Saturday, 4 October 2025

Sessão de Sexta: Trinta e Cinco Anos de 'Um Sonho de' Comédia Romântica

NOTA: Este post é respeitante a Sexta-feira, 03 de Outubro de 2025.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


No início dos anos 90, o género da comédia romântica moderna (a chamada 'rom-com') não era, ainda, tão prevalente quanto viria a ser na segunda metade da década, e durante grande parte da seguinte. Já havia, é claro, exemplos do género, mas mesmo estes apresentavam moldes um pouco diferentes daqueles que viriam a formar a tão conhecida e bem-sucedida fórmula que levaria milhões de casais às salas de cinema durante os dez a quinze anos seguintes. Isto porque, apesar de o famoso 'boy meets girl' ter sido o cerne da ficção – cinematográfica e não só – durante séculos, muitas das obras criadas até finais do século XX incorporavam outros elementos além da tensão romântica, e punham muitas vezes mais foco nestes do que propriamente nas desventuras do 'casalinho' de serviço.


Um dos filmes que ajudaria a mudar esse paradigma, e a lançar o género da 'rom-com' como a maioria dos 'millennials' o viriam a conhecer, chegava às salas de cinema portuguesas há exactos vinte e cinco anos, a 4 de Outubro de 1990, e afirmava-se imediatamente como um sucesso tão retumbante no nosso País como já o havia sido internacionalmente. E não é difícil perceber porquê – afinal, quem não se deixaria cativar pela velha história do 'ricaço' que descobre e se apaixona por uma jovem de origens comuns, mas com um coração de ouro e personalidade a condizer?


download (2).jpeg


Sim, a história de 'Pretty Woman: Um Sonho de Mulher' mais não era do que uma variação do enredo de 'My Fair Lady', transposto da Inglaterra vitoriana para a América urbanizada, transformando o 'professor distraído' num 'yuppie' e a vendedora de flores numa prostituta, mas mantendo, de outra forma, a premissa-base do clássico musical. Para viver as personagens desta espécie de 'actualização não declarada' eram escolhidos o veterano 'bonitão' Richard Gere – então já com uma década como 'sex symbol' de Hollywood – e uma jovem de apenas vinte e um anos, de sorriso luminoso e longos cabelos frisados, de quem este filme faria uma das maiores estrelas do planeta durante pelo menos uma década. O seu nome? Julia Roberts, pois claro.


Curiosamente, e um pouco em linha com o pensamento veiculado no parágrafo inicial deste 'post', 'Um Sonho de Mulher' – que conta ainda com a participação de Hector Elizondo e Jason Alexander, o George Costanza de 'Seinfeld' - não tinha, inicialmente, sido pensado como romance, e muito menos como comédia; pelo contrário, a ideia inicial do argumentista J. F. Lawton era criar um drama sério e sombrio sobre a prostituição que então grassava em Los Angeles, um conceito que não podia estar mais longe do filme que acabou por 'ir a cena'. De igual modo, nem Gere nem (especialmente) Roberts teriam sido primeiras escolhas da equipa técnica, que queria Karen Allan no papel da prostituta Vivian (com as alternativas a passarem por Molly Ringwald, a 'menina do lado' dos anos 80, e ainda por nomes como Jennifer Connelly, Wynona Ryder, Drew Barrymore, Brooke Shields, Kristin Davis, Uma Thurman e Patricia Arquette), e havia considerado nomes tão díspares como Al Pacino, Christopher Lambert, Burt Reynolds, Daniel Day-Lewis, Kevin Kline, Christopher Reeve, Albert Brooks e até Denzel Washington ou Sylvester Stallone (!!) para o papel do galã. Se a ideia de um filme em que Michael Corleone, o Super-Homem ou o Rambo contracenam com a Poison Ivy de 'Batman e Robin' ou com a 'menina bonita' de 'O Clube' é por demais intrigante, a mesma terá, no entanto, de permanecer exclusivamente (e infelizmente) no campo da imaginação, já que todos esses actores rejeitaram o convite dos produtores, com mesmo Gere a só ficar totalmente convencido após conhecer Julia Roberts.


