Friday, 5 June 2026

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

 Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Em inícios do século XXI, o mercado cinematográfico da animação vivia uma situação peculiar e sem precedentes: o lento declínio da Disney enquanto líder hegemónica (iniciado ainda em finais dos anos 90, e que tinha na absurda quantidade de sequelas directas para vídeo o seu principal indicador) abria caminho para o aparecimento de uma companhia capaz de rivalizar com a 'casa do Rato Mickey'. E, numa espécie de versão Hollywoodesca do que acontecia com a WWF e a WCW no mercado da luta livre, essa concorrente não tardaria a surgir, liderada (surpreendentemente, ou talvez não) por um ex-executivo da própria Disney na sua chamada 'Renascença' – Jeffrey Katzenberg, que havia sido substituído poucos anos antes pelo homem responsável pelas sequelas e outras manobras 'duvidosas', Michael Eisner – e com apoio financeiro de um dos maiores nomes de Hollywood da altura. Steven Spielberg.


Não admira, pois, que a Dreamworks não tardasse a estabelecer uma reputação firme como o 'segundo grande' da animação noventista, apresentando uma qualidade até então apenas presente nos filmes de Don Bluth, eles mesmos em lento mas perceptível declínio naqueles últimos anos do século XX. Mas enquanto que filmes como 'O Caminho Para El Dorado', 'O Príncipe do Egipto' ou 'Anastasia' (realizado pelo próprio Bluth) seguiam moldes muito semelhantes aos dos clássicos da fase renascentista da Disney, procurando competir com estes ao mesmo nível, seria com o seu primeiro filme do Novo Milénio que Katz e Spielberg verdadeiramente deixariam a sua marca no mercado da animação, com um filme subversivo e arrojado, que não só revolucionava e redefinia o conceito do que era um filme animado, mas também escarnecia directa e abertamente de todos os estereótipos empregues pela Disney nos seus tradicionais 'contos de fadas' desenhados, numa 'provocação' directa àquele que era, ainda, o maior estúdio de animação do Mundo,

Falamos, claro está, de 'Shrek', o primeiro 'capítulo' de um 'anti-conto de fadas' que dominaria a cultura popular (e as bilheteiras) durante as duas décadas seguintes, tornando-se a primeira de várias franquias altamente populares e reputadas lançadas pela Dreamworks, e dando azo a um 'império' de 'merchandising' encabeçado pelas três sequelas (a primeira das quais considerada uma das melhores 'segundas partes' de sempre, em qualquer género cinematográfico) e dois especiais (de Natal e 'Halloween'); e todo esse sucesso tinha início numa simples paródia da 'fórmula' Disney, protagonizada por um personagem explícita e propositadamente feio, e que surpreendia muita gente com uma 'reviravolta' final verdadeiramente inesperada.

É esse o filme que celebra, este fim de semana, o quarto de século sobre a sua estreia nacional (a 7 de Junho de 2001) aquando da qual atraía de imediato as atenções de uma geração já demasiado 'adulta' (e auto-conscienciosa) para filmes de 'desenhos animados', que encontrava na vertente satírica e sarcástica de 'Shrek' a 'desculpa' perfeita para satisfazer o seu lado mais infantil. E a verdade é que o filme não desapontava, mostrando-se tão ou mais apropriado para um público adolescente e adulto do que para o infantil, e impressionando não só na componente técnica (embora, hoje em dia, seja fácil perceber as limitações da animação, sobretudo por comparação com a primeira sequela, lançada dois anos depois) como no aspecto sonoro, com excelente utilização de música 'pop' (a abertura ao som de 'All-Star', dos Smash Mouth, é uma das mais icónicas de sempre) e elenco de luxo quer na versão original quer na dobrada em Português, e sobretudo na escrita, que conseguia misturar de forma harmoniosa referências visuais ao estilo 'Scary Movie' e 'alfinetadas' à rival Disney com um enredo algures entre o conto de fadas e a 'missão de um homem só' (ou, neste caso, de um ogre e um burro). O resultado não podia deixar de ser um sucesso, um clássico geracional que marcou de tal forma os 'millennials' de todo o Mundo que é algo 'penoso' ver 'Shrek' ser apenas um 'meme' para os elementos da geração seguinte.

É, pois, com relativa boa-vontade e nostalgia que esses mesmos 'millennials' recebem as intermináveis repetições de 'Shrek' e das suas sequelas nos Natais e Páscoas da televisão portuguesa, dedicando mesmo algum tempo a rever aqueles clássicos nostálgicos da sua juventude, nascidos da necessidade de um homem fazer o equivalente cinematográfico de um 'manguito' à sua ex-companhia. E a verdade é que o impacto cultural de 'Shrek' se fez sentir não só no imediato (com o filme a servir de inspiração a outra franquia 'perene', a sátira de sátira 'A Idade do Gelo') como a longo-prazo, com a Dreamworks a consolidar a sua posição no mercado e a atingir níveis de sucesso que quase rivalizam com os da própria Disney. E se, por entre dragões e pandas, teria sido fácil ao ogre, burro e restantes 'comparsas' perder-se na 'multidão', aconteceria, de facto, o exacto oposto, com um quinto capítulo de 'Shrek' actualmente em produção, exactos vinte e cinco anos após o discreto despontar daquela que viria a ser a primeira grande franquia de animação do Novo Milénio.



Wednesday, 3 June 2026

Quartas Aos Quadradinhos/Quintas No Quiosque: 'Maria Jornalista', Um Conceito Tão Audaz Quanto Esquecido

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Quinta-Feira, 04 de Junho de 2026.

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

A existência de páginas de banda desenhada em jornais, ou nas respectivas revistas, não era, de todo, caso inédito na imprensa portuguesa dos anos 90, embora, na grande maioria destes casos, o material se resumisse a 'tirinhas' importadas da América do Norte - salvo, claro, algumas excepções, várias das quais já aqui abordadas. O que a Notícias Magazine fazia em 1994, no entanto, não tinha precedentes na História da banda desenhada em órgãos de imprensa escrita, e não deixa de ser surpreendente que, hoje em dia, a iniciativa se encontre algo esquecida, tanto pela Net como pelos próprios 'X' e 'millennials' nacionais.



As contribuições de Fernando Bento e José Ruy (crédito das fotos: Outras Leituras do Pedro)

Talvez esse reduzido impacto se deva ao curto espaço de tempo em que as aventuras de 'Maria Jornalista' surgiram nas páginas da revista de fim-de-semana do Diário e Jornal de Notícias – no total, a personagem teve direito a apenas uma dezena de pranchas, cada uma com duas páginas e desenhada por um autor diferente. No entanto, ao longo daquilo que, no fundo, era uma mini-série, o potencial do conceito era explorado ao máximo, com a rotação de criadores a permitir uma grande variedade de estilos e atmosferas, que iam da comédia à acção e aventura, e o apoio da Notícias Magazine a tornar possível a inserção, em cada história, de personagens e acontecimentos reais e relevantes à época de publicação. Uma empreitada verdadeiramente original e pioneira, portanto, que merecia ser melhor lembrada, mas que, surpreendentemente, nunca foi compilada em qualquer tipo de formato comercial – isto apesar de a própria Notícias ser, já à época, uma das principais casas editorias portuguesas!

