Showing posts with label livros. Show all posts
Showing posts with label livros. Show all posts

Wednesday, 29 April 2026

Quartas aos Quadradinhos: A Edição Portuguesa De Um 'Flop' Universal

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de relativamente próxima de dois grandes mercados exportadores de banda desenhada – o franco-belga e o espanhol – a Itália é mais conhecida entre os bedéfilos como o 'berço' da maioria das histórias da 'era moderna' das revistas Disney, sendo poucos os produtos verdadeiramente endémicos e locais a lograr extravasar os confins da 'bota do Atlântico'; Milo Manara é uma excepção óbvia, tal como o herói de 'western spaghetti' desenhados, Tex, mas após este início prometedor, a influência da Itália no mercado dos 'quadradinhos' esvai-se consideravelmente. Ainda assim, não é decerto à falta de tentativas que se deve este paradigma, já que o país em causa procura, periodicamente, lançar mais uma das suas séries 'clássicas' no mercado internacional, com resultados, invariavelmente, intermitentes; é de uma dessas tentativas que falamos neste 'post'. 

                   1.jpg2.jpg3.jpg4.jpg5.jpg

As capas dos únicos álbuns planeados para edição em Portugal, dos quais o quinto nunca chegou a ver a luz do dia.

Criada ainda em finais dos anos 60 e imediatamente popular no seu país de origem, foi com naturalidade que a série 'Alan Ford', da autoria de Luciano Secchi e Rodrigo Raviola (que, como é apanágio dos artistas italianos, adoptavam pseudónimos 'anglicizados', respectivamente Max Bunker e Magnus) rapidamente se expandiu a alguns dos mercados adjacentes, incluindo o português; no entanto, a lentidão do processo de exportação que caracterizava o período em causa faria com que as aventuras do titular espião demorassem quase um quarto de século (!) a chegar a Portugal, onde apenas viriam a ser editadas em inícios de 1993, pela modesta Editorial Palmeira. E a verdade é que – talvez por causa desta demora, ou talvez por qualquer outro motivo – a série viria a falhar no mercado luso como falhara em todos os restantes, com excepção do jugoslavo, onde atingiu um nível de popularidade igual ou maior do que aquele de que gozava em Itália.

As margens do Mediterrâneo e do Atlântico eram, no entanto, bastante mais inclementes para 'Alan Ford' que as do Mar Báltico, sendo que a tentativa portuguesa de publicar a série se ficou pelos quatro volumes, com um quinto a não passar da fase de planeamento. Assim, os (poucos) leitores portugueses que tomariam contacto com a série apenas poderiam desfrutar das aventuras 'O Naufrágio do Daisy Lou', 'Terrorismo', 'O Menino Prodígio' e 'O Código Graffitt', uma minúscula amostra de uma banda desenhada que ainda hoje continua a ser editada em Itália, mais de sessenta e cinco anos após a sua criação - como termo de referência, seria como se em Portugal apenas tivessem sido editados os primeiros quatro álbuns de Astérix!

Os motivos para este total falhanço de Alan Ford em mercados estrangeiros (também durou pouco por terras francesas, brasileiras, dinamarquesas e sérvias, por exemplo) não são totalmente claros, já que a premissa da série é relativamente universal, e normalmente apreciada (uma sátira ao género da espionagem, semelhante ao que Mike Myers fez em 'Austin Powers', embora menos abertamente paródica); seja qual for a razão, no entanto, a verdade é que também em Portugal esta colecção não logrou singrar, sendo o único vestígio da sua existência uma ficha no essencial 'site' Bazar0. Jóia a descobrir ou mediocridade digna de esquecimento? Cabe a cada leitor decidir...

Thursday, 23 April 2026

Quartas de Quase Tudo: O 25 de Abril na Literatura Infantil Noventista

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 22 de Abril de 2026.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Dado o estatuto do 25 de Abril como uma das datas mais importantes de toda a História de Portugal – e certamente a mais importante da era moderna – não é de admirar que, meio século após o famoso dia da Revolução dos Cravos, a mesma continue a ser transmitida de geração em geração, quer através de meios oficiais (como os currículos escolares) quer de forma mais informal, através da tradição oral ou sob uma roupagem lúdica; e tendo em conta a então relativa proximidade do golpe militar em causa, e da mudança radical que representara para o País, tão-pouco é de admirar que a urgência em não esquecer tal evento fosse, à época, ainda maior do que nos dias de hoje. De facto, as celebrações dos vinte e vinte e cinco anos da data foram pretexto para uma redobrada produção cultural alusiva à mesma, com a década em causa a ver surgir, entre outros elementos, filmes, bandas desenhadas e diversos livros infantis sobre o tema. É dos mais famosos exemplos desta última categoria que trata o presente 'post'.


md30966027946.jpg


Efectivamente, foram vários os autores 'de nomeada' a aproveitar a 'deixa' para escrever textos relativos ao 25 de Abril, a maioria deles centrados no elemento de memória colectiva de que a data ainda hoje se rodeia. É o caso de 'Vinte e Cinco a Sete Vozes', da icónica Alice Vieira, que propõe precisamente isso – uma visão romanceada dos eventos daquele dia, através da voz (fictícia) de sete personagens, que, em discurso directo, relatam a uma estudante universitária as suas experiências na data em causa, com todos os recursos estilísticos por que o estilo da autora se tornou conhecido. Só por isso, este livro já valeria bem a pena para fãs de Alice Vieira; a importância e relevância do tema (a obra foi lançada aquando dos festejos do quarto de século da data) tornam-no obrigatório para quem queira saber mais sobre o dia mais importante para o Portugal moderno, mas de forma leve, agradável e apelativa.


o-25-de-abril-contados-c3a3c2a0s-crianc3a3c2a7as.p


Estes mesmos adjectivos podem, aliás, aplicar-se também a 'O 25 de Abril Contado Às Crianças...E Aos Outros', lançado praticamente ao mesmo tempo, e da autoria de outro nome marcante para as crianças e jovens da época – José Jorge Letria, músico e escritor que, nesta obra ilustrada em estilo 'naif', emprega um registo conversacional, quase como uma carta, para falar de forma simples mas poética sobre a Revolução dos Cravos. O resultado é um livro com mérito artístico mas, ao mesmo tempo, muito simples e nada aborrecido, que logra apelar ao gosto da sua demografia-alvo, tendo, sem surpresas, entrado no Plano Nacional de Leitura para os dois primeiros ciclos do Ensino Básico (como, aliás, sucede com os três livros aqui mencionados).


images.jfif


Também simples e directo sem deixar de ser poético (e curto o suficiente para não dissuadir o seu público-alvo) é 'O Tesouro', de Manuel António Pina. Muito mais declaradamente 'infantil' que qualquer dos outros livros mencionados nesta rubrica, trata-se de uma alegoria que, sem nunca mencionar situações específicas (pelo menos até ao último parágrafo), fala sobre o 'País das Pessoas Tristes', no qual se procura o titular 'Tesouro' – a liberdade – permitindo assim às crianças aprender sobre a data em causa mediante o uso da imaginação e da fantasia. As ilustrações semi-abstractas, em jeito de quadro, compõem um 'ramalhete' mais que apelativo, mesmo trinta e dois anos após a edição desta obra destinada a assinalar os vinte anos da Revolução.


É, pois, evidente que a última década do século XX viu serem lançados muitos e bons livros sobre o 25 de Abril destinados ao público mais jovem, e dos quais os três títulos aqui referidos são apenas uma amostra, embora significativa e duradoura, do nível literário que essa data inspirou entre os autores portugueses – um paradigma que, aliás, se continua a manter quase três décadas depois.