Como se costuma dizer, no entanto, 'há males que vêm por bem', já que os dois actores viriam a beneficiar largamente da sua participação no projecto, o qual – já depois de transformado numa trama leve e de cariz romântico – viria não só a afirmar-se como um dos maiores sucessos de sempre no seu género, como também a fornecer a matriz para duas décadas de filmes com cartazes de fundo branco e casais em poses ligeiramente 'marotas' ou divertidas – embora, na maioria dos casos, sem as alusões ao trabalho sexual que o original utilizava como base. Tivessem Lawton e os restantes elementos técnicos do filme seguido a sua ideia original, talvez o panorama cinematográfico dos anos 90 e 2000 tivesse sido significamente diferente, e talvez Gere e especiamente Roberts nunca tivessem conhecido o sucesso de que gozaram durante esse período. Tal e como existe, no entanto, 'Um Sonho de Mulher' é, sem dúvida, um marco do cinema americano moderno, totalmente merecedor de homenagem, quando se celebram trinta e cinco anos desde o dia em que apresentou ao público português as personagens de Edward Lewis e da 'mulher bonita' Vivian Ward.


Friday, 3 October 2025

Quintas de Quinquilharia: Os Autocolantes Luminosos da Matutano - Simplicidade Com Apelo Intemporal

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quinta-feira, 02 de Outubro de 2025.


Trazer milhões de ‘quinquilharias’ nos bolsos, no estojo ou na pasta faz parte da experiência de ser criança. Às quintas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos brindes e ‘porcarias’ preferidos da juventude daquela época.


Qualquer 'nativo' dos anos 90 nacionais que se encontrasse, à época, em idade pré-adolescente não hesitará em apontar os brindes alimentares – das batatas fritas, cereais, Bollycaos, ovos de chocolate, bolachas ou iogurtes – como um dos grandes elementos nostálgicos da vida de então. Discretamente desaparecidos algures em inícios do Novo Milénio, aqueles objectos inseridos na própria embalagem do alimento em causa – e que se 'pescavam' de dentro do mesmo assim este era aberto, arriscando muitas vezes a higiene dos dedos – marcaram a infância de muitas crianças e jovens de finais do século XX, que ainda hoje os recordam com afecto e saudade. E se, para os 'millennials', estas recordações envolvem, sobretudo, os Tazos, Matutolas, Caveiras Luminosas e Pega-Monstros, os membros mais novos da Geração X têm também o seu próprio 'lote' de brindes saudososamente memoráveis, dos 'Tous' e 'Janelas Mágicas' do Bollycao às duas colecções de autocolantes que focamos neste 'post'.




Oferecida nas batatas fritas da Matutano logo em inícios da década de 90, a colecção de autocolantes luminosos de fantasmas constitui o epítoma do brinde mais 'simplista' da era pré-Matutazos, quando a criança média portuguesa era menos exigente neste aspecto, e apreciava apenas a oportunidade de ganhar uma pequena quinquilharia para colar ao caderno ou à mobília do quarto e ver brilhar sempre que as condições luminosas diminuíam. Porque era este o conceito dos Fantasmas Luminosos – nem mais, nem menos. Ao contrário da maioria dos seus sucessores, a colecção não trazia associado qualquer elemento competitivo, focando-se unicamente no instinto coleccionista da maioria dos jovens, na estética ao mesmo tempo 'fofinha' e apelativa dos trinta fantasmas que a compunham, e no elemento diferenciador da luminosidade.


