Showing posts with label desporto. Show all posts
Showing posts with label desporto. Show all posts

Tuesday, 15 September 2026

Domingo Desportivo: Trinta Anos de Futebol Feminino Profissional em Portugal

 NOTA: Este post é respeitante a Domingo, 13 de Setembro de 2026.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Apesar da maior representatividade de que gozou nos últimos anos, o futebol feminino foi – ao contrário de outras modalidades, como o voleibol – parente muito distante e algo ignorado do congénere masculino, com muitos países a demorarem décadas a 'abraçar' o desporto-rei 'de saias'. Um desses países foi Portugal, onde o mais antigo campeonatos nacional feminino desta modalidade – a Taça Nacional Sénior - completa este ano apenas três décadas de vida.

Hoje segundo escalão do FutFem nacional, a Taça Sénior começou por ser a única competição disputada em Portugal, estatuto que manteria durante quase duas décadas, até à criação do Campeonato Nacional, em 2013-14. Assim, quem nos anos 90 e 2000 quisesse ver a 'nata' do futebol feminino mais não tinha do que escolher entre um dos doze jogos semanais, embora a visualização do mesmo fora do próprio estado se pudesse revelar complicada, dada a falta de cobertura.

Logo desde os primeiros campeonatos, ficou claro quem seria a equipa hegemónica dessa primeira meia-década, com o GCD Del Negro a conquistar 'sem espinhas' os quatro primeiros campeonatos da modalidade alguma vez disputados em Portugal; curiosamente, no entanto, essa agremiação concederia, no final da década, a hegemonia ao Benfica, ganhando apenas mais dois títulos até aos dias de hoje (os quais fazem dela, ainda assim, a equipa mais condecorada da competição.) Seriam, pois, as 'águias' a dominar os anos 2000, sagrando-se tetracampeões e ganhando um total de cinco campeonatos durante esse período, antes de a fasquia competitiva nivelar e deixar de haver claros favoritos.

Hoje em dia, tal como referimos, a Taça Nacional Sénior cedeu o protagonismo ao Campeonato Nacional de Futebol Feminino; os amantes de 'longa data' da modalidade não esquecerão, no entanto, esta pioneira prova, hoje relegada para 'segunda divisão', mas sem a qual o desporto-rei no feminino talvez nunca tivesse chegado a desabrochar em Portugal.

Monday, 27 July 2026

Domingo Desportivo: Trinta e Cinco Anos de Um Torneio Algo 'Esquecido'

 NOTA: Este 'post' é respeitante a Domingo, 26 de Julho de 2026.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Em inícios dos anos 90, o basquetebol ainda era um desporto de expressão mais do que modesta em Portugal, pese embora a popularidade de Carlos Lisboa – e se as equipas sénior masculinas pouca atenção atraíam, as equipas jovens ou femininas eram praticamente 'invisíveis' no contexto mediático e cultural português da época. Não deixa, pois, de ser surpreendente que o nosso País tenha sido o escolhido para acolher os campeonatos europeus de basquetebol jovem femininos de 1991, especificamente na categoria de sub-16, os quais tiveram lugar há exactos trinta e cinco anos, entre os dias 20 e 28 de Julho de 1991. Mais surpreendente ainda, no entanto, foi o facto de este torneio se ter realizado, não num dos grandes centros urbanos nacionais, mas em pequenas povoações do distrito de Aveiro, com os jogos a serem disputados em recintos das freguesias de Estarreja, Anadia e Travassô e Óis da Riberia, naquele que terá, quase certamente, sido o evento mais emocionante e de maior âmbito alguma vez realizado naquelas localidades até à data (e talvez mesmo até aos dias de hoje).

No total, foram doze as selecções naciomais a disputar o campeonato em causa, tendo as mesmas sido divididas em dois grupos de seis equipas, das quais as duas primeiras se qualificavam para as meias-finais. Infelizmente, a reduzida expressão do basquetebol jovem (e feminino) no nosso País levou a que a prestação de Portugal fosse menos do que brilhante, tendo a equipa nacional sido última classificada do Grupo A, ganho pelas equipas que viriam a disputar a final, Jugoslávia e União Soviética, tendo esta última acabado por levar para casa o seu oitavo e último título na modalidade, poucos meses antes da sua dissolução definitiva. Quanto a Portugal, tinha de contentar-se com o último lugar da competição, após ter sido derrotada pela Holanda no 'play-off' do nono lugar, e pela Roménia no 'jogo dos últimos classificados'.

Ainda assim, e apesar da pobre imagem do basquetebol juvenil e feminino que terá deixado aos países participantes (e da nula expressão mediática que adquiriu, sobretudo por comparação com o Mundial de Esperanças em futebol masculino, ocorrido semanas antes) este evento terá, sem dúvida, tido grande significado não só para as jovens participantes como também para as pequenas e normalmente pacatas povoações rurais que, de súbito, viam 'aterrar' nas suas calmas ruelas turistas e atletas de todo o Mundo, o que terá quase certamente contribuído para a micro-economia local. Assim, afigura-se mais do que justo dar-lhe destaque nestas nossas páginas, no fim-de-semana em que se completam exactos trinta e cinco anos sobre as suas meias-finais.


Sunday, 21 June 2026

Saídas de Sábado/Domingo Desportivo: A 'Resposta' Nortenha Ao Estoril Open

NOTA: Por motivos de relevância temporal, trocaremos ambas as categorias deste fim de semana com as do próximo.

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Sábado, 20 de Junho de 2026.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

No último post duplo de fim-de-semana, celebrámos os trinta e cinco anos do Campeonato Mundial de Esperanças de 1991, de que Portugal foi anfitrião, e que celebrava o seu aniversário no próprio dia da publicação. Para darmos atenção e ênfase a essa competição, no entanto, fomos forçados a pôr de parte uma outra, realizada no mesmo período alguns anos mais tarde, e que celebra igualmente um aniversário marcante neste ano de 2026; chega, pois, agora a hora de corrigirmos essa situação e falarmos das duas únicas edições do torneio de ténis conhecido como Porto Open ou Maia Open.


O Complexo Desportivo da Maia, onde o torneio se desenrolou.

'Resposta' nortenha ao Estoril Open, o Porto Open realizou-se em meados do mês de Junho dos anos de 1995 e 1996, tendo tido lugar, respectivamente, entre os dias 12 e 18 e entre os dias 10 e 16. Jogado, como o seu congénere sulista, em 'courts' exteriores com piso de terra batida (no caso, os do Complexo de Ténis da Maia) o torneio em causa dava aos fãs de ténis do Norte do País a ocasião de efectuarem uma Saída de Sábado para ver de perto alguns dos seus ídolos, bem como outros tenistas de um pouco por todo o Mundo. E se a edição de 1995 via os participantes espanhóis efectuar uma 'razia', disputando os títulos individual e de pares entre si e não dando hipótese a qualquer outra nação, o segundo e último (sobre o qual se acabam de completar trinta anos) foi bastante mais equilibrado neste aspecto, com tenistas argentinos e australianos nas duas finais, e uma dupla portuguesa (Emanuel Couto e Bernardo Mota) como campeã da sua categoria, naquele que era o primeiro título da carreira de ambos os tenistas.

Infelizmente, não existem na Internet actual informações sobre o porquê de este torneio ter sido retirado do 'tour' ATP após apenas dois anos, pelo que apenas podemos especular quanto ao seu precoce desaparecimento; pelo menos durante aqueles dois anos em meados da década de 90, no entanto, os entusiastas de ténis portugueses tiveram, não apenas uma, mas duas oportunidades de ver ao vivo o seu desporto favorito, e alguns dos seus melhores executantes.

Thursday, 18 June 2026

Quintas de Quinquilharia: Os Brindes do França '98 em Portugal

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

O Mundial de Futebol de França '98 terá, talvez, sido o que mais entusiasmo provocou por terras portuguesas – ainda que, curiosamente, a Selecção Nacional não se encontrasse entre as equipas qualificadas. Em relação aos dois certames anteriores – Itália '90 e EUA '94 – o Mundial de '98 apresentava, também, volumes bastante maiores de licenciamento, com inúmeras instâncias de 'merchandising' oficial e várias marcas mundiais a promover, naquele Verão, ligações ao torneio através dos seus brindes; Portugal não foi excepção a esta regra, tendo os jovens das gerações 'X' e – sobretudo – 'millennial' podido desfrutar de uma série de ofertas tematizadas na compra de certos produtos alimentares. Numa altura em que se disputa mais um Campeonato do Mundo – curiosamente, novamente realizado, em parte, nos Estados Unidos, tal como o de '94 – nada melhor, pois, do que recordarmos alguns dos brindes que as crianças nacionais podiam antecipar ao consumir alguns dos seus alimentos favoritos.

