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Saturday, 25 July 2026

Sessão de Sexta: Trinta Anos de Uma Cópia Bem Feita

 NOTA: Por motivos de relevância temporal, esta Sexta, haverá Sessão, e a próxima será com Style.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Os filmes em que uma ou mais crianças estabelecem laços de amizade com um animal fora do comum – que têm, posteriormente, de salvar de um qualquer perigo – são um filão lucrativo desde o início da História do cinema, e atravessavam em finais do século XX uma época áurea, com clássicos infanto-juvenis como 'Libertem Willy', 'Voando P'ra Casa', ou o filme de que falamos esta Sexta, poucos dias antes de se celebrarem exactas três décadas sobre a sua estreia em Portugal, e que, apesar de menos bem-sucedido que os seus pares, terá ainda assim logrado entreter o público jovem da altura, e certamente criado memórias nostálgicas no seio do mesmo.

Baseado numa antiga série televisiva do mesmo nome, 'Flipper' aterrava nas salas de cinema nacionais a 26 de Julho de 1996, trazendo como principal atractivos um golfinho capaz de acrobacias mirabolantes – chamariz imediato para qualquer criança – e a presença de Paul Hogan, então ainda em alta graças ao sucesso dos filmes de 'Crocodilo Dundee'. Como inevitável presença 'jovem' ao lado do veterano pseudo-australiano encontrava-se um dos mais promissores jovens actores da época, já detentor de algum nome graças a filmes como 'O Bom Filho' (ao lado de outra 'mini-estrela' da época, Macaulay Culkin) ou 'Huckleberry Finn'. O seu nome? Elijah Wood, ainda a pouco mais de meia década de se tornar nome conhecido de toda a população cinéfila como protagonista principal de uma certa trilogia de fantasia épica. Aqui, surge no papel do adolescente que, ao lado do tio Hogan, tem de salvar as águas onde nada Flipper, o golfinho, de poluição causada por residentes locais sem escrúpulos.

Uma história já mais que 'batida' (e que parece saída de um episódio de 'Capitão Planeta') mas que servia bem o propósito do filme – o de criar uma 'cópia' de 'Libertem Willy' com um animal ligeiramente mais simpático; e, nesse particular, não se pode dizer que o filme seja de todo mal-conseguido. O problema é que, num mundo em que 'Libertem Willy' ia já na primeira sequela, torna-se ainda mais aparente que 'Flipper' é apenas um 'seguidor' relativamente fiel, razão pela qual talvez não tenha ficado na memória colectiva dos 'Millennials' portugueses (e do resto do Mundo) da mesma forma que os filmes supracitados (além de passar bastante menos vezes na televisão...) Ainda assim, é apenas justo lembrar aquela que é mais uma boa produção infanto-juvenil da década de 90, no fim-de-semana em que a mesma celebra os trinta anos da sua estreia em Portugal.



Friday, 5 June 2026

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

 Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Em inícios do século XXI, o mercado cinematográfico da animação vivia uma situação peculiar e sem precedentes: o lento declínio da Disney enquanto líder hegemónica (iniciado ainda em finais dos anos 90, e que tinha na absurda quantidade de sequelas directas para vídeo o seu principal indicador) abria caminho para o aparecimento de uma companhia capaz de rivalizar com a 'casa do Rato Mickey'. E, numa espécie de versão Hollywoodesca do que acontecia com a WWF e a WCW no mercado da luta livre, essa concorrente não tardaria a surgir, liderada (surpreendentemente, ou talvez não) por um ex-executivo da própria Disney na sua chamada 'Renascença' – Jeffrey Katzenberg, que havia sido substituído poucos anos antes pelo homem responsável pelas sequelas e outras manobras 'duvidosas', Michael Eisner – e com apoio financeiro de um dos maiores nomes de Hollywood da altura. Steven Spielberg.


Não admira, pois, que a Dreamworks não tardasse a estabelecer uma reputação firme como o 'segundo grande' da animação noventista, apresentando uma qualidade até então apenas presente nos filmes de Don Bluth, eles mesmos em lento mas perceptível declínio naqueles últimos anos do século XX. Mas enquanto que filmes como 'O Caminho Para El Dorado', 'O Príncipe do Egipto' ou 'Anastasia' (realizado pelo próprio Bluth) seguiam moldes muito semelhantes aos dos clássicos da fase renascentista da Disney, procurando competir com estes ao mesmo nível, seria com o seu primeiro filme do Novo Milénio que Katz e Spielberg verdadeiramente deixariam a sua marca no mercado da animação, com um filme subversivo e arrojado, que não só revolucionava e redefinia o conceito do que era um filme animado, mas também escarnecia directa e abertamente de todos os estereótipos empregues pela Disney nos seus tradicionais 'contos de fadas' desenhados, numa 'provocação' directa àquele que era, ainda, o maior estúdio de animação do Mundo,

Falamos, claro está, de 'Shrek', o primeiro 'capítulo' de um 'anti-conto de fadas' que dominaria a cultura popular (e as bilheteiras) durante as duas décadas seguintes, tornando-se a primeira de várias franquias altamente populares e reputadas lançadas pela Dreamworks, e dando azo a um 'império' de 'merchandising' encabeçado pelas três sequelas (a primeira das quais considerada uma das melhores 'segundas partes' de sempre, em qualquer género cinematográfico) e dois especiais (de Natal e 'Halloween'); e todo esse sucesso tinha início numa simples paródia da 'fórmula' Disney, protagonizada por um personagem explícita e propositadamente feio, e que surpreendia muita gente com uma 'reviravolta' final verdadeiramente inesperada.

É esse o filme que celebra, este fim de semana, o quarto de século sobre a sua estreia nacional (a 7 de Junho de 2001) aquando da qual atraía de imediato as atenções de uma geração já demasiado 'adulta' (e auto-conscienciosa) para filmes de 'desenhos animados', que encontrava na vertente satírica e sarcástica de 'Shrek' a 'desculpa' perfeita para satisfazer o seu lado mais infantil. E a verdade é que o filme não desapontava, mostrando-se tão ou mais apropriado para um público adolescente e adulto do que para o infantil, e impressionando não só na componente técnica (embora, hoje em dia, seja fácil perceber as limitações da animação, sobretudo por comparação com a primeira sequela, lançada dois anos depois) como no aspecto sonoro, com excelente utilização de música 'pop' (a abertura ao som de 'All-Star', dos Smash Mouth, é uma das mais icónicas de sempre) e elenco de luxo quer na versão original quer na dobrada em Português, e sobretudo na escrita, que conseguia misturar de forma harmoniosa referências visuais ao estilo 'Scary Movie' e 'alfinetadas' à rival Disney com um enredo algures entre o conto de fadas e a 'missão de um homem só' (ou, neste caso, de um ogre e um burro). O resultado não podia deixar de ser um sucesso, um clássico geracional que marcou de tal forma os 'millennials' de todo o Mundo que é algo 'penoso' ver 'Shrek' ser apenas um 'meme' para os elementos da geração seguinte.

É, pois, com relativa boa-vontade e nostalgia que esses mesmos 'millennials' recebem as intermináveis repetições de 'Shrek' e das suas sequelas nos Natais e Páscoas da televisão portuguesa, dedicando mesmo algum tempo a rever aqueles clássicos nostálgicos da sua juventude, nascidos da necessidade de um homem fazer o equivalente cinematográfico de um 'manguito' à sua ex-companhia. E a verdade é que o impacto cultural de 'Shrek' se fez sentir não só no imediato (com o filme a servir de inspiração a outra franquia 'perene', a sátira de sátira 'A Idade do Gelo') como a longo-prazo, com a Dreamworks a consolidar a sua posição no mercado e a atingir níveis de sucesso que quase rivalizam com os da própria Disney. E se, por entre dragões e pandas, teria sido fácil ao ogre, burro e restantes 'comparsas' perder-se na 'multidão', aconteceria, de facto, o exacto oposto, com um quinto capítulo de 'Shrek' actualmente em produção, exactos vinte e cinco anos após o discreto despontar daquela que viria a ser a primeira grande franquia de animação do Novo Milénio.