Sem o apoio de um álbum, no entanto, era inevitável que 'Maria Jornalista' adquirisse, praticamente, contornos de 'audiovisual perdido', sendo as pranchas que ilustram esta edição o único vestígio existente na Web de que esta série efectivamente existiu – isto apesar da panóplia de nomes sonantes da BD portuguesa que davam vida às pranchas, entre os quais se incluíam Luís Louro, Luís Diferr, Baptista Mendes ou José Ruy. Cabe, pois, ao Anos 90 contribuir para a expansão do material digital sobre a mini-série da Notícias Magazine, para que a mesma não seja totalmente esquecida, e possa ser divulgada junto das novas gerações de 'bedéfilos' nacionais.

Tuesday, 2 June 2026

Terças Tecnológicas: Os 'Walkie-Talkies' Infantis - O Complemento Electrónico Às Brincadeiras de 'Faz de Conta'

 A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.

Já aqui amplamente falámos de como as décadas de 80 e 90 foram a era, por excelência, da expansão dos brinquedos tecnológicos e electrónicos. A globalização do comércio de componentes resultava numa baixa do preço dos mesmos, a qual, por sua vez, os tornava mais acessíveis aos fabricantes de produtos para revenda, que não hesitavam em 'inundar' o mercado com toda a espécie de brinquedos com funções de luz e som ou digitais, ou mesmo versões 'à escala' de verdadeiros aparelhos electrónicos, destinados a um público infanto-juvenil. É de um exemplo destes últimos, muito popular nas décadas em causa, que falamos esta Terça-feira.

Apesar de raramente funcionarem como deveriam a distâncias de mais do que alguns (poucos) metros, os 'walkie-talkies' infantis não deixavam, ainda assim, de exercer fascínio sobre o seu público-alvo, cuja fantasia e faz-de-conta ajudavam a fomentar. De facto, mesmo com a sua funcionalidade limitada, os pequenos rádio-receptores e transmissores permitiam aos mais novos imaginarem-se soldados, polícias ou espiões, em comunicação secreta e remota com os seus companheiros, 'acampados' ou em 'missão secreta' do outro lado do quintal ou da rua, ou numa das outras divisões do apartamento, tornando-os um elemento de valor nas brincadeiras de fim-de-semana.

Tal como sucede com muitos outros produtos abordados nestas páginas, no entanto, também a 'era áurea' dos 'walkie-talkies' descambou, inevitavelmente, para a obsolescência, sobretudo após o aparecimento de produtos que cumpriam a sua limitada função tão bem ou melhor que os mesmos, como os telemóveis; ainda assim, para os membros de determinada faixa etária, estes aparelhos representam, ainda, parte integrante de muitos bons momentos de infância, justificando assim o destaque que ora recebem nestas páginas.

Monday, 1 June 2026

Segundas de Séries: Trinta Anos da Recuperação de Um Clássico da Comédia

 Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

Uma das formas que os quatro canais portugueses tinham, em finais do século XX, para preencher espaços livres nas suas grelhas era através da repetição de séries clássicas de décadas passadas, dando assim a todo um novo público a oportunidade de as conhecer e, potencialmente, as começar a seguir. E apesar de o canal mais pródigo nesta estratégia ser a RTP2 – que preenchia, invariavelmente, os seus inícios de noite da época com 'sitcoms' clássicas dos anos 60 – as outras emissoras tão-pouco eram avessas a esta prática, como o demonstra o facto de, em inícios de Junho de 1996 (há quase exactos trinta anos, portanto) a TVI ter dedicado um bloco dos seus próprios inícios de noite a 'Olho Vivo', outro exemplo histórico e icónico do modelo de 'sitcom' americano, da mesma época das da RTP2.

Foi assim que toda uma nova geração de jovens ficou a conhecer o azarado Smart, Maxwell Smart, Agente 86 de uma das muitas agências que proliferavam na ficção da altura, obcecada com o género da espionagem. A diferença é que o serviço secreto a que Smart pertencia havia sido criado por Mel Brooks, o que garantia muitas gargalhadas ao longo de três temporadas, com conceitos como o 'Cone de Silêncio' (que funcionava até bem demais) e a tensão romântica entre Smart e a parceira, a Agente 99, uma 'beldade' de botas altas e vestido curto, bem ao estilo da época.

E apesar das então quase três décadas entre a estreia da série nos EUA e o seu regresso à TVI, a comédia de 'Olho Vivo' revelou-se intemporal o suficiente para criar novos fãs, tendo o programa, inclusivamente, sido repetido ainda alguns anos mais tarde, como parte da grelha de um dos canais de 'Memória' da TV Cabo. Uma aposta ganha pela estação de Queluz, portanto, que não só preenchia um dos espaços da sua grelha como também 'recuperava' um clássico, várias décadas depois, e o apresentava a todo um novo público, menos habituado a este tipo de comédia, mas ainda assim pronto a ter mais um programa para seguir naqueles inícios de noite frente à televisão...

Sunday, 31 May 2026

Domingo Desportivo: A Primeira Vez Que O Torreense Foi 'Tomba-Gigantes'

 Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade d desporto da década.

Precisamente uma semana antes da data de edição deste 'post', o histórico mas historicamente modesto Torreense chocou o Mundo do futebol português ao bater o Sporting na final da Taça de Portugal, por 2-1, já no prolongamento (e nunca tendo estado a perder) tornando-se a primeira equipa de um escalão secundário a conquistar o troféu, e a carimbar o passaporte para as competições europeias da próxima época – sim, o Torreense vai jogar na Liga Europa! Esta não foi, no entanto, a primeira vez que o conjunto de Torres Vedras excedeu expectativas e foi 'tomba-gigantes'; já em Fevereiro de 1999, os homens do Centro haviam, pela primeira vez, feito virar as cabeças dos adeptos nacionais ao eliminarem da mesma prova outro gigante – no caso o Futebol Clube do Porto, que avançava a todo o gás para a conquista de um inédito pentacampeonato (conquistado há quase exactos vinte e sete anos), mas que dava, no terreno do Torreense, um 'tombo' inesperado, que o tirava da luta pela 'dobradinha' naquele ano.


