Saturday, 31 July 2021

Sábados aos Saltos: Os Papagaios de Papel

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


E num dia de vento intense, nada melhor do que recordar a atividade preferida de quem tinha à mão um espaço aberto – preferencialmente uma praia – e um adulto para supervisionar.


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Sim, apesar de nunca terem atingido os níveis de popularidade de que gozavam em países como o Brasil – onde são quase uma tradição sazonal – os papagaios de papel também tinham os seus fãs entre o público jovem em Portugal; o passatempo só não teria maior adesão entre esta faixa etária devido à dificuldade em encontrar papagaios à venda, e em especial, modelos economicamente acessíveis. Muito do pouco que existia era caro e de cariz quase ‘profissional’, longe das posses dos principais interessados, e muitas vezes, também das suas famílias. Havia, é claro, lojas que vendiam papagaios mais baratos, e declaradamente dirigidos a um público infanto-juvenil, mas os mesmos estavam longe de ser visão comum nos estabelecimentos normalmente frequentados por esta mesma demografia. O facto de também não haver, em Portugal, a tradição de construir o seu próprio papagaio – como existe no referido Brasil, por exemplo – também contribuía para tornar este tipo de actividade de exterior algo menos difundida do que poderia ter sido.


Talvez por isso, quem conseguia adquirir um papagaio e – mais importante – pô-lo a voar dava ainda mais valor à experiência de ver aquele bocado de plástico ou tecido colorido a esvoaçar lá em cima, na ponta de uma guita paciente e cuidadosamente desenrolada pelo próprio, ou pelo seu adulto responsável. Até mesmo o simples acto de ver outro ‘sortudo’ pôr o papagaio dele lá em cima era um momento verdadeiramente memorável – até por não ser frequente – e que nos fazia compreender porque é que esta actividade era tão popular em países onde o vento se faz sentir com mais frequência do que por estas paragens.


Hoje em dia, os papagaios continuam a não ser um passatempo especialmente popular no nosso país, ficando o seu protagonismo reservado, sobretudo, ao festival temático realizado em Alcochete. Ainda assim, quem teve oportunidade de o experimentar durante a infância, certamente saberá o quão especial o mesmo conseguia ser…

Friday, 30 July 2021

Sessão de Sexta: Matrix

NOTA: Este post corresponde a Sexta-feira, 2 de Julho de 2021.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Corria o ano de 1999. A histeria sobre o chamado ‘Millennium Bug’ estava ao rubro, e toda a gente estava preparade para ficar sem computadores às doze badaladas da meia-noite do 1 de Janeiro seguinte (embora ninguém soubesse ao certo em que fuso horário é que a maldição se aplicaria.) 2021 era o future longínquo, e ninguém fazia ideia de como e quanto o Mundo estaria a ponto de mudar, no espaço de pouco mais de dois anos.


Era este o panorama, não só em Portugal como um pouco por toda a sociedade ocidental, quando um dos maiores filmes-evento daquela década – e da seguinte – chegava aos cinemas. Com estreia em Portugal na última Primavera do século XX, esta co-produção australiana e norte-americana trazia como cabeça de cartaz o enigmático Keanu Reeves, tão conhecido pelos seus dotes cómicos na duologia ‘Bill e Ted’, como pelo seu convincente desempenho como herói de acção em ‘Speed – Velocidade Terminal’ ou o seu trabalho com realizadores de enorme renome, como Francis Ford Coppolla ou Bernardo Bertolucci. Neste novo filme, que se inseria no campo da ficção científica, era-lhe pedido que encarnasse uma variação do habitual ‘Escolhido’ – um programador informático que descobre que o Mundo em que vive é uma ilusão, que a verdadeira realidade se encontra ameaçada, e que só ele a pode salvar…


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Falamos, é claro, de ‘Matrix’, um filme revolucionário à época e que, desde então, se instalou confortavelmente no seio da cultura ‘pop’ contemporânea; tanto assim que os seus momentos mais marcantes e memoráveis – o contorcionismo em câmara lenta, a câmara rotativa com ‘freeze frame’ incluído, as pílulas vermelha e azul, a exclamação ‘Whoa’ – informaram desde referências em filmes de comédia como ‘Shrek’, até técnicas de filmagem em filmes mais do que sérios, como ‘O Tigre e o Dragão’, e mesmo nomes de comunicades cibernéticas de ideologia duvidosa, como The Red Pill. Por meio a toda esta influência e omnipresença, no entanto, há um factor que tende a ser esquecido: Matrix era, na verdade, um excelente filme, que merece em pleno a notabilidade que obteve.


A cena original de câmara lenta de 'Matrix', e as muitas homenagens que inspirou


De facto, antes de as sequelas e outras adendas à mitologia da série a estragarem completamente, 'Matrix' era uma das propriedades intelectuais mais entusiasmantes daquele final de século. Toda a gente tinha visto, toda a gente comentava, e toda a gente aguardava com impaciência as anunciadas sequelas, que trariam o Anderson de Reeves já plenamente integrado na sua nova identidade como Neo, salvador da sociedade distópica em que agora reside. Como infelizmente se viria a constatar, tal entusiasmo era infundado; à altura da estreia do ‘Matrix’ original, no entanto, ninguém o poderia adivinhar, sendo a qualidade do primeiro filme mais do que justificativa do ‘hype’ que se gerara - e do qual Portugal não ficava, de todo, isento.


Efectivamente, quem era da idade certa para ter interesse neste blog certamente se lembrará da excitação causada pelo anúncio de ‘Matrix’, e da reacção entusiástica ao filme propriamente dito. Na era pré-‘Ameaça Fantasma’, ‘Senhor dos Anéis’ e ‘Harry Potter’, e dez anos antes da formação oficial do ‘Universo Cinematográfico Marvel’, ‘Matrix’ era o maior evento cinematográfico entre a juventude desde ‘A Máscara’, senão mesmo ‘Parque Jurássico’. E o melhor era que, conforme indicado, esse estatuto era mais que merecido. De facto, recomenda-se que quem não tenha visto o filme desde essa altura experimente revisitá-lo; certamente não deixará de se surpreender com o quão bem o mesmo envelheceu nas mais de duas décadas desde a estreia. De facto, a surpresa pode ser tal que vos leve mesmo a exclamar...


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Thursday, 29 July 2021

Quintas ao Quilo: 'Puxa Um Push Pop, Puxa-lhe o Gosto...'

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.



Puxa um Push Pop


Puxa-lhe o gusto


Fecha um Push-Pop


E guarda o restooo!


Chupa-chupas com ‘caixinha’, que permitia guardá-los para ‘segundas núpcias’ – uma oportunidade de mercado tão útil, lógica e rentável que o mais surpreendente é ter levado até 1996 até alguém se lembrar de a tornar realidade. E escusado será dizer que, quando isso aconteceu, o sucesso foi imediato, e considerável.


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Sim, chegou hoje a vez de falarmos do Push-Pop, um dos quatro chupa-chupas que toda a criança dos anos 90 recorda com nostalgia (sendo os outros os chupas de apito, os chupas azedos e, claro, os ‘oficiais’ da Chupa Chups) e o único que se podia levar no bolso para a sala de aula sem ficar com as calças todas pegajosas e o chupa feito em geleia.


Isto porque, como já explicámos acima, os Push Pop tinham uma mecânica tão simples quanto genial, a qual se reflectia no próprio nome; em vez de virem no tradicional ‘pauzinho’, estes doces eram apresentados num tubo ao estilo batom de cieiro, e com um modo de funcionamento semelhante – para comer o chupa, rodava-se o tubo, e quando se queria parar, bastava rodar no sentido contrário, pôr a tampinha, e ele era novamente empurrado para baixo, onde ficava a aguardar a próxima ocasião. Um modo de funcionamento aparentemente básico, mas que abria inúmeras possibilidades para o público-alvo, que se via subitamente cara-a-cara com uma solução para o problema dos chupas engolidos à pressa porque estava na hora de entrar na aula, ou no treino de karaté, ou de jantar; agora, qualquer que fosse a situação, bastava fazer como indicava o anúncio, fechar o Push Pop, e guardar o resto. E a verdade é que, a maioria das vezes, era mesmo preciso fazer uso desta funcionalidade, porque estes chupas tinham muito que comer!


É claro que, por muito bem que funcionasse, este mecanismo não era perfeito; dependendo do ‘tratamento’ que se tivesse dado ao chupa, era possível que este se colasse um pouco à tampa, deteriorando a sua própria qualidade; no entanto, este era um risco que a maioria das crianças não se importava de correr, só para poder usufruir da magnífica funcionalidade concebida pelos criadores deste doce (um daqueles conceitos a que hoje em dia se chamaria ‘disruptivo’).


E para quem está, neste momento, a ter acessos de nostalgia ao lembrar este mítico chupa-chupa da sua infância, resta ressalvar que o Push Pop ainda hoje é fabricado vendido – embora não seja bem certo onde se podem encontrar estes nostálgicos doces. Será, talvez, um típico caso de ‘Google to the rescue’… Entretanto, vale bem a pena recordar aquela que foi uma das guloseimas mais marcantes para a geração que nasceu ou cresceu na segunda metade dos anos 90.


 

Wednesday, 28 July 2021

Quartas aos Quadradinhos: Tex - O Fenómeno Inexplicável

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Quem, nos anos 90, se dirigia à banca mais próxima em busca de revistas Disney, da Turma da Mônica ou de super-heróis, certamente repararia numa outra revista algo ‘esquecida’ a um canto, mais pequena do que as outras, e que, com o seu algo ultrapassado tema ‘western’ (ou, como se dizia na altura, ‘de cowboys’) e estilo de desenhos algo mais classico, parecia algo deslocada entre as suas congéneres mais modernas, quase como se tivesse sido ‘teleportada’ para ali de uma era completamente diferente.