Friday, 22 May 2026

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um Filme de 'Sonho'

 Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Apesar de não ter tanta expressão quanto o de outros países europeus, o cinema português de finais do século XX e inícios do seguinte não deixava, ainda assim, de produzir alguns bons filmes, quer a título individual, quer em co-produção com outras nações. É, precisamente, de um exemplo deste último paradigma – que completou recentemente vinte e cinco anos sobre a sua estreia nacional – que falaremos nesta Sessão de Sexta.

Produzido em parceria com a França e o Chile, e misturando diálogos em Português, Francês e Espanhol, 'Combate de Amor em Sonho' adopta uma narrativa não-linear que mistura nove histórias distintas, todas elas ambientadas em séculos passados e com uma atmosfera de fábula, povoada por personagens fantásticos, ficcionados ou até mitológicos, muitos deles representados pelo mesmo leque de actores – entre eles Rogério Samora, úncio 'representante' português no elenco. A ajudar a toda a atmosfera surgem as inimitáveis e características paisagens da zona de Sintra, onde o filme foi rodado, as quais se adequam perfeitamente às narrativas veiculadas pelo realizador Raúl Ruiz.

Apesar desta forte ligação a Portugal, no entanto (a qual se estende ao financiamento por parte da Madragoa Filmes e da RTP) 'Combate de Amor em Sonho' viria a ser apresentado pela primeira vez no estrangeiro, tendo ganho o prémio de imprensa no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, em 2000, e estreado em França ainda nesse mesmo ano, só depois chegando às salas de cinema lusitanas (a 18 de Maio de 2001). E apesar de nunca ter tido estatuto de 'blockbuster' (trata-se de um filme orgulhosamente independente, daqueles que acaba por apenas passar em certos cinemas menos comerciais) e de se encontrar algo esquecido um quarto de século após a sua estreia, o filme não deixa, ainda assim, de ser um digno representante do cinema independente internacional, em cuja participação a indústria cinematográfica portuguesa tem todo o direito de se orgulhar.

Saturday, 9 May 2026

Sessão de Sexta: 'Onde Tá O Carro, Meu?' - Uma 'Cápsula Nostálgica' Da Comédia Adolescente

 

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 07 de Maio de 2026.

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Após um período de menor actividade durante a primeira metade da década de 90, o género de 'comédia adolescente' voltou 'em força' nos últimos anos do século XX e inícios do seguinte, mantendo ambas as vertentes popularizadas nos anos 80 – a mais romântica e a mais brejeira – e actualizando cada uma delas para que fossem relevantes para os jovens 'millennial' tanto quanto as originais haviam sido para os 'boomers' e 'X'. E se o exemplo máximo desta segunda vertente continua a ser 'American Pie – A Primeira Vez', a verdade é que houve vários outros exemplos de comédia adolescente brejeira a conseguirem sucesso entre a demografia-alvo sensivelmente na mesma altura, como é o caso do filme abordado neste 'post', e que completou há cerca de um mês vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal.

Com Seann William Scott (o Stifler de 'American Pie') num dos papéis principais, 'Onde Tá O Carro, Meu?' já tinha 'meio caminho andado' para o sucesso; junte-se a isso Ashton Kutcher (outro ídolo adolescente da época) e um enredo mirabolante que coloca a dupla de protagonistas 'descerebrados' em toda a espécie de peripécias comprometedoras, e o resultado só podia ser um sucesso de bilheteira, com momentos ainda hoje marcantes e citados pelo público-alvo da época (como a cena em que os dois fazem tatuagens). Não é, claro, uma obra-prima, e ao contrário de 'American Pie', não tenta veicular uma mensagem positiva em permeio ao humor; nenhum dos dois personagens aprende qualquer lição de vida, e o auge do seu percurso é, simplesmente, a recuperação do titular carro – logo depois de terem lutado com uma seita de extraterrestres 'boazonas' pela posse de um cubo mágico, claro.

Para quem gostava deste tipo de escrita e humor completamente 'nonsense', este filme constituía um 'prato cheio'; para quem, no entanto, procurava algo mais substancial, o filme dos irmãos Weitz continuava a ser a escolha mais acertada, tendo a trilogia de filmes original desta última série 'envelhecido' melhor do que o filme aqui em análise. Ainda assim, aos vinte e cinco anos, 'Onde Tá O Carro, Meu?' continua a servir, quanto mais não seja, como 'cápsula do tempo' nostálgica, recordando um período da História do cinema em que situações disparatadas e humor politicamente incorrecto se sobrepunham à necessidade de um enredo coerente, sem que, por isso, os filmes em questão saíssem especialmente prejudicados...

Saturday, 18 April 2026

Sessão de Sexta / Saídas ao Sábado: Os Primórdios da Tecnologia IMAX em Portugal

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Sexta-feira, 17 de Abril de 2026.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Se, para muitas crianças (tanto de gerações passadas como da actual) a ida ao cinema é, já de si, uma experiência entusiasmante, imagine-se então se o filme for projectado num ecrã ainda maior, e com efeitos que fazem parecer que os personagens ou paisagens estão mesmo ali, ao alcance de um toque. É precisamente esta experiência que torna os cinemas IMAX tão especiais, e que fez com que os mesmos 'abananassem' os incautos jovens das gerações 'X' e 'millennial' aquando do seu aparecimento em Portugal, em finais dos anos 90.


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Uma das três salas IMAX actualmente existentes em Portugal.


O mais famoso destes ecrãs era, claro, o que integrava o Pavilhão do Conhecimento da Expo '98, e que era um dos elementos responsáveis pelas intermináveis filas à entrada do mesmo durante aquele memorável Verão; no entanto, ainda antes do advento da exposição, já outro espaço em Lisboa apresentava uma atracção IMAX – no caso, o Jardim Zoológico de Lisboa, cuja remodelação do espaço lúdico incluiu um cinema deste tipo, localizado na zona adjacente ao parque de diversões, logo à entrada das instalações. Assim, e apesar do preço algo proibitivo que o mesmo apresentava à época, esta terá mesmo sido a primeira experiência com filmes deste tipo para muitas crianças e jovens da capital e não só, para quem a coisa mais próxima daquela 'imersão total' até então haviam sido os simuladores virtuais electrónicos (os quais também aqui terão, paulatinamente, o seu espaço).


Curiosamente, e apesar dos desenvolvimentos tecnológicos das três décadas seguintes, a tecnologia IMAX não teve grande seguimento ou continuidade em Portugal; a Expo acabou, o cinema do Zoo fechou (e a sua instalação retirada) e não foram feitos quaisquer esforços para abrir espaços deste tipo, quer na capital, quer em outras zonas do País. Assim, contam-se hoje, em território nacional, apenas três salas com capacidade para mostrar filmes deste tipo, todas localizadas em 'multiplexes' inseridos em 'shoppings' – uma no Colombo, em Lisboa, outra no icónico CascaiShopping, e outra no MarShopping, em Matosinhos, no Porto. Para quem teve a sorte de ver aqueles primeiros espectáculos ou filmes em IMAX, no entanto, fica a memória de quando a referida tecnologia não só era menos corriqueira que hoje em dia, mas efectivaamente capaz de espantar e assombrar a quase totalidade da juventude nacional e mundial.