Os heróis de 1999

Na ocasião, o 'herói improvável' chamava-se Cláudio Oeiras, o marcador do único golo do jogo, obtido a cinco minutos do final do tempo regulamentar, e que representava um verdadeiro 'balde de água fria' para os adeptos portistas, que – mesmo com um plantel claramente em gestão – esperavam uma vitória fácil. O tento valeria, aliás, a Cláudio Oeiras um contrato com o terceiro 'grande' mencionado neste texto, o Benfica, embora o avançado nunca tivesse logrado extravasar a equipa de reservas; quanto ao Torreense, voltaria a 'bater de frente' com uma equipa primodivisionária nesse ano de 1999 – no caso o Vitória de Guimarães – e a dar boa conta de si, adiando a decisão para a segunda mão após um empate a zero; no Castelo, no entanto, terminaria o sonho dos homens de Torres, que sairiam vergados a um 3-0 que os eliminava da última Prova-Rainha completa do século XXI. Apesar deste desfecho, no entanto (e da modesta carreira futura do seu goleador) os torreenses poderão, para sempre, orgulhar-se daquele que foi, indubitavelmente, um dos maiores momentos da sua História, apenas suplantado pelo capítulo que o seu plantel de 2026 acabou de escrever, no Estádio do Jamor, há apenas uma semana...

Saturday, 30 May 2026

Saídas ao Sábado: As Lojas de Fotografia - 'Vítimas' do Avanço Tecnológico

 As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Já aqui por diversas vezes abordámos tipos de estabelecimentos comerciais que, nas duas décadas e meia desde o início do Novo Milénio, se tornaram obsoletos e acabaram por ficar à beira da extinção, senão mesmo por desaparecer por completo; e enquanto que muitos destes foram, simplesmente, substituídos pelas cada vez mais ubíquas grandes superfícies, outros casos houve em que a obsolescência se deveu ao desaparecimento do tipo de produto em que se especializavam. É de um destes casos, familiar a muitos jovens de finais do século XX, que falamos nesta Saída de Sábado.


Intimamente ligados à popularidade das máquinas fotográficas de rolo, não é, pois, de espantar que, com o advento da tecnologia digital neste tipo de aparelho, os estúdios e lojas de fotografia tenham acabado por, mais ou menos discretamente, desaparecer das ruas portuguesas. Aqui e ali, sobra ainda uma ou outra loja deste tipo, mas o foco, hoje em dia, está declaradamente na vertente mais técnica, com o público-alvo a ser constituído na sua quase totalidade por entusiastas da fotografia 'à moda antiga' ou profissionais do ramo; a loja que muitos portugueses conheceram em criança, onde se iam revelar os rolos de imagens da vida quotidiana ou tirar o 'retrato' para o cartão da escola, Cartão Jovem ou para ocasiões especiais, encontra-se inexoravelmente extinta, substituída pela conveniência, primeiro, de um cabo de transferência e um CD de instalação no computador e, mais tarde, da tecnologia 'Bluetooth' e facilidade de armazenagem de imagens na 'Cloud', que tornavam os serviços oferecidos por este tipo de estabelecimento redundantes.

Para quem viveu a época áurea da fotografia 'caseira' analógica, no entanto, aqueles estabelecimentos com frontispícios patrocinados pela Fujifilm e Kodak representaram parte integrante das memórias de infância e adolescência (até por terem directamente contribuído para a sua preservação), tendo constituído, à época, uma Saída de Sábado menos frequente do que outras que aqui abordámos, mas tão ou mais entusiasmante...

Friday, 29 May 2026

Sextas Com Style: Cavalinho - A Grande Marca de Carteiras Nacional

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Outros paìses têm a Louis Vuitton, a Gucci, a Prada ou a Yves Saint-Laurent, e respectivas imitações; no Portugal de finais do século XX e inícios do seguinte, no entanto, a marca de carteiras indicativa de estatuto social (ou, pelo menos, codificada com o mesmo) era a Cavalinho (que não deve ser confundida com o papel do mesmo nome, produzido por uma empresa totalmente diferente). De facto, com o seu padrão distintivo – presente quer no forro, quer no exterior – as malas produzidas pela fábrica familiar de Santa Maria da Feira afirmavam-se, quase, como as equivalentes nacionais às marcas acima referidas, das quais, aliás, tiravam alguns elementos estéticos e de 'design'.


Esta associação entre um visual distinto e inconfundível e conotações com estatuto social levavam, inevitavelmente, a que grande parte da população portuguesa tivesse ou quisesse uma carteira Cavalinho – ou, à falta de 'fundos' para a aquisição da mesma, uma das imitações 'aproximadas' que proliferavam nas feiras de Norte a Sul do País; de facto, o único aspecto mais inesperado e impressionante deste ciclo foi o facto de as malas em causa não saírem de moda durante, pelo menos, duas décadas, um período áureo cerca de cinco a dez vezes maior do que o da maioria dos artigos de vestuário ou acessórios, quer à época, quer nos dias de hoje. 

Seria, efectivamente, apenas já numa fase bastante avançada do século XXI que estas carteiras se tornariam menos omnipresentes nos ombros das mulheres portuguesas, preteridas em favor de marcas estrangeiras como Michael Kors ou Bimba Y Lola; nada, no entanto, que afectasse a continuidade da marca em si, que, mesmo já longe do seu 'pico' de popularidade, prossegue até aos dias de hoje como um dos muitos exemplos de qualidade e resiliência do sector têxtil e de manufactura em Portugal, fazendo por merecer o destaque que lhe outorgamos nestas breves linhas.

Thursday, 28 May 2026

Quintas de Quinquilharia: Trinta Anos de Uma 'Imitação' Sem Inspiração

 Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.

Já aqui por diversas vezes falámos das variavelmente icónicas colecções de cromos e outros brindes em papel oferecidos com o Bollycao, o lendário pão com chocolate trans-geracional que, em finais do século XX, tinha como principal ponto de interesse, precisamente, os seus brindes; e, de entre estes, talvez o mais icónico de sempre tenha sido a colecção 'Tous', uma série de cromos em que um simpático 'bicharoco' verde-lima interpretava visualmente os estados de espírito descritos no cartaz que sempre segurava. Lançados em finais dos anos 80, mas com 'sequela' em princípios dos 90, estes cromos marcaram a 'intersecção' entre as gerações 'X' e 'millennial', tornando-se num dos grandes brindes promocionais do Portugal da época, ao lado dos 'Pega-Monstros', Tazos e Matutolas da rival Matutano e dos 'bonequinhos' dos ovosKinder. Não é, pois, de admirar que, mais de meia década após a série original, o Bollycao tenha tentado um conceito muito semelhante, desta vez com o incentivo adicional de um concurso acoplado; nascia, assim, a colecção 'Tás', lançada algures há trinta anos, na primeira metade do ano de 1996.


