Wednesday, 16 October 2024

Quartas de Quase Tudo: As Cadernetas da Escola - A 'Arma Silenciosa' dos Professores Noventistas

Em quartas-feiras alternadas, falamos sobre tudo aquilo que não cabe em nenhum outro dia ou categoria do blog.


Era a ameaça-mor dos professores do ensino preparatório e secundário dos anos 90; a forma quase garantida de fazer com que a parcela mais 'inocentemente' irreverente dos alunos (por oposição aos verdadeiramente indisciplinados) assumissem um comportamento mais condicente com o contexto da sala de aula. O simples receio de ver aquela meia-dúzia de linhas em cada página do pequeno livreto preenchidas com uma nota ou recado para os encarregados de educação fazia até o mais convicto dos 'gozões' repensar as suas prioridades, e concentrar-se na matéria a estudo, tornando a caderneta escolar numa das grandes 'armas' dos docentes para manter a paz ao longo do ano lectivo.


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Uma caderneta do período de 'viragem de Milénio'


Os relatos de mau comportamento estavam, claro, longe de ser a principal função da caderneta, a qual servia também como meio alternativo para convocar reuniões de pais ou comunicar visitas de estudo (à falta das tradicionais circulares) ou simplesmente para veicular recados mais generalistas. Para os alunos, no entanto, aquele pequeno livrinho de inofensiva aparência adquirido nos primeiros dias de regresso às aulas era o equivalente ao infame 'registo permanente' dos alunos norte-americanos – algo que os iria marcar não só a curto-prazo, como potencialmente num futuro mais distante, como o fim do ano lectivo, ou até mesmo o ano seguinte. Acima de tudo, a nota na caderneta era motivo de vergonha para a grande maioria dos alunos, o que, a juntar às inevitáveis consequências à chegada a casa, fazia dessa uma medida disciplinar indesejada e até temida por qualquer jovem de finais do século XX e inícios do seguinte.


Tal como tantos outros elementos da vida de então, no entanto, também as cadernetas escolares perderam preponderância com a evolução dos meios digitais, os quais, pelo seu imediatismo e celeridade, rapidamente se assumiram como principal meio de comunicação entre docentes e pais ou educadores, 'eclipsando' progressivamente a tradicional caderneta. Convenhamos, no entanto, que uma queixa por email, lida no ecrã de um computador ou telemóvel, não tem o mesmo impacto daquelas linhas escritas à mão nas páginas daquele livrinho que havia depois que tirar da mochila e apresentar fisicamente aos pais, 'rezando' para não levar uma 'descasca', fazendo desta mais uma das muitas áreas em que as gerações 'Z' e 'Alfa' não sabem a sorte que têem. Qualquer 'X' ou 'millennial', no entanto, terá porventura estremecido um pouco ao ler estas linhas, e relembrar 'rasponços' memoráveis decorrentes de travessuras na escola, e as subsequentes e inevitáveis mensagens da professora na caderneta...

Tuesday, 15 October 2024

Terças Tecnológicas: Vinte e Cinco Anos de 'Sonic Adventure', o Último 'Momento de Glória' do Porco-Espinho Azul

A década de 90 viu surgirem e popularizarem-se algumas das mais mirabolantes inovações tecnológicas da segunda metade do século XX, muitas das quais foram aplicadas a jogos e brinquedos. Às terças, o Portugal Anos 90 recorda algumas das mais memoráveis a aterrar em terras lusitanas.


Quando se fala das mascotes mais icónicas da História dos videojogos, Sonic, o supersónico porco-espinho azul da SEGA, perde apenas para o 'rival' Super Mario, da Nintendo, o qual se conseguiu manter relevante no Novo Milénio, com uma série de jogos de alto nível, enquanto o homólogo antropomórfico 'definhava' numa série de jogos medíocres em termos técnicos e controversos no tocante a história e jogabilidade. Em meados dos anos 90, no entanto, os dois personagens encontravam-se ainda perfeitamente 'taco a taco', tendo sob cada um dos seus nomes uma série de clássicos indiscutíveis das eras dos 8 e 16-bits, além de várias séries de desenhos animados e inúmeros artigos de 'merchandising'. Mario já havia, no entanto, dado um 'salto' que, a Sonic, faltava ainda almejar: a transposição para ambientes 3D, efectivada no magnífico e icónico 'Super Mario 64', e que o porco-espinho vira abortada quando 'Sonic Xtreme' se transformara no bem menos ambicioso e enganosamente intitulado 'Sonic 3D: Flickies Island'. O primeiro título verdadeiramente tridimensional para a mascote da SEGA seria, portanto, lançado apenas em 1997, um ano depois de 'Mario 64', e não tendo de longe a mesma repercussão; pelo contrário, 'Sonic R' – título que inseria os habitantes do planeta Mobius num contexto de corridas a pé - foi alvo de uma recepção algo 'morna', com apenas a banda sonora a reunir consenso. Seria, assim, necessária nova tentativa para verdadeiramente levar a essência de Sonic para um universo 3D – mas o mínimo que se pode dizer é que esse segundo ensaio se traduziu num retumbante sucesso.


