Sunday, 3 September 2023

Domingo Desportivo: Caras (Des)conhecidas - Zahovic: de Guimarães Para o Mundo

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Cada janela de transferências do futebol português reserva, inevitavelmente, muitas surpresas, com toda e qualquer equipa – do maior 'grande' ao mais modesto clube distrital – a apresentar invariavelmente um sem-número de novas aquisições que, idealmente, os possam levar a um novo patamar de ambição. Destes novos nomes, a maioria acaba por se inserir em duas grandes categorias: os que convencem, conquistando um lugar no 'onze', e os que não se afirmam, rapidamente rumando a outras paragens. Dentro do primeiro grupo, no entanto, existe ainda uma sub-categoria de cariz extremamente selecto, na qual se inserem aqueles jogadores que demonstram ainda mais do que o já se lhes vaticinava, 'saltando' de equipas históricas mas mais modestas para a ribalta nacional e, muitas vezes, internacional.


Há exactos trinta anos, chegava a Portugal, pela mão do Vitória de Guimarães, um jogador destas características: um jovem médio jugoslavo de vinte e dois anos, que apesar de ainda jovem, trazia já créditos firmados em dois clubes da sua terra natal, entre eles o histórico Partizan, onde vinha sendo usado de forma tão intermitente como qualquer outro jovem da sua idade (trinta e sete jogos em três épocas, entre os dezoito e os vinte e dois anos) mas ainda assim impressionando com o seu inegável talento. O que os adeptos vimaranenses não podiam adivinhar era que o jogador que acabavam de apresentar se tornaria um dos grandes nomes do futebol nacional dos próximos quinze anos, durante os quais viria a conquistar quase todos os principais títulos do desporto-rei nacional. O seu nome? Zlatko Zahovic.


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Um jovem Zahovic ao serviço do Guimarães.


Sim, Zahovic, o histórico titular quase indiscutível do Porto penta-campeão, conhecido por assistir na perfeição para a cabeça de Jardel, e que mais tarde viria também a afirmar-se em outro 'grande' do futebol português, o Benfica, onde foi o 'dez' de serviço até se desentender com o treinador Giovanni Trapattoni e rescindir contrato, abandonando assim o campeonato que o vira florescer durante uma década e meia, após a sua chegada ao Norte de Portugal no mercado de Verão da época 1993-94.


E se a primeira experiência de um jovem jogador num país desconhecido pode, muitas vezes, ser inibidora ou intimidatória, tal não foi o caso para Zahovic, que começou de imediato a demonstrar a sua qualidade ao serviço dos vimaranenses, que ajudaria a qualificarem-se para a Taça UEFA em duas das suas três épocas, e onde 'cavaria' um lugar que não viria a perder até a sua saída para 'mais altos vôos', no Verão de 1996, um ano depois do ex-colega de equipa Pedro Barbosa ter rumado a Lisboa para representar o Sporting, e dois depois de Paulo Bento ter feito o mesmo caminho, rumo ao também futuro clube de Zahovic, o Benfica. No total, foram quase oito dezenas de jogos com a camisola alvinegra, durante os quais obteve treze tentos, o mais importante dos quais frente ao FC Porto, em 1995-96, garantindo a vitória dos vimaranenses em plenas Antas, por 2-3, e, ao mesmo tempo, um lugar para si mesmo no plantel dos 'Dragões' da época seguinte, numa daquelas 'novelas' de transferência ainda hoje tao comuns no futebol luso.


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No Porto, já com a icónica 'gadelha'.


