Wednesday, 29 April 2026

Quartas aos Quadradinhos: A Edição Portuguesa De Um 'Flop' Universal

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.

Apesar de relativamente próxima de dois grandes mercados exportadores de banda desenhada – o franco-belga e o espanhol – a Itália é mais conhecida entre os bedéfilos como o 'berço' da maioria das histórias da 'era moderna' das revistas Disney, sendo poucos os produtos verdadeiramente endémicos e locais a lograr extravasar os confins da 'bota do Atlântico'; Milo Manara é uma excepção óbvia, tal como o herói de 'western spaghetti' desenhados, Tex, mas após este início prometedor, a influência da Itália no mercado dos 'quadradinhos' esvai-se consideravelmente. Ainda assim, não é decerto à falta de tentativas que se deve este paradigma, já que o país em causa procura, periodicamente, lançar mais uma das suas séries 'clássicas' no mercado internacional, com resultados, invariavelmente, intermitentes; é de uma dessas tentativas que falamos neste 'post'. 

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As capas dos únicos álbuns planeados para edição em Portugal, dos quais o quinto nunca chegou a ver a luz do dia.

Criada ainda em finais dos anos 60 e imediatamente popular no seu país de origem, foi com naturalidade que a série 'Alan Ford', da autoria de Luciano Secchi e Rodrigo Raviola (que, como é apanágio dos artistas italianos, adoptavam pseudónimos 'anglicizados', respectivamente Max Bunker e Magnus) rapidamente se expandiu a alguns dos mercados adjacentes, incluindo o português; no entanto, a lentidão do processo de exportação que caracterizava o período em causa faria com que as aventuras do titular espião demorassem quase um quarto de século (!) a chegar a Portugal, onde apenas viriam a ser editadas em inícios de 1993, pela modesta Editorial Palmeira. E a verdade é que – talvez por causa desta demora, ou talvez por qualquer outro motivo – a série viria a falhar no mercado luso como falhara em todos os restantes, com excepção do jugoslavo, onde atingiu um nível de popularidade igual ou maior do que aquele de que gozava em Itália.

As margens do Mediterrâneo e do Atlântico eram, no entanto, bastante mais inclementes para 'Alan Ford' que as do Mar Báltico, sendo que a tentativa portuguesa de publicar a série se ficou pelos quatro volumes, com um quinto a não passar da fase de planeamento. Assim, os (poucos) leitores portugueses que tomariam contacto com a série apenas poderiam desfrutar das aventuras 'O Naufrágio do Daisy Lou', 'Terrorismo', 'O Menino Prodígio' e 'O Código Graffitt', uma minúscula amostra de uma banda desenhada que ainda hoje continua a ser editada em Itália, mais de sessenta e cinco anos após a sua criação - como termo de referência, seria como se em Portugal apenas tivessem sido editados os primeiros quatro álbuns de Astérix!

Os motivos para este total falhanço de Alan Ford em mercados estrangeiros (também durou pouco por terras francesas, brasileiras, dinamarquesas e sérvias, por exemplo) não são totalmente claros, já que a premissa da série é relativamente universal, e normalmente apreciada (uma sátira ao género da espionagem, semelhante ao que Mike Myers fez em 'Austin Powers', embora menos abertamente paródica); seja qual for a razão, no entanto, a verdade é que também em Portugal esta colecção não logrou singrar, sendo o único vestígio da sua existência uma ficha no essencial 'site' Bazar0. Jóia a descobrir ou mediocridade digna de esquecimento? Cabe a cada leitor decidir...

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