NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 22 de Abril de 2026.
Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.
Dado o estatuto do 25 de Abril como uma das datas mais importantes de toda a História de Portugal – e certamente a mais importante da era moderna – não é de admirar que, meio século após o famoso dia da Revolução dos Cravos, a mesma continue a ser transmitida de geração em geração, quer através de meios oficiais (como os currículos escolares) quer de forma mais informal, através da tradição oral ou sob uma roupagem lúdica; e tendo em conta a então relativa proximidade do golpe militar em causa, e da mudança radical que representara para o País, tão-pouco é de admirar que a urgência em não esquecer tal evento fosse, à época, ainda maior do que nos dias de hoje. De facto, as celebrações dos vinte e vinte e cinco anos da data foram pretexto para uma redobrada produção cultural alusiva à mesma, com a década em causa a ver surgir, entre outros elementos, filmes, bandas desenhadas e diversos livros infantis sobre o tema. É dos mais famosos exemplos desta última categoria que trata o presente 'post'.

Efectivamente, foram vários os autores 'de nomeada' a aproveitar a 'deixa' para escrever textos relativos ao 25 de Abril, a maioria deles centrados no elemento de memória colectiva de que a data ainda hoje se rodeia. É o caso de 'Vinte e Cinco a Sete Vozes', da icónica Alice Vieira, que propõe precisamente isso – uma visão romanceada dos eventos daquele dia, através da voz (fictícia) de sete personagens, que, em discurso directo, relatam a uma estudante universitária as suas experiências na data em causa, com todos os recursos estilísticos por que o estilo da autora se tornou conhecido. Só por isso, este livro já valeria bem a pena para fãs de Alice Vieira; a importância e relevância do tema (a obra foi lançada aquando dos festejos do quarto de século da data) tornam-no obrigatório para quem queira saber mais sobre o dia mais importante para o Portugal moderno, mas de forma leve, agradável e apelativa.

Estes mesmos adjectivos podem, aliás, aplicar-se também a 'O 25 de Abril Contado Às Crianças...E Aos Outros', lançado praticamente ao mesmo tempo, e da autoria de outro nome marcante para as crianças e jovens da época – José Jorge Letria, músico e escritor que, nesta obra ilustrada em estilo 'naif', emprega um registo conversacional, quase como uma carta, para falar de forma simples mas poética sobre a Revolução dos Cravos. O resultado é um livro com mérito artístico mas, ao mesmo tempo, muito simples e nada aborrecido, que logra apelar ao gosto da sua demografia-alvo, tendo, sem surpresas, entrado no Plano Nacional de Leitura para os dois primeiros ciclos do Ensino Básico (como, aliás, sucede com os três livros aqui mencionados).

Também simples e directo sem deixar de ser poético (e curto o suficiente para não dissuadir o seu público-alvo) é 'O Tesouro', de Manuel António Pina. Muito mais declaradamente 'infantil' que qualquer dos outros livros mencionados nesta rubrica, trata-se de uma alegoria que, sem nunca mencionar situações específicas (pelo menos até ao último parágrafo), fala sobre o 'País das Pessoas Tristes', no qual se procura o titular 'Tesouro' – a liberdade – permitindo assim às crianças aprender sobre a data em causa mediante o uso da imaginação e da fantasia. As ilustrações semi-abstractas, em jeito de quadro, compõem um 'ramalhete' mais que apelativo, mesmo trinta e dois anos após a edição desta obra destinada a assinalar os vinte anos da Revolução.
É, pois, evidente que a última década do século XX viu serem lançados muitos e bons livros sobre o 25 de Abril destinados ao público mais jovem, e dos quais os três títulos aqui referidos são apenas uma amostra, embora significativa e duradoura, do nível literário que essa data inspirou entre os autores portugueses – um paradigma que, aliás, se continua a manter quase três décadas depois.
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