Qualquer
jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e
nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas,
exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam
sucesso entre as crianças daquela época.
Há
pouco menos de uma semana, o panorama da música portuguesa viu-se,
infelizmente, deprivado de mais um dos seus grandes nomes – um
músico conhecido tanto da Geração X como dos 'millennials', embora
por razões diferentes, e cujo contributo para o panorama musical
nacional é absolutamente inegável. Falamos de Luís Represas, o
cantautor de quem já aqui anteriormente falámos 'de passagem' mas a quem nunca prestámos verdadeiramente homenagem –
algo que fazemos agora, como forma de assinalar o seu falecimento,
aos apenas sessenta e nove anos de idade.
Membro
da geração 'construtora' do pop-rock português moderno, e
contemporâneo de nomes como Tim ou Jorge Palma, além de membro fundador dos seminais Trovante, Luís Represas
deixaria a sua marca de forma algo mais abertamente 'comercial' que
estes, sabendo sempre envolver as suas mensagens muitas vezes
contestatárias em 'embalagens' musicais acessíveis e prontas para o
'airplay' radiofónico, sempre com a sua característica e distintiva
voz como elemento principal. Tendo em conta este aspecto da sua
música, não deixa de ser curioso que o seu segundo maior sucesso
tenha surgido em forma de dueto, no caso com o congénere cubano
Pablo Milanés, com quem grava a imortal e arrepiante 'Feiticeira',
demonstração cabal do poder vocal de ambos os intérpretes, e que, juntamente com o hino de solidariedade com Timor-Leste, 'Ai Timor', constitui a música mais conhecida da carreira do arista.
Com
nome estabelecido ainda antes da gravação do primeiro álbum a
solo, não era difícil a Luís Represas notabilizar-se no meio
musical português, tendo o cantautor rapidamente adquirido um
estatuto que lhe permitia apresentar programas na RTP ('A Música DosOutros', do qual já aqui anteriormente falámos), ser convidado para interpretar missas em ambiente solene,
gravar retrospectivas de carreira com orquestras sinfónicas, compôr
'jingles' para campanhas de solidariedade (a contagiante 'Quero Uma
Casa Deste Tamanho', gravada para uma iniciativa da Swatch em 2002)
ou mesmo escrever um livro infantil! Isto, claro, além dos nove
álbuns de originais e inúmeras colaborações com músicos de
relevo dos PALOPS que efectuou ao longo das suas três décadas de
carreira a solo, que chegaram abruptamente ao fim no passado dia 22
de Julho, menos de dois anos após o lançamento daquele que acabaria
por ser o seu registo de despedida, 'MIRAGEM'. Que descanse em paz.
Porque
nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças
portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá
destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante
aquela década.
No
início dos anos 90, quando os 'talk shows' eram um género ainda
relativamente inexplorado na televisão portuguesa, não era de todo
invulgar ou estranho ver ser dado a uma personalidade de outro campo
do entretenimento o seu próprio 'tempo de antena' enquanto anfitrião
de um programa de entrevistas e variedades; o próprio HermanJosé
fazia, nesta altura, a transição para esse género, ao mesmo tempo
que Fátima Lopes cimentava os trâmites do que viria a ser o padrão
do mesmo para as três décadas seguintes. Em meio a tudo isto, e
ainda antes de Marco Paulo se aventurar nesta área, um outro cantor
popular tomava as rédeas da sua própria emissão homónima, cujo
primeiro episódio estreava há quase exactos trinta e um anos (a 13
de Julho de 1995).
Falamos
de Roberto Leal, o luso-brasileiro que fez carreira algures entre a
música romântica e o género 'pimba', 'derretendo' os corações de
boa parte de Portugal durante as décadas de 80 e 90, e que, em 1995,
se encontrava ainda suficientemente 'em alta' para a proposta em
causa não ser tão arriscada como se poderia esperar – até por o
foco ser, naturalmente, colocado na música, com os convidados a
inserirem-se quase totalmente nesse campo. O formato, esse, era o
habitual, com entrevistas um-para-um e, em cada programa, até dois
interlúdios musicais, a cargo de um dos três convidados – os
quais, para crédito da RTP, não se inseriam todos no género
popular comercial, havendo lugar a artistas de fado e grupos de
música tradicional, entre outros.
A
verdade, no entanto, é que, apesar do 'nome sonante' ao leme, e do
gabarito dos convidados, 'Roberto Leal' (o programa) nunca conseguiu
captar a sua audiência, talvez pela disparidade entre o meio musical
do apresentador e o dos convidados, muitos deles surpreendentemente
'eruditos' para o tipo de emissão em causa, e quiçá desfasados do
que o público fã de Leal procurava ver; ou talvez o interesse por
este tipo de programa, simplesmente, não fosse muito. Fosse qual
fosse o motivo, a verdade é que a experiência 'Roberto Leal' durou
escassos três meses no ar, datando a última emissão de 19 de
Outubro; não se pode, no entanto, culpar a RTP, que via num programa
deste tipo todos os ingredientes para o sucesso, o qual,
infelizmente, acabaria por nunca se materializar. Ainda assim, vale a
pena recordar esta espécie de 'ensaio geral' para o posterior
programa de Marco Paulo, menos de vinte e quatro horas após se terem
assinalado os trinta e um anos da sua primeira emissão.
Qualquer
jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e
nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas,
exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam
sucesso entre as crianças daquela época.
Quando
se pensa na cena radiofónica e musical do Verão de 1996 em Portugal
(e, para dizer a verdade, um pouco por todo o Mundo) vem
imediatamente à cabeça uma série de movimentos ainda hoje
relevantes e instantaneamente reconhecíveis, até mesmo por quem
ainda não era nascido quando todos os imitavam. Sim, a época
estival de há exactos trinta anos foi o ponto alto – cultural e
socialmente – da icónica dança da 'Macarena' e, por arrasto, da
música a que a mesma estava associada.
O
que poucos sabiam à época – e talvez nem mesmo saibam agora – é
que a versão da 'Macarena' ao som da qual toda uma geração dançou
não é a original, nem mesmo a primeira remistura; trata-se, isso
sim, da segunda revisão da música, que adiciona letras em inglês e
a famosa coreografia àquilo que era, originalmente, um tema de pura
música latina, conduzido por guitarras flamencas e com um ritmo
lento e contemplativo – precisamente o oposto da versão que
'rebentou' à escala mundial anos depois, e cujo impacto cultural
pode ser resumido pela imagem de políticos norte-americanos a
executar os inconfundíveis movimentos de braços durante um
congresso, frente a inúmeras câmaras de televisão.
E
a verdade é que, sem a adição dessa sequência de gestos, é
possível que o sucesso de 'Macarena' tivesse ficado confinado apenas
a Espanha ou, quanto muito, à Península Ibérica – ainda que uma
versão 'falsa' tivesse já penetrado em solo canadiano, executada
não pelos intérpretes originais, Los Del Rio, mas por Los
Del...Mar. A coreografia, e a 'febre' gerada pela mesma, asseguraram,
no entanto, a maior longevidade da música, que continuava a ser
ouvida (e dançada) mais de um ano e meio após o seu lançamento,
quase chegando também a ser o tema do Verão de 1997 – um feito
notável numa era em que os 'hits' radiofónicos tinham, normalmente,
um 'tempo de vida' de apenas alguns meses. Por isso, e por ainda hoje
ser um dos grandes identificadores culturais da geração
'Millennial' e da ponta final do século XX, a 'Macarena', e
respectiva dança, não podiam passar em claro nas páginas deste
'blog' nostálgico, numa altura em que se celebram os trinta anos do
seu 'pico' de relevância e popularidade em Portugal. E de certeza
que, só de ler estas linhas, haverá já gente a executar a
coreografia, em plena sala ou quarto, ao som silencioso da música
que toca na sua cabeça...
