenas e tão sómente, uma foto num leilão do OLX. Por alturas desse 'post', procurámos especular sobre o que versaria a revista, e qual seria a sua origem e contexto, sem, no entanto, obtermos grandes resultados. Felizmente, o leitor nosso homónimo (e 'historiador' de serviço sempre que erramos ou não compreendemos algum detalhe) Pedro Serras, autor do blog Desumidificador, fez o favor de providenciar informação que nos permite, finalmente, contextualizar esta revista no panorama da imprensa juvenil nacional de finais do século passado. Assim, ainda que com vários meses de atraso (desculpa, 'outro' Pedro!) aqui ficam mais algumas linhas que resolvem, finalmente, o 'mistério' da revista 'Juvenil'.


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E a verdade é que, com estas informações, a falta de informações e obscuridade da revista se tornam fáceis de explicar. Isto porque a 'Juvenil' era uma publicação nos mesmos moldes da 'Nosso Amiguinho', isto é, ligada a um grupo religioso (no caso, os Salesianos) e adquirível apenas por assinatura no seio da própria instituição. A diferença, em relação à congénere brasileira, prendia-se não só com a longevidade (tendo sido fundada ainda em finais da década de 60, e publicada ininterruptamente em formato físico durante quase cinquenta anos, até 2016, altura em que passou a ter presença apenas digital) mas também com a faixa etária a que se destinava, e que fica bem patente no título da própria revista; isto porque, se a 'Nosso Amiguinho' era declaradamente direccionada a crianças em idade de instrução primária, a 'Juvenil' apontava ao público pré-adolescente (entre os 11 e os 14 anos), havendo por isso uma maior preocupação em esclarecer dúvidas relativas a essa etapa da vida humana, e em prestar auxílio, ainda que remoto e impessoal, a quem a atravessava.


Para 'aliviar' estas temáticas mais sérias, a revista trazia ainda os habituais passatempos, páginas de anedotas e saúde, horóscopos, traduções de letras de músicas dos 'tops', secções de correio, e uma peça de teatro para ler ou encenar, se assim se desejasse, aproximando-a assim de publicações homólogas do mercado laico, como a 'Super Jovem', e garantindo o engajamento do seu público-alvo, por muito assumidamente restrito que o mesmo fosse. Sob este formato, a revista foi capaz de deixar marca em, pelo menos, três gerações de adolescentes, sendo mesmo possível que pais e filhos da mesma família tenham, ambos, lido a revista durante o seu tempo de juventude; um feito notável, e que torna esta já não tão misteriosa revista ainda mais merecedora do destaque nestas nossas páginas. Resta, pois, deixar mais uma vez os nossos agradecimentos ao Pedro, sem o qual esta 'continuação' não teria sido possível, e a 'Juvenil' teria continuado tão misteriosa e causadora de perplexidade como antes...

Wednesday, 11 June 2025

Quartas de Quase Tudo: O Prémio de Literatura Infantil Adolfo Simões Muller - Uma Aposta (Infelizmente) Falhada

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


A literatura infantil atravessava, em finais dos anos 80 e inícios dos 90, um dos seus períodos áureos, com séries como 'Uma Aventura' ou 'O Clube das Chaves' e autores como Alice Vieira a fazerem as delícias dos mais jovens. Não é, pois, de admirar que esse período tenha, também, visto surgir no mercado muitos novos escritores de contos para crianças, ansiosos por se mostrar ao público-alvo. E essa tarefa viria a ficar facilitada quando, logo nos primeiros meses da última década do século e Milénio, a Editorial Verbo lançava um prémio literário para, simultaneamente, divulgar autores principiantes e homenagear um icónico nome do meio, falecido pouco antes, em 1989.


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O livro vencedor da primeira edição do Prémio.


Apesar das boas intenções, no entanto, o Prémio Adolfo Simões Muller (ou, pelo menos, a primeira configuração do mesmo) apenas viria a ter quatro edições - ou, pelo menos, assim rezam os registos actualmente disponíveis. As três primeiras teriam lugar em anos consecutivos – 1991, 1992 e 1993 – e a quarta já no dealbar do Novo Milénio, e uma década após a criação do Prémio. Nessa última selecção, o livro vencedor terá sido Rubens e a Companhia do Espanto em O Caso da Mitra Desaparecida de António Garcia Barreto, enquanto que nos outros anos os vencedores foram Ana Maria Meireles, com 'O Mistério dos Cães Desaparecidos' (em 1991), Luís da Silva Pereira com 'A História de Davidim' (em 1992) e 'Este Pinhal Tão Verde' de Graça Matos de Sousa (em 1993, ano em que pela primeira vez se atribuíram menções honrosas, no caso duas, a 'Três Semanas Com a Avó' de Ana Saldanha e 'A Vida É Uma Grande Ideia' de Carla Oliveira.) Estes livros foram, posteriormente, editados pela própria Verbo sob o cabeçalho 'Grande Prémio'.


