Thursday, 30 April 2026

Quintas ao Quilo: A Curta Vida de Um 'Mix' Perfeito

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

Apesar de, hoje em dia, os nomes mais sinónimos com bolachas de chocolate (ou com pepitas de chocolate) em Portugal serem duas marcas estrangeiras – as americanas Maryland e Chips Ahoy! - quem anda agora por volta da meia-idade recordará a existência, em tempos de uma concorrente séria a qualquer das duas, de fabrico cem por cento nacional, e que fazia as delícias dos jovens nos anos da viragem de Milénio, com as suas três variedade de chocolate e uma quarta, a clássica (e, na opinião do autor deste blog, a melhor) que rivalizava em textura e sabor com os melhores períodos de ambas as marcas estrangeiras. Falamos, claro está, das não-tão-misteriosamente desaparecidas Chipmix, da Triunfo, às quais dedicaremos as próximas linhas.

677248.webp

A gama original (e clássica) das Chipmix.

Surgidas no mercado nacional ainda em finais do século XX, o sucesso destas bolachas entre o público infanto-juvenil foi quase imediato, muito graças aos atributos acima delineados; variedade (além da bolacha 'branca' com pepitas de chocolate, havia variantes com e sem recheio, de chocolate branco ou escuro), qualidade uniforme, e uma excelente relação preço-qualidade, com a produção nacional a permitir manter o dispêndio relativamente baixo e, ao mesmo tempo, oferecer pacotes maiores do que os das concorrentes estrangeiras. Não é, pois, de admirar que, para os jovens da altura, estas fossem AS bolachas de referência dentro do seu sector, ainda que as Maryland fossem também bastante apreciadas.

Quem percebe alguma coisa de negócios, no entanto, sabe que as marcas multinacionais também presentes no mercado não poderiam deixar florescer esta concorrente potencialmente 'tomba-gigantes', pelo que foi sem surpresas (embora com enorme desilusão) que os fãs destas bolachas viram a Triunfo ser vendida a um grupo internacional (em 2004), o qual, por sua vez, foi assimilado pela 'gigante' Kraft Foods (produtora das...Chips Ahoy!) em 2006. A multinacional ainda tentou 'suavizar' esta transição, mantendo as Chipmix nas prateleiras até inícios da década de 2010, mas apesar das afirmações sobre ter mantido a 'Mesma Receita', a verdade é que essas últimas Chipmix já nada tinham a ver com a histórica bolacha de alguns anos antes – e não se tratava apenas de os paladares da demografia-alvo terem 'evoluído' ou envelhecido, mas antes de um acréscimo de açúcar e amolecer da consistência que destruía o 'equilíbrio perfeito' que tinha notabilizado as bolachas em causa no tempo da Triunfo. Foi, pois, sem surpresas que esta versão 'mutante' dos amados biscoitos desapareceu sem alarde das prateleiras, deixando poucas saudades mas, ao mesmo tempo, imensas...da receita original.

Apesar de vítima de manobras corporativas e do passar dos anos (a própria fábrica da Triunfo já pouco produz, tendo tido de ser 'salva' do encerramento em 2015) a gama original das Chipmix sobrevive na memória nostálgica colectiva da 'geração e meia' ('millennial' e primeira vaga da 'Z') que teve o privilégio de com elas privar na idade em que coisas como gosto e consistência de uma bolacha ainda se revestiam de importância primordial. É, pois, a eles que dedicamos esta breve recordação de uma das melhores bolachas alguma vez existentes no mercado português.

Wednesday, 29 April 2026

Quartas aos Quadradinhos: A Edição Portuguesa De Um 'Flop' Universal

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de relativamente próxima de dois grandes mercados exportadores de banda desenhada – o franco-belga e o espanhol – a Itália é mais conhecida entre os bedéfilos como o 'berço' da maioria das histórias da 'era moderna' das revistas Disney, sendo poucos os produtos verdadeiramente endémicos e locais a lograr extravasar os confins da 'bota do Atlântico'; Milo Manara é uma excepção óbvia, tal como o herói de 'western spaghetti' desenhados, Tex, mas após este início prometedor, a influência da Itália no mercado dos 'quadradinhos' esvai-se consideravelmente. Ainda assim, não é decerto à falta de tentativas que se deve este paradigma, já que o país em causa procura, periodicamente, lançar mais uma das suas séries 'clássicas' no mercado internacional, com resultados, invariavelmente, intermitentes; é de uma dessas tentativas que falamos neste 'post'. 

                   1.jpg2.jpg3.jpg4.jpg5.jpg

As capas dos únicos álbuns planeados para edição em Portugal, dos quais o quinto nunca chegou a ver a luz do dia.

Criada ainda em finais dos anos 60 e imediatamente popular no seu país de origem, foi com naturalidade que a série 'Alan Ford', da autoria de Luciano Secchi e Rodrigo Raviola (que, como é apanágio dos artistas italianos, adoptavam pseudónimos 'anglicizados', respectivamente Max Bunker e Magnus) rapidamente se expandiu a alguns dos mercados adjacentes, incluindo o português; no entanto, a lentidão do processo de exportação que caracterizava o período em causa faria com que as aventuras do titular espião demorassem quase um quarto de século (!) a chegar a Portugal, onde apenas viriam a ser editadas em inícios de 1993, pela modesta Editorial Palmeira. E a verdade é que – talvez por causa desta demora, ou talvez por qualquer outro motivo – a série viria a falhar no mercado luso como falhara em todos os restantes, com excepção do jugoslavo, onde atingiu um nível de popularidade igual ou maior do que aquele de que gozava em Itália.

As margens do Mediterrâneo e do Atlântico eram, no entanto, bastante mais inclementes para 'Alan Ford' que as do Mar Báltico, sendo que a tentativa portuguesa de publicar a série se ficou pelos quatro volumes, com um quinto a não passar da fase de planeamento. Assim, os (poucos) leitores portugueses que tomariam contacto com a série apenas poderiam desfrutar das aventuras 'O Naufrágio do Daisy Lou', 'Terrorismo', 'O Menino Prodígio' e 'O Código Graffitt', uma minúscula amostra de uma banda desenhada que ainda hoje continua a ser editada em Itália, mais de sessenta e cinco anos após a sua criação - como termo de referência, seria como se em Portugal apenas tivessem sido editados os primeiros quatro álbuns de Astérix!

Os motivos para este total falhanço de Alan Ford em mercados estrangeiros (também durou pouco por terras francesas, brasileiras, dinamarquesas e sérvias, por exemplo) não são totalmente claros, já que a premissa da série é relativamente universal, e normalmente apreciada (uma sátira ao género da espionagem, semelhante ao que Mike Myers fez em 'Austin Powers', embora menos abertamente paródica); seja qual for a razão, no entanto, a verdade é que também em Portugal esta colecção não logrou singrar, sendo o único vestígio da sua existência uma ficha no essencial 'site' Bazar0. Jóia a descobrir ou mediocridade digna de esquecimento? Cabe a cada leitor decidir...

