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Wednesday, 29 July 2026

Quartas aos Quadradinhos: Trinta Anos da Divulgação do Trabalho de Um Precursor

 A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

A vastidão de banda desenhada de qualidade presente no mercado português de finais do século XX e inícios do seguinte poderia levar qualquer jovem da altura a esquecer que, como qualquer movimento artístico, o florescimento dos 'quadradinhos' em Portugal teve, forçosamente, de ter um ponto de partida. Felizmente, em meados da década, várias editoras fizeram sua a missão de celebrar e divulgar estes pioneiros para uma nova geração, através de álbuns como 'O Mosquito – 60 Anos' (de que falámos na última Quarta aos Quadradinhos) e o tomo de que falamos esta semana, que resgata o trabalho do 'pai' da BD nacional, Rafael Bordalo Pinheiro.


Bem conhecido pelo seu trabalho como caricaturista, e como criador do Zé Povinho (o estereótipo do português de classe trabalhadora da época), Bordalo deixou também, no entanto, a sua marca na sociedade portuguesa de finais do século XIX como criador de banda desenhada, publicada em formato de 'tiras' no jornal 'O Comércio do Porto Illustrado' ao longo de mais de uma década, entre 1892 e 1904. Eram essas bandas desenhadas que o álbum publicado em 1996 pela editora Aventura Gráfica, e simplesmente intitulado 'Bandas Desenhadas de Rafael Bordalo Pinheiro', reunía e apresentava, um século depois, às novas gerações.

Embora o trabalho de recolha e divulgação fosse louvável, no entanto, o estilo de banda desenhada praticado na época de Bordalo era (e é) demasiado diferente para poder ser apreciado fora de contexto, podendo parecer estranhamente 'chato' para leitores modernos (ainda que a qualidade artística seja inegável). Talvez por isso não se tenha ouvido falar mais extensamente desta obra da Aventura Gráfica, quer à época da sua publicação, quer nas três décadas subsequentes. Ainda assim, e conforme acima mencionámos, trata-se de um esforço mais que louvável, e que bem merece esta nota por alturas do trigésimo aniversário da sua publicação.

Thursday, 16 July 2026

Quartas Aos Quadradinhos/Quintas no Quiosque: Os 30 Anos da Edição Comemorativa de 60 Anos de um Jornal com 90 Anos

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Quarta-feira, 16 de Julho de 2026.

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

Apesar de nesta rubrica nos focarmos no 'boom' da banda desenhada em Portugal em finais do século XX, a verdade é que o meio tinha já, à época, uma tradição secular no nosso País, tendo naturalmente 'descendido' das populares caricaturas de jornal ainda nos tempos da monarquia. A primeira grande 'expansão', no entanto, deu-se já no primeiro quarto do século passado, quando as 'histórias aos quadradinhos' verdadeiramente se popularizaram entre a juventude, dando azo a toda uma série de publicações especializadas, não só em Portugal como um pouco por todo o Mundo. E, de entre os periódicos nacionais deste campo, um deles ganhou destaque suficiente para motivar a publicação de um álbum comemorativo dos sessenta anos sobre o seu aparecimento: 'O Mosquito', jornal que – entre outros – acolheu trabalhos de Eduardo Teixeira Coelho (nome sinónimo com a publicação) e JoséRuy, que começou como leitor (com apenas cinco anos) e terminou como colaborador, naquele que talvez seja o melhor atestado à longevidade da revista.

Editado por Carlos Costa e publicado algures em 1996 pelas Edições Época de Ouro, responsáveis por uma série de outros álbuns no mesmo período, 'O Mosquito – 60º Aniversário' é precisamente aquilo que se poderia esperar de uma edição deste tipo – uma compilação de algumas das melhores BD's publicadas durante o tempo de vida do jornal, em luxuosa edição de 'capa dura', capaz de satisfazer não só os saudosos leitores do periódico durante o seu tempo de vida como também de captar o interesse da então nova geração, a fim de lhe apresentar heróis e autores de banda desenhada clássicos mas que lhe eram, até então, desconhecidos. Não admira, pois, que se trate hoje de uma edição rara, vendida por valores exorbitantes por alfarrabistas – e, como tal, bem merecedora de destaque nestas nossas páginas, no ano em que completa trinta anos de existência, e em que o periódico que a inspirou completaria noventa...

Wednesday, 17 June 2026

Quartas Aos Quadradinhos: Trinta Anos de Um 'Fenómeno' Artístico no Entroncamento

 A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de, a nível nacional, ter pouca expressividade, a banda desenhada portuguesa gozava de diversos 'núcleos', em diferentes zonas do País, onde a criatividade fluía, e a concentração de artistas e argumentistas de BD emergentes era acima da média e fora do comum para a realidade nacional. Um desses núcleos, centrado numa localidade algo insólita, lograva mesmo, há exactos trinta anos, lançar uma compilação dos maiores talentos da sua área.