(Crédito das fotos: OLX)

Como o próprio nome indica, esta nova série mais não fazia do que repetir o conceito dos clássicos 'Tous' mas, desta, vez, de uma perspectiva de 'terceira pessoa', em que cada acção era ditada, não pelo próprio personagem, mas por uma espécie de 'narrador' invisível. A substituir o 'Tou' surgia, agora, um ser redondo, avermelhado e com picos, que o faziam assemelhar-se à tradicional imagem de um vírus patente nos desenhos animados ou materiais didácticos da época – talvez não tão simpático quanto o seu antecessor, mas ainda assim visualmente apelativo o quanto baste para atrair o público-alvo.

O principal factor de interesse da colecção para esse mesmo público-alvo era, no entanto, o concurso que lhe estava associado, em que os jovens se podiam habilitar a ganhar consolas PlayStation (o 'Santo Graal' dos prémios da época, tendo substituído nesse papel a Mega Drive), bicicletas de montanha ou (mais provavelmente) 't-shirts' alusivas à colecção. Qualquer que fosse o prémio, no entanto, obtê-lo não se afirmava tarefa fácil, já que era necessário encontrar um cromo com o texto 'Tás Com Sorte' e, (presumivelmente) enviá-lo para a Panrico em troca do prémio em causa (infelizmente, os detalhes de como obter o prémio em si perdem-se no tempo); nada que impedisse as crianças da época de tentar, devendo esta iniciativa ter resultado num aumento de vendas do produto naquela Primavera e Verão de 1996.

No entanto, e ao contrário da mítica inspiração, a colecção 'Tás' não ficaria particularmente na memória dos portugueses da faixa etária a que se destinava, tendo o 'isco' dos prémios resultado a curto-prazo, mas não disfarçado a falta de originalidade da série (ainda que a arte dos cromos fosse bastante bem conseguida). Vale, ainda assim, a pena recordar mais uma das muitas colecções com que o Bollycao assegurava vendas durante a sua 'década áurea', numa altura em que se celebram trinta anos sobre o lançamento da série em causa.

Wednesday, 27 May 2026

Quartas de Quase Tudo: Os Trinta e Cinco Anos da 'Primeira' Paz em Angola

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Embora a geopolitica nacional dos anos 90 surja, na memória de quem viveu aquela época, quase monopolizada pela violenta guerra da independência de Timor-Leste, aquela ilha do Pacífico estava longe de ser o único território lusófono a enfrentar problemas internos; também Angola vivia, já desde a descolonização, um sangrento confronto entre o governo oficial do Movimento Popular Para a Libertação de Angola (MPLA) e as forças guerrilheiras da União Nacional para a Independência Total de Angola, ou UNITA (sigla que, aliás, ficaria para sempre gravada na mente de toda uma geração, talvez por fazer lembrar a de duas entidades diametralmente diferentes do partido guerrilheiro em todos os âmbitos, mas de acrónimos muito parecidos - a UNESCO e a UNICEF). Esta guerra civil, que se provara de difícil resolução durante a década anterior, chegaria, no entanto, a bom porto logo no início da década de 90 – concretamente, a 31 de Maio de 1991, quando representantes dos dois partidos angolanos assinavam, na Escola Superior de Hotelaria de Lisboa, na vila de Bicesse, perto do Estoril, os acordos com o mesmo nome, que oficializavam a paz em Angola.

Sob o olhar atento de testemunhas da Segunda Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola (UNAVEM II) e do então Secretário de Estado dos Assuntos Externos e Cooperação (e futuro Primeiro-Ministro) Durão Barroso, o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, e o líder rebelde Jonas Savimbi assinavam, um acordo qjue estipulava a realização das primeiras eleições multipartidárias da História daquele país lusófono, e integravam os exércitos guerrilheiros nas Forças Armadas oficiais angolanas, as quais receberiam formação das suas homólogas portuguesas. Estas directivas seriam, posteriormente, reforçadas por outro acordo, assinado em Angola – o Tratado de Lusaca.

Acabou, no entanto, por durar pouco este entendimento, que seria dissoluto unilateralmente pela UNITA pouco mais de um ano depois, quando o partido de Savimbi repudiou os resultados das eleições presidenciais estipuladas pelos Acordos, lançando Angola para uma nova guerra civil, a qual apenas viria a terminar com a morte de Savimbi, em 2002. O sucessor, Paulo Lukamba Gato, provou-se bastante mais moderado, e acabaria mesmo por ratificar a paz definitiva através do Memorando de Entendimento do Luena, ainda nesse mesmo ano. Ainda assim, e apesar de em última instância se terem revelado um fracasso, os Acordos de Bicesse não deixaram de ser um dos mais importantes marcos da política externa portuguesa de finais do século XXI, e o esforço de Durão Barroso, da ONU e dos governos americano e russo (num raro momento de cooperação) merecem ser recordados, a poucos dias de se assinalarem os trinta e cinco anos da reunião em 'território neutro' entre a UNITA e o MPLA, para discutir um plano bem-intencionado, mas que acabaria por não 'dar certo'.

Tuesday, 26 May 2026

Segundas de Sucessos/Terças de TV: Uma 'Selecção' Que Não Correspondeu Às 'Esperanças'...

 NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Segunda-feira, 25 de Maio de 2026.

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Já aqui em ocasiões anteriores falámos dos vários programas de talentos surgidos na televisão portuguesa durante os anos 90 e 2000, e que ajudaram a criar o precedente para o posterior sucesso de conceitos como 'Ídolos' ou 'Factor X'; esta semana, em mais um 'post' duplo, recordamos outro dos pioneiros deste género de emissão, o qual, como muitos outros exemplos surgidos na 'senda' do sucesso de 'Chuva de Estrelas', nunca logrou ser tão conceituado ou recordado como este.



De facto, 'Selecção de Esperanças' (nome que 'brinca' com a designação dada à época à Selecção de futebol masculino sub-21) pode quase ser considerado como a resposta da RTP ao referido programa, já que – como aquele – se centra na demonstração de talentos vocais dos concorrentes de cada programa, cujas prestações são avaliadas por um júri especializado, num formato muito semelhante ao do programa da SIC. É, pois, incerto o motivo para a pouca projecção da 'Selecção' da RTP por oposição à 'Chuva' de audiências que a rival de Carnaxide conseguira com a sua versão do programa. Seja qual fôr o motivo, no entanto, a verdade é que 'Selecção de Esperanças' se encontra, hoje, algo 'Esquecido Pela Net', ainda que vários dos seus episódios constem ainda dos arquivos digitais da RTP, onde podem ser visualizados e recordados por quem, efectivamente, se recorde do breve período em que foram ao ar, a partir de Maio de 1995.

Talvez como consequência da falta de interesse do público em geral, a RTP não voltaria a produzir um programa deste tipo durante as décadas seguintes, deixando futuras tentativas para as concorrentes privadas, e re-entrando na 'arena' apenas já no Novo Milénio, desta vez com resultados bem mais satisfatórios. Quanto a 'Selecção de Esperanças', o seu principal legado é o de ter sido um dos pioneiros de um género então ainda embrionário na televisão portuguesa, o qual, tal como grande parte dos internacionais jovens de futebol, não logrou demonstrar o potencial que demonstrava aquando da sua estreia, há quase exactos trinta e seis anos...