 

Saturday, 21 March 2026

Sessão de Sexta: Trinta Anos de Crimes Não Tão Pequenos

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 20 de Março de 2026.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Os 'primórdios' de carreira de grandes realizadores (e actores) são, quase sempre, fascinantes – uma mistura de filmes de baixo orçamento mas alta criatividade, projectos 'por encomenda' e filmes que, embora bem-sucedidos, ficam longe do que os seus autores viriam a mostrar no futuro. Há, claro, excepções a esta regra, em que os primeiros filmes de um cineasta o mostram já na 'plenitude' dos seus 'poderes' – ou, pelo menos, perto quanto baste. Nos anos 90, os nomes a inserirem-se nesta categoria incluíram Guy Ritchie – cujo primeiro filme é também o seu mais famoso – Tim Burton, e o nome sobre quem nos debruçamos nesta Sessão de Sexta, Danny Boyle.


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Hoje reconhecido, sobretudo, por filmes históricos como 'Trainspotting', 'A Praia' ou 'Slumdog Millionaire', o realizador em causa começaria, no entanto, por chamar a atenção logo com o seu primeiro filme, que chegava às salas de cinema portuguesas há quase exactos trinta anos (a 15 de Março de 1996) com o pouco intuitivo título de 'Pequenos Crimes Entre Amigos' – bem menos memorável do que o original 'Shallow Grave'. E apesar de, hoje, algo esquecido (excepto entre os fãs do realizador, que lhe outorgam estatuto de culto) o filme mostra já muitos dos elementos que tornariam Boyle conhecido, além de marcar o início da relação do cineasta com Ewan McGregor, que renderia, anos mais tarde, dois dos mais reconhecidos filmes da carreira de Boyle.


Em registo de comédia negra, o filme (que demoraria dois anos a atravessar o Atlântico da sua Escócia natal, onde estreava em Maio de 1994) segue as desventuras de um grupo de colegas de casa que, após descobrirem o novo inquilino do apartamento morto no seu quarto, lhe roubarem o dinheiro e drogas, o desmembrarem e o enterrarem; uma premissa bem típica das 'crimédias' britânicas (Guy Ritchie ou Edgar Wright poderiam ter assinado esta premissa, embora com mais criminosos à mistura) e que permite a Boyle exercitar muitas das técnicas e truques narrativos que o tornariam conhecido e favorito de um determinado público cinéfilo ao longo das décadas seguintes, bem secundado por um elenco que, além de McGregor, inclui também o futuro 'Dr Who' e Loki dos 'Vingadores', Christopher Eccleston, bem como outros excelentes actores de reputação mais local.


Embora longe de ser um filme para crianças, portanto, 'Pequenos Crimes Entre Amigos' terá 'caído no gosto' de quem era um pouco mais velho (a franja 'final' da Geração X), e despertado, mais tarde, a curiosidade dos 'millennials' que conheciam o realizador através de 'Trainspotting', 'A Praia', '28 Dias Depois' ou 'Slumdog Millionaire', os seus filmes de maior sucesso. Quanto a esta auspiciosa estreia, constituiu uma boa escolha para uma Sessão de Sexta 'de aniversário' (ainda que já cerca de uma semana atrasada) ou simplesmente para quem deseje conhecer os primeiros passos de um dos melhores e mais conceituados realizadores ainda em actividade.

Friday, 26 December 2025

Sessão de Sexta; Vinte e Cinco Anos de Uma Comédia 'Do Pior'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Juntamente com Eddie Murphy, Jim Carrey e Robin Williams, Ben Stiller faz parte do grupo de 'grandes' actores cómicos de finais do século XX e inícios do seguinte; e embora o seu estilo de humor seja algo menos consensual que o dos actores supracitados, Stiller conta, ainda assim, com alguns êxitos inegáveis na sua filmografia. Um dos maiores encontra-se prestes a celebrar vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal - ocorrida a 28 de Dezembro de 2000 - tornando-o na escolha perfeita para aquela que é a última Sessão de Sexta do ano de 2025.


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Falamos, claro, de 'Um Sogro do Pior', o filme que revelava também ao Mundo os talentos cómicos do habitualmente sisudo Robert de Niro, o qual, talvez cansado de ser associado exclusivamente com filmes de 'gangsters', 'rouba' completamente a cena no papel do excêntrico e algo perturbador sogro do personagem de Stiller, do qual este deve conquistar a amizade. Como não poderia deixar de ser, este processo envolve um sem-número de peripécias mirabolantes e situações constrangedoras, que ameaçam constantemente o inevitável final feliz, e expõem os piores traços de personalidade de todos os membros da família, incluindo o próprio Stiller.


E ainda que nem todas estas 'trapalhadas' resultem em pleno, há no filme suficientes situações bem-conseguidas para fazer com que valha a pena investir no mesmo para uma Sessão de Sexta em família, talvez integrado numa 'maratona' com as inevitáveis sequelas, ainda que cada uma delas contribua para diluir cada vez mais a premissa, juntando novos personagens e insistindo no mesmo tipo de situações até estas deixarem de ter piada. O primeiro da série, no entanto, 'envelheceu' com alguma dignidade - pesem embora alguns 'excessos' típicos das comédias da época - merecendo bem ser revisitado por ocasião do vigésimo-quinto aniversário da sua estreia em Portugal.


Saturday, 20 September 2025

Sessão de Sexta: Trinta e Cinco Anos de 'Dick Tracy', O 'Blockbuster' Esquecido de Inícios dos 90

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 18 de Setembro de 2025.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Qualquer membro da geração 'millennial' tem bem presente que os filmes baseados em bandas desenhadas apenas começaram a ser sucessos garantidos a partir do dealbar do Novo Milénio, quando os 'X-Men' de Bryan Singer revolucionaram o paradigma em termos de qualidade, e 'abriram a porta' àquele que, hoje em dia, talvez seja o género cinematográfico mais lucrativo e bem-sucedido. Para que se chegasse a esse ponto, no entanto, foi necessário passar por consideráveis 'dores de crescimento', sendo que, durante décadas, os fãs de 'comics' americanos nunca podiam saber o que esperar de cada nova adaptação cinematográfica, já que para cada mega-sucesso como o 'Batman' de Tim Burton havia outros quatro filmes que passavam despercebidamente para o mercado do vídeo, incapazes de concorrer com as mega-produções Hollywoodescas. O filme sobre o qual nos debruçamos nesta Sessão de Sexta (poucos dias após se terem completado trinta e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, a 14 de Setembro de 1990) fica a meio-caminho entre estas duas vertentes, tendo logrado ser um sucesso à época do seu lançamento, mas tendo caído no esquecimento quase generalizado nas três décadas e meia subsequentes.


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Falamos de 'Dick Tracy', adaptação da banda desenhada do mesmo nome, presença assídua nas páginas de BD dos jornais americanos, e que narra as desventuras do detective homónimo, reconhecível pela icónica gabardine amarela, na sua luta contra os mafiosos que regem a típica cidade dos anos 30 ou 40 onde vive. Um conceito mais na linha dos velhos livros de ficção barata do que propriamente dos super-heróis da Marvel e DC, mas que, ainda assim, apresenta semelhanças com séries como 'Batman', 'Sin City' ou 'Spirit', cujos filmes empregariam elementos estéticos a fazer lembrar os do filme em causa - o qual, no entanto, ficaria bastante aquém de qualquer deles em termos de impacto duradouro no Mundo cinematográfico.


Para os jovens cinéfilos daquele ano de 1990, no entanto, o filme trazia bastantes atractivos, da gama de cores da roupa dos personagens (a remeter intencionalmente aos tons vivos do Technicolor) até à presença de Madonna, então em alta, como interesse romântico do Tracy vivido pelo também realizador Warren Beatty, a participação de nomes como Al Pacino, Dustin Hoffman, James Caan ou Dick Van Dyke, ou mesmo apenas o apelo estético do icónico logotipo do personagem, que gerou alguma procura a nível de 'merchandise' alusivo ao filme imediatamente após a sua estreia.


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O elenco recheado de estrelas do filme.


