Showing posts with label 1990. Show all posts
Showing posts with label 1990. Show all posts

Saturday, 2 May 2026

Saídas ao Sábado/Domingo Desportivo: As Origens do Estoril Open

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Domingo, 3 de Maio de 2026.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

images.jfif

O tradicional local de realização do certame, junto ao Estádio Nacional, na Linha de Cascais.

Para os fãs lusitanos de outros desportos que não apenas o futebol, o Estoril Open perde apenas para o Grande Prémio de Portugal na categoria de evento mais importanto do ano em Portugal. Isto porque o referido torneio faz parte do circuito ATP, sendo o representante oficial do País no mesmo, o que o coloca ao mesmo nível de Wimbledon ou Roland Garros, ainda que apenas em teoria, já que estes continuam a ser mais conhecidos. Ainda assim, o evento realizado no Jamor continua a atrair as atenções da maioria dos fãs nacionais de ténis, tal como o vem fazendo anualmente ao longo de já mais de trinta e cinco anos, com interrupções apenas em 2020 (devido à pandemia de COVID) e no ano passado (2025), pausa aproveitada para mudar o mês de realização para Julho, por oposição à tradicional data de Abril.

Foi, de facto, em 1990 que João Lagos organizou a primeira edição do torneio do qual continuaria a ser director de operações durante o quarto de século seguinte, e que desde logo encontrava 'casa' própria no complexo desportivo adjacente ao Estádio Nacional do Jamor, nos arredores de Lisboa – localização que, coincidentalmente, apenas viria a abandonar quando o referido João Lagos deixou a organização, em 2014. Durante os anos 90, portanto, os fãs de ténis, tanto 'ferrenhos' como mais casuais – habituaram-se a associar o evento com o local em causa, que – à semelhança das congéneres inglesa e francesa – adoptou a denominação, não do complexo desportivo, mas da área em que o mesmo se situava, a qual ainda hoje retém, apesar da mudança de local (realizando-se hoje em 'courts' da zona de Cascais).

Escusado será dizer que, dado o estatuto e longevidade da prova, o ATP Estoril viu passar pelos seus 'courts', ao longo dos anos, a elite do ténis mundial – o que torna ainda mais valorosas as duas únicas vitórias de tenistas lusitanos verificadas no tempo de vida do certame, ambas já no Novo Milénio, com João Sousa a sagrar-se campeão da categoria individual em 2018 e Nuno Borges e Francisco Cabral a vencerem como dupla em 2022. Durante os anos 90, no entanto, o domínio era espanhol, com o país vizinho a arrecadar maior percentagem de vitórias em ambas as categorias, com 'concorrência' apenas da Áustria (em individuais) e dos EUA (nas provas de duplas da segunda metade da década).

Apesar desta hegemonia, no entanto, o certame nunca deixava de ser emocionante e de valer bem o investimento de tempo (e, por vezes, dinheiro) por parte dos entusiastas de ténis residentes em Portugal, que assim podiam ver de perto os seus 'ídolos' dentro da modalidade – paradigma que, aliás, se continua a verificar três décadas e meia depois, fazendo do ATP Estoril um evento impossível de ser ignorado por um 'blog' dedicado à década em que este evento se principiou a notabilizar dentro do mundo do ténis profissional.

Saturday, 28 February 2026

Quintas ao Quilo: De TriNaranjus a TriNa - Uma Transição Bem Sucedida

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2026.


Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


download (1).jfif


Hoje em dia, os refrigerantes TriNa contam-se entre os mais populares em Portugal, a par dos 'eternos' Sumol, Frisumo, Compal, Fanta ou Coca-Cola, sendo a sua marca tão reconhecível quanto qualquer das supracitadas; quem é mais velho, no entanto, saberá que esta não era a designação oficial da bebida em causa, e recordará mesmo (ainda que vagamente) o momento em que se efectuou a transição.


Efectivamente, quem tem idade suficiente para ainda ter vivido parte dos anos 80 lembrar-se-à que, à época, o refrigerante de laranja sem gás (eterna opção ligeiramente mais saudável às gasosas e afins) levava a designação de TriNaranjus, nome com que fora 'importada' do mercado do país vizinho, de onde era oriunda, em inícios da década anterior, e sob a qual seria comercializada durante exactos vinte anos, até à aquisição da fabricante pela multi-nacional Schweppes, nos primeiros meses dos 'anos 90'.


Seria apenas a partir dessa altura que a designação passaria a ser simplesmente TriNa, um nome mais curto e memorável e que se encontra vigente até aos dias de hoje, mais de três décadas e meia após uma mudança aparentemente desnecessária, mas que acabou por se revelar mais do que acertada do ponto de vista comercial. Para quem recorda a designação anterior, no entanto, 'não há hipótese' – aquela bebida da infância será, provavelmente, para sempre conhecida como Trinaranjus...

Thursday, 8 January 2026

Terças Tecnológicas: Trinta e Seis Anos de 'Magos e Guerreiros' de 8-Bits

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 06 de Janeiro de 2026.


A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Como cenário eternamente popular junto de uma certa demografia mais introvertida e sedentária, não é de admirar que os mundos de fantasia de atmosfera medieval, repletos de heróis de espada e armadura, princesas e magos perversos, tenham desde sempre tido uma presença exacerbada na cultura popular, servindo de base a materiais literários, filmográficos, musicais e, claro, interactivos. De facto, a 'segunda vaga' de videojogos, iniciada em meados dos anos 80 e que dominou a década seguinte, tinha neste tipo de universo um dos seus temas mais recorrentes, a ponto de os mesmos se terem tornado um dos mais imediatos e reconhecíveis estereótipos daquela era dos jogos de computador e consola.


Uma das muitas séries a tirar partido da atmosfera muitas vezes chamada 'sword and sandal' (algo como 'espada e sandálias') era uma trilogia lançada para a Nintendo original (com um quarto capítulo 'paralelo' a surgir no Game Boy) e cujo primeiro capítulo era lançado na Europa há quase exactos trinta e seis anos, a 07 de Fevereiro de 1990. Falamos de 'Wizards & Warriors', um jogo de plataformas bem típico da época, originalmente lançado nos mercados NTSC três anos antes e que, no período subsequente, perdera o seu principal motivo de interesse – os aspectos técnicos 'à frente do seu tempo' para 1987, mas que, em 1990, constituíam já a norma vigente. O que restava era um título absolutamente característico da era em causa, sem nada que o distinguisse por aí além nem que lhe desse 'vantagem competitiva' sobre concorrentes de peso como 'Castlevania', e que parecia destinado a passar despercebido.


Wizards_and_Warriors_NES_cover.jpgWizards_&_Warriors.png


No entanto, o exterior algo mediano de 'Wizards & Warriors' escondia o envolvimento de dois futuros pesos-pesados da indústria: a Acclaim, que tinha no jogo o seu primeiro título como distribuidora, e a Rare, que tantas alegrias daria aos fãs das consolas da Nintendo nas décadas subsequentes. Dois nomes que, alguns anos depois, justificariam por si só a compra de qualquer título em que se envolvessem (especialmente juntas) e que tinham aqui um início algo 'humilde'.


Ironsword_cover.pngIronsword.png


O mesmo, aliás, pode ser dito da própria série 'Wizards & Warriors', que veria serem lançados mais três títulos na meia década após a saída do original. O primeiro destes seria o 'originalmente' intitulado 'Ironsword: Wizards & Warriors II', surgido menos de um ano após o original, e que se inseria no tipo de sequela 'mais do mesmo', com o herói Kuros a ter agora de reunir os quatro elementos naturais para derrotar o inimigo Malkil. Assim, e face à jogabilidade e ambientes muito semelhantes aos do antecessor, o destaque deste segundo capítulo vai mesmo para a presença, na capa, do 'galã' Fabio, bem conhecido como modelo de capa em romances 'de cordel' e que, aqui, faz a sua melhor imitação de Conan, O Bárbaro, numa capa que horrorizou os próprios criadores do jogo - cujo herói é, aliás, um cavaleiro medieval de armadura completa, e não um bárbaro musculado de tronco nu.