                      

Os 'posters' dos Golden Grahams, o melhor dos três conjuntos de brindes oferecidos pelos cereais da Nestlé

Curiosamente, foram relativamente poucas as marcas a aderir à 'febre' do Mundial por terras portuguesas, com a Nestlé a destacar-se como a única companhia de produtos de supermercado a verdadeiramente tematizar os seus brindes em torno do certame; a marca francesa não fazia por menos, no entanto, e oferecia três conjuntos distintos de brindes nos seus populares cereais de pequeno-almoço – uma colecção de vinte e três cromos Panini com o Nesquik (a qual era totalmente separada da caderneta oficial lançada pela mesma companhia), uma série de oito apitos coloridos com o Chocapic, e uma colecção de 'posters' estilizados e artísticos com os Golden Grahams. Das três, era naturalmente a última que se destacava, não só por ser um brinde maior e mais 'perene', mas também pelo 'design' dos 'posters',que não podia deixar de agradar a qualquer jovem adepto daquela época.


O quase inacreditável conjunto de brindes do Happy Meal da McDonald's.

Até mesmo os referidos cartazes empalideciam, no entanto, face à proposta da McDonald's para aquelas semanas de futebol; incluída no popular Happy Meal oferecido pelo restaurante, a promoção alusiva a França '98 oferecia aos pequenos clientes um de quatro objectos, qualquer dos quais no limiar do que se pode considerar uma 'Quinquilharia'. Senão veja-se: o conjunto incluía uma bola, um papagaio de papel, um disco 'frisbee', e a 'estrela da companhia', um relógio de pulso, o qual já se pode considerar extravasar a categoria em causa. Mesmo para a McDonald's, esta era uma promoção marcadamente generosa, que terá, decerto, feito as delícias de quem consumia do restaurante (o que, no Verão de 1998, não era, infelizmente, o caso com o autor deste 'blog', que, a cerca de um mês de fazer treze anos, teria adorado ganhar qualquer dos brindes acima elencados).

Uma oferta variada e relativamente entusiasmante, portanto (embora com clara vantagem para uma das companhias envolvidas) que ajudava os jovens entusiastas de futebol a entrarem (ainda mais) no espírito da competição internacional em curso – a qual se viria, aliás, a afirmar como uma das mais entusiasmantes da era moderna, um pouco à semelhança dos brindes que suscitara e inspirara, por terras nacionais e não só...

Saturday, 2 May 2026

Saídas ao Sábado/Domingo Desportivo: As Origens do Estoril Open

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Domingo, 3 de Maio de 2026.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

images.jfif

O tradicional local de realização do certame, junto ao Estádio Nacional, na Linha de Cascais.

Para os fãs lusitanos de outros desportos que não apenas o futebol, o Estoril Open perde apenas para o Grande Prémio de Portugal na categoria de evento mais importanto do ano em Portugal. Isto porque o referido torneio faz parte do circuito ATP, sendo o representante oficial do País no mesmo, o que o coloca ao mesmo nível de Wimbledon ou Roland Garros, ainda que apenas em teoria, já que estes continuam a ser mais conhecidos. Ainda assim, o evento realizado no Jamor continua a atrair as atenções da maioria dos fãs nacionais de ténis, tal como o vem fazendo anualmente ao longo de já mais de trinta e cinco anos, com interrupções apenas em 2020 (devido à pandemia de COVID) e no ano passado (2025), pausa aproveitada para mudar o mês de realização para Julho, por oposição à tradicional data de Abril.

Foi, de facto, em 1990 que João Lagos organizou a primeira edição do torneio do qual continuaria a ser director de operações durante o quarto de século seguinte, e que desde logo encontrava 'casa' própria no complexo desportivo adjacente ao Estádio Nacional do Jamor, nos arredores de Lisboa – localização que, coincidentalmente, apenas viria a abandonar quando o referido João Lagos deixou a organização, em 2014. Durante os anos 90, portanto, os fãs de ténis, tanto 'ferrenhos' como mais casuais – habituaram-se a associar o evento com o local em causa, que – à semelhança das congéneres inglesa e francesa – adoptou a denominação, não do complexo desportivo, mas da área em que o mesmo se situava, a qual ainda hoje retém, apesar da mudança de local (realizando-se hoje em 'courts' da zona de Cascais).

Escusado será dizer que, dado o estatuto e longevidade da prova, o ATP Estoril viu passar pelos seus 'courts', ao longo dos anos, a elite do ténis mundial – o que torna ainda mais valorosas as duas únicas vitórias de tenistas lusitanos verificadas no tempo de vida do certame, ambas já no Novo Milénio, com João Sousa a sagrar-se campeão da categoria individual em 2018 e Nuno Borges e Francisco Cabral a vencerem como dupla em 2022. Durante os anos 90, no entanto, o domínio era espanhol, com o país vizinho a arrecadar maior percentagem de vitórias em ambas as categorias, com 'concorrência' apenas da Áustria (em individuais) e dos EUA (nas provas de duplas da segunda metade da década).

Apesar desta hegemonia, no entanto, o certame nunca deixava de ser emocionante e de valer bem o investimento de tempo (e, por vezes, dinheiro) por parte dos entusiastas de ténis residentes em Portugal, que assim podiam ver de perto os seus 'ídolos' dentro da modalidade – paradigma que, aliás, se continua a verificar três décadas e meia depois, fazendo do ATP Estoril um evento impossível de ser ignorado por um 'blog' dedicado à década em que este evento se principiou a notabilizar dentro do mundo do ténis profissional.

Sunday, 15 February 2026

Domingo Desportivo: Portugal Nas Olimpíadas de Inverno dos Anos 90 - O Início de Um Precedente Discreto

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


No presente momento sócio-cultural internacional, o grande tópico de debate e interesse a nível desportivo são as Olimpíadas de Inverno; e, embora os desportos na neve e no gelo não sejam uma área em que Portugal tenha grande tradição ou expressão (por razões óbvias), a verdade é que o nosso País não tem deixado, ao longo dos anos, de enviar atletas a esta competição, os quais, apesar de nunca favoritos e ainda menos medalhados, não deixam, ainda assim, de ter tido o privilégio de representar Portugal a nível olímpico, sendo por isso merecedores de destaque. Os anos 90 não foram excepção a esta regra, tendo dois dos três eventos realizados nessa década contado com participação portuguesa, por muito discreta e nominal que a mesma tenha sido.


625134502_18439773226107678_6346724297997762060_n.


De facto, após falharem por completo a presença na Olimpíada de 1992, Portugal lograva pela primeira vez enviar um representante à prova no ano de 1994 – Georges Mendes, que competia na categoria de esqui alpino e que viajava sozinho para a Noruega. Já quatro anos depois, no Japão, o número de atletas nacionais via-se duplicado, com representantes de ambos os sexos – a também porta-bandeira Mafalda Pereira (primeira mulher portuguesa a participar na prova) no esqui 'freestyle' e Fausto Marreiros na patinagem de fundo, modalidade em que a holandesa Jutta Leerdam acaba de estabelecer novo recorde, poucos dias antes da publicação deste 'post'.


Nenhum dos dois atletas se classificaria na respectiva prova, com Mafalda a terminar fora dos vinte primeiros (tendo, ainda assim, logrado a melhor classificação de sempre para o nosso País numa Olimpíada de Inverno, conforme se pode ler na imagem que ilustra este 'post'), e Fausto a nem sequer almejar entrar nos trinta melhores .Ainda assim, e conforme acima referimos, a mera possibilidade de representar o País a nível Olímpico (por muito pouca que tenha sido a glória) é, por si só, suficiente para colocar estes dois atletas (e Georges Mendes antes deles) no panteão de grandes nomes do desporto português, tendo os mesmos superado o 'ponto máximo' a que chegam a maioria dos desportistas, e estabelecido um precedente para Portugal no tocante a participações nas Olimpíadas de Inverno; razão mais que suficiente para merecerem ser recordados ao lado de outros olimpianos nacionais, e para lhes dedicarmos estas breves linhas, por ocasião de mais uma edição do certame que os notabilizou.