Tuesday, 28 April 2026

Terças Tecnológicas: 'Conker's Bad Fur Day' - A Aventura Mais 'Adulta' da Nintendo 64

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Apesar de, hoje em dia, o apelo dos videojogos ser absolutamente universal, a percepção da sociedade em geral sobre este tipo de produtos (e, sobretudo, sobre certos sub-géneros) continua a ser a de que o único público-alvo são as crianças e jovens. Em inícios do século XXI, esta visão era, se possível, ainda mais exacerbada – apesar da existência no mercado de franquias como 'Postal', 'Duke Nukem', 'Carmageddon' ou 'Grand Theft Auto' – pelo que o conceito de uma aventura em plataformas 3D, com gráficos coloridos e protagonistas antropomórficos, mas dirigida a um público declaradamente adulto era suficiente para fazer erguer (ou franzir) um sem-número de sobrolhos, e para garantir atenção imediata ao título em causa. E a verdade é que 'Conker's Bad Fur Day' (que celebrou no início deste mês os vinte e cinco anos do seu lançamento no mercado europeu, quase em simultâneo com os jogos da segunda geração de Pokémon) fazia por merecer essa fama, transformando aquela que seria 'apenas' mais uma cópia de 'Super Mario 64', 'Banjo-Kazooie' ou 'Croc' num dos jogos mais notáveis – e notórios – da galeria da Nintendo 64.

s-l1200.png

Isto porque Conker – um esquilo de feições tipicamente 'animadas', bem ao estilo de outras mascotes da Nintendo - não era o típico protagonista inocente e virtuoso que ele próprio encarnara no seu descartável jogo de estreia, 'Conker's Pocket Tales', lançado para Game Boy Color no Verão de 1999. Nesse jogo, os seus objectivos passavam por salvar a namorada e recuperar os presentes de aniversário que lhe haviam sido roubados; nesta sequela em três dimensões, a sua principal preocupação é regressar a casa após uma noite passada no bar (!) a beber (!!) com amigos prestes a embarcar para a guerra (!!!), Mais: no seu caminho de regresso, Conker aceita missões em regime mercenário, vê-se envolvido com a Máfia local, e acaba a combater um exército fascista com estética vagamente Nazi, tudo isto enquanto diz palavrões, fuma e combate inimigos como um literal 'monte de esterco' ou os referidos mafiosos, representados (previsivelmente) por doninhas, naquela que é uma subversão completa dos estereótipos aliados a este género de jogo, numa altura em que o sucesso de 'South Park' demonstrava a viabilidade deste tipo de iniciativa.

CBFD-graphics.jpg

Os gráficos animados e coloridos escondiam um guião mais do que adulto...

Não é, pois, de admirar que esta original abordagem, aliada aos comprovados méritos técnicos e narrativos dos jogos da Rare, tenham ajudado a tornar a segunda aventura de Conker num sucesso de vendas entre um sector do público-alvo que se posicionava como mais 'adulto', mas, ao mesmo tempo, se deliciava com instâncias de humor escatológico e palavreado mais 'colorido' naquele que aparentava, à primeira vista, ser um produto dirigido sobretudo a crianças – e que, nos primórdios do seu desenvolvimento, estava previsto ser precisamente isso. Há que louvar, portanto, o funcionário ou equipa da Rare que teve a ideia de transformar um genérico 'Quest' num 'Bad Fur Day' e, com essa simples 'guinada' numa direcção mais madura (embora nada sofisticada), ajudou a criar aquele que talvez seja o maior clássico 'de culto' (e, sem dúvida, o jogo mais politicamente incorrecto, mais do que qualquer título do referido 'South Park') alguma vez lançado para Nintendo 64.

Monday, 27 April 2026

Segundas de Séries: Vinte e Oito Anos de 'Camilo na Prisão' - 'Sentenciado' A Fazer Rir Os Portugueses

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Quando se fala de grandes nomes da comédia televisiva contemporânea em Portugal, Camilo de Oliveira surge logo a seguir a luminárias como Herman José, Vítor de Sousa e Raul Solnado, sendo talvez menos 'intemporal' que estes, mas tendo gozado de um extenso período de fama e sucesso durante as décadas de 90 e 2000, quando era quase impossível evitar ver pelo menos um excerto ou 'spot' publicitário de uma das suas inúmeras séries. Um desses muitos veículos para o humor brejeiro e abertamente popular do actor estreava no seu canal de sempre, a SIC, há exactos vinte e oito anos; é sobre essa série que nos debruçaremos nas próximas linhas.

MV5BMzQ1MGI3YzctNTQxYi00NjdhLTg1NjgtMWVmYjUwOTg2OD

Com um título o mais auto-explicativo possível, 'Camilo na Prisão' levava ao ar o seu primeiro episódio logo a seguir ao feriado nacional de Abril do ano de 1998, e trazia o titular Camilo no papel de um ladrão que, após um incidente de destruição em cadeia ao volante de um camião roubado, é sentenciado a cinco anos de prisão; claro está, no entanto, que esta premissa servia meramente como desculpa para as habituais peripécias típicas das séries do actor, um daqueles nomes que interpreta sempre uma variante de si próprio, mas de quem também é esperado que asism seja. Nesse capítulo, Camilo volta a não desiludir nestas suas 'férias' atrás das grades, bem coadjuvado por nomes como Henrique Viana ou Carlos César – o que, no entanto, não impede que esta produção seja apenas 'mais uma' na autêntica 'linha de produção' que Camilo e a SIC operavam durante o período em causa, 'debitando' uma temporada de uma dúzia de episódios antes de 'passar a outra'.

Ainda assim, quanto mais não seja pela efeméride da data de estreia (a 26 de Abril, tendo este 'post' falhado o vigésimo-oitavo aniversário por apenas vinte e quatro horas) vale a pena recordar este esforço relativamente 'menor' de um homem que, durante um período de cerca de cinco a dez anos em torno da viragem do Milénio, fazia consistentemente rir tanto a demografia-alvo deste 'blog' como os seus familiares mais velhos, agregando gerações como apenas os verdadeiros 'grandes' sabem fazer.

Sunday, 26 April 2026

Domingo Desportivo: Um Clube, Uma Época, Um Aniversário, Dois Jogadores

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Como diz o ditado, por vezes, a realidade é mais estranha do que a ficção – e o facto de dois jogadores de posições semelhantes e integrantes simultâneos do plantel do mesmo clube, serem também exactamente da mesma idade pode definitivamente considerar-se um exemplo deste axioma; e no entanto, era precisamente isso que sucedia com dois dos grandes nomes do Vitória de Guimarães de inícios dos anos 90, ambos praticamente indiscutíveis durante a única época que passaram juntos nos alvinegros da Cidade-Berço.

1 - 90 91 Vitoria 3.jpg

e600291a-77a9-4981-89d8-a2d0162dccd1_1394x781.jpg

Ziyad (em cima) e Chiquinho (em baixo)

Já com trajectos muito diferentes à sua chegada a Guimarães – um oriundo directamente do seu país de origem, enquanto o outro firmara já créditos na então Primeira Divisão, ao serviço do Benfica, por quem se tinha sagrado campeão com dobradinha e marcado presença em duas Supertaças, além de ter vencido outra pelo próprio Guimarães – Ziad e Chiquinho Carlos (ambos os quais celebram os seus sessenta e três anos à data de edição deste 'post', embora uma fonte dê o aniversário de Ziad como sendo apenas daqui a um par de semanas, concretamente a 10 de Maio) viriam a cruzar-se naquela que seria a última temporada do brasileiro no Vitória SC, e a primeira do tunisino, 1990/91, ao longo da qual partilhariam frequentemente presenças naquele que era um excelente 'onze' inicial para os vimaranenses, com o brasileiro a partir mais de trás e o tunisino encarregue de ser a referência de ataque, posição que viria a desempenhar com reconhecido mérito ao longo das quatro épocas seguintes. Assim, durante uma época da sua longa e ilustre história, o 'Vitória do Norte' contou no seu plantel com dois jogadores cujos nascimentos haviam distado apenas algumas horas (além de vários continentes) e que viriam, ambos, a lograr almejar o estatuto de lendas do clube.

De facto, é apenas na fase de carreira posterior à passagem pelo Vitória que estes dois jogadores diferem. Chiquinho Carlos rumaria ao Braga e, posteriormente, ao 'outro' Vitória (o de Setúbal), construindo uma daquelas carreiras mais do que honrosas – e, no seu caso, de longevidade acrescida, já que o jogador apenas 'penduraria as botas' já com a provecta idade de quarenta e quatro anos, no final da época 2006/2007, altura em que era já 'Grande dos Pequenos' no minúsculo Igreja-A-Nova. Já Ziad rumaria ao futebol japonês há pouco mais de trinta anos - no defeso de Inverno da época de 1995/96 – fazendo várias boas épocas ao serviço do Vissei Kobe antes de rumar ao seu país natal para terminar carreira no mesmo clube onde a iniciara, o Espérance de Tunis, numa altura em que contava ainda com o estatuto de internacional pelo seu país, tendo inclusivamente brilhado na CAN de 1998, época no final da qual acabaria por se retirar dos relvados. Dois percursos bastante distintos para jogadores que, de outro modo, partilham um sem-número de características, que extrapolam apenas a data de aniversário e presença num clube específico, e os tornam protagonistas de uma das mais inesperadas coincidências do futebol nacional. Parabéns a ambos, e que contem muitos.