Como se pode ver pelo elenco de nomes no parágrafo anterior, este prémio não logrou concretizar o seu objectivo de lançar novos nomes no panorama da escrita infantil em Portugal, sendo Garcia Barreto o único nome conhecido da lista, e já 'famoso' antes de vencer a distinção em causa. Assim, não é de admirar que a Verbo tenha rapidamente desistido da iniciativa – tendo, no entanto, o nome da mesma sido adoptado por um prémio literário muito semelhante atribuído pela Câmara Municipal de Sintra. É através deste que o nome e legado de Adolfo Simões Muller sobrevivem hoje em dia, tendo a primeira tentativa 'falhada' caído no esquecimento...isto é, até termos, com as linhas anteriores, reavivado a memória dos jovens leitores da época, os quais poderão, inclusivamente, ter memórias nostálgicas quanto a algum dos livros premiados durante a efémera vida do prémio da Verbo. Fica a eles dedicada esta breve recordação.

Tuesday, 10 June 2025

Terças de TV: Trinta Anos de 'Sempre A Abrir', Mais Um Bloco Infantil 'Esquecido Pela Net'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Os anos 90 representaram, na televisão portuguesa, a era por excelência dos programas de variedades para crianças. Já parte integrante da cultura infantil em outros países, foi apenas nos últimos anos do século XX que este tipo de programas verdadeiramente penetrou na consciência colectiva juvenil do nosso País, muito graças a uma série de icónicos e ainda hoje saudosos representantes, com os 'rivais' da SIC e TVI – 'Buereré' e 'Batatoon' – à cabeça, mas também 'A Casa do Tio Carlos', 'Mix Max', 'A Hora do Lecas', 'Clube Disney', 'Oh! Hanna-Barbera', 'Um-Dó-Li-Tá' ou as diversas permutações de 'Brinca Brincando' a conseguirem captar a atenção do público-alvo.


Com tanta e tão ilustre concorrência, não é, no entanto, de admirar que alguns programas deste tipo tenham acabado por 'perder a corrida' pelos corações dos jovens lusitanos, e ficado um pouco mais 'esquecidos' na memória nostálgica dos 'millennials' nacionais. É, precisamente, sobre um desses programas, estreado há pouco mais de três décadas na RTP1, que versam as próximas linhas.


Emitido pela primeira vez a 5 de Junho de 1995, 'Sempre A Abrir' tinha tudo para agradar à sua demografia, do título 'radical' (ou não estivéssemos em meados da década 'bué da fixe' por excelência) a um apresentador carismático, no caso Victor Emanuel, e uma selecção apelativa de desenhos animados, com destaque para a insólita adaptação em 'anime' de 'Música No Coração', à qual já aqui dedicámos espaço. O horário das tardes era, também, conducente ao sucesso, sendo ideal para quem chegava da escola e procurava desenhos animados para acompanharem o seu pão com Tulicreme e copo de leite com chocolate.


É, pois, difícil de perceber a razão pela qual 'Sempre A Abrir' falhou enquanto espaço infantil na era pré-hegemonia de Ana Malhoa e Batatinha. O programa tinha tudo para 'dar certo', e, no entanto, é hoje muito menos lembrado pela demografia que então constituía o seu público do que qualquer dos exemplos acima elencados – isto apesar de se ter logrado manter no ar durante três anos, uma eternidade no contexto em causa, e ocupado tanto a faixa das tardes de semana quanto o não menos apetecível bloco dos Sábados de manhã. A verdade, no entanto, é que, seja por que razão fôr, este bloco infantil se encontra, hoje, praticamente Esquecido Pela Net, sendo difícil conseguir informações ou material relativo ao mesmo, ou mesmo uma imagem ou vídeo para complementar este 'post'; de facto, passe o trocadilho, quase parece que o programa foi 'Sempre A Abrir' rumo ao esquecimento total. Nada que invalide que, na medida do possível, lhe procuremos dedicar algumas linhas nesta nossa rubrica dedicada à televisão nacional noventista.