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Isto porque 'Sonic Adventure' é, ainda hoje – um exacto quarto de século após o lançamento na Europa do original para Dreamcast, a 18 de Outubro de 1999 – tido como clássico absoluto da 'biblioteca' do porco-espinho, a par com a trilogia clássica para Mega Drive. E embora o título em causa não tenha sido o 'arauto' de uma nova era que os fãs da época previam que fosse, o mesmo reúne ainda assim considerável e bem merecida nostalgia entre os 'gamers' da geração 'millennial'.


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Exemplo da jogabilidade do título.


Isto porque 'Adventure' nada mais é do que a transposição da 'fórmula Sonic' para um ambiente 3D – ou seja, precisamente o que os fãs do personagem quereriam e esperariam de um jogo deste tipo. Pese embora a introdução de novas personagens com poderes distintos – como Amy Rose, pretendente a namorada de Sonic que brande um enorme martelo, Big The Cat ou o robô E-102 Gamma – a base de cada nível continua a centrar-se sobre a colecção em velocidade de anéis e 'power-ups', apenas feita em profundidade em vez de horizontalmente. Junte-se a essa bem testada fórmula um punhado de mini-jogos e uma 'mascote virtual – tão em voga na altura – e está dado o mote para mais um mega-sucesso para uma companhia bem necessitada de algo desse tipo, após o fiasco da Sega Saturn (do qual, em tempo, também aqui falaremos). No total, o primeiro 'Sonic Adventure' vendeu dois milhões e meio de cópias, tornando-se o título mais vendido e celebrado da curta história da Dreamcast (consola que, não obstante, não conseguiu ajudar a 'salvar') e justificando conversões, ainda que tardias, para Gamecube e PC (em 2003 e 2004, respectivamente).


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Dado o nível de sucesso do jogo, foi sem surpresas que os fãs de Sonic viram surgir, menos de dois anos depois, uma sequela – a qual, para gáudio dos mesmos, se revelou ainda melhor que o original. De facto, 'Sonic Adventure 2' é considerado por muitos adeptos da franquia como o último grande título de Sonic durante quase uma década, até pelo menos a 'Sonic Colours', de 2010, senão mesmo 'Sonic Generations', do ano seguinte. Apesar de se desviar um pouco mais da fòrmula estabelecida (incluindo níveis mais baseados em exploração ou até tiros, além de permitir controlar personagens maléficas, como o infame Dr. Robotnik e o 'clone malévolo' de Sonic, Shadow) os riscos tomados pelo jogo têm o efeito desejado, o de expandir a jogabilidade e amplitude da franquia – uma abordagem que, em títulos subsequentes, se veria envolta em controvérsia, mas que nesta primeira tentativa foi mais do que bem aceite.


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Os vários tipos de níveis do jogo.


Mais do que pela jogabilidade, no entanto, seria pelos marcos históricos que 'Sonic Adventure 2' se destacaria. Isto porque o título é não só um dos últimos títulos lançados para a última consola alguma vez fabricada pela SEGA (e, à época do lançamento do jogo, já descontinuada) mas também o último título de Sonic a ter essa honra, antes de a SEGA se afirmar declaradamente como produtora de jogos para 'clientes externos' - entre eles, famosamente, a 'rival' Nintendo, que saía assim folgadamente vencedora da 'guerra das consolas' que grassara durante toda a década de 90. Como 'canto do cisne' da Dreamcast, no entanto, 'Sonic Adventure 2' constitui uma despedida 'em beleza', merecendo, juntamente com o antecessor, um lugar no panteão dos grandes jogos não só de Sonic, mas do panorama da época em geral. E embora, conforme referimos, os primeiros anos do século XXI não tenham exactamente sido 'risonho' para o porco-espinho azul, nem mesmo o pior dos jogos dessa época (o infame 'Sonic 2006') conseguiu retirar às primeiras aventuras 3D do personagem qualquer ínfima parte do apreço e consideração com que haviam sido recebidas aquando do lançamento. Parabéns, 'Sonic Adventure', e que continues a ser visto como um clássico por gerações futuras.

