A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.
E se no primeiro post desta série falámos de revistas de super-heróis, nada mais justo do que, neste segundo capítulo, falarmos de uma das principais alternativas disponíveis nas bancas para quem não gostava desse tipo de banda desenhada.

Referimo-nos, especificamente, às revistas Disney, publicações quase sinónimas com os ‘quadradinhos’ em Portugal, contando-se entre as mais antigas do género disponíveis no nosso país. Importados pela primeira vez do Brasil no início dos anos 50, títulos como Mickey e Pato Donald continuam a ser editados, de uma forma ou de outra, até aos dias de hoje, celebrando já uns espantosos setenta anos nas bancas portuguesas – mesmo contando com o interregno de sete anos entre 2006 e 2013. Uma marca honrosa, e que nem mesmo a Marvel ou a Turma da Mônica – as outras séries de quadradinhos ‘perenes’ entre a miudagem portuguesa - conseguiram ainda alcançar.
No entanto, e apesar da sua rápida implementação e boa aceitação entre os leitores nacionais, demoraria ainda algumas décadas até que uma editora portuguesa arriscasse edições cem por cento nacionais das revistas Disney. A pioneira, tal como havia acontecido com a Marvel e a DC, foi a Abril Jovem. mais tarde Abril Controljornal, que, em 1980 – numa altura em que celebravam os 30 anos da introdução das BDs Disney no mercado nacional – lançou quatro títulos inteiramente adaptados ao português ‘de Portugal’. Mickey, Pateta, Pato Donald e Tio Patinhas passaram assim a ter revistas produzidas e editadas pelo ramo luso da editora, as quais eram facilmente identificáveis graças às duas tiras com as cores da bandeira nacional presentes no canto superior esquerdo da capa.

Exemplar nacional da revista Pato Donald publicado nos anos 90, com as duas tiras identificativas no canto superior esquerdo.
Durante a década seguinte foi esse o paradigma – quatro revistas (mais os respetivos Almanaques) totalmente em português europeu, que confraternizavam nas bancas com outras suas congéneres ainda importadas do Brasil, como Zé Carioca e Urtigão (cujos personagens, por vezes, faziam a transição para histórias incluídas nas revistas portuguesas, com o resultado, algo estranho, de vermos um estereótipo brasileiro como Zé Carioca, ou o ‘caipira’ Urtigão, usarem calão nortenho ou saloio, em vez do seu brasileiro natal!) Mais tarde, esta seleção seria aumentada com a localização para o ‘nosso’ português de almanaques temáticos, como o Almanaque Disney, Disney Aventura ou Disney Especial, e de certos títulos mais ‘chiques’ (e caros) como o Disney Especialíssimo, o Hiper Disney ou o ainda mais especial Hiper Hiper Disney, de capa dura, encadernada e com 'manga' exterior plastificada, que continha dois números do Hiper Disney num só volume, e era daqueles que se compravam uma ou duas vezes por ano e se faziam ‘render’…

Duas das muitas publicações temáticas ou especiais da Disney editadas em Portugal durante os anos 90
Foram estas publicações, muitas com um português ainda meio ‘abrasileirado’ e outras com traduções algo bizarras e forçadas para expressões idiomáticas, que as crianças portuguesas da década de 90 se habituaram a ver nas bancas uma vez por mês, e a levar para casa para ler. De ressalvar que algumas destas histórias saíam, também, em suplementos de jornais como o Correio da Manhã ou o Expresso, ou até revistas como a TV Guia, constituindo uma grata surpresa para qualquer criança que se deparasse com elas ao folhear o jornal diário ou a revista de ‘fofocas’ lá de casa. Existem mesmo registos de histórias da Disney aparecerem, na íntegra, em manuais escolares do ensino primário, um facto que diz muito sobre a importância e a influência destas revistas no imaginário popular daqueles anos 90.
Infelizmente, esta é uma história que – pelo menos para a geração de leitores deste blog – não tem um final feliz. Isto porque, a partir de meados da década a que este blog diz respeito, as revistas Disney disponíveis em Portugal sofreram um novo ‘revamp’, com os icónicos grafismos a serem alterados e alguns títulos a regressarem ao número 1. O que não teria nada de mal, não fosse o facto de o material incluído nestes novos volumes – que se mantiveram nas bancas por mais uma década após o seu lançamento – ser retirado, quase exclusivamente, das horríveis produções italianas, cujos desenhos eram excelentes, mas os argumentos deixavam muito a desejar. As histórias italianas e francesas eram, além disso, muito maiores, pelo que apesar do aumento do número de páginas, muitas destas revistas passaram a apresentar apenas uma história por número.