Infelizmente, ao contrário de outros exemplos de que já aqui falámos, e apesar da 'parada de estrelas' que constituía o seu elenco a adaptação em 'carne e osso' de 'Dick Tracy' não logrou suster esse nível de interesse a longo-prazo, tendo-se rapidamente tornado 'apenas' mais um filme, mesmo enquanto a BD original continuasse de 'pedra e cal' nas páginas dos jornais. Ainda assim, numa altura em que se assinala um 'aniversário' marcante para o filme de Beatty, é justo homenageá-lo com estas singelas linhas, as quais (quem sabe?) talvez motivem quem ainda não conhece o filme – ou mesmo quem já o tenha visto – a procurar forma de o (re)ver nos tempos modernos...

Saturday, 21 June 2025

Sessão de Sexta: 'Léon - O Profissional' - Um 'Thriller' 'À Grande e À Francesa'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 20 de Junho de 2025.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O início dos anos 90 viram ter lugar uma mudança de paradigma no tocante ao produto cinematográfico de Hollywood, em mais do que uma vertente. Para além das mudanças na apresentação e estética dos filmes considerados 'blockbusters', assistiu-se também a um influxo de realizadores estrangeiros – nomeadamente asiáticos e europeus – que trouxeram consigo as influências do cinema dos seus respectivos países e regiões, incorporando nos seus filmes elementos estilísticos e temáticos a que os espectadores norte-americanos não estavam necessariamente habituados, e estabelecendo assim uma reputação como criadores de 'cinema de autor' que, ao mesmo tempo, conseguia ser bem aceite pelas massas. E se John Woo e seus comparsas se centravam sobretudo no estilo, com recurso à câmara lenta e inclusão de simbologia visual, o contingente europeu preferia destacar-se pela inclusão de temáticas humanistas e filosóficas naquilo que, regra geral, seria apenas 'mais um' filme de acção ou suspense. Um dos melhores exemplos desta abordagem estreou nas salas de cinema nacionais há pouco mais de trinta anos (a 28 de Abril de 1995) e granjeou imediatamente o estatuto de obra de culto para amantes de 'thrillers' mais cerebrais e menos imediatistas.


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Falamos de 'Léon – O Profissional', o 'thriller' responsável por lançar em Hollywood não só os seus dois actores principais – o francês Jean Reno e uma jovem Natalie Portman, para quem este era o primeiro papel cinematográfico – como também o seu realizador, Luc Besson, que rapidamente ficaria conhecido como um dos melhores 'balanceadores' de estilo e conteúdo do período em causa. E a verdade é que essas qualidades ficam bem vincadas neste filme, que, apesar de longe dos excessos visuais de 'O Quinto Elemento' e outros filmes do realizador, tem um estilo visual próprio, que complementa uma trama centrada, não em tiros e cenas de acção, mas no relacionamento do titular assassino a soldo com a menina que resgata após a morte dos pais – um elemento que Reno e, sobretudo, Portman (em extraordinária actuação para uma criança de apenas 13 anos e sem qualquer experiência no ramo) conseguem transmitir de forma exímia, dando ao filme um 'centro' emocional que muitas outras obras do estilo nunca chegam a almejar.


Não admira, pois, que 'Léon – O Profissional' seja ainda hoje alvo de elogios por parte da crítica especializada, e conste das listas de favoritos de muitos cinéfilos (nacionais e não só) com preferência por filmes com alguma 'substância' a ancorar os momentos de emoção e acção. Mais – nas três décadas subsequentes, o filme quase não 'envelheceu', quer do ponto de vista visual quer a nível do enredo e temáticas, continuando a constituir uma excelente base para uma Sessão de Sexta, e a justificar algumas breves linhas a seu respeito neste nosso 'blog' nostálgico.


Friday, 6 June 2025

Sessão de Sexta: 'Duas Vidas e o Rio' - O 'Despontar' de Brad Pitt

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Na última edição desta rubrica, celebrámos os trinta anos da estreia nacional de 'Lendas de Paixão', um dos filmes que ajudaram a consagrar Brad Pitt enquanto actor principal. Nessa ocasião, mencionámos também um projecto anterior do galã, tão ambicioso e bem-recebido quanto aquele, e em que havia sido dirigido por Robert Redford; nada melhor, portanto, do que nos debruçarmos agora sobre esse filme.


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Produzido em 1992 e adaptado da obra semi-autobiográfica de Norman McLean, 'Duas Vidas e o Rio' (no original, 'A River Runs Through It') traz Pitt no papel do mais novo dos dois filhos de um pregador presbiteriano do Montana rural, no caso o mais rebelde, por oposição ao irmão mais sensato (e autor da obra que serve de base ao filme), interpretado por Craig Shaeffer. O principal fio condutor da relação dos dois, tanto entre si como com o pai – que o filme explora ao longo de um período de cerca de trinta anos – é o gosto pela pesca, que levam a cabo no titular rio que passa perto da sua propriedade.


Como a sinopse dá a entender, trata-se de um filme minimalista, centrado nos relacionamentos dos três protagonistas, e contado num ritmo deliberado – uma descrição algo antagónica aos 'blockbusters' tanto da época como da actualidade, que privilegiam a acção, mas que permite a Pitt mostrar todas as qualidades que já nessa época possuía, ob a tutela de um antigo actor (e realizador mais que competente) como o é Redford. De facto, trata-se de um de uma série de papéis que o jovem actor aceitava na esperança de mostrar ser mais do que uma 'cara bonita' – o que, infelizmente, não impediria totalmente a sua estigmatização como sendo isso mesmo, a par do contemporâneo Leonardo DiCaprio, com quem rivalizava nos corações das adolescentes de então, e que aceitara já, ele próprio, projectos mais personalizados, como sejam 'Gilbert Grape' e 'A Vida Deste Rapaz'. Quanto a Pitt, partiria deste filme para 'Lendas de Paixão' e, daí, para uma carreira, em larga medida, bem menos 'comercial' do que poderia parecer à primeira vista, com filmes como 'Clube de Combate' e 'Seven – Sete Pecados Mortais' a sobreporem-se às inevitáveis comédias românticas n sua filmografia. Foi com 'Duas Vidas e Um Rio', no entanto, que Pitt principiou a delinear o 'caminho' que o tornaria numa das maiores estrelas de Hollywood, o que constitui razão suficiente para dedicarmos umas breves linhas a este excelente filme.

Friday, 23 May 2025

Sessão de Sexta: 'Lendas de Paixão' - A Consagração de Brad Pitt

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


De entre os muitos nomes que definiram o panorama cinematográfico dos anos 90, um dos mais incontornáveis é o de Brad Pitt, hoje actor consagrado e respeitado, mas que – a par do seu contemporâneo Leonardo DiCaprio, hoje também tido em grande conta – era posicionado à época como sucessor natural dos galãs da década anterior, como Patrick Swayze ou Tom Cruise. Adorado por grande parte da população feminina pela sua atraente aparência e luminoso sorriso (em competição com o de Tom Cruise como o melhor daquela época), o então jovem actor viu-se, naturalmente, denegrido por uma parcela significativa não só do público jovem masculino, mas também dos críticos de cinema, para quem, nessa fase inicial, não passava de mais um 'menino bonito' de habilidade limitada.


A verdade, no entanto, é que tal visão era algo declaradamente parcial, e mesmo um pouco injusta, já que, mesmo nessa fase embrionária da sua carreira, Pitt dava já sinais de poder ser um nome a ter em conta para o futuro, granjeando mesmo papéis em filmes de realizadores como Robert Redford, com quem fez, em 1992, o aclamado 'Duas Vidas e Um Rio'. Seria, no entanto, apenas dois anos depois que surgiriam os dois filmes que verdadeiramente o consagrariam junto do público cinéfilo: 'Entrevista Com O Vampiro' e a obra a que dedicamos este 'post', 'Lendas de Paixão'.