Monday, 14 October 2024

Segundas de Sucesso: Os Trinta Anos do Último Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous

Qualquer jovem é, inevitavelmente, influenciado pela música que ouve – e nos anos 90, havia muito por onde escolher. Em segundas alternadas, exploramos aqui alguns dos muitos artistas e géneros que faziam sucesso entre as crianças daquela época.


De entre as muitas salas de espectáculos e bares da noite lisboeta, o Rock Rendez-Vous foi, a par do Johnny Guitar, uma das mais históricas e influentes, e continua até hoje a ser das que mais memórias e nostalgia despertam entre os portugueses de uma certa idade e com gosto pela música. E ainda que os muitos concertos ali realizados tenham uma palavra a dizer no tocante a esse estatuto, é inegável que grande parte do mesmo se devia ao histórico Concurso de Música Moderna, tão sinónimo com o espaço que muitas vezes se confunde com o mesmo, naquilo a que hoje se chama um 'efeito Mandela'.


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O livre-trânsito de uma das bandas a concurso, os Gritos Oleosos.


De facto, foi o referido concurso - realizado consecutivamente entre 1984 e 1989 – que deu a conhecer grupos como os Mler Ife Dada (vencedores da primeira edição), Ritual Tejo e Sitiados, todos os quais tiveram oportunidade de gravar para a Dansa do Som, a editora ligada ao concurso e ao próprio Rock Rendez-Vous em si. Assim, não é de estranhar que, cinco anos após a última edição anual, a competição tenha sido 'revivida' a título esporádico, e proporcionado uma despedida 'em alta' para um dos grandes eventos musicais do Portugal oitentista. Isto porque o sétimo e último Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous - levado a cabo há quase exactos trinta anos, a 16 de Outubro de 1994 - teve honras de transmissão na RTP, um facto que demonstra bem a importância cultural e mediatismo que o evento havia adquirido desde a sua criação, dez anos antes.


Curiosamente, esta última edição do concurso manteve a tendência, verificada na esmagadora maioria dos seus antecessores, de atribuir a vitória a bandas que acabariam por nunca singrar, pese embora o disco lançado como prémio pela classificação no concurso. Para a História, nesta 'reencarnação' do evento, ficavam Drowning Men (mais tarde Geração X, e depois Os Vultos), Jardim Letal e Neura, nenhum dos quais é hoje lembrado ou conhecido pela esmagadora maioria da população nacional, até mesmo a que era já viva à época. O único nome 'sonante' desta edição de 1994 seria, assim, o dos Ornatos Violeta, que levavam para casa o último Prémio de Originalidade alguma vez atribuído pelo Rock Rendez-Vous, saindo assim como nome destacado da última edição de um certame histórico do panorama musical português.


A extinção do Concurso de Música Moderna não significaria, no entanto, o fim do nome Rock Rendez-Vous, o qual seria 'repescado', já no Novo Milénio, para título de uma compilação de novos talentos lançada pela Worten, em homenagem às edições do mesmo tipo que a Dansa do Som fazia sair durante o seu período áureo. E apesar de o local em si, bem como o nome, terem entretanto voltado a mergulhar nas 'brumas' da memória, haverá sempre uma certa faixa etária de portugueses para quem aquelas três palavras meio 'estrangeiradas', e o concurso que lhes estava associado, serão, eternamente, sinónimas com o melhor que se fazia, e fez, no meio pop-rock e alternativo em Portugal.

Sunday, 13 October 2024

Domingo Desportivo: Grandes dos 'Pequenos' - Os Dois Amores de Bruno Vaza

Aos Domingos, o Portugal Anos 90 recorda alguns dos principais acontecimentos e personalidade do desporto da década.