E a verdade é que esta primeira impressão não andava longe da verdade; a revista em causa era mesmo ‘importada’ de outra era – especificamente, do final dos anos 40 – tendo-se o seu estilo mantido praticamente imutável no meio século subsequente. Sim, em plenos anos 90, estava disponível em Portugal uma revista que não só havia sido publicada ininterruptamente durante mais de quarenta anos, mas que havia conseguido sobreviver todo esse tempo sem ter mudado sequer um elemento da sua fórmula original. E a melhor parte? A dita revista continua a ser publicada até aos dias de hoje, perfazendo quase setenta e cinco anos de publicação ininterrupta – e sempre mantendo o espírito original dos anos 40!


download.jpgO número 1 de Tex


A referida série é, claro, Tex, aquela criação italiana importada do Brasil que ninguém lia, mas todos conheciam, e que aparentemente era popular o suficiente para continuar a ser encomendada por bancas e tabacarias um pouco por todo o nosso país – bem como para justificar uma tentativa de edição em língua portuguesa, já nos anos 90.


E, no entanto, a maioria das crianças daquele tempo terá, certamente, dificuldade em perceber um fenómeno como este, apenas comparável em longevidade ao lendário Archie norte-americano; isto porque [i]Tex[/i], com o seu clima ‘western spaghetti’, passava completamente ao lado das áreas de interesse da demografia que lia ‘quadradinhos’ nos anos 90. De facto, em comum com os personagens infantis mais populares da época, Tex Willer só tinha mesmo o facto de usar sempre a mesma roupa – no caso, um chapéu castanho, camisa amarela e clássicos jeans azuis-escuros.


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Um exemplar da revista já dos anos 90


Sendo esse o caso, no entanto, a quem devia o ‘cowboy’ aos quadradinhos o seu considerável sucesso? A resposta, algo inesperada, passava pelo público mais velho. De facto, enquanto que na escola era raro encontrar quem lesse, de quando em vez, lá se via um leitor mais adulto a comprar um número na tabacaria da esquina…


Mesmo com esta ressalva, é difícil imaginar a razão exacta para Tex ter sido importado durante tanto tempo, e mesmo publicado em português ‘de Portugal’; presença perene nas bancas portuguesas, para a maioria das crianças, a revista era, no entanto, não mais do que um pano de fundo para as publicações que verdadeiramente lhes interessavam. Ainda assim, haveria certamente quem lesse; afinal, nenhuma revista se consegue manter nas bancas durante mais de três quartos de século se não tiver quem a compre…

Tuesday, 27 July 2021

Terças Tecnológicas: As Calculadoras Científicas

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


A passagem do ensino primário para o preparatório – ali por volta dos 10 anos – acarretava consigo uma série de mudanças, nomeadamente a nível das vivências. De repente, a escola tornava-se muito maior, as disciplinas subdividiam-se em blocos, e era preciso comprar oito ou nove livros em vez de um ou dois – isto já para não falar do restante material de apoio, que de repente também se desmultiplicava em dezenas de ‘quinquilharias’ que ocupavam espaço no estojo e na mochila.


Nos anos 90, em Portugal, uma das mais comuns – e também mais indispensáveis – de entre essas ‘quinquilharias’ era a boa da calculadora.


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Um dos modelos mais comuns nas escolas portuguesas, neste caso da Casio.


Com a Matemática a complicar-se significativamente relativamente ao que se aprendia na primária, com cada vez mais letras e fórmulas a encherem as folhas quadriculadas, aquela pequena ‘caixinha’ preta que resolvia tudo ao premir de um botão tornava-se, no que à sala de aula diz respeito, na melhor amiga do aluno preparatório ou secundário.


Esta honra não cabia, no entanto, a qualquer calculadora vulgar; pelo contrário, as pequenas e básicas eram vistas como aquilo que eram – meros instrumentos utilitários, e mesmo assim, apenas num espectro limitado. Não, as verdadeiras ‘estrelas da companhia’ eram aquelas calculadoras – invariavelmente da Texas Instruments ou da Casio – que faziam tudo menos cantar e dançar (incluindo, segundo um popular mito urbano do recreio, jogar Super Mario.) Ele era desenhar gráficos, calcular equações e fórmulas hiper-complexas…enfim, um sem-número de funções capazes de causar fascínio, mesmo tendo a ver com algo tão mal-amado pela criança média como a Matemática. Isto porque, à época, ainda não era costume ver ‘gadgets’ que ‘fizessem tudo’ como estas calculadoras faziam – hoje em dia, essa pluralidade de funções num só aparelho eletrónico não mereceria um segundo olhar, mas nos anos 90, era suficiente para deixar a maioria dos ‘putos’ de boca aberta.


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Uma visão que fazia cair o queixo a muita criança dos anos 90.


Mas o ‘charme’ (e a utilidade) destas calculadoras não se ficava por aí; com as suas características ‘tampinhas’, eram também óptimas para cabular - quem se atrevesse, claro - e o formato dos números também era ideal para algumas brincadeiras (como a de multiplicar 1919 por dois e virar a calculadora ao contrário, formando a palavra ‘bébé’ devido ao formato quadradão dos algarismos 8, que os fazia parecerem letras B.) Enfim, um sem-fim de ‘rodriguinhos’ e detalhes que tornavam aquilo que seria um instrumento mundano e utilitário numa pequena caixinha de surpresas – uma tão marcante que é, ainda hoje, recordada por boa parte dos ‘miúdos’ daquele tempo que tiveram o privilégio de as utilizar…

Monday, 26 July 2021

Segundas de Séries: The Cobi Troupe

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Quantas mascotes de eventos desportivos conhecem que tenham a sua propria série animada, com personagens criados propositadamente e até um antagonista? Caso tenham sido crianças, em Portugal, no Verão de 1992, é provável que a resposta seja ‘pelo menos uma’.


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Isto porque Cobi, a simpática mascote de Barcelona 92 que era uma representação minimalista de uma raça de cão local, teve uma breve mas bastante honrosa passagem pelas ondas de UHF, na forma de ‘The Cobi Troupe’, uma série de 26 episódios que via o personagem e um grupo de amigos embarcar em aventuras e estragar os típicos planos malévolos do vilão, o Dr. Normal. Uma premissa algo rebuscada para uma mascote olímpica – seria talvez mais de esperar algo ao estilo Sport Billy – mas que funcionou bastante bem no contexto de curta duração da série.


Em termos técnicos, ‘The Cobi Troupe’ era bastante bem conseguido; a animação era fluida, os personagens tinham um estilo próprio – típico do seu criador, Mariscal – e as histórias, apesar de não serem particularmente originais ou memoráveis, eram divertidas o suficiente para passar o tempo. Isto, claro, sem esquecer o genérico, que era daqueles que ‘cola’ no cérebro durante literalmente décadas, e que provavelmente se irão encontrar a trautear, um belo dia, vinte anos depois de terem visto a série pela última vez…


Em suma, para série declaradamente ‘cash-in’ de um evento específico, com um contexto específico, e que não tinha qualquer hipótese de perdurar para lá do fim do mesmo, ‘The Cobi Troupe’ é melhor do que tinha qualquer direito de ser, e muito melhor do que teria precisado de ser. E embora a sua passagem pela TV portuguesa (na RTP, no ano da olimpíada, em versão original) não tinha sido particularmente memorável (à parte o genérico) em Espanha, a animação deu origem a uma mini-série de revistas aos quadradinhos, com seis números, e até a um CD de músicas alusivas a Cobi e aos Jogos Olímpicos!! (Com sorte, tinha a música do genérico da série, que era mesmo muito boa…) Enfim, nada mau para um membro de um grupo de personagens que muito raramente é lembrada durante os eventos que representam, quanto mais depois deles…



Desculpas antecipadas pela má qualidade de imagem...

Sunday, 25 July 2021

Domingo Desportivo: As Olimpíadas de 96, ou, Fernanda, a Salvadora da Pátria

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


E numa altura em que tem início mais uma edição dos Jogos Olímpicos – embora, tal como o Europeu de Futebol, com um ano de atraso – nada melhor do que recordar um outro evento deste tipo, sobre o qual se celebram agora exactos 25 anos, e que celebrava ele próprio o centenário dos Jogos Olímpicos como hoje os conhecemos.


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Essa prova – a de 1996, realizada em Atlanta, no estado da Geórgia, EUA - não foi especialmente memorável para o publico jovem – especialmente se comparada à de quatro anos antes, realizada em Espanha, cuja mascote teve até direito a uma série animada propria (o que, convenhamos, não é comum para um representante de um evento não especificamente dirigido a crianças.) Para o público jovem português, no entanto, talvez a situação tenha sido um pouco diferente, já que uma das atletas representantes do nosso país conseguiria ganhar a medalha máxima na sua modalidade, afirmando-se como a digna sucessora de uma outra olimpiana, do mesmo desporto, cuja carreira atingia o ocaso.


Falamos, claro, de Fernanda Ribeiro, a segunda maior velocista portuguesa, logo a seguir à mulher de quem recebeu o testemunho – Rosa Mota, claro. Em Atlanta, Fernanda foi porta-bandeira por Portugal na abertura, e não defraudou as expectativas nela colocadas, regressando dos EUA com a medalha de ouro nos 10.000 metros femininos; já Carla Sacramento, a outra esperança no campo do atletismo, foi porta-bandeira no encerramento, mas não conseguiu qualquer meta assinalável na competição em si.



