A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.
Apesar do seu curto tempo de vida (quase tão curto quanto o da antecessora Sega Saturn) a Dreamcast conseguiu, como aquela, deixar marcas na memória nostálgica de uma determinada geração, muito graças à elevada qualidade de muitos dos títulos de que dispunha na sua limitada biblioteca. Foi, por exemplo, graças à consola de 128-bit da Sega (pioneira, aliás, dessa geração, tendo saído um ano antes da icónica PlayStation 2) que os 'X' e 'millennials' puderam, pela primeira vez, desfrutar de jogos como 'Sonic Adventure', 'Soul Calibur' 'Crazy Taxi' ou 'Marvel vs Capcom' num contexto caseiro, sem terem de se deslocar ao salão de jogos mais próximo, e foi também aquela consola a responsável pelo lançamento no mercado de um dos mais impressionantes jogos da sua geração, ainda hoje visto como um momento 'divisor de águas' entre a geração de consolas de 32- e 64-bit e o que estava para vir.

Falamos de 'Shenmue', lançado na Europa mesmo na 'recta final' do ano 2000 – concretamente a 1 de Dezembro – e que impressionava, desde logo, pelos mirabolantes avanços gráficos em relação a outros jogos da época, que ajudavam à atmosfera imersiva e cinemática que o título procurava projectar. De facto, 'Shenmue' era quase mais filme do que jogo, com o tipo de história intrincada e desenvolvida que então apenas começava a ser 'de regra' em lançamentos interactivos, com a ênfase a ser posta em tarefas mundanas, típicas dos géneros RPG e (sobretudo) 'point-and-click', e menos nas cenas de acção que talvez se esperassem daquela que é, essencialmente, uma aventura de acção e artes marciais ao mais puro estilo Hong Kong.

A primeira das duas sequelas do jogo, lançada em 2002.
Infelizmente, esta dicotomia entre expectativas e realidade fez com que o interesse inicial rapidamente se diluísse, deixando apenas um jogo lento e de cariz algo trivial; assim, passada a euforia causada pelos gráficos e atmosfera, 'Shenmue' acabou por se saldar num fracasso comercial, adquirindo um estatuto sobretudo de culto entre fãs do género de 'role-play' e críticos especializados, que o continuam a inserir em múltiplas listas de 'melhores jogos de sempre'. O interesse deste pequeno mas vocal nicho foi, também, suficiente para justificar duas sequelas, a primeira dois anos após o original, também para Dreamcast, e a terceira já na 'era moderna', em 2019. Para a grande maioria dos jogadores, no entanto, são os impressionantes ambientes do primeiro jogo que imediatamente vêm à memória ao ver o nome 'Shenmue', sendo os mesmos, ainda hoje, o principal motivo para a fama do título, justamente considerado revolucionário para a época em que saiu – e, por isso mesmo, merecedor de homenagem, mesmo que seis semanas atrasada em relação aos vinte e cinco anos do seu lançamento.
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