Monday, 9 June 2025

Segundas de Sucessos: A Primeira Passagem dos Guns'n'Roses Por Portugal

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Numa altura em que Portugal ainda 'ecoa' com o impacto da passagem dos Guns'n'Roses pela normalmente pacata cidade de Coimbra, nada melhor do que recordamos a primeira (e não menos memorável, embora por razões diferentes) visita do grupo de Axl Rose a Portugal, há pouco mais de trinta e três anos, a 2 de Julho de 1992.


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Embora a sua formação e ascensão se tenha dado em finais dos anos 80, em inícios da década seguinte, a 'trupe' californiana tinha ainda reputação e renome suficientes para encher o antigo Estádio José Alvalade (que ainda nem sonhava em ser XXI, e que era então um dos locais mais frequentes para grandes concertos na capital, onde também tocariam GNR e Bon Jovi, entre muitos outros) com cerca de cinquenta mil pessoas, e gerar entre os jovens portugueses da época - que só conheciam a banda dos discos, videoclips no 'Top +', reportagens no lendário 'Blitz', e eventualmente um ou outro álbum pirata - aquele tipo de burburinho que apenas os artistas mais famosos e conceituados são capazes de suscitar. Todos antecipavam uma grandiosa noite de 'rock'n'roll' pleno do tipo de excessos característicos de Axl e companhia, e a aproximação da data apenas fazia crescer o entusiasmo e excitação por ver de perto aqueles que eram, a par dos Bon Jovi e dos recém-consagrados Nirvana, as maiores estrelas de 'rock' da época.


A noite haveria, no entanto, de se saldar em desilusão para os cinquenta milhares de 'almas' que 'maltrataram' o antigo relvado do Sporting Clube de Portugal, já de si 'estafado' após uma longa época de futebol. Entre a prestação frouxa dos Soundgarden (a antítese completa do que eram os Guns, tanto a nível musical como de atitude perante a vida) e o acidente que viria a ditar o rumo do restante evento, o resultado final acabou por não encher as medidas ao público, 'salvando-se' a movimentada actuação dos Faith No More, também eles uma escolha algo peculiar para banda de abertura. E seria mesmo Mike Patton o 'culpado' pelo que se seguiria, ao incentivar a audiência a atirar-lhe a ele as garrafas de plástico que arremessavam entre si. O público não se fez rogado, 'inundando' o palco de 'projécteis' com 'recheio' e dando muito que fazer aos funcionários do evento. Tanto assim que, sem mãos a medir, um dos ditos-cujos acabaria por se 'esquecer' de uma garrafa em palco, na qual Axl Rose viria a tropeçar logo no início do concerto principal, 'estatelando-se' ao comprido.


Para seu crédito, o vocalista não se deixou logo dominar pelo seu famoso 'génio', cantando ainda dois temas deitado no chão. No entanto, acabaria mesmo por 'desaparecer' para as traseiras do palco durante cerca de dez minutos, obrigando os colegas da formação clássica dos Guns a improvisar. Mesmo após a volta, Axl vinha mal-disposto, e chegaria mesmo a parar mais uma vez o concerto ao ver alguém atirar um 'very light'. Ao contrário do que acontecera em outras ocasiões, no entanto, os Guns terminariam mesmo o seu 'set', tocando cerca de duas horas; no entanto, os percalços vividos afectariam mesmo a 'performance' dos músicos, a qual ficaria aquém das expectativas de quem pagara bom dinheiro (cinco mil escudos, uma 'fortuna' para a época) para ver as super-estrelas de 'rock' norte-americanas.


Ainda assim, e apesar do ligeiro desapontamento, quem esteve no 'velhinho' Alvalade naquela noite de Verão de 1992 teve a oportunidade de ver uma das maiores bandas de sempre, no seu auge e com a formação clássica – algo que, meros anos depois, se afiguraria impossível, e que acaba por fazer valer bem o preço do bilhete, mesmo para um concerto 'arrasado' 'a posteriori' pela crítica especializada, e que esteve longe de ser um clássico à altura da fama do nome que o encabeçava. Para quem quiser recordar, fica abaixo o vídeo do concerto completo, que permite 'mergulhar' em toda uma outra era...