O período seguinte da carreira do médio dispensa maiores análises – juntamente com Drulovic, Capucho e, claro, Mário Jardel, Zahovic formou uma frente de ataque temível para qualquer defesa adversária, e que levaria o clube portuense ao pentacampeonato, estabelecendo os 'azuis e brancos' como a principal equipa portuguesa da segunda metade dos anos 90. A nível pessoal, há que destacar a sua última época ao serviço dos 'Dragões', há exactos vinte e cinco anos, durante a qual almejou um recorde pessoal de golos, marcando vinte e dois no global das competições internas e sete na Liga dos Campeões, onde entrou no pódio dos melhores marcadores, atrás dos históricos Andriy Schevchenko, então no Dínamo de Kiev, e Dwight Yorke, avançado-centro da melhor equipa do futebol mundial noventista. Um feito notável a juntar a tantos outros que Zahovic já amealhara durante as três épocas transactas, e que lhe valeria, no último defeso de Verão do século XX, a transferência para o Olimpiacos, da Grécia, então considerado um 'grande' do futebol internacional.


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Com a camisola do Olimpiacos.


A experiência por terras helénicas não correria, no entanto, de feição a Zahovic, que alinharia menos de uma dezena e meia de vezes pelo seu novo clube na única época que ali realizou; ainda assim, o médio conseguiria uma média de um golo a cada duas aparições (num total de sete), fazendo 'corar' muitos avançados de raiz. Seguir-se-ia o Valência, onde as coisas correriam ligeiramente melhor ao agora esloveno, que amealharia vinte presenças pelos espanhóis, e contribuiria com três golos – um desempenho muito distante dos tempos de glória do jogador, apenas um par de anos antes, mas que se saldaria como honroso para um atleta que continuava a 'contar' ao mais alto nível do futebol mundial, não foram os desentendimentos constantes com o seu treinador, derivados da falta de utilização...


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No Valência, já no novo Milénio.


O verdadeiro renascer da carreira do médio deu-se, no entanto, mais uma vez em Portugal, agora mais a Sul, ao serviço de um dos 'grandes' lisboetas, o Benfica, onde ingressava em 2001. Pelas 'águias', Zahovic faria mais três épocas a grande nível, como parte importante dos excelentes plantéis dos 'encarnados' da época, que contavam com nomes como o do ex-colega no Porto, Drulovic, as 'lendas' benfiquista Mantorras e Nuno Gomes, Petit, Simão Sabrosa, Geovanni, Luisão ou o tragicamente malogrado Miklos Feher - que, numa coincidência trágica, viria a falecer, precisamente, no decurso de um jogo contra a equipa que revelara Zahovic.


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No Benfica, onde viria a terminar a carreira.


Tudo viria a mudar, no entanto, com a chegada do italiano Giovanni Trapattoni à Luz, que resultaria na perda de preponderância e subsequente descontentamento do médio; a chegada ao clube, no mercado de Janeiro, de Nuno Assis (jogador que ocupava a mesma posição de Zahovic) foi a 'gota de água', tendo o médio rescindido contrato com o Benfica ainda nesse mesmo mês, seis meses antes do término oficial do seu vínculo com as 'águias'. Aos trinta e quatro anos, Zahovic punha, aparentemente, fim a uma carreira que, sem atingir níveis 'galácticos', o tornava nome sonante no contexto da Liga Portuguesa, ao mesmo nível de um João Vieira Pinto, por exemplo.


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No papel de director desportivo do Maribor, da sua terra natal.


Não estava, no entanto, concluído o percurso do jogador oitenta vezes internacional pelo seu país, e cujas exibições no Euro 2000 suscitavam comparações a David Beckham; em 2007, Zahovic rejeitaria uma oferta por parte do seu ex-clube, o Benfica, para ser treinador dos Juniores, e regressaria ao seu país natal, onde ocuparia o cargo de director de futebol do NK Maribor, posição que viria a ocupar até 2020, ajudando o clube a conquistar oito títulos de campeão nacional esloveno e a conseguir a qualificação para duas Ligas dos Campeões e uma Taça UEFA, além de ajudar a revelar o próprio filho, o avançado Luka Zahovic, que viria, inclusivamente, a marcar ao Sporting no contexto das competições europeias.