Saídas ao Sábado: Vinte e Sete Anos de Um Desfile Marcante

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 25 de Abril de 2026.

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

A marca de vinte e cinco anos é sempre uma das mais especiais, e tal paradigma aplica-se em dobro no caso do aniversário de um evento marcante ou influente. Não é, pois, de admirar que o Governo português tenha querido assinalar o quarto de século sobre a data mais importante da História moderna do País com pompa e circunstância, no caso mediante um desfile militar de uma dimensão nunca antes vista em solo lusitano.

99974035de5f83a8b40c0dfba21f52d3arq.webp

Levado a cabo no Parque das Nações (espaço então 'novinho em folha', após a conclusão da Expo '98 meros meses antes) a 25 de Abril de 1999, o desfile contou com a presença de todos os principais ramos militares portugueses (além do então Primeiro-Ministro, António Guterres) que, em conjunto e durante pouco mais de uma hora, criaram uma parada maior e mais impressionante do que qualquer evento do género organizado durante o regime do Estado Novo, vincando assim o estatuto livre e democrático do País, e realçando a importância da data em causa, que tornou possível tal paradigma.

Dada a dimensão do evento, tão-pouco é de surpreender que o mesmo tenha tido honras de transmissão em directo na RTP, onde a ensurdecedora algazarra dos espectadores presentes abafava totalmente os comentários dos jornalistas enviados ao certame, provando que o 25 de Abril continuava, um quarto de século depois, ainda bem presente na consciência colectiva nacional. E apesar de, desde então, se terem realizado inúmeros desfiles comemorativos da data, a verdade é que o de 1999 continua a ser o mais recordado - seja pela dimensão, pelo espaço onde se realizou ou pela transmissão na televisão – merecendo bem esta 'chamada' quando se celebram exactos vinte e sete anos sobre a sua realização.

Saturday, 25 April 2026

Sessão de Sexta: Uma Recriação Tão 'Livre' Quanto Exacta

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 23 de Abril de 2026.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Num dos primeiros 'posts' alusivos ao 25 de Abril neste blog, falámos do filme português de 2000 que, num misto de ficção e realidade, traduz para o formato cinematográfico os eventos e personagens do Dia da Liberdade. A longa-metragem em causa, que triunfaria nos Globos de Ouro desse ano, não é, no entanto, a única tentativa de ficcionalizar o que se passou naquele dia de finais de Abril de 1974 – pelo contrário, já no ano anterior, a própria SIC cumprira com relativa distinção esse desiderato, através de um telefilme exibido uma única vez (primeiro em blocos separados e posteriormente em formato compacto) há quase exactos vinte e sete anos, entre 25 e 26 de Abril de 1999.

download.jfif

Da autoria de Emídio Rangel (grande figura da emissora de Carnaxide à época), Rodrigo Castro e Sousa e da realizadora Joana Pontes, e criado no âmbito das celebrações do quarto de século sobre o histórico dia, 'A Hora da Liberdade' era fruto de um ano de trabalho e dois meses de rodagem, e contava com um elenco que reunía a 'nata' dos actores televisivos do período em causa (com destaque para Cristina Carvalhal, José Jorge Duarte, Luís Esparteiro e Vítor Norte), cada um escolhido pela sua semelhança fisica com o personagem representado, e contava ainda com uma participação especial de Otelo Saraiva de Carvalho no papel dele próprio. Cuidadosamente fundamentado com recurso a entrevistas (as quais viriam posteriormente a ser editadas em livro), e imagens de arquivo e realizado com a colaboração das Forças Armadas, o filme (dividido em vinhetas transmitidas em 'tempo real', ou seja, à mesma hora a que cada um dos acontecimentos retratados se havia desenrolado em 1974) fazia por merecer o respeito que lhe foi outorgado, tendo sido alvo de críticas positivas, e incluído numa lista dos melhores filmes sobre o 25 de Abril compilada pela revista Time Out. E apesar de, desde então, algo esquecido, a presença (desde 2020) na plataforma de emissão digital da SIC assegura que a película em causa permaneça disponível e relevante até aos dias de hoje.

A proximidade deste docu-drama com o supramencionado 'Capitães de Abril' não passou, no entanto, despercebida, tendo a estação de Carnaxide sido obrigada a emitir um comunicado após Maria de Medeiros, realizadora e actriz do filme de 2000, ter afirmado à TV Guia sentir-se 'plagiada', dado que, aquando da emissão de 'A Hora da Liberdade', o seu filme se encontrava já em rodagem. Tais 'arrufos' rapidamente foram ultrapassados, no entanto, e, hoje em dia, os entusiastas da data em causa podem escolher entre duas excelentes dramatizações dos eventos do dia, ou até juntá-las numa Sessão de Sexta (ou antes, Sábado) dupla, para uma tarde de dia 25 bem passada frente à televisão.

Friday, 24 April 2026

Qjuintas no Quiosque: Os Dossiers de Imprensa Sobre o 25 de Abril

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 23 de Abril de 2026.


Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


No nosso último 'post', mencionámos a importância do 25 de Abril de 1974 para a História portuguesa moderna, e o esforço que, nos últimos anos do Segundo Milénio, se ia ainda fazendo para manter viva a memória de uma Revolução então ainda relativamente próxima, embora tal fosse difícil de perceber para uma geração que crescera já num País democrático, e que não conseguia assimilar o quanto o mesmo havia evoluído e mudado em apenas vinte anos. Não é, pois, de admirar que a data tivesse destaque considerável, também, na imprensa escrita, com vários dos principais jornais portugueses a dedicarem 'dossiers' especiais ao emblemático dia.


Um dos periódicos com que se podia contar neste aspecto era o Expresso, o qual – embora com periodicidade esporádica – não deixava de assinalar esta data, normalmente com um conjunto de artigos de opinião ou de âmbito mais literário, embora houvesse também espaço a uma ou outra notícia sobre as festividades daquele ano, por meio a informar quem estivesse interessado em as presenciar ao vivo. Na sua larga maioria, no entanto, estes 'dossiers' eram feitos de crónicas pessoais, quer a cargo de nomes directamente ligados à Revolução dos Cravos, quer apenas de figuras de monta da cena cultural ou política nacional, oferecendo ao público mais 'erudito' e intelectual do jornal material à altura das suas expectativas.


Outro 'dossier' de vulto no âmbito da imprensa nacional da época foi o lançado pelo Diário de Notícias há exactos vinte e cinco anos, e que reunia, num gigantesco arquivo ainda hoje disponível online, artigos desde os meses anteriores ao mesmo até ao então presente ano de 2001, oferecendo uma visão panorâmica dos acontecimentos imediatamente anteriores e posteriores à data, bem como das repercussões e impacto da mesma na opinião pública portuguesa em geral. Um acervo de consulta obrigatória para quem tem interesse neste marco da História de Portugal, e que continua a constituir a derradeira fonte para artigos noticiosos relativos ao mesmo.


Apesar de não terem, certamente, sido estes os dois únicos 'dossiers' sobre Abril na imprensa portuguesa da década de 90, são eles que ainda hoje perduram, permitindo aos leitores mais novos (e àqueles que não tinham idade suficiente à época de publicação para se lembrarem) ter uma ideia de como se desenrolava a cobertura mediática sobre a data, e o âmbito da mesma dentro do sector da imprensa escrita em Portugal, merecendo por isso mesmo uma menção em vésperas de mais uma comemoração do dia em que o povo português soube, mais uma vez, o que significava ser livre.