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Produzido em 1994, mas estreado em Portugal apenas no ano seguinte – completaram-se no passado dia 11 de Maio exactos trinta anos sobre a sua estreia, não tendo o hiato do Anos 90 permitido falar do filme nessa altura – 'Lendas de Paixão' é, como 'Duas Vidas E Um Rio', um filme 'de época', desenrolando-se a trama durante toda a primeira metade do século XX, desde a Primeira Guerra Mundial até 1963. Um projecto, desde logo, ambicioso, e que requeria mais do que apenas uma 'cara bonita' para o conduzir; felizmente, Pitt esteve à altura, não destoando do restante elenco, e contribuindo para um filme ainda hoje bem conseguido (chegou a ganhar o Óscar de Melhor Cinematografia do seu ano) e bem merecedor de ser visto.


A conribuir para o sucesso global da obra, ao lado de Pitt, estão nomes como Aidan Quinn, Julia Ormond e o incontornável Anthony Hopkins, no papel do pai de três homens com quem é forçado a encarar as sucessivas mudanças histórico-sociais da América durante o período em causa, que afectam até mesmo as vidas de cidadãos do Montana rural, como a família Ludlow. O foco, no entanto, está todo no Tristan de Brad Pitt, grande catalista das peripécias do filme, um personagem complexo e longe de perfeito, mas com quem é, ainda assim, fácil simpatizar ao longo do decurso do filme.


Juntamente com 'Entrevista Com o Vampiro', esta obra ajudaria, pois, a elevar o 'cachet' de Pitt como actor principal, dando (parcialmente) o mote para uma carreira de astronómico sucesso, que tornaria o actor numa das mais reconhecidas personalidades dos anos 90 e 2000, e que ainda hoje lhe permite escolher projectos de valor, e trabalhar com realizadores como Quentin Tarantino. Razão mais que suficiente, portanto, para celebrar esta obra, no mês em que se completam três décadas sobre a sua estreia nacional.


Sunday, 22 December 2024

Sessão de Sexta: 'Os Dias do Fim'...da Carreira de Arnold Schwarzenegger

NOTA: Este 'post' é respeitante a Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2024.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Os anos 90 foram palco de uma mudança de paradigma no campo do cinema de acção, com os enredos centrados em mercenários em luta com exércitos inimigos ou terroristas, típicos da década anterior, a serem substituídos por um maior influxo de elementos de ficçáo científica, inspirados nos sucessos de 'Exterminador Implacável 2' e, mais tarde, 'Matrix'. E se, eventualmente, este género viria a lançar uma série de novos potenciais heróis de acçáo, a fase inicial do mesmo serviu, ainda, de veículo a nomes da 'velha escola', como Sylvester Stallone, Jean-Claude Van Damme ou o 'Exterminador' em pessoa, Arnold Schwarzenegger. Foi, aliás, este último a ter as honras de 'encerrar' tanto o século XX como o Segundo Milénio, com um filme bem característico da sua época e, pelos critérios do actor, até bastante ambicioso; uma pena, portanto, que o resultado tenha ficado um pouco aquém das expectativas.


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Falamos de 'Os Dias do Fim', película que celebrou há poucos dias os vinte e cinco anos da sua estreia em Portugal (a 17 de Dezembro de 1999) e que vê Arnold travar uma batalha com o próprio Diabo para o impedir de procriar com uma mulher humana e gerar, assim, o Anticristo. Um conceito muito mais sério e sombrio do que os de filmes anteriores do ex-culturista, e que lhe atribui um personagem também ele mais 'humano' e menos perfeito e invencível do que os que normalmente encarnava, que lidava inclusivamente com problemas de alcoolismo. Um veículo mais do que credível, portanto, para a planeada evoluçáo de carreira do actor, que pretendia expandir os seus horizontes enquanto intérprete, e adaptar-se ao novo 'clima' cinematográfico de inícios do Terceiro Milénio.


Infelizmente, consecutivos problemas impediram que 'Os Dias do Fim' atingisse o seu potencial, tendo uma série de bons realizadores optado por declinar o projecto, fosse por outros compromissos (como Guillermo del Toro ou Sam Raimi) fosse por problemas com o guiáo e a produçáo, como foi o caso com Marcus Nispel, e a realizaçáo a acabar por ficar a cargo de Peter Hyams. De igual modo, actores como Tom Cruise, Liv Tyler ou Kate Winslet tiveram de ser 'substituídos' por Schwarzenegger e a futura estrela de televisão, Robin Tunney. E embora o impacto destas mudanças no produto final nunca possa ser contabilizado, a verdade é que a versáo final de 'Os Dias do Fim' teve uma recepçáo extremamente negativa por parte da crítica e do público e foi um relativo fracasso de bilheteira, sendo hoje visto, ironicamente, como o início dos 'dias do fim' da carreira de Arnold Schwarzenegger, a qual entraria em abrupto declínio no Novo Milénio.


Embora ainda apreciado em certos círculos como filme 'tão mau que é bom', 'Os Dias do Fim' é, pois, lembrado hoje em dia sobretudo como aposta falhada, ou 'passo maior do que a perna'; ainda assim, como um dos últimos filmes a estrear em Portugal no Segundo Milénio, o filme merece ainda assim uma homenagem por altura dos vinte e cinco anos da sua estreia nas salas de cinema nacionais.


Friday, 3 May 2024

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de 'Dossier Pelicano' (1993), Uma Adaptação 'Como Manda a Lei'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O início dos anos 90 foi palco de um breve 'romance' entre os estúdios de Hollywood e John Grisham, o popular autor de 'thrillers' com tramas baseadas em casos jurídicos. Num curto espaço de tempo (menos de meia década), o escritor viu serem adaptadas ao formato cinematográfico diversas das suas principais obras, por vezes ao ritmo de mais de uma por ano. A primeira destas foi 'A Firma', com Tom Cruise, cujo sucesso serviu de mote para adaptações como 'O Cliente' (do ano seguinte), 'Tempo de Matar', 'O Segredo' (ambos de 1996) ou o filme que abordamos hoje, lançado logo naquele mesmo ano de 1993, mas que chegava a Portugal apenas na Primavera do ano seguinte, tendo acabado de completar trinta anos sobre a sua estreia nacional, a 15 de Abril de 1994. E porque, na Sessão de Sexta correspondente, escolhemos abordar outro 'aniversariante' mais relevante – o primeiro capítulo da saga 'A Múmia' – prestaremos agora a devida homenagem a 'Dossier Pelicano', filme que, apesar da temática séria e adulta, chegou a ter alguma exposição nos meios de comunicação dirigidos aos mais jovens publicados à época (a revista 'Super Jovem', por exemplo, fez do filme capa de um dos seus números daquele mês.)



Capa do DVD nacional do filme.


Tal atenção não era, aliás, de estranhar, tendo em conta que a adaptação do livro de John Grisham sobre uma advogada estagiária que se vê pessoalmente envolvida num caso 'de monta' trazia nos papéis principais duas das maiores estrelas de cinema da época: a idealista Darby Shaw era interpretada por uma Julia Roberts em pleno 'período imperial' (que, ainda nesse mesmo ano de 1993, participaria também em 'Hook', o 'Peter Pan para crescidos' realizado por Steven Spielberg) enquanto que o seu mentor e parceiro era vivido por Denzel Washington.


E se só a presença destes dois mega-astros da 'constelação' de Hollywood já seria suficiente para levar a maioria dos cinéfilos da altura às salas de cinema, o par não deixa os créditos por mãos alheias, evidenciando uma excelente 'química' mútua que é, também, ajudada pelo excelente elenco secundário - que inclui nomes como Sam Shepard, Stanley Tucci, John Lithgow, Robert Culp ou James B. Sikking, o Hunter de 'Hill Street Blues' – e pelo próprio guião, que adapta de forma fiel uma das melhores tramas de Grisham. O resultado é um filme que, sem necessariamente obedecer aos requisitos dos mais novos em termos de acção e comédia, não deixa, ainda hoje, de proporcionar uma excelente Sessão de Sexta para cinéfilos mais sérios, justificando bem a homenagem (ainda que atrasada) por alturas do trigésimo aniversário da sua chegada às salas nacionais.