Wizards_&_Warriors_Chapter_X_-_The_Fortress_of_FeaWizards_&_Warriors_X_gameplay.png


O mesmo tema seria, infelizmente, mantido na capa do 'capítulo paralelo' 'Wizards & Warriors X: The Fortress of Fear' (sendo o X, neste caso, uma letra, e não um numeral romano indicador de oito capítulos 'perdidos' da saga), lançado em Novembro de 1990 em exclusivo para o Game Boy original. Como seria de esperar, este semi-'spin-off' mais não é do que uma versão simplificada e monocromática dos jogos principais, constituindo, como estes, um exemplo em tudo típico do que era a biblioteca de jogos da portátil da Nintendo à época, e sobre o qual pouco mais há a dizer.


Wizards_and_Warriors_III_NES_cover.jpgWizards_and_Warriors_III_2.png


Ainda assim, também este titulo faria sucesso suficiente para justificar um 'capítulo final' na saga, lançado novamente para Nintendo 8-bits em Janeiro de 1993 - praticamente três anos depois do surgimento do original no mercado europeu – e que apresenta, pela primeira vez, mudanças na jogabilidade, agora mais declaradamente focada na exploração não-linear, ao estilo de 'Metroid' ou do já mencionado 'Castlevania'. Esta alteração não seria, no entanto, bem recebida, já que era implementada em detrimento dos elementos de combate, tornando o jogo algo aborrecido para quem gostava do típico molde de atacar e matar inimigos sem maiores preocupações. E apesar de o fim deixar em aberto a possibilidade de novas aventuras para Kuros, o fim da Zippo Games (também conhecida como Rare Manchester, e que fecharia portas logo após a conclusão deste jogo) vinha mesmo pôr um ponto final na sua saga de jogos – o que talvez seja para melhor, já que este tipo de aventura teria os 'dias contados' um par de anos depois, quando o advento dos 32-bits viria revolucionar e alterar para sempre o mundo dos videojogos.


Wizards_&_Warriors_Cover.jpg


Curiosamente, no entanto 'Wizards & Warriors III: Kuros' Visions of Power' não representaria o último uso da denominação num contexto interactivo, já que em finais de 2000 (mais de uma década após o lançamento da primeira aventura do cavaleiro Kuros) um RPG em primeira pessoa 'repescaria' o título, ainda que esse fosse o único elo de ligação entre o novo título e a saga original da Acclaim e Rare. Ainda assim, é a esta que o nome fica indelevelmente ligado, apesar da pouca repercussão da mesma na cultura popular actual, exactos trinta anos após o seu início – um paradigma que, espera-se, este 'post' terá ajudado, pelo menos em parte, a rectificar...

Wednesday, 24 December 2025

Terças de TV: Trinta e Cinco Anos da 'Canção' de Natal de Júlio Isidro

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 23 de Dezembro de 2025.


NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Terça será de TV.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


download (1).jpg


Uma das coisas com que os portugueses aprenderam a contar ao longo dos Natais dos últimos trinta a quarenta anos é com o aparecimento, nos quatro canais, de produções especialmente criadas para servir de complemento aos tradicionais filmes de família, Sequim D'Ouro, Natal dos Hospitais e circo de Monte Carlo; e, apesar de ainda hoje se verificar, é inegável que esta tendência teve o seu auge no 'período de ouro' da televisão portuguesa, entre os anos 80 e 2000, período em que nasceram muitos dos melhores 'especiais de Natal' (e também de Ano Novo) da História do audiovisual nacional. Um desses programas - sobre o qual se completam exactos trinta e cinco anos à data original de criação deste 'post' - foi imaginado e apresentado por um ícone da televisão portuguesa, o incomparável Júlio Isidro, como forma de prestar homenagem à quadra através de um dos seus mais emblemáticos elementos - a música.


Transmitido pela RTP 1 a 23 de Dezembro de 1990, 'Cantar o Natal' oferece precisamente aquilo a que o título alude - uma série de números musicais com temática natalícia, interpretados por alguns convidados musicais de 'monta' como Vitorino e Dulce Pontes, unidos por segmentos de entrevista a estes e outros convidados, numa tentativa de recriar e reviver a noite de consoada de 1960 (então distante no tempo exactas três décadas), que servia de linha narrativa ao especial. O resultado era um programa 'ameno' e confortável, bem ao estilo não só de Isidro como da produção nacional da época em geral, perfeita para servir de 'ruído de fundo' a uma noite de Terça-feira em plenas férias do Natal.


No entanto, talvez este cariz declaradamente virado para o conforto do espectador tenha contribuído para que este especial fosse, em décadas posteriores, algo Esquecido Pela Net, já que o mesmo não rendia quaisquer momentos memoráveis, daqueles em que Herman José (por exemplo) era 'perito' nos seus especiais de Ano Novo. Ainda assim, na data em que se assinalam exactas três décadas e meia sobre a sua ida ao ar, vale bem a pena recordar um especial de cariz único no panorama televisivo nacional, e que terá decerto entretido um sem-número de pequenos 'X' e 'millennials' nacionais - ainda que os mesmos pouco ou nada o recordem; para quem desejar rectificar esse erro, o programa encontra-se disponível, em duas partes, nos arquivos da RTP, pronto a ser recordado por ocasião desta data marcante.

Wednesday, 26 November 2025

Quartas aos Quadradinhos: Quando José Ruy 'Encontrou' Rudyard Kipling

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui em ocasiões anteriores falámos da obra de José Ruy, talvez o mais solicitado ilustrador português das décadas de 80 e 90, sendo invariavelmente o escolhido para dar vida aos personagens de álbuns de banda desenhada ligados à História de Portugal, biografias, relatos de época ou representações visuais de contos e lendas tradicionais, nos quais a sua bibliografia é fértil. Em 1986, no entanto, Ruy embarcaria num projecto diferente do seu habitual – a passagem de várias das histórias dos dois 'Livros da Selva', de Rudyard Kipling, para um formato de banda desenhada. O resultado foi 'Como Apareceu o Medo', editado quatro anos depois (em Abril de 1990) pela Editorial Notícias, e sobre o qual nos debruçamos esta Quarta-feira.


como-apareceu-o-medo-734x1024.jpg


Com trinta e duas páginas originalmente contidas num volume de capa mole (mais tarde, seria reeditado com capa dura) 'Como Apareceu o Medo' é exactamente aquilo que a capa apregoa – uma colectânea de várias das muitas histórias de animais escritas por Kipling, com o 'famoso' conto-título à cabeça, com desenhos e ilustrações da autoria de José Ruy a acompanhar a prosa original do autor indo-britânico, que recebe um crédito como co-autor. Infelizmente, embora a capa e os detalhes da publicação sejam fáceis de encontrar com um bom motor de pesquisa, das páginas interiores não restam quaisquer vestígios digitalizados, tornando impossível mostrar o estilo gráfico do livro, para lá da visualmente impactante capa; é de crer, no entanto, que os desenhos seguissem o estilo habitual de Ruy, que fica desde logo bem patente na magnífica ilustração de Shere Khan, o famoso tigre assassino d''O Livro da Selva', que domina o referido frontispício.


Em suma, e apesar de se tratar de uma proposta arriscada (tanto pelo número de admiradores do texto original como por ser difícil interessar crianças em textos clássicos) a adaptação em BD de 'Como Apareceu o Medo' parece ter tido algum grau de sucesso, senão em termos de vendas, pelo menos de execução. Pena é, portanto, que seja impossível encontrar exemplos da arte deste livro na Internet actual – embora os interessados tenham bom remédio, já que o livro ainda hoje continua a ser reeditado, e se encontra disponível nas boas livrarias, pronto a dar azo a mais uma geração de fãs do 'imortal' José Ruy...

Monday, 3 November 2025

Segundas de Sucessos: Camuta - Anatomia De Um Embuste

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Em 1989, o desconhecido grupo franco-brasileiro Kaoma inscrevia permanentemente o seu nome na lista de 'one-hit wonders' contemporâneos após o mega-sucesso da sua versão de uma música brasileira que, por sua vez, nada mais era que uma tradução ou localização (não autorizada!) de uma versão 'cover' da música 'Llorando Se Fue', do grupo boliviano Los Kjarkas. Ou seja, 'Lambada (Chorando Se Foi)' era, na sua base, uma versão de uma versão de uma versão do original de 1981! E porque poucas coisas com o nível de sucesso da referida música conseguem evitar o aparecimento de imitadores e 'cópias' fraudulentas, não tardou até que Portugal tivesse a sua própria versão do tema, a qual conseguia a proeza de ser uma 'cover' em quarto grau (!) da inspiração original dos Kaoma!