Numa era em que o desporto-rei se encontra mercantilizado ao extremo, com valores salariais e de transferência cada vez mais absurdos, é já praticamente impossível encontrar jogadores que, ao longo da carreira, apenas representem menos de uma mão-cheia de emblemas, por vezes ficando-se mesmo pelo clube do coração. Há três décadas, no entanto, o panorama era algo mais 'inocente', e muitos futebolistas deixavam, ainda, que o coração falasse mais alto, fidelizando-se às poucas agremiações nas quais faziam carreira. Já aqui abordámos alguns desses nomes, como foi o caso de Serifo, Kasongo, Litos ou Martelinho, e este Domingo Desportivo adicionamos mais um atleta a essa ilustre lista, na pessoa de Bruno Alexandre Vaza Ferreira, também por vezes conhecido apenas pelo seu apelido mais 'invulgar', Bruno Vaza.


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Com a camisola do primeiro dos seus dois clubes...


Nascido em Torres Vedras e formado no histórico clube local, o médio chegaria à equipa principal do mesmo ainda em finais dos anos 80, ainda como opção periférica. Não tardaria muito, no entanto, até o jogador mostrar o seu valor e se tornar peça-chave da equipa para a primeira época completa da década de 90, no decurso da qual contribuiu activamente para a primeira promoção do Torreense à então I Divisão em vinte e sete anos – curiosamente, sucedendo ao próprio pai, que fizera parte da última equipa torreense a conseguir a subida ao escalão principal, em 1964/65.


Tão-pouco perderia o médio preponderância durante as épocas passadas pelos rubro-celestes na 'Primeira'; antes pelo contrário, nas quatro épocas seguintes, apenas uma (a primeira no escalão principal) viu Vaza fazer menos de trinta jogos pela equipa da sua terra, tendo mesmo assim participado ainda em cerca de metade dos jogos do Torreense durante a referida temporada, e deixado a sua marca com dois golos. Nas temporadas subsequentes, o médio voltaria a agarrar a titularidade, tendo os seus números sido exactamente iguais para ambas: trinta e um jogos e dois golos em cada uma.


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...e com a do segundo.


A constância e qualidade exibicional demonstrada pelo médio não passavam, aliás, despercebidas, e foi com pesar que os adeptos torreenses viram o 'filho da terra' dar o 'salto' para um clube de maiores dimensões, rumando a Norte para representar aquele que viria a ser o segundo de apenas dois clubes representados por Vaza durante toda a sua carreira, no caso o Sporting de Braga, onde chegou a partilhar plantel com nomes como Eduardo, Quim, Ricardo Rocha, Miklos Feher, Carlitos (todos mais tarde do Benfica) Tiago ou Luís Filipe (que se notabilizaram no Sporting) ou ainda a eterna 'estrela' bracarense, Karoglan. Ali, o médio deu de imediato continuidade ao bom trabalho realizado no Oeste, justificando a sua contratação e afirmando-se como elemento importante do plantel alvirrubro a longo prazo. De facto, foram nada menos do que sete as temporadas passadas pelo médio no Minho, quase todas como titular quase indiscutível, tendo a sua contribuição esmorecido apenas já nos últimos meses do século XX, em que uma lesão grave o levou a registar apenas sete aparições pela equipa principal e uma pela equipa B. Após uma primeira época do Novo Milénio passada 'a zeros', o médio percebeu que era altura de regressar a 'casa', e foi com prazer, orgulho e satisfação que os adeptos do Torreense viram regressar uma das suas 'estrelas' noventistas, ainda bem a tempo de deixar o seu contributo nas campanhas, agora bem mais modestas, do clube do Oeste.


Infelizmente, o médio que pendurou a camisola no balneário do Estádio no final do Verão de 2001 não era, já, o mesmo que o deixara rumo a Braga alguns anos antes. A lesão contraída durante a estadia no Minho condicionava fortemente o jogador, impedindo-o de deixar o seu contributo como fazia em tempos passados, e tornando Bruno sobretudo num daqueles 'jogadores de balneário' cuja função é transmitir aos colegas a mística do clube. E ainda que esta fosse uma posição honrosa, não era manifestamente a mais desejável para um atleta de apenas trinta e um anos, e que normalmente teria ainda um par de épocas pela frente antes de 'pendurar as botas'; assim, e ainda a ressentir-se da lesão, Vaza viria mesmo a terminar a carreira de forma prematura no final da época 2001/2002, tendo vestido por apenas duas vezes a camisola que, em tempos, tão honrosamente representara. Um final triste para uma carreira que se pautou pelo profissionalismo, dedicação e verdadeiro 'amor à camisola', numa época em que essa expressão era já tão 'abusada'.