Tuesday, 9 April 2024

Terças de TV: 'Lauro António Apresenta' (1994) - Uma 'Sessão da Tarde' Especial

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


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No Portugal de finais do século XX e inícios do XXI, ainda mais do que no de hoje, certas frases, bordões e dichotes logravam transpõr o seu contexto original e transformar-se em parte integrante da cultura popular. Entre dizeres oriundos de séries, filmes ou concursos de televisão, músicas e 'slogans' de anúncios, e uma ou outra frase de origem mais esotérica (como o lendário 'Oh, Elsaaaa!', nascido no festival de música do Sudoeste) eram inúmeros os exemplos desta mesma tendência – e, para quem fazia, à época, parte de determinada demografia, um dos mais memoráveis será uma frase em Inglês 'macarrónico' dita por um venerando senhor de fato num dos mais populares programas de humor da História da televisão portuguesa. Falamos, é claro, do lendário 'let's luque etta traila' que era imagem de marca de Lauro Dérmio, um dos muitos 'bonecos' de inspiração real criados por Herman José para os seus vários programas humorísticos, no caso a sua icónica 'Enciclopédia'. O que muitos dos jovens que riam com a caricatura talvez não soubessem, no entanto, era que a inspiração de Herman para o personagem dispunha, ela própria, de um programa, à época acabado de sair do ar, mas que marcara os hábitos televisivos de muitos cinéfilos nacionais durante os anos transactos.



A caricatura de Herman José era mais popular do que o próprio programa que parodiava.


Tratava-se de 'Lauro António Apresenta', um programa de antevisões a filmes então prestes a chegar ao cinema transmitido pela TVI a partir de inícios de 1994, que, pontualmente, servia também como sessão de cinema, procurando neste caso destacar-se das várias (e excelentes) propostas semelhantes veiculadas pelos outros canais (muitas até aos dias de hoje) através de uma abordagem mais personalizada e intelectual no tocante aos conteúdos mostrados. Isto porque, como o próprio nome do programa indica, os filmes exibidos eram especialmente escolhidos pelo titular cineasta, responsável pelo premiado filme 'Manhã Submersa', e que se encarregava também de fazer uma pequena introdução a cada uma das películas escolhidas – fornecendo assim, involuntariamente, inspiração para a posterior caricatura engendrada pelo 'rei' do humor português.


No total, foram cinco os filmes exibidos por Lauro António, e pela TVI, como parte destas sessões, cuja cronologia se dispersa ao longo de três anos. As primeiras duas emissões, sobre as quais se assinalaram na semana transacta exactos trinta anos, foram dedicadas ao filme italiano 'Barrabás', de 1961, e às duas partes do famoso épico 'Cleópatra', realizado dois anos depois e com interpretações de Elizabeth Taylor, no papel da lendária rainha egípcia, Rex Harrison, Roddy McDowall e Martin Landau, entre outros. Após estes dois 'eventos' pascais, no entanto, a emissão extinguir-se-ia durante mais de nove meses, regressando apenas a 14 de Janeiro de 1995, com a exibição de 'Não o Levarás Contigo', de 1938. Seguir-se-iam mais quatro meses de hiato (contados quase ao dia) até ao regresso com 'O Mundo A Seus Pés', clássico de Orson Welles, a 13 de Maio.


Por mais longas que fossem estas pausas entre emissões, no entanto, nada se comparou ao intervalo entre o filme de Welles e a seguinte obra-prima apresentada por Lauro António, que iria ao ar a 22 de Fevereiro...de 1997, mais de um ano e meio após a última edição da sessão! A exibição da película francesa sobre a vida de Molière, datada de 1978, assinalaria, aliás, não só o filme mais moderno seleccionado para o programa, mas também o último, em meio a uma mudança de paradigma não só por parte da própria TVI, como do panorama televisivo nacional em geral, que 'tiraria' o programa do ar ainda nesse mesmo ano.


Esta calendarização errática, aliada à opção deliberada por filmes mais antigos e de índole mais artística, mesmo nas emissões mais 'normais' – por oposição às habituais comédias e filmes de acção preferidas pelo público infanto-juvenil – terá contribuído para que Lauro António e o respectivo programa fossem, para muitos jovens de finais do século XX, conhecidos sobretudo pelo 'boneco' paródico criado por Herman José; no entanto, a nível conceptual, há que louvar o esforço do realizador e da TVI (então ainda apostada em injectar cultura ao panorama televisivo, ao contrário do que sucederia no Novo Milénio) para alargar os horizontes do público das sessões da tarde, e lhe apresentar filmes clássicos e importantes da História da Sétima Arte – missão que, certamente, terá tornado 'Lauro António Apresenta' memorável para muitos cinéfilos nacionais, tornando-o merecedor de destaque nestas nossas páginas, por alturas dos trinta anos da sua primeira emissão. E porque não há, neste caso, 'trailers' para visionar, aqui ficam dois excertos do programa, com agradecimentos ao YouTube...


Saturday, 13 January 2024

Saídas de Sábado: As Salas de Cinema Independentes

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Na última Sessão de Sexta, falámos dos ciclos e mostras de cinema independente, bem como das salas que escolhiam prescindir dos maiores êxitos de bilheteira para divulgar este tipo de filmes, por intermédio de distribuidoras como a Medeia Filmes. Nada melhor, portanto, do que dedicarmos a Saída deste Sábado a explorar um pouco mais a fundo esses espaços emblemáticos de finais do século XX, e – infelizmente – praticamente desaparecidos nos dias que correm.


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Normalmente situadas nos locais mais insuspeitos – em ruas residenciais ou paralelas às grandes artérias urbanas, caves de centros comerciais de bairro, ou até no interior de instituições e centros culturais – estas salas mais pequenas e independentes tinham, normalmente, em comum o clima e atmosfera no seu interior, que remetia a tempos mais clássicos, com poucos lugares, o ecrã muito próximo até mesmo das filas de trás, e aquele silêncio quase reverente que as gerações anteriores ao aparecimento dos 'multiplex' se habituaram a associar com a experiência de ir ao cinema. Este claro contraste com as luzes, ruído e banca de pipocas e refrigerantes das referidas salas de 'shopping', coadunava-se com a própria oferta de filmes, sendo as obras exibidas neste tipo de cinema, regra geral, mais intimistas e menos 'bombásticas' do que os típicos filmes de Verão ou Natal.


Não quer isto dizer, é claro, que um ou outro desses filmes não surgisse nos cinemas em causa, sendo que os filmes da Disney, em particular, tendiam a ser exibidos nestes espaços. Mesmo nesses casos, no entanto, estas salas marcavam a diferença, normalmente através da exibição da versão legendada, por oposição à dobrada, mantendo assim a vertente mais inteligente e intelectual que as caracterizava, ao mesmo tempo que se estabeleciam como a única escolha para quem quisesse ver os filmes em versão original, atraindo assim uma quota-parte garantida de público.


Infelizmente, o advento do DVD, e a maior diversificação dos lançamentos em formato caseiro – que passaram a incluir muitos títulos independentes e 'de autor', antes totalmente inacessíveis fora do contexto de salas deste tipo – veio ditar o 'início do fim' dos cinemas independentes, que passariam as duas décadas seguintes a definhar numa triste 'morte lenta', até ao inevitável fecho e reconversão em qualquer outro tipo de negócio. Como consequência, hoje em dia, apenas um número irrisório de entre todas as salas deste género existentes no País à época se encontra ainda em actividade, tendo as mostras e ciclos de cinema passado, quase exclusivamente, para as cinematecas e instituições culturais como a Culturgest, em Lisboa – p que não invalida que as salas em causa vivam na memória de quem nelas assistiu a muitos e bons filmes que, de outra forma, talvez nunca tivesse visto, justificando assim a sua escolha como destino para a primeira Saída de Sábado do ano de 2024.