R-1545634-1274828920.jpg


Capa do primeiro álbum de 'Camuta'.


Tal facto está, no entanto, longe de ser a parte mais mirabolante da história de Camuta, que conseguiu a proeza de lançar três álbuns em inícios dos anos 90...sem nunca ter chegado a existir. Isto porque, por detrás do nome em causa escondia-se apenas um homem: Toy, figura mítica da música popular e 'pimba' portuguesa, recrutado pela Discossete para gravar 'às pressas' várias lambadas, com a voz disfarçada e cantando em 'brazuquês', como forma de capitalizar sobre o sucesso do original. E embora Toy surgisse ainda creditado, no interior do álbum, como autor de vários dos temas, a interpretação dos mesmos era atribuída ao fictício 'Camuta', uma designação sob a qual o cantor viria a lançar não só esse primeiro álbum, de 1989, mas um segundo (criativamente intitulado 'Lambada 2') no ano seguinte, e, em 1992, também um álbum de versões de músicas de telenovelas (como 'Tieta' ou 'Rainha da Sucata', que dava título ao disco) desta vez emulando a voz da lendária Fafá de Belém!


Um 'embuste' que, obviamente, apenas seria possível numa época da História bastante mais crédula e inocente, mas que, de algum modo, conseguiu permanecer intocado mesmo após o início da 'era da Internet', tendo sido o próprio Toy a assumir a farsa, primeiro em entrevista à revista VIP e, mais tarde, no fascinante documentário sobre o movimento 'pimba' produzido e exibido pela RTP. Só então quem, à época, tinha adquirido este álbum (provavelmente em 'cassette', num daqueles icónicos expositores existentes nas tabacarias, bombas de gasolina ou estações de serviço do Portugal dos anos 80 a 2000) ficou a saber ter em sua posse o equivalente a um disco 'pirata', (uma espécie de versão portuguesa dos grupos de Frank Farian ou Jonathan King) naquele que ainda hoje se afirma como um dos mais fascinantes 'truques' de 'marketing' da História da música portuguesa.


Saturday, 20 September 2025

Sessão de Sexta: Trinta e Cinco Anos de 'Dick Tracy', O 'Blockbuster' Esquecido de Inícios dos 90

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 18 de Setembro de 2025.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Qualquer membro da geração 'millennial' tem bem presente que os filmes baseados em bandas desenhadas apenas começaram a ser sucessos garantidos a partir do dealbar do Novo Milénio, quando os 'X-Men' de Bryan Singer revolucionaram o paradigma em termos de qualidade, e 'abriram a porta' àquele que, hoje em dia, talvez seja o género cinematográfico mais lucrativo e bem-sucedido. Para que se chegasse a esse ponto, no entanto, foi necessário passar por consideráveis 'dores de crescimento', sendo que, durante décadas, os fãs de 'comics' americanos nunca podiam saber o que esperar de cada nova adaptação cinematográfica, já que para cada mega-sucesso como o 'Batman' de Tim Burton havia outros quatro filmes que passavam despercebidamente para o mercado do vídeo, incapazes de concorrer com as mega-produções Hollywoodescas. O filme sobre o qual nos debruçamos nesta Sessão de Sexta (poucos dias após se terem completado trinta e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, a 14 de Setembro de 1990) fica a meio-caminho entre estas duas vertentes, tendo logrado ser um sucesso à época do seu lançamento, mas tendo caído no esquecimento quase generalizado nas três décadas e meia subsequentes.


download.jpg


Falamos de 'Dick Tracy', adaptação da banda desenhada do mesmo nome, presença assídua nas páginas de BD dos jornais americanos, e que narra as desventuras do detective homónimo, reconhecível pela icónica gabardine amarela, na sua luta contra os mafiosos que regem a típica cidade dos anos 30 ou 40 onde vive. Um conceito mais na linha dos velhos livros de ficção barata do que propriamente dos super-heróis da Marvel e DC, mas que, ainda assim, apresenta semelhanças com séries como 'Batman', 'Sin City' ou 'Spirit', cujos filmes empregariam elementos estéticos a fazer lembrar os do filme em causa - o qual, no entanto, ficaria bastante aquém de qualquer deles em termos de impacto duradouro no Mundo cinematográfico.


Para os jovens cinéfilos daquele ano de 1990, no entanto, o filme trazia bastantes atractivos, da gama de cores da roupa dos personagens (a remeter intencionalmente aos tons vivos do Technicolor) até à presença de Madonna, então em alta, como interesse romântico do Tracy vivido pelo também realizador Warren Beatty, a participação de nomes como Al Pacino, Dustin Hoffman, James Caan ou Dick Van Dyke, ou mesmo apenas o apelo estético do icónico logotipo do personagem, que gerou alguma procura a nível de 'merchandise' alusivo ao filme imediatamente após a sua estreia.


download (1).jpg


O elenco recheado de estrelas do filme.


Infelizmente, ao contrário de outros exemplos de que já aqui falámos, e apesar da 'parada de estrelas' que constituía o seu elenco a adaptação em 'carne e osso' de 'Dick Tracy' não logrou suster esse nível de interesse a longo-prazo, tendo-se rapidamente tornado 'apenas' mais um filme, mesmo enquanto a BD original continuasse de 'pedra e cal' nas páginas dos jornais. Ainda assim, numa altura em que se assinala um 'aniversário' marcante para o filme de Beatty, é justo homenageá-lo com estas singelas linhas, as quais (quem sabe?) talvez motivem quem ainda não conhece o filme – ou mesmo quem já o tenha visto – a procurar forma de o (re)ver nos tempos modernos...

Friday, 12 September 2025

Quartas de Quase Tudo: Trinta e Cinco Anos do OVNI de Alfena - Um Mistério Ainda Hoje Inexplicado

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 11 de Setembro de 2025.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


A existência (ou não) de vida inteligente em outros corpos galácticos que não apenas a Terra tem, pelo menos desde há dois séculos, exercido um fascínio considerável sobre grande parte da população Mundial, não sendo Portugal excepção à regra. A dificuldade em explicar certos eventos a nível cognitivo, aliada à tendência muito humana para extravasar e extrapolar acontecimentos, leva a que muitos indivíduos um pouco por todo o Mundo acreditem na existência de raças extraterrestres, capazes de se deslocar pelo espaço em veículos mecanicamente muito mais avançados do que os tradicionais carros e, assim, visitarem outros planetas, entre eles a Terra. E ainda que continuem a existir poucas ou nenhumas provas de que seja este o caso (e nenhuma delas conclusiva) a verdade é que, uma vez por outra, ocorre algo que se afigura verdadeiramente difícil de explicar racionalmente. Um desses eventos, sobre o qual se celebraram há poucos dias exactos trinta e cinco anos, teve lugar numa improvável aldeia do interior de Portugal, onde várias pessoas afirmaram ter avistado um Objecto Voador Não Identificado (OVNI), naquele que permanece, até hoje, o mais significativo evento ligado à vida extraterrestre a ter ocorrido no nosso País.


download.jpg


Uma das quatro fotos existentes do OVNI de Alfena, conhecido como a 'Medusa' devido à sua forma.


Foi às oito e meia da manhã do dia 10 de Setembro de 1990 que diversos habitantes da aldeia de São Vicente de Alfena, no concelho de Valongo, na Área Metropolitana do Porto, afirmaram ter avistado um objecto estranho no céu, o qual permaneceria sobre a aldeia durante cerca de cinquenta minutos, ora estático, ora em movimento. Fotografias tiradas por uma das testemunhas, e autenticadas tanto pela NASA como pela Kodak, mostrariam tratar-se de um objecto esférico e com apêndices a fazer lembrar patas ou tentáculos, configurando uma aparência algures entre a de um disco voador estereotipado e a do organismo marinho conhecido como medusa, nome pelo qual ficou informalmente conhecido.