Monday, 25 May 2026

Sábados Aos Saltos/Domingos Divertidos: Cinco Brinquedos 'Hibridos'

 NOTA: Este 'post' é respeitante a Sábado, 23 e Domingo, 24 de Maio de 2026.

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos e acessórios de exterior disponíveis naquela década.

Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.

Apesar de muitos dos brinquedos e brincadeiras dos anos 90 (e ainda de hoje em dia) se dividirem de forma relativamente explicita entre interior e exterior, existem ainda assim vários exemplos de produtos 'híbridos', alguns dos quais já abordados nesta(s) rubrica(s). Abaixo ficam cinco dos melhores exemplos desta categoria de produto.

  1. Carros Telecomandados

Serão, talvez, o primeiro exemplo a vir à mente ao falar em produtos que podiam ser utilizados tanto na rua como em casa, tendo divertido milhões de crianças ao redor do Mundo (Portugal incluído) em ambos os contextos. E se por acaso fossem todo-o-terreno ou especialmente desenhados para uso em piso acidentado, tanto melhor...

  1. Conjuntos de Desporto de Brincar

Fossem de petanca, golfe, bólingue, ténis ou basquetebol os conjuntos em plástico a emular um qualquer desporto (ou, no caso da petanca, apenas compostos por bolas algo mais leves que o habitual) podiam proporcionar momentos de enorme diversão quer no quintal ou pátio, quer dentro de casa, onde a leveza dos elementos (com excepção, claro está, da petanca) garantiam poucos ou nenhuns danos mesmo jogando com 'força'...

  1. Aviões e Barcos

Fossem com fio, telecomandados ou de 'propulsão' manual, os aviões e barcos à escala eram daqueles brinquedos que, por mais simples que fossem, nunca deixavam de divertir – e que tinham a vantagem de também poderem ser utilizados na banheira ou 'atirados' na sala sem risco de danificar nada – embora, claro, fosse preciso ter algum cuidado...

  1. Robôs e Carros Electrónicos

Na mesma categoria dos carros telecomandados surgem os robôs e carros a pilhas, irresistíveis de ligar quer no chão do quarto, quer no quintal, onde tinham ainda mais espaço para andar e demonstrar os seus efeitos LED e sons pré-programados, capazes de entusiasmar qualquer criança daquele período embrionário da 'era digital'.

  1. Bolas de Sabão

A simplicidade feita brincadeira. Um tubo, uma varinha e q.b. de solução líquida eram suficientes para fazer as delícias de qualquer criança, e quem se visse com uma 'garrafinha' de bolas de sabão na mão imediatamente se dirigiria à varanda ou ao quintal para soprar algumas – isto, claro, se não tivesse a felicidade de as receber no decurso de um passeio, contexto em que pouco duravam, tal era o entusiasmo em as ver voar...

Existem, claro, outros exemplos de produtos híbridos capazes de deliciar as crianças noventistas quer durante um Sábado aos Saltos, quer no decurso de um Domingo Divertido; no entanto, cremos serem estes cinco os mais emblemáticos, e mais rapidamente recordados por quem tenha sido jovem durante aquela época única de finais do século XX e inícios do seguinte.



Friday, 22 May 2026

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um Filme de 'Sonho'

 Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.

Apesar de não ter tanta expressão quanto o de outros países europeus, o cinema português de finais do século XX e inícios do seguinte não deixava, ainda assim, de produzir alguns bons filmes, quer a título individual, quer em co-produção com outras nações. É, precisamente, de um exemplo deste último paradigma – que completou recentemente vinte e cinco anos sobre a sua estreia nacional – que falaremos nesta Sessão de Sexta.

Produzido em parceria com a França e o Chile, e misturando diálogos em Português, Francês e Espanhol, 'Combate de Amor em Sonho' adopta uma narrativa não-linear que mistura nove histórias distintas, todas elas ambientadas em séculos passados e com uma atmosfera de fábula, povoada por personagens fantásticos, ficcionados ou até mitológicos, muitos deles representados pelo mesmo leque de actores – entre eles Rogério Samora, úncio 'representante' português no elenco. A ajudar a toda a atmosfera surgem as inimitáveis e características paisagens da zona de Sintra, onde o filme foi rodado, as quais se adequam perfeitamente às narrativas veiculadas pelo realizador Raúl Ruiz.

Apesar desta forte ligação a Portugal, no entanto (a qual se estende ao financiamento por parte da Madragoa Filmes e da RTP) 'Combate de Amor em Sonho' viria a ser apresentado pela primeira vez no estrangeiro, tendo ganho o prémio de imprensa no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, em 2000, e estreado em França ainda nesse mesmo ano, só depois chegando às salas de cinema lusitanas (a 18 de Maio de 2001). E apesar de nunca ter tido estatuto de 'blockbuster' (trata-se de um filme orgulhosamente independente, daqueles que acaba por apenas passar em certos cinemas menos comerciais) e de se encontrar algo esquecido um quarto de século após a sua estreia, o filme não deixa, ainda assim, de ser um digno representante do cinema independente internacional, em cuja participação a indústria cinematográfica portuguesa tem todo o direito de se orgulhar.

Thursday, 21 May 2026

Quintas Ao Quilo: Chiquilín - O Marketing Em Acção

 Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.

Já aqui por diversas vezes falámos do poderio do 'marketing' e publicidade em tornar algo intrinsecamente corriqueiro na 'moda' mais desejada entre determinados segmentos da sociedade, sobretudo as demografias mais jovens. O produto alimentar de que falamos nesta Quinta ao Quilo é, ainda, mais uma prova desse paradigma, tendo beneficiado não de uma, mas de duas campanhas publicitárias que o tornaram memoráveis para as gerações 'X' e 'millennial' portuguesas.


Isto porque, no seu âmago, as espanholas Chiquilín mais não eram do que simples bolachas de manteiga – saborosas, sim, mas longe de se afirmarem como algo revolucionário ou até de se destacarem particularmente entre diversas concorrentes (como as bolachas de manteiga da portuguesa Triunfo, com o seu icónico pacote amarelo). As amanteigadas da Artiach tinham, no entanto, um 'trunfo na manga' - ou melhor, dois, já que à campanha de inícios dos anos 90 se seguiu outra, ainda mais lembrada, no final da década; assim, enquanto que os portugueses da 'Geração X' e os 'millennials' mais velhos estarão, neste momento, a cantarolar a música que acompanhava o primeiro anúncio, em que mãos retiravam gradualmente bolachas de um prato ao som do contagiante 'jingle', os mais novos terão em mente o anúncio tematizado em torno de um intervalo da escola, que pontificava nas televisões portuguesas nos últimos meses do Segundo Milénio.

https://www.instagram.com/reel/DJclrY_s2EU/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==

Fosse qual fosse o anúncio ou era em que tomaram contacto com as Chiquilín, no entanto, as crianças e jovens daquela época ficavam, invariavelmente, com vontade de experimentar, ou voltar a comer, as bolachas em causa o quanto antes, o que apenas elogia o trabalho das equipas de publicidade da Artiach. De facto, sem esses mesmos anúncios, é possível que as Chiquilín nem chegassem a aparecer nestas páginas, enquanto que, com eles, acabam de suscitar vários parágrafos banhados de nostalgia – o que, por si só, constitui um exemplo acabado de bom 'marketing' em acção.