Sunday, 8 June 2025

Domingos Desportivos: Lendas da I Divisão - O 'Outro' António Oliveira do Benfica

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Independentemente de quaisquer preferências clubísticas, há que reconhecer que o Sport Lisboa e Benfica teve, nos anos 80 e inícios de 90 (antes do início da década de hegemonia do Futebol Clube do Porto) uma série de grandes equipas, com nomes que se viriam a tornar símbolos do futebol em Portugal, e a estabelecer carreiras não menos honrosas em cargos técnicos após 'pendurarem as botas'. De facto, a profundidade dos plantéis dos 'encarnados' durante esta época fazia com que mesmo os jogadores menos 'notáveis' das equipas das águias lograssem atingir os píncaros do desporto-rei em Portugal, e estabelecer-se como nomes sonantes dos campeonatos nacionais até mesmo após o seu período áureo. É precisamente, esse o caso com o jogador de que falamos este Domingo, por ocasião do seu sexagésimo-sétimo aniversário, e que foi 'grande' não só do Benfica, como também de dois outros históricos do futebol nacional.


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Nascido na vila da Moita, na Margem Sul do Rio Tejo, e formado no 1º de Maio Sarilhense e no Rosairense, António Henriques Fonseca de Jesus Oliveira (conhecido apenas pelo seu último apelido) iniciou a carreira sénior no clube hoje conhecido como Fabril do Barreiro, que na altura (finais dos anos 70) adoptava a denominação de duas das principais unidades industriais da área. Ali jogaria por quatro anos, sempre como peça importante no seio da defensiva (ocupando a extinta posição de líbero) até almejar dar um 'salto' considerável – directamente para a então chamada Primeira Divisão nacional – ao ser contratado pelo Marítimo, em 1982.


Durou apenas uma época a primeira experiência de Oliveira no Arquipélago da Madeira, no entanto, já que, após uma boa época, o líbero era sondado e contratado pelo Benfica, subindo assim mais um patamar na sua carreira sénior. E a verdade é que, ao contrário do que é habitual, a camisola não 'pesou' ao defesa, que, ao longo dos seus quatro anos de águia ao peito, se viria a afirmar como peça importante (sendo titular quase indiscutível em duas das temporadas que passou na Luz) e a contribuir para dois títulos de campeão nacional, três Taças de Portugal e uma Supertaça.


Seria, também, durante esta fase da sua carreira que Oliveira lograria atingir a honra máxima, ao ser convocado para a Selecção Nacional portuguesa, primeiro para um particular frente ao Brasil, em Coimbra (no dia do seu vigésimo-quinto aniversário, portanto, há exactos quarenta e dois anos) e depois para disputar o Mundial de 1986, onde participaria em todos os apenas três jogos da equipa das Quinas. No total, o jogador viria ainda a somar mais cinco internacionalizações ao longo da sua carreira, a última das quais no âmbito da qualificação para o Mundial de Itália '90, já depois de ter deixado o Benfica para representar, novamente, os verderrubros insulares do Clube Sport Marítimo, aos quais regressaria em 1987, e com os quais veria, ainda, o dealbar da última década do século XX.


Haviam decorrido apenas alguns meses do ano de 1990, no entanto, quando Oliveira deixava pela última vez o Estádio dos Barreiros para rumar mais uma vez ao continente, desta vez a Aveiro, 'casa' da última equipa que viria a representar como profissional. Ao serviço do Beira-Mar, o libero (tornado defesa-central com a extinção táctica da posição) faria ainda quatro épocas, sempre como peça-chave quase indiscutível, antes de 'pendurar as botas' a nível profissional (representaria ainda, a nível amador, os veteranos de ainda outro histórico, o Clube Sport Campomaiorense, que, anos depois, viria a ser o adversário do Beira-Mar na final da Taça de Portugal de 1998-99) aos trinta e seis anos de idade,


Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos (incluindo um seu homónimo, também jogador do Benfica), 'este' António Oliveira não transitou, após a conclusão da carreira, para qualquer cargo técnico, preferindo ser lembrado apenas como esteio defensivo do Benfica numa das suas melhores épocas, e 'colega' mais discreto de Bobó, Chalana, Rui Águas, Bento, Silvino e outros nomes lendários das 'águias' lisboetas. Só esse estatuto, no entanto, já lhe outorga o estatuto de 'lenda' da Primeira Divisão, o qual é cimentado pelas suas passagens pelos outros dois clubes do principal escalão que representou, sempre de forma honrada e honrosa. Razão mais que suficiente, pois, para lhe dedicarmos esta 'prenda de anos', restando-nos desejar-lhe as maiores felicidades, e que conte ainda muitos mais anos felizes de vida.