Exemplar da revista Pato Donald com o grafismo de capa mais moderno.
Escusado será dizer que, após esta mudança, as revistas Disney sofreram um decréscimo de vendas, embora se mantivessem muito populares entre o segmento mais jovem do público-alvo. Ainda assim, o novo milénio revelar-se-ia conturbado para as BDs Disney em Portugal, por contraste com a estabilidade de que as mesmas tinham gozado nas duas últimas décadas do século XX.
Isso, no entanto, já fica fora do âmbito do nosso blog – pelo que, como sempre, nos resta passar-vos a palavra. Liam as revistas Disney? Qual era a vossa favorita? Deste lado, havia clara predileção pelas edições brasileiras, com especial destaque para Urtigão e Zé Carioca; já as portuguesas, nunca chamaram tanto a atenção… E vocês? Qual a vossa experiência? Partilhem nos comentários!
A minha primeira ronda das revistas Disney foi no início dos anos 90 com a colecção de Hiper Disney e outras revistas publicadas pela editora Abril, que quando completada, a lombada assumia um desenho de brinde pela dedicação do coleccionador.
ReplyDeleteHistórias de Donald e seus 3 sobrinhos, Tio Patinhas, Mikey e Pateta, assim como seus alter ego, Superpato, Super-Pateta, Indiana Pateta, foram sem dúvida as minhas personagens preferidas desse tempo.
Mais tarde, nos anos 2000 em diante, com a editora Goody ao leme das novas publicações, pude retomar o contato com estas revistas, para mim e quem sabe para imprimir o gosto no meu filho.
O grafismo era excelente,e a qualidade do papel das revistas era também muito agradável. O que teria resultado menos bem, na minha opinião era que faltava alguma " profundidade " as histórias publicadas. Não encontrei nenhuma grande aventura que tivesse lido 20 anos antes republicada, e outra coisa que foi arrefecendo os ânimos no momento da compra... a excessiva oferta em curto espaço de tempo. De uma semana para a outra em que passava na secção da papelaria do Continente já haviam mais 2 ou 3 números novos de cada publicação. E eu ( e imagino que muitos do meu escalão etário, que numa primeira etapa seriam o verdadeiro público alvo,no mercado da saudade,pelo menos até cativar novos leitores numa geração que cada vez lê menos...) ... Pensava eu que hoje não posso levar, ainda não li a revista, trabalhei a semana toda e tenho de ajudar a fazer os trabalhos da escola dos filhos e tenho de arrumar a casa no fim de semana e enfim... não tive tempo para acabar a leitura e não vou levar nada de novo. - E talvez por isso, por não se ter preparado para o novo embate ao mercado que se alterou. A editora não considerou que os antigos leitores das revistas não tinham mais o tempo e disponibilidade de 20 anos atrás, e rapidamente inundaram o mercado de publicações, sem terem tido tempo para sentirem adaptando as novas necessidades e exigências do seu público alvo, que noutra fase da vida não poderiam mais ser leitores ávidos como eram no passado. O mundo actual entre trabalho, família, formação é muito absorvente e várias publicações por semana a serem lançadas, sem terem estudado o mercado antes e durante a incursão, resultado; fim da história. E até hoje não mais se viu a Disney em Portugal, na vertente revistas quadradinhos e se calhar nunca mais voltam....
Eu nunca fiz a coleção de Hipers por serem proibitivamente caros. Tinha um ou outro, e exactamente UM Hiper-Hiper. Além de ser muito mais fã da Turma da Mônica...
DeleteDas novas com as histórias italianas, nunca gostei. Tinha porque me davam, mas nunca relia, ao contrário das outras da coleção.
Lembro-me de por volta de 2014 a minha tia comprou o expresso e veio uma BD do tio patinhas. Lembro-me que fiquei muito interessado e até comprei várias. Eu não lia nada naquela altura então era novidade desenhos animados(que eu via na televisão) no papel com aquele tipo de "textura". Em 2024 li Billy Bat, um mangá em que a personagem principal desenhava neste estilo de BD da altura e lembrei-me destas bandas desenhadas que lia. Infelizmente o que eu vi pela internet era naquele estilo sem vida que se vê por todo o lado hoje em dia. É uma pena.
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