A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.
Neste post inaugural, traçaremos o percurso da mais bem-sucedida tentativa de publicar comics americanos em terras lusas – as icónicas séries da Marvel e DC publicadas pela Editora Abril Controljornal em meados da década de 90.
Embora atravessassem, à época, mais um dos seus frequentes períodos áureos,
as BDs de super-heróis não eram algo com tradição em Portugal. A maioria dos
títulos disponíveis chegava às bancas diretamente do Brasil – mesma origem de
outras ‘revistinhas’
icónicas, como as da Turma da Mônica
– e apesar das tentativas regulares, por parte de diferentes editoras, de criar
publicações deste tipo 100% nacionais, nunca nenhuma conseguiu o nível de
sucesso de que gozavam as suas congéneres importadas.
Esta situação viria a alterar-se por volta do ano de 1995, quando a Abril
Controljornal (antes Abril Morumbi) decide mais uma vez arriscar na criação de
revistas de BD de super-heróis 100% nacionais. Seguindo a máxima que diz que ‘em equipa que ganha não se mexe’, a editora optou,
sensatamente, por não arriscar
demasiado no formato ou conteúdo destes novos comics, mantendo o mesmo
formato pequeno das edições sul-americanas (o chamado ‘formatinho’) e limitando-se a ‘aportuguesar’ os textos para eliminar
os ‘brasileirismos’. Esta táctica,
que permitia reduzir o custo das revistas de modo a que fossem acessíveis a
bolsos mais jovens, rapidamente começou a surtir efeito, com as BDs portuguesas a ‘expulsarem’ as brasileiras das bancas
quase por completo, iniciando um
período de aproximadamente três anos de hegemonia da Abril no mercado dos
super-heróis.
Durante estes anos (sensivelmente de 1995 até 1998) a editora investiu numa
selecção dos mais populares títulos americanos, publicando indiscriminadamente as
principais propriedades da Marvel (Homem-Aranha, X-Men e Wolverine) e da DC (Super-Homem,
Batman e Liga da Justiça.) A receção extremamente
positiva que estes títulos receberam permitiu, até, que a Abril expandisse o
seu raio de ação a publicações de cariz temático ou especial - como ‘Origens dos Super-Heróis Marvel’, que republicava histórias da chamada silver age - ou a séries
menos conhecidas ou populares, como o universo 2099 da Marvel ou o impagável Superboy,
da DC. Foi, até, criada uma revista totalmente dedicada a este tipo de lançamentos, a criativamente intitulada 'Heróis' - uma espécie de parente (muito) pobre da referência norte-americana (e brasileira) Wizard, de conteúdo muito mais básico e virado a um público muito mais jovem. Ainda assim, o título conseguiu algum sucesso enquanto durou, sobretudo devido ao preço 'simpático' para os bolsos do público-alvo.
As razões para este sucesso são fáceis de explicar – apesar de algumas
falhas (como a permanência de formas gramaticais ‘abrasileiradas’ em quase todos os
números de quase todas as revistas), a Abril teve a sorte de conseguir material
da última grande fase dos comics americanos à época. Da Marvel foram
publicadas, por exemplo, as sagas Venom e Carnage do Homem-Aranha e a fase
original da X-Force; da DC, surgiram, entre outras, a ‘storyline’ em que Bruce Wayne é paralisado por Bane e substituído por um Batman
mais jovem e futurista, e a mítica e icónica saga da morte (e retorno) do
Super-Homem. Mesmo com as supramencionadas falhas – na tradução e não só – este
material era suficientemente forte para atrair o público-alvo, gerando vendas
consistentemente altas para a editora durante os primeiros dois anos de publicação
das revistas.
O ano de 1998 não foi, no entanto, tão prolífico para a editora, que viu o
interesse nos seus comics diminuir consideravelmente – e, com ele, as vendas.
Assim, ainda nesse mesmo ano, aquele que havia sido o argonauta dos ‘quadradinhos’ de super-heróis
portugueses suspendia a publicação de todas as suas revistas, voltando a deixar
os fanboys lusitanos à mercê de importações americanas proibitivamente
caras e difíceis de encontrar, ou na melhor das hipóteses, números antigos comprados
a alfarrabistas. Voltavam os ‘anos negros’…
Demoraria apenas um ano, no entanto, até esta situação se voltar a alterar,
e os heróis americanos (embora apenas os da Marvel) voltarem às bancas
portuguesas - desta vez pela mão de uma editora com muito melhor reputação
entre os geeks, e cujo trabalho foi, objetivamente, muito melhor e mais
cuidado que o da Abril - e gerarem uma nova vaga de interesse nos comics americanos em Portugal. Mas dessa falaremos noutra ocasião – até porque a
verdade é que, mesmo com todos os seus defeitos, as revistas aos quadradinhos da
Marvel e DC publicadas pela Abril marcaram uma época, e constituíram o primeiro
contacto de muitos futuros fanboys com os icónicos heróis e vilões da BD
norte-americana. E vocês? Contavam-se entre este número? Se sim, qual o vosso
herói favorito? (Daqui, sempre foi e sempre será o inimitável Homem-Aranha.)
Digam de vossa justiça nos comentários!




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