Friday, 1 November 2024

Quartas de Quase Tudo: Os 'Grandes Atlas' da Editora Civilização

NOTA: Este 'post' é respeitante a Quarta-feira, 30 de Outubro de 2024.


Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Os anos 90 ficaram, em Portugal, parcialmente marcados por uma alteração das atitudes dos jovens relativamente ao conhecimento. Embora houvesse ainda muitas crianças e adolescentes com renitência em aprender – postura a que não ajudava a forma burocrática e aborrecida como muitas escolas nacionais veiculavam conhecimentos – uma parcela crescente da referida demografia encontrava, gradualmente, assuntos de interesse que os motivavam a aprofundar a sabedoria; e, felizmente para esses 'exploradores do conhecimento', não faltavam no mercado editorial português materiais e recursos didácticos de qualidade. É o caso da colecção que abordamos esta Quarta-feira, a qual, depois de ter gozado de enorme sucesso a nível internacional, chegava a Portugal algures nos anos 90, pela mão da Editora Civilização.


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Dois dos mais populares títulos da colecção.


Falamos dos diversos 'Atlas' direccionados ao público infanto-juvenil, e que conseguiam, desde logo, captar a atenção do mesmo com as suas temáticas, invariavelmente fascinantes para a demografia em causa. Dos dinossauros (inevitáveis naquele período de 'dinomania' pós-'Parque Jurássico') ao espaço ou aos oceanos, eram diversos os assuntos explorados em cada 'Atlas', sempre com recurso a textos simples e minimalistas, mas ainda assim informativos, e a imagens ou fotografias hiper-detalhadas, que constituíam o principal ponto de interesse de cada livro, e eram, só por si, suficientes para fazer dos mesmos uma prenda apreciada nos anos ou Natal, e para lhes garantir um lugar proeminente na estante do quarto.


Tão elevada era a qualidade destes livros, aliás, que os mesmos continuam, ainda hoje, em circulação nas livrarias portuguesas, embora com as inevitáveis mudanças e actualizações gráficas, a fim de os tornar mais apelativos às crianças de hoje. E se o seu valor relativo é, nos dias que correm, algo discutível – já que os mesmos não oferecem, actualmente, qualquer vantagem relativamente a uma rápida consulta a um 'website' ou motor de pesquisa – a verdade é que as temáticas abordadas continuam a ser tão relevantes quanto fascinantes para a demografia-alvo, e que os livros em si continuam a possuir inegável apelo visual, tanto a nível do formato (um A3 perfeitamente 'gigantesco' para mãos pequenas) como dos próprios conteúdos, fazendo deles – hoje, como há trinta anos – uma boa proposta para a estante de qualquer jovem lusitano.

Tuesday, 29 October 2024

Terças de TV: O 'Segundo Amor' de Marco Paulo

Porque nem só de séries se fazia o quotidiano televisivo das crianças portuguesas nos anos 90, em terças alternadas, este blog dá destaque a alguns dos outros programas que fizeram história durante aquela década.


Na breve elegia a Marco Paulo com que ocupámos o nosso 'post' anterior, fizemos fugazmente menção à carreira televisiva do cantor, que se soube reinventar como apresentador durante a década de 90; nada mais justo, pois, do que utilizarmos este espaço dedicado à TV portuguesa do referido período para explorar mais a fundo os dois programas que o ícone da música romântica apresentou na sua primeira passagem pelos ecrãs nacionais.


A primeira dessas duas emissões, que comemorou no passado mês de Abril trinta anos sobre a sua estreia, levava o título do maior êxito de sempre do cantor, utilizando-o como trocadilho inteligente com o recém-encontrado 'segundo amor' de Marco Paulo, a televisão. Nas palavras do próprio, 'Eu Tenho Dois Amores' procurava ser um programa de índole pessoal, cujo intuito passava, parcialmente, por permitir aos fãs do cantor descobrir detalhes sobre a sua carreira, podendo as questões ser enviadas por carta para serem lidas e respondidas em directo; além deste aspecto, o programa propunha também uma vertente de 'talk-show' mais tradicional, com convidados ligados ao entretenimento, com quem Marco Paulo trocava impressões, e números musicais. O sucesso foi imediato e retumbante, tendo a presença e carisma de Marco Paulo tornado o programa num sucesso de audiências, que logrou aproximar-se da centena de episódios ao longo de mais de um ano de transmissão semanal.