Sunday, 23 November 2025

Domingo Desportivo: Uma Contratação 'Tote'-almente Falhada

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


463609602_4718451295046640_8779396070437907049_n.p


À entrada para a época 1999/2000, o Benfica vivia uma das suas muitas revoluções da era Vale e Azevedo. Graeme Souness tinha acabado de ser despedido, após uma das piores épocas da História das 'águias', e para o seu lugar havia sido escolhido outro estrangeiro, o alemão Jupp Heynckes, que se via forçado a fazer 'omeletes sem ovos', e a montar uma equipa à sua imagem com um orçamento de transferências irrisório. Assim, as contratações mais sonantes da época (curiosamente, ambas de origem espanhola) chegariam, respectivamente, a custo zero (Chano) e por empréstimo (Tote). E se o primeiro conseguiu deixar marca na equipa 'encarnada', o segundo não chegaria a efectuar uma dúzia de aparições durante a única época que passou na Luz, sendo recordado hoje em dia mais pela peculiar alcunha do que por qualquer outra razão.


E a verdade é que Jorge López Marco tinha tudo para vingar em Portugal, já que havia sido formado num 'galáctico' Mundial, no caso o Real Madrid, e era presença constante nas suas equipas secundárias. No entanto, por alguma razão, o espanhol (então apenas com vinte anos) não convenceu Heynckes, tendo sido utilizado pouquíssimas vezes durante a temporada, ao longo da qual, 'tapado' por Nuno Gomes, ainda lograria marcar três golos. No entanto, seria na Segunda Divisão espanhola que verdadeiramente se afirmaria (já depois de se ter sagrado campeão da La Liga, tendo três aparições pelos 'blancos' sido suficientes para lhe garantir esse estatuto), tendo sido 'histórico' do modesto Hércules, pelo qual contabilizou quase duzentos jogos ao longo de seis temporadas, e pelo qual jogava quando 'pendurou as botas'.


Para os adeptos portugueses, no entanto, o nome do espanhol não passará de mais um daqueles que, ao serem mencionados, suscitam uma reacção do tipo 'eisssh, o Tote!', e vagas recordações do cromo na caderneta da Panini. Ainda assim, por pouco que tenha sido o seu impacto no futebol português, o avançado merece uma nota de parabéns no dia em que completa quarenta e sete anos de idade, e após uma carreira perfeitamente honrosa – apenas não na Primeira Divisão portuguesa...

Monday, 10 November 2025

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Pedro Miguel, o Filho 'Esquecido' de Santa Maria da Feira

NOTA: Este 'post' é respeitante a Domingo, 09 de Novembro de 2025.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Há jogadores assim: não despertam a paixão dos adeptos fora do seu próprio clube, não partem em aventuras nos 'grandes' ou no estrangeiro, nem sequer são particularmente lembrados pelo grande repositório digital de memórias (pesquisar o nome e clube na Wikipédia talvez até direccione para um homónimo mais famoso) mas constroem carreiras honrosas, ligadas ao emblema de formação ou de coração, e encarnam a expressão que escolhemos para dar nome a esta rubrica, tornando-se verdadeiros 'Grandes dos 'Pequenos''.


112290_pedro_miguel.gif


A única foto do jogador actualmente disponível na Web.


É o caso do jogador a que dedicamos estas linhas, por ocasião dos seus cinquenta e três anos, celebrados este fim de semana: Pedro Miguel Almeida Santos (mais vulgarmente conhecido pelos dois primeiros nomes) defesa formado no Feirense e que, à parte uma muito breve incursão pelo futebol amador à saída dos escalões jovens (no clube da terra, o Caldas de São Jorge) passaria nada menos do que quinze anos ligado ao histórico emblema nortenho, que acompanhou nos diversos 'altos e baixos' ao longo dos anos 90, tendo chegado a sagrar-se campeão da então II Divisão de Honra e militado mesmo no principal escalão português. E, embora tenha demorado algumas épocas a verdadeiramente se afirmar no esteio da defesa do seu clube de formação, uma vez conquistado esse estatuto, não mais o perderia, tendo sido peça activa das campanhas dos homens de Santa Maria da Feira entre as temporadas de 1994/95 e 1997/98, e elemento transmissor da 'mística', a partir do banco, nas duas seguintes.


Não seria, pois, senão na primeira temporada completa do Novo Milénio, já sem a mesma preponderância de outrora no seio do plantel, que Pedro Miguel finalmente deixaria em definitivo o clube que o vira nascer e crescer, regressando ao futebol amador ao serviço do Lusitânia de Lourosa. Não demoraria, no entanto, mais do que duas épocas até o defesa regressar a 'casa' – onde, infelizmente, se tornaria a ver algo 'proscrito', pouco passando da meia-dúzia de presenças ao longo da temporada de 2002/2003.


Esta situação motivaria nova transferência para as ligas amadoras, desta vez para o Pampilhosa, mas seria apenas na época seguinte que Pedro Miguel viveria novamente uma situação de estabilidade e preponderância dentro de um grupo de trabalho, vindo a tornar-se 'Grande' de um segundo 'Pequeno' ao serviço da Sertanense, onde viria a passar sete épocas – tantas quantas fizera como sénior no Feirense – e a pendurar as botas, já com quase quarenta anos. Para trás, ficava uma carreira discreta, quase sempre longe dos holofotes da ribalta, mas onde, ainda assim, lograra deixar marca consideravelmente longeva em dois clubes, e viver o sonho de jogar pelo clube da terra-natal, e do coração – bem vistas as coisas, uma história bem mais feliz do que a de muitos jogadores com perfil bastante mais destacado, e que lhe merece a homenagem nestas páginas por ocasião do seu aniversário. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Sunday, 12 October 2025

Domingo Desportivo: A 'Outra' Prova do Ciclismo Português

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


download.jpeg


Quando se fala de provas de ciclismo em território nacional, o evento que vem imediatamente à mente é, claro, a Volta a Portugal, a mais antiga, abrangente e icónica corrida de bicicletas realizada no nosso País. Apesar de quase monopolizar as atenções dos entusiastas do desporto, no entanto, a Volta está longe de ser a única prova disputada no 'rectângulo' português, havendo, pelo menos historicamente, pelo menos mais um evento de nota no calendário do ciclismo nacional, o qual, caso ainda se realizasse, completaria este ano vinte e cinco anos de existência.


Era, de facto, na Primavera do ano 2000 que se realizava a primeira da dezena de edições do Grande Prémio Internacional CTT Correios de Portugal, um nome que remete a outro tipo de competição (talvez algo mais literário) mas que designava mesmo uma prova de ciclismo de estrada por etapas, organizada pela União Ciclística Internacional e inserida no Tour UCI Europe. Apesar desse cariz internacional e aberto a ciclistas de todo o Mundo, no entanto, a referida prova seria, tradicionalmente, disputada entre os dois 'rivais' ibéricos, com essa primeira edição a ser ganha pelo espanhol Jordi Edo (no primeiro de cinco triunfos para o país vizinho) e apenas um dos dez certames a ter um vencedor fora do 'eixo' ibérico, com a vitória,em 2005, do russo Alexei Markov, que partilha com o português Nuno Marta a honra de ter sido o único ciclista a ganhar todas as três medalhas da prova – Bronze, Prata e Ouro.


Infelizmente, após mais de uma década e meia de inactividade (o último certame data já de 2009) é de crer que o Grande Prémio Internacional CTT tenha deixado de fazer parte do calendário da UCI, e sido efectivamente extinto. Ainda assim, para os amantes do ciclismo, esta prova terá, sem dúvida, sido um 'prato cheio', embora efémero, e bem merecedor de ser lembrado por ocasião do vigésimo-quinto aniversário da sua criação.

Sunday, 14 September 2025

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Paulo Ferreira, O 'Amadorense Adoptivo'

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Da quase infinita quantidade de jovens futebolistas que passam pelas camadas jovens dos grandes clubes mundiais, apenas uma ínfima parte logra, efectivamente, ascender à equipa principal, ficando a restante (esmagadora) maioria 'pelo caminho', seja por questões técnicas, por tardarem a demonstrar o potencial esperado, por opção técnica dos treinadores, ou até por razões do foro pessoal. Portugal não é, de todo, excepção a esta regra, sendo habitual ver jovens jogadores acabados de sair dos 'fornos' de Sporting, Benfica e Porto reforçarem emblemas de menor dimensão, e construírem carreiras que, embora honrosas, acabam por ficar longe do esperado. Cabe, pois, a cada jogador decidir como encarar este trajecto alternativo, acabando por ser tantos os que desanimam com o que percebem como um 'falhanço' como aqueles que vêm o 'copo meio cheio', e decidem, literalmente, 'vestir a camisola' do novo clube.


download.jpg


Na década de 90, um dos exemplos desta última filosofia foi Paulo Alexandre Marques Ferreira. Formado nas escolas do Sporting em finais da década de 80, seria, no entanto, num outro clube da zona de Lisboa que viria a completar a formação – nomeadamente, o histórico Estrela da Amadora, então da antiga II Divisão de Honra, onde viria a passar literalmente toda a década de 90, primeiro como júnior e, mais tarde, como membro efectivo da equipa A, ao lado de nomes como os futuros internacionais Dimas e Paulo Bento. E se, a princípio, a sua participação na mesma era tão periférica quanto a de qualquer outro jovem em início de carreira, paulatinamente, vir-se-ia mesmo a afirmar como peça importante do plantel dos alvirrubros, tomando conta da ala esquerda na grande maioria das impressionantes sete épocas e meia (de um total de nove) que ali passou como sénior, e conseguindo mesmo honras de campeão da II de Honra, com apenas 19 anos, na época 1992/93, tendo os seis jogos em que participou ao longo dessa campanha sido suficientes para lhe outorgar esse título, e para lhe valer um lugar nas Selecções Nacionais Sub-20 e Sub-21, com as quais disputou, nesse Verão, o Torneio de Toulon (em que fez três jogos) e o Campeonato Mundial da categoria (em que participou em dois).