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Bruno Vaza na actualidade, em programa do Canal 11.


Ao contrário da maioria dos colegas a quem dedicamos espaço nestas páginas, Bruno Vaza não enveredou por cargos técnicos, nem tão-pouco ficou ligado à estrutura de qualquer dos seus dois clubes, tendo-se afastado por completo do mundo do futebol; o seu legado, no entanto, não se ficou por aí, já que o filho, Rodrigo Vaza (que chegou a passar pelas camadas jovens do Sporting) iniciou a carreira sénior com a mesma camisola do pai – a do clube da terra natal – antes de rumar aos Estados Unidos para prosseguir a carreira na Major League Soccer. Quanto a Bruno, é hoje um cidadão perfeitamente comum, que certamente terá, algures no decurso do seu quinquagésimo-quarto aniversário, recordado os tempos em que era Grande dos Pequenos na antiga I Divisão Portuguesa. Parabéns, e que conte ainda muitos.

Saturday, 12 October 2024

Saídas ao Sábado: A Bedeteca de Lisboa - Um Arquivo Aos Quadradinhos

As saídas de fim-de-semana eram um dos aspetos mais excitantes da vida de uma criança nos anos 90, que via aparecerem com alguma regularidade novos e excitantes locais para visitar. Em Sábados alternados (e, ocasionalmente, consecutivos), o Portugal Anos 90 recorda alguns dos melhores e mais marcantes de entre esses locais e momentos.


Uma edição recente desta mesma rubrica foi dedicada à Quinta Pedagógica dos Olivais, espaço que comemorou há pouco tempo três décadas de existência, durante os quais trouxe às crianças citadinas um 'cheirinho' dos ares do campo, com a sua colecção de animais, plantas e árvores de fruto típicas do cultivo nacional (e não só). O que, nessa ocasião, ficou por referir é que a instalação em causa dividia, até recentemente, o seu espaço com uma outra, de tanto ou maior interesse para o público-alvo: a Bedeteca Nacional, o maior arquivo de banda desenhada (física e digital) do nosso País.


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Concebida pela primeira vez em 1990, por um grupo de jovens de Ramalde, na zona do Grande Porto, a Bedeteca viria, no entanto, a encontrar a sua 'casa' definitiva na capital, concretamente no Palácio do Contador-Mor, edifício ainda hoje da propriedade da família Van Zeller, e que se pensa ter sido a inspiração para a famosa 'Toca', a casa descrita por Eça de Queirós como o 'ninho de amor' de Carlos e Maria Eduarda na obra-prima 'Os Maias'. Haja ou não fundamento para esse rumor, a verdade é que, em finais do século XX, o edifício viria a servir uma função marcadamente diferente, albergando múltiplas salas dedicadas à preservação e divulgação da banda desenhada em todas as suas formas. De facto, a Bedeteca procurava ir além de uma simples biblioteca ou arquivo (não obstante serem estes os seus aspectos primários) e oferecer também recursos digitais e instalações para exposições temporárias, mostras do trabalho de autores independentes e até palestras ou convenções, afirmando-se assim como local de 'romaria' obrigatória para os aficionados de BD lisboetas, senão mesmo de todo o País.


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Infelizmente, após ter feito as delícias dos entusiastas dos 'quadradinhos' durante mais de três décadas, a Bedeteca encontra-se, actualmente, encerrada para remodelações, as quais se estendem já há algum tempo, levando alguns interessados a ponderar se a mesma se encontrará definitivamente extinta. Para já, no entanto, a posição oficial é a de que a Bedeteca voltará, sim, a funcionar, exactamente no mesmo espaço do que anteriormente, podendo o seu acervo ser, nos entrementes, visitado e consultado numa secção especialmente reservada para o efeito, na Biblioteca de Marvila, também em Lisboa. Esperemos, pois, que se trate verdadeiramente de uma situação temporária, e que os 'bedéfilos' portugueses possam, em breve, voltar a desfrutar daquele que tem, desde sempre, sido o 'seu' espaço de eleição para Saídas ao Sábado; até lá, fica a 'homenagem' a uma infra-estrutura mais importante do que possa, à primeira vista, parecer, e que vem, desde há três décadas, dando um contributo importante para o panorama cultural lisboeta, e do País como um todo.