Esta prova foi, desde logo, considerada suficiente para dar início a uma investigação internacional sobre o incidente, e a pacata aldeia nortenha via-se assim, de um dia para outro, no epicentro de uma pesquisa digna dos 'Ficheiros Secretos', que envolvia agências francesas e americanas, além de vários laboratórios nacionais, na tentativa de discernir a natureza e origem do objecto, tendo a ocorrência chegado mesmo a ser tema de um episódio de uma série sobre eventos ligados ao contacto extraterreste produzida pela National Geographic. E ainda que a maioria das pesquisas tenha sido inconclusiva, os cientistas conseguiram, ainda assim, concluir que o objecto não se assemelhava a qualquer dispositivo aéreo conhecido e que pudesse ajudar a explicar o mistério, como uma sonda ou um balão metereológico. Tendo o evento tido lugar décadas antes da comercialização em massa de 'drones' teleguiados, o objecto no céu de Alfena permaneceu, assim, impossível de identificar, acabando por ser 'arquivado' na memória popular como mais uma prova de que existe algo mais na vastidão do espaço, que talvez procure estabelecer contacto com os habitantes de outros planetas ou, no mínimo, visitá-los – algo que qualquer habitante de São Vicente de Alfena presente naquela manhã de Setembro há trinta e cinco anos decerto não terá qualquer problema em corroborar...

Wednesday, 23 July 2025

Quartas de Quase Tudo: O Partido da Solidariedade Nacional - Mais Uma 'Nota' no 'Rodapé' da Política Portuguesa

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Apesar de o balanço de poder no panorama político português se vir mantendo mais ou menos estável desde a implementação da democracia liberal no pós-25 de Abril, tal não invalida que, paulatinamente, novas caras e forças procurem deixar a sua marca na governação do País. Infelizmente, salvo muito raras excepções (a principal das quais já aqui abordada) esses partidos acabam por ter uma expressão muito reduzida – para não dizer mínima, ou mesmo nula – e por se remeter rapidamente à obscuridade do fundo do boletim de voto, e à esperança que haja alguém disposto a apostar neles a cada novo acto eleitoral. O grupo de que falamos neste post – a poucos dias daquele que seria o trigésimo-quinto aniversário da sua fundação – não foi, de todo, excepção a esta regra, tendo, antes pelo contrário, constituído um exemplo perfeito da trajectória da maioria das iniciativas deste tipo.


Símbolo_do_Partido_da_Solidariedade_Nacional.png


Surgido a 26 de Julho de 1990, pela mão de Manuel Sérgio, o Partido da Solidariedade Nacional até conseguiu alguma tracção no seu primeiro acto eleitoral (o de 1991) muito graças ao efeito conjunto do 'factor novidade' (sempre apelativo para uma população sedenta de alternativas políticas) e de um programa eleitoral explicitamente focado nos reformados, uma das camadas populacionais que tradicionalmente mais sofre com a falta de medidas e apoios estatais. De facto, apesar de a percentagem de voto no novo partido se ter saldado em pouco mais de 1.6%, tal foi, ainda assim, suficiente para garantir ao fundador e presidente um lugar na Assembleia da República – um feito que não deixa de ser notável para um partido recém-fundado.


Este auspicioso início não teria, no entanto, continuidade em eleições subsequentes, tendo a 'fama' do PSN sido 'sol de pouca dura'. De facto, em apenas quatro anos, o partido perdeu quase 1.4% dos seus eleitores, ficando os dois outros actos em que participou, em 1995 e 1999, marcados por uma adesão de apenas 0.2%, percentagem que deixava o grupo de Manuel Sérgio fora dos lugares da Assembleia. Nada que impedisse o Presidente do partido de sonhar alto, no entanto, tendo-se Sérgio apresentado como candidato a Eurodeputado em ambos os actos eleitorais para o Parlamento Europeu, em 1994 e 1999; escusado será dizer que nenhuma das duas campanhas rendeu quaisquer frutos, tendo a representação portuguesa naquele organismo ficado a cargo de nomes com bastante maior projecção. A Manuel Sérgio, restava apenas regressar ao 'rame-rame' da política em pequena escala, do qual não lograria tornar a sair durante a meia década de vida que restava ao PSN.


De facto, logo nos primeiros dias do ano de 2006, o partido fundado pouco mais de uma década e meia antes viria a ser oficialmente dissolvido, assumindo o falhanço da sua tentativa de encontrar o seu espaço numa cena política já demasiado formatada e bipartida para acolher partidos de tão pouca expressão. A breve passagem de Manuel Sérgio e do Partido da Solidariedade Nacional pela política portuguesa salda-se, pois, em apenas mais uma de tantas 'notas de rodapé' já anexadas a esse mesmo panorama, e cujo número vem continuando a crescer até aos dias de hoje: afinal, a esperança é a última a morrer, e qualquer bom político tem um quê do idealismo e vontade de mudar o Mundo que, em 1990, tinham Manuel Sérgio e o seu PSN...

Wednesday, 11 June 2025

Quartas de Quase Tudo: O Prémio de Literatura Infantil Adolfo Simões Muller - Uma Aposta (Infelizmente) Falhada

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


A literatura infantil atravessava, em finais dos anos 80 e inícios dos 90, um dos seus períodos áureos, com séries como 'Uma Aventura' ou 'O Clube das Chaves' e autores como Alice Vieira a fazerem as delícias dos mais jovens. Não é, pois, de admirar que esse período tenha, também, visto surgir no mercado muitos novos escritores de contos para crianças, ansiosos por se mostrar ao público-alvo. E essa tarefa viria a ficar facilitada quando, logo nos primeiros meses da última década do século e Milénio, a Editorial Verbo lançava um prémio literário para, simultaneamente, divulgar autores principiantes e homenagear um icónico nome do meio, falecido pouco antes, em 1989.


download.jpeg


O livro vencedor da primeira edição do Prémio.


Apesar das boas intenções, no entanto, o Prémio Adolfo Simões Muller (ou, pelo menos, a primeira configuração do mesmo) apenas viria a ter quatro edições - ou, pelo menos, assim rezam os registos actualmente disponíveis. As três primeiras teriam lugar em anos consecutivos – 1991, 1992 e 1993 – e a quarta já no dealbar do Novo Milénio, e uma década após a criação do Prémio. Nessa última selecção, o livro vencedor terá sido Rubens e a Companhia do Espanto em O Caso da Mitra Desaparecida de António Garcia Barreto, enquanto que nos outros anos os vencedores foram Ana Maria Meireles, com 'O Mistério dos Cães Desaparecidos' (em 1991), Luís da Silva Pereira com 'A História de Davidim' (em 1992) e 'Este Pinhal Tão Verde' de Graça Matos de Sousa (em 1993, ano em que pela primeira vez se atribuíram menções honrosas, no caso duas, a 'Três Semanas Com a Avó' de Ana Saldanha e 'A Vida É Uma Grande Ideia' de Carla Oliveira.) Estes livros foram, posteriormente, editados pela própria Verbo sob o cabeçalho 'Grande Prémio'.


Como se pode ver pelo elenco de nomes no parágrafo anterior, este prémio não logrou concretizar o seu objectivo de lançar novos nomes no panorama da escrita infantil em Portugal, sendo Garcia Barreto o único nome conhecido da lista, e já 'famoso' antes de vencer a distinção em causa. Assim, não é de admirar que a Verbo tenha rapidamente desistido da iniciativa – tendo, no entanto, o nome da mesma sido adoptado por um prémio literário muito semelhante atribuído pela Câmara Municipal de Sintra. É através deste que o nome e legado de Adolfo Simões Muller sobrevivem hoje em dia, tendo a primeira tentativa 'falhada' caído no esquecimento...isto é, até termos, com as linhas anteriores, reavivado a memória dos jovens leitores da época, os quais poderão, inclusivamente, ter memórias nostálgicas quanto a algum dos livros premiados durante a efémera vida do prémio da Verbo. Fica a eles dedicada esta breve recordação.