download (2).jpeg


E a verdade é que a aposta foi ganha com distinção, figurando estes autocolantes entre os brindes favoritos de muitos portugueses hoje na casa dos quarenta a cinquenta anos, junto dos quais fez retumbante sucesso à época do lançamento. Tanto assim que a Matutano se viu motivada a lançar, dois anos depois, uma segunda série, agora com temática alusiva à vida selvagem, mas com o mesmo conceito-base. E se leões, águias, bisontes ou rinocerontes não encaixavam tão organicamente na mecânica do brilho no escuro como fantasmas, nem por isso a promoção Feras Luminosas deixou de ser apelativa ou de fazer sucesso junto do público-alvo, agora acrescido de crianças demasiado novas para recordar os fantasmas originais, e para quem esta era a primeira experiência de encontrar autocolantes luminosos nos pacotes de batatas.


download (3).jpeg


Duas colecções, em suma, que apesar de simples, retinham aquele apelo intemporal que só algo como os autocolantes consegue gerar junto do público infantil, a ponto de quase se poder dizer que, se lançados hoje, fariam exactamente o mesmo sucesso junto das gerações Z e Alfa que fizeram no tempo dos seus pais. Infelizmente, os brindes alimentares já de há muito desapareceram do quotidiano infantil português, tendo sido discretamente 'retirados de cena' algures na década de 2010, pelo que este cenário terá, forçosamente, de ficar remetido ao campo da conjectura. Certo é que, trinta e cinco anos após o seu aparecimento nos pacotes da Matutano, os Fantasmas Luminosos ocupam, ainda, lugar de destaque na memória nostálgica da parcela mais velha da geração 'millennial' portuguesa, e da metade mais nova da geração 'X', para quem continuam a ser um dos melhores brindes alimentares alguma vez veiculados no nosso País.

Thursday, 2 October 2025

Quartas aos Quadradinhos: A Adaptação em BD de 'Passagem Por Lisboa' - Uma 'Novela Gráfica' À Portuguesa

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 1 de Outubro de 2025.


A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


Já aqui anteriormente falámos das adaptações em banda desenhada (ou novelas gráficas) de propriedades cinematográficas e televisivas norte-americanas, como 'Parque Jurássico', 'Jovem Indiana Jones' ou 'Batman Para Sempre'. E apesar de esta não ser uma prática corrente fora daquele continente e mercado, em meados dos anos 90, a Editorial Notícias arriscou lançar uma versão 'à portuguesa' do referido conceito, adaptando para 'quadradinhos' um filme que poucos esperariam ser alvo deste tratamento: 'Passagem Por Lisboa', a trama de espionagem 'de época' levada ao grande ecrã por Eduardo Geada, em 1994, e cujo público-alvo não se interceptava, exactamente, com o que lia revistas ou álbuns de banda desenhada. E porque, ao falarmos do filme, descurámos focar esta adaptação, nada melhor do que dedicar-lhe agora algumas linhas.


BRW30C9AB56EEDC_001087-731x1024.jpg


A capa do álbum utilizava o cartaz do filme.


Infelizmente, há muito pouco a dizer sobre a BD de 'Passagem Por Lisboa', que as gerações 'X' e 'Millennial' votaram, praticamente, ao esquecimento (um pouco como o próprio filme). De facto, para lá da capa (copiada do cartaz do filme), do mês e ano de lançamento (Abril de 1994) e do nome dos autores (curiosamente, ambos chamados Paulo, no caso Paulo Pereira, responsável pelo argumento, e Paulo Silva, o ilustrador) é impossível encontrar qualquer informação ou fotografia respeitante a este álbum, tornando impossível elaborar sobre o estilo de desenhos que apresenta, ou sobre as técnicas empregues para adaptar à BD as técnicas narrativas cinematográficas do filme. Pedimos, pois, a qualquer leitor que possua informações sobre este livro (alô, Pedro Serra!) que nos ajude a 'completar' um pouco este 'post', o qual, para já, terá de ficar por aqui.

Wednesday, 1 October 2025

Terças Tecnológicas: A Série 'Baldurs Gate' - Um Conceito Futurista Com Estética Medieval

NOTA: Este 'post' é respeitante a Terça-feira, 30 de Setembro de 2025.