Ao mesmo tempo que a lealdade de Ferreira ao emblema da Reboleira fazia dele um Grande dos Pequenos naquele histórico do futebol português, as boas exibições chamavam a atenção dos ditos 'grandes', acabando o extremo por ser mesmo abordado por um deles, no caso o então 'campeão crónico' Futebol Clube do Porto, para o qual se transferia no final da época 1998/99. No entanto, a estadia do extremo na Invicta não foi feliz, não indo a sua participação de azul e branco além de cinco jogos na equipa B (em que, ainda assim, logrou marcar um golo) em menos de quatro meses passados no antigo Estádio das Antas. De facto, logo em Janeiro de 1999, o nome de Paulo Ferreira constava já da lista de dispensáveis, estando o extremo a um passo de voltar a 'casa' por empréstimo, mas acabando a escolha por recair no Farense, onde ingressou para o que restava da época, e onde voltou a ser feliz, participando em catorze jogos e contribuindo com dois golos para ajudar os algarvios a evitar a despromoção da Liga Portuguesa, antiga I Divisão.


download (1).jpg


O 'regresso a casa' de Paulo Ferreira teria, pois, de esperar até à época seguinte, tendo o extremo ingressado a título efectivo no clube que o vira despontar para o futebol, e onde voltaria a ser peça-chave, agora a um nível mais elevado. Duraria apenas uma temporada esta segunda passagem de Ferreira pela Reboleira, no entanto, sendo que a época seguinte o via envergar novamente as cores do Farense, desta vez a título efectivo. No final de mais uma bem-sucedida época, nova mudança, desta vez para o Varzim, onde se viria a iniciar o ocaso de carreira do jogador, que poria no futebol amador, ao serviço do 9 de Abril de Trajouce, ponto final definitivo numa carreira honrosa, em que, embora passando ao largo dos grandes palcos, conseguiu ser ídolo em pelo menos um clube, e rectificar adequadamente todos os (poucos) passos em falso. Razão mais que suficiente, pois, para a honrarmos, e ao próprio jogador, no dia em que este completa cinquenta e dois anos de idade. Parabéns, Paulo, e que conte ainda muitos.

Monday, 28 July 2025

Saídas ao Sábado / Domingo Desportivo: A 'Febre' da Equitação de Inícios dos 'Noventa'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 26 de Julho e Domingo, 27 de Julho de 2025.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


download.jpeg


Num já remoto 'post' neste nosso blog, recordámos as actividades extra-curriculares, as quais acabavam por contar tanto como Saídas de Sábado (ou até Sábados aos Saltos) como como Domingos Desportivos. A disciplina específica sobre a qual nos debruçamos nesta publicação dupla não fugia a essa regra, sendo uma das mais populares entre os jovens da época e tendo conseguido, ainda que de forma efémera, escapar do seu 'nicho' habitual e encontrar um público mais globalizado.


Falamos da equitação, desporto habitualmente associado ao sexo feminino e aos estratos sociais mais altos (e com precedentes que justificam esse estereótipo) mas que, na primeira metade dos anos 90, encantou e fascinou crianças e jovens de ambos os sexos e dos mais diversos estratos sociais, de Norte a Sul de Portugal. Talvez pela divulgação de espaços como o picadeiro do Campo Grande, em Lisboa, talvez pelo fascínio exercido por todo e qualquer animal junto da criança comum, ou talvez apenas pelo sempre infalível 'efeito passa-palavra' no recreio, a verdade é que as aulas de equitação viram, durante este período, gerar-se um influxo de interesse nos seus serviços, com muitos meninos e meninas a quererem aprender a andar a cavalo – ainda que, em muitos casos, esse interesse acabasse por ser de pouca duração, sendo poucos os que continuavam a prática da disciplina a longo-prazo.


Talvez por isso a equitação tenha sido incapaz de reter o estatuto de actividade extra-curricular 'mainstream' de que gozou durante aqueles anos, tendo rapidamente regressado à qualidade de desporto 'de nicho', com interesse para, e ao alcance de, apenas alguns. Quem viveu aqueles anos em que o desporto em causa era tão popular quanto a dança ou o 'karaté', no entanto, certamente recordará a inveja sentida ao ouvir os colegas falar das aulas de equitação, e a vontade exacerbada de se juntar a eles. É a esses (entre os quais se contava o autor deste blog, ainda em idade de instrução primária) que dedicamos as breves linhas que compõem mais este 'post' duplo do Anos 90.

Sunday, 6 April 2025

Saídas ao Sábado/Sábados Aos Saltos: A 'Febre' da Aeróbica

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 5 de Abril de 2025.


Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


De entre as muitas novas preocupações sociais a surgir durante as duas últimas décadas do século XX, a da vida saudável e perda de peso fica apenas atrás da ecologia como uma das mais relevantes no Mundo ocidental. Apesar de não ser nada de novo, estando presente na referida sociedade desde pelo menos há meio século a esse ponto, a preocupação com estar em forma, desenvolver músculos ou partes do físico, ou ainda perder peso ganhou novos contornos durante os anos 80 e 90, tendo simultaneamente ganho uma representação 'visível' e tangível, com o aparecimento dos ginásios e a difusão em massa de disciplinas como a aeróbica.


images.jpeg


De facto, foi precisamente nesses últimos anos do Segundo Milénio que se deu a génese do movimento pró-exercício físico que hoje permeia as vidas da quase totalidade dos cidadãos ocidentais. E se, ao contrário do que ocorre actualmente, os ginásios estavam, sobretudo, reservados aos culturistas e praticantes de desportos de combate, as 'donas de casa', profissionais de colarinho branco e outros sectores menos activos da sociedade encontraram na prática da referida actividade a sua forma de garantir a manutenção da tão importante 'linha'. Como consequência, verificou-se durante o período em causa um enorme aumento do número de aulas de aeróbica e 'step' oferecidos pelos supracitados ginásios, além do aparecimento de cassettes VHS que permitiam realizar o equivalente a uma sessão no conforto do lar.


Por sua vez, esta junção de factores resultou, inevitavelmente, na difusão da aeróbica a outros sectores da sociedade, não tardando a disciplina em causa a permear, por exemplo, o currículo das aulas de Educação Física do ensino preparatório e secundário, onde veio a encontrar toda uma nova demografia-alvo de jovens prontas (e, por vezes, também prontos) a emular os exercícios que viam as mães fazer no clube local ou em frente à televisão – ainda que, muitas vezes, num mero arremedo, mais próximo de uma brincadeira de faz-de-conta durante um Sábado aos Saltos do que de qualquer tipo de exercício sério. Ainda assim, esta actividade não deixava de constituir uma maneira de as crianças e jovens se manterem activos, ainda que talvez não a mais acertada ou apropriada para a faixa etária em causa.


Como todas as 'manias' e 'febres' da sociedade ocidental, no entanto, também a aeróbica acabou por ser alvo de mutação, ainda que sem nunca ter desaparecido completamente.; em vez disso, a modalidade dividiu-se em diversas disciplinas, as quais ainda hoje podem ser vistas no horário ou lista de aulas do ginásio mais próximo. Quem viveu a 'febre' original da aeróbica, no entanto, certamente reconhecerá nestas divisões apenas o espírito da rotina de exercícios que pôs milhões de mulheres (e também muitos homens) num estúdio de musculação ou em frente à televisão, em 'leggings' e perneiras, a agitar freneticamente os braços durante meia hora de cada vez...