Além deste cargo administrativo, há, ainda, registos de Zahovic ter alinhado em onze partidas por um clube amador do seu país, o Limbus-Pekre, pelo qual terá marcado doze golos durante a época 2008-2009. Um final de carreira propositadamente discreto para um jogador que, em muitas ocasiões, demonstrou não o ser, mas que conseguiu, ainda assim, afirmar-se como nome maior do futebol do país a que chegava há exactos trinta anos, como Cara (Des)conhecida do Vitória nortenho.

Saturday, 2 September 2023

Sábados aos Saltos. O Jogo da Malha

Os Sábados marcam o início do fim-de-semana, altura que muitas crianças aproveitam para sair e brincar na rua ou no parque. Nos anos 90, esta situação não era diferente, com o atrativo adicional de, naquela época, a miudagem disfrutar de muitos e bons complementos a estas brincadeiras. Em Sábados alternados, este blog vai recordar os mais memoráveis de entre os brinquedos, acessórios e jogos de exterior disponíveis naquela década.


Apesar das rápidas mudanças sociais, culturais e tecnológicas verificadas em finais do século XX, o Portugal dos anos 80 e 90 continuava, particularmente nas zonas rurais, a contar com uma série de ligações às décadas transactas, quer a nível de festividades e tradições, quer mesmo de brincadeiras. E se os baloiços de pneu, os jogos tradicionais ou brincadeiras como os berlindes ou o pião ainda contavam com alguma tracção mesmo em ambientes mais urbanos, outros elementos havia que já se cingiam, quase exclusivamente, ao Portugal rural; e, destes, um dos mais conhecidos era o jogo da 'malha', ou do chinquilho.


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Sem qualquer expressão nas escolas, clubes ou comunidades das chamadas 'grandes cidades' portuguesas, esta brincadeira continuava, no entanto, a animar os Sábados aos Saltos de muitos 'putos' noventistas residentes em localidades mais pequenas e, na altura, ainda mais remotas ou menos desenvolvidas. Essa menor presença de tecnologias como os computadores ou as consolas, bem como de outros brinquedos da moda - e, por vezes, até de estruturas como um parque infantil, como nos recordava um lendário anúncio da época -  era, aliás, um dos principais factores responsáveis pela persistência deste tipo de jogo e brincadeira nestes ambientes, por oposição aos das cidades, onde tudo se movia mais depressa e os produtos chegavam mais cedo.


Assim, eram ainda muitos os jovens que, nos anos 80 e 90, passavam a tarde de fim-de-semana acocorados no chão, a tentar derrubar, com pedras (ou 'malhas'), um pino ou prego colocado a alguma distância e semi-enterrado no chão – sendo o vencedor, obviamente, aquele que primeiro conseguisse cumprir este objectivo, ou que, pelo menos, conseguisse fazer chegar a sua 'malha' o mais próximo possível do alvo. Uma fórmula simples, tão simples quanto a de qualquer outro jogo tradicional de exterior, mas igualmente capaz de proporcionar momentos de diversão às crianças daquele tempo mais simples, em que os jogos de computador e de vídeo eram caros, e os 'smartphones' pouco mais do que um 'sonho molhado' de personagens como Steve Jobs.


Ainda assim, não é difícil constatar o porquê de o jogo da malha ter perdido a popularidade de que então gozava; com as suas conotações populares (vem dele o verbo 'achincalhar') e associações a um tempo em que a sociedade portuguesa sofria uma intensa divisão de classes, esta era uma actividade que se prestava, naturalmente, ao repúdio das gerações mais novas – o que, aliado à globalização da tecnologia, contribuiu para tornar o chinquilho um jogo quase exclusivamente desfrutado pelas gerações mais velhas.