NOTA:
Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 29 de
Junho de 2026.
Qualquer
jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e
nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas,
exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam
sucesso entre as crianças daquela época.
A
'explosão' do pop-rock de atitude alternativa
vivida em Portugal durante as décadas de 80 e 90 permitiu não só
que bandas de teor mais radiofónico criassem 'hits' imortais que
integrariam 'playlists' durante décadas, como também que propostas
mais arrojadas e experimentais encontrassem o espaço de que
necessitavam para explorar a sua sonoridade. Talvez o maior exemplo
desta vertente – e uma das principais bandas experimentais da
História da música portuguesa – fossem os Primitive Reason,
banda multi-nacional da musicalmente fértil zona de Cascais, na Grande Lisboa, cuja
ecléctica e assumida mistura de estilos fez com que causassem furor
aquando do lançamento do seu álbum de estreia, que celebrou há
cerca de seis semanas o seu trigésimo aniversário.
Formada
em 1993 por três amigos de infância – um espanhol, um português
e um britânico – e com a formação original composta também por
um americano e um suíço, a banda destacou-se, desde logo, pela
junção das várias influências dos seus membros num todo que
poderia ser uma verdadeira 'salada de frutas' mas que, de algum modo,
se afirmava coeso e apelativo. Partindo de uma base alicerçada no
'reggae' e 'ska', o quinteto adicionava-lhe doses substanciais de
rock, punk e metal, bem como pitadas de 'jazz' e 'afro', criando um
som distinto, inqualificável, e que não podia deixar de tornar o
álbum de estreia, 'Alternative Prison' (lançado a 15 de Maio de
1996) num sucesso entre o público jovem consumidor de música, então
composto sobretudo por membros da 'geração X', bem como junto da crítica, tendo mesmo sido premiado como Álbum do Ano pelo mítico jornal Blitz, então referência máxima da imprensa musical em Portugal. Temas como
'Seven-Fingered Friend' (o mais conhecido da banda, e muito lembrado
também pelo seu 'videoclip') ajudavam a banda a estabelecer-se como
uma das mais entusiasmantes da segunda vaga de 'pop rock' português
moderno, e lançavam-nos para uma carreira que, apesar de alguns
'altos e baixos', lograria ultrapassar a marca das duas décadas.
A
banda não tardou, aliás, em dar seguimento a este sucesso, com o
segundo álbum, 'Tips & Shortcuts', que
expandia ainda mais o leque de influências
da banda (incluindo mesmo secções 'rappeadas') e que contava com
uma produção muito superior à do primeiro álbum, a cargo da
'lenda' da produção discográfica nacional Marsten Bailey. Por
entre tributos a NOFX e músicas cantadas pelo baterista, os
Primitive Reason davam um enorme passo em frente, o qual, apesar de
causar menos 'furor' que o primeiro, se afirmava tão ou mais
importante para a progressão da banda.
Quando
tudo parecia correr bem, no entanto, dá-se a inevitável convulsão:
com a banda já radicada nos EUA, país de origem do saxofonista Mark
Cain, o mesmo e outros dois membros (incluindo o vocalista Brian
Jackson) abandonam a banda, deixando ao baixista Guillermo de Lara e
ao baterista Jorge Felizardo o ónus de completar o terceiro álbum.
Para seu crédito, o duo não desiste e, com ajuda de conhecidos da
cena nova-iorquina, apresenta, em Julho de 2001, 'One Of Us', um
álbum que, naturalmente, apresenta maior ênfase na vertente rock e
punk do que os seus antecessores. Nos anos subsequentes, os dois
elementos restantes viriam a reformular a banda, e prosseguiriam
carreira, ainda que de forma bastante mais discreta, durante cerca de
uma década e meia, lançando nesse período três álbuns, quatro
EP's e uma colectânea, além de verem reeditados os seus dois
primeiros registos.
É,
pois, apenas em 2015 que se verifica a dissolução total da banda, a
qual permanece extinta durante mais de dez anos antes de – por
ocasião do supramencionado aniversário de 'Alternative Prison' –
o trio original se juntar mais uma vez em palco, pela primeira vez
desde 1998, para dois concertos comemorativos no festival Lisboa ao
Vivo e no mítico Hard Club, no Porto. Fica, assim, aberta a porta
para uma potencial reunião (ou, pelo menos, um reatar de carreira)
para aquela que foi uma das bandas mais personalizadas e
instantaneamente reconhecíveis da cena portuguesa de finais do
século XX.
Qualquer
jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e
nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas,
exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam
sucesso entre as crianças daquela época.
Quando
se fala de músicas icónicas para as gerações 'X' e 'millennial'
portuguesas, é impossível não recordar os 'hits de Verão' que,
anualmente, punham as crianças de Norte a Sul do País a dançar, e
lançavam os respectivos autores para a 'ribalta' – pelo menos
temporariamente, até serem substituídos pelo próximo artista ou
grupo com uma batida dançável e um refrão cativante. Os exemplos
são inúmeros, quase todos dentro do género do 'Europop'
(Whigfield, Aqua, Vengaboys, Lou Bega, Las Ketchup) embora, aqui e
ali, houvesse espaço a um ou outro 'intruso', fosse ele uma dança como a Macarena, um grupo
como Spice Girls, Backstreet Boys, Santamaria ou Excesso, um grupo de
comédia como os Mamonas Assassinas, Mercurioucromos ou Lunáticos,
uma 'importação' brasileira como Iran Costa, Daniela Mercury ou Netinho, um grupo de
'rap' com um 'hit' acidental, um cantor romântico, um 'fusionista' jazz como PedroAbrunhosa ou um artista de pendor mais electrónico, como os Bomfunk
MC's de 'Freestyler', os Eiffel 65 de 'Blue (Da-Ba-Dee)' ou o
italiano que, há exactos trinta anos, lançava o disco que viria a
conter o grande êxito do Verão de 1996.
Embora
aquando do seu lançamento, a 07 de Junho de 1996, 'Dreamland' (álbum
de estreia do DJ Roberto Contini, conhecido profissionalmente como
Robert Miles) fosse já no seu terceiro single, a vasta maioria do
público internacional (no qual se incluíam as crianças
portuguesas) conhecia-o, apenas e só, pela primeira faixa do álbum,
que havia também sido o seu primeiro single alguns meses antes.
Ainda hoje, perguntar a qualquer elemento da última vaga da Geração
X ou da primeira dos 'millennial' por 'Children' é activar uma
daquelas memórias dormentes, pronta a ser desperta no momento certo;
da boca dos mesmos sairá assim, quase certamente, uma aproximação
honesta quanto-baste do icónico 'riff' de piano que guiava o único
'hit' do italiano, e ao som do qual todo o jovem lusitano terá
dançado repetidas vezes naquele Verão de 1996.
Infelizmente,
como sucedia com a maioria destes artistas (com honrosas excepções)
Robert Miles era remetido ao esquecimento tão rapidamente como
surgira, uma vez findo o Verão e, com ele, o apelo de 'Children'. À
distância de trinta anos, no entanto, é inegável que se trata de
um excelente exemplo do peculiar sub-género de electrónica que
florescia no Sul da Europa à época, bem merecedora de uma rápida
'escutadela' de 'aniversário', a qual, sem dúvida, remeterá toda
uma geração a dias de Verão passados à beira da piscina, com a
'malha' de Miles como banda-sonora...
NOTA:
Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 25 de
Maio de 2026.
Qualquer
jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e
nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas,
exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam
sucesso entre as crianças daquela época.
Porque
nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças
portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá
destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante
aquela década.