Publicado e divulgado pelo Notícias do Entroncamento - principal jornal da vila ribatejana com o mesmo nome – e com o inspirado e 'bem apanhado' nome de 'Entroncamentos de BD', o álbum em causa, publicado em finais de Junho de 1996, agregava as contribuições dos seus diferentes colaboradores em torno de um tema central – os famosos 'fenónmenos do Entroncamento', o conjunto de lendas urbanas relativas a frutas, legumes e animais de dimensões, coloração ou comportamento insólitos que, desde os anos 50, dominam o folclore da região. A edição lograva, assim, manter próximas de 'casa' as raízes de um projecto cuja ambição derradeira era divulgar o 'viveiro' de talentos 'bedéfilos' que então despontava na região.

E ainda que o álbum em causa nunca lograsse o nível de visibilidade desejado – ficando-se pelo âmbito local, e encontrando-se hoje algo 'Esquecido Pela Net' – há, ainda assim, que louvar a ambição e determinação dos organizadores do projecto, M. A. L. S. (editor de banda desenhada do Notícias) e Geraldo Lino, que bem merecem que o seu esforço seja recordado e relembrado, exactos trinta anos após a edição daquele que é, ainda hoje, o principal tomo agregador da produção de banda desenhada na região.

Wednesday, 3 June 2026

Quartas Aos Quadradinhos/Quintas No Quiosque: 'Maria Jornalista', Um Conceito Tão Audaz Quanto Esquecido

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Quinta-Feira, 04 de Junho de 2026.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A existência de páginas de banda desenhada em jornais, ou nas respectivas revistas, não era, de todo, caso inédito na imprensa portuguesa dos anos 90, embora, na grande maioria destes casos, o material se resumisse a 'tirinhas' importadas da América do Norte - salvo, claro, algumas excepções, várias das quais já aqui abordadas. O que a Notícias Magazine fazia em 1994, no entanto, não tinha precedentes na História da banda desenhada em órgãos de imprensa escrita, e não deixa de ser surpreendente que, hoje em dia, a iniciativa se encontre algo esquecida, tanto pela Net como pelos próprios 'X' e 'millennials' nacionais.



As contribuições de Fernando Bento e José Ruy (crédito das fotos: Outras Leituras do Pedro)

Talvez esse reduzido impacto se deva ao curto espaço de tempo em que as aventuras de 'Maria Jornalista' surgiram nas páginas da revista de fim-de-semana do Diário e Jornal de Notícias – no total, a personagem teve direito a apenas uma dezena de pranchas, cada uma com duas páginas e desenhada por um autor diferente. No entanto, ao longo daquilo que, no fundo, era uma mini-série, o potencial do conceito era explorado ao máximo, com a rotação de criadores a permitir uma grande variedade de estilos e atmosferas, que iam da comédia à acção e aventura, e o apoio da Notícias Magazine a tornar possível a inserção, em cada história, de personagens e acontecimentos reais e relevantes à época de publicação. Uma empreitada verdadeiramente original e pioneira, portanto, que merecia ser melhor lembrada, mas que, surpreendentemente, nunca foi compilada em qualquer tipo de formato comercial – isto apesar de a própria Notícias ser, já à época, uma das principais casas editorias portuguesas!

Sem o apoio de um álbum, no entanto, era inevitável que 'Maria Jornalista' adquirisse, praticamente, contornos de 'audiovisual perdido', sendo as pranchas que ilustram esta edição o único vestígio existente na Web de que esta série efectivamente existiu – isto apesar da panóplia de nomes sonantes da BD portuguesa que davam vida às pranchas, entre os quais se incluíam Luís Louro, Luís Diferr, Baptista Mendes ou José Ruy. Cabe, pois, ao Anos 90 contribuir para a expansão do material digital sobre a mini-série da Notícias Magazine, para que a mesma não seja totalmente esquecida, e possa ser divulgada junto das novas gerações de 'bedéfilos' nacionais.

Wednesday, 13 May 2026

Quartas Aos Quadradinhos: O 'Mercado Alternativo' da BD Portuguesa Noventista

 A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Ao longo desta rubrica, temos vindo a falar de publicações oficiais que, de uma forma ou de outra e com maior ou menor impacto, ajudaram a fomentar a 'cena' portuguesa de banda desenhada no seu período áureo dos anos 80 e 90; no entanto, existia, durante o mesmo período, toda uma outra categoria de revistas tão ou mais seminais para o crescimento da BD portuguesa, mas que se movimentavam em meandros mais obscuros, sendo, via de regra, lançadas por amadores sem qualquer tipo de estrutura editorial e, como tal, com ciclos de vida normalmente curtos.



Capa da 'Mesinha de Cabeceira', uma das muitas fanzines da época em causa.