Wednesday, 28 January 2026

Quartas de Quase Tudo: 'Irmãos Castanheira' - Uma Boa Premissa Num Mercado Saturado

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Há já muito tempo, quando esta rubrica e este 'blog' eram ainda relativamente novos, falámos de alguns dos mais marcantes livros e autores nacionais do período englobado pelo mesmo, ou seja, a infância e adolescência das gerações 'X' e 'millennial'. No entanto, apesar de as referidas listas serem relativamente compreensivas, acabaram inevitavelmente por ficar de fora alguns nomes e volumes menos 'imediatos' e emblemáticos da literatura infantil da altura, alguns deles, inclusivamente, bem conhecidos no campo das obras literárias para 'mais crescidos'. É de um desses nomes, recentemente falecido, e da respectiva colecção infantil que falamos neste 'post', sugerido pelo nosso leitor assíduo e 'quase-colaborador' Pedro Serra.


                            22027125._SY180_.jpg images (1).jfifimages.jfifimages (2).jfif


Os quatro volumes da colecção, por ordem de edição.


Falamos da também jornalista Clara Pinto Correia, falecida há cerca de seis semanas (em inícios de Dezembro) e que, há cerca de trinta e cinco anos (algures no ano de 1991), tentava a sua sorte no campo das colecções para crianças, com os quatro volumes das aventuras dos 'Irmãos Castanheira', um rapaz e uma rapariga que 'não são irmãos, mas parecem', já que partilham o mesmo nome (José e Maria José, ou o Zé e a Zé), apelido, prédio de residência, turma da escola e até equipa de remo – isto além de dois dos seus progenitores serem sócios de um negócio local, no caso um salão de beleza baptizado em honra dos protagonistas. A outra característica que ambos partilham é, claro, a propensão para 'tropeçar' em mistérios ao bom estilo 'Uma Aventura'/'Clube das Chaves', que formam a trama de 'Quem Tem Medo Compra Um Cão', 'A Canção dos Dinossauros', 'A Minha Alma Está Parva' e 'A Mulher Gorda'.


Uma premissa que, apesar de interessante, bem escrita, e com detalhes e personagens secundários cativantes (como a banda de música cabo-verdiana com o impagável e fabuloso nome de Dinhero Ca Tem, ou 'Não Há Dinheiro') travava uma batalha forçosamente desigual contra as grandes colecções da época (elencadas acima e a que há ainda a juntar 'Viagens No Tempo' e os clássicos de Enid Blyton, entre outros exemplos) bem como contra as obras de escritores como Alice Vieira, já mais estabelecidos junto do público-alvo. Assim, não é de admirar que a série de Pinto-Correia se tenha ficado pelos quatro volumes, os quais são (ou foram) ainda assim uma opção válida para quem já tenha lido tudo o resto que a literatura infantil portuguesa da época tivesse para oferecer. Quanto a Pinto-Correia, as suas contribuições para o jornalismo, literatura e educação nacionais encontram-se bem documentadas,e a sua morte, com apenas sessenta e cinco anos, representa uma perda de vulto para a cultura portuguesa. Que descanse em paz.

Friday, 11 July 2025

Quartas de Quase Tudo: 'Ensaio Sobre A Cegueira' - Trinta Anos de Um Clássico Moderno

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 9 de Julho de 2025.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


No tocante a autores de vulto da literatura portuguesa contemporânea, o nome de José Saramago é incontornável. Embora pouco consensual, o malogrado escritor continua a ser um dos primeiros em quem se pensa quando o assunto são obras literárias criadas em Portugal, e mesmo quem não é apreciador é obrigado a reconhecer não só o talento como a importância de Saramago para o desenvolvimento da ficção em 'Português europeu'. E um dos principais livros de que imediatamente se fala ao trazer à baila o autor – que teve, inclusivamente, direito a adaptação cinematográfica 'Hollywoodesca', com Julianne Moore – é a obra que completa, este ano, trinta anos de existência: 'Ensaio Sobre A Cegueira'.


download.jpeg


Capa da edição original da obra.


Tão sinónimo com o escritor português como o histórico 'Memorial do Convento', 'Ensaio Sobre A Cegueira' prova que a evolução da prosa de ficção, e dos gostos de quem a lê, pouco ou nenhum efeito tiveram sobre Saramago, que aplica nesta obra de 1995 o mesmo exacto estilo estabelecido nas suas primeiras criações, mais de três décadas antes, e que se tornou algo 'memético' entre os leitores portugueses; estão aqui as longas frases com excesso de vírgulas, as interpelações em discurso directo violadoras das leis gramaticais, e todos os restantes recursos estilísticos que se tornaram quase indistinguíveis da escrita do autor.


É, pois, necessário ultrapassar esta primeira 'barreira' para que se consiga, verdadeiramente, apreciar a trama da obra, uma variação sobre o tema da epidemia pós-apocalíptica (que hoje seria, talvez, chamada de pandemia) neste caso com efeito sobre a visão humana, conforme explicitado no título da obra. Pretexto para Saramago explorar as formas como as suas diversas personagens – todas identificadas, não por nome, mas por características distintivas ou posição social – lidam com a recém-adquirida deficiência, e como esta os afecta psicologicamente. Um conceito bastante interessante, e que se prestou muito bem à filmagem por Fernando Meirelles (de 'Cidade de Deus'), que permitiu que a história se sobrepusesse à linguagem escrita de Saramago.


download (1).jpeg


Cartaz do filme de 2008.


Foi, pois, com justiça que 'Ensaio Sobre A Cegueira' adquiriu, quase desde logo, estatuto de 'clássico moderno' da literatura portuguesa, não só por virtude de quem assinava a obra, mas também pela qualidade da trama e da escrita da mesma. Não podíamos, pois, deixar de lhe dedicar algumas linhas neste nosso 'blog', no ano em que se celebra o seu trigésimo aniversário.

Wednesday, 11 June 2025

Quartas de Quase Tudo: O Prémio de Literatura Infantil Adolfo Simões Muller - Uma Aposta (Infelizmente) Falhada

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


A literatura infantil atravessava, em finais dos anos 80 e inícios dos 90, um dos seus períodos áureos, com séries como 'Uma Aventura' ou 'O Clube das Chaves' e autores como Alice Vieira a fazerem as delícias dos mais jovens. Não é, pois, de admirar que esse período tenha, também, visto surgir no mercado muitos novos escritores de contos para crianças, ansiosos por se mostrar ao público-alvo. E essa tarefa viria a ficar facilitada quando, logo nos primeiros meses da última década do século e Milénio, a Editorial Verbo lançava um prémio literário para, simultaneamente, divulgar autores principiantes e homenagear um icónico nome do meio, falecido pouco antes, em 1989.


download.jpeg


O livro vencedor da primeira edição do Prémio.


Apesar das boas intenções, no entanto, o Prémio Adolfo Simões Muller (ou, pelo menos, a primeira configuração do mesmo) apenas viria a ter quatro edições - ou, pelo menos, assim rezam os registos actualmente disponíveis. As três primeiras teriam lugar em anos consecutivos – 1991, 1992 e 1993 – e a quarta já no dealbar do Novo Milénio, e uma década após a criação do Prémio. Nessa última selecção, o livro vencedor terá sido Rubens e a Companhia do Espanto em O Caso da Mitra Desaparecida de António Garcia Barreto, enquanto que nos outros anos os vencedores foram Ana Maria Meireles, com 'O Mistério dos Cães Desaparecidos' (em 1991), Luís da Silva Pereira com 'A História de Davidim' (em 1992) e 'Este Pinhal Tão Verde' de Graça Matos de Sousa (em 1993, ano em que pela primeira vez se atribuíram menções honrosas, no caso duas, a 'Três Semanas Com a Avó' de Ana Saldanha e 'A Vida É Uma Grande Ideia' de Carla Oliveira.) Estes livros foram, posteriormente, editados pela própria Verbo sob o cabeçalho 'Grande Prémio'.