A prova em que Fernanda participava, e que viria a vencer, teve transmissão em directo na RTP


Infelizmente, como Sacramento, a restante comitiva não teve, nem de perto nem de longe, um desempenho tão honroso. Dos 107 atletas, além de Fernanda, apenas o duo da vela masculina saiu de Atlanta medalhado – no caso, o Bronze na classe 470. Dois outros atletas, Luís Cunha e António Abrantes, conseguiram bons tempos nos 100 e 800m, respectivamente, mas os mesmos não foram suficientes para progredir e atingir o pódio.


No restante, umas Olimpíadas desapontantes para o comité português, em transição entre a fase Rosa Mota e Carlos Lopes e o futuro com Patrícia Mamona, Telma Rodrigues e Obikwelu. A Selecção de futebol somava resultados como 5-0 (contra…) e a maioria dos miúdos estaria certamente mais interessada na prova de basquetebol, onde uma equipa americana movida a Michael Jordan, Magic Johnson e outros que tais davam (previsivelmente) cartas, chegando com facilidade à medalha de ouro. Ainda assim, vale a pena assinalar o aniversário de quarto de século da prova – e esperar que a comitiva portuguesa (desfalcada pela primeira vez de Rosa Mota como acompanhante de honra, devido ao COVID-19, faça uma prova um pouco melhor do que então…


 

Saturday, 24 July 2021

Saídas ao Sábado: A Ida ao Museu

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


A cultura também pode ser divertida. Parece um chavão daqueles que ouvíamos quando andávamos na escola, que tentavam convencer os mais renitentes a gostar de aprender, mas o facto é que – como qualquer criança que tenha tido a experiência certa na altura certa saberá – nem por isso deixa de ser verdade.


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Um exemplo perfeito da validade desta máxima são os museus. Normalmente mais conotados com visitas de estudo com a escola do que com Saídas ao Sábado, a verdade é que muitos deles eram sítios perfeitamente válidos, e até interessantes, de visitar quando se era criança. Se é verdade que muitos correspondiam ao chavão de serem sítios ‘chatos’, cheios de antiguidades bafientas, outros havia que conseguiam fazer brilhar os olhos de uma criança que neles entrasse.


Em suma, para cada museu desinteressante e ‘secante’ de visitar, havia outro que oferecia experiências interativas, ou simplesmente um tópico capaz de agradar ao público-alvo; em Lisboa, por exemplo, existiam locais como o Museu da Marinha (com os seus barcos em tamanho real e o Planetário mesmo ali ao lado), o Museu da Criança, o Museu do Brinquedo (cheio de brinquedos antigos e outros artefactos de interesse para o público infantil) e o Museu de História Natural, onde de tempos a tempos se podiam ver dinossauros, e no restante, outros animais e plantas – todos eles sítios onde até o mais distraído dos ‘putos’ dos anos 90 não se importaria de passar uma tarde. Apesar de – pelo menos à época – nenhum deles oferecer uma experiência significativamente diferente de qualquer outro espaço do seu tipo, a verdade é que os temas que abordavam abrangiam o interesse de uma grande parte da população jovem, conseguindo assim criar antecipação e excitação em cada visita – precisamente aquilo que os museus mais convencionais e rígidos procuravam, sem no entanto o conseguirem.


Hoje em dia é, claro, bem mais fácil manter a miudagem entretida durante uma visita ao museu; o avanço da tecnologia permitiu a muitos espaços deste tipo equiparem-se com ecrãs de vídeo e instalações interativas, que permitem às crianças ‘ver’ da sua maneira favorita – mexendo. Esta tendência não dá, felizmente, sinais de abrandar – antes pelo contrário – pelo que se espera que as gerações vindouras sejam bem menos resistentes a ‘gastar’ um dia de fim-de-semana numa visita a um destes espaços do que a nossa foi; por enquanto, no entanto, vale recordar esta que também conseguia, apesar de tudo, ser uma Saída ao Sábado bem divertida, no contexto certo…

Sextas com Style: Os Pólos de Râguebi

NOTA: Este post corresponde a Sexta-feira, 24 de Julho de 2021.


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


E se já aqui falámos das camisolas de futebol – uma ‘moda’ que apenas se popularizou na década seguinte – hoje chega a altura de falar de outro popular acessório que transcendeu o mundo do desporto e virou parte da ‘moda jovem’ de finais dos anos 90 e inícios da década seguinte: os pólos de ‘rugby’.


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O fantástico pólo da grande potência mediática do râguebi da altura, os All-Blacks neo-zelandeses


Talvez nem todos os leitores deste blog se lembrem, mas houve uma altura da História das nossas juventudes em que o râguebi estava ‘na moda’ entre os adolescentes, sendo frequente ver no recreio da escola pessoas com bolas ovais e pólos alusivos às mais populares selecções da altura, nomeadamente a Inglaterra, França, África do Sul e Nova Zelândia. Previsivelmente, foi precisamente nessa altura que este tipo de artigo de vestuário extravasou o seu nicho nas prateleiras das boas lojas de desporto e invadiu também os centros comerciais e cadeias de ‘superstores’ desportivas, onde a maioria dos jovens da altura teria maiores probabilidades de os encontrar.


Curiosamente, enquanto expansões deste tipo costumam fazer decrescer significativamente o preço (e a qualidade) deste tipo de artigos, com os pólos de râguebi, não foi esse o caso; os artigos que se encontravam em lojas ‘franchisadas’ eram exactamente os mesmos que estavam disponíveis na loja especializada. Não havia pólos de imitação, nem ‘mais ou menos’ iguais, nem de marca branca; o que se encontrava era sempre oficial, e sempre vendido aos mesmos preços proibitivos para a maioria das carteiras juvenis da época )não é à toa que os pólos de râguebi são normalmente associados aos ‘betos’…) Assim, quem tinha um era normalmente muito invejado, não obstante o facto de estas peças serem réplicas fiéis das que os próprios atletas vestiam, fazendo poucas ou nenhumas concessões a quaisquer modas vigentes.


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Os 'Springboks' sul-africanos disputavam com a selecção inglesa um lugar nos corações dos jovens fãs do desporto.


Tal como aconteceu com as camisolas de futebol, no entanto, a época áurea dos pólos de râguebi viria a dar-se nos primeiros anos do novo milénio, em que a moda – e o desporto – verdadeiramente ganharam tracção entre os jovens em idade escolar, sobretudo do ensino secundário; ainda assim, e por este movimento ter tido a sua génese nos anos 90, vale bem a pena dedicar-lhe algumas linhas nesta nossa secção dedicada à moda.

Thursday, 22 July 2021

Quintas no Quiosque: As Revistas 'Para Raparigas' dos Anos 90

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


E se para inaugurar esta secção escolhemos uma revista que caiu um pouco na obscuridade desde que ‘saiu de cena’, com o tema seleccionado para hoje, essa questão não se coloca. Isto porque, hoje, é altura de falarmos das duas ‘grandes’ revistas para jovens disponíveis em Portugal nos anos 90, aquelas de que quase toda a gente se recorda – e das quais, ironicamente, nenhuma era, inicialmente, publicada em Portugal.


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Falamos, é claro, da ‘Bravo’ e da ‘Super Pop’, duas publicações distintas, de editoras diferentes, mas que tendem a ser mencionadas em conjunto, pelo seu cariz extremamente semelhante; este blog não vai fugir à regra nesse respeito, até porque não há assim tanto a dizer de qualquer das duas a nível individual. Os conceitos das duas eram semelhantes ao ponto de se confundirem – focando precisamente o mesmo público-alvo, com precisamente a mesma estratégia – e a única grande diferença (além de, na primeira fase, a origem) era mesmo o título na parte superior da capa.


Na verdade, ambas as revistas apostavam no formato ‘revista cor-de-rosa’, ao estilo de uma ‘Caras’, ‘Hola’ ou mesmo ‘TV7Dias’, mas adaptado a um público jovem. Isto traduzia-se, essencialmente, em ainda menos texto do que nas revistas deste tipo ‘para adultos’, e ainda mais espaço dado a imagens de ‘pop stars’, atores e desportistas, a grande maioria dos quais do sexo masculino. De facto, cada uma das duas revistas era cerca de 80% composta por imagens – o que ajuda a explicar como é que duas publicações estrangeiras, escritas em línguas que o adolescente médio pouco ou nada conhecia (o espanhol da Super Pop ainda era mais ou menos decifrável para um jovem com o português como língua materna, mas no caso do alemão da Bravo, esta percentagem diminuía significativamente) conseguiram ser sucessos de vendas a nível nacional.


De facto, para as raparigas adolescentes a quem ambas as revistas eram dirigidas, não interessava tanto o que estava ou deixava de estar escrito – aliás, quanto menos se tivesse de ler, mais tempo sobrava para admirar apaixonadamente os ‘posters’ de rapazes atraentes (os ‘bonzões’, como eram conhecidos na altura) que constituíam a verdadeira razão do investimento nestas publicações. É claro que as revistas tinham outros atrativos – como os brindes – mas nem a mais cândida das leitoras de qualquer uma delas dará qualquer motivo que não os ‘posters’ e as fotos como principal incentivo para a compra.