A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


O advento dos gráficos computorizados tridimensionais (ou poligonais) veio, logo desde o seu aparecimento, operar uma pequena 'revolução' no mundo dos videojogos, abrindo caminho a uma série de possibilidades até então utópicas, não só em termos de realismo dos personagens e ambientes, mas também das próprias mecânicas inerentes a cada título. Mais do que protagonistas que 'pareciam pessoas', este salto tecnológico permitia criar mundos mais vastos e imersivos, que convidavam à exploração e faziam aumentar exponencialmente a potencial duração de um título – enquanto a maioria dos jogos ditos 'clássicos' podiam ser completados em poucas horas por quem soubesse minimamente o que estava a fazer, os novos títulos tridimensionais faziam aumentar esse número para as dezenas, propiciando uma experiência mais completa e alargada, que, ainda mais do que anteriormente, justificava o investimento.


Escusado será dizer que, de entre todos os géneros interactivos, eram os 'role-playing games', ou RPGs, aqueles que mais beneficiavam deste novo paradigma. Aquilo que, até então, haviam sido aventuras em mundos 'vistos de cima' e com sistemas de combates por turnos algo simplistas, viam-se agora em posição para verdadeiramente 'mergulhar' o jogador nos seus universos, permitindo-lhe ver cada detalhe de perto, engajar os inimigos em combates corpo-a-corpo, e sentir-se verdadeiramente na 'pele' do seu guerreiro ou mago à medida que atravessava os vastos mapas da 'nova' safra de títulos do género. Não admira, pois, que a mesma rapidamente tenha rendido títulos tão clássicos e imersivos como os das sagas 'Diablo', 'Elder Scrolls', 'Final Fantasy' (a partir do sétimo volume) ou a que aqui celebramos, e que presentemente volta a entusiasmar grande parte da comunidade aficionada aos videojogos - 'Baldur's Gate'.


Baldurs_Gate_stacked_logo_circa_Enhanced_Edition.p


Com início no Natal de 1998, e vinculada ao universo 'Dungeons & Dragons' (franquia que, juntamente com 'Warhammer 40.000', praticamente inventou o termo 'role-playing game') 'Baldur's Gate' não fazia, de imediato, a transição para o 3D total; em vez disso, o primeiro título colocava ainda o jogador num mundo isométrico (embora já criado com o então novíssimo motor Infinity, que havia de se tornar padrão em anos vindouros) em que os gráficos serviam de veículo ao enredo e aos diálogos, as componentes verdadeiramente imersivas do jogo da BioWare. A jogabilidade, essa, recebia inspiração directa do jogo-base, com as habituais 'classes' de personagens organizados em grupos aventureiros, sistema de inventório, e regras que, grosso modo, seguiam à letra as da segunda edição de 'Dungeons & Dragons'.


Baldur's_Gate_box.pngDuchal_palace_sarevok_speaks_BGI.png


O resultado era um jogo que enchia totalmente as medidas aos adeptos dos RPG, afirmando-se como mais complexo e completo do que anteriores ofertas interactivas, sem no entanto ser demasiado rebuscado ou complicado para atrair 'novatos' no género. Não é, pois, de admirar que 'Baldur's Gate' tenha sido alvo de laudas tanto por parte da crítica especializada (que afirmava que o título da BioWare lograva revitalizar o seu género, e lhe atribuíam o cobiçado prémio de 'RPG do Ano' no sector PC) como dos jogadores (que o tornavam um dos títulos mais badalados dos últimos doze meses do século XX) nem que tenha tido direito a um pacote de expansão alguns meses depois, com quatro novas áreas, equivalentes a trinta horas de jogo – um número que mostra bem o âmbito alcançado por este novo modelo de RPGs – e a uma novelização oficial, que capitalizava na cuidada história e universo da franquia.