Thursday, 23 April 2026

Quartas de Quase Tudo: O 25 de Abril na Literatura Infantil Noventista

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 22 de Abril de 2026.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Dado o estatuto do 25 de Abril como uma das datas mais importantes de toda a História de Portugal – e certamente a mais importante da era moderna – não é de admirar que, meio século após o famoso dia da Revolução dos Cravos, a mesma continue a ser transmitida de geração em geração, quer através de meios oficiais (como os currículos escolares) quer de forma mais informal, através da tradição oral ou sob uma roupagem lúdica; e tendo em conta a então relativa proximidade do golpe militar em causa, e da mudança radical que representara para o País, tão-pouco é de admirar que a urgência em não esquecer tal evento fosse, à época, ainda maior do que nos dias de hoje. De facto, as celebrações dos vinte e vinte e cinco anos da data foram pretexto para uma redobrada produção cultural alusiva à mesma, com a década em causa a ver surgir, entre outros elementos, filmes, bandas desenhadas e diversos livros infantis sobre o tema. É dos mais famosos exemplos desta última categoria que trata o presente 'post'.


md30966027946.jpg


Efectivamente, foram vários os autores 'de nomeada' a aproveitar a 'deixa' para escrever textos relativos ao 25 de Abril, a maioria deles centrados no elemento de memória colectiva de que a data ainda hoje se rodeia. É o caso de 'Vinte e Cinco a Sete Vozes', da icónica Alice Vieira, que propõe precisamente isso – uma visão romanceada dos eventos daquele dia, através da voz (fictícia) de sete personagens, que, em discurso directo, relatam a uma estudante universitária as suas experiências na data em causa, com todos os recursos estilísticos por que o estilo da autora se tornou conhecido. Só por isso, este livro já valeria bem a pena para fãs de Alice Vieira; a importância e relevância do tema (a obra foi lançada aquando dos festejos do quarto de século da data) tornam-no obrigatório para quem queira saber mais sobre o dia mais importante para o Portugal moderno, mas de forma leve, agradável e apelativa.


o-25-de-abril-contados-c3a3c2a0s-crianc3a3c2a7as.p


Estes mesmos adjectivos podem, aliás, aplicar-se também a 'O 25 de Abril Contado Às Crianças...E Aos Outros', lançado praticamente ao mesmo tempo, e da autoria de outro nome marcante para as crianças e jovens da época – José Jorge Letria, músico e escritor que, nesta obra ilustrada em estilo 'naif', emprega um registo conversacional, quase como uma carta, para falar de forma simples mas poética sobre a Revolução dos Cravos. O resultado é um livro com mérito artístico mas, ao mesmo tempo, muito simples e nada aborrecido, que logra apelar ao gosto da sua demografia-alvo, tendo, sem surpresas, entrado no Plano Nacional de Leitura para os dois primeiros ciclos do Ensino Básico (como, aliás, sucede com os três livros aqui mencionados).


images.jfif


Também simples e directo sem deixar de ser poético (e curto o suficiente para não dissuadir o seu público-alvo) é 'O Tesouro', de Manuel António Pina. Muito mais declaradamente 'infantil' que qualquer dos outros livros mencionados nesta rubrica, trata-se de uma alegoria que, sem nunca mencionar situações específicas (pelo menos até ao último parágrafo), fala sobre o 'País das Pessoas Tristes', no qual se procura o titular 'Tesouro' – a liberdade – permitindo assim às crianças aprender sobre a data em causa mediante o uso da imaginação e da fantasia. As ilustrações semi-abstractas, em jeito de quadro, compõem um 'ramalhete' mais que apelativo, mesmo trinta e dois anos após a edição desta obra destinada a assinalar os vinte anos da Revolução.


É, pois, evidente que a última década do século XX viu serem lançados muitos e bons livros sobre o 25 de Abril destinados ao público mais jovem, e dos quais os três títulos aqui referidos são apenas uma amostra, embora significativa e duradoura, do nível literário que essa data inspirou entre os autores portugueses – um paradigma que, aliás, se continua a manter quase três décadas depois.

Tuesday, 21 April 2026

Terças Tecnológicas /Terças de TV: Adopte Um 'Dot'

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Há quem diga que tudo não passou de um embuste com ar 'oficial'. Há quem garanta ter obtido o efeito desejado, e que a tecnologia funcionava. Há até quem reclame ter ganho. Seja qual fôr o 'lado' da questão em que se fica, no entanto, uma coisa é certa: não há elemento das gerações 'X' e 'millennial' (ou mesmo da metade mais velha da geração 'Z') que não se lembre da lendária campanha 'Adopte Um Dot', uma das mais memoráveis e marcantes iniciativas da História da publicidade em Portugal – embora não inteiramente por razões positivas.


download.jfif


O gráfico oficial da campanha.


De facto, será talvez lícito dizer que as recordações da maioria dos portugueses sobre esta acção promocional incentivada pela SIC (em parceria com a BP, o McDonald's, o Modelo Continente, a Worten e a revista TVMais) serão negativas, já que poucas foram as ocasiões em que alguém verdadeiramente comprovou a eficácia da película fotossensível supostamente contida naqueles pequenos círculos (ou pontos – 'dots') que se colavam ao ecrã da televisão e que – alegadamente – conseguiam detectar o canal sintonizado, habilitando automaticamente o espectador a um sorteio caso o mesmo estivesse a assistir à transmissão da SIC e não mudasse de canal, mesmo durante os intervalos (um detalhe importante e que permitia à estação proteger-se em caso de queixas).


download (1).jfif


Um Dot do McDonald's.


Uma afirmação ousada, numa altura de fluxo tecnológico em que algo desse tipo parecia mirabolante e difícil de realizar – algo que se veio a comprovar quando o desempenho da suposta tecnologia provou ficar muito abaixo do desejável, tornando a campanha em causa mais num objecto de escárnio do que propriamente num marco do desenvolvimento tecnológico nacional – até porque há quem alegue ter feito 'autópsias' ao seu Dot e não ter encontrado quaisquer vestígios da sobredita tecnologia no seu interior, bem como relatos de espectadores premiados mesmo tendo mudado de canal durante um intervalo da emissão.


download (2).jfif


Um dos cupões que se enviavam juntamente com o Dot como forma de inscrição no sorteio.


Ainda assim, durante uma larga parcela do ano 2000, aqueles discos em forma de mascote sorridente – uma espécie de cruzamento entre um Glutão do Presto e o boneco do Multibanco, que nos 'spots' televisivos ganhava vida pela voz de José Carlos Malato, e que chegou a aparecer, sob a forma de 'actor dentro de um fato', no 'Programa da Maria' – lograram pôr grande parte de Portugal a colá-los ao ecrã da televisão, na esperança de ser considerado para um dos prémios supostamente em sorteio, que iam dos habituais valores monetários a automóveis, electrodomésticos, aparelhagens, 'scooters', viagens à Disneyland Paris e consolas várias, num acervo de fazer inveja a qualquer concurso televisivo. Quanto mais não seja por isso, esta campanha merece que sejam 'desconsiderados' quaisquer aspectos técnicos menos conseguidos, e que seja feita nota da sua existência, vinte e seis primaveras após o País ter, pela primeira vez, sido encorajado a adoptar um pequeno círculo de cartão com uma cara sorridente desenhada, o qual ainda hoje logra fazer parte da memória colectiva nacional.



Monday, 20 April 2026

Segundas de Sucessos: Vinte Anos de Uma Estreia 'Fadada' Ao Sucesso

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


O fado (esse estilo de música tão parecido com tantos outros 'lamentos' musicais ao redor do Mundo, mas ainda assim diferente de todos eles) tem sido, ao longo dos últimos séculos, um dos principais elementos da identidade nacional, a ponto de ser um dos identificadores imediatos da 'Portugalidade' junto dos turistas. E se Amália Rodrigues continua a ser a maior referência do estilo (sobretudo junto dos sobreditos turistas) as últimas décadas têm visto outros nomes almejar um lugar na lista de 'grandes' do fado, ao lado da eterna diva e de 'companheiros' como Carlos do Carmo, tendo mesmo alguns deles conseguido cruzar a 'fronteira' radiofónica, através do uso de elementos de fado em contextos mais comerciais, bastando neste caso recordar artistas como Madredeus, Dulce Pontes, ou a cantora que serve de tema a este 'post', Mariza.


Fadoemmim.jpg


Capa do álbum de estreia da cantora.