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O principal motivo para adquirir estas revistas


É claro que, com todo este sucesso – o qual foi transversal não só aos anos 90, como também á anterior e ás seguintes – não tardou até as editoras portuguesas investirem em edições nacionais destas revistas; assim, foi sem surpresa que as jovens portuguesas viram surgir, em finais da década de 90, exemplares das suas publicações favoritas escritas em português – o que significava que, além de admirar os ‘bonzões’, agora era também possível ler as curiosidades sobre eles que inevitavelmente perfaziam a maioria do conteúdo escrito de ambas. Apenas mais uma razão para dar os 200 escudos necessários para trazer uma destas revistas para casa ali por volta do fim do segundo milénio…


O que ninguém imaginava era que o ciclo de vida deste tipo de revistas estivesse com os dias contados: de facto, o advento e expansão da Internet tornou possível, no espaço de apenas alguns anos, admirar ‘bonzões’ na Internet de graça, e imprimir fotos para pendurar na parede à laia de ‘posters’ tornando revistas como estas progressivamente mais obsoletas. Ainda assim, é impressionante constatar que a Bravo portuguesa conseguiu resistir até 2017 (!!), em plena era do Instagram, e que pode até estar de volta às bancas nos tempos que correm (!!!).


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Um exemplar bem contemporâneo da revista 'Bravo'


Só isto chega para ilustrar o poder que estas publicações tinham – e, aparentemente, continuam a ter – junto do seu publico-alvo; o que, no fundo, até é explicável – afinal, admirar pessoas famosas e bonitas enquanto se lêem ‘fofocas’ sobre elas é um passatempo que nunca passa de moda, especialmente entre os jovens, não importa em que época da História estejamos…

Wednesday, 21 July 2021

Quartas de Quase Tudo: A Literatura Infanto-Juvenil dos Anos 90, Parte 1.75 - A Colecção 'Viagens no Tempo'

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...


…como é o caso da literature infantil.


Quando, há tempos, aqui falámos de séries de livros clássicas da nossa juventude, deixámos criminalmente de fora uma, que divertiu e entreteve tantas crianças como qualquer uma das então faladas, com o atrativo extra de também ter servido de companheira de estudos, devido às secções educativas, recheadas de factos e notas, que cada livro trazia como apêndice, depois do fim da aventura ficcionada. Hoje, procuraremos rectificar esse erro, dedicando algumas linhas àquela que começou por ser a ‘segunda série’ das autoras da famosíssima colecção ‘Uma Aventura’, e acabou por se tornar ela própria um marco da literatura infanto-juvenil, por direito próprio.


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Alguns dos títulos da colecção


Falamos de ‘Viagens no Tempo’, a série que ajudou muitos jovens dos anos 90 a ter boa nota na disciplina de História, ao mesmo tempo que constituía também uma excelente opção para fãs de histórias de mistério e aventura.


Tal como a sua congénere ‘aventureira’, esta colecção ainda hoje figura nos escaparates das melhores livrarias; no entanto, tal como a outra série das mesmas autoras, é inegável que a época áurea desta série se deu no início dos anos 90. Foi neste período que foram editados volumes tão icónicos como ‘Mistérios na Flandres’, ‘O Sabor da Liberdade’, e talvez o título mais famoso de toda a série – e o que mais crianças ajudou na escola – ‘Brasil! Brasil!’. Antes, nos anos 80, já tinha havido ‘O Ano da Peste Negra’ e ‘O Dia do Terramoto’, dois outros titulos memoráveis da colecção.


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Talvez o volume mais famoso de toda a série, e auxiliar precioso para as aulas de História do 8º ano


Depois, ainda viriam a sair volumes como ‘Um Trono Para Dois Irmãos’ e ‘No Coração da África Misteriosa’, este último o derradeiro da ‘série clássica’, ou seja, antes do hiato em que a série entrou em 1998, e do qual só viria a sair por duas vezes desde então - primeiro em 2003, e mais tarde em 2012, para aquele que é, até agora, o verdadeiro último volume da colecção. Sinal dos tempos, talvez....mas quase apostamos que se alguém transformasse esta história de dois jovens ‘aos saltos’ pelo tempo na companhia de um cientista ermitão numa série televisiva, a mesma encontraria o seu público – afinal, uma outra série com um conceito extremamente semelhante (só que com um extraterrestre numa cabine telefónica azul da Polícia britânica) conseguiu manter-se no ar desde os anos 60…


Enfim, oportunidades perdidas à parte, o certo é que – mesmo com alguns aspectos, hoje em dia, questionáveis, como a relação inicial de Orlando com os dois protagonistas – esta colecção é bem merecedora de uma nota aqui no blog, e devia mesmo ter sido incluída na compilação original de séries literárias marcantes daquela época. Falha nossa – mas, pelo menos, conseguimos corrigi-la a tempo, e fazer justiça a mais uma colecção de livros memorável, de uma época que teve muitas…

Tuesday, 20 July 2021

Terças de TV: 'Na Casa do Tio Carlos, Hà Festa Todo o Dia!'

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Já aqui falámos, em edições passadas desta rubrica, de programas infantis de enorme sucesso, como o Buereré ou o Batatoon; hoje, chega a vez de recordarmos um seu antecessor que, embora não tão lembrado hoje em dia, chegou a fazer considerável sucesso à época da sua estreia, na primeira metade dos anos 90.



Falamos de ‘A Casa do Tio Carlos’, o pioneiro da programação infantil da então recém-criada TVI – na altura ainda conhecida por muitos apenas como ‘4’.


Na época em que ainda era mais conhecida como 'o canal da Igreja Católica’ do que como a máquina de telenovelas e ‘reality shows’ que se viria a tornar anos mais tarde, o canal de Queluz fazia desta hora infantil bem à sua imagem um dos seus baluartes na luta de audiências contra a (à época) mais populista SIC; e se a aposta não foi totalmente ganha, por uma série de factores que em tempo abordaremos, também não se pode que a experiência tenha sido um falhanço – longe disso.


O programa ganhava pontos, desde logo, pelo seu carismático apresentador– o cantor e compositor Carlos Alberto Moniz, o titular ‘Tio Carlos’, uma espécie de versão portuguesa do americano Mr. Rogers, e igualmente bem conhecido e apreciado pelo público-alvo pelo seu trabalho na 'Arca de Noé', o popular concurso com temática animal do qual Moniz foi primeiro compositor e, mais tarde, apresentador. A sua forma de apresentar – calma, serena e baseada em interacções genuínas e naturais com as crianças que tinham a sorte de poder assistir ao vivo – contrastava com a jovialidade forçada da maioria dos outros apresentadores infantis, e contribuía para a atmosfera pacata e ‘segura’ do programa, a qual se coadunava perfeitamente com as bolachas, o leite com chocolate e a vontade de ‘descansar’ que as crianças sentiam depois de um dia inteiro de escola.


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O apresentador do programa, no seu ambiente natural


No entanto, até o melhor programa infantil está fadado ao insucesso se não tiver desenhos animados à altura do formato – e era aqui, sobretudo, que ‘Tio Carlos’ ficava aquém das expectativas. Apesar da aposta - sempre bem-vinda - nas curtas clássicas dos Looney Tunes ou Tom e Jerry, bem como em conteúdos ‘made in Portugal’ e até segmentos de ‘acção real’, a restante oferta da TVI ficava, ainda, a ‘milhas’ do que o que a SIC apresentava na mesma época, e mesmo daquilo que a própria TVI viria a exibir poucos anos depois – como, aliás, se pode comprovar no programa da fase inicial que deixamos, na sua íntegra, no fim deste post. Mesmo numa época em que 'Dragon Ball Z’ e ‘Power Rangers’ ainda estavam a alguns anos de distância, eram precisos mais do que alguns desenhos animados ‘giros’ com quarenta ou cinquenta anos para captar a atenção e fidelizar o público jovem – e nesse aspecto, Carlos Alberto Moniz bem se pode sentir injustiçado. Numa fase mais tardia, o programa viria efetivamente a ganhar alguns trunfos, nomeadamente 'Heathcliff', que equilibravam um pouco a contenda, mas nem esta adição (literalmente) de peso chegou para evitar que o programa fosse cancelado, em 1994.


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'Heathcliff', a mais conhecida das séries do programa


Uma pena, pois, tirando os ‘bonecos’, ‘Tio Carlos’ tinha tudo o que se pedia a um programa infantil da época: jogos, passatempos, números musicais, convidados, momentos educativos sobre temas genuinamente interessantes para crianças, um apresentador de carisma e tarimba confirmadas, e até um genérico de abertura memorável e cantarolável, como se pedia na altura. Talvez, com um acervo de séries um pouco mais forte, o programa tivesse conseguido permanecer no ar mais do que o ano e pouco que durou, e tornar-se num verdadeiro 'contender' da programação infantil dos anos 90, em vez do 'dark horse' que efetivamente foi.


Ainda assim, para um programa da fase ‘tubo de ensaio’ de um novo canal, em que cada novo dia era mutável e incerto, passar mais de um ano no ar ininterruptamente não deixa de ser uma proeza, especialmente numa época em que a oferta da televisão pública neste campo primava pela força, e em que a SIC também já ia alinhavando uma estratégia que viria a render frutos a muito curto prazo. Certo é que quem ‘esteve lá’ certamente continua a recordar com carinho este programa, significativamente diferente do que mais se ia fazendo no campo da programação infantil na época, mas nem por isso pior; de facto, não fora a falta de êxitos imediatos e a aposta num pendor algo mais educativo, podia ser que se falasse hoje de ‘A Casa do Tio Carlos’ da mesma maneira que se fala dos seus principais rivais…



 

Monday, 19 July 2021

Segundas de Sucessos: Silence 4 - Da Fama ao Silêncio

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


O conceito de ‘one-hit wonder’ – artistas que conseguem enorme sucesso com um determinado tema, sem nunca o conseguirem replicar durante o resto da sua carreira – é bem conhecido de qualquer fã de música contemporânea, tendo inclusivamente alguns representantes na própria cena musical portuguesa. Menos comum é observar esse fenómeno aplicado a um álbum inteiro, em vez de apenas uma ou duas faixas – e, no entanto, foi precisamente isso que aconteceu com os Silence 4, um quarteto de Leiria que passou de ser a maior banda de pop-rock portuguesa em 1998 a ver o seu segundo álbum ser completamente ignorado apenas dois anos depois, sem que houvesse qualquer explicação para esse fenómeno.