A herança e tradição deste jogo não se encontram, no entanto, totalmente perdidas – em Bragança, por exemplo, ainda se joga assiduamente ao 'fito', variante nortenha deste mesmo jogo. O rápido envelhecimento das gerações que conheceram este jogo poderá, todavia, resultar numa extinção a médio prazo desta tradição portuguesa em tempos tão popular; resta esperar que tal previsão não se torne realidade, para que este jogo tradicional com origens no tempo das ocupações romanas não veja terminada de forma tão abrupta a sua História milenar, e para que não se perca ainda mais uma das já poucas ligações ao passado remoto do nosso País.

Friday, 1 September 2023

Sextas com Style: As Galochas

Um dos aspetos mais marcantes dos anos 90 foi o seu inconfundível sentido estético e de moda. Em sextas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das marcas e modas mais memoráveis entre os jovens da ‘nossa’ década.


O mês de Setembro sempre marcou, no calendário português, o fim do Verão; apesar de o regresso às aulas ainda ser, em grande medida, feito 'em t-shirt', não deixa também de ser verdade que a maioria dos jovens portugueses levava já para a escola um casaco, a fim de enfrentar as tardes mais frias. A chuva, essa, só costumava chegar mais para o final do mês, ou até em Outubro; este ano, no entanto, o Outono decidiu antecipar-se em algumas semanas, levando à situação algo caricata de, depois de uma Sexta com Style em que falámos das sandálias de praia, sob calor de quase quarenta graus, nos encontrarmos, duas semanas depois, a recordar uma peça de calçado diametralmente oposta, e indispensável nos dias de maior chuva.


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Falamos, é claro, das clássicas galochas – as botas de borracha que protegiam os pés das poças e 'rios' de água nos passeios em igual medida do que aliciavam aos saltos para dentro das mesmas – uma daquelas brincadeiras intemporais dos dias de chuva e que, seja em que altura da História fôr, dá azo à mesma reacção irritada por parte dos pais. No entanto, a verdade é que – com os pés e barrigas das pernas bem protegidos por uma ou mais camadas de borracha grossa – era mesmo bastante difícil resistir ao apelo daquelas superfícies lisas, mesmo a pedir para serem 'desfeitas'; o pior era quando a água subia demais e penetrava nas botas, contrariando assim o propósito de ter vestido as mesmas...


'Chapões' à parte, não haverá, decerto, um único 'nativo' dos anos 90 que não se recorde de ter vestido, a cada chegada do Outono, um par de sapatos deste tipo – muitas vezes a contragosto, já que os mesmos estavam longe de ser estéticos ou vistos como estando 'na moda', o que tendia a causar algum constrangimento em crianças mais velhas e, sobretudo, adolescentes. Curiosamente, esta vertente foi, em décadas subsequentes, devidamente suprida, com o aparecimento de galochas com padrões apelativos, bolas, riscas, e outros 'truques' para as deixar um pouco menos 'chatas' e incentivar ao seu uso.


Esses 'truques' não foram, no entanto, suficientes para fazer perdurar o apelo das galochas como calçado 'de cidade', sendo as mesmas, hoje em dia, mais frequentemente vistas em trabalhadores manuais cujos trabalhos envolvem o contacto com terra ou outras substâncias húmidas e desagradáveis, ou em crianças muito pequenas, tendo as demografias mais velhas encontrado outras soluções para fazer frente a chuvas mais fortes; para toda uma geração, no entanto, o calçado outonal por excelência serão, para sempre, aquelas botas inestéticas e meio desengonçadas, muitas vezes usadas 'à força', mas que, ao mesmo tempo, estarão sem dúvida associadas a um sem-número de bons momentos passados em brincadeiras à chuva...

Thursday, 31 August 2023

Quintas no Quiosque: 'Casa Cláudia' - Um Clássico das Salas de Espera Há Quarenta Anos

Os anos 90 viram surgir nas bancas muitas e boas revistas, não só dirigidas ao público jovem como também generalistas, mas de interesse para o mesmo. Nesta rubrica, recordamos alguns dos títulos mais marcantes dentro desse espectro.