Com a sua ascendência luso-africana (a mãe é moçambicana, e a própria artista é natural de Lourenço Marques) e mistura de fado com estilos mais modernos, Mariza posicionava-se, desde logo, como uma espécie de 'Sara Tavares do fado' – e, como esta, viria a gozar de uma longa e decorada carreira, ainda hoje vigente, e que tinha o seu início 'oficial' há exactos vinte anos (a 21 de Abril de 2001) com o lançamento de 'Fado Em Mim', o primeiro registo de originais da cantora. Surgido quase dois anos após a revelação de Mariza ao mundo musical português, ao cantar num tributo póstumo a Amália Rodrigues transmitido em directo, o disco (inicialmente rejeitado por várias editoras dado tratar-se de uma artista inexperiente e desconhecida) viria a pulverizar quase de imediato quaisquer recordes vigentes de vendas para discos de fado, movendo mais de cem mil cópias na sua primeira semana, e eventualmente chegando às cento e quarenta mil após o seu lançamento internacional. Com a sua mistura de fado e outras sonoridades que a haviam influenciado – como a soul ou o jazz – Mariza mudava assim indelevelmente o panorama 'fadístico' nacional, revitalizando o estilo e abrindo caminho a sucessoras como Carminho.



Tal era o sucesso do disco, de facto, que o mesmo seria relançado logo no ano seguinte, numa edição especial acrescida de um disco gravado ao vivo (e que causa alguma confusão nos meios cibernéticos quanto ao ano de lançamento do disco), voltando a almejar grande sucesso tanto junto do público nacional como internacional. Seria, pois, sem surpresas que a carreira de Mariza continuaria 'de vento em popa' ao longo das duas décadas seguintes, tendo-se a artista conseguido afirmar e posicionar como uma das 'porta-vozes' não só do fado como da 'Portugalidade' em geral (foi, aliás, dela um dos temas oficiais de apoio à Selecção Portuguesa aquando de uma competição internacional), posição que retém até hoje, quase exactas duas décadas após uma das estreias mais retumbantes da História da música portuguesa.

Sunday, 19 April 2026

Domingos Divertidos: A 'Batalha' em Tabuleiro

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


i5738212538.webp


O jogo da batalha naval tem sido desde sempre, a par de outros jogos de 'papel e caneta', uma das grandes formas de as crianças e jovens (de todas as gerações) se 'entreterem' quando não há mais recursos à mão, ou quando convém passar despercebido, como no contexto das aulas. Ainda assim, o jogo em si afirma-se suficientemente competitivo e divertido para extrapolar esse tipo de ocasião, não sendo de admirar que existam não apenas uma, mas várias versões de tabuleiro do conceito – das quais, para quem era jovem em Portugal nos últimos anos do século XX, a mais conhecida será a da Majora.


Constituída por dois tabuleiros azuis – que simulavam o mar – uma série de barcos em tons cinza e um sem-número de pinos com os quais assinalar as coordenadas atingidas, o jogo desenrolava-se nem mais nem menos do que como uma versão a 'três dimensões' da tradicional 'batalha' em papel, sem a adição de quaisquer recursos electrónicos ou 'novidades' que os fabricantes se pudessem sentir tentados em incluir; pelo contrário, a Majora optou por não interferir com uma fórmula de sucesso, com resultados bastante favoráveis, já que o jogo, tal como era, funcionava bastante bem e ocupava na perfeição um Domingo Divertido em família.


Claro está que, hoje em dia, este conceito está mais do que desactualizado, e que qualquer jovem da geração 'Alfa' sem dúvida preferirá jogar à batalha naval contra a inteligência artificial de uma qualquer aplicação gratuita, não sendo necessário dispender dinheiro num jogo físico, nem sequer desenhar a grelha numa folha de papel; para quem recorda ter tido ou jogado a versão da Majora naqueles tempos já longínquos, no entanto, é bem provável que esta tenha ficado gravada, na sua mente, como a forma derradeira de travar a tradicional 'batalha' de coordenadas e tiros no porta-aviões...

Saturday, 18 April 2026

Sessão de Sexta / Saídas ao Sábado: Os Primórdios da Tecnologia IMAX em Portugal

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Sexta-feira, 17 de Abril de 2026.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Se, para muitas crianças (tanto de gerações passadas como da actual) a ida ao cinema é, já de si, uma experiência entusiasmante, imagine-se então se o filme for projectado num ecrã ainda maior, e com efeitos que fazem parecer que os personagens ou paisagens estão mesmo ali, ao alcance de um toque. É precisamente esta experiência que torna os cinemas IMAX tão especiais, e que fez com que os mesmos 'abananassem' os incautos jovens das gerações 'X' e 'millennial' aquando do seu aparecimento em Portugal, em finais dos anos 90.


gyptec_imax1.jpg


Uma das três salas IMAX actualmente existentes em Portugal.


O mais famoso destes ecrãs era, claro, o que integrava o Pavilhão do Conhecimento da Expo '98, e que era um dos elementos responsáveis pelas intermináveis filas à entrada do mesmo durante aquele memorável Verão; no entanto, ainda antes do advento da exposição, já outro espaço em Lisboa apresentava uma atracção IMAX – no caso, o Jardim Zoológico de Lisboa, cuja remodelação do espaço lúdico incluiu um cinema deste tipo, localizado na zona adjacente ao parque de diversões, logo à entrada das instalações. Assim, e apesar do preço algo proibitivo que o mesmo apresentava à época, esta terá mesmo sido a primeira experiência com filmes deste tipo para muitas crianças e jovens da capital e não só, para quem a coisa mais próxima daquela 'imersão total' até então haviam sido os simuladores virtuais electrónicos (os quais também aqui terão, paulatinamente, o seu espaço).


Curiosamente, e apesar dos desenvolvimentos tecnológicos das três décadas seguintes, a tecnologia IMAX não teve grande seguimento ou continuidade em Portugal; a Expo acabou, o cinema do Zoo fechou (e a sua instalação retirada) e não foram feitos quaisquer esforços para abrir espaços deste tipo, quer na capital, quer em outras zonas do País. Assim, contam-se hoje, em território nacional, apenas três salas com capacidade para mostrar filmes deste tipo, todas localizadas em 'multiplexes' inseridos em 'shoppings' – uma no Colombo, em Lisboa, outra no icónico CascaiShopping, e outra no MarShopping, em Matosinhos, no Porto. Para quem teve a sorte de ver aqueles primeiros espectáculos ou filmes em IMAX, no entanto, fica a memória de quando a referida tecnologia não só era menos corriqueira que hoje em dia, mas efectivaamente capaz de espantar e assombrar a quase totalidade da juventude nacional e mundial.


 

Friday, 17 April 2026

Quintas de Quinquilharia: Trinta Anos de Uma Colecção 'Super'...Esquecida

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 16 de Abril de 2026.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Já aqui anteriormente falámos de muitas das memoráveis colecções de autocolantes, cromos e outros brindes que o Bollycao veiculava durante os anos 90. De facto, aquilo que, para todos os efeitos era um pão com chocolate (e muitas vezes já ressequido) soube posicionar-se como uma das comidas favoritas dos 'millennials' portugueses apenas e só por via de sucessivas colecções de brindes, cada uma mais apelativa que a seguinte, e que marcaram época junto da geração em causa. A promoção de que falamos neste 'post' – lançada há cerca de trinta anos, algures em 1996 – talvez não faça parte desse lote, mas não deixa ainda assim de ter sido bem-sucedida e de ter tido todos os elementos necessários para um sucesso que, algo surpreendentemente, acabou por não ter.


1737397756.jpeg


Isto porque a colecção 'Supermarcas' apostava em algo que qualquer jovem da época achava perfeitamente irresistível – logotipos, dos quais havia um total de cinquenta e cinco, prontos a colar no respectivo poster 'A3' (ou, mais provavelmente, na capa de um caderno ou 'dossier', ou na porta do armário do quarto, como era hábito entre a demografia-alvo). De fabricantes de carros e aparelhos eletrónicos a produtos da própria Panrico (incluindo o Bollycao), passando por refrigerantes, consolas ou marcas de roupa, estas cinco dezenas e meia de cromos ofereciam um balanço equilibrado entre logotipos de companhias e produtos, todos os quais do agrado da juventude da época, e respeitantes a uma variedade de campos suficientemente abrangente para manter o interesse da referida demografia.


É, pois, algo surpreendente que 'As Supermarcas' não seja, hoje em dia, mencionada com tanta frequência ou saudosismo como as 'Janelas Mágicas' ou os míticos 'Tous', já que a promoção tinha um tema interessante e uma boa variedade e número de cromos para coleccionar, numa 'receita' muito semelhante à que fizera o sucesso daquelas e de outras colecções, não só do Bollycao como também de outros 'snacks' infantis. Resta, pois, 'resgatar' da semi-obscuridade esta promoção, e prestar-lhe a devida homenagem no ano em que se completam três décadas sobre o seu lançamento.

Thursday, 16 April 2026

Quartas aos Quadradinhos: Uma Aventura 'Às Direitas'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 15 de Abril de 2026.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui anteriormente apontámos os anos 90 como uma era áurea para a banda desenhada institucional em Portugal, com companhias como a Colgate e entidades como a EDP, o Instituto Português da Qualidade, o Jardim Zoológico de Lisboa ou o Montepio Geral a irem muito além do necessário nos seus esforços ludo-educacionais. Não eram, no entanto, apenas os organismos privados quem apostava neste meio de transmissão de informação; também alguns organismos estatais 'embarcaram na onda', criando volumes que, hoje, se posicionam como um misto de 'curiosidade do seu tempo' e 'relíquia semi-perdida' – uma descrição que se adequa perfeitamente à BD que serve de base a este 'post'.


202012231407.jpeg


Lançada algures nos anos 90 (já que, em 2001, se encontrava já na quarta edição) 'Uma Aventura no País dos Direitos' era uma edição da Segurança Social Portuguesa, destinada a informar o público-alvo sobre os seus próprios direitos. Para este efeito, era utilizado um estilo de arte 'naif', por vezes quase abstracta, outras vezes parecendo algo que se podia ver num azulejo, e outras ainda um desenho infantil, criando um efeito peculiar, único e razoavelmente apelativo para as crianças e jovens a quem o volume se destinava, e um estilo de prosa simples e directo, cuja criação ficava a cargo de Paula Guimarães (com a mononímica Mimi a encarregar-se dos desenhos).


O resultado é um volume que atinge plenamente os seus objectivos, e que – embora provavelmente não tenha estado na lista de releitura de ninguém, nem mesmo à época – se afirma como mais um excelente exemplo do nível a que se encontrava a BD institucional portuguesa durante o período em causa, e que pode ser descoberto – ou redescoberto – pelos mais curiosos neste link do Scribd. Uma leitura que se faz em poucos minutos, mas que vale bem a pena.

Wednesday, 15 April 2026

Terças Tecnológicas: Vinte e Cinco Anos de Três Jogos 'Preciosos'

NOTA: Este 'post' é correspondente a Terça-feira, 14 de Abril de 2026.


A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


pokemon-gsc.jpg


Já aqui anteriormente dedicámos espaço aos jogos da chamada 'primeira geração' de 'Pokémon', que - com a sua mistura de RPG com um elemento de coleccionismo - se revelaram um marco não só de vendas como a nível da sua penetração junto da demografia-alvo, gerando uma verdadeira 'torrente' de 'merchandising' e produtos relacionados, alusivos não só aos títulos para Game Boy como também – sobretudo – ao icónico 'anime' que servia de base à franquia, e que tornaria Pikachu num ícone cultural que rivalizava em importância com a eterna mascote da Nintendo, Mario (o qual, apesar do seu inegável e indiscutível estatuto, nunca logrou ver ser-lhe dedicada uma edição especial de uma consola, com a sua cara em relevo no frontispício.)


Face a todo este sucesso – que se estendia ainda a jogos que permitiam fotografar Pokémon ou organizar embates entre os mesmos em 3D – era praticamente inevitável que a Nintendo procurasse dar continuidade à sua nova 'galinha dos ovos de ouro' com uma sequela para os jogos originais; o que poucos esperavam, no entanto, era que a companhia de Shigeru Miyamoto adoptasse uma política de 'tabula rasa', criando títulos com uma história e personagens totalmente novos (ainda que ambientados no mesmo universo da 'geração' anterior) e com toda uma nova safra de pequenos monstros para capturar, adoptar e treinar, alguns dos quais haviam já sido 'apresentados' na segunda longa-metragem alusiva à série 'anime'. É a esses jogos, que acabam de celebrar vinte e cinco anos sobre o seu lançamento no mercado europeu, que dedicamos este 'post'.


E se 'Blue', 'Red' e mais tarde 'Yellow' estabeleceram as bases do que seriam os jogos de 'Pokémon' nas consolas portáteis, a verdade é que foi com a chamada 'segunda geração' que foram implementados muitos dos elementos popularizados em jogos posteriores – esta foi, por exemplo, a primeira 'geração' a ver serem lançados três jogos em simultâneo ('Gold', 'Silver' e o mais raro e apropriadamente intitulado 'Crystal'), e a primeira a cimentar a nomenclatura baseada em elementos fisicamente existentes (neste caso, metais preciosos). E ainda que estas convenções nem sempre se mantivessem consistentes ao longo das 'gerações' seguintes, é inegável que os mesmos constituem parte integrante e até icónica da identidade de 'Pokémon' enquanto franquia, outorgando assim a 'Gold' e 'Silver' o seu lugar na História não só da série, como da própria Nintendo.


Em termos de jogabilidade, no entanto, pouco ou nada se alterava em relação ao 'trio' original, mantendo-se os gráficos vistos de cima, em 2D (embora agora com uma palete básica de cores, potenciada pelas capacidades do Game Boy Color) e com estilo 'anime' e o balanço entre a captura de Pokémon, as batalhas com outros treinadores e a necessidade de superar desafios para progredir. O mundo era, igualmente, novamente vasto, com inúmeras áreas para explorar, pessoas com quem conversar, segredos para descobrir e até algumas surpresas, proporcionando uma experiência tão agradável e imergente como a veiculada pelos seus antecessores. Não admira, portanto, que 'os títulos desta segunda geração tenham sido tão bem-sucedidos como aqueles, embora com menor impacto cultural, dada a falta do 'factor novidade' e o facto de as 'caras' da franquia continurem a ser Ash e Pikachu, nas suas versões 'anime'.


Ainda assim, 'Pokémon Gold', 'Silver' e 'Crystal' não deixam de ser jogos icónicos e nada menos que lendários, com presença na cultura 'pop' e no panorama dos jogos 'retro' até aos dias que correm, e ainda capaz de render uns 'trocos' a quem os venda a uma qualquer loja em segunda mão; tudo razões mais do que válidas para lhes dedicarmos este 'post' comemorativo do seu quarto de século (ainda que com cerca de uma semana de atraso, já que o 'trio' foi lançado na Europa a 06 de Abril de 2001) tal como já havíamos feito com os seus igualmente marcantes antecessores.

Tuesday, 14 April 2026

Segundas de Séries: Trinta e Três Anos De Uma Novela Mais 'Real' Que A Média

NOTA: Este 'post' é correspondente a Segunda-feira, 13 de Abril de 2026.


Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Embora não se viesse a tornar uma indústria rentável até inícios do Novo Milénio, a produção nacional de telenovelas vinha já tendo, há algumas décadas, uma presença (ainda que discreta) nas grelhas televisivas nacionais; o advento dos novos canais privados (que permitiam triplicar a oferta diária no tocante a programação) vieram apenas exacerbar este fenómeno, não sendo de admirar que fosse na SIC e sobretudo na TVI que o género viesse a florescer. A RTP não era, no entanto, 'carta fora do baralho', mostrando-se perfeitamente capaz de produzir, com alguma regularidade, as suas próprias mini-séries e 'dramalhões' – como bem demonstra a telenovela estreada há quase exactos trinta e dois anos (a 12 de Abril de 1993), que partia de uma história real para criar um produto ficcionado de alguma qualidade.