Baldur's_Gate_II_-_Shadows_of_Amn_Coverart.png


BG2DlgImoen.png


O melhor estava, no entanto, ainda por vir, tendo a BioWare iniciado o Novo Milénio com o 'pé direito', ao lançar a muito antecipada sequela para o seu novo título-estandarte. Chegado ao mercado europeu há exactos vinte e cinco anos, a 29 de Setembro de 2000, 'Baldur's Gate II: Shadows of Amn' fazia o que qualquer boa sequela deve fazer, refinando a fórmula do original sem perder a sua essência ou o que o havia tornado um sucesso. Com o motor gráfico mais polido e operacional, maior resolução gráfica (um hoje risível, mas então impressionante, 800x600) e suporte para placas gráficas 3D, a vertente técnica estava, desde logo, assegurada, mas a BioWare fez questão de ir mais longe, tendo em conta as principais críticas ao original e fazendo questão de as corrigir neste segundo título. Novos conjuntos de armamento e roupa e a possibilidade de incorporar até seis jogadores humanos numa campanha foram apenas duas das mudanças para melhor efectuadas na sequela, e que – aliadas a todos os aspectos já apreciados do original – proporcionavam aos fãs do género uma experiência, à época, inigualável, tornando 'Baldur's Gate II' num sucesso ainda mais retumbante do que o original e fazendo com que entrasse directamente para a lista dos melhores videojogos de todos os tempos, onde ainda hoje retém lugar cativo.


Assim, também foi sem surpresa que os fãs da série viram ser, também, lançada uma expansão para este segundo título ('Throne of Bhaal', saída em Junho de 2001, e que trazia uma área adicional e novos níveis máximos de experiência, que podiam agora chegar aos quarenta) bem como mais uma novelização oficial, com a continuação da saga iniciada no primeiro volume. Em anos subsequentes, novos títulos haviam, ainda, de manter a franquia em alta, embora agora sob a tutela de estúdios externos, e com a designação oficial de 'spin-off'.


A linha temporal oficial apenas seria, pois, retomada já depois de lançadas edições comemorativas dos dois primeiros títulos, bem como uma nova expansão, 'Siege of Dragonspear', que trazia o primeiro conteúdo inédito da franquia principal em mais de dez anos. Apesar da demora de mais de vinte anos, no entanto, o lançamento de 'Baldur's Gate III', já na década de 2020 (concretamente em 2023) causou um 'abalo' no panorama actual dos videojogos comparável ao que haviam gerado os seus antecessores, tornando-se imediatamente um dos títulos mais jogados e debatidos do ano, e assumindo a vanguarda dos jogos RPG modernos, ao lado de 'Elden Ring', Razão mais que suficiente, portanto, para celebrarmos as suas duas sequelas, no momento em que a mais famosa e elogiada das duas completa um exacto quarto de século sobre o seu surgimento nos escaparates europeus.

Tuesday, 30 September 2025

Segundas de Séries: As 'Aparências' Iludem...

NOTA: Este 'post' é respeitante a Segunda-feira, 29 de Setembro de 2025.


Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


As adaptações localizadas para formatos bem-sucedidos no estrangeiro não são nada de novo, tendo sido uma fórmula adoptada pelos países mais periféricos desde os primórdios dos 'mass media'. Portugal não foi, de todo, excepção a esta regra, antes pelo contrário – são inúmeros os exemplos desta prática ao longo dos anos, sobretudo no espectro televisivo, onde os produtos deste tipo se dividem entre adaptações declaradas e o mais literais possíveis, e conceitos simplesmente inspirados por outros criados 'lá por fora'. A série que abordamos neste 'post', e sobre a estreia da qual se assinalaram este mês os exactos vinte e cinco anos, insere-se na primeira categoria, 'copiando' fielmente um formato britânico e aplicando-lhe uma 'demão' de 'verniz nacional', para mais facilmente captar e cativar o seu público-alvo. O resultado é uma série que, apesar de ficar bem aquém do sucesso do original, merece ainda assim ser relembrada por ocasião do seu quarto de século.