Wednesday, 20 May 2026

Quartas de Quase Tudo: Vinte e Cinco Anos de um Marco Cultural Moderno

 Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.

Apesar de, normalmente, 'passar despercebido' literalmente ao lado de gigantes culturais europeus, Portugal não deixa, ainda assim, de ter ocasionais momentos de 'brilho' organizativo a nível internacional; da EXPO '98 ao Euro 2004 ou às Jornadas da Juventude, são vários os exemplos de eventos e iniciativas que puseram Portugal na 'mira' europeia e mundial. A estes há, ainda, que juntar uma distinção que completa este ano exactos vinte e cinco anos, e que terá deixado orgulhosa a grande maioria da população residente na metade superior do País. Isto porque, durante todo o ano de 2001, o Porto teve a honra de ser nomeada Capital Europeia da Cultura, um título que – embora 'partilhado' com Roterdão, nos Países Baixos - ajudou a rejuvenescer a 'segunda capital' de Portugal e a colocá-la nas rotas turísticas internacionais.

De facto, mais do que o sem-número de espectáculos, exposições e eventos que tiveram lugar na Cidade Invicta durante aqueles doze meses, o principal impacto do 'Porto 2001' foi a nível da recuperação arquitectónica, com muitas das fachadas da cidade a serem reabilitadas, e várias novas infraestruturas culturais a tomarem forma, com destaque para a Casa da Música, uma nova sala de espectáculos que se viria a tornar um dos epicentros da cultura portuense, e para o Centro Nacional de Fotografia, instalado na antiga Cadeia da Relação. Esta 'limpeza de cara' permitiu ao Porto demonstrar todo o seu potencial arquitectónico e, em conjunto com o apelativo programa cultural, tornou a Invicta 'chamariz' para as demografias mais cultas do turismo europeu.


A Casa da Música, principal 'símbolo' do Porto 2001.

Ainda mais significativo, no entanto, foi o reforço da identidade portuense que o evento suscitou na maioria dos naturais da cidade, sempre prontos a exibir o seu orgulho bairrista e regional, e que, durante aquele ano de 2001, tiveram ampla ocasião para o fazer, e para mostrar a turistas de vários pontos do Mundo aquilo que a sua cidade tinha para oferecer. De facto, durante todo esse período, Lisboa deixou, temporariamente, de ser o principal foco de atenção internacional do País, algo que terá, sem dúvida, deleitado os portuenses, e que torna mais que meritória esta chamada alusiva ao ano em causa, numa altura em que se celebram vinte e cinco anos sobre a publicação do Decreto-Lei que autorizava o cunho de moedas comemorativas do evento – um 'pretexto' tão bom como outro qualquer para colmatarmos, ainda que com alguns meses de atraso, essa 'lacuna' nesta nossa rubrica.

Tuesday, 19 May 2026

Terças de TV: Trinta Anos de Uma Merecida Homenage

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.

Mesmo em meados dos anos 90, a carreira de Herman José já dispensava apresentações; com, à época, mais de uma década de presença assídua na televisão e teatro portugueses (primeiro como actor cómico e, mais tarde, também como apresentador de variedades) o carismático luso-alemão era já 'companhia' apreciada nas tardes da grande maioria dos portugueses. Não é, pois, de admirar que, em 1996, aquela que até então havia sido a sua emissora de sempre lhe decidisse prestar homenagem, sob a forma de um programa retrospectivo da sua carreira, que se haveria de chamar 'Herman Total'.

Capa da compilação em VHS.

Estreado há exactos trinta anos – em Maio de 1996 – 'Herman Total' distinguia-se das habituais produções com o nome do humorista associado pelo seu cariz documental. De facto, apesar de as rábulas e 'sketches' de Herman marcarem presença (algo inevitável para um programa associado ao humorista) as mesmas serviam propósitos puramente 'de arquivo', surgindo entremeadas com entrevistas a figuras ligadas a Herman e números musicais regravados por artistas como Rui Veloso ou Pedro Abrunhosa, naquela que era uma tentativa declarada (e bem sucedida) de homenagear o humorista luso-alemão através de uma montagem dos seus melhores e mais icónicos momentos.

Os esforços da RTP não se ficariam, no entanto, pela mera exibição deste trabalho na sua grelha, sendo que, três anos depois (já ao cair do pano do Segundo Milénio) a emissora, em parceria com a Lusomundo, lançaria o programa em formato VHS, espalhado por um total de quatro volumes, ajudando assim a preservar e eternizar fisicamente a memória não só do trabalho, como da carreira do seu protagonista até então. Quanto a Herman, a sua carreira prosseguiria de vento em popa, podendo o mesmo ser, até hoje, visto nos ecrãs nacionais, precisamente com o mesmo tipo de presença, material e relação com o público-alvo que mantém há quase cinquenta anos; oportunidade perfeita, talvez, para 'actualizar' a homenagem de 1996 e, três décadas depois, efectivar uma segunda série de 'Herman Total'?

Monday, 18 May 2026

Segundas de Séries: Trinta Anos de Uma Pensão Bem 'Animada'

 Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.

A comédia inglesa das décadas de 70 e 80 – a chamada 'Britcom' – é ainda hoje tida como um dos melhores exemplos de sempre de como escrever séries de humor para televisão, não sendo, pois, de admirar que um sem-número de programas desse movimento tenha servido de inspiração para adaptações localizadas em outros países. Portugal não foi excepção nesse sentido, tendo sido vários os exemplos de 'Britcoms' 'aportuguesadas' a passar na televisão portuguesa durante as décadas de 80 e 90 – como é o caso da série que focamos esta Segunda-feira, quase exactos trinta anos após a sua estreia na SIC.

Era, de facto, a 17 de Maio de 1996 que pela primeira vez ia ao ar 'Pensão Estrela', a versão lusitana da inglesa 'Rising Damp', sobre um grupo de habitantes de uma pensão, e as peripécias em que os mesmos se envolvem – um tema, curiosamente, já explorado em várias outras séries nacionais da mesma década, mas que continuava a dar 'pano para mangas' no tocante a situações humorísticas. E, como era apanágio das comédias televisivas da época, também esta 'Pensão' contava com uma lista de 'hóspedes' de luxo, tendo à cabeça José Raposo (no papel do senhorio com o mesmo apelido) e como inquilinos Ana Bustorff, Ângelo Torres e Marco Horácio, com suporte a surgir da parte de veteranos como Adriano Luz, Carla Andrino ou Helena Laureano, entre outros actores bem 'versados' na arte de fazer rir.