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Esta evolução descendente acentuada da carreira da banda torna-se ainda mais surpreendente quando nos recordamos de quão grandes eram os Silence 4 aquando do lançamento de Silence Becomes It. O álbum de estreia dos leirienses foi um sucesso de vendas quase inaudito em Portugal, especialmente para uma banda nacional, com as ‘músicas conhecidas’ a irem muito além dos singles – fenómeno que também não é habitual fora do contexto dos maiores artistas da História. Sim, havia ‘Borrow’ e ‘My Friends’, mas havia também ‘Dying Young’, ‘Old Letters’ e a ‘cover’ de ‘A Little Respect’,  dos Erasure, entre muitas outras músicas que certamente os leitores deste blog já estarão a trautear só de as relembrarem. Naquele Verão, os Silence 4 foram gigantes, como poucas bandas portuguesas não chamadas GNR ou Xutos & Pontapés conseguiram chegar a ser. O Silêncio virou mesmo 'It' - a nova moda, o novo som 'in'.


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E depois…


…depois, houve o esquecimento. Gravado em Londres, em condições bem mais profissionais do que o seu antecessor, Only Pain is Real, lançado apenas dois anos depois da hiper-bem-sucedida estreia, caiu num retumbante vácuo de indiferença – se é que vendas de Platina podem ser consideradas indiferença... Face á falta de sequer um ‘single’ de impacto, no entanto, a impressão que ficava era mesmo a de que já ninguém queria saber dos Silence 4 - o que não deixa de ser estranho, visto a sonoridade do grupo não se ter alterado minimamente desde aquele Verão louco de 1998. Antes pelo contrário – David Fonseca e os seus comparsas continuavam a praticar aquele mesmo pop-rock (com mais da primeira do que do último) movido a dualidade vocal masculina-feminina de Fonseca e Sofia Lisboa, e de espírito melancólico, sorumbático e fatalista, que tanto sucesso havia feito à época do lançamento da estreia.


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O que talvez tivesse, sim, mudado era o cenário musical nacional, com novos artistas a captar o interesse do público, e a relegarem os antigos heróis para uma posição de ‘velhas glórias’, apesar dos seus apenas quatro anos de vida. Assim, não é de todo surpreendente que um grupo que parecia ter tudo para dar luta a uns The Gift acabasse por se render à evidência e entrar num hiato voluntário.


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Este não seria, no entanto, o fim dos Silence 4. Apesar de David Fonseca ter aproveitado a oportunidade para se lançar numa carreira a solo (aliás, mais bem sucedida que a do próprio grupo) haveria ainda ensejo para o lançamento de um disco ao vivo (em 2004, quando a indiferença ainda reinava) e, em 2013, para uma reunião, ainda que fugaz, do quarteto original, a qual rendeu um segundo disco ao vivo - até à data, o último sinal de vida de um grupo cuja trajectória não pode deixar de suscitar perplexidade em quem a acompanhou. Mas pelo menos, enquanto ‘fritamos a moleirinha’ a pensar, afinal, o que terá acontecido aos leirienses, podemos fazer-nos acompanhar de uma banda sonora de luxo, e de indiscutível apelo nostálgico; e se não conseguirmos descortinar a resposta hoje, podemos sempre dizer, como David Fonseca, ‘I guess I’ll try again tomorrow…’


Sunday, 18 July 2021

Domingos Divertidos: O Action Man

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


Numa das primeiras edições desta nova rubrica, falámos do mais famoso ‘brinquedo para meninas’ dos anos 90, a boneca Barbie, e do namorado da mesma, Ken; hoje, falaremos do que aconteceria se Ken se alistasse numa unidade de Forças Especiais de um qualquer exército futurista.


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Sim, o tema de hoje é nada mais, nada menos do que o Action Man, o mais próximo que a maioria das crianças do sexo masculino da época chegaria de ‘brincar com Barbies’; isto porque o herói de acção da Hasbro tinha, sensivelmente, as mesmas dimensões da boneca supermodelo, fazendo dele o maior boneco de acção da década.


Mas ‘maior’ nem sempre significa ‘melhor’, e a verdade é que o Action Man enfrentava a dura concorrência de várias outras linhas de ‘bonecos’ mais pequenos, dos Power Rangers ao Batman, passando pelas Tartarugas Ninja, Dragon Ball Z e GI Joe (a quem, aliás, o nome ‘Action Man’ se refere no Reino Unido, causando alguma confusão a quem teve acesso às duas linhas, e sabe como as duas eram diferentes).


Assim, a Hasbro precisava de assegurar que o ‘seu’ boneco tinha algo de especial – além do tamanho – que o destacasse da concorrência; e o mínimo que se pode dizer é que, nessa missão em particular, Action Man saiu-se magnificamente. Mais do que por qualquer característica física do próprio boneco, a linha para rapazes da Hasbro tornou-se conhecida pela quantidade, qualidade e atractividade dos seus veículos, que iam desde os habituais carros e motas a caiaques, motos de neve e helicópteros – ou seja, tudo o que um rapaz pré-adolescente poderia desejar da sua linha de brinquedos. Os Action Man eram tão ‘fixes’ para ter na prateleira e mostrar aos amigos como para brincar – senão mesmo mais – pelo que não é de admirar que o quarto médio de rapaz português da altura incluísse mais do que um boneco ou acessório desta linha - à semelhança, aliás, do que acontecia com a Barbie nos quartos de rapariga.


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Um dos muitos e excelentes veículos da linha


Esta não era, no entanto, a única estratégia declarada por parte da Hasbro para chegar ao coração do seu público-alvo; para além de brinquedos ‘fixes’, Action Man tinha também a sua própria série animada (que passou em Portugal na SIC, em 1996, e foi também lançada separadamente em VHS e DVD), bem como uma série de jogos de vídeo para diferentes plataformas, desde a PlayStation ao Game Boy Advance, já no novo milénio (o título para este último, ‘Action Man: Robotattak’, é, aliás, um excelente jogo de acção e plataformas, vivamente recomendado pelo autor deste blog.)



Abertura da série animada exibida na SIC


Em suma, uma estratégia de marketing integrado que só podia dar certo – e deu. O Action Man continua, ainda hoje, a ser dos brinquedos mais lembrados pelo seu então público-alvo, e embora a sua popularidade tenha esmorecido nesta era de Fortnite e TikTok, é ainda uma propriedade intelectual reconhecível o suficiente para justificar um post num blog explicitamente dedicado à nostalgia.


 

Saturday, 17 July 2021

Sábados aos Saltos: As Pistolas Super Soaker

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.


E num fim-de-semana em que o calor bate intenso, as temperaturas sobem, e o que apetece mesmo é estar na praia ou na piscina, nada melhor do que recordar uma das principais ‘soluções de compromisso’ para quem não podia usufruir desses recursos – as Super Soaker, ‘metralhadoras de água’ de maior ou menor potência popularizadas durante os anos 90, e que ajudaram muitas crianças (portuguesas e não só) a refrescarem-se em dias quentes de Verão.


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Criadas pela norte-americana Nerf, conhecida pelas suas versões ‘seguras’ – normalmente de espuma – de populares jogos e brinquedos, a Super Soaker fugia um pouco dos moldes da companhia, tendo mesmo chegado a criar controvérsia devido à força e pressão com os jactos de água eram emanados quando se pressionava o gatilho; e se no modelo básico, a Super Soaker 50, esse já era um problema de relevo, imagine-se com os modelos mais poderosos! Esta característica fazia com que muitos pais, com receio de acidentes graves, não deixassem os filhos ter destas pistolas, acelerando assim a retirada das mesmas do mercado.


Ainda assim, enquanto existiram, as Super Soaker – que eram distribuídas em Portugal pela omnipresente Concentra – eram, passe a expressão, o ‘sonho molhado’ de qualquer criança, especialmente das que tinham um jardim e vários amigos com os quais recriar as cenas mostradas nos anúncios ao produto; afinal, o que havia para não gostar na ideia de molhar os amigos com uma pistola que parecia a arma do Rambo - e que, em pelo menos uma instância, aparecia nas mãos DO PRÓPRIO RAMBO?!



Nem o Rambo resiste ao encanto da Super Soaker...


E, claro, como qualquer produto popular entre a massa jovem, a Super Soaker teve a sua quota-parte de imitações ‘marca branca’, as quais, paradoxalmente, acabavam por ser mais seguras, devido à menor pressão de água que atingiam relativamente à arma ‘oficial’, a qual as tornava menos conducente a acidentes.


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Um exemplo de 'Super Faker' - ou 'Faker Soaker', se preferirem...