Falamos, claro está, das 'fanzines', tipo de publicação partilhado com o mundo da música, mas que, no caso da BD, funcionava de forma ligeiramente diferente e, discutivelmente, mais eficaz. Isto porque, enquanto que as 'fanzines' de música divulgavam indirectamente as bandas e artistas incluídos nas suas páginas – através de críticas ou entrevistas – revistas como a Boom!!!, Banda Desejada, Shock, Mesinha de Cabeceira e outras do mesmo género permitiam aos artistas 'apresentar-se' em primeira pessoa directamente ao público-alvo, através de páginas e histórias de sua autoria, eliminando assim o intermediário necessário no caso das fanzines musicais, ou dedicadas a outro tipo de criação artística ou cultural. E a verdade é que este método se afirmava mais do que benéfico para os artistas envolvidos (alguns, inclusivamente, internacionais) tendo o circuito de 'fanzines' de BD ajudado a lançar nomes tão sonantes da BD lusitana como José Carlos Fernandes, hoje o mais aclamado autor nacional de sempre.

Apesar das suas limitações, portanto, é fácil perceber o quão importante foi o papel das 'fanzines' de BD não só na divulgação de novos artistas do meio como também no colmatar de uma lacuna no então vibrante mercado nacional de periódicos; como tal, é também com naturalidade que esta categoria de publicação faz por merecer uma menção na rubrica dedicada aos 'quadradinhos' nacionais da época em que floresceram nos meandros limítrofes e marginais da criação artística portuguesa.

Thursday, 26 March 2026

Quartas aos Quadradinhos: A Carreira de Luís Diferr, Nome 'de Culto' da BD Nacional

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 25 de Março de 2026.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Como deverá ter ficado bem patente no 'post' sobre as aventuras de Jim Del Monaco, a BD franco-belga dos anos 50 a 80 era fonte de inspiração para a maioria dos ilustradores e criadores de BD nacionais. No entanto, apesar de fortemente influenciados pelo estilo, poucos há que possam, efectivamente, reclamar um papel colaborativo com uma das suas inspirações; uma dessas (poucas) excepções é Luís Diferr, o recém-malogrado desenhista que, durante a última década do século XX, chegou a colaborar com o editor dos álbuns póstumos do popular herói franco-belga Alix, para além de ter lançado duas séries (num total de quatro álbuns) em nome próprio, e tido direito a extensa exposição no icónico Festival de Banda Desenhada da Amadora, em 1992.


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Nascido em Angola em 1956, Diferr licenciou-se em Arquitectura, tendo chegado a exercer funções como professor de Geometria Descritiva, mas era na BD que residia a sua verdadeira paixão, a qual se ia traduzindo numa enorme diversidade de ilustrações, 'tirinhas' e pranchas 'espalhadas' por um sem-número de fanzines e outras publicações de finais dos anos 80 e inícios de 90. Seria, no entanto, apenas em Março de 1991 (há exactos trinta anos) que o sonho se tornaria realidade, com a edição do primeiro volume completo da autoria de Diferr, no caso a primeira de duas aventuras do cosmopolita Herb Krox, 'O Homem de Neanderthal', cuja continuação, 'Os Deuses de Altair - I', sairia apenas sete anos depois, já depois do lançamento de 'O Lago Iluminado', primeira e única aventura de Drakar, o Minossauro, criada em parceria com o argumentista José Abrantes.


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As duas aventuras de Herb Krox, editadas em extremos opostos dos anos 90.


Após este ponto, a carreira de Diferr entraria em ciclo descendente, não obstante o aparecimento, em 2002, de dois novos personagens, no contexto de um volume de homenagem a Vasco Granja, e o lançamento do mais importante projecto do autor, um volume sobre Portugal inserido na colecção 'As Viagens de Lois', idealizada por Jacques Martin (criador de Alix) nos anos anteriores ao seu falecimento, em 2011. O próprio Diferr viria a deixar-nos em 2025, sem nunca ter atingido grande notoriedade no contexto da BD nacional ou internacional, mas tendo almejado um merecido estatuto de culto, conseguido também, em parte, pela sua actividade enquanto 'blogger', que manteria até 2016; já a este 'blog' (que não é seu) interessa, sobretudo, assinalar os trinta e cinco anos da publicação do álbum que daria início a esse percurso, e o colocaria pela primeira vez no 'radar' dos bedéfilos portugueses, e que serve como 'desculpa' para a breve retrospectiva de carreira levada a cabo nestas linhas.

Wednesday, 26 November 2025

Quartas aos Quadradinhos: Quando José Ruy 'Encontrou' Rudyard Kipling

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui em ocasiões anteriores falámos da obra de José Ruy, talvez o mais solicitado ilustrador português das décadas de 80 e 90, sendo invariavelmente o escolhido para dar vida aos personagens de álbuns de banda desenhada ligados à História de Portugal, biografias, relatos de época ou representações visuais de contos e lendas tradicionais, nos quais a sua bibliografia é fértil. Em 1986, no entanto, Ruy embarcaria num projecto diferente do seu habitual – a passagem de várias das histórias dos dois 'Livros da Selva', de Rudyard Kipling, para um formato de banda desenhada. O resultado foi 'Como Apareceu o Medo', editado quatro anos depois (em Abril de 1990) pela Editorial Notícias, e sobre o qual nos debruçamos esta Quarta-feira.