Saturday, 7 June 2025

Saídas ao Sábado: As Lojas Grula - Símbolos de Um Comércio Desaparecido

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Já aqui por diversas vezes recordámos estabelecimentos outrora comuns no tempo do comércio de proximidade, mas que a expansão e globalização das grandes cadeias de supermercados, juntamente com a emergência das grandes superfícies, veio extinguir, ou, pelo menos, reduzir substancialmente em presença e impacto, das leitarias às drogarias tradicionais e das lojas de desporto às lojas de brinquedos. Chega, agora, a hora de juntar mais um tipo de loja a essa lista – no caso, as mercearias tradicionais e, especificamente, aquela que era uma das maiores cadeias dentro do ramo, as lojas Grula.


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Um pacote de café com a marca da cadeia...


Com forte presença no sector das mercearias de bairro (muitas das quais exibiam o seu símbolo na porta ou janela, informando os clientes de que a sua loja local fazia parte da cadeia) nos anos 80 e 90, o grupo Grula deixava a sua marca não só através dos produtos e atendimento de qualidade, mas também (de forma literal) em pacotes de açúcar providenciados nas lojas que tinham café, ou ainda em calendários e outros brindes publicitários típicos da época. Esta estratégia permitia, por sua vez, que grande parte da população portuguesa passasse a associar a Grula ao comércio alimentar de proximidade, cimentando assim a marca na consciência popular do Portugal de finais do século XX.


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...e o calendário de 1992 da mesma.


A 'fama' (e proveito) de que disfrutavam as suas lojas permitiu, por sua vez, ao grupo comercial crescer, absorvendo a Coopertorres e Torrestir e adoptando vários outros nomes comerciais dentro do seu ramo, embora nenhum com tanta expressão quanto a Grula; infelizmente, este crescimento acarretou inevitavelmente consigo um acréscimo de dívidas, que acabou por ditar o fim do grupo, em 2014. Tal extinção não ditou, no entanto, o fim das marcas que o consórcio controlava, sendo que a Torrestir continua em actividade, e a designação Grula surge ainda no nome de uma ou outra mercearia por esse Portugal fora, embora já de forma muito mais esporádica que anteriormente.


Quem conheceu as lojas Grula no seu auge, no entanto, recordar-se-à de as visitar com a família, em Saídas ao Sábado em busca de frutas e legumes frescos, e do atendimento atencioso e personalizado que caracterizava tantas das lojas daquela era, hoje já infelizmente distante. Razão mais que suficiente para recordarmos esta icónica cadeia comercial do Portugal de outros tempos...

Friday, 6 June 2025

Sessão de Sexta: 'Duas Vidas e o Rio' - O 'Despontar' de Brad Pitt

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Na última edição desta rubrica, celebrámos os trinta anos da estreia nacional de 'Lendas de Paixão', um dos filmes que ajudaram a consagrar Brad Pitt enquanto actor principal. Nessa ocasião, mencionámos também um projecto anterior do galã, tão ambicioso e bem-recebido quanto aquele, e em que havia sido dirigido por Robert Redford; nada melhor, portanto, do que nos debruçarmos agora sobre esse filme.


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Produzido em 1992 e adaptado da obra semi-autobiográfica de Norman McLean, 'Duas Vidas e o Rio' (no original, 'A River Runs Through It') traz Pitt no papel do mais novo dos dois filhos de um pregador presbiteriano do Montana rural, no caso o mais rebelde, por oposição ao irmão mais sensato (e autor da obra que serve de base ao filme), interpretado por Craig Shaeffer. O principal fio condutor da relação dos dois, tanto entre si como com o pai – que o filme explora ao longo de um período de cerca de trinta anos – é o gosto pela pesca, que levam a cabo no titular rio que passa perto da sua propriedade.