Banqueira_do_Povo.png


Baseado na história verdadeira de D. Branca, a agiota que, na década anterior, montara um bem-sucedido 'esquema em pirâmide' à conta do Povo português, a novela em causa constituía o segundo esforço do género a ocupar o horário das sete da tarde na RTP1, após 'Cinzas', e viria a ficar no ar durante quase exactos seis meses, até 8 de Outubro, num total de cento e trinta episódios, ao longo dos quais se contava a história de D. Benta, interprtada por Eunice Muñoz e om óbvia inspiração na verdadeira 'banqueira do Povo'. É em torno desta 'sósia' de Branca dos Santos que se desenrolam os habituais 'dramas' característicos de novelas, com todos os amores e desamores que qualquer argumento do género não dispensa, entre personagens interpretados tanto pela 'nata' do meio à época (com destaque para Muñoz ou Raul Solnado, ambos 'estreantes' no meio das telenovelas) como por jovens actores então 'em alta', como Diogo Infante ou Alexandra Lencastre, também ela estreante dentro do género em causa; João Perry, São José Lapa, João d'Ávila, João Lagarto, Rogério Samora e Lídia Franco são outros dos nomes sonantes de um elenco 'de luxo' - como era, aliás, apanágio das produções da RTP.


Não é, portanto, de surpreender que este 'naipe' de actores ajudasse a garantir a qualidade daquilo que, em essência, era apenas 'mais uma' novela, embora com o diferencial de ser baseada em factos reais, característica em que foi pioneira no tocante a produções nacionais do género; quanto mais não seja por isso, no entanto, esta produção hoje algo esquecida merece ser relembrada, na semana em que se completam trinta e três anos sobre a transmissão do seu primeiro episódio.

Saturday, 11 April 2026

Sextas com Style/Sàbados aos Saltos/Domingo Desportivo: Netinho - As Chuteiras dos 'Craques' de Rua Noventistas

NOTA: Este 'post' é parcialmente correspondente a Sexta-feira, 10 de Abril e a Domingo, 12 de Abril de 2026.


NOTA; Por motivos logísticos, este Sábado será aos Saltos, voltando as Saídas no próximo fim-de-semana.


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Para a geração 'millennial' portuguesa, o nome Netinho tem duas conotações bem distintas. Por um lado, refere-se a um cantor brasileiro que logrou conseguir um 'hit' de Verão nos 'tops' lusitanos nos últimos anos do século XX; por outro, identifica uma marca de chuteiras cem por cento nacionais (fabricadas na zona de Fafe, no Norte do País) que muitos entusiastas do futebol de rua terão usado nos jogos entre amigos de então – uma espécie de alternativa especificamente especializada às também icónicas e ubíquas Sanjo.


download.jfif


Fundada por Francisco de Sousa, um empresário local que, ao longo de quase oito décadas de vida, foi sempre conhecido pelo termo carinhoso que a sua avó lhe dedicava, e com o qual baptizou também a marca, a Netinho especializava-se não só em chuteiras como em outros tipos de calçado específico, como botas de esqui ou sapatos para bicicleta, além de fabricar também bolas de futebol – tudo com a qualidade habitual dos sapatos portugueses e a preços convidativos, que, inevitavelmente, tornavam os seus produtos populares junto das demografias mais jovens, e presença assídua nas lojas de desporto independentes que, à época, dominavam o panorama nacional. Não era, pois, incomum ver, em 'pelados' e campos improvisados por esse País fora (e até no Norte de Espanha), um lampejo de vermelho na bota de um 'futuro craque', denotando aquele 'piton' propositadamente diferente que servia de identificativo da marca. E ainda que a globalização tenha vindo oferecer aos jovens futebolistas outras opções, muitas delas de marcas multinacionais conceituadas, grande parte dos portugueses das gerações 'X' e 'millennial' – sobretudo aqueles crescidos com menos meios – recordam ainda com nostalgia aquelas chuteiras 'manhosas', mas duráveis, com que 'fintavam' os amigos no campo ou ringue local durante um Sábado aos Saltos, em pequenos.


image_0.webp


Quanto à Netinho em si, continua a honrar o legado do seu fundador, sobretudo através dos filhos, ainda que agora com um âmbito mais abrangente, que inclui também calçado casual ou até de cortiça. Ainda assim, é bom saber que uma marca cem por cento nacional, e que marcou época entre os jovens do País, não só se mantém ainda activa como não foi 'engolida' por um qualquer grupo económico, mantendo a sua característica de companhia familiar, tal como o 'Netinho' original sem dúvida teria querido.

Friday, 10 April 2026

Quartas de Quase Tudo/Quintas ao Quilo: As Campanhas de Recolha de Comida - De Boas Intenções Estavam Os Anos 90 Cheios...

NOTA: Este 'post' é correspondente a Quarta-feira, 08 e Quinta-feira, 09 de Abril de 2025.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Os anos após a Guerra Colonial, e subsequente independência dos PALOP, trouxeram consigo as inevitáveis tensões políticas, e os conflitos que estas tendem a acarretar, deixando muitas populações africanas numa situação ainda pior do que aquela em que já se encontravam. Não é, pois, de admirar que, durante as últimas décadas do século XX, muitos países tenham redobrado os seus esforços humanitários especificamente direccionados àquele continente, não sendo Portugal excepção a esta regra.


images.jfif


No século XXI, estas campanhas voltaram a ser, sobretudo, da responsabilidade de organizações especializadas.


De facto, qualquer jovem frequentador dos primeiros anos do ensino básico durante o período em causa se lembrará de, pelo menos, uma recolha de alimentos secos para enviar para Angola ou Moçambique, para posteriormente ser doado a populações necessitadas. Normalmente levadas a cabo em parceria, ou por iniciativa, de uma organização humanitária ou da AMI, estas campanhas tinham o benefício adicional de contribuir para o sentido de cidadania, solidariedade e entreajuda das crianças que nelas participavam – conceitos que, nos anos 90, eram (se possível) ainda mais valorizados do que hoje em dia – sendo, por isso, acolhidas de braços abertos pelas escolas, e pelos respectivos alunos, que tinham nelas um foco externo às habituais disciplinas do currículo e, como tal, instantaneamente mais excitante e entusiasmante.


Infelizmente, conforme se viria a descobrir ao longo dos anos, estas campanhas nem sempre chegavam a bom porto, fosse devido a corrupção, problemas de alfândega, intervenção de grupos guerrilheiros, ou qualquer outra das 'milhentas' dificuldades logísticas enfrentadas diariamente por organizações humanitárias; não admira, pois, que, no século e Milénio seguintes, este tipo de iniciativa voltasse a estar centralizado naqueles organismos, e contasse com um volume de participação pública bastante menor do que anteriormente. Quem viveu aqueles anos, no entanto, certamente se recordará de levar para a escola um pacote de arroz e de o colocar no 'ponto de recolha', para posteriormente ser enviado para uma criança com fome do outro lado do Mar Mediterrâneo...

Wednesday, 8 April 2026

Terças de TV: Trinta Anos de Uma Cerimónia de 'Ouro'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 07 de Abril de 2026.


Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Apesar de ocuparem o 'terceiro lugar' do pódio da popularidade – atrás dos congéneres cinematográficos e musicais, respectivamente – os prémios anuais da indústria televisiva têm, também, uma longa e celebrada História, motivando galas anuais nos países que os atribuem, as quais tendem a reunir a 'nata' do meio naquela nação, à semelhança do que sucede com os Óscares ou Grammys. Portugal não é excepção à regra, e – apesar de bem mais recente do que os Emmys ou os BAFTAS – a sua versão deste tipo de cerimónia encontra-se 'entranhada' na cultura televisiva portuguesa desde a atribuição do primeiro dos seus galardões, há exactos trinta anos à data de publicação deste 'post'.


globos-de-ouro-860x484-1-800x445.jpg


Era, de facto, a 8 de Abril de 1996 que, pela primeira vez, era entregue um Globo de Ouro, numa cerimónia 'a rigor' levada a cabo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e transmitida ao vivo pela SIC, naquela que se havia de tornar uma tradição anual para o canal de Carnaxide. Elaborados em parceria com a revista 'Caras', e com um âmbito que se pretendia abrangente – além da televisão, são também premiadas figuras nacionais da área do desporto e da moda, além do Prémio de Mérito e Excelência, atribuído a nomes imortais e incontornáveis da sociedade nacional como um todo - os prémios em causa rapidamente se tornaram uma marca de reconhecimento equiparável aos supracitados congéneres estrangeiros - embora a grande atracção fosse,claro, a cerimónia, que reunía tanto celebridades como membros da imprensa generalista e especializada e que, durante os primeiros cinco anos do evento, teve sempre lugar na primeira semana de Abril, com apresentação de Catarina Furtado.


