Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.
Apesar de o seu 'ex-libris' ser a indústria têxtil e de calçado, Portugal tem, ao longo das décadas, brilhado com relativo fulgor também em outras áreas da manufactura, como é o caso do sector automóvel, onde é ainda hoje um dos países de referência, não admirando, portanto, que diversas marcas automóveis tenham eleito Portugal como uma das suas bases de operações no que toca à linha de montagem de veículos. Uma dessas marcas foi a Renault, cuja fábrica era uma das principais agregadoras de emprego no altamente industrializado distrito de Setúbal nos anos 80; no entanto, à entrada para a última década do século XX, as instalações da fabricante francesa encontravam-se em riscos de fechar, com a própria empresa envolvida em litígio com o Estado e quase meia centena de postos de trabalho em risco - uma situação que apenas se viria a resolver mediante um acordo celebrado há quase exactas três décadas, após mais de três anos de negociações.
Era, de facto, apenas a 04 de Junho de 1996 que o Governo português e a sede da Renault, em França, chegariam a acordo quanto ao futuro da fábrica de Setúbal, mediante uma transacção que rendia ao Estado onze milhões de 'contos' (ou onze mil milhões de escudos), relativos à sua participação social na empresa francesa, e que via a mesma ceder posse da fábrica por uma fracção do seu verdadeiro custo, mediante o compromisso do Governo em retirar a queixa vigente no Tribunal Internacional de Justiça. Do acordo fazia ainda parte uma verba de três milhões de 'contos', destinada a precaver quaisquer despedimentos resultantes do processo de venda da fábrica, rendendo ao Estado português um total de mais de quinze mil milhões de escudos e libertando-o, ao mesmo tempo, das responsabilidades para com a construtora francesa.
Apesar do bom termo das negociações, no entanto, este acordo não seria suficiente para salvar a fábrica a longo prazo, acabando a mesma – à falta de novos investidores, e face ao prejuízo em que vinha operando – por fechar alguns anos depois, dando lugar à Sociedade de Desenvolvimento da Indústria Automóvel (SODIA) que até hoje ocupa as instalações. Ainda assim, nunca é demais recordar uma acção positiva e proactiva do governo de António Guterres em prole da indústria portuguesa, numa altura em que acabam de se celebrar trinta anos sobre esta efeméride aparentemente menor, mas revestida de alguma importância, da política portuguesa dos anos 90.
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