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Wednesday, 10 April 2024

Quartas aos Quadradinhos: Em Memória de Ziraldo (1933 - 2024)

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Os anos 70, 80 e 90 viram chegar a Portugal um considerável influxo – quase uma 'inundação' – de títulos de banda desenhada oriundos do Brasil, de qualidade variável, mas quase sempre acima da média. Disponíveis em qualquer quiosque – e havia-os em número quase infindável de Norte a Sul do País – as revistas das editoras Abril e Globo deram a conhecer aos jovens portugueses muitos dos mais populares personagens e grupos entre os seus contemporâneos do outro lado do oceano, dos inúmeros heróis da Marvel, DC ou Disney (companhias que, mais tarde, viriam a ser editadas a nível nacional) a colectivos como a Turma da Mônica ou Os Trapalhões, e popularizaram entre esta demografia nomes como os de Mauricio de Sousa ou do criador a quem dedicamos este 'post', e que faleceu este fim-de-semana, com a provecta idade de 91 anos.


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Falamos de Ziraldo Alves Pinto - mais conhecido apenas pelo seu primeiro nome – à época já um dos mais destacados criadores de banda desenhada do Brasil, tendo sido pioneiro na criação de obras de banda desenhada de 'autor único' por terras de Vera-Cruz, feito que logrou almejar logo em inícios dos anos 60 (mais de uma década antes do 'rival' Mauricio) com a criação da revista 'Turma do Pererê', centrada num grupo de criaturas da mata liderado pelo inconfundível saci, um dos principais personagens do folclore brasileiro. Por essa altura, o estilo inconfundivel do autor – quer a nível de desenhos, quer de diálogos – era já bem conhecido de diversos jornais brasileiros, pelo que o sucesso de que o título imediatamente gozou entre o seu público-alvo não foi, de todo, surpreendente; ainda mais do que os referidos trabalhos, no entanto, foi 'Turma do Pererê' (revista que teve duas fases distintas, uma antes e outra depois da ditadura militar ter sido instaurada no Brasil) a responsável por popularizar o nome do desenhista entre as crianças da época.


Não se ficaria por esses anos, no entanto, a fama de Ziraldo – antes pelo contrário, o personagem mais icónico e sinónimo com o desenhista ainda estava para ser criado, surgindo apenas no início da década de 80, já depois de outras duas tentativas menos bem sucedidas por parte do autor. Tratava-se d''O Menino Maluquinho', uma típica criança da época, de imaginação delirante e sempre pronta a criar brincadeiras, planos e esquemas mirabolantes, nos quais não tardava a envolver os restantes jovens do seu prédio: o melhor amigo Bocão, a namoradinha Julieta, a melhor amiga desta, Carolina, o intelectual e sensato Lúcio, o pequeno, tímido e ansioso Junim, e até, por vezes, o 'valentão' Herman e a namorada deste, a bonita e vaidosa Shirley Valéria. O resultado eram histórias e aventuras tão 'mirabolantes' quanto ancoradas na realidade, quase como uma 'Turma da Mônica' mais urbana e contemporânea, ou não vivesse Maluqinho num prédio de apartamentos.


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A revista que popularizaria Ziraldo entre o público infanto-juvenil português.


Mais uma vez, o sucesso desta publicação foi imediato, com a revista de Maluqinho (editada como resultado da boa recepção que o seu álbum de tirinhas havia recebido aquando da sua edição em 1980) a competir com os 'mega-sucessos' de Mauricio ou dos estúdios Disney pelas semanadas do seu público-alvo, e a lograr permanecer nas bancas durante um período inicial de oito anos, de 1988 a 1996. Foi, também, durante esta fase que os leitores portugueses ficaram a conhecer Maluquinho, e que Ziraldo conseguiria maior penetração no mercado nacional – além do periódico de banda desenhada, o autor veria também chegar a solo luso os livros das séries ilustradas 'Corpim', dedicada às diferentes partes do corpo, e 'O Bichinho da Maçã', talvez o seu trabalho mais conhecido a seguir a 'Maluquinho'.