A partir de 2001, no entanto, a data dos Globos passou a oscilar entre Abril e Maio, até finalmente se fixar neste último mês, ao mesmo tempo que a 'batuta' (então rotativa entre vários apresentadores, com destaque para Herman José) passava para Bárbara Guimarães; nos seis últimos anos, no entanto (e após nova 'roda-viva' de apresentadores) a cerimónia passou em definitivo para o Outono, com a data de realização actual a oscilar entre Outubro e Novembro e a apresentação a cargo de Clara de Sousa. Qualquer que seja a data da sua realização, no entanto, este evento continua a formar parte integrante do ano televisivo português, e a atrair uma audiência cativa a cada nova gala – cada vez mais uma proeza nos dias que correm, e um bom indicador da importância, influência e apelo que os Globos de Ouro lograram atingir ao longo das suas exactas três décadas de existência. Esperemos, pois, que esta cerimónia se continue ainda a realizar, e a condecorar o melhor da televisão portuguesa dos doze meses anteriores, por muitos e bons anos.

Tuesday, 7 April 2026

Segundas de Sucessos: (Mais de) Trinta Anos de 'Taras'...

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 06 de Abril de 2026.


Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


tara-perdida-9746b9af-57d4-491d-9c0f-0a4e268ecf9-r


Apesar de a icónica cena pop-rock ser o que vem de imediato à mente de qualquer português que procure falar de música nacional nos últimos anos do Segundo Milénio, a verdade é que os movimentos artisticos lusitanos dentro do meio estavam longe de se ficar por aí – como, aliás, temos amplamente demonstrado ao longo dos já cinco anos de existência deste 'blog'. Da icónica música 'pimba' ao incipiente 'hip-hop' em português, passando por uma vasta gama de bandas e artistas no espectro do 'rock' alternativo mais 'underground', o que não faltava em Portugal entre os anos 80 e 2000 eram 'micro-cenas musicais' - algumas delas, inclusivamente, povoadas por um número suficiente de artistas para justificar a existência de sub-divisões dentro do movimento principal, fossem estas baseadas em localização, sonoridade ou, como no caso da banda que abordamos neste 'post', ambas.


Serve este preâmbulo para (re)introduzir no Anos 90 o movimento 'punk' emergente, a partir de final dos anos 80, no bairro lisboeta de Alvalade. De facto, seria daquela calma vizinhança (uma espécie de 'aldeia' no centro da cidade de Lisboa, sobretudo à época) que viriam a surgir grande parte dos principais grupos de 'punk rock' cantado em português, com uma influência que se estendia, inclusivamente, aos lendários Xutos & Pontapés e ao não menos lendário Johnny Guitar. Como 'porta-estandartes' deste movimento surgiam, numa primeira fase, duas bandas: Peste & Sida e Censurados, aos quais já aqui dedicámos espaço. E se os primeiros se metamorfoseariam eventualmente nos paródicos Peste & Sida, apostando num som mais voltado ao 'ska', a 'implosão' dos segundos daria origem a uma banda tão ou mais famosa e icónica dentro do 'punk' português, que pode, por estes dias, ser vista em palco no Festival Lisboa ao Vivo.


Falamos, claro, dos Tara Perdida, mais conhecidos como 'a banda de João Ribas após os Censurados', mas cujo legado ultrapassa já largamente o daquela banda. De facto, a banda acaba de celebrar, no ano transacto, trinta anos ininterruptos de carreira (por comparação aos apenas seis de existência da banda original de Ribas), a que nem a trágica morte do referido vocalista, em 2014, conseguiu pôr fim. Já este ano marca as exactas três décadas do primeiro registo, auto-intitulado, e que desde logo estabelecia as bases da sonoridade da banda, uma versão (ligeiramente) mais elaborada da 'fúria' dos Censurados, que debitava cerca de dezena e meia de temas de puro 'punk rock' melódico cantado em Português em menos de 40 minutos, entre eles o clássico 'Isto Não Vai Melhorar'. O segundo álbum, dois anos depois, seguia a mesma linha, e demonstrava o sentido de humor único de Ribas e seus restantes companheiros, ao contar com uma versão de 'La Bamba', a popular música latina lançada décadas antes.



Desde então até agora, foram mais sete os álbuns de originais lançados, sempre sem comprometer o som da banda – pelo menos se descontarmos o registo acústico e ao vivo 'Metamorfose', que completa a discografia de longa-duração da banda. Pelo meio, há a registar a trágica morte de Ribas e a sua substituição por Tiago Afonso, até hoje a única mudança de formação da banda (e por motivos de força maior) mostrando a amizade e camaradagem que são, também elas, apanágio da cena 'punk' nacional. Esperemos, pois, que o grupo não encontre tão depressa a 'Tara Perdida', e que continue a animar e inflamar palcos de Norte a Sul do País com pura atitude 'punk' por ainda muitos e bons anos...

Friday, 3 April 2026

Thursday, 2 April 2026

Quintas no Quiosque: O Apogeu da Imprensa 'Heavy' em Portugal

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Já aqui anteriormente falámos das pioneiras da imprensa musical centrada no som mais 'pesado', primeiro a Rock Power e, anos depois, a Riff; no entanto, apesar da qualidade e dedicação evidente presentes em ambas as revistas, o apogeu deste tipo de publicação em Portugal surgiria apenas já no primeiro Verão do Novo Milénio. Tratava-se da revista Loud!, até hoje a referência por excelência para os 'metaleiros' nacionais, mesmo depois da sua passagem a um formato estritamente digital.


image.webp


O primeiro número da revista datava de Julho de 2000, e trazia na capa os icónicos Iron Maiden.


Fundada por José Rodrigues e António Freitas (à época também da redacção da Riff e colaborador do Curto Circuito, e ainda um dos principais nomes deste 'nicho' de imprensa em Portugal) a nova publicação surgia nas bancas em Julho de 2000, e posicionava-se, desde logo, como uma versão (bastante) 'melhorada' da Riff. Do grafismo aos textos e, especialmente, às críticas a discos, tudo era feito de forma muito mais profissional do que na antecessora e agora rival, não podendo por isso deixar de atrair a atenção de um público-alvo sedento de conteúdo verdadeiramente sério sobre um estilo, à época, muito mais marginal e periférico do que o é hoje em dia (tendo a Loud! sido, precisamente, um dos catalistas por trás da maior aceitação e globalização do estilo em Portugal).


Não é, pois, de admirar que, após a extinção da Riff, a Loud! se tenha imposto como 'monopolista' da imprensa de música pesada em Portugal, título que ainda hoje ocupa, mais de vinte e seis anos após a sua fundação. Tão-pouco é surpreendente que, a partir do formato básico e comum a qualquer revista especializada (com notícias, classificados, reportagens, entrevistas, críticas a discos e concertos e cartas dos leitores) tenham surgido outras 'ramificações', como colunas de opinião (uma delas assinada por Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell e grande ícone do metal português) e até páginas de banda desenhada, sempre com a qualidade a que os leitores da revista já se haviam habituado.


Infelizmente, tal como sucedeu a tantas outras publicações nacionais (tanto especializadas como generalistas) também a Loud! sucumbiu à infeliz conjugação da obsolescência da imprensa escrita e das novas e súbitas restrições pandémicas, tendo a revista física deixado de ir às bancas algures no início da presente década. Ainda assim, mais de vinte anos após o seu surgimento nas bancas portuguesas, a revista continuava a providenciar a toda uma geração que com ela crescera a mais fidedigna informação sobre o rock pesado e metal em Portugal, sendo inclusivamente possível, durante os anos pandémicos, mandar vir para casa um exemplar físico, de forma totalmente gratuita. E ainda que esse tenha sido o 'último suspiro' da revista enquanto publicação física, quem quiser manter-se a par do que se passa no mundo da música 'hard' e 'heavy' pode ainda hoje fazê-lo através do 'site' da revista, que continua a manter vivo um organismo cuja esperança de vida à 'nascença' era limitada, mas que logrou já ultrapassar o quarto de século de existência - um feito notável para qualquer revista especializada, mas ainda mais para uma publicação sobre um género musical periférico e, muitas vezes, ainda demonizado pela cultura popular 'mainstream', editada num país como Portugal.

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...