Como a sinopse dá a entender, trata-se de um filme minimalista, centrado nos relacionamentos dos três protagonistas, e contado num ritmo deliberado – uma descrição algo antagónica aos 'blockbusters' tanto da época como da actualidade, que privilegiam a acção, mas que permite a Pitt mostrar todas as qualidades que já nessa época possuía, ob a tutela de um antigo actor (e realizador mais que competente) como o é Redford. De facto, trata-se de um de uma série de papéis que o jovem actor aceitava na esperança de mostrar ser mais do que uma 'cara bonita' – o que, infelizmente, não impediria totalmente a sua estigmatização como sendo isso mesmo, a par do contemporâneo Leonardo DiCaprio, com quem rivalizava nos corações das adolescentes de então, e que aceitara já, ele próprio, projectos mais personalizados, como sejam 'Gilbert Grape' e 'A Vida Deste Rapaz'. Quanto a Pitt, partiria deste filme para 'Lendas de Paixão' e, daí, para uma carreira, em larga medida, bem menos 'comercial' do que poderia parecer à primeira vista, com filmes como 'Clube de Combate' e 'Seven – Sete Pecados Mortais' a sobreporem-se às inevitáveis comédias românticas n sua filmografia. Foi com 'Duas Vidas e Um Rio', no entanto, que Pitt principiou a delinear o 'caminho' que o tornaria numa das maiores estrelas de Hollywood, o que constitui razão suficiente para dedicarmos umas breves linhas a este excelente filme.

Thursday, 5 June 2025

Quintas de Quinquilharia: Os Caleidoscópios - Uma Quinquilharia 'Iluminada' e 'Brilhante'

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


A estimulação sensorial (incluindo visual) é das primeiras faculdades a ser desenvolvida em qualquer criança humana, tendendo as mesmas a reagir de forma entusiástica a padrões ou cores vivas, como as que adornam a maioria dos brinquedos para recém-nascido ou bebé. Não é, pois, de surpreender que uma versão ligeiramente mais 'avançada' do mesmo conceito fizesse as delícias das crianças portuguesas dos anos 80 e 90, sob a forma de uma pequena 'quinquilharia' que, quando investigava, revelava padrões fascinantes.


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Apesar de não serem, de todo, exclusivos desta época (as gerações mais antigas terão utilizado versões menos 'de bolso' em certos contextos psicotrópicos, ou apenas de festa) os caleidoscópios estavam, à entrada para a recta final do século XX, ainda algo em voga entre as crianças lusitanas, podendo ser encontrados com relativa facilidade tanto em lojas de brindes como dos trezentos. A versão noventista deste estimulante visual surgia, concretamente, sob a forma de uma pequena luneta, cujo vidro era moldado para, sob contacto com a luz, revelar um efeito visual ou colorido apelativo, que podia depois ser movimentado ou controlado através de um mecanismo rotativo situado em torno da lente. Um daqueles conceitos aparentemente simples mas que, na era pré-digital, ajudavam a 'matar' uns bons momentos, e podiam facilmente ser partilhada com os amigos e familiares, para que também eles disfrutassem da agradável surpresa visual contida naquele minúsculo objecto.


Tal como tantos outros brinquedos e conceitos de que falamos nesta e noutras rubricas, também os caleidoscópios acabaram por efectuar uma retirada discreta do mercado nacional, tendo simplesmente desaparecido da consciência colectiva infantil após a viragem do Milénio. Quem com eles brincou, no entanto, certamente recordará a surpresa de, subitamente, ver aquele vidro aparentemente simples desdobrar-se em reflexos e padrões aparentemente impossíveis, e anteriormente insuspeitos. Razão mais que suficiente para dedicarmos algumas linhas a mais uma das muitas 'quinquilharias' noventistas que as novas gerações nunca conhecerão, mas que os seus pais recordam com carinho.

Wednesday, 4 June 2025

Quartas aos Quadradinhos: A Re-Edição Noventista dos Álbuns de 'Petzi'

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


No que toca à cultura, Portugal é, tradicionalmente, um país mais importador do que produtor. Apesar de o talento português nas artes escritas e visuais nada deixar a desejar ao de outros países, a falta de recursos e meios condena, muitas vezes, os criadores lusitanos a uma carreira discreta, 'à sombra' de criações estrangeiras. A banda desenhada não é, de todo, excepção a essa regra, não querendo isso dizer, no entanto, que o nosso País não importe produtos culturais de qualidade, bastando lembrar o influxo de revistas aos quadradinhos brasileiras e norte-americanas ou de álbuns franco-belgas que se continua, em maior ou menor grau, a fazer sentir até hoje. E ainda que a Dinamarca esteja neste campo, como noutros, a um nível muito semelhante ao Português, a verdade é que essa nação escandinava logrou 'enviar' para Portugal, em finais do século XX, pelo menos um exemplo do melhor que tinha para oferecer em termos de 'quadradinhos', o qual chegou a 'marcar época' e a ter algum impacto e expressão entre as gerações 'X' e 'millennial' portuguesas, ainda que longe dos níveis atingidos pelos 'gibis' da Disney ou Turma da Mônica ou por clássicos como Tintim ou Astérix.