Já
aqui em ocasiões anteriores falámos dos vários programas de
talentos surgidos na televisão portuguesa durante os anos 90 e 2000,
e que ajudaram a criar o precedente para o posterior sucesso de
conceitos como 'Ídolos' ou 'Factor X'; esta semana, em mais um
'post' duplo, recordamos outro dos pioneiros deste género de
emissão, o qual, como muitos outros exemplos surgidos na 'senda' do
sucesso de 'Chuva de Estrelas', nunca logrou ser tão conceituado ou
recordado como este.
De
facto, 'Selecção de Esperanças' (nome que 'brinca' com a
designação dada à época à Selecção de futebol masculino
sub-21) pode quase ser considerado como a resposta da RTP ao referido
programa, já que – como aquele – se centra na demonstração de
talentos vocais dos concorrentes de cada programa, cujas prestações
são avaliadas por um júri especializado, num formato muito
semelhante ao do programa da SIC. É, pois, incerto o motivo para a
pouca projecção da 'Selecção' da RTP por oposição à 'Chuva' de
audiências que a rival de Carnaxide conseguira com a sua versão do
programa. Seja qual fôr o motivo, no entanto, a verdade é que
'Selecção de Esperanças' se encontra, hoje, algo 'Esquecido Pela
Net', ainda que vários dos seus episódios constem ainda dos
arquivos digitais da RTP, onde podem ser visualizados e recordados
por quem, efectivamente, se recorde do breve período em que foram ao
ar, a partir de Maio de 1995.
Talvez
como consequência da falta de interesse do público em geral, a RTP
não voltaria a produzir um programa deste tipo durante as décadas
seguintes, deixando futuras tentativas para as concorrentes privadas,
e re-entrando na 'arena' apenas já no Novo Milénio, desta vez com
resultados bem mais satisfatórios. Quanto a 'Selecção de
Esperanças', o seu principal legado é o de ter sido um dos
pioneiros de um género então ainda embrionário na televisão
portuguesa, o qual, tal como grande parte dos internacionais jovens
de futebol, não logrou demonstrar o potencial que demonstrava
aquando da sua estreia, há quase exactos trinta e seis anos...
NOTA: Este 'post' é parcialmenterespeitante a Segunda-feira, 04 de Maio de 2026.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
De entre as muitas novas tendências que vieram alterar a forma de fazer televisão um pouco por todo o Mundo em inícios do Novo Milénio, os concursos de talentos estiveram entre as que maior impacto tiveram, com o sucesso imediato dos vários formatos regionais e nacionais a tornar este género ainda mais viável do que antes, e a motivar a criação de inúmeras variantes do mesmo conceito. Portugal não foi excepção a esta regra, com dois programas nacionais de inícios dos anos 2000 a procurarem recriar o sucesso do 'pioneiro' 'Chuva de Estrelas'; e se um deles fica já fora do âmbito deste nosso 'blog' (pelo menos por agora), o segundo merece algumas linhas, poucos dias após se ter celebrado o quarto de século sobre a sua transmissão, em Abril de 2001.
Versão localizada mas absolutamente fiel do conceito padronizado e replicado em diversos países do Mundo, o 'PopStars' português visava criar um grupo 'pop' inteiramente feminino, o que, por um lado, limitava o seu espectro no tocante a audições de aspirantes a artistas sem, no entanto, deixar de gerar as emoções e drama que os mais 'leigos' esperariam de um formato deste tipo. Para o efeito, foram levadas a cabo audições em quatro das principais cidades portuguesas (as 'duas capitais' e ainda Leiria e Coimbra) tendo mais de doze mil jovens entre os dezoito e os vinte e cinco anos tido oportunidade de mostrar os seus dotes vocais, com vista a integrar o grupo idealizado pelo projecto- tarefa que se revelava quase impossível, dado que apenas estavam disponíveis cinco vagas.
Curiosamente, das cinco finalistas, uma esteve em riscos de não integrar o programa, dado ser ainda menor de idade; felizmente para Liliana Almeida, o último dia de audições (em Lisboa) coincidia com o seu décimo-oitavo aniversário, permitindo-lhe realizar o seu sonho (ainda que 'à rasquinha') e juntar-se a Andrea Soares, Ana Rita Reis, Fátima Sousa e Kátia Moreira para formar as NonStop, que viriam a ter 'a' música daquele Verão, 'Ao Limite Eu Vou', retirada do seu primeiro álbum, gravado em questão de meses. Era o primeiro passo da bem-sucedida carreira daquela que era, para todos os efeitos, a versão lusitana de grupos como Hear'Say ou Eden's Crush, vencedoras das versões britânica e americana do programa, respectivamente, bem como uma digna sucessora de grupos como Excesso, D'Arrasar e Santamaria.
Apesar do relativo sucesso do formato e do 'produto' final, no entanto, a localização portuguesa de 'PopStars' não iria além dessa única temporada, por contraste aos supracitados países, onde teria ainda várias e bem-sucedidas sequelas; a SIC teria, assim, de esperar ainda um par de anos para descobrir a sua verdadeira 'galinha dos ovos de ouro' no campo dos 'reality shows' musicais, que se mantém no ar até aos dias de hoje, vinte e três anos após a sua primeira emissão. Quanto a 'PopStars', apesar da sua curta vida, continua ainda hoje a ser lembrado (seja com nostalgia, ironia, ou ambas) por quem era de uma certa idade nos anos de viragem do século e Milénio, tornando mais que óbvia a sua inclusão nas páginas deste nosso 'blog' nostálgico, um quarto de século após a sua breve mais memorável passagem pelas ondas aéreas portuguesas.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
O fado (esse estilo de música tão parecido com tantos outros 'lamentos' musicais ao redor do Mundo, mas ainda assim diferente de todos eles) tem sido, ao longo dos últimos séculos, um dos principais elementos da identidade nacional, a ponto de ser um dos identificadores imediatos da 'Portugalidade' junto dos turistas. E se Amália Rodrigues continua a ser a maior referência do estilo (sobretudo junto dos sobreditos turistas) as últimas décadas têm visto outros nomes almejar um lugar na lista de 'grandes' do fado, ao lado da eterna diva e de 'companheiros' como Carlos do Carmo, tendo mesmo alguns deles conseguido cruzar a 'fronteira' radiofónica, através do uso de elementos de fado em contextos mais comerciais, bastando neste caso recordar artistas como Madredeus, Dulce Pontes, ou a cantora que serve de tema a este 'post', Mariza.
Capa do álbum de estreia da cantora.
Com a sua ascendência luso-africana (a mãe é moçambicana, e a própria artista é natural de Lourenço Marques) e mistura de fado com estilos mais modernos, Mariza posicionava-se, desde logo, como uma espécie de 'Sara Tavares do fado' – e, como esta, viria a gozar de uma longa e decorada carreira, ainda hoje vigente, e que tinha o seu início 'oficial' há exactos vinte anos (a 21 de Abril de 2001) com o lançamento de 'Fado Em Mim', o primeiro registo de originais da cantora. Surgido quase dois anos após a revelação de Mariza ao mundo musical português, ao cantar num tributo póstumo a Amália Rodrigues transmitido em directo, o disco (inicialmente rejeitado por várias editoras dado tratar-se de uma artista inexperiente e desconhecida) viria a pulverizar quase de imediato quaisquer recordes vigentes de vendas para discos de fado, movendo mais de cem mil cópias na sua primeira semana, e eventualmente chegando às cento e quarenta mil após o seu lançamento internacional. Com a sua mistura de fado e outras sonoridades que a haviam influenciado – como a soul ou o jazz – Mariza mudava assim indelevelmente o panorama 'fadístico' nacional, revitalizando o estilo e abrindo caminho a sucessoras como Carminho.