O sucesso desta primeira tentativa motivou uma segnnda, meros meses após o fim de 'Eu Tenho Dois Amores', e agora com um foco mais declarado na divulgação de números musicais, como indicava o próprio título, 'Com Música no Coração'. De facto, neste segundo programa, Marco Paulo retirava-se voluntariamente da ribalta, deixando o (literal) palco para os artistas convidados de cada programa poderem divulgar o seu trabalho, e ressurgindo apenas no final de cada música, para uma breve entrevista aos mesmos. Uma iniciativa louvável em prol da música popular portuguesa, ainda que focada apenas na de cariz mais popular – algo natural, tendo em conta o 'ideólogo' (ou, pelo menos, 'cara') do projecto – que conseguiu também algum sucesso, embora não tanto quanto o seu antecessor, mais centrado na personalidade forte e afável do cantor tornado apresentador.




Primeiro e último episódios do programa em causa.


E ainda que o fim de 'Com Música no Coração' assinalasse a 'retirada' de Marco Paulo dos ecrãs portugueses, o 'bichinho' da apresentação televisiva nunca deixaria o cantor, que acabaria mesmo por regressar à RTP uma terceira vez, mais de um quarto de século após a sua última transmissão, para um novo programa ao lado da popular humorista Ana Marques. Tal como os seus antecessores, 'Alô Marco Paulo' revelar-se-ia um sucesso, ficando no ar mais de três anos, e sendo apenas interrompido pelo agravamento do estado de saúde do cantor, que ainda assim compareceu semanalmente até meros meses antes da sua morte. Na 'hora' da despedida, fica a ideia de um artista multi-talentoso e multi-facetado, que conseguiu a proeza de ter tanto sucesso com o seu 'segundo amor' como com o primeiro, e cujo falecimento deixa na televisão portuguesa um 'buraco' apenas marginalmente menor do que o que criou no meio musical.

Monday, 28 October 2024

Segundas de Sucessos: Em Memória de Marco Paulo (1945-2024), a 'Voz' do Romance em Portugal

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


Mesmo antes de ganhar a definição oficial de 'pimba', a música popular de cariz romântico era já uma das forças mais dominantes e dominadoras na cena cultural e artística portuguesa, sendo responsável pela criação de inúmeros êxitos e vendas de discos em volumes totalmente impensáveis para a maioria dos outros géneros, alicerçadas, sobretudo, em torno de três nomes: por um lado, Ágata, e, por outro, Roberto Leal e o homem a quem dedicamos este 'post', que acaba de nos deixar aos setenta e oito anos, tendo falecido no final da semana passada (concretamente na Quinta-feira, 24 de Outubro), vítima de cancro no fígado. Falamos de João Simão da Silva, alentejano (de Évora) mais conhecido nos palcos e ondas de rádio nacionais pelo seu nome artístico, Marco Paulo.


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Marco Paulo nos anos 90.


Tendo iniciado carreira ainda novo (em 1966, aos vinte e um anos), o cantor romântico português por excelência conseguiu a proeza de atravessar nada menos do que sete décadas musicais, sem nunca perder a relevância ou o reconhecimento dentro do seu género, e sabendo sempre reinventar-se, mesmo após os maiores dissabores e contrariedades; e apesar de o seu período áureo se ter dado na década anterior à que este blog visa relembrar, à entrada para a mesma, Marco Paulo era ainda um nome omnipresente na cultura popular portuguesa, continuando os seus maiores êxitos a ter alta rotação num certo sector radiofónico, e a serem instantaneamente reconhecíveis até mesmo para as demografias mais jovens. Ao invés de se 'sentar em cima dos louros', no entanto, o cantor continuava a trabalhar incansavelmente, juntando várias novas músicas à sua lista de êxitos (algumas das quais tiveram a distinção de ser parodiadas por Herman José, como Tony Silva, em programas como 'Hermanias') e descobrindo uma nova vocação como apresentador de televisão, com passagens bem sucedidas pela grelha da RTP em 1994 e 1996.