Friday, 12 January 2024

Sessão de Sexta: O Cinema 'Alternativo'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Uma das primeiras Saídas de Sábado deste nosso blog foi ao cinema, para recordar a experiência de ir, com os pais ou amigos, ver um filme 'da moda' numa sala de bairro, ou num dos muitos 'multiplexes' que iam surgindo por esse País fora, como parte integrante dos 'shopping centers' que se vinham, também eles, espalhando pelo território continental. No entanto, havia ainda uma terceira categoria de cinema – e segundo tipo de filme – não contemplados por esse primeiro artigo; é, precisamente, essa mesma categoria que iremos abordar nesta Sessão de Sexta, a qual terá um cariz algo mais intelectual do que de costume. Isto porque, esta Sexta, recordaremos as mostras e ciclos de cinema independente, prática corrente dos anos 90 e 2000 que, como tantas outras abordadas nestas páginas, tem vindo progressivamente a perder fôlego ao longo dos últimos quinze anos, mas que fez as delícias de duas gerações de jovens cinéfilos portugueses, apresentando-lhes filmes aos quais, de outra forma, não teriam necessariamente acesso na era pré-serviços de 'streaming'.


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A Medeia Filmes foi uma das principais distribuidoras de cinema independente e de autor em Portugal.


De facto, numa época em que eram poucos e selectos os lançamentos em VHS (e mesmo, mais tarde, em DVD) estes ciclos temáticos ou exibições num número limitado de salas mais pequenas eram a única forma de contacto com um certo tipo de cinema mais 'de autor', mais condicente com um clima mais sério e introspectivo do que com as pipocas e música-ambiente das salas de 'shopping'. Certos cinemas mais históricos ou menos centrais das grandes capitais (e não só) faziam mesmo da exibição deste tipo de filme o seu principal factor distintivo, destacando-se orgulhosamente das salas mais 'comerciais' e apelando abertamente a um público mais cinéfilo, como era o caso, entre outros, dos cinemas King ou Star, ambos na zona de Roma/Alvalade, em Lisboa. E embora o advento do Novo Milénio, a chegada do DVD e a considerável expansão no volume e cariz dos lançamentos disponíveis em edição nacional tenham, inevitavelmente, causado uma mudança no teor deste tipo de iniciativa, a mesma gozou, ainda, de mais uma década de enorme visibilidade, com as salas e cinematecas a aproveitarem as potencialidades do novo formato, muitas vezes exibindo o filme directamente a partir do mesmo.


Ainda assim, estes espaços mais pequenos viram-se incapazes de travar o progressivo avanço dos mega-cinemas comerciais, e a organização de ciclos e mostras de cinema passou, progressivamente, para o domínio das associações privadas, universidades, e outros espaços semelhantes, onde se mantém até aos dias de hoje, tendo a maioria das salas conhecidas por mostrarem filmes 'alternativos' soçobrado ao inevitável domínio dos filmes da Disney, Marvel, Star Wars e outros 'blockbusters' semelhantes. Os cinéfilos da Geração Z vêem-se, assim, obrigados a recorrer à Internet (ou às colecções de filmes dos pais) para conhecerem alguns dos mesmos clássicos que os seus antecessores tiveram o privilégio de ver em ecrã gigante, numa qualquer sala ao fundo de umas escadas ou na divisão do fundo de um centro comercial de bairro, vinte ou trinta anos antes...

Saturday, 26 August 2023

Sessão de Sexta: 'Cães Danados' (1993) - O Despertar de Tarantino

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-Feira, 25 de Agosto de 2023.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Hoje em dia, o nome de Quentin Tarantino é sinónimo de um certo e determinado tipo de cinema, pleno de referências à cultura 'pop', diálogos inteligentes e cheios de palavras incomuns, humor negro e, muitas vezes, doses cavalares de 'molho de tomate'. Mas se, hoje em dia, o cinema do realizador (com todos os elementos supracitados) faz parte das referências de qualquer cinéfilo, em Maio de 1993, o mesmo era um ilustre desconhecido - pelo menos para os jovens lusitanos, que se preparavam (sem o saber) para tomar contacto com a sua primeira obra-prima.


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Terceiro filme do realizador (embora seja o primeiro de maior expressão, e considerado por muitos como a sua verdadeira estreia), 'Cães Danados' ('Reservoir Dogs', no original) traz já todos os elementos supracitados, bem como outros típicos de Tarantino (como a 'ponta' do próprio realizador numa das cenas), tendo sido responsável por os implementar e apresentar ao grande público. E se, em trabalhos subsequentes, QT se desdobraria em arroubos de história, aqui, o argumento não pode ser mais simples: todo o filme se passa num único local, um armazém abandonado, e se centra num único grupo de seis homens, ali refugiados após um assalto mal-sucedido. Sem saberem nada uns sobre os outros, além dos nomes de código referentes a cores, os mesmos acabam, ainda assim, por desenvolver relações interpessoais de cariz tragicómico, num resultado final que fica entre a comédia negra e a vertente mais sarcástica dos filmes de crime (ao estilo Guy Ritchie).


Alicerçado nas excelentes exibições de Harvey Keitel, Steve Buscemi, Tim Roth e Michael Madsen, 'Cães Danados' não tardou a ganhar renome como um dos filmes mais sangrentos até então filmados, e também como uma descontrução dos filmes de crimes, semelhante à sua inspiração directa, 'The Killing', de Stanley Kubrick. O seu sucesso contribuiu também, em larga medida, para estabelecer o nome de Tarantino como jovem realizador a ter em conta, um estatuto que seria cimentado pelo seu trabalho seguinte, o lendário 'Pulp Fiction', lançado em 1994. 'Cães Danados' é, no entanto, muito mais do que apenas um 'ensaio geral' para esse filme, e continua a merecer os elogios de que é alvo, mesmo após completadas três décadas sobre a sua chegada a Portugal.


Friday, 5 May 2023

Sessão de Sexta: 'O Bom Rebelde' - Um Conto de Fadas Real

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Apesar de as mais diferentes formas de ficção se continuarem a centrar na ideia de que os sonhos se podem tornar realidade, na vida real, tal raramente acontece, sendo que, na maioria dos casos, até os esforços mais aturados se revelam inglórios. Talvez seja por isso que, quando um caso destes tem, efectivamente, lugar, o mesmo se revele tão satisfatório para o chamado 'grande público' – e um dos principais exemplos deste fenómeno surgiu em finais dos anos 90, quando um guião escrito de forma independente por dois actores conseguiu ir de rejeitado a mega-sucesso de bilheteira.


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Falamos de 'O Bom Rebelde' ('Good Will Hunting', no original), um dos vulgarmente chamados 'projectos de paixão' para Matt Damon e Ben Affleck, dois nomes, à época, já estabelecidos, mas ainda longe do estrelato de que mais tarde viriam a gozar. Os dois actores, ainda hoje melhores amigos, viram o guião que haviam passado a primeira metade da década a escrever (a partir de uma ideia que Damon tivera ainda durante o curso de Cinema em Harvard) ser rejeitado por praticamente todos os estúdios de Hollywood (incluindo uma 'mudança de ideias' por parte da Castle Rock Entertainment), forçando-os a usar os seus 'conhecimentos' dentro da indústria – no caso, o realizador independente de culto, Kevin Smith – para fazer chegar o trabalho à Miramax.