Como se pode ver pelo elenco de nomes no parágrafo anterior, este prémio não logrou concretizar o seu objectivo de lançar novos nomes no panorama da escrita infantil em Portugal, sendo Garcia Barreto o único nome conhecido da lista, e já 'famoso' antes de vencer a distinção em causa. Assim, não é de admirar que a Verbo tenha rapidamente desistido da iniciativa – tendo, no entanto, o nome da mesma sido adoptado por um prémio literário muito semelhante atribuído pela Câmara Municipal de Sintra. É através deste que o nome e legado de Adolfo Simões Muller sobrevivem hoje em dia, tendo a primeira tentativa 'falhada' caído no esquecimento...isto é, até termos, com as linhas anteriores, reavivado a memória dos jovens leitores da época, os quais poderão, inclusivamente, ter memórias nostálgicas quanto a algum dos livros premiados durante a efémera vida do prémio da Verbo. Fica a eles dedicada esta breve recordação.

Friday, 21 February 2025

Quartas de Quase Tudo/Quintas no Quiosque: Os Livros de Autocolantes - Um Passatempo Verdadeiramente Intemporal

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 19 e Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2025.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Podiam vir da livraria ou da tabacaria ou quiosque, e ser mais focados em conteúdos educacionais ou oferecer um pouco mais de diversão pura e dura; em qualquer dos casos, constituíam um ponto alto no dia de qualquer criança, sendo capazes de proporcionar várias horas divertidas após um dia de escola, ou mesmo durante um fim-de-semana. Falamos, claro está, dos livros com autocolantes, uma daquelas diversões intemporais e transversais a, pelo menos, as últimas três gerações, da qual falaremos em mais um 'post' duplo no Anos 90.


1540-1.jpg


Exemplo moderno do conceito em causa.


Diferentes das tradicionais cadernetas de cromos por não fomentarem o aspecto social ou coleccionista (sendo, na maioria dos casos, auto-contidos) estes livros funcionavam, no entanto, num contexto algo semelhante, oferecendo aos jovens leitores cenários e temas sobre os quais aplicar os autocolantes fornecidos em conjunto com o livro, os quais diziam, por sua vez, respeito a esse tema. Assim, um livro sobre animais teria provavelmente como fundo de página um cenário natural ou um jardim zoológico sobre os quais colar os autocolantes de 'bicharada', outro sobre viagens poderia ter estradas, portos ou aeroportos nos quais colocar carros, barcos ou aviões, ou focar-se em destinos como a praia ou o campo, cada qual com o seu grupo de autocolantes decorativos. As crianças eram, assim, incentivadas a relacionar elementos entre si de modo a que fizessem sentido, dando à experiência um aspecto didáctico que complementava a diversão inerente a um destes tomos – afinal, qual é a criança que não gosta de aplicar autocolantes aos mais diversos sítios?


Talvez por este misto de simplicidade, didatismo e apelo directo aos gostos do público-alvo, os livros com autocolantes mantêm-se 'em alta' entre as camadas mais jovens da população até aos dias de hoje, sendo ainda relativamente fáceis de encontrar nos mesmos meios que os vendiam algures há três décadas – um paradigma que, ao contrário da maioria dos que aqui vimos relembrando, não se prevê que mude num futuro próximo. Afinal, por muito avançado que seja no momento presente, o meio digital não é, ainda, capaz de reproduzir a sensação única de destacar um autocolante da respectiva folha e, com ele, 'embelezar' o cenário proposto na página, e que já há vários minutos vem 'puxando' pela imaginação...

Thursday, 12 December 2024

Quartas de Quase Tudo (de Natal): 'O Meu Primeiro Livro de Natal' - Um Volume Festivo, Educativo e Decorativo

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


A época natalícia é, já de si, farta em momentos e motivos de entusiasmo para os mais pequenos, seja em Portugal ou em qualquer outra parte do Mundo ocidental; entre escolher e decorar a árvore, ir ver as iluminações com a família, abrir diariamente uma das portinholas do Calendário do Advento, marcar no catálogo de Natal os presentes pretendidos (ou, nos dias que correm, escolhê-los na Amazon), escrever a carta ao Pai Natal (e visitá-lo no hipermercado). ver pela centésima vez o 'Sozinho em Casa' e fazer as compras necessárias para a ceia – e isto ainda sem contar com quaisquer potenciais festas da escola ou do trabalho dos pais – o mês de Dezembro afirma-se como um dos mais excitantes (a par dos meses de Verão) para as demografias mais novas. É, pois, de questionar se um livro cujos conteúdos consistem apenas e só de (ainda mais) actividades natalícias se afigura como uma boa ideia; no entanto, foi isso mesmo que a Editora Civilização decidiu lançar, em plena Primavera (o livro saiu em Abril!) de há exactos trinta anos, permitindo aos interessados começar a preparar com absurda antecedência o advento de 1994.


download.jpeg


Da autoria de Angela Wilkes, e parte de uma colecção mais alargada que incluía também volumes sobre cozinha e matemática, entre outros, “O Meu Primeiro Livro de Natal” sugere, no subtítulo, “actividades divertidas para fazeres no Natal”, a maioria das quais centradas nos trabalhos manuais, uma maneira simples, singela e divertida de criar bons momentos em família naquela que é a época dedicada, por excelência, à mesma. Da criação dos habituais enfeites típicos da quadra a actividades algo mais originais, são páginas atrás de páginas de actividades que terão, certamente, feito as delícias das crianças das gerações 'X' e 'millennial' com mais apetência para a criação de objectos decorativos. Assim, até por este volume se encontrar, hoje em dia, algo 'Esquecido Pela Net' – sobrevivendo apenas a capa e o nome da autora – não poderíamos deixar de lhe dedicar algumas linhas nesta nossa rubrica mais 'generalista', como forma de assinalar os trinta Natais desde a sua publicação, naquele que era um País significativamente diferente, mas de tradições natalícias praticamente idênticas às dos dias que correm.

Thursday, 28 November 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Livros de Miffy/Fifi, Uma Colecção Verdadeiramente Intemporal

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 27 de Novembro de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Muitas obras literárias são geracionais, mas pouco dizem às 'fornadas' subsequentes; outras, no entanto, afirmam-se como verdadeiramente intemporais, logrando entreter, encantar e apaixonar várias gerações de crianças e jovens ao longo de décadas, sem nunca perder a popularidade de que gozou originalmente. É de uma dessas séries que falamos neste 'post' – concretamente, da colecção de livros infantis ilustrados de Dick Bruna, alusivos às aventuras da coelhinha Fifi, hoje conhecida pelo nome original, Miffy.


1540-1.jpg


Edição moderna de um dos livros da colecção.


Reunindo todos os predicados de um bom livro infantil – histórias quotidianas e intemporais, com lições de moral simples mas importantes, e relatadas de um modo simples, directo e apelativo, apoiado em desenhos estilizados mas repletos de personalidade – a série de livros protagonizados pela coelhinha branca surgiu pela primeira vez nos escaparates portugueses ainda nos anos 80 para, à semelhança do que aconteceu com os livros de Enid Blyton ou as aventuras de Anita, nunca mais os abandonar.