As visitas ao médico de família, salão de beleza, ou qualquer outro local dotado de uma sala de espera serviram como principal ponto de contacto entre os jovens dos anos 90 e 2000 e certas revistas que, de outro modo, nunca chegariam necessariamente a entrar no seu 'radar'. Isto porque, se quase todos os lares portugueses da época tinham uma pilha de 'TV Guias' ou 'TV 7 Dias' na sala de estar, tal não era, necessariamente, o caso com revistas mais especializadas, cuja compra requeria um interesse pelo menos passageiro na temática que abordavam, mas que, no contexto acima descrito, ajudavam a passar o tempo, quanto mais não fosse olhando para as fotografias.


A revista de que falamos esta semana integrava esse lote, tendo-se, ao longo dos seus já quarenta anos de publicação, tornado um dos 'clássicos' das salas de espera nacionais.Trata-se de 'Casa Cláudia', a versão portuguesa da revista brasileira do mesmo nome, que chegava às bancas há pouco mais de quatro décadas, em Maio de 1988 – onze anos depois da fundação da sua congénere sul-americana – através da inevitável Abril (ainda longe de ser Controljornal).


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Como o próprio nome indica, a revista tem como principal foco a decoração de interiores, com tudo o que a mesma acarreta – ou seja, muitas (mesmo muitas!) fotografias de casas e acessórios que, hoje, seriam descritos como 'Instagramáveis', naquela espécie de 'catálogo disfarçado de revista' que continua a fazer as delícias de um certo tipo de público. E se, para as crianças e jovens, o tema em causa dificilmente detinha grande interesse, não deixava, ainda assim, de ser divertido ajudar os mais velhos a obter inspiração para potenciais projectos de decoração ou renovação, descobrindo assim, ao mesmo tempo, o gosto pessoal neste campo.


Claro está que o conteúdo da revista não se limitava a esse tipo de artigo, abrangendo ainda a análise a acessórios de exterior, a ocasional visita a casas de famosos, e até algumas peças de índole mais técnica, com instruções para projectos do estilo 'faça-você-mesmo' que permitiam, com algum jeito, poupar algum dinheiro no processo de renovação ou criação do lar. Uma fórmula que, longe de ser inovadora, encontrava tracção entre um determinado público-alvo, que assegurou o sucesso de vendas da revista até ao início da muito anunciada 'morte' da imprensa escrita em formato físico, em finais da década de 2010 – altura em que, aliás, a própria 'Casa Cláudia' havia já seguido o exemplo de outras publicações semelhantes e expandido a sua área de abrangência através de duas revistas-satélite, uma sobre arquitectura e outra dedicada exclusivamente a ideias sobre decoração.


Mesmo a referida transição para formatos digitais, e subsequente quebra nas vendas, não foi, no entanto, suficiente para 'matar' a 'Casa Cláudia', que se mantém nas bancas até aos dias de hoje, num de vários exemplos de resiliência por parte de publicações que, como Astérix, 'resistem ainda e sempre ao invasor' cibernético, e que – por esse mesmo motivo – se tornam merecedoras de destaque nas páginas deste nosso blog.

Wednesday, 30 August 2023

Quartas aos Quadradinhos: 'Série Ouro' (1998) - A Última Grande Conquista da Abril/Controljornal

A banda desenhada fez, desde sempre, parte da vida das crianças e jovens portugueses. Às quartas, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos títulos e séries mais marcantes lançados em território nacional.


É já um tema recorrente nesta rubrica do nosso blog que a Abril-Controljornal gozava, em finais do século XX, de uma hegemonia no mercado nacional de banda desenhada que lhe permitia não só arriscar, como também aumentar progressivamente o número de publicações do seu catálogo, fossem estas referentes aos heróis da Marvel ou DC ou ao principal filão da editora, as revistas Disney. Com isso em mente, não é, de todo, de admirar que, há exactos vinte e cinco anos, surgisse nas bancas portuguesas ainda mais uma revista alusiva a Mickey, Pateta, Donald e restantes personagens já tão conhecidos dos jovens portugueses.