Quando tudo parecia correr pelo melhor, no entanto, surge o primeiro susto, com uma operação para remover um tumor no cólon, em Junho de 1996. Marco recupera, e prossegue a carreira de vento em popa, continuando a marcar presença em feiras, romarias e programas da manhã e de férias até ao dealbar da presente década, altura em que havia já celebrado os cinquenta anos de carreira. É nesse período que lhe é descoberto novo cancro, agora na mama (caso raríssimo em homens), que o cantor novamente debela. Três anos depois, contra todas as probabilidades, Marco recebe novo diagnóstico de cancro, agora no pulmão...e torna a sobreviver, retomando a sua posição ao lado de Ana Marques no programa, 'Alõ Marco Paulo', o qual apresentava ainda em Julho de 2024, antes de a sua saúde se deteriorar em virtude de novo tumor, este no fígado. E se o cantor lograra contrariar o ditado que diz que 'à terceira é de vez', o facto é que este quarto tumor se revelou demasiado agressivo para o fragilizado corpo do cantor, que acabaria mesmo por sucumbir ao seu 'velho inimigo', deixando mais pobre a cena musical de cariz popular e romântico, e de luto grande parte da população portuguesa, para quem já 'fazia parte do cenário', quer através das suas canções, quer da presença nos seus ecrãs de televisão. Que descanse em paz.

Saturday, 26 October 2024

Sábados aos Saltos/Domingos Divertidos: Os Carrinhos Com Actividades Para Bebés - Uma Experiência Lúdica Completa Para Os Mais Pequenos

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


Ser criança é gostar de se divertir, e por isso, em Domingos alternados, o Anos 90 relembra algumas das diversões que não cabem em qualquer outra rubrica deste blog.


A maioria dos brinquedos, jogos e produtos de que falamos nestas páginas, e nestas secções em particular, tinham ou têm como destinatário um público infanto-juvenil, já na plena posse das suas faculdades; tal não significa, no entanto, que os anos 80, 90 e 2000 portugueses não proporcionassem, também, inúmeras formas de crianças mais pequenas, e até bebés, conseguirem passar um Sábado aos Saltos seguido de um Domingo Divertido. O brinquedo que abordamos em mais um 'post' duplo do Anos 90 insere-se, precisamente, nessa categoria, conseguindo estimular, de uma só vez, as faculdades motoras, intelectuais e sensoriais da criança.


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Um dos poucos exemplos actuais deste tipo de brinquedo.


Falamos dos clássicos carrinhos de empurrar com os pés, tão icónicos das primeiras etapas de desenvolvimento das crianças quanto os cavalinhos de baloiço ou triciclos, e que, nos anos 90, se viram 'incrementados' de uma série de ferramentas educativas adicionais, que os tornavam, efectivamente, em 'híbridos dois-em-um'; por um lado, veículos de deslocação e, por outros, superfícies interactivas para quando as 'pilhas' se esgotassem e apetecesse ao bebé algo mais calmo. Isto porque as actividades adicionadas a estes carrinhos iam desde botões e buzinas para apertar a fim de produzir sons, até 'roletas' ou discos com imagens – uma espécie de 'slot-machines' inofensivas, em que os símbolos eram substituídos por animais – ou mesmo superfícies irregulares, cujo único objectivo era mesmo a descoberta através do toque, proporcionando assim uma experiência completa que ajudava a fomentar o desenvolvimento do bebé através da diversão.


Tal como muitos outros produtos abordados nestas páginas, também estes carrinhos acabaram, inevitavelmente, por sofrer uma mutação – curiosamente, no sentido inverso ao habitual, tendo-se novamente tornado mais simples e padronizados. Quem teve a sorte de crescer no breve período em que estes brinquedos tiveram 'funcionalidades extra', no entanto, sabe o quão divertidas as mesmas podiam ser – senão em primeira mão, pelo menos através da observação dos irmãos ou parentes mais novos – e desejará, certamente, que este tipo de carrinho voltasse a estar disponível, para que a geração actualmente na primeira infância (muitos dos quais filhos, precisamente, desses 'millennials') pudesse também passar muitos Sábados aos Saltos e Domingos Divertidos a brincar com um deles...