De facto, tal como sucede com a rapariguinha francesa, também a coelhita norte-americana pode, ainda hoje, ser encontrada na maioria das boas livrarias de Norte a Sul de Portugal, em edições praticamente idênticas às lidas e apreciadas pelos membros das Gerações 'X' e 'Alfa', só diferindo mesmo o facto de a protagonista ter 'recuperado' o seu nome original. Significa isso que a qualidade que as referidas ex-crianças (hoje na casa dos trinta a quarenta anos) recordam da sua infância permanece intacta, pronta a ser apresentada a uma nova 'leva' de crianças em idade de alfabetização, e de tornar a coelhinha protagonista (seja sob que nome for) parte das futuras memórias nostálgicas da mesma, tal como o foi para os seus pais.

Thursday, 14 November 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Livros Didácticos da Terramar - O Expoente Máximo do Seu Género

NOTA: Este post é respeitante a Quarta-feira, 13 de Novembro de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


images (1).jpeg


Na última edição desta mesma rubrica, abordámos os 'Atlas' didácticos da Editora Civilização, por direito próprio alguns dos melhores livros didácticos da sua época. No entanto, havia pelo menos uma editora cujo catálogo neste particular rivalizava, senão mesmo superava, até o melhor destes volumes: a Terramar, cujos livros científicos para crianças marcaram época junto da parcela do público infanto-juvenil que gostava de aprender e alargar conhecimentos sobre temas do seu interesse.


Versando sobre todos os temas do costume, como dinossauros ou o espaço, bem como sobre alguns menos comuns ou mais inusitados, estes livros – cujo único ponto em comum era o formato, semelhante ao de um álbum de BD da mesma época – possuíam, invariavelmente, um ou mais pontos de interesse para a demografia-alvo, para além do próprio tema em si. Fossem ilustrações que poderiam figurar numa tirinha de banda desenhada ou actividades interactivas na própria página (como 'janelas' que podiam ser abertas ou rodas que se podiam mesmo rodar), os volumes científicos da Terramar mostravam-se apelativos logo a partir do momento em que eram abertos, conseguindo assim prender o interesse do famosamente volátil grupo a que se destinavam, e justificando várias releituras, quanto mais não fosse para poder novamente 'brincar' com a roda do Sistema Solar ou descobrir o que se escondia por detrás das 'portinholas' cortadas na página.


Infelizmente, apesar da qualidade que demonstravam, estes livros encontram-se, hoje em dia, algo Esquecidos Pela Net, sendo praticamente impossível encontrar imagens dos mesmos sem estar 'armado' com o título ou autor específicos. Também infelizmente, os mesmos perfilam-se, hoje, como produtos do seu tempo, já que os livros didácticos para crianças rapidamente encetariam um processo de extrema simplificação, com maior ênfase na interactividade do que no conhecimento, antes de serem quase totalmente substituídos por meios verdadeiramente interactivos, como o CD-ROM e a Internet. Quem teve a sorte de fazer parte do público-alvo daqueles livros da Terramar de finais dos anos 90 pôde, pois, desfrutar de exemplos do melhor que se fazia no ramo, com um nível de qualidade dificilmente atingível nos dias que correm e que, certamente, lhes terá aguçado ainda mais a vontade de aprender sobre qualquer que fosse o tema em causa.

Friday, 1 November 2024

Quartas de Quase Tudo: Os 'Grandes Atlas' da Editora Civilização

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 30 de Outubro de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Os anos 90 ficaram, em Portugal, parcialmente marcados por uma alteração das atitudes dos jovens relativamente ao conhecimento. Embora houvesse ainda muitas crianças e adolescentes com renitência em aprender – postura a que não ajudava a forma burocrática e aborrecida como muitas escolas nacionais veiculavam conhecimentos – uma parcela crescente da referida demografia encontrava, gradualmente, assuntos de interesse que os motivavam a aprofundar a sabedoria; e, felizmente para esses 'exploradores do conhecimento', não faltavam no mercado editorial português materiais e recursos didácticos de qualidade. É o caso da colecção que abordamos esta Quarta-feira, a qual, depois de ter gozado de enorme sucesso a nível internacional, chegava a Portugal algures nos anos 90, pela mão da Editora Civilização.


images.jpegimage.webp


Dois dos mais populares títulos da colecção.


Falamos dos diversos 'Atlas' direccionados ao público infanto-juvenil, e que conseguiam, desde logo, captar a atenção do mesmo com as suas temáticas, invariavelmente fascinantes para a demografia em causa. Dos dinossauros (inevitáveis naquele período de 'dinomania' pós-'Parque Jurássico') ao espaço ou aos oceanos, eram diversos os assuntos explorados em cada 'Atlas', sempre com recurso a textos simples e minimalistas, mas ainda assim informativos, e a imagens ou fotografias hiper-detalhadas, que constituíam o principal ponto de interesse de cada livro, e eram, só por si, suficientes para fazer dos mesmos uma prenda apreciada nos anos ou Natal, e para lhes garantir um lugar proeminente na estante do quarto.


Tão elevada era a qualidade destes livros, aliás, que os mesmos continuam, ainda hoje, em circulação nas livrarias portuguesas, embora com as inevitáveis mudanças e actualizações gráficas, a fim de os tornar mais apelativos às crianças de hoje. E se o seu valor relativo é, nos dias que correm, algo discutível – já que os mesmos não oferecem, actualmente, qualquer vantagem relativamente a uma rápida consulta a um 'website' ou motor de pesquisa – a verdade é que as temáticas abordadas continuam a ser tão relevantes quanto fascinantes para a demografia-alvo, e que os livros em si continuam a possuir inegável apelo visual, tanto a nível do formato (um A3 perfeitamente 'gigantesco' para mãos pequenas) como dos próprios conteúdos, fazendo deles – hoje, como há trinta anos – uma boa proposta para a estante de qualquer jovem lusitano.

Wednesday, 2 October 2024

Terças de TV/Quartas de Quase Tudo: 'Morfina' (1999) - 'Bizarrias' Nocturnas

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Morfina_(livro).jpg


O livro do programa, única prova visual da existência do mesmo presente na Internet.


O advento da televisão por cabo – com a sua miríade de novos canais, a grande maioria especializados – abriu aos criadores de conteúdos oportunidades que nem mesmo o surgimento dos canais privados, alguns anos antes, havia permitido. Onde, anteriormente, os programas 'de autor' se encontravam confinados a parâmetros culturais ou de 'talk-show' (e sempre dentro de formatos padronizados, que garantissem os mínimos desejáveis em termos de audiências) era, agora, possível 'arriscar' em conceitos mais experimentais, cujo potencial 'falhanço' não resultasse em calamidade. Não é, pois, de admirar que os últimos anos do século XX e primeiros do seguinte tenham visto surgir programas difíceis de imaginar como parte da grelha da RTP, ou mesmo da SIC ou TVI, a não ser em contextos muito particulares. Um destes surgia mesmo nos últimos meses do Segundo Milénio (celebra este mês o vigésimo-quinto aniversário da sua estreia), no extinto CNL, e talvez mereça a distinção de mais bizarro da grelha da época, pelo menos até a SIC Radical decidir dar Nu-Tícias, alguns anos depois.


Isto porque 'Morfina' – cujo nome não é inspirado na substância narcótica, mas antes no deus grego do sono, Morfeu – era um programa de dez minutos cujo objectivo era, tão simplesmente, contar uma história para adormecer. Não um conto de fadas ou aventura medieval para crianças, mas uma história (ou apenas um texto) que ajudasse os espectadores a adormecer, independentemente da idade; no fundo, uma versão adulta das músicas do Vitinho e dos Patinhos ou, se preferirmos, um precursor televisionado do estilo de vídeo hoje conhecido como ASMR, embora sem as conotações semi-sexuais do mesmo. A dar voz (e autoria) a estes textos estava a jornalista Clara Pinto Correia, que as relatava a um sempre atento Quim Leitão, sendo os dois as únicas figuras presentes no cenário, cuja meia-luz e adereços remetiam a um quarto de cama. Quando a história acabava, o mesmo sucedia com a própria emissão do CNL, que se 'despedia' diariamente ao som da canção titular do programa, como que a 'mandar' os espectadores para a cama, ao melhor estilo Vitinho.