Tal era o sucesso do disco, de facto, que o mesmo seria relançado logo no ano seguinte, numa edição especial acrescida de um disco gravado ao vivo (e que causa alguma confusão nos meios cibernéticos quanto ao ano de lançamento do disco), voltando a almejar grande sucesso tanto junto do público nacional como internacional. Seria, pois, sem surpresas que a carreira de Mariza continuaria 'de vento em popa' ao longo das duas décadas seguintes, tendo-se a artista conseguido afirmar e posicionar como uma das 'porta-vozes' não só do fado como da 'Portugalidade' em geral (foi, aliás, dela um dos temas oficiais de apoio à Selecção Portuguesa aquando de uma competiçãointernacional), posição que retém até hoje, quase exactas duas décadas após uma das estreias mais retumbantes da História da música portuguesa.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
O já aqui muito discutido 'boom' do pop-rock nacional de meados dos anos 90 não teve nas sonoridades mais radiofónicas o seu único expoente; embora as mesmas tenham dominado a 'cena' à época, e sejam hoje associadas com a dita, houve também muitos artistas mais alternativos que souberam 'aproveitar a onda' para se mostrarem a um público mais vasto. Foi o caso, por exemplo, dos Mão Morta, Lulu Blind, e do colectivo que abordamos esta Segunda-feira, e que logrou ter uma das mais auspiciosas carreiras de entre as bandas desta vertente menos comercial.
Formados em 1994 em torno do vocalista Miguel Guedes, os portuenses Blind Zero posicionavam-se, inicialmente, como o 'representante' português na cena 'grunge' que, então, ainda fazia sucesso um pouco por todo o Mundo. Com esta sonoridade mais pesada e intensa gravam um EP, que esgota em apenas nove dias, e a estreia 'Trigger', ambos há exactos trinta anos. E se o primeiro destes registos se tornou item de colecção, o segundo lançaria mesmo os Blind Zero para a fama nacional, muito graças ao tema 'Recognize', que levou a que o colectivo portuense passasse a fazer parte da colecção de muitos 'roqueiros' nacionais.
Esses mesmos fãs terão, no entanto, tido um choque quando, logo no ano seguinte, Guedes e seus 'comparsas' surgem com uma sonoridade mais 'calcada' no 'hip-hop' do que propriamente na 'imitação' de Pearl Jam que apresentavam em 'Trigger'. O EP 'Flexogravity' era, inclusivamente, um esforço conjunto com os conterrâneos Mind Da Gap, numa 'jogada' que desassociava definitivamente os Blind Zero da cena 'rock' e 'grunge', gerando controvérsia entre os fãs mas também libertando a banda para fazer aquilo de que realmente gostava: um som de fusão, que marcaria o restante da sua carreira.
O primeiro 'aperitivo' desse novo som surgiria, novamente, em rápida sequência com os lançamentos anteriores, tendo 1996 visto o grupo lançar um álbum ao vivo na Antena 3 (um 'marco' obrigatório para bandas 'mainstream' portuguesas da época) e articipar num concurso de jovens talentos de âmpbito europeu (que acaba mesmo por vencer com uma nova composição, 'My House') antes de, já em 1997, lançar então o sucessor 'oficial' de 'Trigger', 'Redcoast', que tem a particularidade de ter sido um dos primeiros 'CDs aumentados' ('enhanced CDs') da Europa, apresentando conteúdos multimédia quando inserido num leitor de CD-ROM. Além dessa peculiar distinção, o álbum contava ainda com a produção do famoso Mark Wilder, nos estúdios Sony de Nova Iorque, continuando o percurso declaradamente profissionalizante da banda.
Após 'Redcoast', o alucinante ritmo de trabalho da banda abranda um pouco, tendo o grupo gravado apenas uma música em 1998, 'The Wire', e tirado os dois anos seguintes para trabalhar no seu próximo álbum, que viria a sair em 2000. Com o título 'One Silent Accident' e produção de mais um nome sonante, Don Fleming, este álbum ajudaria a 'dar o mote' para mais duas décadas de sucesso no Novo Milénio, com direito a mais oito lançamentos, concertos ao vivo na MTV (um dos quais em Milão, na festa de lançamento da MTV Portugal) e mesmo um Video Music Award para Melhor Banda Portuguesa em 2003 – uma distinção que terá, previsivelmente, deixado 'inchado' qualquer fã de 'rock' português, mesmo aqueles que só conheciam o grupo dos seus já distantes primórdios como 'grungers' 'à portuguesa'. E apesar de o último registo da banda datar já de 2017 (com um regresso a sonoridades mais 'rock', pela primeira vez em mais de duas décadas) os Blind Zero continuam 'por aí', a marcar presença e posição nos palcos nacionais, como vêem já fazendo, praticamente sem interrupções e a nível tanto nacional como internacional, há quase exactas três décadas...
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Em 1989, o desconhecido grupo franco-brasileiro Kaoma inscrevia permanentemente o seu nome na lista de 'one-hit wonders' contemporâneos após o mega-sucesso da sua versão de uma música brasileira que, por sua vez, nada mais era que uma tradução ou localização (não autorizada!) de uma versão 'cover' da música 'Llorando Se Fue', do grupo boliviano Los Kjarkas. Ou seja, 'Lambada (Chorando Se Foi)' era, na sua base, uma versão de uma versão de uma versão do original de 1981! E porque poucas coisas com o nível de sucesso da referida música conseguem evitar o aparecimento de imitadores e 'cópias' fraudulentas, não tardou até que Portugal tivesse a sua própria versão do tema, a qual conseguia a proeza de ser uma 'cover' em quarto grau (!) da inspiração original dos Kaoma!
Capa do primeiro álbum de 'Camuta'.
Tal facto está, no entanto, longe de ser a parte mais mirabolante da história de Camuta, que conseguiu a proeza de lançar três álbuns em inícios dos anos 90...sem nunca ter chegado a existir. Isto porque, por detrás do nome em causa escondia-se apenas um homem: Toy, figura mítica da música popular e 'pimba' portuguesa, recrutado pela Discossete para gravar 'às pressas' várias lambadas, com a voz disfarçada e cantando em 'brazuquês', como forma de capitalizar sobre o sucesso do original. E embora Toy surgisse ainda creditado, no interior do álbum, como autor de vários dos temas, a interpretação dos mesmos era atribuída ao fictício 'Camuta', uma designação sob a qual o cantor viria a lançar não só esse primeiro álbum, de 1989, mas um segundo (criativamente intitulado 'Lambada 2') no ano seguinte, e, em 1992, também um álbum de versões de músicas de telenovelas (como 'Tieta' ou 'Rainha da Sucata', que dava título ao disco) desta vez emulando a voz da lendária Fafá de Belém!
Um 'embuste' que, obviamente, apenas seria possível numa época da História bastante mais crédula e inocente, mas que, de algum modo, conseguiu permanecer intocado mesmo após o início da 'era da Internet', tendo sido o próprio Toy a assumir a farsa, primeiro em entrevista à revista VIP e, mais tarde, no fascinante documentário sobre o movimento 'pimba' produzido e exibido pela RTP. Só então quem, à época, tinha adquirido este álbum (provavelmente em 'cassette', num daqueles icónicos expositores existentes nas tabacarias, bombas de gasolina ou estações de serviço do Portugal dos anos 80 a 2000) ficou a saber ter em sua posse o equivalente a um disco 'pirata', (uma espécie de versão portuguesa dos grupos de Frank Farian ou Jonathan King) naquele que ainda hoje se afirma como um dos mais fascinantes 'truques' de 'marketing' da História da música portuguesa.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Antes do kuduro, kizomba e outros géneros musicais afins, havia 'Danças no Huambo' – uma música que misturava 'reggae' aos referidos ritmos africanos, com letra contestatária e anti-colonial, mas que – numa daquelas ironias próprias do mundo das Artes – conseguiu pôr o povo colonizador criticado na música a dançar ao som dela ao longo de largos meses, e catapultar os seus autores (um trio angolano de nome impronunciável e ainda mais insoletrável) para um breve mas memorável período de mega-estrelato.