Tuesday, 13 May 2025

Terças de TV: 'Lentes de Contacto', O Magazine Esquecido da RTP

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


No nosso último 'post', falámos do tema que General D, um dos pioneiros do 'rap' e 'hip-hop' em Portugal, havia contribuído para a banda-sonora de 'Até Amanhã, Mário', um dos filmes portugueses com maior projecção da década de 90. Nada mais justo, portanto, do que falar agora do programa de televisão que permitiu a D ser considerado para tal projecto, mediante o encontro com o produtor e compositor Tiago Lopes, com quem colaborou na faixa em causa.


lentes-1.webp


Um dos vários trios de jovens apresentadores do magazine.


Estreado logo nos primeiros meses da nova década, 'Lentes de Contacto' partia do formato muito típico dos 'magazines' juvenis da altura, como 'Caderno Diário', e adicionava-lhe um elemento de interacção humana, através da presença de entrevistados e convidados musicais, num resultado final que antecipava a fórmula do icónico 'Curto Circuito' em quase uma década. De facto, tal como o programa-estandarte da SIC Radical (e, antes, do CNL), 'Lentes de Contacto' misturava as referidas entrevistas e actuações com debates e peças informativas sobre temas de interesse directo para o público-alvo, mediadas por trios rotativos de jovens apresentadores cuja presença e forma de comunicar garantiam a tão desejada conexão com o público-alvo, exactamente como no posterior programa da TV Cabo.


Comparativamente ao 'CC', no entanto – e a outros programas semelhantes, como o 'Muita Lôco' – 'Lentes de Contacto' é relativamente Esquecido Pela Net, vindo as principais referências ao magazine do próprio 'site' da RTP. Ainda assim, e apesar de pouco falado entre os membros da Geração X portuguesa (principal demografia-alvo do programa, sendo os 'millennials' algo novos para se interessarem pelo formato) não há razão para duvidar que pelo menos alguns desses mesmos rapazes e raparigas (hoje homens e mulheres na casa dos quarenta a sessenta anos) tenham sintonizado a RTP a cada nova transmissão do programa, para acompanharem o debate daquele dia ou simplesmente apreciarem as actuações do convidado musical do dia – entre os quais, como referimos, se contou em tempos General D, a principal (mas não única) razão para recordamos este magazine nas páginas do Anos 90...

Wednesday, 25 September 2024

Quartas aos Quadradinhos: 'Transformers' - Robôs em Quadradinhos

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


As revistas licenciadas têm, desde os primórdios da banda desenhada 'moderna', feito parte integrante do panorama dos 'quadradinhos' mais comerciais, um paradigma que, vistas bem as coisas, acaba por fazer todo o sentido; afinal, estas revistas têm vendas praticamente garantidas junto dos fãs da licença em causa e, no caso de uma propriedade particularmente popular, poderão também atrair novos aficionados ou até leitores mais 'casuais', justificando assim o investimento, mesmo que muitos dos seus ciclos de vida acabem por primar pela brevidade. Os anos 80 e 90, em particular, conhecidos como a época áurea das propriedades ditas 'brinquedéticas' (em Inglês, 'toyetic', ou propício à criação de brinquedos) não poderiam ficar imunes a este fenómeno, tendo sido inúmeros os títulos licenciados a 'tomar de assalto' as bancas americanas durante esse período; e ainda que a maioria delas não tenha transposto o Oceano Atlântico, algumas lograram, ainda assim, chegar às praias lusas, quer na sua edição brasileira (como 'Ewoks', um dos 'comics' de 'Guerra das Estrelas' publicados na linha infantil da Marvel, a Star Comics) quer em formato 'made in Portugal', como com as bandas desenhadas de Indiana Jones, 'Parque Jurássico', 'Guerra das Estrelas' ou – alguns anos antes destas – 'Transformers'.


1 (2).jpg


Capa do primeiro número da série editado em Portugal.


Editada logo nos primeiros meses dos anos 90, no auge da popularidade dos veículos-robôs em Portugal, a série originalmente concebida e publicada pela Marvel surgia no nosso País não pela mão da Abril (a qual, na altura, ainda não detinha necessariamente a exclusividade nacional de publicação deste tipo de material), mas da Meribérica-Liber, para a qual os 'comics' de acção americanos representavam um desvio considerável do habitual foco na BD franco-belga. Fosse como fosse, Optimus Prime e os seus companheiros passariam mesmo cerca de oito meses na companhia de Lucky Luke, Tintin e Astérix – e se estes heróis apenas esporadicamente viam serem editados álbuns das suas aventuras, os 'robôs disfarçados' tiveram honras de edição quinzenal, como era 'da praxe' para 'quadradinhos' da sua índole.


E a verdade é que a periodicidade não era o único elemento típico da BD de 'Transformers', cujos argumentos e desenhos eram tão típicos da Marvel que não destoariam entre o catálogo da Abril de meados da década de 90; de especial e 'vendável', portanto, apenas a presença dos robôs protagonistas, os quais, à época, eram bem capazes de 'vender' revistas por si só...pelo menos nos Estados Unidos. Em Portugal, onde a série animada teve bastante menos expressão (apesar de os brinquedos serem fáceis de encontrar em qualquer loja especializada) os cerca de setenta números lançados nos EUA desde o aparecimento da série, em 1984, viram-se reduzidos a apenas dezoito, sem que a mitologia criada pelos argumentistas e artistas tivesse deixado entre a juventude portuguesa o mesmo tipo de impacto que teve sobre a americana, onde a série animada original de 'Transformers' continua, até hoje, a ser tida em grande conta, e a contar com fãs de todas as idades. Ainda assim, durante a sua breve estadia nas bancas nacionais, 'Transformers' terá sido capaz de entreter o seu público-alvo pelo menos tanto quanto a congénere alusiva às Tartarugas Ninja – ainda que, como esta, a sua natureza dificilmente conduziria ao estatuto de clássico intemporal almejado por outras publicações da Marvel da mesma altura...

Wednesday, 17 January 2024

Quartas aos Quadradinhos: A Adaptação Oficial de 'Indiana Jones e a Grande Cruzada' (1990)

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


A última Quarta aos Quadradinhos foi dedicada à adaptação oficial em BD de 'Indiana Jones – Crónicas da Juventude', a série de TV que serviu, em 1992-93, de prequela às aventuras cinematográficas do arqueólogo e aventureiro Henry Jones Jr.; nada melhor, portanto, do que dedicarmos a edição seguinte desta rubrica à outra adaptação em banda desenhada do personagem de Steven Spielberg e George Lucas, esta directamente relacionada com a trilogia inicial de filmes lançada nos anos 80 e inícios de 90.


1.jpg


Capa do primeiro dos quatro números da série.


Trata-se de 'Indiana Jones e a Última Cruzada', mini-série originalmente lançada pela Marvel ainda nos anos 80, e que surgia em Portugal nos primeiros meses da década de 90, nos mesmos quatro volumes da edição original e, curiosamente, pela mão da Meribérica-Liber (conhecida, sobretudo, pelos seus álbuns de BD franco-belga) e não da Abril Jovem, que detinha, à época, os direitos de edição nacionais da maioria dos títulos da Marvel e DC. O conteúdo, esse, não deixava margem para quaisquer surpresas, tratando-se de uma recriação do enredo e cinematografia do filme em formato gráfico, que se inseria declaradamente na então bastante popular categoria das adaptações de filmes em banda desenhada, que veria também serem editados em Portugal, na primeira metade dos anos 90, álbuns e colecções alusivas a 'Batman Para Sempre' e 'Parque Jurássico'.


Ao contrário do que acontecia com aquelas obras, no entanto, esta adaptação em BD apresenta uma série de pequenas diferenças, justificadas pelo facto de a adaptação gráfica se basear na novelização oficial do filme, onde se verificavam os mesmos desvios. Nada que prejudique a experiência ou até o desfecho da trama, no entanto, sendo que qualquer fã dos filmes se sentirá em 'território familiar' ao explorar a obra do argumentista David Michelinie (à época um nome sonante no seio da Marvel) e dos artistas Brett Blevins e Gregory Wright. Uma proposta interessante, pois, para quem queira 'mergulhar' no 'Universo circundante' da franquia 'Indiana Jones', e descobrir um pouco do 'merchandising' e produtos complementares que a mesma gerava no auge da sua popularidade – dos quais esta adaptação em 'quadradinhos' está longe de ser a mais inusitada.