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Capa do número 1, lançado há exactos vinte e cinco anos, em Agosto de 1998.


Tratava-se de 'Série Ouro' (não confundir com a 'Série Ouro Disney' brasileira), uma publicação tematizada, com as histórias seleccionadas para cada número a obedecerem a um conceito central, à semelhança do que já acontecia com o 'Disney Especial'. De facto, a melhor maneira de encarar esta nova série (cujo primeiro número, alusivo ao futebol, era lançado mesmo a tempo de capitalizar sobre a febre do Mundial de França '98) é como uma alternativa mais 'em conta' à referida publicação, com consideravelmente menos páginas mas (em consequência) um preço bastante mais convidativos às carteiras dos jovens 'noventistas' médios – um papel que 'Série Ouro' cumpre com louvor.


Talvez tenha sido graças a esta combinação de factores que a nova publicação tenha conseguido alguma tracção junto do mesmo público-alvo que 'virara, anos antes, as costas' a 'Top Disney', revista sem tema nem orientação discernível, e vendida quase pelo mesmo preço de um 'Disney Especial'; fossem quais fossem as razões por detrás do seu sucesso, no entanto, a verdade é que 'Série Ouro' mostrou ter alguma longevidade, tendo sido editada quase ininterruptamente durante os sete anos seguintes, e sobrevivendo mesmo à passagem da licença Disney da Abril-Controljornal para a Edimpresa, em 2003 – embora, por esta altura, tivesse já periodicidade bimestral, por oposição a mensal.


No total, foram setenta e três números entre Agosto de 1998 e Novembro de 2005, os quais apresentam todas as qualidades e defeitos desta era da BD Disney, não escapando às inevitáveis histórias produzidas em Itália, e ainda menos ao 'aportuguesamento' das falas de Zé Carioca e Urtigão, com resultados perfeitamente risíveis (no mau sentido). Ainda assim, por comparação com outras edições e colecções da mesma altura, 'Série Ouro' constituiu uma adição perfeitamente válida ao catálogo de uma editora que, à época, parecia não conseguir falhar o alvo, e terá deixado memórias nostálgicas a pelo menos uma parte da considerável base de fãs das bandas desenhadas Disney de finais dos anos 90 e inícios do Novo Milénio.

Tuesday, 29 August 2023

Terças Tecnológicas: 'Heart of Darkness' - Do Inferno ao Céu em Seis Anos

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Uma das principais características do mercado informático e de 'software' nos anos 90 foi a inovação. De facto, para cada jogo ou programa de fórmula bem estabelecida e 'destinado' a virar franquia interminável, surgiam um ou mais que procuravam, verdadeiramente, trazer para a mesa ideias inovadoras, e que lhes permitissem destacar-se da concorrência, muitas vezes dando azo a géneros inteiramente novos. Um bom exemplo deste fenómeno são os chamados 'jogos de plataformas com puzzle', que pegavam na já bem 'batida' fórmula do jogo de plataformas 3D e lhe adicionavam uma componente estratégica, que obrigava a pensar para conseguir ultrapassar cada obstáculo. E se a série 'Abe' (que, paulatinamente, aqui terá o seu espaço) foi o pináculo máximo deste tipo de jogo, logo a seguir, há que referir os títulos criados por Éric Chahi, dos quais o mais icónico para a juventude lusitana noventista celebrou há quase exactamente um mês o seu vigésimo-quinto aniversário de lançamento.