De facto, em conjunto com a sucessora 'Perigosa' (um tema bem mais de festa, cujo refrão pedia canto em uníssono e de mãos no ar, e que mostrava outra vertente da música do grupo) 'Danças no Huambo' foi o grande responsável pela disseminação, naquele Verão de 1995, do nome Kussondulola, o qual é, ainda hoje, associado quase exclusivamente a essas duas músicas. Isto porque, apesar dos largos anos de carreira (ainda hoje se encontram no activo) o trio centrado em torno do ex-futebolista Janelo da Costa não mais voltaria a almejar o sucesso que ambos os temas granjeavam ao seu álbum de estreia, o excelentemente intitulado ´Tá-se Bem´. Às 'costas' de 'Danças no Huambo' e 'Perigosa', Janelo e seus comparsas almejariam tocar em Vilar de Mouros, veriam o seu disco ser lançado também em Espanha, e saíriam os grandes vencedores do Prémio Revelação do mítico jornal 'Blitz' para aquele ano, distinção que lhes permitiria também figurar no CD 'Portugal ao Vivo', patrocinado e divulgado por essa mesma publicação.
O grande problema de ter um 'ano de estreia' repleto de conquistas, no entanto, é que é tão necessário quanto difícil ir de encontro às expectativas dos novos fãs angariados. E a verdade é que, para os Kussondolola, esse desiderato nunca foi totalmente conseguido, pesem embora os quatro álbuns (mais um 'boxset') que lançariam após 'Tá-se Bem' – o primeiro destes ainda na década de 90, em 1998, e com um título tão genial quanto o do seu antecessor. Apesar da fantástica designação, no entanto, 'Baza Não Baza' não lograria catapultar qualquer dos seus dois 'singles' para o nível estratosférico do seu antecessor, nem manter os Kussondolola como nome relevante no panorama musical português.
A partir desse ponto, o trajecto do grupo far-se-ia estritamente para uma base de fãs leal, mas significativamente menor do que três anos antes – a mesma que acolheria de braços abertos 'O Amor É...Bué', de 2001 (que continuava a comprovar o 'jeito' do grupo para nomear os seus álbuns), o 'ao vivo' 'Vive! Tens De Viver', no ano seguinte, a colectânea 'Cumué?', em 2004, e 'Survivor', de 2005, disco que contava com colaborações do calibre de Vitorino, Kalú, os 'dois Ruis' - Reininho e Veloso - Miguel Ângelo ou Sara Tavares, entre outros. Esta panóplia de convidados não foi, ainda assim, suficiente para voltar a pôr o trio no 'mapa' melómano português, e Janelo e seus colegas vir-se-iam a despedir das lides discográficas com um último álbum, 'Guerrilheiro', de 2006, seguido de um 'boxset' com músicas inéditar e ao vivo, em jeito de resumo de carreira, lançado em 2007.
Desde então, o grupo tem feito parte do circuito de música ao vivo português, 'animando' palcos de Norte a Sul do País com a sua sonoridade 'afro-reggae' bem contagiante e apelativa – não podendo, claro, faltar em cada concerto qualquer dos dois grandes sucessos que puseram Portugal a 'desbundar' há já trinta anos atrás...
NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 30 de Março de 2024.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
No tocante a programas de música e telediscos no Portugal dos anos 90, a referência imediata (e praticamente única) para a maioria dos 'millennials' nacionais será o icónico 'Top +', o mais próximo a que a televisão lusa da altura chegava do estilo de programação de uma MTV, cuja reputação atravessava, à época, o oceano, fazendo muitos jovens sonhar com algo equivalente mas falado e criado em Português. No entanto, nessa mesma época, a própria RTP veiculava um segundo magazine sobre música, hoje mais esquecido, mas que, à época, representou uma importante mudança de paradigma na grelha audiovisual do Portugal pré-SIC e TVI.
Tratava-se do 'Pop-Off', da autoria de José de Freitas, à época figura de proa nos esforços de representação do 'pop-rock' português nos 'media', e que decidia, com este formato, deitar ele próprio 'mãos à obra'. Não é, pois, de estranhar que este programa se destaque do 'irmão' do 'Canal 1' pelo seu foco exclusivo na cena portuguesa, à época num dos seus muitos períodos de florescimento. As habituais bandas internacionais que dominavam os 'tops' (incluindo o '+') eram, assim, substituídas tanto por 'suspeitos do costume' como Xutos & Pontapés, Delfins, GNR, Resistência ou Madredeus como por novas sensações do movimento, como LX-90ou Sitiados. Eram, no total, cerca de vinte e cinco minutos diários dedicados a telediscos, reportagens e notícias sobre música portuguesa, com a apresentadora Sofia Morais a servir de elo de ligação entre os diferentes segmentos que perfaziam o programa.
Um formato que tinha tudo para agradar ao público-alvo e que, sem surpresas, viria a reter um lugar na grelha de programação do 'Canal Dois' durante dois anos - período que até parece pouco, tendo em conta a relevância da temática e a excelente execução técnica do programa, sobretudo se se tiver em conta a duração substancialmente mais considerável do contemporâneo dedicado aos 'tops' internacionais. O curto ciclo de vida não impediu, no entanto, que 'Pop-Off' conquistasse um lugar tanto no coração dos melómanos da época como na própria história dos programas musicais na televisão portuguesa, tornando praticamente obrigatórias estas poucas linhas a ele dedicadas neste nosso 'blog' dedicado, precisamente, a recordar esses e outros aspectos da sociedade portuguesa de outros tempos.
NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-Feira, 23 de Junho de 2025.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Já aqui, anteriormente, falámos dos Excesso e D'Arrasar, duas das principais 'boy bands' portuguesas; no entanto, aquando desse 'post', deixámos de fora outros dois grandes nomes da música popular vocal da altura – os Millennium (a terceira grande 'boy band' nacional) e a dupla constituída pelos irmãos Rosado (Nélson e Sérgio) sob a denominação Anjos. Numa altura em que estes últimos voltam a estar na ribalta, devido a um processo jurídico movido contra a humorista Joana Marques, nada melhor do que dedicar algumas linhas àquela que continua a ser uma das grandes referências do seu nicho no nosso País.
Nascidos na Margem Sul do Tejo mas com raízes alentejanas, os irmãos Rosado desde cedo principiaram a seguir o seu sonho, tendo ingressado na Academia de Música ao completarem sete anos, e dado o seu primeiro espectáculo pago quando o mais velho dos dois, Nélson, contava apenas doze anos, e o irmão apenas oito. Por essa actuação – a primeira de muitas – receberam quinze mil escudos, uma autêntica 'fortuna' para 'putos' dos anos 80, e que servia como uma espécie de antevisão do que o futuro reservava aos dois.
Ainda assim, os futuros Anjos não 'embandeiravam em arco', e continuavam a conciliar a música com a escola e o futebol, sem, no entanto, deixarem de 'agarrar' qualquer oportunidade que surgisse para mostrarem o seu talento. Foi esta abordagem que lhes permitiu, já no final da adolescência, em 1996, participar no programa 'Lugar Aos Mais Novos', da Rádio Renascença e, no ano seguinte, na 'Casa dos Artistas' da RTP, saindo vencedores de ambos – mais um augúrio auspicioso para o que esperava os irmãos a breve trecho.