Thursday, 24 October 2024

Quintas no Quiosque / Sessão de Sexta: Os 'Filmes de Quiosque' - 'Embustes' Irresistíveis

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


O advento do 'streaming', através de plataformas como a Netflix, Disney+ ou o próprio YouTube, entre outras, veio colocar nas pontas dos dedos dos assinantes destes serviços toda uma gama de conteúdos outrora apenas acessíveis com considerável esforço e dispêndio de dinheiro. É, por exemplo, possível ver nestas plataformas várias séries completas de Power Rangers e South Park (na Netflix), os velhos desenhos animados do icónico Clube Disney (no Disney+) ou mesmo todos os episódios do não menos lendário Bocas, que alguém fez o favor de reunir numa única playlist no YouTube, à guisa de 'serviço público' para nostálgicos perto da meia-idade.


Toda esta 'bonança' quase faz esquecer que, há meros vinte anos, quem quisesse desfrutar dos programas anteriormente listados era obrigado a fazê-lo em grupos de três a cinco episódios, editados de forma espaçada, com capas duvidosas, e sem haver qualquer certeza de a totalidade da série alguma vez vir a ser lançada. Quase todas as principais franquias de interesse para os jovens eram alvo deste tratamento – de Dragon Ball Z a Power Rangers, Tartarugas Ninja, Zorro, Looney Tunes e mesmo séries mais antigas como o supramencionado Bocas ou as histórias do Panda Tao-Tao – e a grande maioria delas acabava, inevitavelmente, colada a uma cartolina e pendurada da 'janela' de um qualquer quiosque ou tabacaria de bairro.


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Exemplo de um lançamento que poderia perfeitamente ser avistado num quiosque noventista.


Falamos, claro, dos famosos 'vídeos de quiosque', lançamentos que, embora oficiais, não chegavam às prateleiras das grandes superfícies, por uma razão ou outra – normalmente, por se tratarem de produtos de baixíssimo orçamento, com grafismo e materiais pouco cuidados, em que as capas faziam, invariavelmente, lembrar as versões 'caseiras' de personagens famosos normalmente reservadas para a decoração de carrinhas de gelados ou diversões de feira, os erros de ortografia e incorrecções quanto aos enredos não eram, de todo, infrequentes, e, os conteúdos eram quase sempre desenhos animados de domínio público, muitas vezes sem qualquer tratamento de som ou imagem em relação aos originais dos anos 30 ou 40. Alternativamente, poderiam tratar-se de lançamentos episódicos, como os acima mencionados, caso em que a ideia era forçar o consumidor a uma compra habitual, à semelhança do que sucedia com as colecções de fascículos, também muito populares na altura. Ainda uma terceira vertente trazia lançamentos 'honestos' que, por qualquer motivo, haviam apenas escolhido uma forma alternativa e independente de chegar ao grande público, como era o caso de alguns 'impostores animados' da GoodTimes ou Classic Animations.


Fosse qual fosse o contexto por detrás destes lançamentos, no entanto, a verdade é que os mesmos se afirmavam irresistíveis, quanto mais não fosse para descobrir o que se escondia por detrás das capas mal-amanhadas, e até que ponto iria o 'embuste' – paradigma que, aliás, se manteve com a transição do VHS para o DVD como formato dominante. Escusado será dizer, no entanto, que a 'Internet das Coisas' veio acabar com tão obsoleta práctica – o que, por um lado, é positivo (permitindo o acesso fácil e imediato a grande parte da infância e juventude) mas, por outro lado, veio acabar com essa sensação de mistério, e com o 'gozo' de imaginar (e, potencialmente, descobrir) o que conteria aquela cassette avistada durante uma Quinta no Quiosque, e prontamente trazida para casa para ser vista numa Sessão de Sexta em família...

Wednesday, 23 October 2024

Quartas aos Quadradinhos: 'Maus' - O Epítome de 'As Aparências Iludem'

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


De entre as inúmeras máximas populares da língua portuguesa (e não só), 'as aparências iludem' ou 'nem tudo o que parece, é' são duas das que mais frequentemente se demonstram correctas, em todos os aspectos da vida quotidiana, incluindo no tocante à produção criativa e artística. Algo que, à primeira vista, parece inocente ou inofensivo pode, de facto, ser significativamente diferente do que aparenta, sem que tal se torne evidente até depois de o 'mal' já estar feito. O panorama mediático português dos anos 80, 90 e 2000, por exemplo, esteve repleto de exemplos deste paradigma, sendo sobretudo graças ao mesmo que os jovens da época puderam ter contacto com produtos que tinham toda a aparência de lhes serem dirigidos, mas que, de facto, se destinavam a um público decididamente adulto - subterfúgio esse que permitiu a muitas crianças e adolescentes ficar a conhecer séries como 'Os Simpsons' ou 'South Park', e bandas desenhadas como 'Condorito' (uma BD estilo 'brejeiro' importada da América do Sul) ou aquela de que falamos neste 'post', e que, ao contrário dos restantes exemplos, nada tem de divertido, devendo mesmo ter traumatizado a sua quota-parte de jovens à época de lançamento.