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Com trinta e duas páginas originalmente contidas num volume de capa mole (mais tarde, seria reeditado com capa dura) 'Como Apareceu o Medo' é exactamente aquilo que a capa apregoa – uma colectânea de várias das muitas histórias de animais escritas por Kipling, com o 'famoso' conto-título à cabeça, com desenhos e ilustrações da autoria de José Ruy a acompanhar a prosa original do autor indo-britânico, que recebe um crédito como co-autor. Infelizmente, embora a capa e os detalhes da publicação sejam fáceis de encontrar com um bom motor de pesquisa, das páginas interiores não restam quaisquer vestígios digitalizados, tornando impossível mostrar o estilo gráfico do livro, para lá da visualmente impactante capa; é de crer, no entanto, que os desenhos seguissem o estilo habitual de Ruy, que fica desde logo bem patente na magnífica ilustração de Shere Khan, o famoso tigre assassino d''O Livro da Selva', que domina o referido frontispício.


Em suma, e apesar de se tratar de uma proposta arriscada (tanto pelo número de admiradores do texto original como por ser difícil interessar crianças em textos clássicos) a adaptação em BD de 'Como Apareceu o Medo' parece ter tido algum grau de sucesso, senão em termos de vendas, pelo menos de execução. Pena é, portanto, que seja impossível encontrar exemplos da arte deste livro na Internet actual – embora os interessados tenham bom remédio, já que o livro ainda hoje continua a ser reeditado, e se encontra disponível nas boas livrarias, pronto a dar azo a mais uma geração de fãs do 'imortal' José Ruy...

Thursday, 10 April 2025

Quartas aos Quadradinhos: A Revista 'Crash', Uma Experiência Louvável Mas Falhada

NOTA: Este 'post' é correspondente a Quarta-feira, 9 de Abril de 2025.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Nas últimas duas décadas do século XX, o mercado da banda desenhada em Portugal dividia-se em duas grandes categorias: por um lado, os 'quadradinhos' de quiosque da Disney, Marvel, Turma da Mônica e afins e, por outro, os álbuns encadernados, domínio quase exclusivo dos autores franco-belgas clássicos. De quando em vez, no entanto, um ou outro trabalho mais independente procurava 'furar' esta duologia, fosse ele um álbum ou série de álbuns assinados por um autor emergente ou, como no caso de que aqui falaremos, uma revista destinada a pôr em relevo múltiplos nomes da cena. Era, exactamente, essa a proposta da Crash, um periódico totalmente independente lançado pelas Publicações Totais que, apesar do nome algo 'duvidoso', conseguiram levar às bancas um produto com alguma qualidade, cujo primeiro número celebra este mês trinta anos de vida.


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Com foco particular na fantasia e ficção científica (géneros com larga e colorida história em países como os EUA e o Reino Unido, mas pouquíssima expressão em Portugal) a Crash era um projecto de Miguel Jorge, nome já com algum percurso no Mundo das artes gráficas nacionais, após ter colaborado com a revista especializada Art Nove. Apesar do envolvimento deste nome de relevo, no entanto, esta nova publicação – com periodicidade mensal e um custo de capa de trezentos escudos, a média para a época – situava-se no limiar entre revista profissional e 'fanzine' (como é classificada nos poucos 'sites' que a relembram), sendo a sua ética e missão editorias derivadas destas últimas.


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De facto, mais do que fazer dinheiro, Miguel Jorge e companhia procuravam dar a conhecer arte – o que pode explicar a pouca expressão que a revista teve, sendo mesmo incerto se terá passado do primeiro número, o único sobre o qual se conseguem ainda encontrar informações. Um caso, talvez, de, como se diz, de boas intenções estar o Inferno cheio – o que não deixa de ser uma pena, já que o objectivo dos editores tinha mérito evidente, e, caso tivesse resultado, a revista em causa poderia ter servido como muito necessária plataforma de lançamento para uma série de artistas gráficos de nicho que haviam tido o 'azar' de nascer e viver em Portugal. Sobram, pois, as referidas intenções, que poderão não ter sido suficientes para 'salvar' a 'Crash', mas a tornam digna de menção por ocasião dos trinta anos do seu primeiro (e talvez único) número.

Thursday, 19 September 2024

Quartas aos Quadradinhos: O 'Outro' Corvo da Banda Desenhada

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 18 de Setembro de 2024.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui anteriormente dedicámos algum espaço à carreira e obra de Luís Louro, um dos principais nomes da BD nacional contemporânea; e visto que uma das suas obras mais conhecidas completa este ano três décadas sobre o seu lançamento (além de ter temática e nome semelhantes à do filme abordado na nossa última Sessão de Sexta) nada melhor do que gastar agora algumas linhas a falar da mesma.


