Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.
Cada época da História tem a sua própria iconografia cultural, que a torna imediatamente reconhecível, e que tende a estender-se a todos os sectores da sociedade. Os veículos não são excepção a esta regra, e até o cidadão menos interessado em motores e potência em cavalos conseguirá elencar uma série de marcas e modelos de automóveis e motas imediatamente associáveis a qualquer período desde a invenção destes meios de transporte. Escusado será dizer que as duas últimas décadas do século XX não foram excepção a esta regra; antes pelo contrário, os anos 80 e 90 representaram, talvez, a última grande era do 'design' experimentalista no sector automóvel, antes de a maioria dos fabricantes seguirem a via da padronização e estandardização. Foi a época do aparecimento do Renault Twingo e da derradeira glória de modelos clássicos de décadas transactas, como o Citroen 'Boca de Sapo', os Renault R4 e R5, os renascidos Volkswagen 'Carocha' e Mini, e, claro, o icónico Citroen 'dois cavalos', o 2CV.

O último 2CV de sempre foi produzido em Portugal.
Produzido desde finais dos anos 40, o carismático carro de traços angulares – normalmente associado à condução mais 'económica', mas que era também usado como símbolo de personalidade e inconformismo – via, exactos quarenta anos após a sua criação, toda a linha de montagem ser transferida para Portugal, mais concretamente para a zona de Mangualde, onde a Citroen continua a ter a sua fábrica nacional, após o fecho da usina francesa que havia produzido o modelo desde o seu aparecimento. O nosso País teve, assim, a honra de suceder a essa histórica instalação, e, a partir de 1988, seria das nossas fronteiras que sairiam todos e quaisquer 2CV produzidos quer para o mercado interno, quer para o internacional, facto que ajudaria a colocar Portugal, e os seus recursos de produção, no 'mapa' automóvel europeu. No total, foram mais de 42.300 carros criados em apenas dois anos, até a produção do modelo ser descontinuada, há quase exactos trinta e três anos; o último 'dois cavalos', um modelo Charleston especial, ficaria completo a 27 de Julho de 1990.
Curiosamente, os 'dois cavalos' portugueses gozam de uma reputação inferior à dos franceses em países como o Reino Unido, onde a construção e desempenho dos mesmos são criticados, numa corrente de opinião que vai contra a da própria Citroen, que considera estes modelos como estando a par dos franceses em termos qualitativos. Ainda assim, e apesar das críticas, os dois anos em que o 'dois cavalos' foi produzido em solo nacional não deixam de representar um marco para a indústria automóvel portuguesa de finais do século XX, que merece ser lembrado por alturas do seu vigésimo-terceiro aniversário...
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