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Isto porque 'Maus', de Art Spiegelman (produzido em duas partes entre 1986 e 1991, e lançado em Portugal pouco depois, já com honras de vencedor do Pulitzer) utiliza a imagética tipicamente infantil de canídeos, felinos e roedores antropomórficos – estes últimos os 'Ratos' do título, que nada tem a ver com malfeitores, e reflecte apenas a palavra alemã para designar essa espécie animal – para abordar os horrores do Holocausto em primeira pessoa, através de declarações do próprio pai de Spiegelman, sobrevivente dos campos de concentração da II Guerra Mundial. Os judeus são, assim, transformados em ratos, os Nazis (inevitavelmente) em gatos e os americanos em cães, com a parcela não-judaica da população polaca a ser retratada, pouco honrosamente, como integrante da raça suína. Com estes elementos alegóricos se desenrola, então, uma narrativa que tem tanto de realista quanto o cenário tem de absurdista, numa dicotomia que poderá bem ter deixado os leitores mais incautos (e mais novos), que esperavam uma 'história de ratinhos', com os cabelos em pé. Quem sabia, de antemão, ao que ia não terá, no entanto, deixado de apreciar a mestria com que esse recurso é aplicado à narrativa, a qual valeu ao livro o bem merecido prémio de literatura.


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O impacto de 'Maus' não diminuiu, aliás, com a passagem do tempo. Ao contrário da maioria das obras que aqui abordamos, a duologia de Spiegelman continua não só disponível como presente na memória cultural portuguesa, tendo inclusivamente sido re-traduzida e condensada num só volume, formato no qual se encontra actualmente à venda. Oportunidade perfeita, pois, para quem leu à época apresentar à nova geração esta magnífica obra – desta vez, de preferência, com pré-aviso quanto à natureza da mesma, para evitar os equívocos e potenciais traumas derivados da sua própria abordagem ao trabalho...

Terças Tecnológicas: 'Grand Theft Auto' e 'Grand Theft Auto 2' - Feios, Porcos, Maus e Icónicos

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Os anos 90 ficaram conhecidos entre os adeptos dos videojogos como a época da grande 'declaração de guerra' aos mesmos. A combinação de gráficos mais realistas com a habitual ênfase na acção levou a que títulos como 'Wolfenstein 3D', 'Doom', 'Postal', 'Duke Nukem 3D', 'Quake', 'Unreal' ou 'Carmageddon' fossem 'demonizados' a um nível que os 'gamers' mais novos dificilmente poderão compreender, mesmo tendo eles próprios a sua 'dose' de controvérsias, relativas a séries como 'Call of Duty'. A verdade é que, para bem ou para mal, a maioria dos jogos mais violentos e controversos foram, hoje, 'assimilados' pela cultura 'pop', já não suscitando os 'escândalos' de outrora; e não há, talvez, melhor exemplo disto mesmo do que uma franquia originada, precisamente, nos anos 90, e que vem desde então resistindo a tudo e todos, qual 'Astérix dos videojogos', e adquirindo uma base de fãs cada vez maior. Nada mais apropriado, portanto, do que 'dar as flores' a esta série, no exacto dia em que a segunda parte da mesma (e última lançada nos anos 90) completa vinte e cinco anos de existência.