Infelizmente, tal como a maioria dos autores de BD brasileiros à excepção de Mauricio, também Ziraldo não resistiria ao 'colapso' do mercado de banda desenhada periódica português, posteriormente reduzido a meia-dúzia de títulos da Turma da Mônica, Disney, Marvel e DC, por oposição à 'bonança' desfrutada pela geração 'millennial'. Assim, enquanto no seu Brasil natal as suas franquias seguiam de 'vento em popa' (com Maluquinho a ficar nas bancas até inícios da presente década, e a ter inclusivamente direito a títulos de 'crossover' com Mônica e Cebolinha e adaptações cinematográficas) a sua popularidade em Portugal não resistiu à chegada à idade adulta da geração nascida nos anos 80 e 90. Para esses, no entanto, a notícia da morte do autor – pacífica, no seu apartamento – não deixará de gerar uma 'pontada' de dor, saudade e nostalgia por mais um elemento da sua infância que desaparece para sempre, sem retorno... Que descanse em paz.

Wednesday, 23 November 2022

Quartas aos Quadradinhos: 'Zé Carioca na Copa' (1994)

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Apesar de ser tão ou mais popular em Portugal quanto no resto da Europa ou na América do Sul e Latina, o futebol só recentemente se tornou tema viável para obras de banda desenhada criadas em território luso, sendo os seus principais representantes a série de humor 'Os Campeões' e a também cómica (ainda que de forma não intencional) 'Cristiano Ronaldo Strike Force'; antes destes exemplos – todos criados já do lado de 'cá' do Novo Milénio – o único exemplo de BD expressamente dedicada a este tema era o álbum de cariz didáctico e informativo sobre a 'História dos Campeonatos do Mundo', lançado pelas Edições ASA em meados da década de 80.


Esta escassez de títulos dedicados ao desporto rei 'made in Portugal' obrigava, por sua vez, os jovens bedéfilos lusos a recorrer a fontes do país irmão, o Brasil, para satisfazerem a sua vontade de ler 'histórias aos quadradinhos' ambientadas em torno de jogos de 'bola'. Mesmo do outro lado do Atlântico, no entanto, a oferta não era tão abundante quanto se pudesse pensar – além do personagem Pelezinho, criado por Mauricio de Sousa (também criador da Turma da Mônica) e que apareceria apenas esporadicamente durante os anos 90, sendo mais tarde 'sucedido' por Ronaldinho, apenas um título dedicava verdadeiramente a sua atenção ao futebol, muito por conta da paixão assolapada do seu protagonista pelo desporto – a qual, por sua vez, levaria à publicação de uma memorável série de quatro revistas na Primavera de 1994.


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Três das quatro capas da série.


Falamos de 'Zé Carioca na Copa', o título alternativo dado aos números 1997 a 2000 da edição normal da revista 'Zé Carioca', e justificado pela presença de uma história principal em que o simpático papagaio procura (e consegue) viajar para os EUA, a fim de assistir ao vivo ao Mundial que ali se desenrolava naquele ano. Escusado será dizer que, pelo caminho, o nosso herói vivia uma série de peripécias e vissicitudes – muitas delas ligadas à dificuldade em sair do próprio Brasil, derivada da sua perpétua falta de fundos monetários – que requeriam o uso de toda a sua 'malandrice' para ultrapassar, na prossecução do objectivo-mor delineado.


Editada durante uma das fases áureas da edição brasileira da revista (pouco depois de uma das poucas mudanças de 'visual' que não foram acompanhadas de um decréscimo de qualidade) esta história em quatro partes apresenta, evidentemente, um altíssimo nível técnico, como era apanágio da publicação na altura (o qual, aliás, fica bem patente logo nos cuidados desenhos das capas acima reproduzidas) prometendo muitas e boas gargalhadas aos fãs de futebol, do personagem, ou simplesmente das revistas de BD da Disney publicadas pelo ramo brasileiro da Abril à época.


De referir que, além destes quatro números, houve ainda um outro, especial, também intitulado 'Zé na Copa' e lançado em 1998, como brinde na compra de outras revistas Disney, como forma de assinalar a competição realizada nesse ano; no entanto, a informação sobre esta BD disponível na Internet não vai muito além da capa, pelo que nos é impossível analisá-la mais a fundo.


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Capa da edição especial alusiva ao Mundial de França '98


No cômputo geral, e apesar do exemplo existente ser de alto nível, a ausência de mais publicações alusivas aos Campeonatos Mundiais é desapontante, sendo que nem o outro grande fã do desporto-rei da banda desenhada da época, o Cascão da Turma da Mônica,teve direito a qualquer história ou número especial na sua revista. Ainda assim, como diz o ditado, o que existiu foi 'melhor que nada', especialmente dado que 'Zé Carioca na Copa' é tão bom que ainda se 'aguenta bem' nos dias de hoje, quase trinta anos após a sua publicação – um feito que, convenhamos, não está ao alcance de qualquer um...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...