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Falamos de 'Heart of Darkness', um daqueles jogos que 'tinham de se ter' aquando do seu aparecimento para PC CD-ROM, em finais de Julho de 1998 – curiosamente, quase um mês depois do lançamento da versão para PlayStation, a qual, apesar de ter surgido primeiro, esteve longe de ter o mesmo impacto entre o público-alvo. De facto, apesar da popularidade da consola da Sony e da maioria dos seus títulos, neste caso, era mesmo sobre a versão PC que se centravam todas as atenções, com quem tinha a emprestar a quem não tinha, para que os mesmos não ficassem privados da experiência cinematográfica proposta por Chahi.


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Os gráficos eram, e continuam a ser, um dos pontos altos do jogo


E a verdade é que a demanda de Andy (um protagonista que não podia ser mais 'de época') para resgatar o seu cão Whisky quase parecia um desenho animado interactivo, tal a fluidez de movimentos e riqueza gráfica dos cenários; certo, falamos de gráficos de 1998, mas a opção por traços mais estilizados torna o jogo mais ou menos intemporal, ainda que inevitavelmente datado pelos padrões actuais. Também inevitável era a exigência do mesmo sobre os PCs da altura, sendo que requeria um aparelho Pentium com uma boa placa gráfica para correr devidamente.


No entanto, por muito que ajudassem a 'vender' o jogo, os gráficos não são o que mais interessa em 'Heart of Darkness'; pelo contrário, é pela jogabilidade que o título da Infogrames mais se destaca. Isto porque, durante grande parte do jogo, Andy não conta com qualquer ataque ou poder contra as forças das trevas que levaram o seu melhor amigo, devendo derrotá-las sómente com recurso à perícia, inteligência e habilidade de salto. Escusado será dizer que isto faz com que os referidos poderes, quando surgem, pareçam ainda mais 'fabulásticos' – algo que talvez não se passasse se os mesmos estivessem sempre presentes e 'Heart of Darkness' fosse um jogo de plataformas mais vulgar.


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Exemplo da jogabilidade com um dos poderes disponíveis.


Em suma, Chahi e a Infogrames conseguiram um produto ímpar em todos os aspectos, cuja fama entre os 'putos' da época era bem justificada – algo que se torna ainda mais impressionante quando se pensa que 'Heart of Darkness' passou nada menos do que seis anos no temido 'development hell', tendo sido anunciado pela primeira vez em 1992 e visto serem canceladas ou abandonadas versões para 3DO (!), Amiga CD32 (!!), Atari Jaguar (!!!), Panasonic M2 (!!!!) e Sega Saturn, todas as quais haviam concluído o seu ciclo de vida quando o jogo foi finalmente lançado (é, também, de espantar que esta associação a consolas famosamente 'malditas' da década não tenha acabado com o projecto...) Por essa altura, já 'Heart of Darkness' era, há muito, um 'projecto passional', sem financiamento de qualquer grande companhia, e que quase acabou com a paixão pelo desenvolvimento informático de Chahi, que tiraria uma licença sabática de mais de uma década após a conclusão do projecto.


Em última instância, no entanto, tudo acabou em bem, com a Infogrames a acreditar na visão de Chahi (bem como a Interplay, nos EUA) e a dar aos jovens adeptos de plataformas nos anos 90 um título de enorme qualidade, pronto a adquirir estatuto de culto, para juntar à sua colecção. O facto de, um quarto de século após o seu lançamento, 'Heart of Darkness' ainda parecer relativamente original é um testamento à visão criativa do seu autor, que justifica bem esta homenagem, como forma de assinalar, ainda que já com algum atraso, esse significativo marco – uma desculpa perfeita, aliás, para apresentar o jogo às novas gerações...

Segundas de Séries: 'Alvin e os Esquilos' - Uma 'Ideia Parva' Tornada Fenómeno Infantil

NOTA: Este post é respeitante a Segunda-feira, 28 de Agosto de 2023.


Em Segundas alternadas, o Anos 90 recorda algumas das séries mais marcantes para os miúdos daquela década, sejam animadas ou de acção real.


