NOTA: Por motivos de relevância temporal, este Domingo será Desportivo, e o próximo, Divertido.
Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.
Quando se fala de atletismo no Portugal de finais do século XX, vêm quase imediatamente à baila nomes como Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernanda Ribeiro ou Manuela Machado, heróis Olímpicos (e não só) que ajudaram a colocar Portugal no mapa como uma nação de atletas. Em meio a todos estes nomes, no entanto, um outro passa algo despercebido, ainda que muito imerecidamente, já que também ele atingiu feitos notáveis a nível internacional.
Falamos do amarantino António Pinto, colega de 'Selecção' dos corredores acima citados (e de muitos outros atletas) em nada menos do que quatro Jogos Olímpicos entre finais dos anos 80 e inícios do século XXI, mas que, ao contrário dos mesmos, nunca logrou conquistar quaisquer medalhas a esse nível. Pode-se argumentar, no entanto, que essa foi mesmo a única distinção que faltou ao maratonista nortenho, já que a sua restante carreira está repleta de sucessos tanto dentro como fora de portas, dos quais se destacam as três Maratonas de Londres que venceu (em 1992, 1997 e 2000, tendo subido também ao pódio em 1995, 1998 e 2001, quando ficou em terceiro), a Maratona de Berlim que conquistou em 1994 (e o terceiro lugar na mesma prova no ano seguinte), a medalha de bronze na Maratona de Paris de 1994, a vitória na categoria de dez mil metros nos Campeonatos Europeus de Atletismo de 1998 - ano em que também vence a meia-maratona de Lisboa – e o primeiro lugar no Great Scottish Run de 2000, que lhe outorgava duas vitórias em solo britânico no mesmo ano.
Uma lista de conquistas que permitia ao maratonista retirar-se da competição em 2002, já com 'tudo ganho', excepto a sempre 'esquiva' medalha olímpica, que parecia apenas pender para o lado dos colegas de equipa da Selecção Portuguesa. Ainda assim, e apesar desta lacuna, António Pinto merece ser visto e lembrado como um dos grandes maratonistas portugueses de finais do século XX, a par dos congéneres mais 'famosos'.
Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos desportivos da década.
Para qualquer povo – mas ainda mais no caso de povos pequenos e de menor expressão – qualquer indivíduo que se destaque adquire automaticamente estatuto de herói nacional, com direito a cobertura mediática extensiva e elevação de qualquer pequeno feito atingido. Portugal não é, claro, excepção neste campo, tendo os principais nomes 'exportados' do nosso país conseguido, ao longo das décadas, reter o estatuto de culto pelo qual lutaram. Hoje em dia, a imagem de Portugal no estrangeiro já não se resume apenas aos tradicionais Eusébio e Amália; há também Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Salvador Sobral, Moonspell e José Saramago, para citar apenas alguns dos nomes mais conhecidos.
No entanto, como sempre acontece neste tipo de casos, para cada nome bem conhecido que consegue almejar os seus objectivos, existem vários outros que, não obstante os seus melhores esforços, se vêm obrigados a ficar pelo caminho, e a contentar-se com a fama dentro de portas; mais uma vez, Portugal não difere de qualquer outro país neste campo, tendo precisamente nos anos 90 um exemplo perfeito deste mesmo fenómeno.
Corria o ano de 1993, e Figo e a restante Geração de Ouro despontavam para o futebol, quando um praticante de outro desporto, menos físico mas não menos entusiasmante, irrompeu na cena desportiva portuguesa, determinado a deixar a sua marca a nível internacional. O desporto em causa era a Fórmula 1, e o nome do jovem aspirante a herói português era Pedro Lamy.
Nascido na zona de Alenquer a 20 de Março de 1972, José Pedro Mourão Lamy Viçoso começou por destacar-se nas divisões menores do desporto automóvel, tendo conhecido considerável sucesso primeiro nos karts, depois na Fórmula Ford – onde se sagrou campeão por duas vezes, a primeira das quais na sua temporada de estreia, com apenas 17 anos – e finalmente na Fórmula 3, onde continuou a demonstrar argumentos que lhe faziam prever um futuro muito, muito risonho.
Foi, pois, com naturalidade que os aficionados das corridas portugueses – muitos deles próximos da idade do próprio Lamy à época, ou até mais novos – viram o jovem ribatejano dar o 'salto' natural para a 'Primeira Divisão' do desporto, chegando ainda a tempo de disputar, pela Lotus, as últimas quatro corridas da temporada de 1993, no lugar do lesionado Alessandro Zanardi. Apesar dos resultados muito pouco encorajadores – zero pontos no total das quatro corridas – fazerem já prever a toada futura da carreira do único representante português no mundo do desporto automóvel, Lamy terá ainda assim demonstrado o suficiente para ser convidado pela construtora a disputar a época seguinte com as suas cores.
1994 marcava, assim, a primeira temporada completa de Lamy como piloto de Fórmula 1, lançando-o para a ribalta desportiva e sujeitando-o ao habitual fenómeno 'tuga entre estrangeiros', que resultou, como é costume neste tipo de casos, num avolumar do interesse do público nos seus feitos. Infelizmente, o azar não tardou em bater à porta, e à entrada para a quinta corrida da época, Lamy vê-se envolvido num aparatoso acidente, que resulta em duas pernas e pulsos partidos - um acidente que seria suficiente para terminar a carreira de muitos, mas não do determinado português, que embarcou numa odisseia de fisioterapia que lhe permitiu, um ano depois, ressurgir nas grelhas dos Grandes Prémios mundiais, desta vez com as cores da Minardi.
Lamy com a restante equipa da Minardi
Pela construtora italiana, Lamy continuou a exibir os mesmos argumentos que já mostrara na Lotus, terminando a época com um histórico e marcante total de UM ponto, e ajudando assim a demonstrar que não é só na Eurovisão que Portugal não pontua. Mais – esse ponto conseguido pelo ribatejano foi o ÚNICO feito pela Minardi em toda a temporada, fazendo deste um daqueles casos em que as duas partes parecem 'feitas uma para a outra'.
Este novo e rotundo falhanço foi a machadada final nas aspirações de Lamy, que fez a escolha acertada, retirando-se do mundo da Fórmula 1 no final da temporada, sem nunca ter conseguido concretizar o seu potencial, ou ser levado minimamente a sério no seio do seu desporto de eleição, apesar das 'figas' feitas pelos aficionados portugueses de F1 para que tivesse sorte.
No entanto, e ao contrário do que pudesse ter parecido à época, a trajectória internacional de Lamy ainda não estava terminada, vindo apenas a sofrer um desvio – no caso, para o mundo dos carros GT, onde o condutor português encontrou, finalmente, o mesmo grau de sucesso de que gozara nos seus tempos de juventude, no circuito Fórmula 3. À data, Lamy é co-detentor do maior número de vitórias na corrida das 24 Horas de Nürbungring, e condutor oficial da Peugeot nas históricas 24 Horas de Le Mans, além de participar no campeonato mundial de 'endurance' da FIA. Um final feliz bem merecido para aquele que podia ter sido o 'Ayrton Senna português', a quem faltou um pouco de sorte e talento ao mesmo nível da sua determinação e vontade para poder almejar a esse titulo, mas que conseguiu ainda assim ter sucesso, ainda que fora das luzes da ribalta...
Imagens da pouco conhecida participação de Lamy no Grande Prémio Virtual de 1995, ao comando de um carro da SEGA. Pelo menos na Mega Drive, o candidato a Senna português conseguia ser ás ...