Após este sucesso enquanto dupla, Nélson e Sérgio ingressaram nos Sétimo Céu, uma tentativa de 'concorrente' a Excesso e D'Arrasar que não deu certo, durando menos de um ano. Longe de se deixarem desanimar, os dois irmãos viram este percalço como uma oportunidade para, mais uma vez, trabalharem como dupla, dando oficialmente e definitivamente início ao percurso dos Anjos no panorama musical português, corriam os últimos meses do Segundo Milénio. Era a convite de uma produtora nacional que a nova dupla – cujo nome remetia a uma 'alcunha' dada aos jovens pela sua avó – surgia na 'cena' popular nacional, e seria também, quiçá, essa ligação a permitir aos irmãos gravar o primeiro álbum, 'Ficarei', logo nesse ano de 1999, estabelecendo desde logo a sua fórmula assente na 'pop' romântica, com ênfase nas vozes dos dois integrantes. Ainda antes do final do Milénio (embora já nas últimas semanas do mesmo) o álbum viria a ser relançado com uma música adicional – o mega-sucesso de Natal 'Noite Branca', em que Sérgio e Nélson Rosado surgiam em dueto com a cantora Susana.
Estava dado o mote para (à data deste 'post') duas décadas e meia de carreira, nem sempre com tanto sucesso como naqueles primórdios, mas sempre com uma audiência cativa e pronta a 'apadrinhar' cada novo lançamento da dupla, o último dos quais remete já a 2022. Ainda assim, os Anjos continuam a usufruir de fama suficiente para serem convidados a cantar o hino nacional no início de eventos – privilégio que está na base do actual processo movido a Joana Marques, e que se vai, desde Julho de 2024, 'arrastando' em tribunal. Qualquer que seja o resultado do mesmo, no entanto, o impacto dos Anjos no panorama da música romântica em português está estabelecido, e dificilmente poderá ser negado, merecendo-lhes o destaque nesta nossa rubrica dedicada a artistas musicais nostálgicos.
NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 30 de Março de 2024.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
A chegada a Portugal da TV Cabo abriu novos horizontes aos quais o português médio não estava, de todo, habituado. Mesmo quem tinha televisão por satélite gozava de pouco mais do que alguns canais adicionais (e nem sempre com transmissão clara) enquanto que o novo serviço punha à disposição dos seus assinantes centenas de canais de uma só vez, todos (ou quase) com transmissão perfeita, e dentro dos mais diversos 'nichos' especializados. Para os espectadores mais jovens, em particular, isto representava uma amplitude consideravelmente maior no tocante a canaisdesportivos, de desenhos animados e, claro, de música, um dos mais perenes e intemporais interesses de qualquer criança ou adolescente.
E se os 'millennials' lusitanos haviam, até então, tido de se contentar apenas com o icónico 'Top +', a TV Cabo veio trazer-lhes a possibilidade de sintonizar canais de que, até então, apenas se ouvia falar em filmes ou programas de televisão estrangeiros, como a MTV e o VH1. De súbito, aquela parca 'horinha' semanal de 'videoclips' e êxitos de tabela transformava-se numa emissão praticamente perpétua, composta não só pelos vídeos 'da moda' como também por entrevistas a músicos e bandas, galas (como os icónicos MTV Video Music Awards, que mantiveram acordados pela noite dentro muitos jovens da época) notícias do foro musical, programas de curiosidades (como o 'Pop-Up Video' do VH1) documentários biográficos (como o lendário 'Behind The Music', do mesmo canal) e até conteúdos apenas tangencialmente ligados ao Mundo da música, os quais viriam, eventualmente, a 'tomar de assalto' a MTV, e a escorraçar os vídeos musicais pela qual a mesma se tornara conhecida.
Tal situação ainda estava, no entanto, a alguns anos de distância, pelo que os 'millennials' portugueses puderam, ainda, viver o 'auge' dos dois canais, a par da 'alternativa' nacional Sol Música (que já aqui teve o seu espaço) e do canal alemão VIVA, que permitia conhecer algumas das 'bizarrias' que iam fazendo sucesso na Europa Central. Um 'cardápio' com algo para todos os gostos, que não podia deixar de satisfazer os melómanos inveterados – mesmo faltando nele alguns 'ingredientes-chave', como o 'Headbangers' Ball', o programa de hardrock e heavymetal da MTV norte-americana, mas que não fazia parte da grelha da inglesa.
E se as constantes reestruturações de canais da TV Cabo vieram relegar estes canais de música para longe dos lugares de destaque que então ocupavam, a verdade é que pelo menos um – a MTV – 'resiste ainda e sempre ao invasor', qual Astérix dos canais musicais. Infelizmente, mesmo esse canal se encontra, hoje, muito desvirtuado, e quase irreconhecível para quem o conheceu nos anos 90 e 2000, quando – ao lado dos 'irmãos' nacionais e estrangeiros – constituiu um dos principais atractivos para se tornar assinante do novo e revolucionário serviço de televisão por cabo, e fez a alegria de milhares de jovens de Norte a Sul do País com as suas novidades áudio-visuais e culturais.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Um dos primeiros 'posts' musicais deste nosso blog versava sobre os Silence 4, ainda hoje quiçá o maior e mais reconhecível 'one-hit wonder' da História da música portuguesa – pelo menos, se descontarmos certosartistas 'pimba'. Nada mais justo, portanto, do que celebrar, esta Segunda-feira, o seu vocalista, David Fonseca, que comemora por estes dias os seus vinte e cinco anos de carreira a solo, numa iniciativa que dura já desde o ano passado.
Originalmente conhecido como membro dos Silence 4, que 'estouravam' no Verão de 1998 com o lendário 'Silence Becomes It', David já nessa altura se destacava pelo seu timbre original e único, algures entre um Rui Reininho com menos arroubos e trejeitos e algum vocalista do movimento 'new wave' e gótico da década anterior. Foi, portanto, com naturalidade que, após o fim do grupo em causa (em 2001, quando já pouco mais eram do que uma memória distante na consciência popular portuguesa) o vocalista tenha mesmo decidido seguir carreira a solo, a qual se iniciava dois anos depois com 'Sing Me Something New'. Seguir-se-iam um EP, um álbum de 'sobras', oito álbuns 'normais' e outros tantos de Natal, estes últimos lançados anualmente entre 2009 e 2016, com direito a 'dose dupla' em 2015.
A sonoridade desta nova fase alicerçava-se numa base ainda mais 'pop' que os Silence 4, ainda que numa vertente mais de 'cantautor', aproveitando o multi-instrumentalismo do músico. Não é, pois, de surpreender que as suas canções melodiosas e agradáveis tenham 'caído no gosto' do grande público ao longo dos últimos vinte anos, como já o haviam feito as do seu grupo original, ainda no Segundo Milénio. Parabéns pelo marco, David, e que venham mais vinte e cinco!
NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 2 de Setembro de 2024.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
Embora pareça obsoleto em plena era do 'streaming', o conceito de colectânea musical alimentou, durante décadas, o mercado fonográfico, com um número incontável de lançamentos anuais a caírem numa das suas duas sub-vertentes: por um lado, a compilação de 'artista único', que possibilitava a um fã mais casual ou simples 'curioso' ter um apanhado de toda uma carreira em duas dezenas de músicas, e, por outro, a reunião mais 'pura e dura' de temas de diversas bandas e artistas em um ou mais LPs, cassettes ou CDs.
Destas últimas, uma percentagem surpreendentemente significativa centrava-se sobre a música electrónica e de dança, um género que vivia, à época, uma época áurea, graças ao rápido crescimento e popularização, um pouco por todo o Mundo, da profissão de DJ. A Península Ibérica não era, de todo, excepção a esta regra, tendo a última década do século XX assistido ao lançamento de colectâneas electrónicas tanto no molde de compilação de canções no formato original (como a famosa série 'Electricidade', apadrinhada pela Rádio Cidade) como no de 'remixes' revistas, re-trabalhadas e alargadas para melhor se adaptarem às pistas de dança, como no caso da série anual espanhola 'Supermix' ou da 'resposta' lusitana à mesma, que analisamos neste 'post'.
Capa do primeiro volume da série, lançado em 1990.
Surgida logo nos primeiros meses da década de 90, a série 'Top Star' lograria manter-se relevante através tanto da era do LP como do CD, vindo a extinguir-se apenas já no dealbar da era do mp3, quando as músicas passaram a estar disponíveis em formato digital e os próprios DJ's a ter acesso a novos recursos tecnológicos, tornando este tipo de lançamento redundante e até algo obsoleto. A premissa, essa, manteve-se coerente ao longo da quase década e meia que durou o ciclo de vida da série, propondo uma saudável mistura entre os temas de maior sucesso nas pistas de dança nacionais durante o ano em questão e remisturas dos mais populares temas radiofónicos do mesmo período, que ajudavam a atrair melómanos mais 'casuais' e menos versados nas lides da música electrónica. Ainda assim, o público-alvo destas colectâneas (elas próprias concebidas por DJ's de vulto da cena nacional) ficava bem evidente pelo foco dado, na capa, a nomes desconhecidos para a grande maioria dos fãs de música da época.
Uma premissa, pois, em tudo semelhante à da referida 'Supermix', com apenas uma diferença significativa, nomeadamente o facto de os temas serem apresentados, não numa 'super mistura' de várias dezenas de minutos, mas antes a título individual, com inícios e fins bem definidos – escolha que, curiosamente, aproximava a série dos volumes mais 'tardios' da concorrente. Recaísse a preferência em que série caísse, no entanto, o certo é que não faltavam aos aficionados nacionais de música electrónica opções de entre as quais escolher na hora de adicionar mais um disco à sua colecção.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
De entre todos os estilos de música moderna, talvez o mais imediatamente associado à época estival seja a música de dança, ou pelo menos, dançável – seja na sua vertente Europop, 'pimba', ou de electrónica mais 'pura e dura'. Assim, não é de estranhar que, a cada Verão, continuem a sair colectâneas (ou, nos dias que correm, 'playlists') compostas especificamente por músicas feitas para tocar num qualquer estabelecimento nocturno à beira da praia. E se, hoje em dia, a escolha dentro desta vertente é praticamente ilimitada, em finais do século XX, as colectâneas de electrónica e música de dança eram, grosso modo, sinónimas com dois nomes: por um lado, as compilações 'Electricidade', da Rádio Cidade e, por outro, a série anual 'Supermix'.
'Supermix 5', de 1990, o primeiro volume da série misturado por um DJ português
Criada no país vizinho em meados dos anos 80, como forma de replicar 'dentro de portas' o sucesso de que o fenómeno das 'megamixes' vinha gozando a nível global, a referida série de colectâneas lograria manter-se relevante (e bem-sucedida) durante quase duas décadas, sempre fiel ao mesmo formato (excepção feita ao penúltimo lançamento, lançado já no Novo Milénio, em 2004, e que privilegiava os temas individuais em detrimento do formato homónimo da série.) No total, foram dezoito lançamentos (embora o último seja já 'póstumo') misturados por alguns dos nomes mais sonantes da electrónica espanhola e, mais tarde, também portuguesa.
De facto, embora os volumes lançados ainda nos anos oitenta tivessem ficado a cargo de DJ's espanhóis, o criador e ideólogo da série, Miquel Casas, não tardaria a tirar proveito da sua boa relação com executivos da Vidisco para dar também destaque a nomes portugueses, os quais 'entrariam em cena' a partir do quinto volume da série, e primeiro lançado na década de 90. De entre os vários nomes envolvidos, destacava-se o do DJ Jorginho, responsável pela mixagem de sete volumes consecutivos entre 1990 e 1997, ano em que 'passaria o testemunho' ao outro grande nome ligado ao Supermix, DJ Jash Hook ('nome de guerra' de Nélson Horta) que misturaria os últimos dois volumes lançados no século XX, e os dois primeiros da década, século e Milénio seguintes. O volume seguinte, Supermix 17, seria a 'excepção da regra' acima mencionada, enquanto o décimo-oitavo, lançado após um hiato de oito anos, traria misturas a cargo de Ricardo Jorge Pires, conhecido no meio como Massivedrum.
Por essa altura (2012) o meio musical, tanto em Portugal como um pouco por todo o Mundo, rumava já numa direcção mais centrada em músicas individuais e 'singles', que viria a tornar obsoleto o formato de colectânea em álbum, substituído gradual mas indelevelmente pelas 'playlists' gratuitas disponibilizadas em 'sites' como o YouTube. E embora o processo de transição para esta nova conjuntura fosse tudo menos imediato, o mesmo não deixou, ainda assim, de fazer vítimas, entre elas conceitos como o 'Super Mix', agora possíveis de forma independente, personalizada e gratuita. Ainda assim, é inegável que esta colectânea marcou época no seio do movimento da música de dança em Portugal, tanto entre os entusiastas do género como junto dos profissionais, justificando assim plenamente a sua presença nas páginas do nosso 'blog', numa altura em que começa, precisamente, a estação do ano em que desfrutaria de maior rotação em festas, bares, discotecas e praias de Norte a Sul do nosso País.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
No contexto certo, um tema musical pode ter tanto impacto, e fazer tanta diferença na percepção de um todo, quanto um logotipo ou qualquer outro elemento gráfico ou de apresentação; o do desporto não é excepção a esta regra, bastando relembrar a mais que icónica sequência de introdução dos jogos da Liga dos Campeões para comprovar esse facto. Assim, não é de surpreender que as entidades reguladoras de certos desportos, entre eles o futebol, procurem associar os seus principais eventos a um determinado tema ou canção, normalmente composto propositadamente para o certame, na esperança que o mesmo se imortalize entre o público adepto e faça perdurar na memória o evento que representa; e apesar de nem todas estas tentativas serem particularmente bem sucedidas, algumas chegam a almejar um determinado nível de tracção cultural, sendo um dos melhores exemplos a faixa sobre a qual versa o 'post' de hoje.
Falamos de 'Campione', 'malha' eurodance puramente noventista (culturalmente, ainda se estava nos anos 90 em meados de 2000) composta e interpretada pelo DJ sueco E-Type, e cujo motivo musical remete a uma canção popular holandesa de cariz patriótico, intitulada 'Oranje Boven'; para quem não é oriundo dos Países Baixos, no entanto, a melodia será 'apenas' a daquela canção do Euro 2000, ficando mais ligada àquele Verão de futebol do que a qualquer fervor patriótico. E a verdade é que, fosse qual fosse a fonte de inspiração, E-Type fez um trabalho magnífico no tocante à composição da faixa, transformando-a num daqueles 'hinos' de que basta ver o título para imediatamente evocar o refrão e batida mais do que pegajosos, e colocar até o mais empedernido dos roqueiros a trautear o pseudo-cântico de estádio que serve de base aos mesmos. Não é, pois, de admirar que o próprio cântico em si tenha, posteriormente, sido adoptado para esse mesmo propósito na 'vida real', extravasando assim os limites da música em que se insere – o que não pode deixar de ser considerado um sinal de sucesso compositivo.
É, pois, por demais evidente que 'Campione' constitui um exemplo claro de sucesso no campo das sinergias entre eventos desportivos e o mundo da música, ainda que não atingindo o nível da referida música da Champions ou ainda de 'Força', o hino do Euro 2004 da autoria de Nelly Furtado. Ainda assim, uma composição mais que merecedora de menção nestas nossas páginas, numa altura em que se celebram vinte e quatro anos não só sobre o seu lançamento, mas sobre o evento a que serviu de banda-sonora oficial.
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
O conceito de grupos formados por familiares musicalmente inclinados não é, de todo, nova; de facto, desde o dealbar da música moderna que, de uma forma ou de outra, irmãos, irmãs, primos ou até pais e filhos se têm juntado para gravar, ou simplesmente interpretar ao vivo, temas do seu estilo favorito. Dos grupos vocais dos primórdios à sua evolução natural nas décadas de 70 e 80 – quando Jackson 5 e The Osmonds adaptavam o mesmo som de base a demografias diametralmente distintas – este tipo de banda tem sido uma das pedras basilares do mercado 'pop', tendo mesmo acabado por influenciar estilos mais enérgicos ou agressivos.
Assim, não é de surpreender que também os anos 90 tenham tido os seus diversos representantes deste estilo de grupo, na sua maioria constituídos por adolescentes do chamado 'Midwest' norte-americano – aquela longa faixa de vários estados no 'coração' do território onde pouco ou nada acontece de particularmente entusiasmante, e a vida se desdobra entre casa, a escola, a igreja e um ou outro ponto de encontro para os jovens da terra. Num ambiente como este, a música acaba por ser um dos poucos meios de 'agitar' um pouco o quotidiano, e, dada a importância da família na cultura maioritariamente cristã daquela parte do Mundo, é natural que dali saiam inúmeros grupos musicais de e para jovens, e que muitos deles sejam constituídos por familiares directos. Foi o caso, na última década do século XX, de colectivos como The Moffats, Kelly Family, e o grupo que lhes 'abriu as portas' à fama – um trio de 'meninos-bonitos' loiros, de cabelo comprido e vozes angelicais, mas capazes de compôr e interpretar os seus próprios temas, que, no Verão de 1997, gozaram de um insólito e até inesperado momento de fama, e conseguiram pôr boa parte do Mundo ocidental a entoar um refrão perfeitamente 'nonsense'.
A banda, tal como era à época.
Filhos de um músico de Tulsa, Oklahoma, no Sul dos Estados Unidos, Isaac, Taylor e Zac Hanson iniciaram-se nas lides musicais ainda em idade de instrução primária, interpretando temas 'a capella' e versões de temas clássicos de rock'n'roll. Nessa primeira fase, todos os três rapazes tocavam piano, mas a evolução musical dos irmãos rapidamente viu Isaac encarregar-se da guitarra e o pequeno Zac, então com pouco mais de seis anos, gravitar para a bateria. Surgem então as primeiras gravações oficiais, dois álbuns independentes lançados localmente em 1994 e 1996, o segundo dos quais continha uma versão embriónica daquele que viria a ser o maior sucesso do trio, do qual tirava também o nome. Os seus contactos dentro da indústria musical permitiam também aos 'manos' tocar no festival South by Southwest, um conceituado evento de música alternativa, onde acabariam por ser descobertos por um agente, que rapidamente os começa a apresentar a editoras discográficas. Após várias 'negas' da parte de executivos que os viam como pouco mais do que uma curiosidade, a Mercury decide apostar no grupo, lançando, em 1997, o seu primeiro álbum distribuído a nível global, 'Middle of Nowhere'.
A capa do álbum que catapultaria a banda para o estrelato.
E se a capa amarelo-canário do disco e a tenra idade dos intérpretes poderiam levar a pensar numa literal 'boy-band' ou grupo declaradamente infantil, os irmãos Hanson surpreendiam com um álbum de sonoridade adulta, alicerçado num 'pop-rock' com toques e 'tiques' 'country' - ou não fossem os rapazes do sul dos EUA – pronto para a rotação nas rádios alternativas norte-americanas. Ou melhor, era esta a sonoridade de onze das doze músicas do disco (treze, na versão em CD); a outra era uma 'cançoneta' pop-rock que escondia uma temática surpreendentemente adulta (o fluxo de relações interpessoais efémeras vivido por qualquer ser humano) por detrás de um refrão feito de sons desconexos e improvisos vocais, que deixava a nu a tenra idade dos integrantes. Uma candidata improvável a 'single' e mega-sucesso, talvez – mas seria precisamente nisso que se viria a tornar aquando do seu lançamento mundial, sobre o qual se celebraram na semana transacta (concretamente a 15 de Abril) exactos vinte e sete anos.
De facto, contra todas as probabilidades, 'MMMBop' 'cairia no gosto' da geração contemporânea dos três irmãos – então com dezasseis, catorze e onze anos – e 'tomaria de assalto' as ondas radiofónicas mundiais no Verão de 1997, durante o qual eram poucos os jovens que não conhecessem (e cantarolassem) aquela sequência de sons incrivelmente 'viciante' que compunha o refrão da música. Esperassem-no ou não, os 'manos' Hanson eram agora mega-estrelas em 'miniatura' ao nível do que tinha sido, anos antes, um Macaulay Culkin, com direito a presenças em programas de televisão como 'The Weird Al Show', 'Melrose Place' e 'Space Ghost: Coast to Coast', da Hanna-Barbera, e a turnês mundiais repletas de jovens da sua idade prontos a entoar com eles o famoso estribilho.
O 'single' de 'MMMBop'.
A 'sede' por novo material por parte desta mesma base de fãs viria também a justificar a reedição de um dos álbuns independentes do grupo, agora renomeado 'Three Car Garage', e do inevitável disco de Natal, 'Snowed In', no espaço de poucos meses! Esse mesmo espaço de um ano (entre 1997 e 1998) veria, também, os irmãos figurarem entre os artistas mais novos de sempre a serem nomeados para um Grammy, e lançarem no mercado a sua biografia oficial – de jovens que, recorde-se, ainda não haviam saído da adolescência - ou, num dos casos, sequer ENTRADO na mesma! A popularidade do grupo assumia, assim, contornos de 'febre' – e, como qualquer febre (física ou social), também esta não demoraria a passar.
O segundo álbum do grupo já não almejaria o mesmo sucesso da estreia.
De facto, no espaço que mediou entre o sucesso vindo do 'meio do nada' e o disco seguinte do grupo, 'This Time Around', de 2000, Isaac, Taylor e Zac amadureceram, assumiram um visual mais roqueiro – a condizer com a nova sonoridade em que apostavam – e perdiam o 'factor fofura' que os fizera dar nas vistas três anos antes. Em conjunção com a absorção da Mercury pela Def Jam – da qual resultava um menor orçamento promocional – esta mudança precipitou o declínio de popularidade do trio, que se viu obrigado a financiar a turnê desse segundo álbum por conta própria, e teve de se contentar com audiências bem mais modestas.
Os Hanson nos dias de hoje.
Este típico ciclo de 'ascensão e queda' não desmotivou, no entanto, o grupo, que – entre a organização de acções filantrópicas e retiros para músicos - prosseguiu a carreira nessa vertente mais discreta, lançando um novo álbum imperetrivelmente a cada três anos durante toda a primeira década do Novo Milénio, até 2013, data em que se verificou um maior hiato, que seria quebrado em 2017, com uma turnê orquestrada comemorativa dos vinte anos de 'Middle of Nowhere' e novo disco de Natal. Quatro anos depois, surge o sétimo disco de originais, rapidamente precedido do oitavo (e, até agora último) lançado em 2022, já depois de os irmãos se terem visto envolvidos em controvérsias derivadas das suas posições conservadoras, sobretudo no tocante às vacinas e restrições aplicadas aquando da pandemia de COVID-19. O típico final algo 'deprimente' para artistas que, na mente de toda uma geração, serão para sempre aqueles adolescentes loiros e de cabelos compridos a divertirem-se à grande no lendário videoclip de um dos maiores sucessos do pop-rock noventista, capaz de fazer qualquer 'millennial' regredir à infância ou adolescência durante três minutos e meio...