Monday, 23 December 2024

Domingo Desportivo: O Sporting e a 'Maldição' do Natal

NOTA: Este 'post' é respeitante a Domingo, 22 de Dezembro de 2024.

´

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

 


OIP.jpg



 

É piada recorrente entre adeptos de futebol portugueses até aos dias de hoje: o misterioso fenómeno que fazia com que as excelentes equipas do Sporting dos anos 90 e 2000 iniciassem cada nova temporada do Campeonato Nacional 'a todo o gás', mas perder fôlego (e terreno) a partir de meados de Dezembro, sagrando-se 'campeão de Natal'. mas acabando por soçobrar na segunda metade da época, e permitir a 'ultrapassagem' do grande rival Benfica ou do Futevol Clube do Porto (bem como, numa ocasião histórica, do Boavista). Agora, numa altura em que a 'maldição' parece estar, mais uma vez, em curso, a conjuntura afigura-se ideal para dedicarmos algumas linhas a essa estranha tendência.

 

Ao contrário do que é costume neste tipo de casos, esses consecutivos 'falhanços' dos 'Leões' de Lisboa não podem ser atribuidos a nenhum factor concreto, sendo normalmente derivados de uma conjunção da hegemonia dos rivais (sobretudo o Porto, que atravessava, em finais do século XX e inícios do seguinte, uma fase demolidora), quebras anímicas, plantéis inconsistentes, maus treinadores, jogos difíceis, erros de arbitragem e algum azar. Sejam quais forem os motivos, no entanto, a verdade é que, num período de mais de duas décadas, o Sporting CP apenas logrou conquistar dois títulos nacionais, não tendo sido mais do que 'campeáo de Inverno' nas restantes décadas. E se, nos últimos cinco anos, este paradigma parecia finalmente estar a reverter-se, a presente temporada indica que a 'maldição' não está, de todo, debelada, e que os adeptos mais recentes do clube de Alvalade podem estar prestes a viver uma situação análoga à experienciada pelos seus antecessores de finais do século XX...

 

Sunday, 24 November 2024

Domingo Desportivo: A Segunda Passagem de Rui Barros Pelo Porto

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Embora a História do desporto-rei esteja repleta de jogadores que, após inícios auspiciosos em clubes menores, almejam prosseguir, consequentemente, a carreira em emblemas de maior dimensão (senão mesmo 'gigantes'), os atletas com capacidade de fazer a diferença no mesmo clube em duas ocasiões diferentes contam-se em bastante menor número. De facto, ainda que tais casos não sejam totalmente inauditos, os mesmos são, sem dúvida, suficientemente raros para que os jogadores capazes de integrar este grupo sejam merecedores de destaque. É, precisamente, o caso do futebolista a quem dedicamos as próximas linhas, um médio ofensivo 'à moda antiga' que celebra este Domingo o seu quinquagésimo-oitavo aniversário e que, há exactas trinta temporadas, regressava ao clube que o formara e lançara, para inscrever indelevelmente o seu nome na extensa lista de 'lendas' do mesmo.


rui barros.jpg


O jogador com a camisola que o consagrou no início e fim de carreira.


Regressado à Cidade Invicta já com honras de titular absoluto de Juventus e Mónaco, bem como de vencedor da última Taça UEFA da década de 80, ao serviço da 'Vecchia Signora', e finalista vencido da competição de 1991-92, pelo Mónaco (além dos títulos conquistados ao serviço do próprio Futebol Clube do Porto, na década anterior), poderia, à primeira vista, parecer que Rui Barros voltava ao Estádio das Antas já com tudo conquistado, para a proverbial 'reforma dourada'. O internacional português – então ainda a alguns meses de completar vinte e oito anos, e como tal, na flor da carreira - rapidamente desprovaria essa teoria, no entanto, mostrando, pelo contrário, ter ainda uma palavra a dizer no seio do seu clube 'do coração'. Tanto assim era que o médio-ofensivo não só conquistaria um lugar no onze inicial de um Porto fortíssimo e em plena fase hegemónica, como também se revelaria elemento crucial na até então inaudita caminhada rumo ao penta-campeonato nacional, que o Porto iniciaria logo na temporada seguinte. De facto, das seis épocas que realizou na sua segunda passagem pelo Porto, só na última (já à beira da reforma) Rui Barros perderia preponderância no plantel azul e branco, registando ainda assim dezasseis presenças ao longo da temporada 1999-2000, cujo final o veria retirar-se dos relvados, agora sim, já com tudo ganho.


download (1).jpeg


Rui Barros na função de técnico dos 'dragões'


Dada a lealdade demonstrada ao clube no qual passou mais de metade da sua carreira, não foi de todo surpreendente que, após a reforma como jogador profissional, Rui Barros tivesse sido integrado na estrutura do FC Porto, onde alternou funções de treinador adjunto e interino ao longo de mais de uma década (entre 2005 e 2016), tendo mesmo chegado a festejar a conquista da Supertaça de 2006 na condição de treinador principal da equipa sénior. Mais tarde, em 2018, o ex-fantasista dos 'dragões' assumiria o cargo de treinador das reservas do clube, cargo que ocuparia durante os três anos seguintes, antes de se trasladar para a função de olheiro, que desenvolve até hoje, não deixando de ser apropriado que um dos melhores criativos da História do clube portuense tenha, hoje, a função de descobrir novos talentos potencialmente ao seu nível – e, idealmente, com o mesmo grau de lealdade e amor à camisola por si demonstrado enquanto jogador profissional pelos dragões. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Sunday, 10 November 2024

Domingo Desportivo: Sergei Ovchinnikov - O 'Agente Duplo' Que Veio do Frio

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Já aqui anteriormente falámos de alguns dos nomes constantes da restrita lista de desportistas que representaram dois ou mais clubes 'grandes' do futebol português durante os anos 90 e 2000. E se alguns destes - como Sergei Yuran, Kulkov, Edmilson, Mário Jardel, Drulovic, Zahovic, João Vieira Pinto ou Izmailov - almejariam fama e glória em ambos os emblemas em causa, no entanto, outros tantos seriam, numa fase inicial, 'ignorados', ou utilizados como opção de recurso, para depois virem finalmente a explanar o seu potencial num dos dois 'rivais' do seu primeiro clube. Foi o caso de nomes como Nuno Valente ou o jogador que celebramos hoje, no dia do seu quinquagésimo-quarto aniversário: o guarda-redes russo Sergei Ovchinnikov.


445110_ori__20171204095420_sergei_ovchinnikov.jpg


Ovchinnikov ao serviço do primeiro dos dois 'grandes' portugueses que representou...


Chegado a Portugal no defeso de Inverno de 1997-98, Ovchinnikov aterrava em Lisboa, para representar o Benfica, já com a 'tarimba' de nada menos do que seis épocas e meia como dono e senhor da baliza do Lokomotiv de Moscovo, à época um clube de razoável dimensão no contexto europeu, bem como de 'dono' da baliza da Selecção russa, com a qual disputara o Campeonato Europeu em Inglaterra, seis meses antes. Em Lisboa, no entanto, o guardião deparava-se com um problema 'bicudo' – nomeadamente, o facto de a baliza dos 'encarnados' estar entregue ao incontornável Michel Preud'Homme, que disputa com Schmeichel o título de melhor guarda-redes a actuar em Portugal na era moderna, e cuja longevidade entre os postes da Luz é ainda hoje lendária.


Na sua primeira época fora do eixo da Europa de Leste, Ovchinnikov não iria, pois, além das nove presenças com a camisola das 'águias' lisboetas, um número que se viria a duplicar na temporada seguinte, sem que, no entanto, o guardião internacional russo se lograsse estabelecer como primeira opção da equipa da capital. Foi, pois, com naturalidade que o internacional russo procurou outros 'vôos' na época seguinte, tendo a solução passado por dar um 'passo atrás' e assinar pelo histórico Alverca – curiosamente, à época, o principal satélite do clube de onde Ovchinnikov era oriundo.


E se, na maioria dos casos, uma decisão deste tipo significaria o fim de uma carreira ao mais alto nível, para Ovchinnikov, esta representou precisamente o contrário; seguindo a máxima de 'dar um passo atrás para dar dois à frente', o guardião russo iniciaria em Alverca a sua 'remontada', a qual o veria afirmar-se como primeira opção para a baliza dos ribatejanos e, após uma temporada a bom nível, ser sondado por outro 'grande' português, no caso o representante nortenho, por quem assinava no primeiro defeso de Verão do século XXI. E enquanto que, em Lisboa, Ovchinnikov se vira 'tapado' por um histórico indiscutível do clube, na Cidade Invicta, o jogador não teve quaisquer problemas em se afirmar como titular da baliza azul e branca, amealhando mais de sessenta e cinco presenças pelos portistas ao longo dos dezoito meses seguintes, e conquistando uma Taça de Portugal (frente ao Sporting) e uma Supertaça (frente ao Boavista). Em falta ficou, apenas, o campeonato, que seria ganho, pela segunda vez em três anos, pelo Sporting.