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Lançado algures em 1994 (a data de 1 de Janeiro veiculada pelo Goodreads não é, necessariamente, fidedigna), 'O Corvo' quase parece uma paródia da BD americana do mesmo nome que viria a inspirar uma série de filmes de acção com clima gótico. Isto porque, em comum com os heróis torturados mas 'durões' d''O Corvo' americano, o protagonista de Luís Louro – carteiro de profissão, introvertido e meio 'xoninhas' – só tem mesmo o nome de código e o estatuto de vigilante mascarado, no caso das ruas de Lisboa. Em tudo o restante, o Corvo português falha em toda a linha, muitas vezes causando problemas e situações mais graves do que aquelas que tentava, à partida, resolver, nas quais se vê, ele próprio, frequentemente envolvido. Uma abordagem puramente cómica, portanto, sem quaisquer pretensões a tornar Vicente num herói 'sério', ficando o mesmo mais próximo do Pato da Capa Preta do que do 'outro' Corvo ou de Batman, inspiração inevitável para qualquer história deste tipo.


É possível que quem não souber à partida que se trata de uma paródia se deixe 'enganar', no entanto, já que as ilustrações dos já sete tomos desta colecção (o último dos quais lançado já este ano) poderiam perfeitamente fazer parte de um 'comic' independente americano, ou de um álbum de BD franco-belga dos mais 'sérios', em nenhum momento dando a entender que tanto o herói como as suas aventuras têm teor cómico. Talvez por isso o produto final resulte tão bem, extraindo o habitual humor inerente a dicotomias deste tipo, e criando um super-herói 'à portuguesa' - com tudo o que isso acarreta – que, apesar da pouca sorte e ainda menor aptidão, se tem conseguido manter no activo há já três décadas, motivo mais que suficiente para que celebremos as suas origens nas páginas deste nosso blog nostálgico.

Wednesday, 25 January 2023

Quartas aos Quadradinhos: Pepedelrey

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


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Capa da antologia dedicada ao autor, lançada pela Escorpião Azul.


Na era pré-Internet, em que qualquer criador se via forçado a 'fazer nome' utilizando os parcos e escassos meios ao seu dispôr, um dos melhores veículos para novos nomes se tentarem tornar conhecidos eram as fanzines – títulos criados, como o nome indica, por e para fãs do estilo, e editadas de forma totalmente independente e, muitas vezes, claramente amadora, num daqueles casos em que a vontade era suficiente para superar a falta de recursos. E a verdade é que esta táctica acabava, esporadicamente, por render dividendos, tendo alguns nomes posteriormente conhecidos do mundo da música, literatura ou banda desenhada tido o seu início de carreira em publicações deste tipo.


No caso da banda desenhada, um desses nomes é Pedro Pereira, mais comummente conhecido pela sua alcunha, Pepedelrey, e que apesar de ser hoje um nome de culto nos meios 'bedéfilos' portugueses, apenas após o Novo Milénio conseguiu publicar trabalhos em nome próprio. Até esse ponto, a carreira deste artista e argumentista (iniciada em 1985) havia-se desenrolado, exclusivamente, à base de participações em 'fanzines' e antologias de BD lançadas por editoras cada uma mais obscura do que a outra.


À luz destes factos, e tendo em conta a época da História em que os mesmos se desenrolavam, a carreira almejada pelo artista natural de Oeiras não se pode considerar menos do que invejável; o facto de Pepedelrey ser, hoje, um artista conceituado (e fundador do célebre Lisbon Studio, um dos maiores estúdios de BD do País) após ter logrado progredir a um nível de tal modo independente durante mais de quinze anos, é um testamento não só da qualidade do trabalho deste autor, mas também da sua força de vontade, que o ajudou a almejar um estatuto de culto no meio da banda desenhada portuguesa logo nos anos 90, e a mantê-lo até aos dias de hoje.

Wednesday, 11 January 2023

Quartas aos Quadradinhos: Encontrada a Inspiração Para 'Avatar'...?

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


O plagiarismo é, regra geral, encarado como um tabu na sociedade ocidental, sobretudo porque os plagiadores tendem a copiar uma fonte mais conhecida, ou já estabelecida, na sua rota para o sucesso; o que aconteceria, no entanto, se se verificasse o contrário – se uma ideia multibilionária tivesse como inspiração outra vários graus de magnitude mais modesta? É esta a base da teoria da conspiração que coloca uma obscura banda desenhada portuguesa de 1997 como principal inspiração de James Cameron (ele de 'Aliens', 'Exterminador Implacável 2' e, claro, 'Titanic') para a criação do mega-popular 'franchise' Avatar, e que torna agora a encontrar-se na berlinda, após a estreia do segundo filme da planeada trilogia; e a verdade é que, improvável como é, esta ideia não deixa, ainda assim, de ter bases bem sólidas...


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Coincidência...ou plágio?