Infelizmente, os referidos receios relativos à pressão dos jactos de água faziam com que apenas alguns ‘sortudos’ pudessem desfrutar das sensações e experiências acima referidas, ficando a maioria dos seus amigos relegados a imaginar como seria encenar essas ‘guerras’. Curiosamente, esses medos não foram suficientes para deixar a Super Soaker ‘fora de combate’ de forma permanente, sendo que a Nerf lançou, recentemente, um modelo atualizado da famosa pistola de água, com um visual totalmente redesenhado e, presumivelmente, jactos de água menos potentes, até devido à maior preocupação com os padrões de segurança de brinquedos e outros produtos dirigidos a um público infanto-juvenil. É, pois, perfeitamente possível que as crianças do novo milénio continuem a ter ‘guerras’ de Super Soakers com os amigos, semelhante às que aconteciam na ‘nossa’ época; e, num dia como hoje, quase que dá vontade de ter novamente 10 ou 12 anos, e podermos, nós próprios, reviver essa experiência…

Sessão de Sexta: Space Jam

NOTA: Este post corresponde a Sexta-feira, 16 de Julho de 2021.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


 


E porque esta semana marca a estreia da sequela de Space Jam - com LeBron James no lugar do seu homólogo dos anos 90, Michael Jordan – nada melhor do que dedicar algumas linhas a recordar o original, estreado há quase exactamente vinte e cinco anos (em Novembro de 1996) e que conseguiu a proeza de se manter popular e relevante desde essa altura, justificando o investimento numa sequela, mesmo tantos anos depois.


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Essa popularidade continuada é – pelo menos para a geração que era da idade certa aquando da estreia do filme – bastante fácil de explicar; afinal, só quem viveu aquele momento da História consegue perceber o quão atrativa era a ideia de ter Michael Jordan e Bugs Bunny a contracenar no mesmo filme. Aquela que foi a primeira ‘mega-estrela’ do basquetebol norte-americano estava em plena alta de popularidade, graças às suas inacreditáveis exibições ao comando da ‘Dream Team’ dos Bulls e da Selecção Nacional norte-americana, enquanto o líder dos Looney Tunes é daquelas figuras perpetuamente populares entre os fãs de desenhos animados, muito graças às frequentes repetições das suas clássicas ‘curtas’ em canais de televisão por esse Mundo fora; assim, juntar os dois numa mesma produção tinha tudo para dar certo. E deu.


A história de Space Jam é, objectivamente, algo parva; uma raça de ‘aliens’ pretende raptar os Looney Tunes para os usar como atracção principal no seu parque de diversões espacial, e a ‘troupe’ animada decide confundi-los, apostando a sua liberdade num jogo de basquete, um conceito perfeitamente desconhecido para os pequenos seres espaciais (os quais não primam pela proeza física, assemelhando-se, mais do que nada, a pequenas lagartas de olhos grandes.) Um plano que teria tudo para dar certo – não fora o facto de os extraterrestres conseguirem roubar os talentos de alguns dos principais jogadores da NBA, com os quais se transformam em literais ‘monstros de esteròides’, bem maiores e mais poderosos do que os Tunes. A última esperança para Bugs Bunny e companhia – aqui aumentada com a adição da recém-chegada ‘craque’ e futura namorada de Bugs, Lola Bunny - reside, pois, numa ex-super-estrela do desporto, a qual se havia retirado do basquete para se dedicar ao beisebol – Michael Jordan, claro. Um rapto bem 'animado’ mais tarde, o prodígio dos Chicago Bulls vê-se convertido em capitão da auto-intitulada TuneSquad, e envolvido num desafio em que, por uma vez na sua carreira, não é favorito…


Uma premissa algo tola, portanto, e que serve, mais que nada, de pretexto para juntar as duas ‘estrelas’ do filme – bem como vários dos mais conhecidos jogadores da NBA à época, de Muggsy Bogues a Charles Barkley, Patrick Ewing, Shawn Bradley e Larry Johnson, os quais alinham numa bem-humorada sátira ao seu próprio estatuto, fingindo ter perdido as suas habilidades e ‘desaprendido’ a jogar basquetebol. ‘Space Jam’ conta, ainda, com Bill Murray, Theresa Randle e Wayne Knight em papéis de apoio, dando ao filme um elenco de luxo, bem acima do que seria expectável para uma produção deste tipo.


A intenção de criar algo que respeitasse o público-alvo não se fica, no entanto, pelo elenco e interpretações; apesar do argumento algo tonto, o filme conta com uma excelente banda sonora (a começar pelo tema-título, e passando pelo entretanto infame ‘I Believe I Can Fly’, de R. Kelly) e tem o cuidado de retratar os Looney Tunes exactamente como os conhecemos, sem quaisquer concessões ao politicamente correcto – tirando, talvez, o facto de Bugs Bunny nunca se vestir de mulher. De resto, e apesar do novo ‘look’ assistido por CGI, a turma animada aparece igual a si própria, com muitas ‘gags’ absurdas (incluindo uma no famoso lance final do jogo decisivo) e literalmente explosivas, assegurando que – ao contrário do infame filme de Tom e Jerry, lançado alguns anos antes – quem conhecesse os Looney Tunes não sairia defraudado do cinema.



As cenas de jogo contêm muitas das melhores 'gags' do filme


O resultado foi, previsivelmente, um sucesso de bilheteira, que reavivou o interesse nos Looney Tunes, e justificou o lançamento de vários novos produtos alusivos a Bugs e companhia, agora, previsivelmente, com o seu novo ‘look’ e equipados à basquetebol; entre os mais memoráveis encontravam-se um jogo para PlayStation (basicamente um 'NBA Jam', mas com os Looney Tunes no lugar dos jogadores cabeçudos) e o relançamento, em formato VHS, de vários episódios clássicos de cada um dos principais personagens, com uma nova dobragem em português, sob a denominação ‘Estrelas do Space Jam’.


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Um volume da colecção 'Estrelas do Space Jam', focada no personagem de Marvin, o Marciano


Nada de muito surpreendente – não fosse o facto de o ‘merchandise’ alusivo ao filme ter continuado a vender (e bem) durante as duas décadas seguintes (ainda em 2018-2019, o Primark lançava uma t-shirt alusiva ao filme, destinada a um público-alvo que mal era nascido quando o filme estreou!) Um caso de popularidade apenas explicável pelo facto de este filme aparentemente menor ter sido passado de irmãos para irmãos e de pais para filhos, beneficiando da nostalgia prevalente pela década de 1990 para se manter ‘nas bocas do povo’.


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T-shirt alusiva ao filme, lançada pela Primark mais de uma década após a estreia do mesmo


Seja qual for o motivo por detrás da intemporalidade de um filme que, teoricamente, só funcionaria no contexto específico em que foi lançado, a verdade é que ‘Space Jam’ a merece – por muito que a Internet queira fazer dele ‘bombo de festa’, a verdade é que se continua a tratar de uma excelente obra para toda a família, com muita diversão, momentos memoráveis, uma boa mensagem, e aquele tipo de violência animada que nunca sai de moda, por muito politicamente correcto que o Mundo se torne. Seria uma pena, portanto, se a recém-estreada sequela destruísse o consenso que o original ainda hoje consegue reunir – embora, a julgar pelas primeiras críticas, seja exactamente isso que se vá passar. Resta o consolo de, pelo menos, ainda termos o original para nos relembrar de que, na verdade, esta fórmula pode ser executada, mais do que correctamente, com louvor e distinção. ‘COME ON AND SLAM! AND WELCOME TO THE JAM!’



 

Thursday, 15 July 2021

Quintas de Quinquilharia: Os Cromos dos Looney Tunes da Longa Vida

Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


E porque em edições passadas desta rubrica já recordamos colecções de cromos promocionais associadas a produtos alimentares (como a das Tartarugas Ninja, veiculada pela Panrico) chegou hoje a vez de falar da série ‘Viaja Com os Looney Tunes’, oferecida em 1992 pela Longa Vida, em conjunção com os seus produtos lácteos, nomeadamente os seus iogurtes de aromas.


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Os 25 cromos que constituíam a colecção


Uma das mais perenes propriedades intelectuais da História (como fica bem provado pela estreia, esta semana, da segunda parte de Space Jam, exactos vinte e cinco anos após o primeiro filme e quase cinquenta (!) após a produção do último ‘cartoon’ da era clássica de Bugs Bunny e companhia) os Looney Tunes são daqueles produtos com os quais nunca se pode errar muito – qualquer que seja a época da História em que estejamos, produtos baseados em torno dos mais famosos personagens da Warner Bros irão, inevitavelmente, encontrar o seu público. Assim, uma colecção de cromos protagonizada pelos mesmos – numa década em que o coleccionismo, e os cromos em particular, estavam em alta – era uma proposta mais que segura por parte da Longa Vida, o que torna algo surpreendente que esta série de autocolantes não seja, hoje em dia, tão lembrada quanto os ‘Tous’ do Bollycao, por exemplo.


A situação torna-se tanto mais surpreendente quando verificamos que a produtora de lacticínios teve, inclusivamente, a inteligência de associar esta colecção a uma promoção, a qual habilitava os participantes a uma viagem para três pessoas aos estúdios da Warner Bros nos Estados Unidos, em troca de cinco ‘costas’ de cromos da colecção e, claro, dos dados pessoais da criança (quem hoje se preocupa tanto com dar os seus dados pessoais à Amazon ou ao Facebook, certamente não se recorda das regras dos concursos do ‘nosso’ tempo…)


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As regras do concurso eram reproduzidas nos versos dos cromos da colecção


Mesmo sem este atrativo extra, no entanto, esta série de cromos fazia o suficiente para justificar a tentativa de coleccionar todos os 25 autocolantes que a compunham; os desenhos, que retratavam os personagens em diversas partes do Mundo e eras da História, eram previsivelmente cuidados, e os produtos a que estavam associados, bastante acima da média do seu campo em termos de qualidade. Assim, não deixa de ser surpreendente que o único vestígio desta colecção, hoje em dia, venha de uma página de leilões espanhola (!), da qual, aliás, foram tiradas as imagens que ilustram este post - daí o estado ‘menos que perfeito’ dos itens representados, que parecem ter passado as duas décadas desde a promoção ao sol.