Tuesday, 2 January 2024

Terças de TV: 'Crime Na Pensão Estrelinha' (1990) - O Primeiro 'Clássico' do Ano Novo Português

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


De todas as personalidades televisivas portuguesas, Herman José talvez tenha sido a que mais 'peles' encarnou ao longo das suas já cinco décadas de carreira. De humorista de 'vanguarda', o luso-alemão passou, em inícios da década de 90, a ícone dos concursos e entretenimento, ao mesmo tempo que, à margem destas duas facetas, continuava a cultivar uma terceira, que se lhes sobrepunha: a de 'cara' oficial das passagens de ano portuguesas.


De facto mesmo após as 'novatas' SIC e TVI terem tentado introduzir alternativas próprias para ter no ecrã aquando das doze badaladas, continuava a ser com Herman que os portugueses preferiam passar a meia-noite, fosse num formato mais típico - como as edições de fim-de-ano dos seus programas regulares - fosse através da vertente favorita do artista, ou seja, o humor puro e duro. Foi, aliás, neste último registo que o luso-alemão criou dois dos mais memoráveis especiais de fim-de-ano de sempre da TV portuguesa: 'Hermanias', em 1991/92, e, no ano anterior, o não menos memorável (bem como pioneiro) 'Crime Na Pensão Estrelinha'.


Crime-na-Pensao-Estrelinha.jpg


Concebido como paródia directa dos programas de detectives que continuam, até hoje, a fazer sucesso (ainda que seguindo os moldes vigentes na altura, estabelecidos por séries como 'Poirot'), o especial de duas horas e meia proposto pela RTP como acompanhamento do 'reveillon' de 1990/91 excedeu todas as expectativas, mantendo 'colada' ao ecrã uma parcela significativa da audiência televisiva portuguesa, e fazendo História no contexto dos especiais de fim-de-ano. Com o próprio Herman no papel de um óbvio 'boneco' de Hercule Poirot, o programa alternava a trama de mistério com 'sketches' humorísticos, bem ao estilo do que o seu criador fizera em 'O Tal Canal', na década transacta, e voltaria a fazer em 'Hermanias' e, mais tarde, 'Herman Enciclopédia'. O resultado foi uma emissão que, apesar do carácter híbrido e algo invulgar, resultou em cheio, tornando Herman na 'estrela' das passagens de ano' noventistas e criando, involuntariamente, o molde para o não menos mítico programa de 'reveillon' do ano seguinte.


crime-na-pensao-estrelinha-08.jpg


Herman como Hércules Pirô, detective e personagem principal do especial.


Infelizmente, as passagens de ano subsequentes investiriam em formatos bem mais clássicos e menos inovadores - não obstante o sucesso de que haviam gozado esta 'Pensão Estrelinha' e as 'Hermanias' de 91 - facto que, aliado à ligeira alteração de carreira de Herman, significaria que o humorista raramente voltaria a ter ensejo de explorar a sua veia puramente cómica no contexto dos programas de 'reveillon' da década de 90. Ainda assim, o humorista luso-alemão tirou o máximo proveito das oportunidades que teve, criando dois absolutos clássicos das passagens de ano das gerações 'X' e 'millennial', ainda hoje eminentemente 'visíveis' e lembrados por todos os que, naqueles idos de 90, se deixaram embrenhar, juntamente com o detective Hércules Pirô, no mistério de quem havia assassinado o dono da Pensão Estrelinha...


Wednesday, 2 August 2023

Quartas de Quase Tudo: Os 'Dois Cavalos' Portugueses

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Cada época da História tem a sua própria iconografia cultural, que a torna imediatamente reconhecível, e que tende a estender-se a todos os sectores da sociedade. Os veículos não são excepção a esta regra, e até o cidadão menos interessado em motores e potência em cavalos conseguirá elencar uma série de marcas e modelos de automóveis e motas imediatamente associáveis a qualquer período desde a invenção destes meios de transporte. Escusado será dizer que as duas últimas décadas do século XX não foram excepção a esta regra; antes pelo contrário, os anos 80 e 90 representaram, talvez, a última grande era do 'design' experimentalista no sector automóvel, antes de a maioria dos fabricantes seguirem a via da padronização e estandardização. Foi a época do aparecimento do Renault Twingo e da derradeira glória de modelos clássicos de décadas transactas, como o Citroen 'Boca de Sapo', os Renault R4 e R5, os renascidos Volkswagen 'Carocha' e Mini, e, claro, o icónico Citroen 'dois cavalos', o 2CV.


Citroen-2CV-1.jpg


O último 2CV de sempre foi produzido em Portugal.


Produzido desde finais dos anos 40, o carismático carro de traços angulares – normalmente associado à condução mais 'económica', mas que era também usado como símbolo de personalidade e inconformismo – via, exactos quarenta anos após a sua criação, toda a linha de montagem ser transferida para Portugal, mais concretamente para a zona de Mangualde, onde a Citroen continua a ter a sua fábrica nacional, após o fecho da usina francesa que havia produzido o modelo desde o seu aparecimento. O nosso País teve, assim, a honra de suceder a essa histórica instalação, e, a partir de 1988, seria das nossas fronteiras que sairiam todos e quaisquer 2CV produzidos quer para o mercado interno, quer para o internacional, facto que ajudaria a colocar Portugal, e os seus recursos de produção, no 'mapa' automóvel europeu. No total, foram mais de 42.300 carros criados em apenas dois anos, até a produção do modelo ser descontinuada, há quase exactos trinta e três anos; o último 'dois cavalos', um modelo Charleston especial, ficaria completo a 27 de Julho de 1990.


Curiosamente, os 'dois cavalos' portugueses gozam de uma reputação inferior à dos franceses em países como o Reino Unido, onde a construção e desempenho dos mesmos são criticados, numa corrente de opinião que vai contra a da própria Citroen, que considera estes modelos como estando a par dos franceses em termos qualitativos. Ainda assim, e apesar das críticas, os dois anos em que o 'dois cavalos' foi produzido em solo nacional não deixam de representar um marco para a indústria automóvel portuguesa de finais do século XX, que merece ser lembrado por alturas do seu vigésimo-terceiro aniversário...


 

Sunday, 25 June 2023

Domingo Desportivo: Portugal dos Pequeninos - A Final da Taça de Portugal 1989/90

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Por muitas mudanças que o futebol português sofra ao longo das décadas e séculos – com remodelações no formato dos campeonatos ou a adição de novas competições – uma constante se mantém imutável: a Taça de Portugal, último troféu do ano para os clubes portugueses, que tanto pode constituir 'mais um' galardão para a vitrine como a última oportunidade de conseguir 'salvar' uma época, para clubes a quem a temporada tenha corrido menos bem. Isto, claro está, além daquelas ocasiões em que 'há Taça', e em que um clube mais pequeno consegue eliminar um claro favorito (o chamado fenómeno 'tomba-gigantes') ou até atingir as fases finais da competição. E apesar de este ser um fenómeno relativamente raro, uma final entre dois emblemas de menor expressão no futebol português, ou que não insiram nos três ou quatro 'grandes', não é, de todo, inédita, antes pelo contrário; de facto, só na década de 90, aconteceu duas vezes, uma no final da temporada 1998/99 com Beira-Mar e Campomaiorense como protagonistas e da qual já aqui falámos anteriormente, e outra, logo no início da década, com outros dois históricos do futebol luso em confronto directo.


Falamos da primeira final da Taça dos anos 90 (ou última dos anos 80, conforme o ponto de vista), cuja finalíssima seria disputada há pouco mais de vinte e três anos, no habitual palco do certame – o Estádio Nacional do Jamor, nos arredores de Lisboa - e veria o Estrela da Amadora levar de vencida o Farense de Paco Fortes por 2-0, após empate a uma bola na primeira mão. E porque, por ocasião do aniversário dessa partida, preferimos focar a carreira de Ricardo Sá Pinto, emendamos agora essa omissão, dedicando algumas linhas a mais esse momento histórico do futebol português.