Isto porque a referida BD, da autoria dos então desconhecidos Fernando Lucas e Pedro Potier – e que nem tão-pouco é um álbum, ou mesmo parte de um, mas apenas uma modesta história de seis páginas submetida a concurso no histórico Festival de BD da Amadora – relata a invasão de um planeta habitado por esbeltos 'aliens' azuis por uma frota armada de 'mechs' e outras tecnologias – ou seja, precisamente a mesma premissa de 'Avatar', vivida por uma personagem de aparência em tudo semelhante aos 'Na'vi' de Cameron!


E ainda que seja muito pouco provável que o realizador americano tenha lido esta modesta história, a verdade é que as origens da ideia por trás de 'Avatar' remontam aos anos 90... Coincidência avassaladora ou roubo descarado de ideias a dois jovens artistas portugueses de há um quarto de século? Leiam a história completa neste link, e decidam por vocês próprios...

Wednesday, 26 October 2022

Quartas aos Quadradinhos: A Obra de Miguel Rocha

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Apesar de nunca ter lançado um artista de projecção verdadeiramente internacional, à semelhança do que fazem Estados Unidos, França, Bélgica, Brasil ou Japão, Portugal possui uma rica e já longeva ligação à BD, a qual remete às caricaturas e 'cartoons' de artistas como Bordalo Pinheiro, ainda no século XX. E a verdade é que, apesar da falta do referido nome reconhecido internacionalmente, a 'cena' portuguesa não deixou (e deixa) de ter os seus nomes de relevo, que vão de veteranos como os falecidos José Garcês ou Fernando Relvas a nomes mais contemporâneos como Luís Louro, José Carlos Fernandes, Luís Pinto-Coelho, António Jorge Gonçalves ou o nome de que falamos esta semana, Miguel Rocha.


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Nascido em Lisboa em 1968, crescido em Alhandra e formado na Escola António Arroio – principal escola técnica de artes plásticas da Grande Lisboa, e uma das principais do País – Miguel João Pinheiro Soares Rocha insere-se na nova geração de autores de BD lusitanos, tendo desenvolvido a grande maioria da sua obra do lado 'de cá' do Terceiro Milénio; não obstante, a sua carreira remonta a finais da década de 90, tendo a sua estreia oficial como artista de banda desenhada sido feita através de uma folha mensal integrada na revista Pais & Filhos – um dos muitos veículos pouco ortodoxos que os artistas da 'nova escola' portuguesa utilizaram como 'rampa de lançamento' para os seus trabalhos. Antes, Rocha havia feito o habitual 'périplo' pela área da publicidade e artes gráficas, e colaborado, na qualidade de paginador, com a revista Selecções BD, o compêndio mensal de clássicos do género editado pela Meribérica-Liber.


O talento, esse, era já óbvio, mesmo nessa fase mais embrionária, e não tardaria até Rocha ver o mesmo ser reconhecido com galardões, nomeadamente o Prémio Especial Revelação no prestigiado Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, no caso com o seu segundo álbum, 'As Pombinhas do Sr. Leitão', sucessor de 'O Enigma Diabólico', lançado no ano anterior. Pelo meio ficavam colaborações com o prestigiado jornal 'Público', e a oportunidade de ilustrar, com uma pequena história, o catálogo de uma exposição dedicada ao 25 de Abril – a primeira de muitas obras institucionais que o autor viria a criar. Ainda em 1999, saem outros dois trabalhos, o álbum 'O Polvo' e a história 'Borda D'Água', inserida na revista LX Comics, e que voltaria a ser publicada no ano seguinte – agora em versão a cores - na revista 'Pública', um dos suplementos do jornal acima referido.


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A segunda obra do autor valeu-lhe o primeiro do que viriam a ser sete galardões no prestigiado Festival Internacional de BD da Amadora.


O ano 2000 vê, aliás, a carreira de Miguel Rocha seguir de vento em popa, com o lisboeta a arrecadar mais dois prémios no Festival de BD da Amadora, incluindo o de Melhor Álbum Português para 'Eduarda', adaptação da obra literária do mesmo nome da autoria de Georges Bataille, e desenvolvida em parceria com o argumentista Francisco Oliveira; o outro prémio, o de Melhor Desenhador, vai para 'Março', o outro álbum grande formato lançado nesse ano. Além destas duas obras, Rocha volta ainda a colaborar com o 'Público', agora com uma ilustração para a série dos 'Sete Pecados', e cria um álbum de pequeno formato, 'Transcomix – Lisboa ao Quadrado', para distribuição gratuita no âmbito do Dia Europeu Sem Carros. No ano seguinte, o desenhador é alvo de uma retrospectiva no âmbito do FIBDA, prova cabal do estatuto que lograra obter em apenas quatro curtos anos de carreira.