779923_med_.jpg.jpg


...e do segundo.


Quando tudo parecia, finalmente, ir de vento em popa para Ovchinnikov em Portugal, no entanto, eis que surge uma proposta irrecusável para voltar à 'casa-mãe', em Moscovo. O guardião não hesitou, naturalmente, em tirar partido desta oportunidade, voltando assim a ocupar o lugar que deixara vago meia década antes, o qual não voltaria a largar durante as quatro épocas e meias seguintes, até à transferência para o rival Dínamo, onde se formara e iniciara a carreira sénior, em finais dos anos 80, mas onde, desta feita, não almejou mais do que a condição de suplente. (Curiosamente, se tivesse optado por ficar no Porto, o russo teria quiçá feito parte da equipa de José Mourinho que 'tomou de assalto' as competições europeias em meados da década de 2000.) Pelo meio, ficava ainda um 'reencontro' com os portugueses, no âmbito do Euro 2004, onde beneficiaria a Selecção do seu 'país adoptivo' ao jogar a bola com a mão fora da área, acção que lhe valeu a expulsão do jogo entre Rússia e Portugal, a contar para a fase de grupos do certame.


5c1937b18e8b36b6648da6f2096f7878.jpg


O momento da expulsão frente a Portugal, no Euro 2004.


Para além desta atribulada mas honrosa carreira nos relvados, Ovchinnikov faz, ainda, parte da enorme lista de ex-jogadores que enveredam por cargos técnicos após 'pendurarem as botas'. No caso do guardião russo, há a assinalar passagens pelo 'seu' Lokomotiv (como treinador de guarda-redes), pelos Dínamos de Kiev (como assistente) e Minsk (como treinador principal), pela Selecção Nacional russa (onde foi, novamente, responsável pelo treino de guarda-redes) e, mais recentemente, pelo CSKA, onde ocupou a posição principal do banco durante nada menos do que seis temporadas, entre 2014 e 2020. Desde então, o ex-futebolista parece ter-se retirado dos 'palcos' do desporto-rei, presumivelmente para 'gozar' a reforma, tendo já deixado um considerável legado em duas frentes distintas, e o seu nome impresso na História do futebol não só do seu país natal, mas também de uma pequena nação no extremo exactamente oposto da Europa. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Sunday, 15 September 2024

Domingo Desportivo: Em Memória de Sven-Goran Eriksson (1948-2024) - Um Cavalheiro No Brutal Mundo do Futebol

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


No futebol, como em qualquer ramo profissional, existem figuras incontornáveis, de que qualquer adepto, de qualquer época da História, terá pelo menos ouvido falar. A grande maioria delas são, logicamente, jogadores; no entanto, existem também pelo Mundo fora muitos e variados exemplos de personalidades que, sem terem brilhado dentro de campo, se destacaram com louvor do 'outro lado' das quatro linhas, como técnicos ou treinadores. Uma dessas figuras – uma das maiores, ao nível de um Alex Ferguson – foi um simpático e invariavelmente educado sueco que, em meio a uma carreira nada menos que ilustre, acabou por 'tocar' também os adeptos portugueses com a sua cortesia e carisma. Falamos, claro, de Sven-Goran Eriksson, três vezes campeão nacional pelos encarnados do Benfica, cuja morte devida a cancro do pâncreas, há cerca de três semanas, deixou um vazio pronunciado nos meandros do desporto-rei. Este Domingo Desportivo não poderia, pois, deixar de constituir um epitáfio a um dos grandes nomes da História do futebol, através de uma retrospectiva da sua breve mas marcante passagem por Portugal.


mhtdlcesrgl2.jpg


Um jovem Eriksson com duas outras lendas do Benfica, Toni e Eusébio.


Chegado ao Benfica já com louros de campeão sueco e vencedor da Taça da Suécia e Taça UEFA ao serviço do Gotemburgo. Em Portugal, os excelentes auspícios deixados por esse início de carreira técnica – após discreta carreira dentro das quatro linhas, nos anos 60 e 70 – vir-se-iam não só a confirmar como a ampliar, com Eriksson a levar o Benfica ao bi-campeonato nas suas duas épocas como técnico, em 1982-83 e 1983-84, tendo também assegurado a Taça de Portugal na primeira das duas, na qual atingiu ainda os quartos de final da então chamada Taça das Taças.


Era, pois, em glória que o treinador sueco saía para Itália, no defeso de Verão do ano de 1984, naquela que acabaria por ser a mais discreta fase da sua carreira, com passagens 'sem história' por Roma e Fiorentina a culminarem no regresso a Portugal, onde o seu antigo clube o acolheu de braços abertos, radiante por poder novamente contar com tão histórica figura no comando. E a verdade é que, nesta segunda passagem pelos campeonatos nacionais, Eriksson voltou a ser feliz, adicionando mais um título de campeão ao seu currículo, em 1990-91, além da Supertaça conquistada no ano anterior. Uma última época menos bem conseguida não manchava a reputação do treinador, que, no final da temporada 1991-92, rumava novamente a Itália, desta vez para uma experiência algo mais positiva, com conquistas várias ao serviço da Sampdoria e Lazio, com quem se sagraria campeão italiano nos primeiros meses do Novo Milénio. Daí, o percurso do treinador levá-lo-ia a Inglaterra, onde também chegou a ser ídolo - dando mesmo a cara e nome a um 'clone' de Championship Manager lançado para PC e PlayStation - e depois à China, país onde viria a encerrar a carreira em 2017, ao serviço do Shenzen.


img_432x244$2024_04_11_22_23_36_1625650.jpg


Com antigos colegas e jogadores durante uma homenagem no Estádio da Luz.


Apesar de nunca ter voltado a Portugal, no entanto, o sueco nunca deixou de ser calorosamente recordado pelos adeptos nacionais – sobretudo, mas não apenas, do Benfica – pelo seu conhecimento táctico, espírito de vitória, desportivismo e cordialidade, e por ser um 'gentleman' 'à moda antiga' – aspectos que vão já escasseando (e que fazem falta) não só no desporto-rei como na sociedade em geral. Que descanse em paz.

Sunday, 21 July 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Eugénio, Um Pequeno Grande Homem

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Qualquer fã de futebol que tenha crescido em Portugal nas duas últimas décadas do século XX recordará com especial carinho as icónicas cadernetas de cromos alusivas aos campeonatos nacionais da época, cada uma repleta de clubes históricos e caras que, através da sua presença ano após ano, acabavam por se tornar familiares e conhecidas. O jogador de que falamos este Domingo, no dia do seu quinquagésimo-oitavo aniversário, foi uma dessas caras, tendo ficado ligado, na mente dos jovens adeptos nacionais, a um dos mais históricos de todos os clubes nacionais, o carismático Sporting Club Farense.


795331__20210622002643_eugenio.png


O jogador com a camisola com que se tornou sinónimo.


De facto, apesar de nascido na Margem Sul do Tejo e formado no Sporting, onde dava os primeiros toques logo no início da adolescência, Rui Pedro Rodrigues Eugénio (vulgarmente conhecido apenas pelo seu apelido) veria a sua carreira sénior ficar ligada a regiões consideravelmente mais a Sul, nomeadamente a terras algarvias – região onde, aliás, daria os primeiros passos como sénior, aos dezoito anos recém-completos, ao serviço do Olhanense. Seguir-se-ia uma experiência mais a Norte (no Recreio de Águeda) e outra na zona de Lisboa – onde representaria, durante duas épocas, o Estoril-Praia – mas o dealbar da época 1988-89 via o defesa lateral ingressar na agremiação com que haveria de se tornar sinónimo para muitos adeptos portugueses ao longo da década seguinte. Essa primeira passagem pelo Farense durou quatro épocas, em que Eugénio se afirmou como peça-chave quase indiscutível da equipa algarvia, realizando mais de cento e trinta jogos entre a então Segunda Divisão de Honra e o escalão principal – que, aliás, ajudaria a equipa a atingir logo na sua segunda época, a qual ficou também coroada pela presença no Jamor (embora como finalista derrotado) e, a nível pessoal, pelo nascimento do filho, Pedro.


eugenio5.jpg


Cromo da Panini dos tempos da passagem pelo Braga....