Embora possa parecer que um programa deste tipo nunca conseguiria audiência, e rapidamente desapareceria da grelha televisiva, a verdade é que foram praticamente quatro dezenas os episódios emitidos pelo CNL nos oito meses que o programa se manteve no ar, cada um com uma história diferente, tendo as mesmas sido, mais tarde, reunidas num livro que levava o mesmo nome do programa, lançado pouco depois do fim do mesmo, no Verão de 2000; ainda um pouco mais tarde, 'Morfina' chegava também ao formato VHS, naquela que será uma das mais bizarras edições do mercado do vídeo e DVD em Portugal. Ainda assim, enquanto experiência declarada por parte de um canal 'recém-nascido' e ainda à procura da identidade, 'Morfina' foi uma ideia perfeitamente válida, ainda que talvez demasiado rebuscada para garantir audiência num Portugal ainda muito 'formatado' para programas de consumo fácil, que merece bem ser lembrada no mês em que se celebra um exacto quarto de século desde a sua estreia.

Thursday, 8 August 2024

Quartas de Quase Tudo: '100 Anos de Jogos Olímpicos 1896-1996' - Uma Retrospectiva Ainda Meritória

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 5 de Agosto de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Apesar de menos populares do que os campeonatos internacionais de futebol, os Jogos Olímpicos não deixam, ainda assim, de cativar a imaginação da população a ponto de motivarem não só linhas de 'merchandising' com as respectivas mascotes, mas também obras relativas à sua História e evolução, quer sejam dirigidas a um público jovem e apresentadas em formato de banda desenhada, quer se destinem a uma demografia verdadeiramente interessada na temática em causa, como no caso do volume de que falamos nesta publicação.


 


1138763733-100-anos-de-jogos-olimpicos-1896-1996.j


1177416665-100-anos-de-jogos-olimpicos-1896-1996.j


(Crédito das fotos: CustoJusto)


Intitulado '100 Anos de Jogos Olímpicos 1896-1996', o luxuoso livro encadernado publicado pela Temas & Debates por altura dos Jogos de Atlanta tem como propósito, como o próprio título indica, oferecer uma retrospectiva histórica das Olimpíadas modernas, do seu surgimento em finais do século XIX, até à actualidade de então, com recurso a fotografias de arquivo (tanto a preto e branco como a cores) que serviam como complemento do texto. Uma obra bem típica do seu género – que pode facilmente ser comparada ao contemporâneo 'Glória e Vida de Três Gigantes', publicado pelo jornal 'A Bola' - mas que nem por isso deixava de ter interesse para fãs do tema que abordava, e de constituir uma adição meritória à colecção de livros de tipo enciclopédico dos mesmos – ainda que, hoje em dia, se encontre bastante desactualizado. ou não tivessem passado quase três décadas desde a sua edição... Ainda assim, para quem gosta de conhecer um pouco mais a fundo a História das competições desportivas modernas, ou simplesmente deseja alimentar um pouco a nostalgia por tempos mais simples, este não deixa de ser um tomo interessante a procurar, até por ser de relativamente fácil aquisição em sites de leilões na Internet.

Friday, 19 July 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Livros de Preparação Escolar de Férias

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 17 de Julho de 2024.


NOTA: Por motivos de relevância temporal da próxima Quarta aos Quadradinhos, a mesma será lançada na Quarta-feira, 24 de Julho. O 'post' desta semana será uma Quarta de Quase Tudo.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Embora as férias de Verão sejam, tradicionalmente, um período em que os jovens procuram relaxar e afastar-se das obrigações académicas e escolares, aproveitando o clima ameno, existe sempre quem (por iniciativa própria ou dos pais) procure adiantar-se um pouco nas matérias do ano lectivo vindouro; e se, hoje em dia, esse objectivo é conseguido sobretudo através de portais educativos existentes na Internet, na era pré-digital, em que a referida plataforma era ainda incipiente, esse 'estudo avançado' era feito, maioritariamente, através de colecções de livros didácticos complementares aos utilizados na escola, e especificamente dedicados a serem utilizados durante as férias - os quais continuam, aliás, a existir até aos dias de hoje, como alternativa para quem prefira minimizar ao máximo a exposição digital dos educandos.


Capturar ferias.jfif


Exemplo de livro de preparação de finais dos anos 90 ou inícios de 2000.


Tão-pouco ficava este tipo de livros restrito a apenas uma editora – antes pelo contrário, quase todas as casas conhecidas pelo enfoque didáctico possuíam uma edição deste tipo, renovada anualmente, de modo a manter os exercícios actualizados com os currículos dos respectivos anos. Apesar da premissa semelhante, no entanto, nem todos estes volumes eram equiparantes, sendo alguns propositalmente mais desafiantes enquanto outros, ao procurarem amenizar a 'carga mental' dos jovens discentes no período estival, acabavam por simplificar em demasia o nível dos exercícios, criando uma imagem ilusória do que seria o ano lectivo seguinte. Havia, pois, que saber escolher a colecção ou série certa, de modo a assegurar o nível adequado e desejado de preparação aquando do regresso às aulas, em Setembro. E apesar de nem toda a gente ter nostalgia por este tipo de actividade ou livro (muito pelo contrário) vale, ainda assim, a pena recordar como era feita a 'preparação de Verão' de um estudante português na época em que a Internet 2.0 era ainda um sonho na cabeça de algum informático norte-americano. 


 

Friday, 12 July 2024

Quartas de Quase Tudo: As 'Novas Aventuras' dos Cinco e Sete, Ou, O Original É Sempre O Melhor

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 10 de Julho de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


No tocante a franquias ou séries de obras literárias destinadas a um público infanto-juvenil, poucas são as que conseguem tracção durante mais do que um par de anos, sendo de louvar sempre que isso acontece. Portugal não é excepção a essa regra, tendo-se tal fenómeno apenas verificado com um número muito restrito de propriedades, de 'gigantes' como 'Harry Potter' a séries como 'Diário de Um Banana' ou 'Uma Aventura' (esta última já quadragenária, e ainda e sempre o porta-estandarte da literatura infanto-juvenil portuguesa). Nos anos 90, juntavam-se ainda a esta lista as várias colecções de Enid Blyton, as quais, apesar de serem, na altura, tão longevas quanto é agora 'Uma Aventura', continuavam a cativar os jovens das gerações 'X' e 'millennial', os quais haviam herdado ou ouvido falar dos livros através dos pais, que os haviam 'devorado' com a mesma idade.


2165671910-coleccao-novas-aventuras-dos-sete.jpg


image (1).webp


Alguns dos títulos de cada uma das colecções.