Os anos seguintes desenvolvem-se na mesma toada, entre álbuns de originais e participações institucionais, destacando-se, destas últimas, a adaptação de um conto de Miguel Torga para inserção num álbum alusivo ao Dia Mundial do Livro 2002, e a criação do cartaz oficial do Euro 2004, talvez o projecto de maior visibilidade de toda a sua carreira. O auge do seu reconhecimento na comunidade bedéfila chega, no entanto, apenas dois anos depois, quando o seu trabalho sobre Salazar, em parceria com João Paulo Cotrim, arrecada nada menos do que quatro prémios no Festival da Amadora, ganhando Melhor Álbum, Melhor Argumento e Melhor Desenho, além do Prémio Juventude. E apesar de o artista não lançar qualquer trabalho de originais há mais de uma década a esta parte (os últimos dois são de 2010) o contributo que deu à BD portuguesa ao longo dos doze anos anteriores foi mais que suficiente para lhe outorgar o estatuto de nome 'grande' da nova geração de artistas nacionais de banda desenhada, restando, apenas esperar para ver o que o futuro reserva para a sua carreira.

Wednesday, 31 August 2022

Quartas aos Quadradinhos: A Obra de José Carlos Fernandes

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Ao longo do tempo de vida desta rubrica, temos vindo a traçar breves biografias das carreiras dos principais artistas e criadores de BD portugueses, de Carlos Roque e José Garcês a Fernando Relvas, António Jorge Gonçalves ou Luís Louro; agora, chega a vez de acrescentar mais um nome a essa curta mas honrosa lista – o de José Carlos Fernandes, por vezes conhecido apenas como JCF, e que se destaca por ser um dos mais prolíficos autores do panorama da banda desenhada em Portugal.


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O autor na actualidade


Tal como Luís Louro, Fernandes faz parte da 'nova geração' de quadrinistas, cuja carreira se inicia já depois do fim dos principais veículos nacionais do meio – as revistas 'Tintin' e 'Mundo de Aventuras', onde a maioria da geração anterior se estreou nas lides da BD; assim, coube a estes jovens encontrar outros meios para se expressar e se dar a conhecer, tendo José Carlos Fernandes tomado o caminho das 'fanzines'. Os primeiros anos da carreira do artista foram, pois, passados a criar histórias para uma audiência muito reduzida, e à espera do grande 'momento' – o qual viria a surgir em 1989, quando uma paródia de duas páginas do herói franco-belga Alix é publicada na fanzine Shock, distribuída na região de Lisboa.


Ficava, assim, dado o mote para uma carreira inacreditavelmente prolífica, qualquer resumo da qual ocuparia muitas linhas e levaria muito tempo, para além de resultar num texto extremamente aborrecido; isto porque o autor viu publicados, nas duas décadas seguintes, uma média de dois a três títulos por ano, tendo um presumível surto de inspiração no ano de 1997 resultado no lançamento de NOVE (!!) obras de JCF num período de doze meses. Destaque, ainda assim, para as duas primeiras obras 'a sério' do artista, 'Controlo Remoto', de 1993, e 'A Lâmina Fria da Lua', a sua verdadeira obra-revelação, publicada em 1994 (ambas pela Associação Neuromanso, em parceria com a Comicarte e a ASIBDP, respectivamente), bem como para o galardoado 'A Pior Banda do Mundo', produzido quase uma década depois.


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Uma de quase uma dezena de obras de JCF editadas em 1997


O ritmo tresloucado de produção não afectava, no entanto, a diversidade ou criatividade da obra de Fernandes, a qual se estendia da ficção pura e dura à BD institucional em parceria com entidades estatais, e rendia ao autor distinções de fontes tão diversas quanto a Câmara Municipal de Lisboa (que lhe atribuiu por três vezes o Prémio Rafael Bordalo Pinheiro) e a organização do reputado, e entretanto malogrado, Festival de BD da Amadora, que considerou 'A Pior Banda...' a melhor obra nacional do evento em dois anos consecutivos. A fama de Fernandes estendia-se, aliás, a Espanha, onde chegou a ganhar o primeiro prémio do Festival de BD de Ourense, em 1995 – ano em que ganharia, também, essa distinção no Festival de BD de Matosinhos.


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O mais premiado álbum da carreira do artista, publicado em 2002


Em suma, e apesar de não dar 'novidades' desde 2011, José Carlos Fernandes é, já, figura maior da banda desenhada humorística em Portugal, possuindo um estilo muito próprio e inconfundível, inspirado pela ficção científica e pelo 'rock' alternativo, que sem dúvida contribui para que granjeie pontos junto das gerações mais jovens – tanto nos dias que correm como, decerto, quando vivia o seu 'estado de graça' em meados dos anos 90.


 

Wednesday, 3 August 2022

Quartas aos Quadradinhos: A Obra de Luís Louro

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Apesar de a banda desenhada de maior popularidade em Portugal durante o período a que este blog diz respeito ser, maioritariamente, estrangeira – oriunda do Brasil, Estados Unidos ou do eixo França-Bélgica – existiram ainda assim, nessa época, alguns autores nacionais que se destacaram, ou que já possuíam uma bem merecida fama. Nesta mesma rubrica, já falámos, aliás, de alguns deles, como Carlos Roque, António Jorge Gonçalves e Fernando Relvas, chegando agora a altura de juntar mais um nome a essa lista – o de Luís Louro.