Para quem tinha idade suficiente para ter sido adepto, nenhum destes dois clubes será, de todo, desconhecido; pelo contrário, tanto o Estrela de João Alves como o Farense treinado por Paco Fortes trarão, de imediato, memórias relacionadas com alguns dos mais reconhecíveis e históricos jogadores do futebol nacional daquela época – alguns dos quais acabaram, mesmo, por atingir mais altos vôos, como o referido Paulo Bento ou ainda o guardião Lemajic, do Farense, ambos os quais se tornariam reforços do Sporting Clube de Portugal em épocas vindouras, com o guardião a representar ainda, antes disso, outro histórico, o Boavista, e Bento o 'rival' lisboeta dos leões, o SL Benfica. O médio (então com apenas vinte anos) seria, aliás, um dos destaques deste jogo, a par do influente e irrequieto Baroti, ao conseguir um golo de antologia, num remate de primeira de fora da área que seria o momento do jogo, não fosse o outro golo, uma 'chapelada' primorosa obtida por outro então jovem, o avançado Ricardo. Outros dos nomes instantaneamente reconhecíveis e presentes em campo naquela tarde de Verão de 1990 incluíam Pedro Barny e Bobó (que acabaria expulso) do lado do Estrela, e Formosinho e Nelo pelo Farense.


E porque o vencedor da Taça de Portugal tem acesso directo à principal competição europeia (então conhecida como Taça dos Vencedores das Taças), o Estrela teve ocasião de adicionar também essa honra ao seu historial logo na época seguinte; tal como sucederia com o Beira-Mar meia década mais tarde, no entanto, também o conjunto de João Alves não almejaria grandes 'surpresas' na competição, sendo excluído logo na segunda eliminatória pelos belgas do RFC Liège. Ainda assim, um momento histórico para os amadorenses, e que apenas cimentaria a sua reputação junto dos adeptos lusos.


Ambos os clubes continuariam, aliás, a ser figuras frequentes no mais alto escalão do futebol português ao longo da década seguinte, antes de o Novo Milénio trazer um revés nas fortunas de ambos, que os 'atiraria' para as divisões inferiores; numa altura em que, pela primeira vez desde aquele tempo, os dois clubes competirão juntos no principal campeonato lusitano, nada melhor do que recordar o mais histórico de todos os encontros entre os dois, disputado quando ambos se encontravam no seu auge, e que entra, merecidamente, para o panteão de jogos lendários do futebol português moderno.



Resumos televisivos de ambos os jogos transmitidos à época.


 

Thursday, 22 June 2023

Quintas de Quinquilharia: As 'Janelas Mágicas´ do Bollycao

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Para quem já nasceu (ou cresceu) num Mundo quase totalmente digital, os simples prazeres que deleitavam as crianças e jovens das gerações anteriores podem parecer estranhos e até caricatos; tal como a geração 'Millennial' teve dificuldade em compreender o apelo de alguns dos jogos, brinquedos e brincadeiras que encantaram os seus pais, também a actual Geração Z ficará, certamente, a ponderar qual o interesse de um pequeno bocado de cartolina com uma imagem desenhada, sobre o qual se coloca uma peça de plástico para fazer a dita imagem ganhar cor.


janela-magica-bollycao.webpjanela-magica-2.webp


As duas 'fases' do efeito (crédito da foto: Ainda Sou Do Tempo)


E, no entanto, foi essa a premissa de uma das mais memoráveis promoções do Bollycao, lançada na ponta final da década de 80 e que subsistiria até aos primeiros anos da seguinte – as 'Janelas Mágicas'. Apesar de simples ao ponto de a sua premissa ter sido explanada em uma frase do parágrafo anterior, estes brindes fizeram as delícias de toda uma geração de crianças, ainda a alguns anos de terem a sua vida mudada para sempre pelos Pega-Monstros, Tazos, Matutolas e restante panteão de brindes inesquecíveis da Matutano, Panrico, e restantes marcas explicitamente dirigidas à sua demografia.


De facto, esta foi uma das primeiras ofertas tentadas por qualquer das duas marcas, sucedendo à pioneira colecção dos 'Tous', que também aqui terá, em tempo, o seu espaço; e a verdade é que, apesar de não ter feito o mesmo sucesso (até por o seu apelo ser menos generalizado, e mais especificamente dirigido a um público infantil, ainda passível de se deixar fascinar com tais efeitos) a colecção não deixou, ainda assim, de ser icónica para um certo segmento da demografia em causa, para quem o acto de deslizar aquele bocadinho de plástico por cima da imagem monocromática e a fazer ganhar cor nunca perdia o encanto ou o fascínio.


Escusado será dizer que uma promoção nestes moldes estaria, hoje em dia, destinada ao fracasso. Se algo como os Pega-Monstros ou até os Tazos ainda poderia suscitar o interesse dos jovens de hoje, com a sua vertente competitiva e algo intemporal, este é um conceito bem mais restrito a um tempo pré-digital, em que a tecnologia ainda era algo caro, raro e definitivamente 'para adultos'; para uma geração que vê efeitos mais fascinantes do que este de cada vez que liga o telemóvel, esta oferta teria um interesse praticamente nulo. Para a geração que os antecedeu, no entanto, passava-se precisamente o oposto, sendo que ainda haverá, certamente, algumas destas 'Janelas' 'esquecidas' em gavetas de quartos de infância de Norte a Sul do País...

Saturday, 6 May 2023

Saídas ao Sábado: Os Primeiros Restaurantes de 'Fast Food'

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Apesar de fazer parte da cultura de países como os Estados Unidos desde há quase três-quartos de século, o conceito de 'fast food' – estabelecimentos alimentares especializados em pratos com alto teor calórico e pouco valor nutritivo, mas que podem ser adquiridos e consumidos em meros minutos – demorou várias décadas a expandir-se até ao Sul da Europa, e a Portugal em concreto; de facto, seria apenas no início dos anos 90 que a juventude lusitana teria ensejo de descobrir todo um rol de estabelecimentos que os seus contemporâneos do outro lado do Atlântico tomavam já como garantidos, e que, apesar do 'atraso' na travessia do referido oceano, rapidamente viriam também a 'cair no gosto' dos jovens ibéricos.


Como não podia deixar de ser, esta 'investida' foi liderada por aquela que talvez continue a ser a maior (e, decerto, mais conhecida) de todas as cadeias de 'fast food', que 'desbravaria' caminho para a chegada posterior de todas as suas congéneres. A primeira 'experiência' teve lugar em Cascais, nos arredores de Lisboa, naquele que era, à época, o maior 'shopping' em Portugal, o CascaiShopping; seria aí que, logo no primeiro ano da última década do século XX, o 'infame' McDonald's viria a abrir o seu primeito estabelecimento em território nacional, despertando de imediato o interesse de toda uma geração de jovens, para quem as 'casas de hambúrgeres' 'à americana' eram, até então, conceitos existentes apenas no cinema oriundo daquele continente.


006_history_7.jpg


O primeiro McDonald's a abrir em Portugal surgiu na região de Cascais


O sucesso deste primeiro restaurante (pese embora a sua localização algo específica) foi suficiente para encorajar outras cadeias a seguir o exemplo da cadeia de Ronald McDonald, sendo que, ainda no mesmo ano, a zona das Picoas, no centro de Lisboa, veria 'aterrar' o primeiro estabelecimento de outra famosa companhia do ramo, a Pizza Hut – o qual, aliás, se mantém aberto, na mesma localização, até aos dias de hoje. No ano seguinte, seria a vez de o próprio McDonald's expandir a sua base de operações com um segundo restaurante, agora também na zona nevrálgica da capital – e, curiosamente, a curta distância do da concorrente Pizza Hut. Em 1992, a espanhola Telepizza 'alargar-se-ia' tambem ao país vizinho, destacando-se de imediato pelo diferencial significativo de preços em relação à Pizza Hut, e a partir daí, estava dado o mote para a entrada, durante os dez a quinze anos seguintes, de inúmeras outras cadeias internacionais, como a KFC (chegada a Portugal em 1996), bem como para o aparecimento de cadeias de 'fast-food' de origem nacional, como o a famosa Pans Co, mais conhecida por Companhia das Sandes.


foto_detalhe_fp_melo.webp


Foto contemporânea da primeira Pizza Hut a abrir em Portugal, ainda hoje situada na mesma localização.