download.jpg


Estreada a 7 de Setembro de 2000, na SIC (à época a principal veiculadora de 'sitcoms' nacionais) 'Cuidado Com As Aparências' é uma adaptação da série do mesmo nome produzida pela BBC em inícios dos anos 90, e cujo título original era 'Keeping Up Appearances'. Londres dá lugar a Lisboa, Hyacinth Bucket torna-se Jacinta Bimbó, mas tanto o conceito (uma mulher de classe baixa com pretensões à 'subida' social) como muitas das situações são transferidas directamente do original britânico – o que não é de estranhar, já que a maioria das mesmas era relativamente universal, sem grande 'carga' social específica do Reino Unido, e, como tal, fácil de adaptar a uma realidade tão diferente (mas também tão semelhante) como era a portuguesa.


A dar a cara e o corpo às 'aportuguesadas' aventuras de Jacinta e da sua família declaradamente e orgulhosamente popular estavam um conjunto de actores bem habituados às lides da comédia, e capazes de fazerem até as situações mais caricatas ressoar junto do público-alvo. Catarina Avelar (que vivia Jacinta), Helena Isabel, Lídia Franco, Margarida Carpinteiro ou Vítor de Sousa eram apenas alguns dos nomes num elenco fixo cujo talento era inversamente proporcional ao seu tamanho, e que era capaz, por si mesmo, de justificar a sintonização da série – como, aliás, sucedia com a maioria dos projectos em que se envolviam.


Infelizmente, conforme mencionado nas linhas iniciais deste texto, a versão portuguesa de 'Cuidado Com As Aparências' não logrou o mesmo sucesso da original, dando origem a apenas duas temporadas (por oposição às cinco da série da BBC) e encontrando-se hoje largamente esquecida pelo público telespectador da época. Ainda assim, a mesma não deixa de ser um exemplo relativamente bem conseguido – e absolutamente típico – de 'sitcom' portuguesa do período em causa, fazendo por merecer ser revisitada por fãs deste tipo de programa, no mês em que se celebram os vinte e cinco anos da sua primeira 'ida ao ar.'


Monday, 29 September 2025

Domingo Desportivo: Promessas Adiadas - Porfírio, ou, As Aventuras de Um 'Viajante Azarado'

NOTA: Este 'post' é respeitante a Domingo, 28 de Setembro de 2025.


Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Um dos maiores axiomas do senso comum futebolístico é que a maioria dos jovens com potencial formados em grandes clubes 'ficam pelo caminho', acabando por fazer carreira em emblemas mais pequenos, muitas vezes como peças destacadas dos mesmos. E apesar de este fenómeno ser, hoje em dia, prevalente ao ponto de constituir a norma, tal não significa que, em outros períodos da História do desporto-rei, tal não fosse também o paradigma; antes pelo contrário, o século XX viu um sem-número de jovens jogadores falharem na sua tentativa de singrar profissionalmente num 'grande', apesar do talento nítido e óbvio. Portugal não foi, de todo, excepção a esta regra, tendo oferecido ao mundo futebolístico de finais do Segundo Milénio um verdadeiro 'ror' de 'promessas adiadas', que tardavam ou falhavam em evidenciar o seu potencial. É, precisamente, sobre um desses jogadores que nos debruçamos neste 'post', por ocasião do seu quinquagésimo-primeiro aniversário – um futebolista que foi internacional português, jogou por Sporting e Benfica, foi feliz em Inglaterra, mas não deixou, ainda assim, de passar ao lado de uma carreira ao nível do seu talento.


17856_20210424173650_hugo_porfirio.png


Com a camisola do Benfica.


Nascido em Lisboa e formado nas escolas do Sporting (já então um viveiro de jovens talentos, mesmo uma década antes de construída a sua famosa Academia), Hugo Cardoso Porfírio destacou-se o suficiente para ser promovido à equipa principal dos 'Leões' no seu primeiro ano de sénior, em 1992, reencontrando assim o colega de equipa dos Juniores, Emílio Peixe. Ao contrário deste, no entanto, Porfírio não singraria de leão ao peito, realizando apenas uma dúzia de partidas com a 'Listrada' ao longo de duas épocas antes de, em 1994, se ver sem espaço no plantel e com viagem marcada para um clube mais pequeno – ou, no caso, três.


hugo-porfrio-863087bf-4f14-4260-a4c2-a8c8214875d-r


Porfírio no Sporting.