Não é, pois, de surpreender que, perante este sucesso continuado (que motivou mesmo a reedição da colecção original d'Os Cinco' com novas capas 'fotográficas') tenha também havido quem procurasse capitalizar sobre os 'nomes de marca' idealizados pela autora inglesa em inícios do século XX; surpreendente foi, apenas, a proveniência de tais obras, que eram oriundas, não da Grã-Bretanha natal de Blyton, mas da bastante menos previsível França, onde, nos anos 80, eram lançadas duas colecções de 'Novas Aventuras' dos dois grupos de personagens mais famosos e conhecidos da autora – os referidos Cinco e o Clube dos Sete. Essas mesmas colecções viriam, poucos anos depois (concretamente em 1996), a 'aterrar' em solo nacional, pela mão da Editorial Notícias, prontas a serem adquiridas por 'legiões' de jovens insuspeitos, que não imaginavam terem aqueles livros sido escritos por alguém que não Enid Blyton. E, no entanto, era precisamente esse o caso - as Novas Aventuras dos Cinco ficavam a cargo de um tal Claude Voilet, não sendo conhecidos os nomes dos autores dos novos casos do Clube dos Sete, os quais operavam, evidentemente, em regime de 'escrita fantasma', para manter a ilusão de se tratarem de novas obras da autora britânica.


Apesar destes esforços, no entanto (e das traduções a cargo de grandes nomes do ramo, como Adolfo Simões Muller) bastava ler algumas linhas de um destes livros para perceber que os mesmos não constituíam 'artigo genuíno'. Tanto a escrita abaixo da média como as próprias temáticas de cada história eram completamente desfasados do estilo conversacional e antiquado de Blyton, sendo estas 'Novas Aventuras' apenas 'digeríveis' por quem conseguisse abstrair-se do facto de as personagens terem o mesmo nome e personalidades dos livros originais; quem esperasse algo ao nível da colecção principal acabaria, inevitavelmente, desapontado. Não é, assim, de estranhar que ambas as colecções apenas tenham durado alguns (poucos) anos nas bancas antes de caírem no quase esquecimento, dando lugar a ainda mais reedições 'modernizadas' (e, por vezes, actualizadas) das duas dezenas de aventuras originais de Blyton – um facto que não deixa de vincar a diferença entre uma obra verdadeiramente transcendente e intemporal e uma 'imitação barata' com o propósito único de fazer dinheiro. Neste caso, tal como no dos Corn Flakes da Kellogg's, 'o original é sempre o melhor' – e as crianças portuguesas de finais do século XX souberam percebê-lo.


 

Thursday, 13 June 2024

Quartas de Quase Tudo: Os 'Clássicos Disney' em Livro e Cassette

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 12 de Junho de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Em finais dos anos 80 e inícios da década seguinte, com o advento e posterior expansão de tecnologias como os leitores de cassettes áudio portáteis, assistiu-se ao aparecimento e difusão de um novo e popular formato de literatura infanto-juvenil, que juntava um livro a uma cassette áudio, por vezes com uma simples narração do texto do livro, em outras com uma adaptação livre e expandida da história ali contida – o chamado, em Inglês, 'read-along'.


Em Portugal, as primeiras tentativas de implementar este novo formato deram-se ainda em finais dos anos 80, com as quadrilogias 'A Aldeia das Amoras' e 'Histórias e Canções em Quatro Estações' – curiosamente, ambas de temática sazonal, e a segunda com textos de autores como Maria Alberta Menéres ou Alice Vieira – cujo sucesso entre a demografia-alvo não tardou a motivar novas edições do mesmo estilo, de entre as quais se destaca uma colecção que fazia uso de uma poderosa licença para chamar a atenção das crianças da época.Falamos da série de livros vulgarmente conhecida apenas como 'Os Clássicos Disney', que a maioria dos jovens 'X' e velhos 'millennials' portugueses conhecerão, não tanto pelo nome, mas pelo distintivo formato quadrangular e com os desenhos da capa emoldurados por um bloco de cor garrida – verde, amarelo, cor de laranja, vermelho ou azul.


72c632e10c9f38a1d87f24e791892894.jpg


Alguns dos volumes da colecção, com as respectivas cassettes áudio.


De data de edição, infelizmente, perdida no tempo – situando-se algures entre finais da década de 80 e os primeiríssimos anos da seguinte – esta apelativa colecção 'esticava' ao máximo o conceito de 'clássico', emparelhando histórias, sem dúvida, merecedoras desse epíteto – quer retiradas directamente dos filmes da companhia, quer do repertório popular de contos – com outras menos conhecidas, ou até criadas especificamente para a colecção, que conseguia assim chegar às duas mãos-cheias de títulos. Mais ou menos conhecidos, no entanto, todos os contos integrantes da colecção recebiam um tratamento áudio cuidado, com direito a vozes e efeitos sonoros distintos, e com o selo de qualidade outorgado pela licença Disney, criando assim um excelente complemento à vertente escrita, para quando não 'apetecesse' ler. Esta dualidade, aliada ao poderio das personagens criadas por Walt Disney, ajudava ainda a assegurar o interesse por parte do público-alvo, levando a que a colecção em causa marcasse presença nos quartos de muitas crianças da época, sobretudo os das mais adeptas à leitura.


E se, nos dias que correm, o conceito de um 'áudio livro' em formato físico – e acompanhado de um livro propriamente dito – parece quase pitoresco, a verdade é que estes e outros livros do mesmo formato marcaram época, e terão tido a sua parte a cumprir na missão de encorajar todo um conjunto de portugueses de uma certa faixa etária a ler – o que, só por si, já lhes valeria a presença nestas páginas. O facto de se tratar de uma colecção relativamente icónica é apenas a cereja no topo de um 'bolo' que, mesmo totalmente obsoleto, talvez ainda conseguisse, com os devidos ajustes, apelar à juventude de hoje em dia...

Wednesday, 1 May 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Livros da Rua Sésamo - Um Sucesso em Vários Formatos

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Logo no primeiro ano deste 'blog', dedicámos um par de 'posts' à histórica e icónica 'Rua Sésamo' – um à série em si, e outro à revista complementar da mesma, que chegava às bancas no mesmo período, logo em inícios dos anos 90, e fazia as delícias das primeiras camadas demográficas da geração 'millennial'. No entanto, à época das publicações originais, ficaram por abordar, por descuido ou simples esquecimento, as outras vertentes através das quais o programa da RTP se insinuava na cultura popular; nada melhor, pois, do que corrigir agora essa situação, e dedicar mais uma 'dose dupla' de posts aos restantes produtos alusivos à emissão que moldou a infância de grande parte dos 'putos' dos anos 90, o primeiro dos quais centrado na enorme variedade de livros com os personagens da Rua Sésamo ao dispôr da demografia em causa durante o auge de popularidade do programa, e até alguns anos após o mesmo.


images (1).jpgdownload (3).jpgdownload (2).jpg


As diferentes colecções de livros da 'Rua Sésamo' disponíveis durante os anos 90.


De facto, até pelo menos a meados da década de 90 – já vários anos depois de a 'Rua Sésamo' portuguesa ter saído do ar – era ainda possível encontrar nas bancas e livrarias portuguesas pelo menos quatro colecções centradas nos personagens do programa: uma em formato quadrado e de capa dura, outra idêntica, mas de capa mole, uma terceira em formato mais tradicional e de capa emoldurada, e ainda a série 'Passo A Passo Com A Rua Sésamo', que, mais do que livros de histórias, oferecia conjuntos de actividades tematizadas em torno de um tema central, quase como uma versão em livro da popular revista infantil com o mesmo nome da série. Em comum, as quatro tinham tanto o elevado nível de qualidade, em linha com os padrões estabelecidos pela PBS e pela equipa de educadores responsável pela versão portuguesa, como o foco em temas familiares e que faziam parte do quotidiano da faixa etária alvo, da escolha de profissões e aprendizagem das letras e números a situações e conceitos sociais como as mentiras, os segredos, a perda de um brinquedo favorito, uma situação de doença, ou mesmo algo tão singelo e corriqueiro como uma festa de aniversário, com todas as pequenas preocupações e alegrias que tal evento acarreta – uma abordagem que ajudava a tornar cada volume das diferentes séries ainda mais apelativo para o público infantil.