Estava-se nos primeiros anos da década de 60 quando um produtor musical norte-americano tinha a genial ideia de gravar cantores a interpretar canções de forma deliberadamente lenta e, utilizando técnicas de aceleração, alterar as suas vozes para que ficassem com um timbre exageradamente alto, quase 'cartoonesco'. Para combinar com esta voz 'de hélio', o mesmo produtor criaria, então, três personagens animados: esquilos antropomórficos e falantes, adoptados por um músico, e subsequentemente transformados em grupo vocal. Nascia, nesse instante, um fenómeno que poucos preveriam vir a perdurar durante as seis décadas seguintes, mas que continua até hoje a fazer as delícias da criançada, bastando para isso atentar no desenho animado CGI actualmente disponível no Netflix e Nickelodeon, já a terceira a contar com os personagens em causa.


Falamos, é claro, dos Esquilos (actualmente designados como Alvin e os Esquilos) o grupo virtual criado por Ross Bagdasarian (também conhecido como Dave Seville, o 'pai' adoptivo dos três rapazes) e que foi muito além do seu estatuto como 'one-hit wonder' vagamente piadético, tendo chegado a ganhar dois Grammys (!) e tido direito, desde a sua criação, a uma série de banda desenhada, quatro (!!) filmes de acção real, um sem-fim de 'merchandising' e, claro, as referidas séries animadas, das quais a mais famosa (em Portugal e não só) é a segunda, produzida em 1983 e exibida no nosso País em duas ocasiões na década seguinte.


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Responsável pela criação e apresentação das Esquiletes (as namoradas dos personagens, que, como não podia deixar de ser, são versões femininas exactas dos mesmos) a série não deixa, no entanto, que as novas personagens ofusquem os três protagonistas principais; de facto, o foco continua declaradamente sobre Alvin (o travesso e teimoso Esquilo de boné e t-shirt vermelha), Simon (o Esquilo 'marrão' e atinado, oposto do irmão, e que veste de azul) e Theodore (o 'gordinho' sensível, tímido e comilão, cuja cor é o verde) e na sua relação por vezes difícil, mas sempre bem-intencionada, com o pai adoptivo humano. As histórias, essas, giram em torno dos habituais assuntos da vida quotidiana, pertinentes para o público-alvo, como as relações interpessoais ou as emoções próprias, intercalados com o aspecto mais 'show-business' da vida das três 'crianças', e uma ou outra aventura mais mirabolante. O resultado é um programa bem animado, bem conseguido a nível global, e que possui a característica mais importante para se destacar no mercado televisivo infanto-juvenil dos anos 90: um genérico de abertura daqueles instantaneamente reconhecíveis e entusiasmantes, que é já 'meio caminho andado' para o sucesso.



A segunda versão da abertura, quase uma transcrição literal do original.


E sucesso foi coisa que não faltou a esta série, que foi transmitida um pouco por todo o Mundo, incluindo (conforme acima referido) por duas vezes em Portugal, em ambos os 'extremos' da década de 90: primeiro logo a abrir a mesma, na RTP (então Canal 1) e com os nomes dos personagens 'aportuguesados', e mais tarde no Batatoon da TVI, em 1999, com nova dobragem a cargo da Nacional Filmes, e mais fiel ao original. Tal como 'Dennis o Pimentinha', esta foi, portanto, daquelas séries que tiveram a oportunidade de captar duas gerações de público-alvo totalmente distintas, e de as cativar a seguir as aventuras daquela pequena e invulgar família.


Tal como também já vimos acima, este desenho animado esteve longe de ditar o fim da popularidade dos Esquilos, que renovariam ainda a audiência por mais duas vezes ao longo das três décadas seguintes, primeiro através dos filmes e, mais tarde, do actual desenho animado. Nada mal para uma 'ideia parva' tida por um descendente de Arménios de Fresno, Califórnia em meados do século passado...


 

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...