Apesar destes consideráveis argumentos, no entanto, 'Pensão Estrela' acabou por não se afirmar tão memorável quanto outras séries do mesmo tipo, tendo-se 'perdido' entre a vasta oferta da época e encontrando-se, hoje, algo 'Esquecida Pela Net', com apenas a sinopse e alguns dados técnicos a estarem disponíveis em páginas online (e, por vezes, incorrectos, com uma fonte a apontar a série como tendo passado em 1995) e nem sequer um breve trecho disponível no YouTube. Ainda assim, para fãs de comédias situacionais que queiram ver um 'Fawlty Towers' à portuguesa, esta poderá ser mais uma boa proposta para recordar numa tarde chuvosa em que bata mais a 'nostalgia'...

Sunday, 17 May 2026

Domingo Desportivo: Vinte e Cinco Anos De Um Campeão Nacional Inesperado

 

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.

Apesar de, nos primórdios dos campeonatos profissionais de futebol em Portugal, clubes como a Académica de Coimbra e o Belenenses terem logrado considerável sucesso, na 'era moderna', é dado quase adquirido que o campeão nacional será um dos 'três grandes' – Benfica,Sporting ou Porto. Essa escassez de oportunidades para emblemas mais 'pequenos' torna, no entanto, ainda mais surpreendente e meritória qualquer ocasião em que um outro clube primodivisionário consiga quebrar essa hegemonia 'a três' – algo que sucedeu pela última vez há exactos vinte e cinco anos, quando uma equipa do Boavista recheada de nomes conhecidos conseguia uma façanha ímpar na História do clube do Bessa, ao conquistar o título de campeão da época 2000/01, ultrapassando Benfica, FC Porto e o campeão em título, Sporting.

Apesar de surpreendente à época – sobretudo pela dimensão do clube – a conquista do Boavista faz bastante mais sentido uma vez analisado o plantel com que o emblema contava naquela temporada. Senão veja-se: os guarda-redes eram o histórico William e um jovem Ricardo (em breve destinado a mais altos vôos) e na equipa 'de campo' marcavam presença nomes como Rui Óscar, Rui Bento, Pedro Emanuel, Duda, Jorge Couto, Frechaut, o goleador Elpídio Silva (também ele prestes a dar um 'salto', no seu caso, maior que as pernas) e as 'lendas vivas' do clube Martelinho, Litos e Erwin Sánchez, além do futuro internacional português, jogador do Benfica e treinador do próprio Boavista, Petit; ao comando desta 'chuva de estrelas' estava, claro, o eterno 'timoneiro' axadrezado, Jaime Pacheco, nome que, no Portugal da época, rivalizava apenas com Paco Fortes no tocante a associações de longo prazo entre treinadores e um único emblema. Uma lista de nomes como já raramente se vê hoje em dia num clube fora dos quatro principais emblemas, e que permitia ao emblema do Bessa ter um plantel e 'onze' capazes de competir tanto com o seu 'rival' portuense como com os dois 'gigantes' da capital.

Infelizmente, a conquista do primeiro título nacional do Novo Milénio seria mesmo o auge da trajectória futebolística do Boavista, que dentro em breve se veria envolvido num escãndalo financeiro, e, dentro de poucas temporadas, militaria nos escalões amadores, totalmente falido, humilhado e longe da glória que experienciara no início do século. Felizmente, ao contrário de muitos outros 'históricos' na mesma situação (como o Felgueiras ou o Salgueiros) os axadrezados lograram alcançar novamente as divisões cimeiras do futebol nacional e, ainda que longe do fulgor de outrora, vão encontrando forma de 'sobreviver' entre percalços, revezes e dissabores, talvez sonhando, um dia, voltar a 'intrometer-se' na luta pelo título máximo nacional, como, contra todas as previsões, fez, no dia 18 de Maio de 2001, aquela que foi, por definição, a melhor equipa de toda a sua História.

Saturday, 16 May 2026

Saídas ao Sábado (ou Quinta): O Dia da Espiga - Uma Tradição Outrora Entusiasmante

 As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.

Apesar de já não significar tanto hoje em dia – sendo as celebrações sobretudo nominais, e relativamente restritas às gerações mais velhas – o Dia da Espiga era, em finais do século XX, ainda motivo de relativo entusiasmo para as gerações mais jovens. Isto porque aquela Quinta-feira, exactos quarenta dias depois da Páscoa, também conhecida como Quinta-feira de Ascensão acarretava consigo a tradição de (para alguns) fazer o ramo de 'espigas' ou (para outros, mais 'citadinos') o comprar a uma das muitas vendedoras ambulantes que se deslocavam da província aos centros urbanos com o seu cesto cheio de espigas, normalmente de trigo, mas que também podiam ser de flores (sobretudo malmequeres, margaridas ou papoilas), de alecrim, ou até de ramos de oliveira ou videira – tendo cada tipo o seu significado benfazejo distinto, embora este passasse um pouco 'ao lado' dos jovens mais urbanos, que apenas gostavam de levar para casa aquele objecto decorativo.

Embora o lado mais 'campestre' desta equação se mantenha até aos dias de hoje, no entanto, a verdade é que, nos centros urbanos, a tradição já quase perdeu o significado, tendo as 'senhoras da espiga' praticamente desaparecido das ruas das cidades, e o dia passado a ser 'apenas mais um' para a maioria dos cidadãos das mesmas; ainda assim, no rescaldo de mais uma 'Quinta-feira da Espiga', não deixa de ser relevante recordar os tempos em que este dia suscitava entusiasmo entre as crianças e jovens de Norte a Sul de Portugal.

Friday, 15 May 2026

Sextas Com Style: OMNI - A Marca Mais Irreverente Do Portugal 'Millennial'

 Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.

Os anos 90 são lembrados entre a geração que neles cresceu como a década em que a irreverência e a cultura jovem 'tomaram conta' da consciência popular, substituindo a abordagem 'sanitizada' da década anterior com uma dose de atitude 'radical', manifestada em áreas como a música, a programação televisiva, os videojogos, o 'design' gráfico e publicitário e, claro, a moda. Portugal não foi, de todo, excepção a esta regra, tendo os jovens da geração 'millennial' envergado orgulhosamente uma série de marcas mais ou menos 'radicais' - algumas delas, inclusivamente, de concepção cem por cento nacional, como é o caso da icónica etiqueta que recordamos nesta Sexta com Style.