De facto, entre as temporadas de 1994-95 e 1996-97, o extremo rumaria primeiro a Santo Tirso, depois a Leiria, e por fim, inesperadamente, a Londres, Inglaterra, onde representaria o West Ham. Apesar da escala marcadamente distinta dos três empréstimos, em nenhum deles Porfírio 'fez feio', tendo realizado épocas de excelente nível, e sido presença regular nos jogos de todos os emblemas que representou durante este período – feito que lhe valeu a presença na equipa que representava Portugal no Euro '96, no decurso do qual fez a sua estreia como Internacional A (antes, havia sido presença assídua nas Selecções jovens, tendo disputado os Campeonatos Europeus de sub-16 em 1990 e sub-18 em 1992, e o Mundial de sub-20 em 1993) jogando quinze minutos da partida contra a Turquia, e seguindo depois viagem para os Jogos Olímpicos de Atlanta.


download (1).jpg


954375_med_.jpg.jpg


Em acção pelo Tirsense, e no seu único jogo no Euro '96.


As boas indicações deixadas ao longo daqueles três anos não foram, no entanto, suficientes para garantir a Porfírio um lugar no plantel principal do Sporting, que o dispensava no Verão de 1997. O extremo via-se, assim, obrigado a abraçar novos desafios, acabando por rumar a Espanha, para representar o Racing Santander. Ao contrário da primeira experiência internacional, no entanto, esta segunda 'aventura' pelo exterior não lhe correria de feição, levando a que, apenas um ano depois – e com o Racing Santander já despromovido da La Liga – caísse a 'bomba': Porfírio, o antigo 'leão', assinava contrato com o grande rival da Segunda Circular, passando assim a fazer parte do grupo dos 'vira-casacas', isto é, jogadores que representaram dois clubes grandes em Portugal. Ainda assim, durante este período, conseguiria ainda a sua terceira e última internacionalização pela Selecção Nacional, participando no jogo contra a Ucrânia, a contar para a fase de qualificação para o Mundial de França '98.


download (2).jpgimages (5).jpgdownload (3).jpg


As aventuras internacionais no West Ham, Racing Santander e Nottingham Forest.


Ao contrário de 'companheiros' ilustres como Yuran, João Vieira Pinto, Simão Sabrosa, Ricardo Quaresma ou Mário Jardel (entre outros) Porfírio não viria, no entanto, a relançar a carreira no rival do seu clube de origem; antes pelo contrário, seria ainda menos utilizado do que havia sido no Sporting, totalizando metade das exibições que fizera pelo clube de Alvalade ao longo de duas épocas, e vindo a ser emprestado ao Nottingham Forest, onde passaria também despercebido, antes de se desvincular do clube das Águias, alegando salários em atraso, e se 'mudar' para as ilhas, para representar o Marítimo. Não tardaria mais que uma época, no entanto, até regressar à Luz, para mais três temporadas anónimas, a maioria das quais passada na equipa B. O outrora promissor extremo entrava assim, oficialmente, no ocaso de uma carreira que o veria ainda passar por clubes semi-amadores da zona da Grande Lisboa antes de rumar às Arábias (então ainda longe do estatuto desejável que possuem hoje) para pendurar definitivamente as botas ao serviço do Al-Nassr, hoje conhecido como o clube de Cristiano Ronaldo, mas, à época, um emblema perfeitamente desconhecido para a maioria dos adeptos europeus.