De referir que, apesar de trazerem maioritariamente o elenco da versão americana – causando uma certa dissonância na jovem demografia-alvo, habituadas ao Poupas de cor laranja e ao Ferrão de pêlo castanho dentro do seu barril, e que aqui se deparava com o Poupas Amarelo e com um 'primo' do Ferrão de cor verde, morador numa lata de lixo e de nome Óscar – chegaram a ser produzidos alguns livros numa das séries com os personagens da variante nacional do programa, como a Gata Tita ou a Avó Chica de Fernanda Montemor, permitindo uma ainda maior aproximação a quem acompanhava semanalmente as aventuras destes e outros protagonistas no então Canal 1.


Mesmo sem este 'chamariz' adicional, no entanto, a mera presença de nomes como Egas, Becas e Gualter nas páginas das diferentes colecções, a viver aventuras e situações com que qualquer um dos leitores se poderia deparar no dia-a-dia, era já suficiente para fazer dos livros da Rua Sésamo um sucesso de vendas; e apesar de o Mundo, a sociedade e mesmo as crianças terem mudado muitíssimo desde então, é de supôr que as referidas premissas continuem a ser suficientemente universais e intemporais para agradarem até mesmo à ultra-digital e hiperactiva 'Geração Alfa'. Porque não, pois, 'desenterrar' do sótão ou do armário os antigos livros de criança, e apresentar os afáveis personagens da infância remota a toda uma nova geração?

Wednesday, 7 February 2024

Quartas de Quase Tudo / Quartas aos Quadradinhos: 'A Cozinha Com Astérix' - Receitas Irredutíveis...E Irresistíveis

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Já aqui em ocasiões passadas abordámos a popularidade da BD franco-belga no Portugal de finais do século XX, onde os álbuns editados (sobretudo) pela Meribérica-Liber perdiam apenas para os 'quadradinhos' da Disney e Turma da Mônica no coração das crianças e jovens; e, de todos os heróis francófonos a marcar presença nas livrarias do nosso País, o mais popular talvez fosse Astérix, o intrépido e corajoso herói gaulês que, com a ajuda da poção mágica do seu druida, assume a linha da frente na defesa da sua aldeia contra a ameaça de invasão romana. De facto, mesmo em finais da década de 90, o 'baixinho' de bigode de Goscinny e Uderzo continuava a justificar não só a criação de novos álbuns, filmes e videojogos alusivos às suas aventuras, como também de um parque temático (no seu Norte de França natal) de produtos licenciados mais insólitos, como o jogo de tabuleiro lançado pela Majora, a colecção de figuras em cartão disponibilizada numa promoção da Longa Vida, o sumo da Libby's ou o livro de culinária que serve como tema do 'post' 'quase duplo' desta Quarta-feira.


download (5).jpgD_NQ_NP_998288-MLB45659414394_042021-O.webp


Capa e contra-capa do livro.


Não, não nos enganámos – Astérix viu mesmo ser lançado sob o seu nome, no ano de 1991, um livro de culinária para crianças, com o próprio e os seus conterrâneos da irredutível aldeia gaulesa presentes e em grande destaque não só na capa como em todas as páginas, prontos a servir de chamariz às crianças e jovens que avistassem o volume na prateleira da livraria do bairro. E a verdade é que, ao contrário de muitos produtos da época, o uso da licença é, neste caso, mais do que apenas superficial: 'A Cozinha Com Astérix' não se limita a utilizar os desenhos de Goscinny e Uderzo para se vender, havendo um claro esforço para capturar a atmosfera dos álbuns de Astérix nas suas páginas – cada uma das quais contém não só a receita (com o nome devidamente tematizado ao universo dos irredutíveis gauleses) como também cenas exclusivas com os personagens, e até painéis de banda desenhada que poderiam ter sido retirados directamente dos álbuns! O resultado é um livro visualmente espectacular, que até quem não tenha qualquer interesse em aprender a cozinhar quererá sem dúvida desfolhar.


download (6).jpgD_NQ_NP_647836-MLB48458265878_122021-O.webp


Exemplos das receitas e grafismo do livro (Crédito das fotos: Mercado Livre)


Infelizmente, e apesar de todo este esforço, 'A Cozinha Com Astérix' não utiliza todo o potencial de uma licença com cariz (pseudo)-histórico. Isto porque, apesar de os seus nomes e modos de apresentação evocarem o universo do personagem titular, as receitas contidas no livro são apenas pratos normais, fáceis de confeccionar e adequados à faixa etária alvo, mas sem qualquer relevância quer para o mundo em que Astérix habita, quer para a França de finais do século XX. Fica, assim, por aproveitar a oportunidade de apresentar aos jovens leitores pratos tradicionais da zona de França onde supostamente fica a aldeia gaulesa, juntando assim uma vertente histórica ao aspecto lúdico proporcionado pelo guerreiro loiro e seus amigos.


Ainda assim, e apesar desta 'falha', 'A Cozinha Com Astérix' é um volume bem merecedor de ser lido, que transcende o rótulo de simples curiosidade e apresenta conteúdos cuidados, com receitas que qualquer criança ou jovem com apetência para a cozinha se divertirá, sem dúvida, a fazer, e painéis de banda desenhada que o manterão interessado em meio às instruções de confecção; só é pena que o aspecto acima mencionado tenha sido negligenciado (ou, simplesmente, esquecido) ou poderíamos estar diante de um candidato ainda mais sério ao rótulo de melhor livro de receitas dos anos 90...

Wednesday, 24 January 2024

Quartas de Quase Tudo: A Trilogia de Livros de Indiana Jones de Rob MacGregor

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Na última Quarta de Quase Tudo, recordámos a colecção de livros do Jovem Indiana Jones publicada pela Europa-América algures nos anos 90. A associação da editora ao herói criado por Steven Spielberg e George Lucas não se ficou, no entanto, apenas por essa colecção, antes pelo contrário; além da série de histórias com 'Indy' como aventureiro, o catálogo da Europa-América incluía também uma trilogia de livros em que o protagonista aparecia já adulto, tal como os fãs o conheciam da 'outra' trilogia que ancorava, a cinematográfica. Nada mais justo, portanto, do que utilizarmos a rubrica desta semana para nos debruçarmos sobre esse trio de tomos, e concluirmos assim a nossa exploração da bibliografia de Indiana Jones em Portugal.


Presença assídua nas prateleiras de livros das lojas dos 'trezentos', tal como a sua série-irmã – ou não fosse a editora de ambos sinónima com o abastecimento literário de tais estabelecimentos – a referida trilogia de aventuras, assinada por Rob MacGregor e editada em Portugal entre 1989 e 1992, tem, desde logo, a particularidade de não coincidir com a sua congénere cinematográfica. Isto porque, apesar de os dois primeiros tomos serem novelizações dos dois primeiros filmes da saga, o terceiro desvia-se desse padrão, apresentando uma aventura original, 'Indiana Jones e os Perigos em Delfos', no lugar do que deveria ter sido a adaptação em livro de 'Indiana Jones e o Templo Perdido'.


300x.webp


O terceiro volume da série apresentava uma aventura original, ambientada em Delfos, na Grécia.


As razões para esta escolha são, infelizmente, muito pouco claras, sendo ainda hoje incerto se a referida novelização alguma vez existiu, não tendo simplesmente sido traduzida para Português, ou se existem outras aventuras inéditas nas mesmas condições – até mesmo o 'site' da Livraria Bertrand lista só e apenas estes três volumes como parte da colecção. Assim, iremos tomar a liberdade de considerar esta colecção uma trilogia, com uma inexplicável mudança de rumo no último volume.