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Exemplo de embalagem promocional alusiva a esta colecção, representativa do melhor sabor de iogurte de aromas


Mesmo com estas limitações, no entanto, é bem evidente que, no seu tempo (e em bom estado), estes terão sido cromos bastante apetecíveis para o seu público-alvo – o que torna a suscitar a pergunta: porque terão sido tão ‘esquecidos pela Internet’ (e pelas ex-crianças dessa época)? A resposta continuará, por agora, a ser uma incógnita – mas entretanto, e graças aos Anos 90, estes cromos já têm pelo menos uma página de tributo na Internet...

Wednesday, 14 July 2021

Quartas aos Quadradinhos: O Suplemento de Banda Desenhada Disney do Jornal Expresso

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Depois de termos feito das revistas Disney da Abril Morumbi o tema de uma das primeiras edições das Quartas aos Quadradinhos, voltamos hoje a falar dos mais famosos personagens de banda desenhada de sempre, desta vez para abordar um tema que, na altura, abordámos mas não aprofundámos: a presença dos mesmos em contextos externos ao das revistas que periodicamente chegavam às bancas.


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O primeiro fascículo do suplemento, datado de 1991


Especificamente, vamos hoje falar do singelamente chamado ‘suplemento Expresso Abril Jovem’, uma adição auto-explicativa ao popular semanário durante a primeira metade dos anos 90, e que, como o nome indica, almejava trazer a banda desenhada da Disney a um público (ainda) mais alargado, que talvez não prestasse atenção à secção de BD do quiosque ou papelaria local, mas que potencialmente se interessaria se as histórias viessem inseridas no seu jornal do costume.


A verdade é que, qualquer que fosse a motivação por trás desta iniciativa, a mesma resultou em cheio; a inserção destes fascículos no semanário de referência em Portugal não só dava aos mais jovens algo para ler enquanto os pais assimilavam o jornal em si, mas também lhes dava uma razão para convencerem os pais a tornar a compra do mesmo regular, caso ainda não o fosse – afinal, uma iniciativa deste tipo não pode deixar de apelar à vertente ‘coleccionista’ inata a todas as crianças.


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Uma edição comemorativa do aniversário da Gibiteca, com o popular personagem Biquinho


Quanto às histórias incluídas nestes fascículos, em nada diferiam das que se podiam encontrar, semanal ou quinzenalmente, nas revistas publicadas nas bancas. Não havia, aqui, lugar à publicação de histórias mais clássicas ou raras – eram, pura e simplesmente, as típicas histórias Disney que todos conheciam e de que todos gostavam. E se, de uma perspectiva adulta, esta característica pode parecer algo desapontante, a verdade é que as crianças da época não lhe atribuíram tanta importância; afinal, o que interessava era ter que ler, e que de preferência não fosse repetido…


Com ou sem novidades, no entanto, a verdade é que este suplemento foi popular o suficiente para continuar a formar parte integrante do semanário durante vários anos; no entanto, a sua natureza algo simplista fez, também, com que acabasse por desaparecer sem grande alarido, e sem que muita gente se desse conta. Ainda assim, uma iniciativa louvável, e que abriu caminho a outras (e ainda melhores) iniciativas conjuntas entre jornais e editoras de banda desenhada, nas décadas seguintes. Só isso já justificaria a existência deste suplemento – isto, claro, se mais justificações fossem necessárias…

Tuesday, 13 July 2021

Terças Tecnológicas: Os Jogos LCD

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


 Já aqui falámos – no post sobre o Game Boy, por exemplo, ou no da Polly Pocket – dos jogos LCD da Tiger Electronics/Concentra. Nos anos 90, estas estranhas mas ainda assim cativantes maquinetas eram quase omnipresentes em lojas de brinquedos ou de eletrónica, constituindo mesmo a principal alternativa para jogatinas portáteis para quem não tinha um Game Boy (que, à época, era ainda muita gente).


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O facto de estes jogos não terem – nem serem – nada de especial era, pois, algo que escapava ao miúdo português médio; tudo o que nos interessava era que se podia jogar aqueles jogos na rua, e que a grande maioria deles era licenciada e alusiva às propriedades mais populares da época (só faltou mesmo um LCD de Dragon Ball Z para a Concentra acertar na ‘mouche’ quanto ao que interessava à juventude portuguesa.) Esta combinação era suficiente para tornar estes jogos sucessos de vendas entre o público-alvo, e assegurar que os mesmos continuavam a ser produzidos (e actualizados) até pelo menos ao início da década seguinte.


E no entanto, como atrás referimos, estes jogos eram, na sua maioria, simplistas ao máximo; a maioria deles consistia, tão somente, de uma série de ‘frames’ em diferentes posições e níveis do ecrã, os quais eram, normalmente, todos visíveis quando se ligava a máquina, e eram subsequentemente activados pela pressão dos botões ou das setas direccionais. Muitos dos jogos centravam-se, pois, em alinhar ou desviar o ‘boneco’ controlado pelo jogador do que quer que estivesse a passar-se no ecrã – normalmente, objectos a cair, inimigos a evitar, bónus para apanhar, ou mesmo, no caso dos jogos de luta, um adversário para atacar. E assim, com mecânicas simples, se fazia um arremedo dos jogos, programas e filmes mais populares da época, de Sonic a Virtua Fighter, passando pelo golfe (!) com Tiger Woods e sem esquecer quase todos os filmes animados da Disney.


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'Virtua Fighter'? Será que este também é em 3D?  (Reacção do miúdo médio de 1995 ao ver isto à venda)


A verdade é que, como se pode ver pela lista acima, a Tiger (fabricante dos jogos, sendo a Concentra a distribuidora) fazia muito com pouco, conseguindo tornar estes jogos diversificados q.b. para nem se notar que, em essência, as bases de todos eram muito semelhantes. E precisamente porque pareciam todos diferentes, estes jogos vendiam bem, qualquer que fosse o tema (embora, na verdade, também não fossem nada baratos, antes pelo contrário.) Numa época em que o Game Boy era, ainda, apenas para quem podia, e ‘jogos portáteis’ eram aqueles tabuleiros de xadrez minúsculos, não é de admirar que estas máquinas tenham feito escola.


Hoje em dia, os LCD ainda andam por aí, embora muito diminuídos quer em reputação, quer em qualidade. Sem o atractivo das licenças oficiais, e após as duas décadas de maior evolução tecnológica da história, os jogos deste tipo são, hoje, praticamente peça de museu, ficando relegada, na sua maior parte, àquelas imitações baratas da PSP ou Game Boy vendidas por sites como o Alibaba. Ainda assim, o regresso deste tipo de máquinas, pela mão da própria Tiger, em 2020, faz-nos ter esperança no que toca ao futuro desta tecnologia, e justifica a recordação nesta nossa rubrica tecnológica – afinal, quem é que em pequeno não teve, ou pelo menos usou, uma máquina destas?



Exemplo de jogabilidade de alguns destes jogos,.

Monday, 12 July 2021

Segundas de Séries: Ficheiros Secretos

Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.



 


Este é mais um daqueles posts que se podia perfeitamente ficar pelo vídeo reproduzido acima, e decerto não deixaria de ter impacto junto dos leitores deste blog; este tema, como os de Dragon Ball Z ou Power Rangers, é daqueles que é ASSIM TÃO icónico para a nossa geração, e que fará qualquer jovem dos anos 90 recordar onde e quando o ouviu pela primeira vez.


A série a que pertence (ou pertencia) não é, no entanto, menos lendária ou memorável – pelo contrário, o tema e o programa estavam bem um para o outro. Tratava-se, como é evidente, de ‘Ficheiros Secretos’, a série que apresentou ao mundo o duo de David Duchovny e Gillian Anderson, duas estrelas em potência que, infelizmente, nunca confirmaram o potencial que demonstravam como co-estrelas deste lendário programa.


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A icónica dupla de protagonistas da série


Criada em setembro de 1993 por Chris Carter – um nome, a dada altura, não menos mítico do que o da própria série – ‘Ficheiros Secretos’ demorou menos de um ano a chegar a Portugal (uma raridade à época), tendo estreado na TVI em 1994, a tempo de cativar toda uma geração de jovens com a sua mistura de enredos sobrenaturais e de terror a uma típica série policial e de mistério – uma mistura que ajudava, e muito, a tornar o programa original, e a fazê-lo destacar-se de uma concorrência que, já na altura, jogava demasiado pelo seguro. Mulder e Scully viam-se, semanalmente, a braços com estranhas ocorrências, as quais, invariavelmente, acabavam por envolver fantasmas e/ou extraterrestres – por muito que a Scully de Anderson teimasse em manter o seu cepticismo empedernido, mesmo depois de duas temporadas inteiras de fenómenos deste tipo. Já o Mulder de David Duchovny seria, hoje, inevitavelmente tachado de ‘teórico da conspiração’ – ainda que os seus palpites e o seu ‘querer acreditar’ se acabassem sempre por revelar acertados. Junte-se a esta interessante dicotomia a óbvia química exibida pelos dois actores (que chegaram mesmo a ser um casal em consequência do seu trabalho na série) e o que temos é mesmo uma grande maneira de passar uma noite de sexta-feira.