Foi com o Farense ainda 'em alta', e com estatuto de titular quase indiscutível, que Eugénio abraçou a sua próxima aventura, desta feita no outro extremo do País, e trocando a camisola alvinegra do Farense pela alvirrubra do Sporting de Braga de Mladen Karoglan. A passagem para um clube de maior dimensão não assustou, no entanto, Eugénio, que rapidamente se afirmou como opção também nos arsenalistas, pelos quais viria a realizar setenta e cinco jogos ao longo das três épocas seguintes.


s-l1200.jpg


...e da segunda passagem pelo Farense.


Em 1995, no entanto, surgiria a oportunidade de 'regressar a casa', que Eugénio não hesitaria em aproveitar; seria, pois, de braços abertos que a 'capital' do Algarve voltaria a acolher um jogador que lhes dera muitas alegrias num passado nada distante. E a verdade é que Eugénio retomaria funções no mesmo patamar em que as havia deixado, ou seja, como titular habitual – pelo menos durante a primeira época, já que na seguinte (de 1996/97) viria a perder o lugar, realizando apenas sete partidas em toda a campanha. A situação viria, no entanto, a ser corrigida na época seguinte, tendo Eugénio voltado a figurar como parte importante da equipa durante os dois anos seguintes, antes de se tornar novamente opção de recurso na sua última época nos 'leões' algarvios, já no dealbar do Novo Milénio.


Por esta altura, o 'peso' da idade já se começava a fazer sentir, e Eugénio iniciaria, gradualmente, uma transição para o futebol semi-profissional, 'despedindo-se' dos principais escalões nacionais com uma época como 'jogador de plantel' do Olhanense (num bonito 'fecho de círculo' da sua carreira profissional) antes de ingressar por duas épocas no modesto Sambrasense (embora algumas fontes dêem também conta de uma passagem pelo Valdevez). Seria nesse clube, e na condição de amador, que, no final da época 2002/2003, Eugénio viria a fechar definitivamente o seu ciclo enquanto jogador de campo, deixando o legado do seu nome nas mãos do filho, Pedro, à época ainda em idade de Iniciado, e parte das escolas do Farense - ele que viria a passar pelas Academias de Sporting e Benfica e, tal como o pai, a representar o clube alvinegro em duas ocasiões distintas, antes de rumar ao estrangeiro para jogar na Bulgária, Turquia e, actualmente, Cazaquistão. Já o Eugénio 'sénior' transitaria, com naturalidade, para cargos técnicos do clube a que ficara indelevelmente ligado, tendo exercido funções de adjunto durante duas épocas, e chegado mesmo a ser treinador interino dos algarvios na época 2006/2007.


Hoje afastado do Mundo do futebol, Eugénio continua, no entanto, a ser lembrado com carinho pelos adeptos farenses, que aprenderam a respeitar e apreciar o profissionalismo do lateral, um homem de valores e personalidade bem maiores do que a sua estatura de módicos 1,66 metros, e que bem merece esta singela homenagem no dia do seu aniversário. Parabéns, e que conte muitos.

Sunday, 9 June 2024

Domingo Desportivo: Relembrando o Euro '92

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Aquando do último campeonato da Europa, aproveitámos esta mesma rubrica para recordar o Euro '96, que assinalava a décima edição do torneio, a primeira com um formato mais alargado, e uma das primeiras a ter maior projecção na consciência popular mesmo de quem não gostava de futebol, nomeadamente através de produtos de 'merchandising' oficial alusivos ao evento. Agora, a menos de uma semana do início de mais um certame, nada melhor do que assinalar essa data com algumas breves linhas sobre aquele que foi, efectivamente, o primeiro Euro da década de '90, sobre o início do qual se celebram este dia 10 exactos trinta e dois anos.


download.png


Realizado na gélida Suécia – como forma de evitar que a Espanha tivesse o monopólio dos eventos daquele Verão, após ter acolhido tanto a Expo '92 como os Jogos Olímpicos – o Euro '92 acabaria por representar uma espécie de 'afirmação' dos países nórdicos, tendo sido ganho, não pelos anfitriões, mas por uma das suas duas nações vizinhas, no caso a Dinamarca, para quem toda a competição representaria um conto de fadas, já que a sua participação derivava de uma repescagem após a desqualificação da Jugoslávia, então em processo de desmembramento. 'Segunda escolha' ou não, no entanto, o certo é que a selecção alvirrubra almejaria mesmo a presença na final do evento, onde se superiorizaria à Alemanha – um feito notável, tendo em conta que a selecção alemã atravessava, à época, um dos seus melhores períodos de sempre.


download.jpg


A Selecção dinamarquesa vencedora do certame.


Além das duas finalistas e da anfitriã, participavam ainda no certame as selecções da França, Inglaterra, Países Baixos, Escócia e União Soviética, então conhecida como CIS. Um quadro repleto de plantéis fortes e nomes sonantes do futebol da época – dos campeões Peter Schmeichel e Henrik Larsen a Dennis Bergkamp, Frank Riijkard, Jean-Pierre Papin ou Tomas Brolin - mas que, para o adepto actual habituado a fases de grupos e quadros de países mais alargados, quase poderá parecer uma versão 'incompleta' de um evento deste tipo, com apenas dois grupos ao invés dos habituais seis. Era este, no entanto, o modelo da altura, e com apenas oito equipas, não é de surpreender que o certame se tenha desenrolado em apenas duas semanas, incluindo fins-de-semana, e com jogos mais espaçados entre si do que é norma hoje em dia.


download (1).jpg


Os vencedores com o troféu.


Curiosamente, embora a Selecção Nacional portuguesa, então em entrada na fase 'movida' a Geração de Ouro, tivesse falhado o apuramento – pelo que seria a última vez em mais de três décadas - o País não deixava, ainda assim, de ter representação, no caso através da equipa de arbitragem de José Rosa dos Santos, Valdemar Lopes e António Carvalho, que teriam a seu cargo o jogo entre a anfitriã Suécia e a Inglaterra, que terminaria com o triunfo dos nórdicos por 2-1. Infelizmente, ficar-se-ia pelo lado técnico a participação de Portugal no Campeonato da Europa em causa, o que pode ajudar a explicar o seu relativo esquecimento na consciência colectiva lusitana por oposição ao seu sucessor directo – no qual as Quinas fariam uma campanha honrosa, embora amarga – e a alguns dos seus antecessores, nos quais o País marcara presença. Ainda assim, esta competição não deixa de representar um 'pedaço' de História da década em causa, pelo que, pese embora a repercussão relativamente limitada a nível nacional, não deixa de ser importante recordá-la por alturas do seu trigésimo-segundo aniversário, e do início de uma nova competição europeia de Selecções.

Sunday, 21 April 2024

Domingos Desportivos: Saber - Discrição Competente

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Em qualquer colectivo desportivo, seja uma equipa de futebol ou de qualquer outra modalidade, existem, inevitavelmente, dois tipos de jogadores: os que se destacam pela técnica e talento inato, e fazem a diferença a ponto de rapidamente serem cobiçados por outros clubes, e os chamados elementos 'de equipa', 'de plantel' ou 'de balneário', que, sem chegarem aos níveis de qualidade das mega-estrelas, mantêm um padrão consistente, e acabam por cumprir sempre que solicitados. A equipa do Sporting que quebrou o jejum de dezoito anos, nos últimos meses do Segundo Milénio e primeiros do seguinte, não era excepção a esta regra, e para cada André Cruz, Acosta ou Jardel havia um jogador mais discreto, mas não menos importante na forma de jogar da equipa. Um desses jogadores - que até viria mesmo a perder o lugar, durante essa época, para um concorrente 'fora de série' chegado em Janeiro – era um defesa-esquerdo internacional marroquino, então com vinte e cinco anos, e que chega este Domingo, dia 21 de Abril, ao exacto dobro dessa idade.


futebol-saber.webp


Em acção pelo Sporting


Falamos de Abdelilah Saber, contratado dois anos antes ao seu primeiro clube, o local Wydad Athletic Club, de Casablanca, onde se estreara na equipa principal com apenas dezanove anos, e pelo qual realizara mais de uma centena de jogos, deixando indicações suficientes para lhe permitirem esse primeiro 'salto' para a Europa, no defeso de Inverno da época 1996/97, para integrar o Sporting de Octávio Machado. E se aqueles primeiros meses até correram de forma positiva, rapidamente o que parecia ser um sonho, se revelaria um pesadelo, já que o Sporting entraria em fluxo, ocasionando a famosa época dos quatro treinadores, durante a qual Saber trabalharia, no espaço de poucos meses, com Octávio, o seu adjunto Vital, o italiano Vicente Cantatore e, finalmente, José Couceiro, o nome que voltaria a trazer estabilidade ao Sporting.