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Falamos, claro, de 'Grand Theft Auto', ou apenas 'GTA', o mítico título lançado em 1997 para PC e PlayStation que catapultou a Rockstar Games para o estrelato, e que ousou levar o conceito estabelecido por 'Carmageddon' ao seu expoente máximo, tornando-se assim 'alvo fácil' para pais, educadores, comentadores mediáticos, membros do clero e restantes frentes conservadoras. E a verdade é que, tal como sucedia com o seu 'antecessor espiritual', este jogo constituía um dos casos em que a indignação até tinha razão de ser, já que 'GTA' era declaradamente e abertamente 'feio, porco e mau', glorificando actividades criminosas e proporcionando momentos de violência perfeitamente desnecessária (embora deliciosa) sob a forma de atropelamentos apropriadamente sangrentos (neste particular, destacava-se a 'matança', logo nos primeiros instantes do jogo, de uma fila de transeuntes, que alguns diziam serem escuteiros e outros monges 'Hare Krishna', duas opções igualmente chocantes pela sua inocência). Mais à frente, era também possível abater civis a tiro, embora esta acção não deixasse, inevitavelmente, de atrair a atenção da polícia, que era depois necessário despistar, ou simplesmente matar. Em suma, uma 'orgia' de mau gosto que nem a perspectiva 'de cima para baixo' – tecnicamente menos detalhada que o 3D de 'Carmageddon' ou a isometria de 'Postal' – ajudava a suavizar. Junte-se a isto uma banda sonora que mudava conforme o carro que se ocupava – de modo a simular uma verdadeira banda de rádio FM – e estava dado o mote para uma franquia absolutamente icónica, que definiria o panorama dos videojogos durante as duas décadas seguintes.


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Escusado será dizer que o sucesso foi imediato, não tardando o jogo a ser motivo de debate em qualquer pátio de escola secundária português (e não só). Todos queriam obter e experimentar o novo jogo ultra-chocante – por meios mais ou menos legais – e 'GTA' não tardou a 'residir' em inúmeros computadores pessoais de Norte a Sul do País. 'Do dia para a noite', a até então desconhecida Rockstar tornava-se nome de referência no meio dos videojogos, e não tardou muito mais até que a gama 'GTA' se expandisse com um novo pacote de missões, 'Grand Theft Auto: London 1969', que propunha assaltos a carros na capital inglesa durante o icónico período de transição entre as décadas de 60 e 70. A necessidade de ter o jogo original, pelo menos, instalado em nada travou a expansão desta, bem, expansão, que cedo passou a 'morar' nos mesmos discos rígidos do título de raiz, proporcionando mais uma série de horas de diversão aos fãs do 'Grande Furto Automóvel'.


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Foi, assim, com naturalidade que os mesmos viram ser lançada, já nos últimos meses do século XX, uma sequela. Singelamente intitulada 'GTA 2', a segunda proposta da franquia era lançada na Europa a 22 de Outubro de 1999 (curiosamente, quatro dias antes de sair nos EUA, e exactamente no mesmo dia em que saía a versão do original para Game Boy Color) e inseria-se, assumidamente, no registo 'mais do mesmo, mas melhor'. Novas missões, mais carros, assaltantes rivais e um novo ambiente pseudo-futurista (além das habituais e expectáveis melhorias técnicas) marcavam esta sequela, que se destacava ainda pelo mini-filme de oito minutos, e com recurso a actores reais, que lhe servia de introdução. Mais uma vez, o sucesso foi instantâneo, e ainda que, hoje em dia, 'GTA 2' seja talvez o menos icónico e mais 'esquecido' de todos os títulos, o mesmo teve, à época, direito a conversões para Dreamcast e Game Boy Color, ambas surgidas já no ano 2000.


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Apesar da fórmula bem oleada, cimentada e bem-sucedida que estes dois títulos estabeleceriam, no entanto, a Rockstar recusou-se a sentar-se 'à sombra da bananeira'; antes pelo contrário,o título seguinte da série, de 2001, surgiria num registo substancialmente diferente, e conseguiria a proeza de ser ainda mais icónico que os seus antecessores, lançando as bases para toda uma nova era para a franquia 'Grand Theft Auto', a qual subsiste até aos dias de hoje. Numa altura em que muitos fãs crêem que a série terá começado com esse terceiro volume, no entanto, apenas fica bem recordar os dois 'pioneiros' que, apesar de menos evoluídos tecnicamente, enviaram 'ondas de choque' que atravessaram toda a sociedade ocidental de finais dos anos 90, e fizeram 'enlouquecer' os jovens das gerações 'X' e 'millennial' com as suas doses desabridas de violência, profanidade e 'factor de choque', transformando assim para sempre o panorama dos jogos de acção.

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...