Em termos do conteúdo em si, qualquer dos três volumes assinados por MacGregor oferece precisamente aquilo que se poderia esperar de uma publicação da Europa-América deste período: literatura fácil, destinada a um público jovem, e tornada mais difícil e morosa de absorver pelo tipo de tradução quase propositadamente complexa que pautava os títulos de ficção científica e aventura da editora na época em causa. Quem conseguir ultrapassar esse factor, e tiver os dois filmes adaptados como parte da colecção, irá, certamente, apreciar a forma como os seus enredos e cenas-chave foram transpostos para a página, e ainda mais a existência de uma aventura original na qual se embrenhar; no entanto, esta pecha – comum à maioria dos títulos 'menores' da editora – poderá mesmo ser difícil de ultrapassar para leitores cujo grau de exigência é mais alto, mesmo para com títulos 'fáceis' como estes.


Ainda assim, e apesar desta 'pecha' em comum com tantos outros títulos da editora, é de crer que os três livros de Indiana Jones da Europa-América terão chegado a um número suficiente de crianças e jovens portugueses de finais do século XX e inícios do seguinte para justificarem um lugar nas memórias nostálgicas preservadas por este blog, e das quais o aventureiro de Spielberg e Lucas já faz, definitivamente, parte integrante...

Wednesday, 10 January 2024

Quartas de Quase Tudo: Os Livros do 'Jovem Indiana Jones'

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


7734951132-colecao-o-jovem-indiana-jones.jpg


(Crédito da foto: CustoJusto)


A chegada a Portugal das chamadas 'lojas dos trezentos', em inícios dos anos 90, levaram, por sua vez, a um significativo influxo de títulos literários de cariz popular e qualidade mediana, invariavelmente encontrados nos icónicos 'escaparates' das sobreditas lojas, e inevitavelmente editados pela Europa-América. De facto, embora fosse já um nome bem reconhecido dentro do panorama editorial português (e responsável pela edição em solo nacional de excelentes títulos policiais e de ficção científica) a editora lisboeta encontrou uma autêntica 'segunda vida' como perpétua fornecedora de literatura barata para lojas deste tipo, grande parte da qual dirigida a um público infanto-juvenil.


De facto, entre colecções de fantasia como 'Dragonlance' ou 'Dungeons and Dragons' (esta última, a precursora menos conhecida das lendárias 'Aventuras Fantásticas'), séries como 'Enciclopédia Brown', novelizações de filmes 'da moda' e um ror aparentemente infindável de 'westerns' 'de cordel', uma percentagem significativa do escaparate de livros de qualquer 'loja dos trezentos' tendia a ser formada por obras que tinham em comum a qualidade 'duvidosa' das traduções (e, muitas vezes, da escrita em si) e o facto de serem expressamente dirigidos a leitores ainda sem a maturidade suficiente para desfrutarem dos clássicos de Robert Heinlein ou Phillip K. Dick com os quais estes livros partilhavam espaço. Era também esse o caso com a colecção de que falamos neste 'post', a qual aproveitou o 'embalo' de uma série mais ou menos bem-sucedida para 'regurgitar' para as prateleiras de livros baratos mais de duas dezenas de títulos com pretensões a expandir o 'universo' do programa, à semelhança do que acontecia na mesma época, com 'O Caminho das Estrelas' e, particularmente, 'Guerra nas Estrelas'.


Tratou-se de 'O Jovem Indiana Jones', colecção baseada na série do mesmo nome produzida por Steven Spielberg e George Lucas, e que chegou também a ver ser editada em Portugal a série de banda desenhada oficial, num esforço de 'marketing' inusitado, considerando a reduzida 'pegada' que a série deixou em Portugal; de facto, é perfeitamente credível que a principal referência e memória da mesma para a maioria dos jovens da época venha através destes livros, quase tão prolíficos como 'Dragonlance' nas 'lojas dos trezentos' de meados da década de 90.


Assinados por um sem-número de autores anónimos (dos quais se destaca Megan Stine, quiçá familiar do R. L. Stine de 'Arrepios') os diferentes volumes desta série oferecem precisamente aquilo que se poderia esperar de um título deste tipo: aventuras infanto-juvenis centradas em torno dos personagens criados por Spielberg e Lucas, e obedecendo à premissa temporal e conceptual da série. Assim, ao longo dos vinte e dois números que compõem a colecção, vemos 'Indy' e o pai a braços com fantasmas, labirintos, fenómenos naturais, e até eventos históricos como o naufrágio do Titanic (anos antes de o filme do mesmo nome o trazer de volta à cultura popular), em enredos invariavelmente descritos em linguagem simples e sem grandes 'floreados', como era apanágio, à época dos títulos infanto-juvenis de 'segunda linha' ou baseados em propriedades mediáticas – sendo que 'Jovem Indiana Jones' se insere confortavelmente em ambas as categorias.


Apesar desta relativa 'falta de carácter' (e também de ambição) estes livros não deixam, no entanto, de constituir uma opção de leitura razoável para uma criança ou adolescente com interesse em tramas de aventura e muita acção, ou que já seja fã do arqueólogo aventureiro de Steven Spielberg – especialmente por continuarem amplamente disponíveis, não só em sites como o CustoJusto (de onde foi tirada a foto que ilustra este 'post') mas também em livrarias propriamente ditas, como a Bertrand. Uma boa oportunidade, portanto, para os ex-jovens das gerações 'X' e 'millennial' recuperarem mais esta 'pérola' da sua infância, e a apresentarem aos seus descendentes directos; quem sabe, o 'Jovem Indiana Jones' possa ainda vir a ser tema de um qualquer vídeo no TikTok ou Instagram...


 

Wednesday, 27 December 2023

Quartas de Quase Tudo: Os Livros de Banho

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


A hora do banho tende a ser uma experiência problemática para muitas crianças pequenas, as quais oferecem frequentemente resistência a serem lavados, ou mesmo a entrarem na banheira para uma 'imersão'. Assim, não é de surpreender que os pais utilizem uma série de subterfúgios para procurar que este ritual se processe da forma mais pacífica possível - e um dos principais 'truques' utilizados por qualquer progenitor ainda hoje passa pela 'distracção' da criança com um dos famosos 'livros de banho'.


500_9789722053310_uki_e_os_amigos_livro_de_banho.j


Exemplo moderno do conceito em análise.


Concebidos propositadamente para serem utilizados junto ou mesmo dentro de água - com páginas em borracha ou espuma impermeável - estes livros pretendiam ser, mais do que veículos para contar uma história, uma experiência em si mesmos; até mesmo os que replicavam contos clássicos (como o da 'Branca de Neve e os Sete Anões' existente lá por casa em finais dos anos 80) faziam-no, sobretudo, com recurso a imagens grandes e coloridas, com um mínimo de texto - normalmente, apenas um par de linhas por página, com grafia gigante e fácil de ler até mesmo pelas crianças mais pequenas.


Esta cuidados junção de elementos apelativos não deixava, como é óbvio, de surtir o efeito desejado, com os livros em causa a fazerem sucesso não só junto da primeira geração que com eles contactou como das subsequentes, que os 'herdaram' ou desfrutaram das suas próprias versões actualizadas; e, ao contrário do que sucede com a maioria das obras e conceitos que aqui abordamos, não é de crer que este paradigma se venha a alterar em anos e décadas vindouras - pelo menos até começarem a ser fabricados 'tablets' ou telemóveis totalmente à prova de água. Assim, até mesmo a Geração Z (conhecida por pouco ou nada ler em formato físico) e a sua sucessora terão como experiência partilhada a 'leitura', na hora do banho, destes livros tão simples como apelativos para a faixa etária até aos cinco anos...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...