É possível que muitos jovens da época não conhecessem o nome e logotipo da marca (ou que, em adultos, lhes falhe a já limitada memória) mas uma única menção dos 'slogans' impressos nas suas 't-shirts' e 'sweatshirts' ajudará, decerto, a desbloquear memórias de adolescente entretanto suprimidas: 'enquanto dás um peidinho, morre um golfinho', 'enquanto dás uma queca, morre uma alforreca', 'safas-te, ou é só beijinhos', 'só estou aqui porque não há ondas', são apenas alguns dos dichotes com que a OMNI se tornava a nova 'marca favorita' dos jovens dos anos 90 e inícios dos 2000.


Fundada ainda nos anos 80 por Eduardo Freitas, um surfista de Viana do Castelo, a OMNI (sigla para Objectos Modernos Não Identificados) era especialmente eficaz na tradução do verdadeiro vernáculo juvenil da época para um contexto comercial, sem com isso incorrer na habitual vertente 'embaraçosa' de qualquer marca que tente apelar ao seu público-alvo desta forma; pelo contrário, talvez pelo facto de o fundador ser, ele próprio, jovem e membro de uma sub-cultura 'radical', os 'slogans' semi-humorísticos da marca reflectiam a forma como a demografia em causa falava, tornando-os realistas e, como tal, apreciados como 'fixes' pelo público comprador.


Um dos mais memoráveis 'slogans' da marca.

Este facto, aliado ao logotipo de grafismo também ele ao estilo 'radical', ajudava a marca a estabelecer-se no mercado da moda jovem da época (tanto de 'surf' como mais generalista), não tardando a difundir-se entre os pátios de escola e universidade de Norte a Sul do País, criando um período de hegemonia de cerca de dez anos, que a tornou também nostálgica junto de quem tinha a idade apropriada durante os anos em causa. E apesar de esses anos já formarem parte de um passado distante – e de o próprio fundador ter tragicamente falecido em 2010 – a OMNI continua 'alojada' nos bancos de memória dessa mesma geração, pronta a ser recordada após um simples vislumbre de um dos slogans irreverentes e ligeiramente 'malcriados' que tantos, à época, mostraram orgulhosamente no peito ou nas costas das camisolas, ou em autocolantes no caderno ou 'dossier' da escola...


Thursday, 14 May 2026

Quintas no Quiosque: A 'Grande' Referência da 'Reportagem' Em Portugal

 

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.

O jornalismo de investigação sempre foi um dos 'ex-libris' da imprensa portuguesa, com a maioria dos principais profissionais de informação nacionais a poderem orgulhar-se de, pelo menos, uma reportagem 'a fundo' de enorme qualidade. Não é, pois, de admirar que, nas décadas de 80 e 90, tivesse existido primeiro um programa e, mais tarde, uma publicação tematizada em torno deste tipo de jornalismo; é desta última que falamos nesta Quinta no Quiosque.


Inicialmente activa por um período de apenas seis meses, em meados dos anos 80, a revista Grande Reportagem viria a gozar de uma 'segunda vida' (ou segundo fôlego, se preferirmos) já nos últimos meses daquela década, quando o director José Barata Feyo e o seu principal colaborador (e eventual sucessor) Miguel Sousa Tavares 'ressuscitavam' a revista, já sem o contributo de nomes como Rui Araújo ou Joaquim Furtado, mas com substitutos mais do que à altura, como António Lobo Antunes ou Agostinho da Silva. O resultado era uma revista de referência no campo do jornalismo de investigação, a qual (sem quaisquer surpresas) gozaria de mais de uma década e meia de publicação contínua, naquele que era um paradigma diametralmente oposto ao vivido durante a primeira 'tentativa' de Barata Feyo e companhia.

Este percurso não foi, no entanto, livre de percalços, tendo a Grande Reportagem passado, durante os seus últimos cinco anos de vida, por quatro editoras diferentes, indo das Publicações Dom Quixote (sua 'casa' durante onze anos) a parte da Press Mundo, até acabar como suplemento de Sábado dos jornais do grupo Notícias, sob a égide da Controlinveste, em 2005; nada que beliscasse a reputação da revista como publicação de referência, mas sem dúvida um obstáculo à estabilidade vivida nos tempos da Dom Quixote. É, pois, admirável que, por meio a todo este sobressalto, a Grande Reportagem tenha conseguido manter o mesmo nível de qualidade e interesse para aficionados do jornalismo de investigação, e consolidado a nomeada que já possuía dentro do meio, e que a torna temática natural para esta nossa rubrica dedicada a publicações de relevo no Portugal de finais do século XX.

Wednesday, 13 May 2026

Quartas Aos Quadradinhos: O 'Mercado Alternativo' da BD Portuguesa Noventista

 A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Ao longo desta rubrica, temos vindo a falar de publicações oficiais que, de uma forma ou de outra e com maior ou menor impacto, ajudaram a fomentar a 'cena' portuguesa de banda desenhada no seu período áureo dos anos 80 e 90; no entanto, existia, durante o mesmo período, toda uma outra categoria de revistas tão ou mais seminais para o crescimento da BD portuguesa, mas que se movimentavam em meandros mais obscuros, sendo, via de regra, lançadas por amadores sem qualquer tipo de estrutura editorial e, como tal, com ciclos de vida normalmente curtos.



Capa da 'Mesinha de Cabeceira', uma das muitas fanzines da época em causa.

Falamos, claro está, das 'fanzines', tipo de publicação partilhado com o mundo da música, mas que, no caso da BD, funcionava de forma ligeiramente diferente e, discutivelmente, mais eficaz. Isto porque, enquanto que as 'fanzines' de música divulgavam indirectamente as bandas e artistas incluídos nas suas páginas – através de críticas ou entrevistas – revistas como a Boom!!!, Banda Desejada, Shock, Mesinha de Cabeceira e outras do mesmo género permitiam aos artistas 'apresentar-se' em primeira pessoa directamente ao público-alvo, através de páginas e histórias de sua autoria, eliminando assim o intermediário necessário no caso das fanzines musicais, ou dedicadas a outro tipo de criação artística ou cultural. E a verdade é que este método se afirmava mais do que benéfico para os artistas envolvidos (alguns, inclusivamente, internacionais) tendo o circuito de 'fanzines' de BD ajudado a lançar nomes tão sonantes da BD lusitana como José Carlos Fernandes, hoje o mais aclamado autor nacional de sempre.

Apesar das suas limitações, portanto, é fácil perceber o quão importante foi o papel das 'fanzines' de BD não só na divulgação de novos artistas do meio como também no colmatar de uma lacuna no então vibrante mercado nacional de periódicos; como tal, é também com naturalidade que esta categoria de publicação faz por merecer uma menção na rubrica dedicada aos 'quadradinhos' nacionais da época em que floresceram nos meandros limítrofes e marginais da criação artística portuguesa.

Sessão de Sexta: Vinte e Cinco Anos de Um 'Mudança de Maré' No Mercado da Animação

  Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos...