NOTA: Este post é relativo a Domingo, 27 de Junho de 2021.
Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.
E visto termos acabado de terminar uma quinzena de ‘posts’ totalmente dedicados ao futebol, nada melhor do que falarmos, hoje, do canal que trouxe o futebol internacional – nomeadamente o de outras ligas que não a portuguesa, e de outras Selecções que não apenas a Geração de Ouro – aos lares nacionais de forma permanente: a Sport TV.
Fundada em 1998 e financiada pelas principais operadoras nacionais e pela Olivedesportos, a Sport TV destacou-se, à época, por ser o primeiro canal ‘premium’ totalmente produzido em Portugal – além, claro, de ser exclusivamente dedicado a um tema apetecível e ‘vendável’, como é o desporto.
Assim, não foi de todo de estranhar que o canal se tornasse um quase imediato sucesso de vendas, mesmo implicando um acréscimo no valor da conta mensal da TVCabo; afinal, a Sport TV representava uma mudança quase completa do paradigma vigente de ‘um jogo por semana, se tivermos sorte’. Pelo contrário – este canal permitia acompanhar TODOS os jogos, inclusivamente os das divisões secundárias, bem como os das principais ligas estrangeiras! Uma proposta irresistível para fãs de futebol, especialmente os de clubes mais pequenos, habituados a só verem o seu clube na televisão quando jogava com um dos grandes – e apenas se fosse esse o jogo escolhido para transmissão nessa semana - ou nos resumos do Domingo Desportivo. Enfim, um verdadeiro festim, que justificava plenamente o preço de admissão.
Apesar de ser indubitavelmente o principal atractivo, no entanto, o futebol não era o único trunfo na manga da Sport TV. Pelo contrário – o canal oferecia de tudo um pouco e, ainda que a variedade nunca chegasse a ser tão eclética quanto a do principal concorrente, o Eurosport, oferecia motivos mais do que suficientes para fãs de outras modalidades investirem na assinatura. E foi precisamente o que estes fizeram, tornando a Sport TV num dos bastiões daquela primeira – e maravilhosa – vaga de canais Premium da TV Cabo portuguesa.
O resto da história é bem conhecido: o sucesso do canal original faz com que a Sport TV se expanda para cada vez mais canais, cada vez mais especializados, chegando ao cúmulo de, em meados da década transacta, haver TREZE (!!!) canais subsidiários do conceito original, dos quais seis eram dedicados a modalidades ou mercados específicos. Desses, resta hoje cerca de metade (sem contar com as versões HD), sendo que um deles – a Sport TV + - é oferecida em canal aberto; uma oferta mais controlada, mas nem por isso menos ecléctica, e que continua a fazer as delícias dos fãs de desporto em Portugal. E quem se lembra do nascimento do canal original, ali ainda antes do virar do século, não pode evitar um sorriso de orgulho por ver o seu ‘bebé’ tão ‘crescido’…
Programa noticioso dos primeiros meses de vida da Sport TV, ou uma viagem no tempo à borla? Na verdade, é ambos...
NOTA: Este post corresponde a Sábado, 26 de Junho de 2021.
As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.
E para terminar em beleza a ‘semana europeia’, nada melhor que recordar um dos momentos mais excitantes na vida de um pequeno adepto: o visionamento de um jogo, não em casa na televisão, mas ‘ao vivo’, fosse no próprio estádio ou (mais frequentemente) no café da esquina, entre vizinhos e conhecidos.
Ambas estas vertentes tinham os seus atractivos, embora os mesmos fossem, necessariamente, muito diferentes. A experiência de ir ao estádio (que nem todos chegavam a viver, e a maioria muito raramente) tinha a seu favor todo o ‘frisson’ inerente a uma saída ‘especial’, muitas vezes aliada ao atractivo da compra do inevitável cachecol, boné ou camisola do clube do coração, e da ainda mais inevitável combinação de sandes-e-sumo, fosse antes do jogo, fosse durante o intervalo; depois, havia também a emoção de ver os jogadores ‘ao vivo e a cores’ (embora, muitas vezes, do tamanho de bonecos) e de sofrer ou exultar em uníssono com centenas ou até milhares de estranhos, unidos apenas por uma cor e credo, fosse clubístico ou patriótico. E, no dia seguinte, havia ainda a alegria de se poder ‘gabar’ na escola aos que não tinham podido ir, ou comparar experiências com os que lá tivessem estado – uma parte imprescindível deste tipo de experiência, envolvesse ela o que envolvesse.
Os jogadores parecem bonecos, mas...who cares?! ALLEZ ALLEZ!!
Já o ‘jogo no café’, embora mais corriqueiro e, como tal, menos emocionante, tinha a seu favor o ambiente bem mais descontraído e familiar, que se traduzia sobretudo em oportunidades frequentes de comentar o jogo com os presentes, trocar ‘galhardetes’ e picardias, e em geral estar bastante mais à vontade do que se estaria rodeado de estranhos, num estádio gigantesco. E, claro, a combinação sandes-e-sumo (ou bolo-e-sumo, porque havia jantar em casa) estava também inevitavelmente presente, embora neste caso o cachecol, camisola ou boné tivessem de ser trazidos de casa.
Mais plasma menos plasma, está tudo mais ou menos na mesma...
Em suma, duas Saídas de Sábado bem diferentes, mas ambas extremamente gratificantes para qualquer criança dos anos 90 – e, suspeitamos, também para as actuais. Afinal, apesar de todos os avanços tecnológicos dos últimos vinte anos, estas são daquelas experiências que se mantêm, fundamentalmente, inalteradas…
NOTA: Este post corresponde a Sexta’feira, 26 de Junho de 2021.
Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.
Camisolas de futebol. Hoje em dia, não há quem não tenha pelo menos uma do clube ou jogador favorito, nem que seja para a ‘peladinha’ ou o ginásio semanal. Mas se nas últimas duas décadas este tem sido um item quase banal em lojas, hipermercados e até barraquinhas de praça ou feira – em versão mais ou menos legal, consoante o local de compra – há escassos trinta anos, não era bem assim. Em meados da década de 90, as camisolas de futebol eram, ainda, caras e difíceis de encontrar se não se soubesse onde ir para comprá-las; até mesmo as lojas de desporto tendiam a vender, sobretudo, camisolas ‘anónimas’, destinadas a serem usadas como uniforme para equipas amadoras, mais do que como acessório de beleza.
Uma das poucas camisolas de futebol da época encontráveis na Internet actual
E, bem vistas as coisas, isto nem sequer era assim tão estranho; afinal, um dos principais atractivos de comprar uma camisola destas – ter o nome e número do nosso ídolo nas costas – ainda não era práctica comum à época, só se vindo a popularizar já no novo milénio. Quem comprasse uma camisola nos anos 90 não estava com a camisola do Figo vestida – apenas com a número 7 de Portugal; ou seja, a compra de um item deste tipo era uma questão mais clubística ou patriótica do que propriamente de admiração por um jogador em particular. E quanto a vestuário alusivo a futebol, mas que não fossem camisolas (do género que se vê, por estes dias, nas referidas lojas, hipermercados e bancas) pura e simplesmente não existia – ou, quando existia, era tão proibitivamente caro como as camisolas em si.
O único outro exemplo alusivo à Selecção das Quinas encontrado
Mesmo assim, uma pesquisa na Internet ainda permite encontrar algumas camisolas desse tempo, tanto da Selecção como de clubes – embora, claro, em muito menor número do que os modelos da década seguinte, quando este tipo de artigo se popularizou. Mas é aos anos 90, e não ao novo milénio, que este blog diz respeito – e como tal, esta viagem nostálgica pelas camisolas de futebol tem mesmo de terminar por aqui…
NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 25 de Junho de 2021.
Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.
Apesar de, tradicionalmente, serem poucos ou nenhuns os produtos alimentares directamente alusivos a campeonatos internacionais de futebol (quanto muito, haverá uma ou outra promoção em produtos já existentes, mas sem nunca afectar a ‘essência’ dos mesmos, por assim dizer) houve pelo menos um alusivo ao desporto-rei em si, enquanto conceito lato – e era tão bom, que vale bem a homenagem nesta ‘semana Europeia’.
Tratavam-se – aliás, tratam-se, pois o produto ainda existe – dos Cheetos Futebolas, que consistem exactamente naquilo que o nome indica, ou seja, os populares ‘snacks’ de milho da Matutano, mas moldados em formato de bola, em vez dos tradicionais palitos de maior ou menor espessura. À primeira vista, isto pode não parecer nada de extraordinário (certamente nada que mereça um post por si só, especialmente quando ainda há pouco tempo falámos dos snacks da Matutano em geral) mas os Futebolas escondem mais um segredo, que acaba por justificar este destaque – nomeadamente, o facto de serem muito melhores do que os Cheetos ‘normais’.
Passamos a explicar – sabem como os Cheetos sabem, mais do que nada, àquele ‘pó’ laranja de que são cobertos? Ou a pó de queijo, no caso da variante desse sabor? Pois agora imaginem se não fosse esse o caso. Imaginem se os Cheetos soubessem àquilo a que é suposto saberem, ou seja, a milho e queijo; aí têm o sabor dos Cheetos Futebolas. Mais secos do que as outras variantes (no bom sentido) por serem feitos no forno em vez de fritos, estes ‘snacks’ sabem, mais do que nada, a um cruzamento entre Cheetos e os deliciosos precursores dos Doritos, os Fritos – uma mistura que, diga-se, resulta muito, mas mesmo muito bem.
Quando somado à atenção ao detalhe na confecção destes ‘snacks’ (as bolas têm pequenas linhas embutidas, a simular as costuras das bolas de futebol) este factor fazia, e continua a fazer, dos Cheetos Futebolas uma proposta bem atractiva para os fãs de futebol comerem enquanto viam – ou vêem - os jogos de Portugal, o que acaba por justificar a sua inclusão nesta quinzena de apoio à Selecção.
NOTA: Este post é relativo a Quarta-feira, 23 de Junho de 2021.
Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog...
…como é o caso dos matraquilhos.
Complemento perene de cafés, pastelarias e ‘tascas’ por esse Portugal afora, os matraquilhos não são um passatempo exclusivamente nacional (foram, aliás, inventados em Espanha, mais concretamente na Galiza) mas para quem seja mais desapercebido, quase pode parecer ser esse o caso. Afinal, ainda hoje, mais de três quartos de século após terem sido patenteados, os matraquilhos ou ‘matrecos’ marcam presença em estabelecimentos de refeições leves, acampamentos, colónias de férias, salões de jogos, e onde mais couber uma mesa.
E se muitos países estrangeiros se contentam com ter aquelas mesas básicas, com bonecos azuis sem feições a defrontar bonecos laranjas sem feições, nós portugueses não fazemos por menos – os nossos jogadores de mesa de ‘matrecos’ surgem, inevitavelmente, vestidos a rigor com os equipamentos do Sporting, Benfica ou Porto.
Podia-se fazer uma 'jogatana' numa mesa destas? Podia, mas não era a mesma coisa...
De igual modo, enquanto no estrangeiro se vão popularizando as horríveis mesas modernas de plástico, em Portugal continuamos apegados às nossas históricas e maravilhosas criações em madeira, tão sólidas e resistentes como intemporais, sempre com aquele ar de quem já foi usado por gerações de jogadores, e estará lá para ser utilizada por várias gerações mais…
Mesa de 'matrecos' que se preze simula um 'derby'. E quanto mais gastos os jogadores, melhor...
Enfim, apesar de serem de origem galega, os ‘matrecos’ foram-se, ao longo das suas décadas de existência no nosso país, transformando numa experiência bem ‘portuguesa’ – não só no aspecto e envolvência, como na própria forma de jogar (certos países, por exemplo, não respeitam a Regra Sagrada; no Reino Unido, as roletas não só valem, como são mais abusadas do que um Hadouken num jogo de Street Fighter.)
No entanto, a verdade é que este jogo tão simples quanto viciante – seja a dois ou, preferencialmente, a quatro jogadores – é popular o suficiente a nível internacional para justificar a existência, por exemplo, de (múltiplos!) videojogos de ‘simulação’; isto já sem contar, é claro, com as mesas em formato miniatura que todos nós queríamos ter no quarto nos idos de 90 (por aqui, havia uma, muito apreciada.) Enfim, um jogo intemporal, que atravessa gerações, e que, em tempos de euforia futebolística como os que se vivem nestas duas ou três semanas do Verão de 2021, merece bem a homenagem retrospectiva!
NOTA: Este post é relativo a Terça-feira, 22 de Junho de 2021.
Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.
Hoje em dia, qualquer fã de futebol – seja de clubes ou internacional – tem uma variedade de meios à escolha se pretender acompanhar o seu clube ou Selecção de eleição. Mesmo sem entrar pelos meandros da Internet, se um dos quatro canais principais não estiver a transmitir a partida pretendida, a SportTV ou o novíssimo Canal 11 certamente terão algum tipo de solução – e, em último recurso, há sempre o ecrã de plasma do café da esquina…
Tempos houve, no entanto, em que não era assim. Tempos, até, bem mais recentes do que pensa; basta, por exemplo, lembrar que na década de 90, os fãs de futebol portugueses podiam ver exactamente UM jogo por semana – normalmente, de um dos três grandes – ficando, no restante, reduzidos a relatos radiofónicos ou resumos no Domingo Desportivo. Até mesmo a Selecção Nacional se via adstrita a este regime, ainda que em menor escala – até porque, à época, as Quinas não eram ainda consideradas uma das grandes Selecções mundiais, e não participavam necessariamente em todos os torneios.
Foi, precisamente, em meados da década de 90 que a situação começou a mudar. O advento do Euro '96 – um dos Campeonatos Europeus mais mediatizados até então – e a presença da Selecção no mesmo levaram os jornalistas a redobrar esforços no respeitante à cobertura do evento, o que acabou por se traduzir numa das primeiras instâncias de cobertura desportiva como a entendemos actualmente.
A principal responsável por esta mudança de paradigma foi a SIC, então ainda em início de vida, e que decidiu marcar posição enviando uma equipa de reportagem a Inglaterra, não para seguir a Selecção, mas para avaliar o clima geral da competição. O resultado foi uma peça noticiosa histórica, de indole inédita à época, que desviava o foco dos jogadores e das partidas e o colocava, firmemente, nos adeptos. Mas não QUAISQUER adeptos – adeptos britânicos, alcoolizados, e que tinham como ídolo particular um então titular habitual da Selecção das Quinas…
Enfim, um momento ‘divisor de águas’, e que incentivou as restantes emissoras a seguir o exemplo da SIC no tocante a peças sobre desporto. Claro que a mudança não foi imediata – antes pelo contrário – mas também é certo que, em finais da mesma década, o jornalismo desportivo já se assemelhava muito mais ao que hoje conhecemos. E tudo por causa de quatro adeptos alcoolizados e um cântico de louvor a Jorge Cadete…
Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve –e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitosartistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.
No início desta semana desportiva, quando falámos sobre o Euro ’96, aludimos ao facto de o mesmo não ser, exactamente, um Euro normal. A febre inglesa pelo ‘seu’ Campeonato Europeu transformou aquilo que era só mais uma competição desportiva internacional – emocionante, sim, mas igual a tantas outras – naquilo a que os próprios britânicos chamariam ‘a big deal’.
Isto foi particularmente not]orio no campo do merchandising’, sendo que a competição de 96 viu serem lançados alguns produtos comemorativos oficiais, no mínimo, invulgares. Para além dos habituais cromos, copos e outros brindes do género, o Euro inglês foi o primeiro a ter um videojogo oficial (hoje prática comum, mas à época, um acontecimento inaudito) e continua, até aos dias de hoje, a ser o único a ter um CD de banda sonora oficial! É precisamente deste último – denominado ‘The Beautiful Game: The Official Soundtrack of Euro ’96 - que falamos neste post.
Vendo bem, a ideia de um CD de banda sonora de um Euro jogado em Inglaterra – especialmente durante os anos 90 – não é, de todo, descabida. Afinal de contas, as Ilhas Britânicas viram surgir, através dos tempos, alguns dos mais excitantes artistas e grupos musicais de sempre - basta lembrarmo-nos da British Invasion ou do movimento ‘punk’, entre tantos outros. Ora, este disco foi lançado precisamente no auge de um desses movimentos, no caso a ‘Britpop’, que começara a popularizar-se um par de anos antes; assim, não é de estranhar que grande parte das mais de duas dezenas de artistas aqui incluídos façam parte desse movimento, caso dos Blur (cuja ‘Parklife’, sátira à falta de aspirações do britânico médio que, num golpe de ironia, virou um hino dos mesmos ao seu estilo de vida, é talvez a mais conhecida de entre as músicas aqui incluídas), Pulp, Teenage Fanclub ou The Boo Radleys.
'AAAAAALLLL THE PEEEOOOPLEEEE...SOOO MAAANYYY PEEEOPLEEEE...'
Não, o que verdadeiramente surpreende na selecção de músicas de ‘The Beautiful Game’ é o seu ecletismo, e o facto de haver por aqui bandas de movimentos tão díspares quanto a ‘new wave’ (New Order) ou a electrónica (Stereo MCs, Jamiroquai), o rock electrónico (Primal Scream ou Black Grape, que aqui surgem com um convidado de luxo na pessoa de Joe Strummer, líder dos Clash) ou o ‘trip-hop’ (Massive Attack, Olive.) Em comum, estas bandas só tinham mesmo o facto de virem das Ilhas Britânicas – e, no caso dos suecos Wannadies, nem isso! (A propósito, a sua ‘Might Be Stars’ é das coisas mais divertidas deste disco.)
A divertida 'Might Be Stars', dos Wannadies, únicos representantes estrangeiros neste disco
Em suma, uma selecção bem variada, com algo para todos os gostos (excepto, talvez, para os fãs de metal) e bem mais cuidada e curada do que se poderia esperar de um álbum deste tipo, com patronício de marca de bebidas e tudo.
Visto de 25 anos no futuro, ‘The Beautiful Game’ é uma verdadeira ‘cápsula do tempo’ que nos transporta até à Grã-Bretanha de meados dos anos 90, ao som de algumas das bandas mais populares da altura, e sem sequer precisar do contexto específico do campeonato – ainda que algumas músicas mencionem o futebol (em particular ‘Parklife’ e a final ‘Three Lions’, adoptada como cântico oficial pelos fãs ingleses devido ao seu refrão de ‘football’s coming home, it’s coming home, it’s coming!’) a maioria pode ser ouvida e apreciada por si só.
Agora já sabem de onde vem o cântico...
Por isso, se gostam de Britpop, rock alternativo ou electrónica, fica a dica – há coisas bem piores do que este peculiar produto de ‘merchandising’ futebolístico...
Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.
E já que temos, ao longo desta semana, vindo a assinalar a realização do Campeonato Europeu de Futebol 2020 com a exploração de temas relacionados ao futebol, nada melhor do que nos debruçarmos, hoje, sobre o jogo que permitia às crianças daquela época realizarem o seu próprio Europeu, no chão do quarto de sua casa.
Sim, o Subbuteo – um jogo de que qualquer criança que tenha entrado numa drogaria, papelaria ou loja de brinquedos da época certamente se recordará. Isto porque, na década de 90, não havia estabelecimento deste tipo que não tivesse, pelo menos, uma daquelas caixinhas ‘de equipa’, com onze jogadores trajados a rigor, prontos a serem ‘piparoteados’ na direcção da baliza.
Quem nunca viu uma destas pendurada na drogaria do bairro?
Isto porque era, precisamente, assim, que o Subutteo funcionava – literalmente à base de ‘piparotes’. A ideia era que os jogadores utilizassem este método para impulsionarem os jogadores, os quais se encontravam colocados sobre bases oscilantes ao estilo ‘sempre-em-pé’, que tornavam impossível prever a distância ou até a direcção da sua deslocação. Esta característica tinha como fim adicionar um factor ‘surpresa’ às partidas, o qual, no entanto, era por vezes descartado em favor da previsibilidade e eficiência – isto é, havia quem simplesmente agarasse o jogador pela cabeça e o balançasse na direcção da bola, a fim de a fazer ir para onde se queria…
Era suposto ser assim, mas...
Como quer que se jogasse, no entanto, o Subutteo era sempre garantia de emoções fortes – sobretudo se o jogo encenado fosse um ‘derby’. Se cada jogador fosse adepto da equipa que controlava, um Sporting-Benfica em Subutteo era tão emocionante quanto um real ou disputado num jogo de computador ou consola; caso contrário, um dos intervenientes tinha sempre, a contra-gosto, de ficar com a equipa adversária – normalmente com a promessa de, no jogo seguinte, as posições se trocarem.
É claro que o referido jogo implicava mais do que apenas duas equipas – mas não MUITO mais. Havia um campo oficial do Subbuteo à venda (com balizas a sério, que se colocavam nos respectivos lugares nas bordas do – literal – tapete verde) mas mesmo quem não tinha acesso a este luxo facilmente organizava um jogo, nem que fosse no próprio chão do quarto ou da sala.
O campo oficial do Subbuteo, com os jogadores já a postos para uma partida (crédito da imagem: CustoJusto)
Quem não tinha dinheiro para comprar os jogadores ou pais dispostos a comprá-los - ou quem queria jogar na escola, mas não queria andar sempre a ter de contar e verificar se tinha os jogadores todos para não arriscar perdê-los – podia, ainda, recorrer a uma solução ainda mais caseira, e também muito popular entre as crianças da altura – as equipas feitas de caricas de garrafas de refrigerante, daquelas de vidro, em cada uma das quais era escrito o respectivo nome e número de jogador. Assim que estivessem reunidos ‘futebolistas’ suficientes, era só aplicar o princípio do ‘piparote’ – e, à falta de bola, era considerado golo sempre que uma carica entrava na baliza.
Enfim, fosse com homenzinhos de madeira pintada ou com caricas, com campo ou sem campo, a verdade é que o Subbuteo marcou a geração de 80 e 90 – como tinha, aliás, marcado várias outras ao longo das suas (então) quatro décadas no mercado. E embora o jogo ainda exista hoje em dia, este é mais um daqueles brinquedos que quase faz pena a geração mais nova já não ir conhecer em pleno – porque a verdade é que um bom jogo de Subutteo conseguia ser tão ou mais emocionante que um de FIFA, com a vantagem de ser bastante menos previsível…
Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.
E porque na última edição desta rubrica já falámos de bolas de futebol, hoje, vamos falar do que se costumava fazer com elas – nomeadamente, jogar!
Quem tem Facebook já deve ter visto uma imagem que anda a circular entre os círculos saudosistas, em que são listadas as regras do futebol de rua; e se a maioria das imagens e gráficos deste tipo costuma oscilar entre o um bocadinho lamechas e o francamente manipulativo, esta acerta em cheio – à parte uma ou duas regras menos ‘universais’, trata-se de uma descrição perfeita de como o jogo de futebol costumava ser jogado nas ruas, pátios de escola, ringues e pelados ‘de bairro’ por esse Portugal fora.
De facto, para além das regras que regem, oficialmente, o jogo do futebol, parecia haver outras que, apesar de não estarem escritas em lado nenhum, pareciam ser intrinsecamente aprendidas e aplicadas por qualquer criança que tivesse tido contacto com uma bola. Coisas como ‘é golo daqui até ali’ ‘não vale altas’, ‘não vale bujas’, ‘o gordo vai à baliza’, ‘quem é tosco joga à defesa’ ou ‘quem marcar ganha’ não precisavam de ser discutidas nem acordadas antes do jogo começar - era, pura e simplesmente, assim que se jogava, e quem dissesse o contrário era olhado com estranheza por todos os presentes.
Uma baliza perfeitamente válida.
Outras regras destes jogos incluíam o facto de o dono da bola e o melhor jogador (ou segundo melhor, caso o melhor fosse o próprio dono da bola) terem prioridade para o lugar de capitão, de todos os ‘foras’ serem disputados com um grito de ‘NOSSA!’, mesmo que claramente NÃO fosse nossa (era uma questão de princípio), de ninguém ficar no chão ao sofrer falta, a menos que se tivesse magoado a sério, e de a bola não precisar de ser de futebol, sendo que um grupo verdadeiramente empenhado jogava com qualquer coisa entre uma bola de ténis e uma de basket (sim, jogava-se futebol com bolas de basket. E vazias!!)
Enfim, o que contava mesmo era a oportunidade de jogar – e tirando alguns dissabores (erros cometidos, golos falhados, ou a vergonha suprema de ser escolhido em último e ver a equipa inteira a revirar os olhos e a planear como tirar o ‘tosco’ do jogo o mais possível) era sempre uma oportunidade que valia a pena aproveitar, e que merece bem esta singela homenagem por parte de um dos maiores ‘toscos’ com quem alguma vez alguém teve o azar de jogar. Esperemos, pois, que o futebol de rua nunca morra, e que continue a proporcionar uma forma saudável, divertida e competitiva de exercício para crianças, jovens e até alguns mais ‘crescidos’…
NOTA: Este post corresponde a Sexta-feira, 18 de Junho de 2021.
Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.
O futebol não é, exactamente, uma temática muito comum em filmes de longa-metragem. Em parte, tal deve-se ao facto de a maioria deles ser produzida nos Estados Unidos, onde o ‘soccer’ é visto como uma coisa mais de crianças (e de nicho) e onde ‘football’ designa um desporto completamente diferente; não é, portanto, de surpreender que eles prefiram falar do ‘football’ ‘deles’ do que do ‘nosso’,
O que é mais surpreendente é terem, também, havido tão poucos filmes europeus sobre aquele que é o desporto mais popular do Velho Continente. O novo milénio contribuiu para a ‘causa’ com a trilogia ‘Goal’, e houve um ou outro filme independente sobre o tema, mas em geral, a referência do género continua a ser americana, e tem já cerca de cinco décadas (‘Fuga Para a Vitória’, que nem sequer é verdadeiramente um filme ‘de futebol’).
A situação agrava-se ainda mais ao analisar os anos 90 da perspectiva de um mini-adepto de futebol que desejasse ver o desporto reproduzido no ecrã gigante. Havia ‘Se A Minha Cama Voasse’, é verdade – mas, de resto, os poucos filmes infantis em que o desporto era abordado, como ‘The Big Green’ ou ‘Switching Goals’, ou nunca chegavam a Portugal, ou se perdiam no circuito de video, onde seriam vistos apenas por acaso, se a criança visse a cassette no clube de vídeo e a capa lhe agradasse.
Poster de 'The Big Green'
Para adeptos mais velhos, a situação não era muito melhor, existindo, em toda a década de 90, apenas dois filmes com a temática futebolística dignos de destaque.
O primeiro é ‘Amor em Jogo’ (‘Fever Pitch’), de 1997, e que se diz inspirado no livro do mesmo nome, que revelou o escritor Nick Hornby; no entanto, as semelhanças entre filme e livro resumem-se a alguns pormenores e cenas, não aproveitando o longa-metragem quase nada da obra autobiográfica de Hornby que supostamente lhe serve de inspiração.
Assim, seguimos no filme a saga de Paul Ashworth (Colin Firth), um fanático por futebol (é, inclusivamente, treinador da equipa da escola) que se vê obrigado a redefinir prioridades quando inicia uma relação com a nova colega Sarah Hughes (Ruth Gemmell). Seguem-se as habituais peripécias, enquanto Paul tenta balancear os seus ‘dois amores’, não sendo o final tão feliz quanto se poderia esperar num filme deste tipo. Um bom ‘filme de Sábado à tatde’, que inclusivamente foi objecto de um ‘remake’ americano, em que o casal romântico é interpretado por Jimmy Fallon e Drew Barrymore, e o desporto em foco passa a ser o muito mais americano beisebol.
Trailer da versão original (britânica) de 'Fever Pitch - Amor em Jogo'
O único outro filme sobre o desporto-rei digno de nota durante os anos 90 é ‘When Saturday Comes’, de 1996. Nele, um Sean Bean bastante mais magro do que é hábito interpreta Jimmy Muir um futebolista amador que é alvo de prospecção por do Sheffield United, e tem de lidar com essa mudança de paradigma.
Trailer de 'When Saturday Comes'
De resto, há muito pouco – além dos supracitados ‘Switching Goals’ (com Mary-Kate e Ashley Olsen) e ‘The Big Green’ (uma divertida comédia infantil nos moldes de ‘The Mighty Ducks’, ‘Little Giants’ ou ‘The Bad News Bears’) o único outro filme é ‘Ladybugs’, com Rodney Dangerfield, uma comédia absurda sobre uma equipa de futebol feminino, bem típica da época, a qual talvez encontrasse público entre os mais novos, mas não era abertamente dirigida a estes. Muito, mas mesmo muito pouco, quando comparado à oferta relativa ao ‘outro’ futebol, que na mesma época, incluía ‘Rudy’ e ‘Little Giants’, entre outros…
O poster de 'Ladybugs'
Ainda assim, por pouco que representassem, vale a pena, e época de Europeu, relembrar estes filmes da ‘nossa’ década dedicados ao desporto-rei…
NOTA: Este post corresponde a Quinta-feira, 17 de Junho de 2021.
Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.
Numa das primeiras edições desta rubrica, falámos das colecções de cromos, um dos mais populares passatempos entre as crianças dos anos 90; e como qualquer pessoa que tenha ‘estado lá’ prontamente admitirá, as colecções mais conhecidas e ferventemente ‘negociadas’ e completadas eram as de futebol.
Destas, havia dois grandes tipos, ambos popularizados pela Panini, e ambos com sensivelmente o mesmo formato: as anuais, relativas às formações dos clubes da Liga Portuguesa da respectiva época, e as alusivas às competições internacionais. Ambas ofereciam aos ‘putos’ da época (quase todos do sexo masculino) a oportunidade de colar as caras dos seus jogadores nacionais e internacionais favoritos nas sempre atractivas cadernetas, e de ‘gabarolar’ junto dos amigos quando completavam as mesmas antes deles.
...o quê, vão dizer que em 96 não sonhavam ter a cara do Secretário colada em qualquer lado?
A caderneta alusiva ao Euro ’96 não constituía excepção a qualquer destas regras, ficando apenas na memória por ser uma das primeiras a incluir a Selecção Nacional portuguesa - o que a terá, sem dúvida, tornado ainda mais popular junto do público-alvo. De resto, a caderneta era igual a todas as suas congéneres, tanto em formato – além dos jogadores, cada página dedicava um lugar à foto de equipa e outro ao símbolo de cada Selecção – como em aspecto, com as tradicionais ‘molduras’ à volta da imagem de cada jogador, e o não menos característico papel brilhante, que realçava o colorido dos fundos de página alusivos a cada país, ou à competição em geral.
Uma das páginas da caderneta
Cabe realçar, no entanto, que apesar de os conteúdos serem os mesmos em todos os países onde a caderneta era comercializada, o mesmo não se passava com as capas; Portugal recebeu apenas a variante ‘standard’, mostrada no início deste post, mas a Alemanha, por exemplo, tinha a mesma imagem em fundo vermelho-escuro, enquanto que outra variante encontrada na Internet se destaca por não ter absolutamente NADA a ver com qualquer das outras.
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Capas ‘estranhas’ à parte, no entanto, não há muito mais a dizer sobre os cromos do Euro ’96; tratava-se de uma colecção de futebol perfeitamente vulgar pelos padrões da sempre fiável Panini, que seguia à risca a receita futebolística de ‘em equipa que ganha, não se mexe’ – a qual já havia dado resultado no passado, daria resultado aqui, e voltaria a dar resultado aquando da próxima competição internacional, que renderia à editora uma das suas mais bem-sucedidas cadernetas da década. Quanto a ‘Europa ‘96’, a mesma também se pode inserir nesse leque, como bem atesta a caderneta que por estas bandas se preencheu, e que ainda há pouco tempo ‘morava’ algures na Área Metropolitana de Lisboa…
A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.
As bandas desenhadas com temática futebolística são tudo menos comuns – e nos anos 90, ainda menos o eram. Se a década de 70 havia tido Sport Billy, a de 80 Pelezinho, e o novo milénio viria a ter Ronaldinho Gaúcho e Neymar (estas três últimas da Mauricio de Sousa Produções, ‘especialista’ neste tipo de história) os anos 90 não viram ser editado qualquer título alusivo a esta temática, pelo menos que chegasse a Portugal. Nem mesmo a BD franco-belga ajudava, estando os heróis da mesma mais virados para aventuras do que para competições desportivas (e quando competiam, era em desportos como a corrida, como era o caso com Michel Vaillant.)
Num post em que se pretende falar de revistas aos quadradinhos dos anos 90 e, ao mesmo tempo, fazer alusão ao Campeonato Europeu que ora se desenrola – ou, pelo menos, a futebol em geral – é, portanto, mesmo preciso puxar pela imaginação; felizmente, imaginação é coisa que não falta por aqui – e, como tal, conseguimos mesmo arranjar maneira de ligar estes dois temas, falando dos dois maiores apaixonados pelo desporto-rei daquela época.
Situados em lados opostos da barreira Disney/Mauricio de Sousa que dividiu e continua a dividir a BD brasileira, estes dois personagens personificam o fanatismo brasileiro por futebol, o qual rivaliza ou até supera o do continente europeu; assim, numa semana em que nos debruçamos sobre o futebol nas suas mais diversas formas, nada mais justo do que prestar-lhes a devida homenagem.
E começamos, desde logo, pelo representante da Disney – nada mais, nada menos do que o personagem mais declaradamente brasileiro do seu elenco, Zé Carioca, o qual, depois de as suas histórias terem sido definitivamente e exclusivamente centralizadas nos estúdios brasileiros da Disney, passou a aparecer frequentemente ‘trajado a rigor’ com o uniforme cor-de-rosa da equipa do seu bairro, o Vila Xurupita F. C., no qual actua como ponta-de-lança e goleador. De igual modo, várias das histórias do personagem passaram a ter como tema central o futebol, e as agruras do ‘time’ amador de Zé, Pedrão, Nestor, Afonsinho e companhia – o qual, apesar de não ser lá grande ‘espingarda’, chegou a ter oportunidade de enfrentar o Flamengo (equipa do coração de Zé) num jogo beneficente, numa história muito bem conseguida.
Uma das edições especiais de Zé Carioca alusivas ao Mundial de Futebol, esta lançada nos anos 90
A paixão de Zé pela ‘bola’ estende-se, no entanto, para lá dos limites do terreno de jogo, sendo que quando não está em campo, o papagaio é muitas vezes visto a ‘sofrer’ em frente à televisão, já que dinheiro para ir ao estádio, raramente existe (sendo as excepções as vezes em que consegue assistir ao vivo a um Campeonato do Mundo, em edições especiais temáticas.) Enfim, um ‘adepto-modelo’, com o qual muitos de nós certamente se identificavam e identificarão.
O mesmo, aliás, pode ser dito do seu congénere do outro lado da ‘barricada’ (e do eixo Rio-São Paulo), o igualmente fanático Cascão. E se Zé Carioca representa o adepto adulto, ainda que irresponsável, Cascão representa a criança que todos fomos, ou pelo menos, contra quem todos jogámos – aquele ‘puto’ que tinha jeito para a ‘bola’, ‘levava tudo à frente’, driblava meia equipa e marcava grandes golaços. É precisamente isto que vemos Cascão fazer na maioria das histórias em que o vemos jogar futebol, e mesmo os amigos não têm qualquer pejo em o considerar a ‘estrela’ das suas ‘peladinhas’ – em contraste directo com o melhor amigo Cebolinha, que é considerado ‘grosso’ (‘tosco’). Este chegou, mesmo, a ser o tema central e único de não uma, mas duas publicações da MSP,, uma ainda nos anos 90 e outra mais recente.
A edição temática sobre futebol lançada nos anos 90, com Cascão como protagonista
Tal como com Zé Carioca, no entanto, a paixão de Cascão extravasa os jogos de rua com os amigos; ‘doente’ pelo Corinthians, por quem sonha um dia jogar, o ‘sujinho’ da MSP é muitas vezes visto com a camisola do ‘Timão’ orgulhosamente envergada, e chega mesmo a acompanhar o pai a jogos do seu clube do coração, durante os quais vibra incessantemente. Mais uma vez, quem não se identificar, que atire a primeira pedra…
Em suma, apesar de não residirem na Europa nem terem sido criados por artistas europeus, estes dois personagens simbolizam de tal forma a paixão global e internacional por futebol, que acabam por se encaixar perfeitamente nesta semana especial europeia; porque se a presente competição fosse um campeonato mundial em que o Brasil participasse, podem crer que os dois estariam lá, na primeira fila, lado a lado, vestidos a rigor, e a fazer a festa…
A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.
A expressão ‘jogos de futebol dos anos 90’ traz à memória muitos e bons jogos, de FIFA e Actua Soccer a Goal, Sensible Soccer ou International Superstar Soccer, entre outros. No entanto, uma memória que essa expressão NÃO evoca é a de jogos alusivos aos Campeonatos Europeus de Futebol. Mundiais, sim (a começar pelo excelente World Cup 98, da sempre fiável EA Sports), mas Euros…nem por isso.
Esta tendência é fácil de explicar, se pensarmos que a maioria dos jogos desta geração (incluindo os títulos de futebol) eram produzidos no Japão e Estados Unidos, e vendidos não só para a Europa, mas para todo um mercado mundial consumidor de títulos deste tipo, que incluía nomeadamente a América Latina. Para além disso, na era pré-FIFA (ou seja, a primeira metade dos anos 90) a maioria dos jogos não tinha qualquer vínculo oficial, pelo que as companhias eram livres de inventar as suas próprias competições, sendo estas postas ao serviço do jogo, e não o oposto.
Esta situação só viria a mudar com o advento do Euro 96, quando a ‘febre’ do retorno do futebol à sua casa-berço – Inglaterra – deu à criadora de software Gremlin a ideia de fazer um jogo só e especificamente baseado naquela competição, em exclusivo para o mercado europeu (a bem da verdade, o único que nele poderia ter algum interesse). A sorte acabou por sorrir à companhia britânica nesta empreitada, já que a Gremlin não só conseguiu a licença oficial do certame, como também teve a sua tarefa muito simplificada em termos de programação, visto já possuir no seu currículo um título de futebol; bastou, pois, dar uma ‘lavadela de cara’ a esse jogo, e o primeiro videojogo oficial de um Europeu estava pronto a lançar.
Sim, tal como aconteceria alguns anos mais tarde com a EA Sports, a Gremlin limitou-se a lançar o seu título de futebol habitual (o qual até já contava com equipas internacionais), actualizando apenas os nomes dos jogadores e reduzindo as competições a uma – o próprio Euro, com as suas 16 equipas. Tirando esses pequenos detalhes, ‘Euro 96’ – o jogo – é apenas mais um título da série Actua Soccer, com a mesma jogabilidade, qualidades e defeitos dos seus antecessores, e dos que se lhe seguiriam, nomeadamente ‘Actua Soccer 3’.
Todos os gráficos do jogo são retirados de 'Actua Soccer', mas com a devida adaptação ao ambiente do Euro.
No entanto, mesmo esta versão reduzida de um jogo já existente foi suficiente para capturer o coração dos adeptos britânicos, cuja febre ‘Eurística’ ajudou a colocar a versão do jogo lançada para Sega Saturn no topo das tabelas de vendas (curiosamente, este título nunca foi lançado para Playstation.)
A caixa da versão para Sega Saturn
Não foi, no entanto, apenas em Inglaterra que o jogo teve repercussão; também em Portugal o título se fez notar, sobretudo por oferecer um detalhe que nenhum outro título à época oferecia – nomeadamente, comentários em Português, pela voz nem mais nem menos do que de Jorge Perestrelo. E a verdade é que o mini-adepto português médio sentia alguma excitação ao iniciar um jogo e ouvir aquele senhor da televisão utilizar o seu rol de expressões clássicas e inconfundíveis, como ‘ripa na rapaqueca’, para descrever o que ele (o jogador) estava a fazer. Este sentimento, que era bem transmitido pelo próprio anúncio do jogo, terá ajudado a vender mais uns largos milhares de unidades de ‘Euro 96’ – um título que, à época, representava o ‘state of the art’ em termos gráficos, sonoros e de jogabilidade (recordamos que, por esta altura, ‘FIFA’ ainda era apenas um jogo, e não uma dinastia, tendo ‘FIFA 96’, o segundo título de sempre da perene série da EA, acabado de chegar aos escaparates.)
Em 1995, isto era o cúmulo do realismo...
Visto à luz de hoje em dia, ‘Euro 96’ é um jogo básico, e muito datado, mesmo por comparação com títulos da mesma altura ou lançados um ano ou dois depois, e o facto de ser apenas um ‘Actua Soccer’ simplificado também não abona nada a seu favor; na sua época, no entanto, este foi um jogo único, revolucionário, e que colmatava uma falha no mercado, tendo, por isso mesmo, sido muitíssimo bem recebido pelos ‘gamers’ de 1995-96.
O próximo jogo alusivo a um Campeonato Europeu de Futebol seria, no entanto, já muito mais próximo daquilo que os adeptos esperavam de um título deste tipo, e com uma chancela muito mais fiável; no entanto, o mesmo só chegaria às prateleiras já alguns meses depois do novo milénio, deixando ‘Euro 96’ como o único representante de jogos deste tipo na década de 90; e, nessa perspectiva, até que este título não fez má figura…
NOTA: Este post é relativo a segunda-feira, 14 de Junho de 2021.
Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.
A imagem é icónica – um jovem adolescente, de cabelo pontiagudo, conduz a bola por um campo interminável afora, aproximando-se de uma baliza que vai, gradualmente, aparecendo no horizonte. Uma vez as redes à vista, o mesmo desfere um potente remate; o guarda-redes adversário estica-se, mas em vão – a bola ultrapassa-o, em arco, e anicha-se literalmente nas redes, por vezes chegando mesmo a furá-las, tal a violência do tiro.
Podem começar já a festejar...este já lá mora
A cena é, claro, retirada de ‘Captain Tsubasa’, quiçá a mais famosa série animada sobre futebol de todos os tempos, e uma velha conhecida das crianças portuguesas de finais do século XX e inícios do XXI. Isto porque, ainda antes da memorável transmissão, no canal Panda, da dobragem espanhola de ‘Captain Tsubasa J', e das subsequentes (e múltiplas) transmissões da série original e de ‘Road to 2002’ com dobragem portuguesa, sob o título ‘Oliver e Benji - Super Campeões’, a primeira encarnação da série já havia passado nas RTPs, no início da década de 90, com o título ‘Capitão Hawk’ - uma ‘mais ou menos tradução’ do título original da série – e na sua versão original em japonês. Ou antes, os primeiros 50 e poucos episódios passaram em japonês (na RTP1); a partir do episòdio 54, a série passa para a RTP2, e é, inexplicavelmente, transmitida na dobragem italiana!
Cena-título do genérico da série original de 'Captain Tsubasa', transmitida na RTP em 1993
Ainda assim, este foi, para muitas crianças, o primeiro contacto com uma das mais míticas séries da primeira vaga de anime – contacto que se viria, posteriormente, a restabelecer aquando da transmissão da série no Panda (a ‘reprise’ na SIC e TVI já foi mais relevante para a geração seguinte do que propriamente para a que seguira a série em 93-94.)
O que muitos dos jovens fãs de Tsubasa talvez não soubessem (ou que entretanto podem ter esquecido) é que houve, durante os anos a que este blog diz respeito, várias outras séries sobre futebol a passar na televisão portuguesa – nenhuma, obviamente, com o nível de sucesso de Oliver, Benji e seus companheiros, caso contrário seriam recordadas até hoje. Ainda assim, em tempo de Europeu, vale a pena recordar estes desenhos animados, ainda que nenhum deles fizesse referência a esta competição ou fosse sequer feito neste continente.
E já que iniciámos este post com uma referência a Oliver e Benji, nada melhor do que continuar com uma breve alusão a uma série que pouco ou nada tinha a ver com esta. Senão veja-se – ‘O Ponta de Lança’ (no original ‘Ganbare, Kickers!’ trata de uma equipa de futebol de um colégio, que tenta a todo o custo não ser o ‘bombo da festa’ dos torneios inter-escolas, até se ver reforçada com um estudante de intercâmbio com algum jeito para a coisa, e que revoluciona o estilo de jogar do colectivo, bem como as suas ‘performances’ em campo. Ah, e o capitão e líder desta equipa é o guarda-redes, o único outro elemento com algum talento. E o dito guarda-redes usa boné. E o titular ponta-de-lança tem cabelo preto espetado. E o equipamento da equipa é branco. NADA a ver com ‘Tsubasa’, portanto…
Qualquer semelhança é pura coincidência...
Sarcasmos à parte, ‘O Ponta-de-Lança’ é TÃO parecido com ‘Super Campeões’ que um espectador mais distraido corre mesmo o risco de confundir as duas séries. Previsivelmente, esta táctica declaradamente ‘copycat’ (‘Tsubasa’ foi criado em 1981 e transformado em anime em 1983; ‘Kickers’ é de 1985, e a versão anime, do ano seguinte) não se traduziu em sucesso, tendo a série tido apenas uma temporada, de 26 episódios, e passado quase despercebida pela RTP1, sensivelmente um ano depois de ‘Tsubasa’ ter sido transmitido na mesma emissora (até aqui o padrão se manteve!), sem no entanto conseguir suprir a lacuna deixada pela partida de Oliver e Benji.
E já que falamos em animes de futebol, uma breve nota para recordar ‘I Ragazzi del Mundial’, ou ‘Soccer Fever’ (o título português era algo como 'A Febre do Mundial de Futebol'), uma co-produção entre o Japão e a Itália alusiva ao Mundial de 1994, e a única das séries aqui abordadas a ter ligação directa a uma prova real do mundo do futebol, ainda que não ao Campeonato Europeu.
As personagens principais de Soccer Fever, de 1994
Nela, um jornalista reformado aproveita o entusiasmo do jovem neto pela prova em causa para recordar as peripécias que vivera mais de 60 anos antes, durante a cobertura do Mundial de 1930. Estas histórias serviam, então de pretexto para dar lições de ‘história ficcionada’ sobre a prova do início do século, numa espécie de ‘Horrible Histories’ futebolístico. Uma série bem escrita, bem animada e com um grande tema de abertura, mas que por qualquer razão passou despercebida aquando da sua transmissão no Canal Panda, em finais da década de 90 – e escusado será dizer que pelo menos essa transmissão portuguesa se insere na cada vez mais vasta categoria de Esquecidos Pela Internet…
Uma série com ESTE tema de abertura não merece cair no esquecimento...
O mesmo, aliás, se pode dizer da última série abordada neste post. Transmitida no Batatoon com o genérico título de ‘Histórias do Futebol’, afirmava-se como a verdadeira trasladação do conceito de ‘Horrible Histories’ para um contexto futebolístico, apresentando as viagens através do tempo de um locutor de futebol escocês (de boina e kilt – afinal, estávamos nos anos 90…) e do seu microfone, que tinha vida própria. Em cada episódio, este duo visitava uma época diferente da História (daí a parecença com Horrible Histories) para assistir a uma partida de futebol entre equipas convenientemente ‘adaptadas’ ao período em causa, durante os quais havia ensejo de realçar e explicar uma das regras oficiais do jogo (daí a tradução inglesa do título como ‘Official Rules of Football’.)
Esta era, também, uma série bastante boa, sem ser nada de extraordinário; no entanto, nos dias que correm, a mesma parece ter sido quase totalmente esquecida pelos internautas, a ponto de haver exactamente UM tópico em toda a Internet lusófona que a recorda – e episódios, só em Inglês, naturalmente...
Como tema de abertura, este também não é nada mau...
Mesmo esquecidas como hoje em dia são (com a óbvia excepção de ‘Tsubasa’ que, qual fénix, regressa de tempos a tempos para cativar mais uma geração de jovens adeptos) vale a pena fazer menção a estas séries, que procuravam unir duas das principais paixões das crianças, sejam de que época forem. É de lamentar, pois, que apenas uma o tenha conseguido – se bem que, no fim das contas, uma seja melhor do que nada…
Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.
E porque precisamente este fim-de-semana se celebra uma ocasião única no seio do futebol internacional – um Campeonato Europeu disputado no Verão de 2021, mas anacronisticamente chamado Euro…2020 – nada melhor do que recordar aquele que foi, para as crianças da ‘nossa’ década, um dos primeiros e mais marcantes contactos com o futebol ‘de selecções’, e que, devido ao referido anacronismo, acaba mesmo por ver o seu 25º aniversário ser celebrado com a realização de outro certame do mesmo género.
Falamos, é claro, do Euro 96, disputado em Inglaterra entre 8 e 30 de Junho desse ano, e que marcaria o regresso das grandes competições internacionais ao ‘berço’ do futebol, após exactas três décadas – daí o slogan da prova, ‘football’s coming home’.
Nostalgias à parte, no entanto, a maior influência deste campeonato para o futebol moderno foi mesmo o facto de ter sido utilizado como prova-modelo para a implementação definitiva do modelo competitivo pelo qual os Campeonatos Europeus modernos ainda hoje se regem, com 16 equipas (o dobro de campeonatos anteriores) divididas em grupos de apuramento de quatro equipas cada, das quais duas são eliminadas e outras duas seguem para as fases eliminatórias da prova.
A nova configuração das fases de grupos introduzida pelo Euro 96
Embora alguns dos nossos leitores mais velhos possam ainda recordar o Euro 92, o Mundial de 90 ou até de algum ou outro campeonato da década anterior, para a maioria das crianças nascidas na década de 80, o binómio Mundial 94 – Euro 96 representa a primeira memória relacionada ao futebol internacional, e a primeira vez que o futebol não-clubístico foi seguido com verdadeiro interesse. E se no caso do Mundial o principal motivo de interesse se prendia com o exoticismo de o certame ser realizado num país com pouca ou nenhuma tradição futebolística, no caso do Euro 96, havia um ‘gancho’ adicional, nomeadamente a participação de uma selecção portuguesa em ascensão, conduzida, pela primeira de muitas vezes, pelos elementos da equipa bicampeã do Mundo de sub-20 – a chamada ‘Geração de Ouro’.
A Selecção portuguesa de 1996
De facto, o Euro 96 marcava o início da ‘era de ouro’ da Selecção Nacional portuguesa, cujo percurso durante os próximos dez anos se daria em claro ascendente, culminando na quase-vitória em pleno solo ‘caseiro’, durante o Europeu de 2004. Em 1996, no entanto, esta equipa-maravilha apresentava-se ainda em fase embrionária, já com todos os elementos no sítio, mas sem a química quase maquinal que os seus elementos viriam a adquirir com o passar dos anos.
Ainda assim, a prestação de Portugal no Campeonato Europeu de meados da década de 90 seria valorosa e meritória – ainda que, em muitos aspectos, frustrantemente típica. Exemplo disto mesmo foi a fase de grupos de ‘serviços mínimos’, que se iniciaria com um empate frente à Dinamarca dos irmãos Laudrup, e prosseguiria com um ‘meio a zero’ frente à poderosa Turquia; quando já estava tudo a fazer ‘contas à vida’ no entanto, a Selecção Portuguesa fez aquilo a que, durante os próximos anos, habituaria os adeptos, ‘esmagando’ por 3-0 a Croácia de Suker e companhia, e usurpando à mesma, por apenas um ponto, o primeiro lugar do grupo.
Classificação final do grupo D
No entanto, no jogo dos quartos-de-final da prova, a equipa nacional voltaria a estar ‘igual a si mesma’ (ou, pelo menos, àquilo que viria a ser) sendo eliminada pela República Checa, na sua primeira participação enquanto país independente, com um golo solitário de Karel Poborsky, uma das estrelas reveladas nesta competição. Uma saída agri-doce, até porque o jogo foi bem disputado e renhido, mas ao mesmo tempo um ensaio de preparação para a sensação que os adeptos portugueses se viriam a habituar a sentir muitas e muitas mais vezes ao longo dos anos seguintes – a sensação do ‘foi quase’. Porque, sim, foi quase – mas…
Os onzes iniciais do jogo dos quartos-de-final entre Portugal e a República Checa
Fica a consolação de, pelo menos, a equipa que eliminou as Quinas ter sido uma das eventuais finalistas, constituindo talvez a surpresa da prova ao ‘dar luta’ à Alemanha de Lothar Matthaus, acabando por sucumbir por honrosos 2-1. Mais uma vez, esta viria a ser a primeira instância de uma ocorrência recorrente para Portugal em provas internacionais – a de ser eliminado por uma equipa finalista da prova.
O homem do jogo dos quartos-de-final, Karel Poborsky, em disputa com o central português Fernando Couto
Enfim, em muitos aspectos, o Euro 96 foi uma espécie de primeiro ensaio para aquilo que viria a ser o futebol internacional português durante as duas décadas seguintes – um futebol bonito, esforçado, com lampejos de génio, mas que acabava sempre por se ficar pelo ‘quase’. A situação viria a mudar, é claro, exactos 20 anos após o certame em causa, quando muitos dos mini-adeptos que com ele vibraram eram já, eles próprios, pais de mini-adeptos que vibraram com a turma de Ronaldo e companhia.
Os mais velhos, no entanto, não poderão, ainda hoje, deixar de recordar o ponto de partida dessa gloriosa odisseia, que pode ter continuidade já daqui a poucas semanas – aquele Verão de 96 em que uma equipa de vermelho e verde, oriunda de um pequeno país mediterrânico, tentava replicar o sucesso atingido pelas suas camadas jovens alguns anos antes, e afirmar-se como potência a ter em conta no panorama do futebol internacional. Objectivo que, aliás, viriam a cumprir, ainda que para tal tivessem que esperar até à década, século e milénio seguintes…
NOTA: Este post corresponde a Sábado, 12 de Junho de 2021.
As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais.
E como a onda de calor que se tem feito sentir já convida a uns mergulhos, nada melhor do que recordar um tipo de atracção de Verão que, infelizmente, ficou mesmo nos anos 90, sem hipótese de retorno, pelo menos nos moldes em que funcionavam..
Um parque aquático abandonado, em Altura; muitos dos estabelecimentos semelhantes dos anos 90 encontram-se, hoje, nas mesmas condições
Falamos dos parques aquáticos, uma alternativa extremamente popular às habituais praia e piscina durante a ‘nossa’ década, sobretudo pela sensação refrescante que a descida num dos seus característicos escorregas de água (que, inevitavelmente, terminavam num enorme ‘chapão’ na piscina) proporcionava. Diz quem sabe que era uma sensação única – e quanto maior o escorrega, melhor…
Em Portugal, foram dois os parques aquáticos a adquirir especial relevância, embora por razões diametralmente distintas; o facto de ambas essas instalações terem, eventualmente, sucumbido ao mesmo triste final será, talvez, consequência dos eventos que trouxeram um deles para a ribalta, os quais abordaremos mais à frente.
O primeiro, e mais famoso, destes parques era o Ondaparque, inaugurado em 1986 e que representou a primeira tentativa portuguesa de criar uma instalação deste tipo.. Situado à entrada da vila da Costa de Caparica – um dos principais ‘destinos de praia’ dos lisboetas, situado na Margem Sul do rio Tejo – este parque chegou a ser icónico para as crianças da Grande Lisboa, com a sua configuração única de escorregas e piscinas, tantas vezes capturada em fotografias durante o auge da popularidade do Parque. Só a visão do complexo principal de escorregas, momentaneamente vislumbrável da auto-estrada, já fazia imaginar muitos e bons momentos de ‘chapões’ e ‘chapinhanço’, aguçando desde logo a vontade de visitar o parque – mesmo com o convidativo mar da Costa a proporcionar banhos tão bons ou melhores, apenas uns metros mais à frente…
O Ondaparque da Caparica, com o seu clássico sinal estilo Hollywood e configuração de escorregas.
O Ondaparque foi, dos dois complexos abordados neste post, aquele que se pode considerar ter sido vítima das circunstâncias. Sem que tivesse quaisquer ‘culpas no cartório’, a instalação foi apanhada na ‘febre’ de fechar todo e qualquer parque aquático do seu tipo (derivada de acontecimentos a que aludiremos já a seguir) e continua, até hoje, abandonada, não tendo o espaço sido reaproveitado ou restaurado – o que não deixa de ser surpreendente, dada a área e potencial que o mesmo apresenta. Não deixa de ser triste ver o parque da nossa infância assim – velho, degradado, com o grafitti a substituir a água na superfície dos lendários escorregas, e as ervas daninhas a fazerem as vezes dos visitantes deliciados. Resta, pois, esperar que alguma empresa ou autarquia pegue neste, em tempos, icónico espaço e lhe dê nova vida, ainda que numa vertente diferente da original…
E tendo já falado do ‘parque bom’, chega agora a hora de nos debruçarmos sobre o ‘parque mau’. Chegou a hora de falarmos…do Aquaparque.
A entrada do Aquaparque no auge da sua popularidade.
Situado no Restelo (outra zona da periferia lisboeta na rota directa de um popular destino de praia, no caso a linha de Cascais) o Aquaparque travou, em finais da década de 80 e princípios da que nos concerne, uma acirrada batalha com o Ondaparque pelo trono de principal parque aquático não só da região, mas de todo o país. Esta ‘guerra’ natural entre espaços concorrentes viria, no entanto, a adquirir contornos mais sombrios quando, em 1993, duas crianças, ambas com nove anos, morreram em dias consecutivos, e da mesma maneira: ao serem sugadas pelos tubos que faziam a filtragem da água das piscinas, e que careciam de redes de protecção.
Reportagem de época sobre o trágico acidente
Um acidente horripilante, digno de filme de ficção científica, mas que – infelizmente – foi muito real, e ditou o ‘início do fim’ da era dos parques aquáticos em Portugal. Primeiro, foram as multidões a manifestar-se, tentando forçar a entrada no ‘Aquaparque da morte’, e atingindo à pedrada os agentes policiais que os procuraram restringir; depois, o assunto tornou-se matéria principal nos principais meios de comunicação; e, finalmente, tornou-se uma disputa legal, que viria a terminar apenas em 2002, com os familiares das jovens vítimas a serem indemnizadas pelo Estado português. O espaço, esse, ficaria encerrado por tempo indeterminado – e não demoraria até o ‘indeterminado’ se tornar ‘permanente’. Tal como aconteceu com o Ondaparque, chegou a falar-se em reconverter este espaço (no caso, em parque infantil, segundo veiculam várias notícias de meados de 2019) mas, um ano e meio volvidos, tal plano ainda não parece ter-se concretizado...
Um parque aquático actual, em Santarém
Entretanto, passaram-se quase três décadas desde o auge dos parques aquáticos, e a verdade é que a ‘moda’ não tornou a pegar; embora existam ainda alguns complexos que vão mantendo este tipo de denominação (em Peniche, por exemplo) a maioria consiste apenas de piscinas ‘normais’, de diversos tamanhos, com uma ou outra prancha ou um ou outro escorrega pelo meio, sendo de duvidar que se torne a ver um parque como os descritos neste blog (até por questões de segurança, as quais se tornaram bastante mais rígidas desde aquela época). No entanto, aqueles que viveram a ‘era de ouro’ deste tipo de estabelecimentos nunca esquecerão a sensação de os visitar, e de estar no topo de um daqueles escorregas enormes, a olhar para a piscina lá bem ao fundo, à espera de descer…
Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.
E chegou, hoje, finalmente a hora de falar de uma ‘moda’ que ninguém em Portugal – excepto, aparentemente, o Google – parece ter esquecido.
Sim, hoje vamos falar de um artigo que, sem nunca ter tido nenhuma daquelas denominações sonantes dadas por equipas de marketing, tem no entanto um nome coloquial globalmente aceite entre quem o usou: os ténis ‘pisa-e-brilha’.
O próprio nome já revela o principal ponto de interesse deste tipo de calçado: sempre que se dava um passo acima de determinado nível de força, o ténis emitia um efeito LED, a partir de uma peça de plástico colocadas perto do calcanhar. Um ‘truque’ simples, talvez, mas que, à época, nunca perdia o ‘cool effect’, não importa quantas vezes se visse ou activasse.
A mecânica em acção
Como costuma acontecer com produtos ‘com truque’, os ténis ‘pisa-e-brilha’ não eram de nenhuma qualidade por aí além, nem particularmente bem acabados; até mesmo esteticamente, não passavam de ténis perfeitamente vulgares, normalmente brancos, e sem nada que os distinguisse de milhares de outros modelos ‘sem marca’ – a não ser, claro está, aquela luzinha mágica na zona dos calcanhares, que faziam toda a diferença, para além de subirem o preço de cada par…
Enfim, valessem ou não a pena do ponto de vista qualitativo-económico, a verdade é que não havia criança ali por meados dos anos 90 que não tivesse ou quisesse uns ténis ‘pisa-e-brilha’. Ainda mais do que os ténis com bonecos licenciados, este tipo de calçado era uma espécie de Santo Graal para quem não o tinha, e motivo de orgulho e gabarolice para quem tinha. E tudo isto, recorde-se, por causa de uma luzinha LED, daquelas que se encontram em qualquer boneco barato da ‘loja dos 300’, mas que fora do seu context normal e expectável, se tornavam instantaneamente mais ‘fixes’.
Tal como todas as restantes ‘modas’, no entanto, os ténis ‘pisa-e-brilha’ foram-se tornando progressivamente menos comuns à medida que a geração de 80 e inícios de 90 crescia, tendo mesmo acabado por ser substituídos pela nova ‘febre’ - os ténis com rodas, coqueluche das crianças do novo milénio. Recentemente, no entanto, este tipo de sapatos parece estar a viver uma espécie de renascer – só que, como é costume nos dias de hoje, de uma forma muito mais espalhafatosa e exagerada. Onde antes havia duas luzinhas na parte de trás da lateral do sapato, há hoje verdadeiros jogos de luzes, dignos de um carro ‘tunado’, e que fazem quem os veste parecer que vai participar de um vídeo de TikTok sobre Dance Dance Revolution – o que, aliás, talvez seja mesmo o objectivo.
O 'pisa-e-brilha' adaptado à geração 'millennial'
(Note-se, ainda, que quando dizemos ‘parece’, estamos, como é óbvio, a falar das imagens disponíveis no Google – o mais provável é que, com os ténis na mão, o efeito continue pouco mais ou menos igual ao que era há um quarto de século atrás. No entanto, se as crianças de hoje em dia forem como as daquele tempo, isso não será certamente obstáculo a que a ‘febre’ dos ‘pisa-e-brilha’ se torne a instalar em Portugal…)
Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.
E porque na última Terça de TV recordámos o lendário programa Rua Sésamo, nada melhor do que iniciar esta nova rubrica do nosso blog falando um pouco mais a fundo da revista-irmã do programa – a qual, aliás, também recordámos nesse post.
O número inaugural da revista
Como então referimos, a revista é aproximadamente contemporânea do programa, tendo sido publicada durante toda a primeira metade da década de 90 (o número 1 data, precisamente, de Dezembro de 1989), sempre com grande sucesso. O formato adoptado era o de revista de ‘variedades’, mas centrada sobretudo em jogos e passatempos educativos, destinados a fomentar o desenvolvimento de competências no público-alvo; no entanto, estas actividades nunca tinham o ‘ar’ de serem educativas, sendo, pelo contrário, bastante divertidas, e permitindo aprender a brincar.
Além das referidas actividades, algumas revistas incluíam pequenas histórias com os personagens da Rua Sésamo, normalmente subordinadas – tal como, aliás, as actividades – ao tema de capa, se o houvesse. Cada número da revista incluía, ainda, um Guia de Pais e Educadores, que abordava temas relativos ao desenvolvimento infantil, para além de procurar elencar e explicar o propósito pedagógico de cada um dos segmentos daquele mês, e encorajar os pais e professores a explorarem mais a fundo os respectivos temas com as crianças.
Um dos Guias de Pais e Educadores incluídos em cada revista
No cômputo geral, esta revista estava muito bem feita, mostrando tanto cuidado e dedicação com o seu conteúdo como o programa. O papel, por exemplo, era lustroso, deixando as cores muito bonitas, e quando combinado com o formato grande, em A4, fazia aquela parecer quase uma revista ‘para adultos’, como as que os nossos familiares liam – só que mais interessante para nós! Um dado curioso é que muito do material incluído continha indicações sobre os autores e ilustradores, permitindo assim às crianças mais curiosas (como o autor deste blog, do alto dos seus cinco a seis anos) distinguirem quem fazia os desenhos ‘bem’ e quem (elas achavam que) tinha menos jeito para a coisa…
Enfim, tal como o programa ao qual servia como complemento, a revista ‘Rua Sésamo’ era um dos melhores produtos nacionais dirigidos ao público infantil daquela época, que valia bem os 150 escudos que custavam – o que, num período tão fértil em publicações nacionais de alto calibre, só pode ser visto como um elogio. Infelizmente, este excelente exemplo de como fazer um periódico para crianças parece ser mais um caso de esquecimento colectivo por parte da Internet, existindo pouca a nenhuma informação específica sobre as características do mesmo. Valeu, assim, a memória para a realização deste post, que quase fez ter vontade de ir procurar e ‘desenterrar’ as velhas revistas, e revisitar bons tempos de infância…