Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.
A percepção do que é um 'craque' está, normalmente, ligada a uma combinação dos aspectos técnicos com a preponderância do jogador no jogo da equipa; no caso de um avançado, acresce ainda a estas duas categorias uma terceira, a dos golos marcados. No entanto, esta fórmula está muito longe de ser universal ou imutável, sendo importante levar também em conta aspectos como a polivalência, dedicação, empenho e o clássico 'amor à camisola', que podem fazer mesmo um jogador menos 'vistoso' ser acarinhado pelos adeptos e respeitado nos meandros do futebol. Um exemplo acabado disso mesmo é o jogador de que falamos neste post, um histórico de um dos grandes portugueses em finais do século XX que, apesar de estrangeiro, 'sentiu' o clube tanto como, ou até mais do que, muitos jogadores nacionais que por ele passaram.

Não que Ivaylo Stoimenov Yordanov não fosse bom jogador – pelo contrário, afirmou-se quase sempre como peça importante de cada uma das dez (!) épocas que passou de leão ao peito ao serviço do Sporting Clube de Portugal, conquistando o coração dos adeptos, que o apelidavam carinhosamente de 'Yorda9', devido ao número que envergava; no entanto, o seu estilo de jogo baseava-se mais na eficácia do que nos dribles e técnica, fazendo com que muitos fãs do clube tomassem o búlgaro por 'garantido', enquanto viravam as suas atenções para outros elementos do plantel. O facto de Yordanov poder (e estar disposto a) desempenhar várias posições na frente de ataque ou até a 'tapar buracos' em outras zonas do terreno (como no caso da memorável adaptação a...defesa-central, no jogo dos quartos-de-final do Mundial de 1994, frente ao México) também se provava ser uma faca de dois gumes – por um lado, valia ao búlgaro o respeito, admiração e carinho da massa adepta leonina, mas por outro, agudizava ainda mais a percepção de Yordanov como um jogador utilitário, por oposição a uma das estrelas do clube.
Esta avaliação do búlgaro não podia, no entanto, estar mais errada: Yordanov era, sim, craque, como o demonstrava a estreia profissional com apenas catorze anos (!!) pelo seu clube formador, o Riski Sportist, os quase duzentos jogos efectuados ao serviço do mesmo em sete épocas, e a sua importância e preponderância na Selecção Nacional do seu país, pela qual se estreou pouco depois da sua transferência para o Sporting, e ao serviço da qual jogou as principais competições daquela década, nomeadamente os Mundiais de 1994 e 1998, e ainda o Euro '96. Uma carreira em clara ascensão, que apenas seria 'travada' por uma série de lesões recorrentes, e pelo infeliz diagnóstico de esclerose múltipla, em 1997 – situação que, aliás, serviu para mostrar a 'fibra' de Yordanov, que ainda jogaria mais três épocas antes de ser obrigado a abandonar os relvados, em 2001, aos trinta e três anos, e a embarcar na tradicional carreira técnica, no caso como treinador-adjunto, função que continua a desempenhar até aos dias que correm, quando acaba de completar cinquenta e seis anos. Para trás fica um percurso que englobou apenas três equipas, mas que viu o jogador tornar-se, em duas delas, ídolo respeitado pelos adeptos, tendo o seu brio e ética profissional, e a dedicação ao emblema que representou em Portugal, contríbuido para fazer do búlgaro, por direito próprio, uma Lenda da Primeira Divisão nacional de finais do século XX.
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