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Capa do primeiro volume da segunda colecção.


Falamos de 'Petzi', série criada pelo casal Hansen (Carla, responsável pelos argumentos e Vilhelm, que se encarregava dos desenhos) e cujo sucesso em Portugal fomentou a edição das aventuras do ursinho marinheiro (originalmente chamado Rasmus Klump) não apenas uma, mas duas vezes, a primeira ao longo de quase uma década (de 1978 a 1987), com os livros a saírem paulatinamente, um de cada vez, e a segunda de forma mais 'condensada', ao longo do ano de 1992. É a esta última que dedicaremos as próximas linhas.


Composta por vinte das trinta e seis aventuras de Petzi e seus amigos – outras criaturas marinhas semi-antropomórficas, além de um papagaio que lhes serve de mascote – esta segunda re-edição da Difusão Verbo tinha como diferencial, desde logo, o formato. Isto porque as histórias de Carla e Vilhelm Hansen surgiam, agora, em álbuns A4, por oposição ao A5 da série original dos anos 80, e com capas de fundo predominantemente branco, em substituição dos tons de azul das primeiras edições. Os conteúdos, esses, mantinham-se inalterados, ou não fosse a mesma editora responsável pelas duas colecções.


E já que falamos dos conteúdos, há que abordar, desde logo, o 'elefante na sala' – nomeadamente, o facto de 'Petzi' recorrer exclusivamente a legendas como complemento aos seus painéis desenhados, não existindo nos álbuns do casal Hansen qualquer balão de fala, o que faz com que as aventuras dos animais marinheiros acabem por ocupar um espaço tecnicamente híbrido, embora sejam ainda claramente reconhecíveis como obras de banda desenhada. Qualquer que seja o formato em que se pretenda inseri-las, no entanto, é inegável a qualidade e atractividade das criações dos dois artistas dinamarqueses, perfeitas para a faixa etária a que apontam (crianças já com alguma literacia, mas ainda em idade de instrução primária) e que provam ser possível criar personagens e enredos apelativos sem recorrer às habituais 'muletas' da violência ou dos super-poderes. A tripulação do barco 'Mary' (construído pela mesma no primeiro volume da série) é constituída, de uma ponta a outra, por personalidades vincadas e memoráveis, e o cenário marítimo presta-se a aventuras excitantes, sem que seja necessário enveredar por caminhos de acção pura e dura.


Não admira, pois, que 'Petzi' tenha feito, na sua época, sucesso entre as crianças um pouco por todo o Mundo, com Portugal e a vizinha Espanha a não serem, de todo, excepção. E ainda que, nas décadas subsequentes, a presença do urso de gorro azul e calças às bolinhas se tenha esbatido fora da sua Dinamarca natal, a marca cultural que deixou nas gerações de crianças portuguesas dos anos 80 e 90 foi, ainda assim, suficiente para mais do que justificar esta pequena homenagem, sob pretexto de recordar a re-edição noventista das suas aventuras.

Tuesday, 3 June 2025

Terças Tecnológicas: Vinte e Cinco Anos de 'Daikatana', A Eterna 'Lição de Moral' do Mundo dos Videojogos

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


A linha que separa a fama da infâmia tende a ser extremamente ténue, podendo um simples erro (ainda que honesto) fazer 'pender os pratos da balança' de um extremo para o outro. E ainda que certos campos profissionais sejam algo mais 'permissivos' (ou, pelo menos, acarretem efeitos menos permanentes) tal facto não deixa, ainda assim, de se verificar, acabando até, muitas vezes, por penetrar no 'folclore' da indústria em questão, como exemplo do que NÃO fazer. É, precisamente, de um desses casos, respeitante ao campo dos videojogos, e das consequências que teve para o seu criador, que falaremos nas próximas linhas.


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À entrada para o Novo Milénio, o programador e criativo John Romero desfrutava de considerável crédito junto dos fãs de videojogos – e, especificamente, do género da acção em primeira pessoa, ou 'first person shooter' – pelo seu trabalho enquanto membro da equipa da ID Software, para a qual ajudara a criar uma série de clássicos absolutos, vários deles pioneiros das diferentes fases do género em causa. Assim, quando os referidos entusiastas souberam que o criador de 'Wolfenstein 3D', 'Doom' e 'Quake' se preparava para lançar um novo jogo – agora sob a chancela da sua própria companhia independente, a Ion Storm – foi com naturalidade que se assistiu ao surgimento de todo um 'burburinho' em torno do título.


Essa expectativa viria, no entanto, a ser o principal factor por detrás do falhanço de 'Daikatana'. Isto porque o referido jogo é lendário como uma das principais vítimas do chamado 'inferno de produção', entretanto superado e ofuscado pelo infame 'Duke Nukem Forever', mas nem por isso menos lembrado por quem viveu em tempo a espera pelo novo título de Romero. Mudanças no motor-base do jogo – do da primeira versão de 'Quake' para o de 'Quake II', então ainda em desenvolvimento – êxodos em massa de pessoal, uma atmosfera demasiado casual e despreocupada (ou não fosse a Ion Storm um projecto pessoal de Romero), uma rivalidade artificial com a id Software e uma campanha de marketing demasiado alicerçada na atitude 'agressiva-radical' e propositadamente controversa típica do período, ajudavam a criar uma reputação cada vez mais negativa para a Ion Storm, e em nada contribuíam para a celeridade de desenvolvimento de 'Daikatana' – pelo contrário, o atraso no lançamento do jogo foi tal que não só 'Quake II' como também 'Quake III Arena' (além de títulos como 'Unreal' e 'Deus Ex') chegaram ao mercado norte-americano antes do título de Romero! A situação acabou mesmo por escalar ao ponto de obrigar à intervenção do presidente da Eidos, a eventual distribuidora do jogo – uma situação inaudita e decerto embaraçosa para todos os envolvidos.


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Previsivelmente, esta demora na produção e lançamento fez com que 'Daikatana' parecesse um jogo de 'outra era' ao lado dos títulos acima referidos, os quais se posicionavam na 'crista da onda' do frenético desenvolvimento tecnológico de finais dos anos 90, e tiravam o máximo partido do 'hardware' disponível. Por comparação, 'Daikatana' surgia como um jogo bastante mais básico a nível técnico (sobretudo visual), e surgia com uma série de falhas ao nível da inteligência artificial dos inimigos e aliados que o tornavam uma experiência mais frustrante que entusiasmante. O melhor exemplo disto mesmo eram os dois aliados do herói, o samurai futurista Hiro Miyamoto, os quais eram integrais para a jogabilidade e mecânicas do título, mas programados de tal forma que dificultavam, ao invés de facilitar, a tarefa do jogador.


Também de forma previsível, estes problemas resultaram numa recepção extremadamente negativa por parte do mercado norte-americano de videojogos, tendo 'Daikatana' sido duramente criticado nas publicações especializadas daquele país, onde lograria vender apenas pouco mais de quarenta mil cópias – um número absurdamente baixo para um grande lançamento, e que ainda hoje faz de 'Daikatana' um dos maiores falhanços comerciais da indústria em causa no continente americano. E ainda que a recepção no Japão, Europa (onde foi lançado há quase exactos vinte e cinco anos, a 7 de Junho de 2000) e Austrália (bem como das posteriores e inexplicáveis versões para Nintendo 64 e Game Boy Color, onde surgia como um jogo de acção em terceira pessoa com perspectiva vertical) tenha sido mais 'amena', a predominância das opiniões norte-americanas no recém-globalizado espaço crítico ditaram a 'sina' do jogo, que se tornou uma 'piada de mau gosto', por oposição ao épico sucessor e 'herdeiro' dos grandes clássicos do género a que o seu crador almejava, tendo inclusivamente contribuído para deteriorar grande parte do crédito de que este gozava no meio. De facto, um quarto de século após a sua 'implosão' no mercado, este jogo continua a ser utilizado como exemplo das consequências nefastas da falta de humildade, e do impacto que um processo de desenvolvimento atribulado pode ter num produto final, e na subsequente recepção ao mesmo – embora, a julgar por exemplos como o referido 'Duke Nukem Forever', estas sejam lições que muitos nomes ligados à indústria interactiva tenham dificuldade em assimilar...

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...