E sim, dissemos ‘noite’, pois embora ‘Ficheiros Secretos’ fosse extremamente popular entre crianças e jovens, a verdade é que era transmitido já depois da ‘hora da cama’, obrigando muito do seu público a ficar acordado – aberta ou clandestinamente – para conseguir ver cada novo episódio. Valia o facto de no dia seguinte ser fim-de-semana…


E como qualquer programa de sucesso entre a miudagem, ‘Ficheiros Secretos’ deu origem a variado ‘merchandise’, de filmes originais (lançados no cinema!) à inevitável reedição de episódios em DVD, e das habituais t-shirts a números especiais de revistas como a ‘Super Jovem’, e até – famosamente – um daqueles jogos de cartas que, não se chamando ‘Magic: The Gathering’, nunca eram coleccionados (e muito menos jogados) seja por quem fosse. Em suma, sem ser uma força da natureza como os outros programas referidos no início deste texto, ‘Ficheiros Secretos’ tinha um lugar confortável nas preferências dos jovens (fossem portugueses ou estrangeiros) tendo, inclusivamente, ajudado a lançar a ‘febre’ dos extraterrestres, e a reavivar a dos fantasmas.


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Um dos muitos livros inspirados pelo sucesso da série


Infelizmente, mais uma vez, a velha máxima de que ‘tudo o que é bom acaba’ se provou acertada em relação a esta série, a qual – a partir da quarta temporada – decidiu retirar o foco do sobrenatural para se transformar em ‘só mais uma’ série sobre traições e espionagem; e o mais irónico é que o ‘arauto’ dessa viragem foi um personagem que muitos estavam desejosos por conhecer, após a série ter criado um enorme e aliciante mistério à sua volta. Infelizmente, quando se revelou a Mulder e Scully, o ‘Cigarette Smoking Man’ acarretou consigo o início do fim daquela que houvera sido uma série excelente, precisamente, por ser original. Daí para a frente, foi sempre a decrescer em termos de interesse, até já ninguém sequer saber que ‘Ficheiros’ ainda estava no ar, e muito menos se interessar. Uma pena, visto a série ter potencial para se ter tornado ainda mais lendária entre a geração que entrava na adolescência em finais dos anos 90. Mesmo com este desaire, no entanto, não a podemos considerar menos do que histórica entre a juventude portuguesa – e, como tal, bem merecedora de um lugar na rubrica sobre séries deste blog explicitamente nostálgico…


 

Sunday, 11 July 2021

Domingo Desportivo: O Eurosport

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.


E se no último Domingo Desportivo falámos da SportTv, o principal canal desportivo ‘made in Portugal’, hoje, abordaremos o outro grande canal de desporto disponível à época em Portugal: o Eurosport.


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Chegado ao nosso país a 5 de Fevereiro de 1989, ainda por TV satélite, e mais tarde incorporado nos primeiros pacotes da recém-chegada TV Cabo, em meados da década de 90, o canal de origem francesa tinha, sobre a sua congénere portuguesa, duas grandes vantagens: por um lado, a referida longevidade, que ajudara a tornar a sua ‘marca’ bem conhecida entre o público-alvo e, por outro, o facto de não ser um canal Premium e, portanto, não acarretar quaisquer custos extra para os utilizadores de qualquer dos dois serviços onde surgia. Quando aliados à programação de qualidade que exibia, estes dois argumentos eram mais que suficientes para tornar o Eurosport um clássico junto dos fãs nacionais de desporto.


O outro grande trunfo deste canal era o ecletismo, que – ao contrário da referida SportTv – não se limitava às modalidades mais conhecidas; pelo contrário, o Eurosport parecia ter orgulho em mostrar desportos praticamente desconhecidos ou ignorados em Portugal (e no Mundo) e que iam desde a natação à equitação, do snooker ao ténis de mesa e do ski ao ‘curling’ - foi, aliás, através deste canal que muitos jovens ouviram pela primeira vez falar deste estranho desporto sobre o gelo. Esta aposta declarada na diversidade tornava, também, o Eurosport no melhor recurso para assistir a provas ou resumos olímpicos, sendo a cobertura feita pelo canal a este tipo de eventos invariavelmente excelente (como, aliás, se passava também com o ciclismo).


Mas é claro que a programação do Eurosport não se resumia apenas a estes eventos menos consensuais e comerciais. O canal sabia que teria de conjugar esta tentativa de diversidade com aquilo que o público verdadeiramente queria ver, sob risco de perder audiências; assim, além dos eventos atrás elencados, o canal dedicava, também, algum do seu tempo de antena aos inevitáveis jogos de futebol. No entanto, mesmo aqui, o Eurosport marcava a diferença, preterindo os habituais jogos dos principais campeonatos em favor de jogos internacionais, sobretudo, de competições internacionais jovens; efectivamente, antes de a SportTv diversificar a sua programação e do advento do canal 11, o Eurosport era o melhor recurso para quem quisesse acompanhar torneios, Mundiais e Europeus de sub-21, sub-19 e até camadas mais jovens, o que sem dúvida terá atraído uma grande porção do público amante de desporto para o canal francês.


Tal como a sua congénere portuguesa fundada nove anos depois, também o Eurosport ainda persiste nas grelhas de programação da TV Cabo; no entanto, ao contrário da sua ‘rival’ paga, o canal francês aparece muito ‘enterrado’ na lista de canais, longe da preponderância que obteve em finais da década de 90 e inícios da seguinte. Ainda assim, o clássico canal desportivo retém um núcleo fiel de adeptos, cativados pelo ecletismo que o Eurosport continua – ainda – a advogar. E enquanto o canal francês dificilmente voltará a gozar do estatuto que então tinha entre os fãs de desporto, é bom saber que podemos continuar a contar com este ‘clássico’ entre os muitos canais atualmente disponíveis na TV Cabo…


 

Saturday, 10 July 2021

Saídas ao Sábado: Dia de Calor

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.


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Dia de calor extremo, com os UVs em grande. Ficava-se em casa com os restores descidos. Não havia saídas. E como tal, hoje também não há. 

Friday, 9 July 2021

Sextas com Style: As 'Concorrentes' da No Fear

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


Já aqui falámos, num post anterior, das sweat-shirts da No Fear; no entanto, e apesar de serem a face ‘mais visivel’ deste tipo de peça nos anos 90, as camisolas da marca americana não foram, de todo, as únicas representantes do mesmo, pelo menos em Portugal. De facto, na mesma época em que a referida marca esteve no seu auge, havia não uma, não duas, mas TRÊS marcas concorrentes a produzir o mesmo tipo de vestuário, todas com grande aceitação por parte do público infanto-juvenil.


Curiosamente, todas estas marcas trilhavam caminhos muito parecidos em termos de design, estando as suas estampas próximas não só das da No Fear, como umas das outras; de facto, o mais certo é que um leigo – ou alguém que, mais distraído, não lesse o nome da marca por baixo dos ‘bonecos’ – confundisse, à primeira vista, estas marcas, tal era a semelhança entre as peças que comercializavam.


A primeira destas marcas era a Bad + Mad, conhecida pelas suas t-shirts e sweat-shirts adornadas por ‘cartoons’ radicais e irreverentes, na sua maioria protagonizados pela mascote da marca, um jovem sem nome, de ‘crista’ espetada e cabelo rapado dos lados, muitas vezes visto em situações algo politicamente incorrectas. Era, precisamente, este lado rebelde, bem típico da segunda metade dos 90s que, aliado aos excelentes e detalhados desenhos, atraía o público-alvo, tornando estas camisolas (principalmente as de manga comprida) num item quase universal entre a população em idade escolar, e sobretudo os adolescentes.


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Um 'design' bem típico da Bad + Mad


Numa senda muito parecida surgia a brasileira Bad Boy, marca – à época – algo conotada com a prática do ‘skate’ (como, aliás, eram todas as referidas neste post, incluindo a própria No Fear.) Tal como as suas congéneres – tanto as referidas anteriormente como aquela de que falaremos em seguida – esta linha pautava-se pelos desenhos algures entre o ‘cartoon’ e o ‘grafitti’, os quais, aliados ao próprio nome bem rebelde da marca, ‘caíam no goto’ dos jovens da época, transformando a Bad Boy em mais uma daquelas marcas bem aceites e bem vistas em qualquer recreio de escola dos anos 90.


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Os 'designs' da Bad Boy eram mais centrados no logotipo da marca


Em concorrência directa tanto com estas duas marcas, como com a No Fear, havia ainda uma terceira, a qual, graficamente, se afirmava como uma espécie de fusão de todas elas. Tratava-se da Street Boy, uma marca que oferecia tanto os ‘cartoons’ incorrectos da Mad + Bad (uma das suas camisolas mais conhecidas retrata um rapaz, muito parecido com a mascote da referida marca, sentado na sanita, em pleno acto de ‘filosofar’) como da No Fear (outro dos seus ‘designs’ apresentava um par de olhos franzidos numa expressão de irritação, exactamente como um dos modelos mais conhecidos da marca americana). Infelizmente, o nome algo genérico da marca torna uma pesquisa Google nos dias de hoje extremamente difícil, tornando, mesmo que involuntariamente, a Street Boy em mais uma adição ao grupo dos Esquecidos pela Net. E a verdade é que a marca não o merecia, já que os seus ‘designs’ e a qualidade das suas peças pouco ficavam a dever às marcas mais conhecidas.


No fundo, três marcas quase intercambiáveis, e que, com a No Fear, formavam a ‘Santa Trindade’ das sweat-shirts para crianças e jovens entre os 8 e os 18 anos no Portugal dos anos 90; e, quem sabe, talvez o facto de pelo menos três  das quatro ainda existirem nos permita sonhar com uma redescoberta, a curto prazo, destas marcas por uma nova geração de jovens à procura de algo ‘fixe’ para vestir. Mesmo que tal não aconteça, no entanto, é bom saber que, num mundo cada vez mais politicamente correcto, ainda há quem se atreva a ser irreverente e se desviar do ‘politicamente correcto’…

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...