Consumava-se, assim, o estatuto de 'promessa (eternamente) adiada' de um jogador cuja 'sorte' e oportunidades estiveram sempre algo aquém do talento que exibia nos pés (mesmo numa era que favorecia os 'baixinhos' com 'magia', como ele), e que será sempre lembrado como um dos grandes 'e se...?' do futebol português moderno – estatuto que lhe vale, agora, a presença nestas páginas, à laia de 'prenda de anos'. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Sunday, 28 September 2025

Sextas com Style/Saídas ao Sábado: As 'Rivais' da Moda Masculina em Portugal

NOTA: Este 'post' é parcialmente respeitante a Sexta-feira, 12 de Setembro de 2025.


Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Apesar de o foco deste 'blog' serem as memórias de juventude, e os locais, produtos e acontecimentos de maior interesse para quem era menor de idade em finais do século XX, tal não significa que descuremos produtos ou serviços surgidos durante essa década e destinados a um público-alvo mais velho – até porque alguns deles lograram manter-se activos tempo suficiente para serem úteis àqueles mesmos 'X' e 'Milllennials' já depois de adultos. É, precisamente, o caso das duas companhias de que falamos neste 'post', as quais se degladiam há já mais de três décadas pela clientela masculina profissional ou de meia-idade, em detrimento de qualquer outra demografia.


Massimo_Dutti.png


block1_48.jpg


Referimo-nos, claro está, à Massimo Dutti e à Giovanni Galli, duas rivais ibéricas com nome italiano (ou não continuasse a ser esse o país estereotipadamente conotado com a moda) que desde inícios dos anos 90 travam uma batalha comercial, sem que, até hoje, qualquer delas tenha conseguido provar definitivamente a superioridade do seu país de origem – o que acaba por ser lisonjeiro para a nacional Giovanni Galli, que se opõe de forma independente àquela que é apenas mais uma 'face' do gigantesco Grupo Inditex, também 'dono' da Zara, Pull & Bear e Bershka, entre outras marcas. No entanto, a Massimo Dutti tem a seu favor o facto de possuir também, desde há já trinta anos, uma linha feminina e ainda outra, mais recente, de criança - embora ambas tenham destaque quase nulo num catálogo que continua a ter o público masculino como principal alvo. Ainda assim, este acaba mesmo por ser um factor vantajoso para a empresa espanhola relativamente à rival nacional, cujo foco continua a ser exclusivamente a roupa de homem.


Apesar destes pontos vantajosos, no entanto (e dos preços algo mais acessíveis) a Massimo Dutti perde, aos olhos do público nacional, em dois aspectos: por um lado, a conotação com o 'fast fashion', que faz com que as suas roupas sejam vistas como mais descartáveis e de menor qualidade, e, por outro, o facto de muitos artigos da Giovanni Galli continuarem a ser produzidos em solo nacional, estando as origens da companhia profundamente ligadas à reputada indústria têxtil do Norte de Portugal, uma ligação que a marca faz questão de manter, e que constitui um trunfo importante junto da demografia que a mesma visa captar, e que talvez se sinta algo 'acima' de uma marca 'de centro comercial' como a Massimo Dutti. A contrapartida, claro está, passa pela necessidade de realizar maiores volumes de negócio para conseguir ter lucro, um paradigma que tem, recentemente, 'vitimado' algumas das mais de três dezenas de lojas da empresa em Portugal.


Mau-grado este revés para a marca nacional, no entanto, tudo leva a crer que a rivalidade a dois no seio do mercado de roupa masculina 'elegante' se mantenha ainda em anos vindouros, pelo menos num futuro próximo. Se a mesma terá ou não alguma vez uma vencedora declarada é algo que apenas se poderá saber paulatinamente; nos entrementes, quem favorece um estilo 'smart casual' ou 'business casual' continua a ter duas opções bem distintas onde adquirir roupa de qualidade e com bom corte a preços acessíveis, ambas as quais, curiosamente, teriam também sido alternativa para os seus pais, três décadas antes - uma situação que diz muito da força e posicionamento no mercado de ambas as marcas, e que lhes vale este 'post' tanto duplo como partilhado.

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...