Contra todas as expectativas, a companhia dos irmãos Weinstein aprovou mesmo o guião, bem como a proposta de Damon e Affleck para que eles próprios ocupassem os papéis principais, e não tardou até que os dois actores se encontrassem em posição de escolher um realizador para o seu filme – um cargo que acabaria por caber a Gus Van Sant, depois de o próprio Smith ter rejeitado essa incumbência. Mais, os dois jovens actores veriam ser adicionado ao elenco um nome de vulto do cinema da altura – nada mais, nada menos do que Robin Williams, que regressava assim aos papéis dramáticos para interpretar o psicanalista do titular Will Hunting, o contínuo do MIT que descobre, quase por acaso, ser sobredotado para a Matemática, um facto que virá a mudar a sua vida.


Ainda hoje aclamado como um dos grandes filmes não só dos anos 90 como da era moderna, 'O Bom Rebelde' consegue a proeza de não cair em nenhuma das 'armadilhas' que a presença de alguns dos nomes envolvidos poderia suscitar: não se trata de um filme pretensioso, como os que Gus Van Sant costuma realizar, nem lamechas, pese embora a presença de Robin Williams, e até mesmo Affleck se encontra em 'dia sim' em termos de representação, sendo este um dos seus melhores papéis da sua já longa carreira. A soma de todas estas partes resulta num filme que (pouco mais de vinte e cinco anos após a sua estreia em Portugal, em Março de 1998) continua a valer mesmo a pena ver, e a justificar a aclamação crítica que lhe foi dedicada, tanto à época como em anos subsequentes. Em suma, um 'conto de fadas real' com final feliz - tanto para os dois actores e argumentistas, que conseguiram fazer 'sair do chão' o projecto a que haviam dedicado parte da juventude, como para os cinéfilos, que se viram, naquela Primavera de 1998, brindados com um excelente e justamente premiado drama.


Friday, 7 April 2023

Sessão de Sexta: 'O Homem da Máscara de Ferro' (1998) - Há Vida Após 'Titanic'

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O ano de 1998 pode ser considerado como assinalando o verdadeiro 'despontar' de Leonardo DiCaprio enquanto actor de 'primeira linha' em Hollywood; embora o bem-parecido jovem já contasse, à época, com alguns papéis dignos de nota (alguns, inclusivamente, aclamados pela crítica, como o do irmão do Gilbert Grape de Johnny Depp no filme homónimo) foi em finais de 1997 que o actor verdadeiramente 'explodiu' na cena cinematográfica, com a conquista do papel principal no mega-sucesso 'Titanic', ainda hoje uma das maiores receitas de bilheteira da História do cinema moderno.


Este novo estatuto trazia consigo, no entanto, um novo desafio: o de escolher entre a vertente de carreira como ídolo juvenil e a que conduzia ao reconhecimento como actor 'a sério'. A solução encontrada pelo jovem foi a de assumir uma posição de compromisso, não hesitando em fazer uso da sua aparência física para 'vender' filmes mas, ao mesmo tempo, entregando-se a projectos algo mais desafiantes do que as típicas comédias românticas que o 'rival' pelas afeições das jovens da época, Brad Pitt, vinha ainda fazendo. O primeiro desses projectos, que completa este fim-de-semana de Páscoa vinte e cinco anos sobre a sua estreia em Portugal, foi uma adaptação de um romance de Alexandre Dumas, onde DiCaprio encabeçava um elenco recheado de estrelas do calibre de Gérard Dépardieu, Jeremy Irons ou John Malkovich.


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Tratava-se de 'O Homem da Máscara de Ferro', obra do relativamente desconhecido Randall Wallace que chegava às salas portuguesas a 10 de Abril de 1998, e que trazia DiCaprio no papel do mítico prisioneiro francês do reinado de Luís XIV, o qual se vê a braços com os quatro famosos mosqueteiros do 'Rei Sol', aqui já bastante envelhecidos e interpretados com maestria por Irons, Malkovich, Dépardieu e Gabriel Byrne. Para crédito de DiCaprio, o mesmo não faz má figura frente a estes mestres da representação, conseguindo manter bem distintos os papéis do prisioneiro (conhecido apenas como Philippe) e do próprio Rei, seu irmão gémeo secreto. O resultado é um filme que, apesar de relativamente mal recebido pela crítica à época do seu lançamento, continua a afirmar-se como uma obra de qualidade um quarto de século após o seu lançamento, e que tem o mérito indelével de ter destronado 'Titanic' do seu hegemónico reino de seis meses sobre as bilheteiras norte-americanas. tendo-se assim DiCaprio 'substituído' a si mesmo no lugar cimeiro da tabela. Título bem merecedor, portanto, da distinção que lhe prestamos neste vigésimo-quinto aniversário do seu lançamento em Portugal, e que continua a constituir uma excelente opção para uma tarde ou noite de cinema em família.

Friday, 24 March 2023

Sessão de Sexta: 'Anastasia' (1997) - O Último Clássico de Don Bluth

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


Os filmes de animação de finais do século XX tendiam a estar associados a um de três nomes: por um lado, o da tradicional e decana Walt Disney, então a atravessar um 'renascimento' que lhe viria a render um segundo estado de graça, por outro o da 'estreante' Pixar e, apenas um meio passo atrás, o do realizador Don Bluth, o qual, em parceria com a Amblin Entertainment de Steven Spielberg, deixaria um legado de 'clássicos' de animação modernos. E apesar de a melhor fase do criador ter tido lugar entre meados da década de 80 e inícios da seguinte – quando produziu obras-primas como 'Fievel, Um Conto Americano' (e respectiva sequela), 'Em Busca do Vale Encantado' e 'Todos os Cães Merecem o Céu' – os últimos anos do século XX ainda veriam ser lançado pelo menos mais um clássico com o nome de Bluth à cabeça: 'Anastasia', uma versão ficcionalizada, bem ao estilo da concorrente Disney, da história verídica de Anastasia Romanoff, czarina russa que, reza a lenda, terá sobrevivido ao atentado que vitimou a sua família em 1917.


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Considerado hoje como o filme que marcou o regresso à forma do realizador norte-americano após obras menos conseguidas como 'Um Duende no Parque', 'Hubie, o Pinguim' ou a sequela de 'O Segredo de Nimh', a animação estreou em Portugal há quase exactos vinte e cinco anos, tendo chegado aos cinemas nacionais a 27 de Março de 1998, e conseguido boa aceitação entre o público infanto-juvenil nacional, apesar (ou talvez por causa) das semelhanças com as obras que a Disney vinha, à época, lançando anualmente. E se é verdade que o filme contém muitos dos elementos que se tornaram sinónimos com as animações da companhia do Rato Mickey – da protagonista que deseja mais da vida ao par romântico 'atrevido' e bem-parecido, sem esquecer os alivios cómicos, o vilão de traços angulares e, claro, as canções - nem por isso o mesmo deixa de ser um exemplo extremamente bem conseguido de um filme de família, capaz de maravilhar e até assustar o público-alvo (muito por conta do vilão Rasputin, uma daquelas criações que a equipa de animadores da Disney talvez desejasse ter concebido) sem descurar o público mais adulto – uma dicotomia que os melhores filmes animados e de família tendem a valorizar, e a saber balancear.


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O núcleo central de personagens do filme era bastante bem conseguido, com destaque para o pérfido vilão, Rasputin.


Talvez por isso 'Anastasia' se tenha tornado um dos 'clássicos menores' da animação dos anos 90, que, sem chegar ao nível de notabilidade de um 'Aladino' ou 'O Rei Leão', não deixa ainda assim de fazer parte das memórias nostálgicas de muitas crianças – portuguesas e não só. E a verdade é que tanto a animação quanto a história do filme 'envelheceram' marcadamente bem, afirmando-se como perfeitamente aceitáveis (e até acima da média) mesmo um quarto de século após o seu lançamento, e fazendo de 'Anastasia', ainda hoje, uma excelente proposta para um fim-de-semana chuvoso em família, em frente à televisão – quem sabe, como comemoração da data marcante que ora se assinala...?

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