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Apesar de as suas bandas desenhadas serem dirigidas, sobretudo, a um público mais adulto, que talvez já não faça parte da demografia que habitualmente lê este blog, a carreira de Louro foi notável o suficiente para lhe granjear a presença nestas páginas – quanto mais não seja por o desenhista ter sido o co-criador de uma das mais emblemáticas séries de BD portuguesas de sempre, 'Jim del Mónaco' (paródia do herói franco-belga 'Jim das Selvas', de Alex Raymond, desenhado no mesmo estilo), que assinou em parceria com o argumentista Tozé Simões durante a segunda metade dos anos 80, e cujos quatro álbuns viriam a ser relançados pelas Edições Asa no inicio da década seguinte; o sucesso desta série levaria, aliás, a novas parcerias entre Louro e Simões, que criariam em conjunto a dupla de personagens Roque & Folque, para os quais elaborariam três aventuras no início dos anos 90, e ainda 'O Janeirinho', publicado no defunto jornal 'Primeiro de Janeiro' em 1990.


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Um dos álbuns de 'Jim del Mónaco'


É, também, no início da referida década que Louro se decide lançar como artista a solo – e, desde logo, com um dos álbuns mais emblemáticos da BD nacional, 'O Corvo', de 1993, sobre um homem que se transforma na ave homónima; segue-se, dois anos depois, 'Alice na Cidade das Maravilhas' – uma reinvenção muito pouco politicamente correcta da obra de Lewis Carroll, com uma Lisboa fantasiosa como cenário de fundo – e, em 1997, 'Coração de Papel', obra que se destaca pela sua palete de cores outonais. Pelo meio, o desenhista colaborou, ainda, no álbum colectivo 'Síndroma de Babel', uma iniciativa da Câmara Municipal da Amadora lançada em 1996, e colabora com ilustrações para meios tão variados como os jornais 'Primeiro de Janeiro' e 'O Académico', as revistas Visão e Valor, os Festivais de BD de Lisboa e da Amadora, e até um disco dos heróis do 'power/thrash metal' português, Ramp!


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Capas do primeiro volume de 'O Corvo', álbum emblemático da BD portuguesa, e do álbum 'Insurrection', dos Ramp, onde a imagem do protagonista é reutilizada


Após 'Coração de Papel', Louro decide virar-se para as histórias curtas, de aproximadamente três páginas, as quais almeja publicar na primeira série da pouco duradoura revista 'Ego' e, mais tarde, na significativamente mais popular 'Selecções BD', da responsabilidade da Meribérica-Liber, editora que viria, já em 2000, a reunir todas essas histórias em álbum, sob o título 'Cogito Ergo Sum'. Também em 2000, mas pelas Edições ASA, é lançado 'O Halo Casto', uma parceria entre Louro e o também histórico argumentista Rui Zink.


A viragem para o novo milénio em nada afecta a produção ou popularidade de Louro, que encontra nova casa na emergente editora Booktree e lança dois álbuns em dois anos – o segundo volume de 'Cogito Ergo Sum', em 2001, e 'Eden 2.0', no ano seguinte, aqui em parceria com dois argumentistas, João Miguel Lameiras e João Ramalho Santos. Ainda em 2002, participa numa colecção de postais de Natal ilustrados por desenhistas de BD, e em 2004, ilustra o 'ABC das Coisas Mágicas em Rima Infantil', de Rosa Lobato de Faria; entretanto, em 2003, é lançado o segundo volume de 'O Corvo', novamente pelas Edições Asa, seguindo-se um terceiro, em 2007, este com argumento de um Nuno Markl em estado de graça.


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Capa de 'Laços de Família', terceiro álbum d''O Corvo', com argumento de Nuno Markl


Após 'Laços de Família', o terceiro 'Corvo', a carreira de Luís Louro entra, no entanto, num aparente hiato, sendo preciso esperar onze anos para ver ser lançada nova obra do desenhista, 'Watchers' novamente pelas Edições Asa. Segue-se, no ano seguinte, 'Sentinel', pela mesma editora, antes de Louro iniciar uma fase prolífica, como que para recuperar o tempo perdido: nos três anos seguintes, são publicadas nada menos do que OITO obras do autor, incluindo dois novos tomos de 'O Corvo', duas reedições de 'Alice', e nova parceria com o velho aliado Tozé Simões, em 'Universo Negro', um lançamento de 2020 da Escorpião Azul. Toda esta actividade parece indicar um segundo fôlego na carreira daquele que é um dos nomes maiores dos 'quadradinhos' portugueses, restando aos seus muitos fãs aguardar para ver o que a mente do desenhista lhes reserva em anos vindouros – podendo, entretanto, deliciar-se com 'Dante' e os dois volumes d''Os Covidiotas', as duas últimas mostras de que a inspiração voltou mesmo a bafejar este histórico da BD nacional...

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