Friday, 11 October 2024

Sessão de Sexta: 'Dez Coisas Que Odeio Em Ti' (1999) - Muito Que Amar, Nada Que Odiar

Os anos 90 estiveram entre as melhores décadas no que toca à produção de filmes de interesse para crianças e jovens. Às sextas, recordamos aqui alguns dos mais marcantes.


De entre os muitos géneros cinematográficos a gozar de uma 'idade de ouro' nos últimos anos do século XX e inícios do seguinte, um dos mais notáveis foram as comédias adolescentes, quer na vertente mais 'javarda' (de que é epítome 'American Pie – A Primeira Vez', que em breve aqui terá o seu espaço) quer na mais leve e romântica, a exemplo de 'Ela É Demais'. Escusado será dizer que estes dois géneros dividiam o seu público-alvo praticamente a meio, com o primeiro - de enredos e piadas centrados nos inuendos sexuais e funções corporais - a apelar sobretudo à parcela masculina, e o segundo – com a pitada de drama decorrente das relações interpessoais dos personagens – a cativar sobretudo as jovens do sexo feminino. Tal dicotomia resultava, por sua vez, em inúmeros debates à porta do cinema, ou no sofá durante uma Sessão de Sexta, normalmente ganhos pelas raparigas, que assim sujeitavam os namorados ou familiares masculinos a duas horas de Freddie Prinze Jr ou outro galã semelhante.


De quando em vez, no entanto, surgia um filme que - por balancear as duas vertentes ou simplesmente 'suavizar' o romance – acabava por encontrar consenso entre os dois sexos. Destes, o melhor exemplo talvez seja uma película que acaba de celebrar, há cerca de um mês, um quarto de século sobre a sua estreia em Portugal, e que continua a ser dos títulos mais respeitados dentro do género da comédia romântica para adolescentes; nada melhor, pois, do que elencar as Coisas Que Odiamos (ou antes, Amamos) sobre o mesmo.


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Chegado às salas de cinema portuguesas a 3 de Setembro de 1999, 'Dez Coisas Que Odeio Em Ti' insere-se na breve e bizarra fornada de adaptações de peças de Shakespeare a um formato contemporâneo e juvenil, que também deu ao Mundo filmes como 'Esquece...E Siga' (baseado em 'Sonho de Uma Noite de Verão') ou a adaptação 'mafiosa' de 'Romeu + Julieta' por Baz Luhrmann, esta em registo mais dramático. No caso de 'Dez Coisas...', a peça-base é 'A Fera Amansada', da qual o filme mantém o enredo-base, centrado num rapaz que deve arranjar um pretendente para a irmã da jovem em que está interessado, sob pena de não poder estabelecer uma relação romântica com a mesma. Aqui, esse papel cabe a Joseph Gordon-Levitt - hoje um actor conceituado mas, à época, ainda conhecido sobretudo como o Tommy de 'Terceiro Calhau a Contar do Sol' – com a então musa das 'rom-coms' Julia Stiles no papel da irmã 'megera' e um jovem bem-parecido e talentoso de nome Heath Ledger como o 'escolhido' para a procurar seduzir. Juntamente com Gabrielle Union (no papel da melhor amiga de Bianca, a jovem pretendida pelo protagonista) os três ajudam a elevar o filme acima da comum das comédias românticas, com excelentes prestações que mantêm o espectador cativo até ao inevitável desfecho final ao som dos Letters to Cleo (que contribuem com várias das suas músicas para a banda sonora do filme).


Também a favor de 'Dez Coisas...' está o seu guião, que mistura os habituais momentos típicos de qualquer comédia romântica adolescente com um sentido de humor algo mais 'politicamente incorrecto', bem ilustrado na cena em que Heath Ledger não só faz um 'figurão' como quase causa um incidente na sua escola com a escolha infeliz de uma letra de Aerosmith como 'canção de amor'. A própria Bianca, por quem o Cameron de Gordon-Levitt nutre a paixão que precipita o restante argumento, é retratada como algo superficial e falha em inteligência, por oposição à irmã, mais sarcástica, ponderada, e definitivamente 'não como as restantes raparigas'.