À entrada para o século XXI, os jovens portugueses tinham, assim, já muito por onde escolher neste campo, com a maioria das grandes cadeias a marcarem presença nas principais localidades nacionais, com principal ênfase nos diversos 'shoppings' surgidos de uma assentada nos últimos anos da década de 90; a 'investida' dos 'fast-foods' estava, no entanto, longe de estar concluída, tendo as duas primeiras décadas do Novo Milénio visto chegar a Portugal companhias como a Starbucks e a Taco Bell, prontas a satisfazer não só os locais como os cada vez mais estrangeiros radicados ou de visita ao país. Mais – esta tendência não mostra sinais de abrandar, deixando a certeza de que, aconteça o que acontecer e mude o mundo como mudar, as gerações presentes e vindouras não deixarão, certamente, de poder contar com restaurantes de logotipo, menus, mesas e cadeiras coloridos, especialistas em 'dispensar' quantidades inacreditáveis de 'comida de plástico' por hora, para deleite dos seus jovens clientes...

Tuesday, 18 April 2023

Terça de TV: 'Palavra Puxa Palavra', O Clássico 'Menor' dos Concursos da RTP

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Em edições passadas desta mesma rubrica, temos ao longo do tempo vindo a abordar concursos icónicos da televisão portuguesa de finais da década de 80 até ao dealbar do Novo Milénio; esta semana, chega a altura de juntar mais um programa a essa vasta lista de 'game shows' icónicos, e recordar outro saudoso concurso das noites daquela época; o 'Palavra Puxa Palavra'.


palavra-puxa-palavra-00.jpg


Apresentado por António Sala – futuro sucessor de Carlos Cruz no 'Um, Dois, Três' e 'cara' da versão portuguesa de 'Você Decide', além de eterna 'voz' do 'Despertar' da Rádio Renascença – o concurso era, como a maioria dos seus congéneres da época, uma adaptação directa de um formato estrangeiro, no caso norte-americano, e propunha uma espécie de jogo de 'charadas', a pares, entre dois concorrentes e dois convidados especiais. A cada elemento do duo era, alternadamente, dada uma palavra, que o mesmo deveria tentar transmitir ao seu parceiro através de cinco pistas; no final, sobrava apenas um dos dois concorrentes, o qual se juntava ao convidado da sua escolha para tentar identificar dez palavras no espaço de um minuto. Pelo meio, havia também 'palavras-cheque', que davam direito a bónus, mas apenas se adivinhadas em três pistas ou menos, o que acentuava o seu carácter 'especial' e aumentava a dificuldade dos turnos em que surgiam. Um conceito original, relativamente fácil de 'vender' a um público-alvo habituado a jogar às 'Charadas', e que compreendia a tensão inerente a ter que descobrir a palavra correcta em poucos segundos, e com ajuda limitada. 


681f0543-d31c-4ee8-8adf-eb77d423d8a4-754x394.jpg


Exemplo de um turno da primeira fase do programa.


Talvez estivesse aí um dos 'trunfos' por detrás do sucesso do programa, que conseguiu manter-se no ar durante honrosos quatro anos, de 1990 a 1994 – menos do que 'dinossauros' como 'O Preço Certo' ou o referido 'Um, Dois, Três, mas mais do que muitos dos seus contemporâneos – tendo durante três deles feito parte da grelha da RTP2 (então um pouco menos 'culta e adulta' do que hoje em dia) e no último do principal canal estatal, numa transição directa que não implicou quaisquer alterações ao formato ou sequer mudança de apresentador, pesassem embora os compromissos de Sala no 'Um, Dois, Três'.


palavra-puxa-palavra-01.jpg


O carismático apresentador do programa.


À distância de trinta anos, a impressão que fica é a de um concurso que, apesar de não se encontrar ao mesmo nível dos grandes 'clássicos' da RTP neste campo, não deixava de ter todos os elementos necessários ao sucesso dentro do seu campo, do formato interessante ao apresentador carismático, e que conseguiu deixar pelo menos alguma 'marca' nostálgica na geração que passou as noites de semana no sofá, em família, a ver concorrentes 'esmifrarem-se' para ganhar prémios numa série de programas absolutamente icónicos – da qual este faz também, merecidamente, parte. Tanto assim que, findo o programa, o mesmo foi substituído por outro de formato quase exactamente idêntico, com o mesmo patrocinador e locutor, agora intitulado 'A Grande Pirâmide' – e dado que, como diz um ditado anglófono, 'a imitação é a mais sincera forma de homenagem', 'Palavra Puxa Palavra' deve, certamente, ter sido bem-sucedido naquilo a que se propunha...

Wednesday, 4 January 2023

Terças Tecnológicas: Os Jogos de Wally

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 03 de Janeiro de 2023.


A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Uma das regras de ouro de qualquer propriedade intelectual surgida na 'idade do marketing' prende-se com o facto de qualquer fenómeno deste tipo ter, inevitavelmente, direito a pelo menos um jogo de vídeo licenciado, quer o conceito se preste a este tipo de produto ou quer não. Os dois títulos de que falamos hoje inserem-se firmemente nesta última categoria, sendo o próprio material de origem um daqueles casos de popularidade inexplicável e surgido praticamente do nada.


Falamos de 'Onde Está o Wally?', a série de livros criada pelo desenhador Martin Handford em 1987 e que, além de providenciar a sociedade ocidental com um dos seus mais icónicos e duradouros disfarces de Carnaval, deu também origem a uma série animada – a OUTRA grande inevitabilidade de qualquer estratégia de 'marketing' para crianças e jovens dos anos 80 e 90. No entanto, enquanto o produto televisivo se afirmava como uma agradável surpresa dentro do seu estilo – e acima da média mesmo para o geral dos desenhos animados da época – os dois produtos interactivos alusivos à série posicionavam-se no extremo oposto da escala de qualidade, sendo unanimemente tidos como adições não mais do que medíocres às bibliotecas de títulos das consolas para as quais foram lançados.


A razão para esta fraca recepção é simples, e prende-se com o facto de tanto 'Where's Waldo?', lançado em 1990 para a Nintendo original, como a sequela 'The Great Waldo Search', surgida dois anos depois na sucessora Super Nintendo, padecerem dos mesmos problemas básicos, o principal dos quais reside no facto de ambos os jogos se inserirem num estilo bem mais apropriado para jogar num PC do que numa consola, nomeadamente o jogo de 'procura de objectos' – um estilo que, aliás, era bastante popular junto dos fãs de computadores da época.


download.png


great-waldo-search-16.png


Exemplos da jogabilidade de ambos os títulos


Aí reside, no entanto, o outro problema destes títulos, nomeadamente o facto de a maioria dos mesmos serem grátis ou terem um custo pouco avultado, normalmente decorrente do regime 'shareware' em que eram disponibilizados; já os jogos de Wally exigiam a compra a preço completo (e que não era pouco) oferecendo, em troca, apenas um título de jogabilidade limitada, curto, e que não oferecia rigorosamente nada que os fãs do explorador listrado não pudessem encontrar nos livros originais, por um custo significativamente menor. Ou seja: aquilo que no PC seria grátis (e bastante mais fácil de jogar, dada a presença do rato por oposição ao comando), e em livro sairia, pelo menos, em conta, era vendido para as consolas da Nintendo a preço completo, resultando num produto desapontante e pouco merecedor do valor pedido.


O falhanço em toda a linha dos dois títulos parece, no entanto, ter servido de lição para os programadores modernos, que só na era dos controlos com movimento e ecrãs tácteis voltaram a tentar criar um jogo com Wally como protagonista – no caso, 'Where's Wally? The Fantastic Journey', de 2009, e que utilizava as potencialidades dos sistemas para que foi lançado (Wii e DS, novamente, da Nintendo, além da plataforma móvel iOS e do próprio Windows) para criar uma experiência de jogo intuitiva, e mais condicente com o género escolhido.


maxresdefault.jpg


Jogabilidade do título para Wii


Infelizmente, com a popularidade do personagem na 'mó de baixo', este não passou de um título menor (quase digno do famigerado rótulo 'shovelware'). Numa altura em que uma nova serie animada em torno de Wally e Wanda faz sucesso entre os mais novos, no entanto, é bem possivel que se verifique, num futuro próximo, nova tentativa de trazer o personagem de Handford para o mundo virtual – com sorte, mais bem-sucedida do que a primeira...


 

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...