Para o jovem marroquino, no entanto, este autêntico 'vendaval' pouco ajudava à sua adaptação a uma nova realidade e às distintas filosofias dos diferentes treinadores, causando alguns problemas de afirmação durante as temporada 97/98. Uma vez ultrapassado esse obstáculo, no entanto, Saber seria finalmente capaz de 'agarrar' a titularidade do lado direito da defesa, partindo para uma segunda temporada completa a bom nível, que o veria cimentar o seu lugar não só no plantel do Sporting mas também no da Selecção Nacional marroquina, que representava no Mundial de França '98, e pela qual conseguiria nesta fase o seu primeiro e único golo, num amigável frente ao Senegal que terminaria, precisamente, com um resultado de 1-0.


imago0005219348s.jpg


Ao serviço da Selecção Nacional marroquina.


Esse momento de forma manter-se-ia, aliás, durante o que restava do século XX, sendo apenas já nos primeiros dias do Novo Milénio que o lateral perderia o estatuto de titular que a tanto custo conquistara, passando a actuar como suplente de um dos reforços de Janeiro – um brasileiro de nome César Prates, que os sportinguistas ainda hoje recordam com carinho pelas suas prestações ao serviço do clube e, sobretudo, pela forma letal como batia livres, muitos deles traduzidos em golos. Subitamente sem espaço no clube que representava há já três épocas, Saber viu por bem aceitar a proposta que lhe chegava de Itália, para um empréstimo ao Nápoles. Após uns primeiros meses bem sucedidos, no entanto, a proposta tornou-se permanente, encerrando o ciclo do marroquino no Sporting, que duraria quase exactamente quatro anos e se saldaria em cerca de seis dezenas de jogos.


95822.jpg


Com a camisola do Turim.


O resto da (surpreendentemente curta) carreira de Saber seria passado na Série B italiana, primeiro com duas temporadas em bom plano ao serviço do Nápoles, por quem contabilizaria quase cinquenta jogos, e depois com uma última como segunda linha do Turim; nesse mesmo Verão, com apenas trinta anos, o antigo internacional marroquino daria por encerrada a carreira como futebolista profissional, efectuando a inevitável transição para cargos técnicos, a qual o levaria de volta ao seu Marrocos local para treinar o Union Ait Melloui, clube formado poucos anos antes, em 1999.


1102h.jpg.webp


No Turim, onde faria a última época como profissional.


Seguir-se-iam períodos como treinador adjunto e interino do clube que o vira despontar para o futebol, o Wydad Casablanca, e onde ainda hoje actua como adjunto técnico – cargo, aliás, que combina com a personalidade consistente, competente e discreta que revelou durante o tempo nos relvados, e que o tornou elemento acarinhado, ainda que não idolatrado, dos plantéis do Sporting de finais do Segundo Milénio. Parabéns, e que conte muitos mais.

Sunday, 10 March 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Luís Vouzela, Um Exemplo de Estabilidade Modesta

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Apesar de, hoje em dia, militar na modesta Liga 3 (ao lado de outros históricos do futebol português, como Belenenses e Vitória de Setúbal) a União de Leiria sempre foi - historicamente e em particular em finais do século XX e inícios do seguinte – um dos emblemas-estandarte das divisões profissionais nacionais, daqueles que qualquer adepto da época nem sequer equacionava não ver nas páginas da tradicional caderneta anual da Panini. Por entre classificações honrosas (mas sem nunca 'tocar' nos 'grandes') e as habituais 'subidas e descidas' experienciadas por um clube da sua dimensão, o Leiria conseguia, ainda, revelar uma série de jogadores que, mais tarde, viriam a almejar a mais altos vôos, com destaque para Hélton (histórico guardião do Porto que teve na cidade do Lis a sua primeira experiência futebolística em Portugal) e para os prolíficos avançados Maciel e Derlei, este último 'destinado' a fazer História como um dos poucos jogadores a vestir a camisola de todos os três grandes, e a gozar de sucesso em todos os três.


Em meio a estas revelações, no entanto, o clube alvirrubro contava, também, com a sua quota parte de 'jogadores de clube', aqueles 'Grandes dos Pequenos' que se contenta(va)m com uma carreira estável e o estatuto de ídolo dos adeptos; e, no período em causa, um destes nomes foi o de um médio trasmontano que, durante mais de uma mão-cheia de épocas, assegurou a consistência defensiva no centro do terreno leiriense, e que comemora este Domingo cinco décadas de vida.


VouzelaPortoLeiria.jpg


O médio ao serviço do clube onde se notabilizou.


Proveniente do Académico de Viseu, onde se formara e onde tivera as primeiras experiências como futebolista sénior, Luís Miguel Silva Tavares, mais conhecido como Luís Vouzela, chegava a Leiria, no início da época 1995/96, já com créditos de jogador estabelecido, após duas temporadas como peça indispensável do emblema viseense. O 'salto' para um nível consideravelmente mais alto tão-pouco assustou o médio, que, das seis temporadas que passaria no clube do Lis, apenas em uma não conseguiria afirmar-se como indispensável (1997/98, em que apenas amealhou pouco mais de uma dezena de presenças), tendo, nas restantes, sido pedra basilar do meio-campo alvirrubro, sempre com cerca de trinta a trinta e cinco jogos ao longo de cada época. Neste período, o viseense chegou também a partilhar o relvado com nomes sonantes do futebol nacional, como os futuros ídolos portistas Derlei e Nuno Valente, a ex-estrela de Benfica e Porto Tiago, o guarda-redes Costinha, antigo mal amado de Sporting e FC Porto, ou o futuro treinador dos 'leões', Silas, outro 'histórico' do clube.


Shutterstock_8292587b.jpg


Vouzela no Moreirense.


Curiosamente, este honroso e regular registo, bem como o apreço de que gozava junto dos adeptos leirienses, não resultou em vôos ainda mais altos para Luís Vouzela; pelo contrário, os passos seguintes do médio seriam 'para o lado', já que se transferiria para emblemas da mesma dimensão do Leiria, ou até um pouco menores. O que também não mudaria seria o estatuto do jogador dentro dos plantéis de Santa Clara (primeiro) e Moreirense (depois), clubes entre os quais dividiria as épocas entre 2002/2003 e 2004/2005, realizando entre quatro a cinco dezenas de jogos por cada um. O 'salto', no caso para o estrangeiro, ficaria adiado para o fim de uma única época ao serviço do Beira-Mar, também em bom plano, após a qual o médio assinaria pelo Olympiakos Nicosia, de Chipre – à época destino de 'férias pagas' para um sem-número de jogadores portugueses de nível médio.


thumb_W95px_H120px_19-08-2005_1124462759_104_28.jp


Ao serviço do Beira-Mar.


Durou pouco, no entanto, a 'viagem de férias' de Vouzela, que se veria de regresso ao futebol nacional no final dessa época de 2006-2007, após apenas uma dezena de partidas pelo emblema cipriota. O 'remédio' para relançar a carreira passou, assim, por nova descida de nível profissional, com as épocas seguintes a verem Vouzela representar clubes progressivamente mais modestos: Desportivo de Chaves (onde se chegou a cruzar com outro Grande dos Pequenos, Kasongo, na última época do congolês enquanto futebolista), Nelas, e Penalva do Castelo foram os seus destinos nas três temporadas seguintes, antes de 'regressar a casa' para duas épocas no clube que o vira despontar para o futebol, no decurso das quais sofreu uma lesão grave na perna.


241_pri_luis_vouzela.jpg


Com a camisola do Chaves.


Ao contrário do que seria de esperar, no entanto, não seria no Académico de Viseu que Vouzela viria a dar por encerrada a carreira, tendo o médio recuperado da referida lesão o suficiente para representar ainda, já com estatuto de veterano, por Nogueirense e Oliveira de Frades, onde viria a terminar o seu percurso, já com quarenta anos feitos.


95869-vouzela.webp


No 'seu' Académico de Viseu, já veterano.


Um exemplo de longevidade dentro das quatro linhas, que chegaria ainda a ter um 'gostinho' da carreira de treinador, ao orientar os modestos Campia e Santacruzense durante um par de jogos cada, nas épocas de 2017/18 e 2018/19, respectivamente. Desde então, Vouzela tem-se mantido afastado do Mundo do futebol, preferindo dedicar-se a outras actividades na sua 'reforma', e ser lembrado por aquilo que deu aos campeonatos portugueses nos seus tempos de mais jovem. Parabéns, e que conte muitos.

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...