Estes pequenos e inesperados toques ajudam a alargar o apelo do filme, transformando-o numa das poucas 'rom-coms' que muitos rapazes não só não se importavam de ver, como viam com activo prazer, como era o caso com o autor deste 'blog'. E apesar de o filme ter algumas vertentes 'problemáticas' nos dias que correm, o mesmo continua, ainda assim, a constituir uma excelente Sessão de Sexta 'a dois' (ou mesmo a 'solo'), bem como uma óptima maneira de 'apresentar' Shakespeare aos jovens de forma 'encoberta' e num formato que lhes seja apelativo. Razões mais que suficientes para assinalarmos, ainda que tardiamente, o quarto de século desta obra-prima da comédia romântica, em que nem sequer uma coisa conseguimos encontrar para odiar, quanto mais dez...


Thursday, 10 October 2024

Quintas ao Quilo: Os Chupa-Chupas Azedos - Simples, Intemporais e 'Viciantes'

Todas as crianças gostam de comer (desde que não seja peixe nem vegetais), e os anos 90 foram uma das melhores épocas para se crescer no que toca a comidas apelativas para crianças e jovens. Em quintas-feiras alternadas, recordamos aqui alguns dos mais memoráveis ‘snacks’ daquela época.


Já aqui anteriormente falámos de como os anos 90 foram a década por excelência para a experimentação no ramo das guloseimas. Sem estarem ainda manietadas pelos regulamentos e restrições actuais, as fabricantes de chupa-chupas, gomas, rebuçados, pastilhas e afins tinham 'carta branca' para criar conceitos tão mirabolantes quanto apelativos para o público-alvo, de chupa-chupas que serviam como uma espécie de flauta ou apito ou que se podiam guardar para comer em 'tranches' a rebuçados que pintavam a língua de azul, 'drops' que se guardavam e retiravam da cabeça de um personagem da cultura popular infantil ou pastilhas que 'explodiam' na boca. Em meio a toda esta chamativa e colorida inovação, no entanto, um produto bastante mais modesto e discreto conquistava o coração dos jovens portugueses com o seu conceito simples, mas verdadeiramente eficaz.


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Não, não são alucinogéneos encapotados...apenas guloseimas para crianças.


Falamos dos vulgarmente chamados 'chupa-chupas azedos', que consistiam, precisamente, do que esse nome poderia fazer adivinhar – nomeadamente, um vulgar chupa-chupa de fruta sobre o qual era polvilhado um pó de gosto marcadamente acre, o qual se misturava com a doçura da base para criar uma experiência gustativa única e demarcada, que qualquer pessoa que tenha alguma vez provado um destes doces certamente recordará de imediato. Mais – além de bem conseguida, a combinação em causa afirmava-se também como algo 'viciante', levando a que os 'chupas azedos' se tornassem parte integrante da rotina quotidiana de muitas crianças e jovens em finais dos anos 90 e inícios do Novo Milénio – entre os quais se conta o autor deste 'blog', que, nos primeiros anos do século XXI, encetava 'romarias' diárias à tabacaria ao lado da escola secundária em busca da referida guloseima.


A boa notícia é que, ao contrário de muitos dos produtos de que falamos nesta rubrica, continua a ser possível às crianças e jovens actuais viver em 'primeira pessoa' esta experiência, já que os 'chupas azedos' continuam até hoje a ser comercializados, sendo apenas preciso saber onde procurar. Resta saber se a combinação de sabores única e própria destas guloseimas fará tanto sucesso junto das gerações 'Z' e 'Alfa' quanto conseguiu no tempo das suas antecessoras – embora, ao contrário da maioria das outras circunstâncias que vimos abordando nesta e noutras rubricas, é de crer que tal seja o caso, já que a junção doce-azedo é suficientemente universal e intemporal para continuar a agradar a papilas gustativas de tenra idade...

Em Memória de Jorge Palma (1950-2026)

Nas primeiras horas do dia 21 de Setembro de 2026, o p anorama musical nacional ficava mais pobre após dizer adeus a mais um dos seus ídolos...